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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

ACTO QUINTO.

Reading edition

SCENA I.

Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião.

JUPITER.

Quem he o tão atrevido, Que aqui ousa de fazer Tão revoltoso arruido Com meus moços, sem temer, Que fui sempre tão temido? Quem aqui faz união, Toma mui grande despejo.

BELFERRÃO.

Oh grande admiração! Vejo eu outro Amphitrião, Ou he sonho isto que vejo?

SOSEA.

No mirais la encantacion, Que aquel hizo á mi Señor? El que sale, Belferron, Es el cierto Amphitrion, Que estotro es encantador.

JUPITER.

Sósea?

SOSEA.

Mi Señor, ya vó.

JUPITER.

Patrão, só por vós espero. {372}

SOSEA.

No os lo dicia yo, Que este era el verdadero, Y esse que allá queda, no?

AMPHITRIÃO.

Bargante, aonde te vás? Fazes teu Senhor sandeu? Pois espera, e levarás.

JUPITER.

Ó lá, tornae por detrás, Não deis no moço, que he meu.

AMPHITRIÃO.

Vosso?

JUPITER.

Meu.

AMPHITRIÃO.

Póde isto haver, Que outrem minhas cousas tome? Vós galante haveis de ser, O que me tomais o nome, Casa, moços e mulher. Eu vos farei conhecer Com quem tendes esse trato.

JUPITER.

Sósea?

SOSEA.

Señor.

JUPITER.

Vae dizer, Que apparelhem de comer, Em quanto este doudo mato. {373}

BELFERRÃO.

Oh Senhor, não seja assim, Haja em vós concêrto algum! E senão, pois aqui vim, Farei que só tome em mim Os golpes de cada hum.

JUPITER.

Patrão, vossa boa estrella Me fara deixar com vida Quem me não merece tella.

AMPHITRIÃO.

Não a tenho eu merecida, Pois que vos deixo com ella.

BELFERRÃO.

O homem que for sisudo, N'huma tão grande questão Ha de tomar por escudo A justiça, e a razão; Que estas armas vencem tudo. E pois essa natureza Muitos homens faz iguais, Dê qualquer de vós signais De quem he, para certeza Da fórma que ambos mostrais.

JUPITER.

Sou contente de mostrar Polos sinaes que vos dou, Que são estes sem faltar.

AMPHITRIÃO.

Que sinaes podeis vós dar, Para que sejais quem sou? {374}

JUPITER.

Estes, que logo vereis Se são vãos, se de raiz. Patrão, vós sêde juiz, Que vós logo enxergareis Qual mais verdade vos diz.

BELFERRÃO.

Eu não sinto onde consista A cura desta doença, Que ha tão pouca differença, Que aquelle em que ponho a vista, Por esse dou a sentença. Mas, Senhor, vós que ordenastes Que o juiz disto fosse eu, Quando se a batalha deu, Dizei, que m'encommendastes Que ficasse a cargo meu?

JUPITER.

Dei-vos cargo, qu'estivesse Toda a Armada a bom recado, E, se mal nos succedesse, Que para os vivos houvesse O refugio apparelhado.

BELFERRÃO.

Ora vós quantos dobrões Esse dia m'entregastes?

AMPHITRIÃO.

Tres mil; e vós os contastes.

BELFERRÃO.

Ambos sois Amphitriões Pelos sinaes que mostrastes. {375}

JUPITER.

Para ser mais conhecida A tenção deste sandeu, Vêde est'outro sinal meu, Que he neste braço a ferida Que me ElRei Terela deu.

BELFERRÃO.

Mostrae vós, Senhor, tambem.

AMPHITRIÃO.

Aqui o podeis olhar.

BELFERRÃO.

Oh cousa para espantar! Que ambos a ferida tem D'hum tamanho, em hum lugar!

SCENA II.

Jupiter, Amphitrião e Sosea.

SOSEA.

Dice mi Señora Alcmena Que no se ha de así de estar Con un bobo á razonar, Que se le enfria la cena.

JUPITER.

Belferrão, vamos cear.

AMPHITRIÃO.

Belferrão, não me deixeis. Como? tambem me negais?

JUPITER.

Andae, não vos detenhais, {376} Vamos comer, se quereis, Não ouçais hum doudo mais.

AMPHITRIÃO.

Ah maos! assi me ordenais Offensa tão mal olhada? Eu farei, se m'esperais, Com que todos conheçais Os fios da minha espada.

JUPITER.

As portas prestes fechemos, Não entre este doudo cá.

SOSEA.

De fuera se dormirá: Entre tanto que cenemos, Puede pasearse allá.

SCENA III.

AMPHITRIÃO só.

