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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12)

MANIA E HYPOCONDRIA

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Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos parentes e amigos que o enterrassem, porque o seu corpo começava a apodrecer. Tres vezes, dentro d'um anno, o atacou semelhante mania. Amortalharam-no, e fingiram que o levavam ao cemiterio; porém, no caminho, estavam uns homens pactuados com os parentes á espera do sahimento; e, quando a tumba ia passando, começaram a dizer em voz alta:

—Ora graças a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco, aquelle biltre, aquelle perversissimo scelerado!

O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e respondeu:

—Canalhões! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas, para vos ensinar a não ter má lingua; infelizmente estou morto; e os mortos não se vingam.

Replicaram os homens que não lhe tinham medo, e desafiaram-no renovando as injurias.

Então o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraçou-se da mortalha, e correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e tantos lhes pregaram na cabeça que lhe pozeram fóra de lá a idéa que o atormentava.

O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e, porque havia tres dias que jejuava, comeu á tripa fôrra.

Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um livro scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em França. É a Hygiene das dôres, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao mesmo tempo que nos illustram, alegram a gente com estas passagens que não são vulgares entre os maniacos portuguezes.

* * *

Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e resolveu nunca sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se quer; mas soffria horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de morte affrontosa; estava ulcerado e gangrenado; pedia que o não atormentassem, etc.

Fez quanto pôde para se curar; consultou os somnambulos mais acreditados; encarapuçou-se com um barrete encerado; tomou banhos egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia: tudo inutil. Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a gente, fez-lhe mal a elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou preparados de ferro, de cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o cachundé chinez, o talekamapala dos selvagens americanos, e nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu á escova electrica, ao restaurador da vida. Tudo em vão. Parece incrivel uma cousa tão verdadeira!

A conversação d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto: a sua molestia. Se alguem consegue distrahil-o por momentos, esquece-se o homem dos seus atrozes flagicios.

Indo o medico visital-o uma manhã, queixava-se elle de que não podia estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que sentia, estendia a perna.

—Então o senhor que mais quer?—perguntou o medico.

—Valha-me Deus, queria fazer isto!—e levantava a perna com a maior presteza e facilidade.

O medico desatou ás gargalhaadas; e o doente, cahindo em si, riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro ás lamurias.

D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia como quatro), e de se estar marasmando.

Ora, o homem tinha tão boas côres e tão proeminente abdomen que o medico não pôde suster o riso. O doentinho, affrontado pela galhofa do medico, pediu explicações.

—Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga—disse o medico.

—É verdade!—disse pasmadamente o enfermo—é verdade! eu não tinha reparado.

E ou por estar convencido ou por imitação, riu-se tambem com o medico.

—

Este livro da Hygiene das dôres não é dos mais imprestaveis no catalogo da bibliotheca medica. Ha molestias nervopathicas que se modificam pela explosão das lagrimas, outras pelo espirro, e algumas pelas convulsões do riso.

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