A Lenda do Crisfal
Reading edition
1909 Livraria Editora GUIMARÃES & C.a 68, Rua de S. Roque, 70 Lisboa

THEÓPHILO BRAGA E A LENDA DO CRISFAL
I Razão de ser d'este livro
Quando em maio de 1908 tornamos pública a conclusão a que haviamos chegado de ser
Crisfal
um pseudónimo do autor da
Menina e moça
, como procurámos demonstrar no volume recentemente dado á estampa:
Bernardim Ribeiro
(
O Poeta Crisfal
), tinhamos o convencimento pleno de que uma tal nova, divulgada pela imprensa, seria bem acolhida por quantos se interessam pelo estudo da nossa História literária, com excepção apenas do snr. dr. Theóphilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas sentenças, nem vê com bons olhos que outros, que não s. ex.
a
, encarem problemas que se prendam com a História da literatura portuguêsa.
E n'este caso do
Poeta Crisfal
, mais do que em nenhum outro, o snr. dr. Theóphilo Braga não desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que teremos ocasião de apontar no decurso d'este livro.
Não contavamos com o acolhimento benévolo do infatigavel escritor. Para fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos, tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforço pouco generoso do snr. dr. Theóphilo Braga para com a memória d'esse desventurado que se chamou Antero,―porque o poeta incomparavel dos
Sonetos
ousara flagelar o dogmatismo scientífico do antigo camarada universitário; o fel que o plumitivo da
Historia da Litteratura
deixa transparecer nas apreciações com que, baldadamente, procura amesquinhar a figura gigantesca de Herculano,―porque o insigne historiador nacional jàmais se associou aos turibulários do filósofo comtista (sem calemburgo);―o desdem com que o professor de literatura apoda, soberanamente, de
gramático
, o distinto romanista, snr. Epiphánio Dias,―por este haver despedaçado, com a autoridade do seu nome, aquela invenção alegre dos
cantos de ledino
, em que o snr. dr. Theóphilo continua a persistir, apesar de tudo, com manifesta falta de sinceridade.
Mas não ignorando taes precedentes, e conhecendo que o estudo que iamos apresentar ao público não deixaria de nos acarretar a má vontade do autor da
História da Litteratura Portugueza
, nem por um momento hesitamos em levar a bom termo o nosso trabalho, tendo em atenção tam sòmente que se tratava de desfazer uma lenda, estúpida como tantas outras lendas, que privava de parte da glória a que tinha jus o nome aureolado de um dos maiores poetas portuguêses, o delicado e inditoso Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim.
Derruíamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas erguiamos a um pedestal mais grandioso e altívolo a figura amoravel do grande bucolista.
A literatura portuguêsa só ganhava com a descoberta. Que, se alguma cousa perdesse, era sobeja compensação o que se conquistava para a verdade histórica...
Mas a proclamação de uma tal verdade ia prejudicar um livro, ou livros, do snr. dr. Theóphilo Braga... Não havia dúvida. Que importava isso? Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da Écloga de
Crisfal
, não valeria a pena sacrificar uma das muitas produções do operoso escritor?
Bernardim Ribeiro é um dos astros fulgurantes da rútila constelação que brilha, intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. Já conta alguns séculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor...
Após a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu
Diario de Noticias
, dando conta dos nossos trabalhos de investigação, que punham termo á lenda de
Crisfal
, tivemos a ventura de ver que o snr. José Pereira Sampaio (
Bruno
) havia chegado a conclusão idêntica á nossa, como foi registado n'um brilhante artigo de João Grave no
Diario da Tarde
, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de
Bruno
, reproduzida no jornal citado, em que o prestigioso publicista, com a reconhecida autoridade do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava de maneira absoluta que estavamos com a verdade; que o
trovador
Cristovam Falcão era simples produto de uma lenda, que o criptónimo
Crisfal
pertencia a Bernardim Ribeiro.
Do artigo do nosso camarada João Grave, e da carta do ilustre escritor snr. José Sampaio, não faremos citações n'esta altura. Ambos os preciosos documentos se encontram integralmente exarados no nosso livro
Bernardim Ribeiro
. Não os desconhecem, por certo, aqueles que nos dão a honra da leitura d'este trabalho.
