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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12)

III

Reading edition

Elle (l'histoire) enseigne qu'une âme pêse infiniment plus qu'un royaume, un empire, un système d'états, parfois plus que le genre humain.

De quel droit? du droit de Luther, qui, d'un Non dit au pape, à l'Eglise, à l'Empire, enlève la moitié de l'Europe.

Du droit de Cristophe Colomb, qui dément et Rome et les siècles, les conciles, la tradition.

Du droit de Copernic, qui, contre les doctes et les peuples, méprisant à la fois l'instinct et la science, les sens même et le témoignage des yeux, subordonna l'observation à la Raison, et seul vainquit l'humanité.

MICHELET.

Levantei-me cedo para esperar o carrasco.

Luiz «o Negro» nascera no lugar de Capelludos d'Aguiar, freguezia de S. João Baptista, e comarca de Villa Pouca de Aguiar, a sete de maio de mil oitocentos e seis.

Entravamos, então, n'uma das mais dolorosas épocas da nossa historia moderna. Adejavam por sobre a peninsula as aguias do imperio, e rasgando o vôo iam penetrar nas nossas fronteiras. Queria o ambicioso da Corsega, como um dos conquistadores do paiz da aurora, açoutar as vagas indomitas e enfurecidas do oceano nas extremas do occidente.

Napoleão ia decretar, no seu olympo de Fontainebleau, que a dynastia de Bragança cessára de reinar, e sentia-se já, pelo silencio da noite, o ruido pavoroso da marcha compassada dos legionarios das Gallias.

Se os Braganças, como os patricios da velha Roma, tivessem esperado o Brenno moderno, sentados nas cadeiras curues, na omnipotencia augusta do Lacio!...

Não esperaram! Fugiram apavorados e... nervosos, para além do Atlantico. Deus lhes perdôe.

Chego a crêr—o Eterno se amerceie de mim se erro—que esta absurda e ephemera conquista foi a alvorada da liberdade em Portugal.

Receio pouco que me alcunhem, agora, de jacobino ou afrancezado. O anathema actual macúla, fere e extermina sómente, n'estas horas d'angustia afflictiva e demorada para toda a democracia europêa, os alcunhados defensores, aqui, da fusão iberica e do cantonalismo peninsular. Para todos os outros heresiarchas ha perdão nos amplos recintos da politica orthodoxa. Os Mac-Mahons e Serranos nasceram para edificação das monarchias. Substituiram os Lafayettes e Monks de todos os tempos.

Para serem apedrejados e expostos ás ignaras vaias da multidão temos nós Victor Hugo e Garibaldi no nosso seculo.

Christo, em Jerusalem, antes de suppliciado, percorreu as ruas vergando sob o lenho do seu proprio supplicio.

Assim seja—até que o verbo esplendido da democracia surja como luzeiro da redempção da humanidade.

Os phariseus de todas as épocas teem sempre uma accusação adrede, para extinguirem a luz da alma nos homens do futuro.

É antiquissima e vetusta usança injuriar os espiritos elevados e prescientes de todos os tempos, infamando-os com os epithetos, que o seculo detesta e abomina, para os crucificar, sem dôr nem piedade, e entregal-os, depois, á irrisão da gentalha, e á execração immorredoura dos vindouros.

É esta a lenda de Christna e de Bouddha no Oriente, de Socrates em Athenas, dos Gracchos e de Spartaco em Roma, de Christo e dos apostolos em Jerusalem, de João Huss e de Jeronymo de Praga na Allemanha, de Savonarola em Florença, e de todos os reformadores da humanidade—desde Abel, se aceitamos o mytho biblico, até ao ultimo pastor das Cevennas, e até ao derradeiro Karl Marx das sociedades modernas.

Convem estudar a época em que nasceu o carrasco.

Depois o ouviremos.

Os tres estados eram a base da nossa organisação politica e social: clero, nobreza e povo. Todavia, elementos preponderantes eram os dous primeiros. Vivia e medrava o povo como machina. Trabalhava, suava e mourejava para alimentar e enriquecer o sacerdocio e a nobreza. Nas horas de perigo, no momento das grandes luctas apparecia como comparsa, enfileirava-se nos córos das supremas tragedias, e morria na obscuridade de legião, no completo desprezo da sua insignificancia. Acclamava o mestre de Aviz, cahia desconhecido e ignorado nos areaes d'Africa, passava desapercebido, para as chronicas, nos galeões da India, e nos recontros e batalhas figurava pela força numerica, como hoje se designam nos mappas de brigada as forças vivas de qualquer regimento ou batalhão. Afóra estes lances era a plebe, era a villanagem, era a mó do povo, era a peonagem, era o numero.

