REDONDILHAS. (continued 2)
Reading edition
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MOTE.
Vida da minha alma, Não vos posso ver: Isto não he vida Para se soffrer.
Voltas.
Quando vos eu via, Esse bem lograva, A vida estimava, Pois então vivia; Porque vos servia Só para vos ver. Ja que vos não vejo Para qu'he viver? Vivo sem razão, Porqu'em minha dor Não a poz Amor; Que inimigos são. Mui grande traição Me obriga a fazer Que viva, Senhora, Sem vos poder ver. Não me atrevo ja, Minha tão querida, A chamar-vos vida, Porque a tenho má. {136} Ninguem cuidará, Que isto póde ser, Sendo-me vós vida, Não poder viver.
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MOTE.
Coifa de beirame Namorou Joanne.
Voltas.
Por cousa tão pouca Andas namorado? Amas o toucado, E não quem o touca? Ando cega e louca Por ti, meu Joanne, Tu pelo beirame. Amas o vestido? Es falso amador. Tu não vês que Amor Se pinta despido? Cego e mui perdido Andas por beirame, E eu por ti, Joanne. A todos encanta Tua parvoice; De tua doudice Gonçalo s'espanta, E zombando canta: Coifa de beirame, Namorou Joanne. {137} Eu não sei que viste Neste meu toucado, Que tão namorado Delle te sentiste. Não te veja triste; Ama-me, Joanne, E deixa o beirame. Joanne gemia, Maria chorava, E assi lamentava O mal que sentia: (Os olhos feria, E não o beirame, Que matou Joanne) Não sei do que vem Amares vestido; Que o mesmo Cupido Vestido não tem. Sabes de que vem Amares beirame? Vem de ser Joanne.
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MOTE.
Se Helena apartar Do campo seus olhos, Nascerão abrolhos.
Voltas.
A verdura amena, Gados, que pasceis, {138} Sabei que a deveis Aos olhos d'Helena. Os ventos serena, Faz flores d'abrolhos O ar de seus olhos. Faz serras florídas, Faz claras as fontes: S'isto faz nos montes, Que fara nas vidas? Tra-las suspendidas, Como hervas em mólhos, Na luz de seus olhos. Os corações prende Com graça inhumana; De cada pestana Hum'alma lhe pende. Amor se lhe rende, E pôsto em giolhos, Pasma nos seus olhos.
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ALHEIO.
Verdes são os campos De côr de limão; Assi são os olhos Do meu coração.
Voltas.
Campo, que t'estendes Com verdura bella; Ovelhas, que nella {139} Vosso pasto tendes; D'hervas vos mantendes Que traz o verão; E eu das lembranças Do meu coração. Gados, que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendeis. Isso que comeis, Não são hervas, não; São graça dos olhos Do meu coração.
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ALHEIO.
Verdes são as hortas Com rosas e flores: Moças, que as régão, Matão-me d'amores.
Voltas.
Entre estes penedos Que daqui parecem, Verdes hervas crescem, Altos arvoredos. Vai destes rochedos Ágoa, com que as flores D'outras são regadas, Que mátão d'amores. Com ágoa, que cai Daquella espessura, {140} Outra se mistura, Que dos olhos sai: Toda junta vai Regar brancas flores; Onde ha outros olhos, Que mátão d'amores. Celestes jardins, As flores estrellas: Hortelôas dellas São huns seraphins. Rosas e jasmins De diversas côres, Anjos, que as régão, Mátão-me d'amores.
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ALHEIO.
Menina formosa, Dizei de que vem Serdes rigorosa A quem vos quer bem?
Voltas.
Não sei quem assella Vossa formosura; Que quem he tão dura Não póde ser bella. Vós sereis formosa; Mas a razão tem Que quem he irosa, Não parece bem. {141} A mostra he de bella, As obras são cruas: Pois qual destas duas Ficará na sella? Se ficar irosa, Não vos está bem: Fique antes formosa, Que mais fôrça tem. O Amor formoso Se pinta e se chama: Se he amor, ama, Se ama, he piedoso. Diz agora a grosa Que este texto tem, Que quem he formosa Ha de querer bem. Havei dó, menina, Dessa formosura; Que se a terra he dura, Secca-se a bonina. Sêde piedosa; Não veja ninguem Que por rigorosa Percais tanto bem.
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ALHEIO.
Tende-me mão nelle, Que hum real me deve. {142}
Voltas.
C'hum real d'amor, Dous de confiança, E tres d'esperança, Me foge o trédor. Falso desamor S'encerra naquelle Que hum real me deve. Pedio-mo emprestado, Não lhe quiz penhor: He mao pagador; Tendo-mo afferrado. C'hum cordel atado, Ao Tronco se leve; Que hum real me deve. Por esta travéssa Se vai acolhendo: Ei-lo vai correndo, Fugindo a grã pressa. Nesta mão, e nessa O falso se atreve, Que hum real me deve. Comprou-me o amor, Sem lhe fazer preço: Eu não lhe mereço Dar-me desfavor. Dá-me tanta dor, Que ando apos elle Pelo que me deve. Eu de cá bradando, Elle vai fugindo; {143} Elle sempre rindo, Eu sempre chorando. E de quando em quando No amor se atreve, Como que não deve. A fallar verdade Elle ja pagou; Mas ainda ficou Devendo ametade. Minha liberdade He a que me deve: Só nella se atreve.