Como recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga essas comunicações do
Diario de Noticias
, de Lisboa, e do
Diario da Tarde
, do Porto?
―Passando a José Pereira Sampaio (
Bruno
), e a nós outros, um diploma de ignorantes!
Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal
A Epoca
a secção que o escritor snr. Silva Pinto tinha a seu cargo, e que n'essa data estampava, reproduzida do
Diario da Tarde
do Porto, a seguinte carta do snr. dr. Theóphilo Braga:
«Meu caro João Grave:―Encantou-me o favor da sua carta, communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho amigo e luminoso critico José Sampaio sobre a apochryficidade do auctor do «Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato Delfim Guimarães. É sempre boa a vindicação d'uma verdade em qualquer campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma conquista, d'um triumpho. Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é realidade demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim Guimarães, sobre a identidade de Christovam Falcão em Bernardim Ribeiro. Isso, porém, não passa d'uma miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos[1]. Diogo do Couto falla em Christovam Falcão como celebrado auctor do «Crisfal», quando narra factos praticados por seu irmão Damião de Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India, inventava-lhe um irmão? E tendo sido impresso o «Crisfal» sem nome d'auctor, (no pliego-suelto da Bibliotheca Nacional de Lisboa) dava-o como auctor d'essa celebrada écloga a capricho seu? O Padre Antonio Cordeiro, na «Historia Insulana», (resumo das «Saudades da terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões) tambem faz as mesmas referencias ao poeta Christovam Falcão. E a edição de Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome? E Frei Bernardo de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda parte do «Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D. Maria Brandão, a namorada d'este poeta do «Crisfal».
Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a lume os seus resultados. A vantagem é de nós todos.
Com um abraço do seu, etc.
Theophilo Braga.»
Para o professor do Curso Superior de Letras, a conclusão a que, tanto
Bruno
como nós, haviamos chegado, não passava
d'uma miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos
, e esta sentença autoritária vinha a público quando o snr. dr. Theóphilo Braga ignorava em absoluto quaes os argumentos com que nós e o insigne publicista nosso conterráneo procurariamos fazer vingar nossas teses.
Magoou-nos a impertinência, confessamos, e não resistimos a manifestar publicamente a impressão em nós produzida pela prosa do snr. dr. Theóphilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta a João Grave, que este distinto jornalista fez inserir no numero de 1 de junho do
Diario da Tarde
:
«Meu prezado camarada João Grave:―Acabo de ler, reproduzida por Silva Pinto na «Epoca», a carta que o snr. dr. Theóphilo Braga dirigiu ao meu caro João Grave a propósito do trabalho que preparo, em que me proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente um anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por conseguinte a este lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a Cristovam Falcão.
O nosso bom amigo e erudito escritor José Pereira Sampaio―
Bruno
―, como se viu da interessante carta que estampou no «Diario da Tarde», como complemento ao artigo que o meu caro João Grave publicou sobre o assunto, chegara a conclusões eguaes, e para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu concurso.
Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se isto uma «
miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos
», que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de Brito.
Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de dizer no seu jornal que conheço perfeitamente os
recursos históricos
a que alude o incansavel historiador da
Litteratura Portugueza
, como não podia deixar de conhecer pela leitura das edições do «Bernardim Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga.
Que Bruno não ignora nenhum d'esses
recursos
, estou convicto, que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga póde ter dúvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao justificado nome literário de José Sampaio.
Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo nenhum eu vou sustentar que não existiram vários
cavalheiros
com o nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem existido não tomaria vulto até aos nossos dias a lenda do «Crisfal»!
Não o enfado mais.
Creia-me, com verdadeira estima,
seu amigo, adm.dor e obg.do
S/C. Lisboa, 29-maio/90.
Delfim Guimarães.»