Na vida campestre emparelhava com o boi, dormia ao lado do rebanho, inventariava-se entre as alfaias da officina rural—era a força empregada no impulso da enxada, era o guia do arado, era, finalmente, a machina, que desbravava a charneca, que enxugava o paúl, que roçava o matagal basto e espesso, que Semeava o terreno lavrado pelo seu esforço, e que, mais tarde, colhia e arrecadava o fructo.

Na sociedade urbana era o operario—mal ensinado, parcamente retribuido, entregue a si e aos seus proprios e escassos recursos, sem lição, sem exemplos, sem estimulos, sem auxilio, e sem mercado vasto e animado para os productos da sua industria.

O commercio de grosso tracto, monopolisado entre algumas dezenas de capitalistas e armadores, vivia fóra da acção productiva do paiz, como n'um eden de bemaventurança, onde a entrada era vedada a profanos.

Desde a casa da India até á casa dos vinte e quatro era longa a historia das prerogativas e privilegios de classe n'esta nação algemada—exclusivismo absurdo da mais inexperiente e ignara administração politica, economica e social.

E o povo vivia assim—submisso e reverente—porque as misericordias, irmandades, e ordens monasticas de todas as categorias e religiões adoçavam a miseria publica com o caldeirão da sopa fradesca, generosamente offerecido na portaria do mosteiro. Ensinava-se oficialmente um povo inteiro a ser mendigo. Era esta a vida economica e social de toda a peninsula.

Decretava-se a mendicidade como dogma. Eram o pauperismo, a ociosidade e a degradação humana nobilitados pela Igreja. E nos amplos e lageados claustros e escadarias do cenobio havia aula publica de abjecção, de humildade ignobil, de torpe vagabundagem e de crimes até. O fanatismo religioso nunca desadorou a Calabria, a Floresta negra, e a Serra-Morena. Que o digam as offertas ás madonas de Italia.

Viviamos assim.

E por isso os nossos monarchas se appellidavam fidelissimos perante a curia do Vaticano, e gozava de pragmaticas rituaes a Igreja lusitana, que só eram permittidas na sé apostolica de Roma.

Com as fogueiras da inquisição e a esmola aviltante, distribuida no peristylo do templo, alcançáramos tudo: destruiramos e aniquiláramos a raça heroica da peninsula ibérica.

Louvado seja Deus! A expulsão de judeus e mouros, a fogueira inextinguivel do catholicismo, e a esmola aviltante e hypocrita d'um clero hediondo, devasso e fanatico, assemelhava-nos, na torpeza, no aviltamento, e no cretinismo da fórma ás colónias jesuiticas do Paraguay.

A semelhança das evoluções communaes, que, pouco a pouco, foram erguendo e levantando o poderoso collo da burguezia em toda a Europa—quiz o marquez de Pombal, nos vastos designios da sua potente administração, crear e estabelecer, aqui, a classe média.

Baldado empenho.

A morte do ministro valido de D. José I deixou, em profunda anemia, o vigoroso e energico elemento social, que elle intentára crear.

Expulsáramos os sarracenos tão tarde, organisáramo-nos, como nação, em época tão proxima, que sem termos soffrido os vexames do feudalismo, não creámos, tambem, a classe, que mais arcou com elle, e que o assoberbou e venceu.

Temos sido sempre o echo remoto e longiquo das luctas sociaes, politicas e economicas da Europa.

Ao passo que a communa, originada no municipio romano, sahia das trevas da meia idade, depois das cruzadas e das luctas feudaes dos grandes vassallos, caminhando tenazmente por entre os recifes dos direitos senhoriaes e do poder real até chegar, em França, á revolução de 1789, e affirmava, sem mais contestação possivel, os legitimos direitos do terceiro estado—entre nós a burguezia, a classe média foi sempre uma creação ephempra, uma entidade sem solidez nem significação valiosa, e tanto assim que, depois das luctas constitucionaes, quando triumpharam alguns dos principios liberaes, pouco a pouco, a parte mais opulenta, mais rica, mais dinheirosa d'essa creação ficticia ennobreceu-se, afastou-se com desdem e desprezo da sua propria classe—se classe era—buscando no luzimento e esplendor das armarias e librés um marco divisorio, que a separasse para todo o sempre dos seus irmãos no trabalho. E os grupos restantes, menos abastados, menos felizes, e menos poderosos, pelos haveres, mergulharam, por instincto, educação e costumes, no seio da plebe onde existem e jazem, quaesquer que sejam as vaidades com que pretendam esconder esta communhão de interesses, habitos e sentimentos.

