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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12)

III

Reading edition

Quando, ha quinze annos, vim, pela primeira vez, a S. Miguel de Seide, conheci o abbade de S. P. de E***. Procurou-me, pedindo-me que lhe escrevesse uns versos funebres para a eça de uma senhora de casa illustre. Não comprehendi logo o destino dos versos. Explicou-me o abbade que a poesia, copiada em boa letra, seria pregada na eça, e assim exposta á contemplação do publico. Escrevi duas oitavas com mais sentimento do que as escreveria se conhecesse a defunta. Eis aqui como me relacionei com o egresso graciano, ligado á lenda d'aquella menina, que tivera um nome digno das trovas plangentes de poeta de soláos—Beatriz de Vilalva.

Cincoenta annos contava então o abbade. Rosto de saude e alegria. Poucas carnes; compleição fina, mas forte; raros cabellos grisalhos; trajo serio, limpo, elegante; maneiras polidas; dizeres sentenciosos; anecdotas chistosas, mas decentes; casos do seu convento; tradições ineditas do seu ex-conventual José Agostinho de Macedo, e d'outros cerdos que não deixaram tão illustre memoria a ensombrar obscuras infamias. Era optimo conversador o abbade, e revia, no seu fallar, alguns signaes de ter estudado applicadamente philosophia. Disse-me que fôra o primeiro estudante do curso, e que o snr. D. Miguel I, assistindo ao seu exame de logica, o premiára em publico com a medalha da sua real effigie. Bom avaliador e juiz! O snr. D. Miguel I foi grandemente entendido em logica: toda a gente sabe isto, não obstante me asseverar o abbade que sua magestade não estudara logica; mas premiava os martyres que a estudavam, a fim de animar os outros votados ao martyrio.

Com o lapso do tempo, relacionei-me com a familia herdeira da defunta que eu cantei ou chorei. N'esta casa vi algumas vezes o abbade, e outras na sua igreja. Aconteceu ir eu alli ser padrinho de uma criança d'aquella familia. Antecipei-me á hora dada. Detive-me a observar a residencia de padre João de Queiroz—silenciosa como um grande tumulo, com dous ciprestes á porta, com um rocio coberto de arbustos e herva espontanea a entestar na escada ingreme do sobrado. Tres janellas de rotulas fechadas e espessas. As paredes tapizadas de musgo e fetos a vegetarem das fisgas. Duas pombas pretas a arrulharem na cornija. Um pardal a sacudir as azas molhadas no beiral do telhado. E á volta d'isto o rumorejo dos pinhaes circumpostos.

Sentei-me no beiral do adro, a olhar para uma janella interior da residencia, e a scismar nos vinte e cinco annos que o abbade para alli trouxera, e nas noites e dias dos outros vinte e cinco alli passados, com resignação, e até com alegria, tão só e desatado dos agrados da companhia, e com tantos predicados para dar e receber na convivencia uma honesta felicidade! Quando esta meditação me estava enlevando áquella suave tristeza que faz os homens melhores e o fardo da vida mais leveiro, assomou um rosto de mulher na janella onde eu, sem intenção, fitára os olhos; e, apenas me viu, retrahiu-se tão de subito como se dentro tirassem por ella a repelão.

Isto abalou-me. A mulher parecera-me bonita; mas não ha que fiar nos conceitos da minha vista, que pouco alcança a curta distancia; quer, porém, fosse feia, figurou-se-me quasi bella: era o bastante para dar larga tela ao nebrí da poesia, que, lá do alto, crê vêr uma rôla onde ás vezes está uma cegonha.

N'este comenos, chegou o abbade, e a criança no collo da ama, e o pai com a madrinha, e o sacristão e as testemunhas, vindo todos da casa do meu compadre, onde inadvertidamente esperavam que eu fosse.

Finda a ceremonia, o abbade offereceu-me a sua casa por mera civilidade. Meu compadre acudiu logo, dizendo que nos esperava o almoço. Partimos para E***, e o abbade acompanhou-nos, depois de ter ido a casa despir a batina, e revestir-se aceadamente, de casaca preta com habito de Christo, collete de velludo, bota de verniz, e chapéo alto de brilhante sêda.

Em quanto elle se demorava, depois de almoço, no quarto de minha comadre, alegrando-a com apropositadas anecdotas—que as tinha para tudo—fui eu com meu compadre vêr o pomar de fruteiras peregrinas.

—Gosto muito d'este abbade—disse eu.—Parece-me um bom caracter, pela satisfação e alegre rosto com que se entrega á sua obscura missão, podendo com as qualidades que tem aspirar a melhor posição na vida ecclesiastica!

—Não quer. Affeiçoou-se a isto, e nunca mais d'aqui sahiu. Eu amo-o com ternura. Já foi elle quem me baptisou. Devo-lhe provas de profunda estima. Tem sido elle o anjo pacificador das desordens grandes que tem ameaçado a estabilidade da nossa familia.