A
Bruno
tambem não passou despercebido o
amavel
diploma do professor do Curso Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu melindrado prova-o suficientemente a carta que dirigiu a João Grave, e que, confiados na benevolência do sr. José Pereira Sampaio, vamos trasladar das colunas do jornal
A Epoca
, que a reproduziu do
Diario da Tarde
:
«
Meu caro João Grave
:―Novamente o venho importunar, pois entendo que, perante a carta, aliás tão bondosa e honrosa para mim, do dr. Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar em publico, ainda uma vez, que após o apparecimento do livro de Delfim Guimarães, defendendo a propozição de que Christovam Falcão não é mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V. na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que refutarei ahi cabalmente as asserções, na sua carta de hontem no «Diario da Tarde», pelo nosso doutissimo confrade e illustre publicista produzidas, mostrando então, com todo o respeito devido a tão indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de Delfim Guimarães) não é tal uma miragem e que, pelo contrario, o ensino corrente no assumpto é que é inteiramente phantastico e chimerico.
A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.
Todo seu
Porto, 27 de Maio de 1908.
José Pereira Sampaio (Bruno).»
O snr. dr. Theóphilo Braga achou que era prudente não voltar á estacada, e assim deixou passar em julgado a nossa carta e aquela em que o snr. José Sampaio, por uma fórma categórica, visando directamente as lições ministradas pelo professor de literatura, declarava que o ensino corrente sobre Cristovam Falcão era
inteiramente phantastico e chimerico
.
Na elaboração do livro:
Bernardim Ribeiro
(
O Poeta Crisfal
) obedecemos ao propósito de não converter o nosso trabalho n'uma diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a situação em que eramos forçados a colocar o snr. dr. Theóphilo Braga, em obediência á verdade, e não porque nos animasse qualquer desejo de ser desagradaveis ao infatigavel vulgarizador. E, procedendo assim, entendiamos cumprir um dever, que tinha sobeja justificação nos cabelos brancos do professor do Curso Superior de Letras, cuja primeira edição do seu
Bernardim Ribeiro
coincidiu com o ano do nosso nascimento. Não esquecemos nunca que fomos educados no respeito devido á velhice.
No trabalho da revisão das provas do nosso estudo, em que fomos
auxiliados
pela prestante amizade de Henrique Marques, mais de uma vez modificámos referências feitas ao professor que contraditavamos, e sempre da melhor vontade substituiamos um adjectivo, suavizavamos a saliência de um erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique Marques, com o seu apreciavel critério, nos fazia notar que uma palavra, uma frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr. dr. Theóphilo Braga.
Queriamos fazer vingar uma obra de justiça; não era nosso intento agravar quem quer que fosse.
E que não fomos descortêses, nem violentos, nem injustos, para com o professor que contraditavamos, prova-o o testemunho insuspeito do eminente publicista snr. José Caldas, que nos honrou com uma carta penhorantíssima, de que reproduziremos neste lugar algumas linhas:
«A delicadeza das suas referencias, com relação aos auctôres cujas conclusões não acceita ou impugna, é verdadeiramente modelar.»
Se houvessemos sido menos cortêses para com o snr. dr. Theóphilo Braga, s. ex.
a
não se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o professor do Curso Superior de Letras escreveu-nos a agradecer o livro, embora na sua carta transpareça o despeito que lhe produziu o nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vários erros contidos em volumes da
Historia da Litteratura Portugueza
.
Registâmos aqui essa carta do snr. dr. Theóphilo Braga, que não deixa de constituir um documento interessante para aqueles que seguirem com atenção a marcha dos acontecimentos provocados pela pendência literária em que estamos envolvidos.