É doloroso dizel-o, mas embora: aceitemos os acontecimentos como são. A revolução de 1832 e 1833 em Portugal, em presença da sciencia, não só não foi uma revolução social, mas nem sequer foi uma profunda revolução politica em todo o rigor do vocabulo.

Foi uma guerra de successão a um throno contestado por dous irmãos, que se reputavam ambos legitimos, cercados de partidarios com interesses e direitos offendidos, e em que um dos pretendentes—o mais habil, senão o mais feliz—soube crear sympathias heroicas e indestructiveis dedicações, appellando para a corrente das idéas do seu seculo, e alcançou captivar as almas generosas, outorgando uma carta constitucional, simulacro de liberdades, que não prenderam nem limitaram—como o não tem feito—o exercicio constante e absoluto do poder e governo pessoal.

Podem-me contestar uma tão resumida e rapida exposição. Os factos, porém, não deixarão desmentir estas verdades.

Nas luctas de 1833 achava-se a nobreza antiga, a nobreza de sangue dividida nos dous campos, pelejando em fileiras diversas, e por vezes inimiga no seio dos proprios solares. Todavia não era a diversidade de crenças, nem a sinceridade das convicções, que a traziam, assim, desavinda e odienta. Era o egoismo dos interesses perdidos, era o ciume do valimento ou o odio pelos desprezos da corôa, era o orgulho de preeminencias e prerogativas nas familias titulares, eram as desconsiderações dos seus pares, sentidas, e cuidadosamente legadas, que iam passando, no mysterio dos tombos e cartorios, com a successão dos vinculos por diversos reinados, eram vinganças sumidas e occultas por entre os pergaminhos de raça, e todas estas ruins paixões, todas estas heranças em que o amor proprio e a soberba dos avós, que se transmittia aos netos, achou, na lucta dos dous principes, respiradouro por onde se expandisse e rebentasse a explosão.

Foi assim.

Como casta, as crenças eram as mesmas. Se a palavra augusta de crença póde ter cabida onde se falla de orgulho inexoravel, de implacaveis interesses, e onde germina o desprezo inveterado e profundo por tudo e por todos, que não descendem d'avós, já nobilitados, nos seculos undecimo e duodecimo da nossa modernissima monarchia.

Os reis podem fazer nobres, mas não teem poder para crear fidalgos.» Estas palavras, nascidas da orgulhosa colera d'um adversario puritano da fórma politica actual, explicam á nobreza moderna—se ella sabe meditar—como são sinceros e affectuosos os afagos e blandicias com que a antiga aristocracia a trata e recebe. Fica escripto por uma vez: o ultimo filho segundo d'uma casa secular, ainda o mais empobrecido, e o mais privado de intelligencia, será sempre estimado, pela sua casta, acima de todos os genios, e de todas as illustrações do seu seculo.

Foi a experiencia, talvez, d'estas justas considerações, que, nos salões de Luiz XVIII, levou um dos mais illustres marechaes do imperio a dizer a um fidalgo do exercito de Condé: «Eu sou o meu proprio antepassado.»

A nobreza antiga, com excepções rarissimas de que me não occupo agora, queria liberdades e garantias—queria; mas exigia-as dentro do circulo da sua casta, requeria-as para si e para os seus.

Fóra d'esta linha divisoria, d'este limite sagrado só via a plebe. Direitos, faculdades e poderes originavam-se no numero dos avós. Quem não tinha ascendentes conhecidos e nobilitados não era pessoa juridica, não era homem: vivia á mercê da misericordia infinita da nobreza. Triste situação era esta! Mas era assim.

Rezam as lendas ou as chronicas, que uma nobre dama da côrte dos Valois não escrupulisava despir-se diante dos seus lacaios, segundo o dizer de Brantôme. Que importava a sensualidade da gentalha! N'este esquecimento e desdem, pela plebe, vivia a aristocracia portugueza, na contemplação de si mesma, como o Zeus dos indus na vasta cosmogonia do Oriente.

O vulgo, a populaça era a machina posta ao serviço do fidalgo.

Terminada a lucta da successão começaram a recuar, nos seus esforços patrioticos, muitos dos nobres, que militavam nas fileiras populares.

Era de prevêr.

Os factos consummados tinham mais força do que todas as aspirações, e cegos desejos da nobreza—que se dizia liberal.

