EM CINTRA
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Tal qual como o sacrista, o velho Catecismo soletrando, primeiro se espreguiça; cabeceia depois de quando em quando; por fim já não atina se ha tres, se um cento d'inimigos d'alma; meninos e doutrina, rosnando manda á missa; engendra um travesseiro da batina; deita-se e dorme emquanto dura a calma: farto da vida fui-me estiraçando n'este alcantil, onde aves de rapina fizeram ninho outr'ora. Ao longe o sol declina; já sobre as ondas arde. Soltando a voz sonora n'um murmurio suave expira a tarde. Ai! quem me dera aqui morrer agora!... Não ha somno melhor!... Somno?... Sería?... Eu penso que não é, que sentiria em torno do meu sêr, do meu sêr novo, uma coisa qualquer que a phantasia não ousa precisar, á qual aspiro, para a qual vou fugindo, que me chama, na qual hei de caír como em seu giro alado insecto vae caír na chamma. Não é tolice, não. Quem n'este mundo diria afoito ao sabio mais profundo, se n'esse tempo o mundo sabios tinha, que dentro da gallinha estava um ovo e dentro d'aquelle ovo outra gallinha?... Assim succede em tudo. Muda a fórma; as condições variam da existencia; mas, por mais que a materia se transforma, intacta se conserva sempre a essencia. Logo: hei de viver. Ter consciencia d'aquillo que então fôr!... Um Corvo (que fende o espaço, grasnando) Senil demencia! Sobre essa rocha estoira como um ôdre: terás a mesma sorte de tudo quanto é pôdre. Serei eu só bastante para fazer-te o corpo n'um farrapo. Que vida has de viver desde esse instante mettido no meu papo? Aonde a consciencia?... o sentimento?... Perante a Eternidade tu duras um momento. Serviste o pensamento da grande Divindade; depois!... Depois da morte não és coisa que importe do mundo ao movimento. Uma Andorinha (chilreando em roda da penedia) Ai! terra onde nasci! Ai! dôce patria minha! tão longe eu sou de ti!... Saudosa do palmar, aqui, pobre avesinha, errante a voltear. Um dia... qual—não sei... um dia, em vindo o inverno, de novo á patria irei. Então sob o docel d'aquelle azul eterno, nos plainos meus d'Argel Emfim serei feliz! Nenhuma primavera roubar-me ao meu paiz Jamais conseguirá!... Uma outra pátria, espera, tambem te surrirá. Um Sapo (no fundo do valle) Cantigas! boas cantigas lá por cima oiço cantar. Do que vae cá pela terra entendem mais as formigas, sabem mais reptis na serra que os passarinhos no ar. Deixa piar a andorinha. Bem facilmente se ad'vinha a tua sorte futura. Tu és, amigo, a doninha. É teu sapo a sepultura. Cantigas! Boas cantigas! Quem trinca, trinca; trincou. As doninhas que hei papado por mais figas, figas, figas que as outras me têm armado, ninguem d'aqui m'as levou! O Pinhal (ao longe) N'um cantico dolente meus hymnos rumorejo. É Deus que passa em mim; o Deus que eu vejo em tudo o que palpita, e vive, e sente. Ó balsamica rosa, quando a fragrancia exhalas docemente da petala mimosa; lá quando do teu seio, tepido ninho d'um amor fremente, irrompem n'um gorgeio maternas alegrias, é Deus que passa, o rosto surridente, cercado de harmonias. O Sino da Pena Dong!... Dong!... Dong!... Um velho que vae na estrada (tirando o barrete) Avè, Maria, cheia de graça... O Sino Dong!... Dong!... Dong!... N'estas auras subtis do fim do dia —descobri-vos, mortaes!—é Deus que passa. Dong!... Dong!... Dong!... Desde a remota edade á edade hodierna Descrença e Fé por esse mundo fóra vão em perpetua luta caminhando. Da Sciencia os cartapacios consultando em Deus não crê, não crê na vida eterna quem da eterna sciencia tudo ignora. Sei d'alguns que não crêem... porque é moda... por ser qualquer idea contrabando em casco avariado. Finalmente, crêr, ou não crêr, a certos pouco importa, por isso que incommoda andar com seus botões pensando a gente no fim que ha de levar depois de morta. Eu á Sciencia estranho e bom jarreta, eu que penso em morrer, por ser um vivo que fecha a mala e puxa da gorgeta, encontro ás minhas maguas lenitivo crendo que ambas as coisas não são pêta. Tudo em roda de mim é o grande effeito d'uma causa maior, cuja existencia dois principios envolve fatalmente; amor e omnipotencia: poder que salva; amor sempre clemente. Isto me fique ao menos! Hei mudado de pensar e sentir bastantes vezes. Só não pude sentir nem ter pensado ser o mundo um curral, e nós—as rezes.