ÁS RÃS PEDINDO REI
Reading edition
Traducção da fabula de Lafontaine—Les Grenouilles
Viviam certas rãs n'um charco immundo em republica plena. Era um pagode! Tal qual uns democratas que ha no mundo julgando que a republica, no fundo, outra coisa não é senão a gente fazer o que bem quer e quanto póde, a rã tripudiava impunemente. Todos os dias era certo o choque entre o batrachio forte, intransigente, e parte da nação já descontente que a Jupiter pedia ou rei ou roque. O deus fez-lhe a vontade. Largou-lhe lá do ceu um rei pacato, de summa gravidade. Das alturas tombando, o rei na quéda fez tal espalhafato, que as fêmeas em pavor, os machos fulos, aquellas saltitando, estes aos pulos, como é uso das rãs nas grandes crises, cada qual a gritar:—arreda! arreda!— entre os juncaes, no lôdo, nas raizes dos salgueiraes se enreda. * Por longo tempo em seus esconderijos das rãs esteve homiziado o povo. Transformaram-se em medo os regosijos da antiga bacchanal. Gigante novo cuidavam ser o rei que o ceu lhes déra. Não ousavam sequer saír da tóca; pois, não raro, os instinctos maus da fera por imprudente a presa é que os provoca. Já n'essas eras muito a pêllo vinha dizer: Cautela e caldos de gallinha... O rei era um pedaço de madeira. Nem mais, nem menos. N'uma bella tarde uma das rãs, por ser menos covarde ou mais bisbilhoteira, tirou-se de cuidados, manso e manso na flôr das aguas surge, e ás guinadinhas com muito tento e geito do cêpo se aproxima. Após ella vem outra... e outra... aos centos. Vendo que o rei não sae do seu ripanso, rodeiam-no; coaxam: Salta acima!... e coaxado e feito!... O rei, temido outr'ora, ás pecuinhas d'essa chusma villã se vê sujeito. Em rapido momento sobre elle a malta audaz se encarapita, e faz do bom monarcha um bom assento. Nem chus nem bus! Calado que nem porta, qual fôra n'outros tempos!... Isto irrita. Rompem as rãs então n'uma algazarra que o pantano atordôa, os fios d'alma a quem as ouve corta. «Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarra que nem mexe, nem pune, nem perdôa, e mais parece uma alimaria morta, cabide d'uma c'rôa, em vez de nosso rei—nossa vergonha!» Vae Jupiter que faz? Uma cegonha, das muitas que possue, logo destaca, e manda que das rãs ponha e disponha, n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca. Ora a cegonha, apenas em seu throno dona das rãs se vê e sem ter dono, diz comsigo: —Nasci dentro d'um folle! Quem tira agora o papo da miseria sempre sou eu!...— Passeia toda séria, perna aqui... perna além, n'um andar molle, e quanta rã apanha quanta engole. * Geral consternação o charco enluta. Renovam-se as lamurias: que o rei é doido e tem ás vezes furias; que, doido ou não, o povo trata á bruta; por fim, que faça o deus formal promessa d'outro rei que as não coma tão depressa! O Jupiter tonante d'est'arte lhes responde: «Inutil prece! Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo, que nem sempre se tem nem se merece: um rei que era um regalo! Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra! Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo... um pouco extravagante... Meninas, aguental-o! Era bom o primeiro e foi-se embora. É mau este de agora. Contentae-vos com elle, ó meus endezes, pois venha quem vier... peior mil vezes.»