FIELDING
Reading edition
Quatro mezes antes de morrer, o visconde de Almeida Garrett, passeando em Lisboa, no cemiterio dos inglezes, com Francisco Gomes de Amorim, fallou assim ao seu extremoso amigo, defronte da inscripção tumular do romancista britannico Henri Fielding:
Tristissimo lance, se os filhos de tão estremecido pai mendigaram! Eram criancinhas quando elle morreu em Lisboa, no anno de 1754.
Forçado pela enfermidade a procurar o clima de Portugal, sahiu d'entre as caricias e lagrimas da esposa e filhos no dia 24 de junho de 1754.
A carta, que elle escreveu n'esse mesmo dia, e a ultima que deixou sentida e chorada na terra natal, dizia assim:
«Hoje quarta-feira, 24 de junho de 1754, nasceu o sol mais triste que eu vi em minha vida, e me já achou acordado na minha casa de Fordhook. Cogitava eu que, á luz d'esse sol, veria, pela derradeira vez, e diria o ultimo adeus, aos objectos queridos que eu amava com a ternura de mãi. Não me tinham ainda callejado as doutrinas da philosophia que me ensinára a supportar a dôr e desprezar a morte. Em tal situação, não podendo vencer a natureza, deixei-me vencer d'ella, que me subjugou como se eu fosse a mais fragil mulher. Pretextando consolar-me, induziu-me a ir gozar oito horas na companhia das minhas criancinhas, e com certeza, o que ahi soffri n'esse curto espaço excedeu todos os padecimentos da minha enfermidade. Ao meio dia fui pontualmente avisado de que me esperava a carroça. Abracei os meus filhos um por cada vez, e embarquei no carro com alguma resolução. Minha mulher que procedera com o verdadeiro heroismo de um philosopho, dado que seja ao mesmo tempo mãi extremosa, seguiu-me com a filha mais velha. Alguns amigos me acompanharam, e outros se despediram de mim, elogiando a minha coragem com louvores mui pouco merecidos.»
E não viu mais aquelle sol triste que se espelhára nas lagrimas de seus filhos!
Que importava o céo, e o sol, e a fragrancia de Portugal áquelle doente excruciado na solidão de Lisboa, por saudades dos seus, atormentadas pela desesperança de voltar a vêl-os! Se lhe não seria mais suave a morte, rodeado dos filhos, e com a mão já morta e ainda quente nos labios d'elles!
Pouco mais de tres mezes viveu. Expirou quando as folhas despegaram e fremiram seccas no chão, revolvidas pelo nordeste, aquella toada sinistra que faz pensar no gemer final dos moribundos a quem as primeiras nevoas congelaram o sangue no coração.
O seu ultimo dia foi o oitavo de outubro de 1754. Tinha quarenta e oito annos.
Não alcancei noticia do destino que tiveram os filhos de Fielding. Pobres sei eu que ficaram, porque seu pai, dado que os amasse muito, ou lhes não grangeou, ou era já tarde quando lhes quiz grangear o patrimonio.
Fielding achou-se uma vez com 1:500 libras, e uma propriedade que rendia 200, no condado de Derby. Montou carruagem, phantasiou librés de côres claras, que se renovavam de mez em mez, hospitalidade de principe, lautos banquetes, saraus, caçadas, a mais fidalga e desastrada imprevidencia, consoante ás tradições de seu avô o conde de Denbigh, e de seu pai o general Edmundo Fielding. No trajecto de tres annos, não tinha um palmo de terra, nem um schilling do patrimonio de sua primeira mulher.
Depois, aceitou o lugar de juiz de paz, especie de commissario subalterno de policia. Collocado em circumstancias proprias ao intento, começou a estudar as ladroeiras e a perseguir os ladrões. No entanto, escrevia novellas; e, gravando em eterno bronze o Tom Jones, creou o romance em Inglaterra.
Se a experiencia lhe fosse mestra e inspiradora, poderia, como escriptor, reparar as perdas de fidalgo. Tom Jones foi pago por 700 libras, e Amelia por 1:000.
Ás alegrias da gloria do ouro, seguiram de perto os rebates da morte. A vida estava gasta nos proprios desperdicios. A alma, no maximo esplendor das suas faculdades, requeria coração vigoroso onde fecundasse as grandes aspirações. Como prova da sua immortalidade, o corpo deperecia, os pulmões deslaçavam-se, e ella entre as regiões infinitas e as tristezas do quasi moribundo, lampejava ainda os derradeiros clarões da Viagem a Lisboa, em que Fielding chorou e sorriu, mesclando aos impetos da satyra os mais desconsolados quebrantos da amargura.
Quando fordes ao cemiterio dos Cyprestes, attentai n'aquelle tumulo, pensai em tudo que é triste; mas não lhe rezeis pela alma, que essa está irremissivelmente condemnada. Henrique Fielding não era dos nossos, não era catholico. Que pena!
[26] Archivo Pittoresco, tom. III, pag. 140.