DEUS E O AMOR
Reading edition
(1870)
No ceu, cabisbaixo, o Amor um d'estes dias entrava. O pobresito levava impressa no rosto a dôr e as settas todas na aljava. Ao vêl-o o Eterno exclama: «Que vens tu fazer aqui?!» —De Lysia, meu Deus, fugi porque lá vivo da fama; os meus freguezes perdi. Busca a moça um noivo rico sem lhe importar nada mais. São fumo as paixões e os ais; pintos, nina. Apanha o mico!— lhe bradam os proprios paes. Por isso, feito o consorcio, sae da egreja o par fiel, e o noivo compra papel para requ'rer o divorcio, passada a lua de mel. Torto já, e á vara larga, o fino dandy seduz. O mais que faz o lapuz quando em finezas se alarga é roncar: Que tal te eu puz! Do patrio amor todo o fogo traduz-se no venha a mim. Quem faz d'um jornal pasquim, sem trunfos entra no jogo e sae-se trunfo por fim. Bellini foi-se!... não presta. Da harmonia a nata, a flôr, veio encontrar successor no Fado, que é o rei da festa, o canto que faz furor!— A virgem martyr Cecilia, ao ouvir blasphemia tal, ataca o si natural, e, pedindo um chá de tilia, cae em deliquio mortal. Sem reparar no que passa soluça o Amor e diz: —Murcha pende a flôr de liz. Jaz prostrada na desgraça a patria de São Luiz! O Krupp a morte semeia de Sarbruck até Sedan, e París, a cortezã, nas garras da fome anceia! Que serás, França, ámanhã?! Pois n'estes dias sombrios a velha Europa sagaz, cuidando ter um antraz, fez ataduras e fios em vez de fazer a paz! Lisboa, toda vergonhas, e orgulhosa, e esmoler, atraz ficar-lhe não quer e desata a fazer monhas; mas fios, nem um, sequer! Acima da humanidade ha n'esse bom Portugal o novilho e o boi real. A dôce fraternidade anda nos paus do animal. De meu seio a pura chamma deixa, ó Deus, arder aqui. De Lysia a correr fugi porque lá já ninguem ama nem mesmo, Senhor, a ti! Nem mesmo! que sem respeito tonsurado berrador troveja em voz de Stentor, batendo murros no peito, que o teu braço é vingador; Que ao reino teu infinito, á mansão da eterna luz, tua mão, Senhor, não conduz quem fez o enorme delicto de ignorar que houve Jesus; Que tu, meu Deus, que és o forte que destruiu Jericó, que és a Justiça... tu só, habitas n'aquella córte; encarnas no immundo pó! E para acabar o quadro, para lhe dar mais unção, afoga o impio sermão junto á cruz que está no adro em ondas de carrascão! No templo teu, Pae divino, apparato theatral! Em redoma de crystal vestido Jesus Menino de chéché do Carnaval; E o alvo lirio, Maria, a pura depois de mãe, caracoes e rolos tem como usava a minha tia quando ia ao Paço em Belem! No altar-mór o scenario que effeito fazendo está! Pallida a lua... acolá!... Além a cruz... o Calvario... Fóra, author! Bravo, Rambois![1] Na nave central—cavaco; e no côro, ai! pobre fé! latagões côr de café uivando dentro d'um sacco: —Sou o Barba-Azul! Olé!— A catholica Judêa, o christianismo pagão, ousa mais! Põe em acção do Homem-Deus a epopêa na sensual procissão! Ás enfeitadas janellas corre a curiosa avidez. Fazem cauda. Esperam vez como se elles e ellas fossem vêr um entremez! Depois começa o serviço. Olho aqui... e olho lá... no seu tudo, e no papá que embirra co'o tal derriço por andar no b-a-ba. Namorando as carnes núas do que vae no floreo andor, outras dizem:—«Salvador, se todas são como as tuas quem não será peccador?!» Emquanto se eleva o incenso na caprichosa espiral, o garoto, essa vestal dos vates de hoje, no lenço faz mão baixa e no metal. E, manso, por entre o grupo da ondulante multidão, serpenteia