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Musa Velha

RAPHAELA

Reading edition

I

Era em março, e a Folia, dando o braço ao Carnaval, entrava em Dona Maria. Não sei que idea fatal me levou tambem á festa. Sei que fui. Sei que vestia dominó côr de giesta, e que a mascara, que ao rosto trago presa todo o dia, eu trocára, ébrio de gosto, por outra que não mentia.

II

Ia a noite em mais de meio quando os pés na sala puz. Os gritos, a dança, a luz que os novos encanta, e creio que mais os velhos seduz, tocaram-me o coração por tão estranha maneira, que a não ter ali á mão as costas d'uma cadeira, dava co'as minhas no chão. Persuadiam-me que a Sorte quer que o homem seja egual sómente perante a morte, e vi eu que o Carnaval tinha o mesmo poder forte! Junto a mim o sôr Sovela, disfarçado em lord inglez, trata por tu o freguez, que n'outro tu se nivela com quem as botas lhe fez. Ao longe o sujo vadio que, para impingir á gente um bilhete do Pão quente, corre a Baixa e o Rocio dando Excellencias a rodo, agora vestido á turca, turca por dentro elle todo, grunhindo sem tom nem som paga depois da mazurka ponche ardente a quem tem Dom. N'aquelle canto escondido o calvo e gordo marido ás moças falla d'amor; e como deve o traidor pela traição ser punido, n'outro canto anda a mulher a brincar co'o deus Cupido... dê o brinquedo o que dér! Cada flôr, rosa ou jasmim, com seu calix entreaberto embalsama este jardim, e ás abelhas que andam perto como que as oiço dizer: —Oh! Bebei dôce prazer que rendida vos offerto!— Isto é vida! Isto aqui, sim! que a humilde e santa egualdade o mundo mergulha emfim no sol da eterna verdade!...

III

«Boas noites, dominó.» —Só isso me dizes?— «Só. —Pois desde já te requeiro que ámanhã fiques na cama, e manda o teu travesseiro dar umas voltas por cá. Na chalaça, no epigramma, as lampas te levará.— «Quem de espirito é tão fino devêra ser mais cortez.» —Vestiu-se de peregrino a cortezia...— «Talvez d'essa longa romaria a que foi não voltaria!» —Assim parece. Não vês?!

IV

Quem me descobre a razão d'esta infame grosseria?... Consultando minha tia, disse-me ella:—És um ratão! Coisas tuas!...— «Coisas minhas?! Ora essa!» —De quem são? Se teu pae sem ter gallinhas te deu boa creação?!— Mais ainda me condemna ser a mulher que offendi segunda Venus de Milo! Que remorso o que eu senti, e que nó no gorgomilo, quando, absorto, o que era vi!... Que ao fallar olhei... Por Christo! juro que olhei sem ter visto.

V

Como usa a formosa filha da formosa Andaluzia, sob a elegante mantilha pelos hombros lhe caía de negro e farto cabello a madeixa ondeada e crespa. Na cinturinha de vespa... Alto lá! De vespa, não; que é corriqueira a figura e tola a comparação.— A cintura... Se lhe chamo só delgada—aqui d'el-rei! porque é prosa. Ah! Já sei. Delgadinha como um ramo que sustém duas laranjas... E da voz os sons tão finos com que os hei de comparar? Com voz d'anjos pequeninos, travêssos, loiros, meninos que andam no ceu a cantar, aos quaes não tira o chapeu este pobre filho d'Eva emquanto Deus o não leva a conhecel-os no ceu?!... Impossivel!... Pois com quê?... Deixe-se lá d'essas franjas, ruim poeta! Você não sabe que a natureza faz coisas de tal belleza que um homem, se logra vêl-as, ha de pasmado ficar, e pasmar... pasmar... pasmar; mas não tentar descrevêl-as?!

VI

Qual a timida gazella que no prado anda brincando estremece e foge quando sente rumor perto d'ella, assim Dona Raphaela... Podia chamar-lhe Jónia, Mathilde, Elisa ou Antonia. Era o mesmo. Á mulher bella todo o nome fica bem. Toma-lhe a graça, a frescura: participa da candura de su'alma... se é que a tem. Que a minha airosa andaluza como a gazella fugio, se o não disse a casta musa que me inspira, o leitor pio (não ha calemburgo aqui) certo de si para si a crêl-o não se recusa; mas o que o leitor ignora é que eu proprio, eu que ind'agora lhe dissera: Vae-te embora, ao vêl-a fugir fiquei triste, só, desamparado como o valido d'um rei quando cae em desagrado!... Ai! se o pensamento é vário mais varía o coração. Coração—Contradicção— affirma-me o diccionario que dois synonymos são.

