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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12)

INTRODUCÇÃO

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É dolorosa a tarefa.

São pungentes, tambem, as recordações.

Todavia a feição singular d'este nosso seculo exige imperiosamente estas luctas, e obriga-nos a estas pugnas, as mais das vezes, inglorias.

Seja assim.

Tão rapidamente se photographam, hoje, as metamorphoses dos apostolos, allucinam-se com tanta promptidão os espiritos, e desvairam-se as consciencias em tão loucas vertigens, que temos nós—nós, os exploradores obscuros, e audazes obreiros—de lidar e mourejar constantemente, para affirmar, a cada hora, estes principios sacrosantos, que consubstanciam, e determinam a religião do dever.

Ainda ha pouco, uma das mais esplendidas intelligencias da peninsula, rica de todas as opulencias d'este nosso sólo do occidente, marcada com o sello divino, precursora da boa nova, sentinella e espia vigilante das mais puras crenças em que se basêa a democracia, esqueceu, nos delirios que dá o mando e o poder, todas as inspirações, e toda a religião do povo—religião das massas, que, elevando-o, o engrandeceram e divinisaram—e, acommettido pelas vaidades pueris dos Nabuchos de todos os tempos, exilou, deportou, e fusilou como se fôra elle—elle, o tribuno das escolas e dos congressos—um duque d'Alva nas ferocidades das conquistas do imperio de Carlos V, ou um deploravel Telles Jordão, nascido para sicario de todas as reacções.

É triste, é lamentavel, é afflictivo, que o Demosthenes da peninsula hispanica, berço na actualidade da familia mais heroica da raça latina, deslembre e olvide, nas allucinações, que ensombram o fastigio do poder, principios inconcussos e sagrados, e venha dar senão razão, pelo menos pretexto a essas hordas barbaras de hunos, vandalos ou não sabemos se de bandoleiros, que atravessam e devastam as Vascongadas, a Navarra, e a Catalunha, missionando crenças, que seriam ridiculas e apenas abjectas, n'este seculo, se um rasto de sangue, de fogo, e de metralha não enchesse de terror e de luto as povoações por onde caminham e perpassam.

Não ha razão d'estado, não ha lei de salvação popular, não ha causa nenhuma, por mais ardilosa, machiavelica ou especiosa que seja, que consagre nunca, e em caso nenhum, uma offensa feita ás leis geraes por que se rege a humanidade.

A vida humana é inviolavel sempre, e para todo o sempre.

Errem os homens—embora!—Succumbam momentaneamente as idéas grandiosas de emancipação dos povos—resignemo-nos, e esperemos. Mas salvemos todos esta arca santa, este sacrario das mais nobres aspirações da democracia.

Dêmos ao sacer esto das doze taboas a unica e verdadeira interpretação das sociedades modernas.

Não votemos o criminoso, qualquer que seja o seu delicto ou a penalidade em que incorreu, aos deuses infernaes. Rehabilitando-o, votemol-o á sociedade, ás verdadeiras crenças, á familia, e á patria.

A Vida do homem é sagrada.

Como são sagrados todos os direitos absolutos, como é sagrado e mysterioso o fim do homem, como é sagrada, indescortinavel, desconhecida e insondavel a causa da existencia humana, a razão da vida harmoniosa do universo, o pensamento supremo, que presidiu a todos estes esplendores, que se formulam e desenrolam nas magnificencias da creação.

E é o homem, na pequenez da mais miserrima e limitada existencia, na ignorancia fatal das suas transformações futuras, nas trevas densissimas do seu porvir, que diz a outro homem—a um irmão seu, ao Abel da sua raça: «Eu mato-te, assassino-te, á face d'este sol esplendido, em presença de toda a creação, com a consciencia segura e tranquilla de que Deus me ouve, me vê, e me escuta, em nome d'umas leis que eu inventei, e escrevi,—por que eu, homem, pelo facto de ser legislador e juiz arvoro-me em carrasco, e rasgo e devasso consciencias, analyso e preso intenções, forjo e imagino crenças, e condemno em nome de Deus vivo, e da justiça absoluta de que me faço interprete, magistrado e saião!»

Crêmos firmemente que a misericordia divina alcança ainda estas sinistras e ferozes aberrações dos verdugos e dos algozes.

Perdoai a todos, Senhor, e quando o perdão da vossa infinita bondade, n'esses effluvios repassados de sentimento, como pai e creador, descer sobre nós, que a vaidade pharisaica, o orgulho ignobil de todos os sacerdocios, e de todas as theocracias, scepticismo inconsciente de todas as ignorancias, e a blasphemia perdoavel, nascida do desespero, e da miseria, achem, nas pregas do vosso manto d'esquecimento, lugar onde se abriguem, pela omnipotencia do vosso poder, e pela misericordia infinita dos vossos designios.

Que a religião do futuro seja um hymno de gloria, um hossana de perpetuo louvor, onde só a myrrha e o incenso subam aos vossos altares—e que as carnificinas humanas desde os homicidios nos dolmens dos deicidas até ás fogueiras do fanatismo catholico desappareçam e se extingam em presença do verdadeiro culto, que o ente humilde, e inconsciente da sua missão, na terra, presta á sublime causa, ao Ente que regula e dirige o universo.

VISCONDE DE OUGUELLA.

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