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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12)

FIM

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O n.º 12 finalisa a serie das Noites de insomnia. O favor publico esquivou-se a proteger esta empresa. Parte dos artigos publicados desagradou á maioria dos subscriptores queixosos do ranço de cousas antigas com que eu pejava as paginas de uns livrinhos mais acommodados ao recreio que á instrucção de alguns leitores mais ou menos ignorantes, se os ha.

Verdade é que eu não tinha promettido 100 paginas futeis e risonhas por mez. Lá está no 1.º numero um proemio claro e modesto. Afoutamente me desvaneço de não haver deslisado do programma a que me obriguei. Esta serie de livrinhos—escrevi eu—ha de ser uma cadêa com elos de bronze rijos e toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. O bronze é a porção prestadia do opusculo, etc.

Enganei-me.

As paginas arguidas de enfadonhas me pareciam a mim as melhores e mais estimaveis, se os que as leram as ignoravam; todavia, se eu dei como novidade em historia o que era já notorio ao leitor enfastiado, o seu tedio é natural e racional. Porém, se me replicam dizendo que se dispensam de saber as pulvereas velharias que eu lhes contei, augmenta a justiça do seu queixume; porque ninguem deve directa ou indirectamente offender a ignorancia de outrem.

Pelo quê, a todos peço desculpa, e a meu favor entremetto a illustre pessoa que me induziu a salvar da obscuridade lances da historia e dos costumes portuguezes, que se me prefiguraram prestantes na concatenação de factos, desligados por mingua de documentos desconhecidos. O mestre venerando que me moveu a não ser de todo em todo frivolo nas Noites de insomnia chamou-se n'este mundo D. frei Manoel do Cenaculo; e as palavras que me seduziram estão impressas e rezam assim:... Mil occorrencias funestas tem precipitado em um abysmo de perda profunda, escura, irrevogavel os trabalhos litterarios, e ainda a simples memoria de muitos varões sabios. Abateram esses miseraveis tempos as forças da curiosidade, que poderia hoje augmentar a estimação da bibliotheca lusitana, escondendo e perdendo as nossas noticias. Este é o defeito de que ainda hoje se póde formar uma justa queixa, e que fazem ignorados na verdade innumeraveis documentos, capazes de acrescentar a dignidade á nossa historia. Isto é tambem o que me excita e commove a rogar instantemente aos meus patriotas por tudo quanto é capaz e digno de não se desattender sem affronta, que se animem a publicar quanto nos faça gloria, e a mostrarem cada vez mais illustre a face dos nossos annos antigos.

O douto prelado não conhecia os seus patriotas, e eu, que tão arredado vivo d'elles, ainda os conhecia menos.

Na minha pequenissima livraria ha muitos ineditos cuja publicidade não seria despecienda aos porvindouros historiographos. Ahi ficam. Meus filhos, se tiverem juizo, e armarem á benemerencia dos seus conterraneos, que os vendam a peso.

Não obstante, alguns publicistas receberam benignamente as Noites. Entre esses, realça com particular authoridade e voto o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, protector caroavel e affectivo de quantos n'este paiz grangeam pão ou gloria nas lidas litterarias. Sei quanto me cumpre descontar no merito da obra elogiada, cortando tambem pela demasiada benevolencia do escriptor eminente; mas, cerceado o que ahi houve de favor, ainda me sobeja muito para gratidão e ufania.

Ao snr. visconde de Ouguella agradeço com mais sentimento que expressões as paginas formosissimas que interpoz n'estes opusculos. O Carrasco, apenas começado, se aqui fosse concluido, viria a dar crescido valor a esta collecção; entretanto, muito grato me é ter excitado a curiosidade das pessoas intelligentes para que o visconde de Ouguella se obrigue a escrever e publicar um dos livros mais assignalados de independencia austera e sentimentos generosos, que hão de ter galardão, quando os que pelejaram sob o labaro da justiça forem chamados a testemunhar no pleito que segue o seu arrastado processo entre opprimidos e oppressores.

* * *

Ao despedir-me dos poucos subscriptores que me apertam a mão com estima e por ventura com saudade, vou fazer-lhes uma revelação que póde desairar a minha vaidade de escriptor, mas que muito faz em honra do editor das Noites. Elle soube que a opinião publica desmentia, dormindo, o titulo da obra. Sabia que a insistencia na publicação lhe era prejudicial e desesperançada de tardio reembolso. Em fim, pagava despendiosamente e silencioso a minha dôce illusão de cuidar que entre Ponson e Escrich haveria lugar para estas brochuras nas estantes ou nas canastras de tanta gente que sahiu triumphal e erudictamente do seu exame de instrucção primaria.

Meu prezado snr. Ernesto Chardron, obrigado á sua rara e fina delicadeza!

Se as Noites lhe foram más, eu d'este leito de rheumatismo lh'as envio boas e do coração.

FIM DO 12.º E ULTIMO NUMERO

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