É, textualmente, como segue:
«Lisboa, 25 de Novembro de 1908
...sr. Delfim Guimarães e meu presadissimo amigo
Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que apresenta o seu processo para a identificação do poeta Bernardim Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de ler immediatamente o seu livro, para vêr que materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam Falcão amou, sendo ambos muito creanças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de continuar a admittir as relações pessoaes de Christovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V., acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as relações com Christovam Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa historica, de Diogo do Couto, na sua Decada VIII, que, fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: «irmão de Christovam Falcão, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Christovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario se repete a attribuição «que dizem ser de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos genealogistas. A Ecloga do Crisfal não podia ser publicada pelo seu auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma inconfidencia de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada. A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Christovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em 1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do Crisfal, que então, andava no gosto. Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma inconfidencia. Isto leva a explicar como Christovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em situações differentes. Através de todo o hypercriticismo o livro sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me veio revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga Alexo assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante estudo, sou
admirador obr.mo e amigo
Theophilo Braga»
Começa a carta do snr. dr. Theóphilo Braga por um
rebuçado de ovos
: o tratamento de «prezadissimo amigo», que não tinha qualquer justificação... Isto é, tinha uma justificação única, qual era a de nos adoçar a bôca, para engulirmos sem relutância aquela amargosa pílula com que fecha a epístola de s. ex.
a
, quando, com generosa magnanimidade, confessa que o nosso livro
revelou um trabalhador fervoroso
, que ao professor do Curso Superior de Letras foi
revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no Porto
, e que em Lisboa
descobriu o texto precioso da ecloga
Alexo
assignada por Sá de Miranda
.
E, graças a estas
revelações-revelativas
, a que não ligavamos importância de maior, o historiador da
Litteratura Portugueza
felicitava-nos pelo nosso
importante estudo
, que, volvidas algumas semanas, havia de classificar de fruto de
processos á tôa
!
Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr. dr. Theóphilo Braga.
Por agora, continuemos na catalogação das peças d'este processo, para que os leitores julguem da justiça que nos cabe, e avaliem da sinceridade, da correcção, e dos processos do professor intangivel.
No jornal
O Mundo
, de 3 de dezembro de 1908, na local consagrada á sessão da Academia das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos que o snr. dr. Theóphilo Braga fizera uma comunicação, que outra cousa não era senão um desmentido formal e gratuito ás conclusões do nosso livro,―mas sem a mais leve citação ao nosso obscuro nome, sem a menor referência ao nosso desluzido trabalho, embora aproveitando-lhe os subsídios. Comprehende-se: o ilustre académico não desejava contribuir de modo nenhum para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao volume sobre o
Poeta Crisfal
.
Transcrevemos do
Mundo
o periodo referente a tal comunicação... scientífica:
«...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão, mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já edoso; evidencia como na Ecloga transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jàmais confundir-se».
Ante este procedimento do nosso
prezadissimo amigo
, não pudemos ficar silenciosos, e, como um desforço legítimo, inadiavel, apelamos para o snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas colunas da
Lucta
a seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero de 4 de dezembro do seu diário:
«Ex.mo Snr. Dr. Brito Camacho,
meu prezado amigo:
Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se passou na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi que o snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse, procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro, e insistindo na lenda do
poeta
Cristovam Falcão de Sousa.
Não me admira que o original autor da «Historia da Litteratura Portugueza» persista n'um erro crasso, só para não se confessar vencido, porque já o caso engraçadíssimo dos
cantos de ledino
era precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de reconhecer publicamente que errou. Está no seu direito, e ninguem lh'o contesta.
Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que não torci a meu bel-*prazer a verdade, nem falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o dever moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justiça, antes de ir para o seio de uma agremiação, a que eu não pertenço, impor um desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu trabalho.
E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr. Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto é certo que s. ex.
a
não desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.
Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de boa fé, quem lhe assegura que os argumentos de Bruno não conseguirão convencê-lo, já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal não conseguiram?
É tempo de pôr de parte o
magister dixit
, porque, felizmente, os processos crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são coisas que passaram á
historia
, e que não se ressuscitam já facilmente.
Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade na nossa
Lucta
a esta minha carta, que representa o legítimo desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como tal tem jus a ser considerado.
Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,
De V. Ex.a
amigo, admirador e obrigado
S/C, Lisboa, 3-12-908.
Delfim Guimarães.»
