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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12)

PREFACIO AO SONHO DO ARCEBISPO

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O correspondente lisbonense do Jornal da Manhã, indigitando o rastilho de futuras combustões no arranjo social das cousas portuguezas, malsina, sem nomeal-os, uns opusculos mensaes, onde se exhibem contra a casa de Bragança ineditos attribuidos falsariamente a arcebispos. Os opusculos accusados com injusta malquerença são as Noites de insomnia, e os manuscriptos arguidos de fraude são os dous innocentes dislates de um illustremente desgraçado talento, cujos autographos offereço a quem, na duvida, quizer examinal-os.

Em nenhum dos dous artigos (a Catastrophe, e D. Maria Caraca) é atacada a dynastia brigantina, e menos ainda a legalidade que assiste á testa coroada, com que mui jubilosamente me envaideço e sobremodo me honro, em nome do partido da ordem, cujo estandarte as Noites de insomnia, desde ora avante, desfraldam.

As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de Bragança, publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do esclarecido arcebispo;—são todas de minha lavra, e de minha responsabilidade perante os doutos. Todavia, se alguem me rastreia, n'esse lavor meramente historico, o insidioso plano de aluir o throno, sou obrigado a declarar que não se acham ainda bastantemente decisivas as minhas intenções a respeito de sua magestade, nem me parece que cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D. Luiz I. E, dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a casa de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo, por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de Coriolanos, Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos Pachecos. Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor referido, quando me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao mesmo tempo incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes alarmas, temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se occupa, braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se conhecem a pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até heroe no cairel da voragem, não lhe mettam espantos na alma com phantasmas; robusteçam-no para a provação, quando a hora troar, a hora maldita em que o povo açacala as garras, e golfa das tabernas com bramidos de leão. Se não querem prevenir as catastrophes, porque não ha prevenções contra a fatalidade, não se finjam previstos, pondo estas innocentes Noites a espreitar Cesar pelo olho esquerdo de Bruto.

Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando petroleo para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre jurisconsulto, depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus direitos ao ducado brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria contra a familia real, que era, pouco mais ou menos, a d'elle.

Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr. D. Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes da povoação d'aquella villa.

Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de Nerval pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario de vêr o invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem descamba da linha recta que vai desde o almoço até á cêa através do jantar, a razão humana desconfia d'elle. Se este homem suspeito, unicamente, lesa os seus interesses, chamam-lhe, com piedosa indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades, damnifica os interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a denominação ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu modo de escrever historia, philosophia e moral, se revela muito mais acerto, critica e sciencia que nos livros de uns homens que não se acham bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um rapto de luz que elle denominou:

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