Espiritos pouco previdentes, por nenhuma fórma habituados a estudos sociaes, inexperientes em todos os actos da vida civil, creados no desprezo e desconhecimento do trabalho, que, accumulado, produz a riqueza publica, esperavam encontrar, na côrte do imperador, as tenças realengas, obtidas, pelos serviços, que só não são estereis para a lisonja, imaginavam conservar, como monopolio das suas casas solarengas, os cargos hereditarios, os empregos vitalicios, as patentes no exercito, sem habilitações obrigadas para as exercer, e os lugares privativos e rendosos em todas as ordens militares e religiosas.

A carta constitucional poderia tornar-se letra morta. Demais, a nobreza não tivera tempo para estudar foraes, nem cartas de alforria. A aristocracia estava habituada a vêr derogar leis do reino por provisões regias. Para alguma cousa deviam servir os poderes magestaticos.

Mas quando os acontecimentos vieram, nos primeiros assomos d'enthusiasmo, desmentir estas esperanças, e deram começo á obra de destruição das velhas instituições, em que andamos todos empenhados—foi, então, que se descerrou a venda de olhos tão poucos perspicazes, e a nobreza viu, com pasmo inaudito, que suppondo-se ella, só ella, o engenheiro, que dispára as catapultas, empregadas pelas facções—era, apenas, a singela alavanca, posta nas mãos dos homens do povo, e que estes apontavam e dirigiam a seu talante e sabor.

O clero, na sua maioria, na força viva da sua organisação—esse, não se deixou illudir.

Só podia estar ao lado da reacção—e, por isso, esteve.

E á medida que os factos se vão desenrolando, que novas crenças e novas idéas transformam as sociedades—o clero acompanha sempre os partidos retrogados, senta-se junto do passado, afaga-o, anima-o, protege-o, defende-o, por vezes alimenta-o, e arrasta-o, depois—até á vertigem e ao delirio.

Quando hirto e inanimado jaz como cadaver sepulta-o, na indifferença do mais torpe egoismo, e vem á beira do circo, onde se degladiam os homens, que outr'ora foram irmãos, e que as leis do progresso já dividiram em bandos oppostos—busca, ahi, a phalange reaccionaria, a que estacionou, a que receou caminhar, fascina-a, pela mesma fórma, apodera-se d'ella, envolve-a na infinita rede, e nos tenebrosos tramas do seu sinistro mysticismo, até que uma nova evolução social, por seu turno, despedace este elo historico, e o arremesse para a noite dos tempos.

É por isso que o povo, na grandeza dos seus instinctos, e nos periodos solemnes das suas transformações—quando as leis inexoraveis, que regem a humanidade o impellem e obrigam fatalmente a caminhar—encontra-se só, entregue ás suas proprias forças, e ao luzeiro do seu destino.

Os chacaes, as hyenas, e os corvos vem, depois, pela calada da noite, devorar, no silencio das trevas, os cadaveres dos que pereceram nos campos da peleja.

Mais tarde aboliram-se as communidades religiosas, annullaram-se as doações dos bens da corôa e ordens, quebraram-se todos os privilegios e collocações obrigadas na magistratura, na Igreja, na administração publica e no exercito, cercearam-se os lugares do paço, simplificaram-se as leis dos foraes, abriram-se tribunaes communs para todos os cidadãos, creou-se um systema uniforme de julgar, acabando com as provisões regias, fóros privativos, e decisões especiaes, finalmente a nobreza conservou os titulos e os cargos honorarios, mas ficou igualada em direitos e deveres a todos os outros homens.

O imperante perdera—pelo menos na apparencia—o moto proprio e a sciencia certa, com que representava a divindade, entregando aos poderes consignados, na carta, a harmonia da vida constitucional.

* * *

Quando o relógio da cadêa dava nove horas, entrava, no meu quarto, um fachina das salas do Limoeiro com o manuscripto do carrasco. Elle não podia vir. Sentia os primeiros symptomas da enfermidade de que morreu.

Escreveu-me um bilhete, que ainda conservo. Dizia-me que viria, mais tarde, saber o que eu pensava da sua vida tão dolorosa e tão angustiada.

Conservo o bilhete e o manuscripto.

Vou confiar ao leitor os segredos d'alma d'esta existencia excruciante e afflictiva, que pereceu no fundo d'uma enxovia.

VISCONDE DE OUGUELLA.

[29] Este e outros capitulos virão a lume, mais tarde, quando a occasião fôr opportuna.

Notes in this chapter

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