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MOTE.
Dó la mi ventura, Que no veo alguna?
Voltas.
Sepa quien padece, Que en la sepultura Se esconde ventura De quien la merece. Allá me parece, Que quiere fortuna Que yo halle alguna. Naciendo mesquino, Dolor fué mi cama; Tristeza fué el ama, Cuidado el padrino. Vestióse el destino {144} Negra vestidura, Huyó la ventura. No se halló tormento, Que alli no se hallase; Ni bien, que pasase, Sinó como viento. Oh qué nacimiento, Que luego en la cuna Me siguió fortuna! Esta dicha mia, Que siempre busqué, Buscándola, hallé Que no la hallaria; Que quien nace en dia D'estrella tan dura, Nunca halla ventura. No puso mi estrella Mas ventura em min: Ansí vive en fin Quien nace sin ella. No me quejo della; Quéjome que atura Vida tan escura.
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MOTE.
Vida de minha alma.
Volta.
Dous tormentos vejo Grandes por extremo: Se vos vejo, temo, {145} E se não, desejo. Quando me despejo, E venho a escolher, Temendo o desejo, Desejo temer.
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CANTIGA ALHEIA.
Pastora da serra, Da serra da Estrella, Perco-me por ella.
Voltas.
Nos seus olhos bellos Tanto Amor se atreve, Que abraza entre a neve Quantos ousão vellos. Não sólta os cabellos Aurora mais bella: Perco-me por ella. Não teve esta serra No meio d'altura Mais que a formosura, Que nella se encerra. Bem ceo fica a terra, Que tẽe tal estrella: Perco-me por ella. Sendo entre pastores Causa de mil males, Não se ouvem nos vales Senão seus louvores. Eu só por amores {146} Não sei fallar nella, Sei morrer por ella. D'alguns, que sentindo Seu mal vão mostrando. Se ri, não cuidando Qu'inda paga rindo. Eu triste, encobrindo Só meus males della, Perco-me por ella. Se flores deseja Por ventura bellas, Das que colhe dellas Mil morrem d'inveja. Não ha quem não veja Todo o melhor nella: Perco-me por ella. Se n'ágoa corrente Seus olhos inclina, Faz a luz divina Parar a corrente. Tal se vê, que sente Por ver-se a ágoa nella: Perco-me por ella.
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ENDECHAS.
Vós sois huma Dama Das feias do mundo; De toda a má fama Sois cabo profundo. {147} A vossa figura Não he para ver; Em vosso poder Não ha formosura. Vós fostes dotada De toda a maldade; Perfeita beldade De vós he tirada. Sois muito acabada De taixa e de glosa: Pois quanto a formosa, Em vós não ha nada. Do grão merecer Sois bem apartada; Andais alongada Do bem parecer. Bem claro mostrais Em vós fealdade: Não ha hi maldade, Que não precedais. De fresco carão Vos vejo ausente; Em vós he presente A má condição. De ter perfeição Mui alheia estais; Mui muito alcançais De pouca razão. {148}
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ENDECHAS.
Vai o bem fugindo, Cresce o mal co'os annos, Vão-se descubrindo Co'o tempo os enganos. Amor e alegria. Menos tempo dura. Triste de quem fia Nos bens da ventura! Bem sem fundamento Tẽe certa a mudança, Certo o sentimento Na dor da lembrança. Quem vive contente, Viva receoso: Mal que se não sente, He mais perigoso. Quem males sentio, Saiba ja temer; E pelo que vio Julgue o qu'ha de ser. Alegre vivia, Triste vivo agora; Chora a alma de dia, E de noite chora. Confesso os enganos De meu pensamento: Bem de tantos annos Foi-se n'hum momento. Meus olhos, que vistes? Pois vos atrevestes, {149} Chorae, olhos tristes, O bem que perdestes. A luz do sol pura Só a vós se negue; Seja noite escura, Nunca a manhãa chegue. O campo floreça, Murmurem as ágoas, Tudo me entristeça, Cresção minhas mágoas. Quizera mostrar O mal que padeço; Não lhe dá lugar Quem lhe deu comêço. Em tristes cuidados Passo a triste vida; Cuidados cansados, Vida aborrecida. Nunca pude crer O que agora creio: Cegou-me o prazer Do mal que me veio. Ah ventura minha, Como me negaste! Hum so bem que tinha, Porque mo roubaste? Triste fantasia Quanta cousa guarda! Quem ja visse o dia, Que tanto lhe tarda! Nesta vida cega {150} Nada permanece; O qu'inda não chega, Ja desaparece. Qualquer esperança Foge como o vento: Tudo faz mudança, Salvo meu tormento. Amor cego e triste, Quem o tẽe padece: Mal quem lhe resiste! Mal quem lhe obedece! No meu mal esquivo Sei como Amor trata: E pois nelle vivo, Nenhum amor mata. {151}