SE O POETA BERNARDIM RIBEIRO FOI COMMENDADOR
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Ha bastantes annos que eu sahi com este repto aos biographos do author das Saudades:
«O meu parecer é que Bernardim, e tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S. Jorge da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra, para Lisboa, senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para Saboya. Corre-me obrigação de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão encontrado com o de doutos investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque não cabe n'este genero de escriptos grande cavar em terra d'onde o que sahe, para o commum dos leitores, é pedregulho.
Em primeiro, tenho como provavel que Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz elle:
Quando as fomes grandes foram, Que Alemtejo foi perdido, Da aldêa que chamam Torrão Foi este pastor fugido: Levava um pouco de gado, etc.
E continúa:
Toda a terra foi perdida; No campo do Tejo só Achava o gado guarida, Vêr Alemtejo era um dó; E Jano para salvar O gado que lhe ficou, Foi esta terra buscar, etc.
«Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão—naturalidade que todos os biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro—em Lisboa no anno das grandes fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 5 de agosto de 1521, tinha sahido para Saboya.
«Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou o da morte de Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é plausivel, marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª diz:
Agora hei vinte e um annos, E nunca inda té agora Me acorda de sentir damnos... etc.
«Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do author da Bibliotheca Lusitana, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de grande porte. O Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao cerco de Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma explosão de polvora. (Veja a Chronica de D. Sebastião por D. Manoel de Menezes).»
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O snr. Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do Diccionario bibliographico, pag. 379, não aceita como bastantemente decisivos os meus reparos. Traslado as razões do insigne escriptor:
«O snr. Camillo Castello Branco, em uma nota do folhetim que com o titulo Dous corações guizados publicou..., não só põe em duvida, mas nega redondamente que Bernardim Ribeiro, author das Saudades, seja o mesmo a quem os biographos attribuem as qualidades de commendador, governador de S. Jorge da Mina, e amante da infanta D. Beatriz, etc. Salvo o respeito devido ao nosso... romancista e meu presado amigo, parece-me que o juizo definitivo que se haja de assentar sobre estes pontos depende ainda de ulteriores averiguações. Deixo-as a quem tiver por ellas o tempo e a paciencia que de presente me faltou.»
Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova da ordem de Christo e capitão-mór das naus da india, casado com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge.
Do poeta, que pertencia a familia nobilissima do Torrão, logo veremos que não se esqueceram os genealogicos contemporaneos.
Do seu homonymo, para quem Barbosa Machado facilmente usurpou a immortalidade do outro, sei o nome de paes, de avós e de filhos.
Era filho de Luiz Estevianes Ribeiro, criado e thesoureiro do infante D. Fernando (filho de el-rei D. Manoel) e fidalgo de sua casa. Nasceu em Lisboa, junto á ponte de Alcantara, na quinta da Rola, que D. João I dera a um de seus avós.
Casou com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes.
Assistiu á batalha de Alcacer-Quivir, e ficou captivo. Voltando ao reino, foi despachado capitão-mór das naus da India em 1589, como paga de ter votado a favor da successão de Philippe II, e n'esse mesmo anno teve a commenda de Villa Cova.
Se o poeta Bernardim Ribeiro tinha em 1522 os vinte e um ou vinte e dous annos que se inferem dos versos citados, orçaria em 1589 pela idade dos noventa, pouco viçosa para capitanear a frota da India.
Dizem que o Bernardim Ribeiro, poeta, deixára uma filha.
O Bernardim, commendador, deixou dous filhos e uma filha: Luiz, Manoel e D. Maria de Menezes.
Luiz Ribeiro Pacheco herdou a commenda de seu pai, e serviu-a em Ceuta. Casou com D. Catharina de Athayde, filha de Francisco de Portugal, e já viuva de Fernão Gomes Dragão.
Manoel serviu commenda em Tanger, e morreu solteiro.
D. Maria de Menezes casou com Luiz da Cunha, cognominado o Pequenino.
De Luiz Ribeiro Pacheco nasceu Bernardim Ribeiro Pacheco, fallecido antes de casar. Os haveres vinculados passaram para sua tia D. Maria de Menezes.
Temos ainda outro Bernardim (ou Bernardino) Ribeiro, que era o governador de S. Jorge da Mina, e sahiu abrasado do cerco de Mazagão em 1526, consoante a Chronica de D. Sebastião, por D. Manoel de Menezes.
Tres Bernardins andam, pois, fundidos no cantor da Menina e Moça, Deus sabe com que bullas em affinidades intellectuaes: parentes com certeza eram.
Se um dos tres amou a filha d'el-rei D. Manoel, de semelhante ousadia é justo censurar-se o poeta, embora d'ahi lhe promane a sua romantica immortalidade. Se o matassem na rua Nova os moços do monte d'el-rei, como dizem as Memorias ineditas de Diogo de Paiva de Andrade, a catastrophe assim contada no poema, no romance, ou na tragedia maiores realces daria ao desditoso provençal. Morrer assim, ou morrer commendador, e macrobio, como querem Garrett, e Costa e Silva e tantos outros engenhos atilados, são cousas diversissimas para a arte, que houver de assentar o pedestal do solitario bardo da serra de Cintra.
Mas a verdade é outra.
No principio do seculo XVIII ventilava-se uma questão de vinculos entre familias do Torrão que se assignavam Ribeiros e Mascarenhas, e appenso aos autos andava um instrumento antigo em que João Ribeiro, filho de Gonçalo Ribeiro, senhor de Aguiar de Neiva e Couto de Carvoeiro no almoxarifado de Ponte do lima, provava ser primo co-irmão de Bernardim Ribeiro, fidalgo principal e muito conhecido pelos seus versos intitulados Menina e Moça. O referido instrumento era passado em 1552, sendo já fallecido Bernardim Ribeiro.
Dos Mascarenhas, que venceram o pleito, era ascendente Manoel da Silva Mascarenhas, que servira em Tanger e nas armadas de Castella com o general D. Fradique de Toledo. Voltando a Portugal em 1640, foi um dos denunciantes da conjuração de 1641; e em premio d'isso o galardoou D. João IV com a alcaidaria da Torre de Outão, e ao mesmo tempo exerceu as funcções de guarda-mór da alfandega de Lisboa. Este Manoel da Silva Mascarenhas editou em 1645 as poesias do seu parente, mudando o titulo de Menina e Moça para Saudades de Bernardim Ribeiro.
D'este ramo não houve successão que hoje possa gloriar-se de parentesco remoto com o poeta. Manoel da Silva Mascarenhas foi casado com D. Garcia Pereira, filha de João Sodré, de Ourem; mas não deixou filhos legitimos. Teve dous bastardos: um mataram-lh'o em Setubal; do outro não fazem cabedal os linhagistas. Se o leitor e eu tivessemos pachorra, iriamos esquadrinhar a circulação sanguinea de nove ou dez gerações até encontrar globulos muito depauperados do sangue de Bernardim Ribeiro na familia Leites Pereiras de Mello, de S. João Novo, no Porto.
Mas um descobrimento de tão magna valia tanto importa á familia Leite Pereira, como ao leitor, como a mim,—um dos bons tolos que tem produzido a heraldica n'este seculo XIX!