a procissão. Rumoreja em torno o apupo. Consternam-se alma e razão. Que brutos cêpos são esses? Vae Deus ali? Christo nú posto a par do manitú, homens dos torpes int'resses, filhos glotões de Esaú?!... Tartufo os impetos doma. Vive agachado o chacal a espreitar se o olhar fatal de Filippe á voz de Roma lampeja no Escurial! Fiar n'elle!... O incendio lavra occulto. Na escuridão forja de novo o grilhão á consciencia, á palavra, a satanica legião. Em teu nome o lar deserto!... O pranto manando a flux!... Morta a esp'rança! Extincta a luz! e da cruz contra o liberto mudada em punhal a cruz!— Largamente aqui respira sêcca a lingua e falto de ar, que o terno Amor, a fallar, não é como os de Tavira: —dá-lhe... dá-lhe até 'stoirar!— Mas, depois, como o Vesuvio irrompe. Ao rosto gentil assoma a raiva, e febril bate o pé; grita;—um diluvio manda ao infame covil! Outro diluvio! incessante a subir... subir... até que não fique nada em pé! nem possa nenhum farçante fazer arca e ser Noé!— Deus, que os seus ouvidos presta ás queixas que Amor lhe faz, sorri e diz: «Ó rapaz, um T escripto na testa porventura me verás? Eu dei-lhes a lei sublime nas alturas do Sinai. Se contra a lei, contra o pae, conspira Lysia—no crime do crime o castigo vae. Triumpha o Milhão, e Hero não houve mais que uma só? O Creso do oiro em pó a flauta fará de Nero, e da flauta um bom cipó. E se os maridos, tontinho, fugindo ás esposas vão, deixa-os lá. Por fim terão, em vez do calor do ninho, os gêlos da solidão. A vida passa ligeira; e, quando a morte vier, qual d'elles é que não quer dôce oração derradeira entre beijos de mulher?! Ai!... Acabar longe d'isto!... sem perdão!... sem paz!... e meu sem ser nenhum!... Galileu, tu que fizeste?... Ó Christo, teu sangue que fructos deu?!... Fiz de ti a rósea aurora da universal redempção; inda após o teu clarão o Deus cêpo é o Deus que adora a proterva multidão! Pois para amar-me é preciso mais que os olhos alongar pelos ceus, por terra, e mar? mais que o pallôr indeciso d'uma noite de luar?! Pois n'esses milhões de mundos, que girar no espaço fiz, não falla tudo? não diz em seus canticos jucundos: —Senhor! Senhor, existis?!— Erriça o leão a coma? Nas sombras do Escurial ergue a pedra sepulchral de Filippe a astuta Roma?... Erga!... e surja o rei fatal!... Antro, e fera, e vil Tiberio, tudo no pó sumirei!... que dos reis eu sou o rei, e as chaves do meu imperio a mão nenhuma entreguei! Perdes o tempo, creança! Se o perdes, meu doido Amor! Sei quanto és enganador! quanto és feroz na vingança e folgas da alheia dôr! És vendado, és cego, e ousas como se visses fallar?! Pois has de á terra voltar.»— E o pae de todas as cousas foi-lhe os olhos desvendar. Então o dôce fedelho, tão dôce como cajú, repara em si... vê-se nú... faz-se azul... faz-se vermelho como um monco de perú. Depois a fugir desata pelas ethereas regiões. Atraz d'elle as maldições de quanta velha beata foi ao ceu... por alçapões. Que o ceu que estamos mirando occultas entradas tem, e sem fiscal! Inda bem. A não ser por contrabando já lá não entra ninguem. Vôa... vôa... É mesmo um raio rapido o espaço a rasgar. Vôa... Á força de voar perde o alento, e n'um desmaio vem no chão co'as azas dar! N'essa noite a authoridade metteu, zelosa qual é, o menino em São José; mas ninguem crê na cidade que a sciencia o ponha em pé. Quem tem os dias contados mais viver não póde, não. É do amor finda a missão dês que os fundos, bem cotados, valem mais que o coração.