POR FIM...
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Tu queres, Dorinda, queres que eu tome os banhos da igreja?! Não será melhor que esteja de noite a fazer colheres, de dia a apanhar carqueja?! Pelo ceu! que o matrimonio não é mais que pellourinho, d'onde as barbas do visinho vemos ardendo! demonio disfarçado em Cupidinho. O outono com seu cortejo de folhas seccas no chão! O eterno adeus á illusão! O ultimo som do harpejo que Amor tira ao coração! O susto! a agonia! o trance de ir vivendo sempre á espreita se ha quem tornar-nos alcance, pois tal historia deleita, altos heroes d'um romance. E queres, Dorinda, queres que eu tome os banhos da igreja?! Para quê? Para que veja que entre todas as mulheres uma existe que sobeja?! Não! e não! Viva o solteiro! Aguia voando no espaço sem ter certo o paradeiro, e cravando as garras d'aço nas pombas que vê primeiro! Sae, e entra, e torna fóra sem que ninguem lhe interrogue onde foi, qual é a hora, nem pecuinhas lhe jogue sobre a provavel demora; Sem que a esposa ciumenta, Furia, Medusa, tormenta de más caras, más respostas, invente o que o diabo inventa: dormir-se costas com costas. E, depois, Madame Aline rôa as unhas! Que se fine entre rendas d'Alençon! que o meu dinheiro não tine p'ra que tu andes no tom! Já vês que debalde queres que eu tome os banhos da igreja. Iça o pau da carangueja! Nos turcos os escaleres, e para o largo veleja! Mas tambem... viver sósinho! Sem fé... perdido... sem ninho... Sem se erguer uma só voz na aridez d'este caminho a Deus orando por nós!! Retornando ao lar deserto achar tudo a trochemoche!... O bahu sem chave e aberto dizendo ao larapio:—Entrouxe, que você é que é o esperto!— Sempre mal fervida a sopa! Sempre o café mal torrado! Feita a passagem na roupa deixando o dono enleiado se foi a agulha se a choupa! Se ainda, Dorinda, queres que eu tome os banhos da igreja, não descances na peleja, que eu sou como os malmequeres: não e sim. Louvado seja! Ai! que é bom durante os ocios, na fortuna e na miseria, achar ao lado uma Egeria que, em se fallando em negocios, não tuja sobre a materia; Que seja como a romana, meio amor e meio roca; não sáia nunca da toca mais que uma vez por semana, nem tinja o cabello d'óca; Nem, quando a afiada foice da vida o fio nos córte, de rijo invective a Sorte, e diga baixinho:—Foi-se! Quanto és minha amiga, ó morte!— E d'aqui outro consolo melhor que maracujá e que o dôce de tijolo: ter quem, a rilhar n'um bolo, nos julgue e chame papá! Loura criancinha meiga, para o pai mimo celeste, e para o estranho uma peste que emporcalha de manteiga as calças que a gente veste. Inda agora é que eu reparo nos teus olhos, creatura! São negros... d'um negro raro! Negros como a noite escura com seus quês d'um sol bem claro! Alto o seio e pura neve que mil desejos excita! O pé delgadinho e breve; e quanto a mão... Deus permitta que a não tenhas muito leve. Dá-me o teu braço, Dorinda. Vamos aos banhos da igreja. Certo é que não graceja quem diz que os refrescos, linda, curam toda a brotoeja.