—Verdadeiro pastor!—atalhei eu com sincero respeito. E acrescentei, passados instantes:—A senhora, que vive com elle, é sobrinha?

—A senhora?!—acudiu meu compadre.—Está enganado. Elle não tem mulher de casta nenhuma em casa. Vive com um criado velho, que já veio com elle em 1835.

—Perdão! eu vi hoje lá uma senhora na janella que diz para o pateo.

Riu-se meu compadre, e, remoqueando, ajuntou:

—O meu amigo, provavelmente, estava a idealisar castellãs na residencia que tem ares de castello arruinado, e figurou-se-lhe vêr uma sobrinha do abbade.

—Compadre—repliquei—eu sei quando vejo castellãs e sei quando vejo sobrinhas d'abbades. O senhor tem a certeza de que não ha mulher n'aquella casa?

—Tenho tanta certeza como estar eu com o meu amigo n'este pomar.

—Então, permitta-me dizer-lhe que o seu abbade é um patife.

—Ó compadre!... Um patife?!

—Ou dous patifes em um só abbade. Demonstro: se é sobrinha, e por tanto uma familiar licita e honesta, não havia razão para escondel-a, nem ella para se esconder rapidamente de mim: logo, não é sobrinha; e, se não é sobrinha, é... conclua vossê a demonstração. Que é a mulher que vive com um abbade, e não quer ser vista?

—Que imaginação! que romancista!—exclamou meu compadre—Desengane-se. Este homem póde ser que não seja o padre mais virtuoso, nem aspire a ser canonisado; mas mulher em casa nunca teve alguma, nem, ha vinte e cinco annos, alguem lh'a conheceu na freguezia ou fóra d'ella. Que mais quer que eu lhe diga?

—Que me creia; que se convença de que o seu abbade tem na residencia uma mulher; que esta mulher é bonita; que eu dava n'esta santa hora dous beijos...

—N'ella?

—Não, em vossê, se me descobrisse o mysterio d'aquella mulher, alli sequestrada do mundo, e absorvida toda na felicidade de um homem, que a esconde com tanta avareza, que os seus mais particulares amigos ignoram que tal creatura exista.

O meu compadre, feita uma longa pausa de reflexão, disse:

—Terá vossê razão!...

—Não é razão: é olhos. Juro-lhe que a vi.

—O que lhe posso dizer é que nunca entrei ao interior da residencia, nem pessoa alguma que eu saiba. Tem uma saleta onde era d'antes adéga, e onde recebe as pessoas que o procuram. Quando esteve, ha annos, doente, e precisava de medico, e de receber mais forçosamente quem o visitava, passou a cama para a saleta ao rez do pateo. Eu ia lá todos os dias, e nunca vi ao pé d'elle senão o criado; mas scismava com um rumor de passos no sobrado superior; e elle dizia-me que eram ratos.

—Eram ratazanas—corrigi eu.

—Pois seriam...—condescendeu o compadre, e prometteu esforçar-se por satisfazer a minha curiosidade.—Outra cousa,—disse-me elle quando iamos entrando em casa de volta do pomar.—Aqui vem todos os annos, em setembro, um rapaz estudante de Coimbra, que é sobrinho do abbade. Este rapaz dorme lá em cima. É crivel que elle, tão precavido com os outros, não escondesse a amante das vistas do sobrinho?!

—E quem nós diz a nós que o sobrinho não é filho, e que a amante não é mãi do tal rapaz?

—Onde isso já vai! Já vossê inventou prole ao homem para ter motivo para o segundo tomo do romance! Ora, meu amigo... Não me disse que ella era rapariga e bella?

—Rapariga, não disse.

—Note que o tal rapaz tem vinte e dous annos.

—E ella póde ter quarenta, e ser mãi, e ser ainda bella.

—Isso é verdade. Seja como fôr, estou picado. Hei de esgotar todos os recursos da minha espionagem; mas com uma condição: o que eu poder descobrir, dir-lh'o-hei; mas vossê não o divulgará, sob pena de me dar remorsos de publicar as fragilidades de um homem a quem devo as maiores finezas.

—Pois se receia que eu, levado do furor romantico, venha a assoalhar os MYSTERIOS DO SENHOR ABBADE, nada indague, e nada me diga. Eu sou um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorancia, contar a vida alheia. Antes quero não saber nada. Passe por cá muito bem o snr. abbade, e não perturbe vossê a paz d'essa familia, onde bem póde ser que as lagrimas tenham delido as maculas de muita culpa. Se elle é padre, tambem póde ser pai. Pater, pai, padre. E pater é pai, como diz, nas Odes modernas, o meu amigo Anthero do Quental. Fiquemos n'isto.

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