Oh ira para não crer, Em que minh'alma se abraza, Que me faz endoudecer, E não me ajuda a romper As paredes desta casa! E porque? Não tenho eu Forças, que tudo destrua? Pois que tanto a salvo seu, Outrem acho que possua A melhor parte do meu; Eu irei hoje buscar {377} Quem me ajude a vir queimar Toda esta casa sem pena, Donde veja arder Alcmena, Com quem a vejo enganar.

SCENA IV.

Aurelio e Moço.

AURELIO.

No hallo á mis males culpa, Para que merezca pena La causa que me condena.

MOÇO.

Essa está gentil desculpa Para hoje dar a Alcmena! Tẽe-no mandado chamar, E elle está tão descuidado!

AURELIO.

Moço, queres-me matar? Que desculpa posso eu dar Melhor qu'este meu cuidado?

MOÇO.

E não ha mais que fazer? Com isso a boca me tapa Para mais nada dizer?

AURELIO.

Ora dá-me cá essa capa E vamos ver o que quer: Não trates de mais razão, Pois não ha quem te resista. Que vejo? outra novação! {378}

MOÇO.

Que he?

AURELIO.

Ou me mente a vista, Ou eu vejo Amphitrião.

MOÇO.

Eu ouvi a Feliseo, Quando cá trouxe o recado, Como elle era chegado, E quiz-me dizer que veo Do siso desconcertado.

AURELIO.

Isso quero eu ir saber, Pois que tal cousa se sôa.

SCENA V.

Aurelio e Amphitrião.

AURELIO.

Senhor, póde-se dizer Que a vinda seja mui boa?

AMPHITRIÃO.

Essa não póde ella ser.

AURELIO.

Porque não?

AMPHITRIÃO.

Porque he roubada Minha honra sem temor, E minha casa tomada, E vossa Prima enganada Por hum grande encantador. {379}

AURELIO.

Isso he certo?

AMPHITRIÃO.

E manifesto: E tudo tẽe ja por seu Adúltero e deshonesto: Tẽe-me tomado o meu gesto, E faz-lhe crer que sou eu.

AURELIO.

Contais hum caso d'espanto! E pois não podeis entrar, Defendei-me por em tanto, Que eu hei lá de chegar Para ver quem póde tanto,

SCENA VI.

AMPHITRIÃO só.

Se ver deshonra tão clara Me não tivera o sentido Totalmente endoudecido, Que gravemente chorára Ver tão grande amor perdido! E quando vejo a verdade Do nosso amor e amizade Desfeita com tanta mágoa Enchem-se-me os olhos d'ágoa, E a alma de saudade. Assi que quiz minha estrella, Para nunca ser contente, {380} Que agora, estando presente Viva mais saudoso della, Que quando della era ausente. Esta porta vejo abrir Com impeto demasiado, Que poderei presumir, Que vejo Aurelio sahir, Como homem desatinado?

SCENA VII.

Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea.

AURELIO.

Oh estranha novidade! Oh cousa para não crer!

BELFERRÃO.

Venho cego de verdade, Que não puderão soffrer Meus olhos a claridade.

SOSEA.

Oh triste, que vengo ciego Con rayos, y con visiones! Y destas encantaciones, Si nuestra casa arde en fuego, Han se de arder mis colchones.

AURELIO.

Vamos a Amphitrião Contar-lhe cousas tamanhas.

AMPHITRIÃO.

Que vai lá? que cousas vão? {381}

AURELIO.

Maravilhas tão estranhas, Que me treme o coração. Porque aquelle homem, que assi Tantos enganos teceo, Como era cousa do Ceo, Tanto qu'eu appareci, Logo desappareceo. E em desapparecendo Com ruido grande e horrendo, Toda a casa allumiou; E de arte nos inflammou, Que nos vimos acolhendo Do raio que nos cegou. Estes acontecimentos Não são de humana pessoa. Vós ouvis a voz que soa? Escutae, estae attentos; Vejamos o que pregôa.

JUPITER, de dentro.

Amphitrião, qu'em teus dias Vês tamanhas estranhezas, Não t'espantem phantasias, Que ás vezes grandes tristezas Parem grandes alegrias. Jupiter sou manifesto Nas obras de admiração, Que por mi causadas são: Quiz-me vestir em teu gesto, Por honrar tua geração. Tua mulher parirá {382} Hum filho de mi gerado, Que Hercules se chamará, O mais valente e esforçado, Que no mundo se achará. Com este, teus successores Se honrarão de serem teus; E dar-lhe-hão os escriptores, Por doze trabalhos seus, Doze milhões de louvores. E dessa illustre fadiga Colherás mui rico fruito: Enfim, a razão me obriga Que tão pouco delle diga, Porque o tempo dirá muito. {383}

{385}

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