Com o espírito de rectidão que todos, amigos e adversários, são concordes em reconhecer ao snr. dr. Brito Camacho, o brilhante jornalista deu acolhimento benévolo á nossa carta, acrescentando-lhe as seguintes linhas de saudação ao professor do Curso Superior de Letras:
«O nosso ilustre correligionario dr. Theóphilo Braga tem as columnas d'este jornal ás suas ordens para dizer da sua justiça, como quizer. Trata-se d'uma questão de facto em historia literária, e não d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.»
Não correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga á gentileza do director da
Lucta
; e até para comnosco estamos persuadidos de que, desde o momento em que s. ex.
a
viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito Camacho é a alma, o pontífice da
Litteratura Portugueza
excomungou o intemerato jornalista. Que o dr. Camacho nos perdôe a excomunhão que, involuntariamente, lhe acarretamos!
Guardou silêncio o snr. dr. Theóphilo Braga durante semanas, mas não esteve inactivo, ao contrário do que muitos poderiam supor. Com todo o engenho e arte, s. ex.
a
consagrou-se ao fabrico de uma peça, que não podemos classificar de literária, porque é a negação de todos os processos literários dignos de este nome, mas a que poderá caber a designação de produto de arte... culinária. Como
pastelão
, faria honra a um cozinheiro, mas cremos bem que o snr. dr. Theóphilo Braga deseja passar á posteridade como um discípulo fervoroso de Augusto Comte, e não como aprendiz ilustre da
sciência
de Vatel.
A redacção do jornal
O Dia
, seguindo a praxe dos anos anteriores, honrou o snr. dr. Theóphilo Braga pedindo lhe um artigo sobre o movimento literário português em 1908, para o numero de 31 de dezembro d'esse ano. Como nunca, recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga jubilosamente o amavel convite. Tinha ensejo para impingir... o
pastelão
. Era o momento oportuno para respostar á nossa carta publicada na
Lucta
, sem nos dar a honra de deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confissão de que havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro procedimento por parte do snr. dr. Theóphilo Braga? Não, evidentemente. Pois não haviamos nós,―cúmulo das audácias!―ousado protestar contra a comunicação do presidente da Academia de Sciencias de Portugal?!
Reproduzimos do
Dia
de 31 de dezembro do ano findo a parte do artigo do snr. Theóphilo Braga que diz respeito á questão literária suscitada pelo nosso livro:
«...No recente fasciculo (do Archivo historico português) ficou publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o Maria Brandoa a do Crisfal, por que o pae d'esta dama, que inspirou o amor e a Ecloga de Christovão Falcão, foi o pae d'ella, João Brandão Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo Gomes de Figueiredo.
Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta mesma inscrição: Maria Brandoa a do Crisfal; e nos livros dos linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandões Sanches, confundidos por vezes com os Brandões do Porto, com os de Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve em uma nota: «Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance Menina e Moça d'aquelle auctor.» E accrescenta que o sr. Delfim Guimarães empenhado na interessante averiguação o consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina. Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu livro Bernardim Ribeiro―o Poeta Crisfal, em que resume o já sabido da biographia do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de Christovam Falcão,―«dois poetas de temperamento semelhante, com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Christovão Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de Crisfal indo buscar á tôa as palavras Crisma falsa, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. «Fez-se então uma grande luz no nosso espirito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falcão era o producto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo (![2]) ao anagrama Crisfal.» (Op. cit., p. 10). «Alcançada a convicção de que Crisfal era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas producções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho de raciocinio não nos foi difficil deduzir a constituição do cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras Crisma e Falso.»
E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves Vianna―honra a erudição portugueza,―ataca as fontes genealogicas d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir: «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome litterario do verdadeiro Crisfal, o doce, o inimitavel e inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga de Crisfal condizem com os seus parentes taes como o de Pantaleão Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas? Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.º 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a Menina e Moça, duas eclogas de Bernardim Ribeiro―«e até se acham no fim algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, Dic. Bibliog.) Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia, reputava de alta importancia para a historia das lettras portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de outra individualidade.»
No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa, intercalava na sua prosa.»