VII

Amar depois que trinta annos nos pesam sobre o cachaço; quando os frios desenganos guias são do incerto passo que nos vae levando á campa; quando a edade a correr vem e nas faces nos estampa oitenta rugas, ou cem! amar sem crenças; amar sem possuir attractivos; é padecer, é penar dôres do inferno entre os vivos. Sabia-o; mas se fadado fôra eu já para essa dôr! e diz Garrett, o doutor em taes materias versado, que ninguem foge ao seu fado! Funesto foi sempre o meu! Est'alma, que Deus me deu, em quantos affectos nutre que devorou Prometheu!.

VIII

Da rósea estancia em que mora com seu limpido clarão, sorrindo, ao ceu vinha a aurora soltar do prégo as azelhas d'onde pende a escuridão sobre chaminés e telhas. A festival harmonia pouco e pouco esmorecêra; e co'a luz do novo dia d'outra oschestra a afinação mais altos cantos rompêra, pois que entre os rocios do orvalho levantára escopro, e malho, um hymno de gratidão ao Deus, author do trabalho. Este aranzel, espremido n'uma phrase clara e chã, quer dizer:—era manhã, e a solfa dos caldeireiros matava o bicho do ouvido na rua Augusta aos parceiros.

IX

Cheguei a casa. Quem ama tambem dorme o seu bocado; nem ha nada como a cama para amor ser bem tratado. Vêde as ratices do mundo! Sentados no mesmo throno amor, que é vida;—e o somno, que da morte é irmão segundo!... Em tão doloroso trance é praxe no bom romance surgir a pallida insomnia beliscando a cachimonia do que ás paixões não se poupa; mas eu, que sigo outra lei, fui-me enroscando na roupa, e dormi. Fiz mais: sonhei. Sonhei, sim. O que é sonhar? É fugir do captiveiro d'esta bola sublunar. A noss'alma, que gemia entre os ferros, encontrar a paz, o amor, a alegria, vivo, real, verdadeiro, o mundo da phantasia. É n'um divinal momento conquistar, possuir, haver o que nunca o pensamento, por mais audaz, ousou crêr que um dia á mão nos viria. Sonhar é vêr palpitante a toda a luz da existencia o pae, os filhos, a amante que a morte apartou de nós! Ouvir-lhes a dôce voz... interromper essa ausencia eterna, a eterna saudade que nos deixára o perdêl-os! Sonhar é esta piedade do ceu pelas nossas dôres; esta mão cheia de flôres que Deus esparge nos gelos!— Tudo mais são pesadelos. Pois eu sonhei, e não digo o sonho que tive então. Não por ser segredo, não, que á terra desça commigo; mas quem tem, como eu, vergonha, mesmo ao leitor seu amigo nem sempre diz o que sonha.

X

No outro dia ao almoço, frugal almoço invejado ao pobre e triste empregado a quem aos mezes o Estado permitte rilhar um osso, muitas vezes esbrugado; no outro dia a Gertrudes, velha magra, feia, teza, inda cheia, á portugueza, de calvas e de virtudes, as quentes papas de milho veio pôr-me sobre a meza. A mim a quem nada escapa logo ali me deu no gôto O vêl-a andar n'um sarilho a peneirar-se, e á socapa sorrindo com ar garôto. —Gertrudes, que historia é esta?— E ella a rir. —De que ri?!...— A rir-se mais. —Temos festa! Vae grande baralha aqui se me não diz, como quero, porque essa bocca escancára, e se desengonça, e rebola... Ella, atalhando: «Salero!. Soy, señorito, española!» Figurem-se a minha cara!! A visão, a Raphaela com quem ha pouco sonhára. o bello typo andaluz, a flôr de um dia... era ella saída das mãos do Cruz![2]

XI

A moral d'este meu conto implica artigos de fé: 1.º Quem vê masc'ra não vê rosto. 2.º Belleza vista de dia dê-se-lhe sempre o desconto de trinta por cento em cré. 3.º Depois do sol se haver posto até a Virgem Maria precisa ser vista ao pé. 4.º Mesmo assim, inda que perto, não se diga nunca ao certo que se está longe da Sé.

Notes in this chapter

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