Esta produção peregrina do snr. Dr. Theóphilo Braga veio publicada no jornal
O Dia
com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras em
fac-simile
, e ainda bem, para que não se pudesse ajuizar tratar-se de uma brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse.
Quando lemos um tal documento, a primeira impressão que se apoderou de nós foi a de revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir esta―um sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mágoa...
E, sem prazer, pudemos constatar que a impressão que o snr. Dr. Theóphilo Braga deixára nos leitores inteligentes do seu tendencioso
Movimento Litterario
era egual á nossa,―uma sincera mágoa.
Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados, e o nosso trabalho depreciado com tal rancor e má fé, que não podiamos ficar silenciosos.
No jornal a
Lucta
, do dia 3 de Janeiro d'este ano, como protesto, publicamos o artigo que vamos reproduzir:
Os processos... scientíficos do snr. dr. Theóphilo Braga
Não se dignou o sr. dr. Theóphilo Braga aceitar o oferecimento que o distinto jornalista que dirige
A Lucta
lhe fez em 4 de dezembro ultimo: pondo á disposição de s. ex.
a
as colunas deste diário, para que o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua justiça em face da carta que tive ensejo de dirigir ao meu bom amigo snr. dr. Brito Camacho, estampada n'este jornal, motivada pelo procedimento estranhavel seguido para comigo pelo snr. dr. Theóphilo Braga.
Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente silêncio, eis que o sr. dr. Theóphilo Braga, a pretexto de pôr os leitores do
Dia
ao corrente do movimento literário no ano findo, com ares dogmáticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele jornal com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as conclusões do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro.
Não me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do snr. dr. Theóphilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso para o professor do Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma vez dois dos volumes da sua chamada edição integral da
Historia da Litteratura Portugueza
: «Sá de Miranda» e «Bernardim Ribeiro». Isto, junto ao conhecimento que possuo da maneira de ser do snr. dr. Theóphilo Braga, é para mim explicação bastante do seu ressentimento, que a prosa do infatigavel «carreador de materiaes» não consegue disfarçar.
A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um jornal da índole da Lucta. Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve, algumas inexactidões flagrantes do artigo Movimento litterario, do snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a correcção dos processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras. Referindo-se ao ultimo tomo do Archivo Historico, a revista dirigida pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr. dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta Crisfal. Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos ardilosamente engendrados:
«O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance Menina e Moça d'aquelle auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.»
Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s. ex.a gratuitamente lhe atribue. Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem:
«O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no pleito e continuarei com a rotina.»
Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara as bases em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente as principaes bases, e o consciencioso investigador não declarava que taes bases não conseguiram demovê-lo da rotina, mas sim que «em quanto não aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitasse sem apelação em julgado, não lhe competia intervir no pleito e continuava com a rotina». Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia de correcção do ilustre escritor?―Para se servir, como de um escudo protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando, com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do Archivo Historico.
Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na 2.ª pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho, conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal). Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova feita transitasse em julgado―muito embora isto pese ao snr. dr. Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr. Gonçalves Viana, achasse que o meu livro Bernardim Ribeiro fazia honra á erudição portuguêsa. Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a lendária amada do Crisfal, passara á historia... Foi fazer companhia aos cantos de ledino... Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos... scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente, intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no Dia. É como segue:
«...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro capitulo, um dado importante para a biographia de Maria Brandôa, já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de heroina da ecloga Crisfal.»
Ás afirmações, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no Diario da Tarde, do Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (Bruno), refere-se tambem o snr. dr. Theóphilo Braga da seguinte maneira:
«No noticiario de outro jornal sairam afirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que afasta de todo a idéa de ironia».
O snr dr. Theóphilo Braga, referindo-se, com desdem, á sinceridade inconsciente de Bruno, não nos magôa sómente a nós, que votamos uma grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das suas mais legítimas glórias. Tristes processos está seguindo o snr. dr. Theóphilo Braga!
Delfim Guimarães
O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da
Lucta
ao nosso artigo, nòvamente pôs o seu jornal á disposição do snr. dr. Theóphilo Braga, para que s. ex.
a
, querendo, dissesse de sua justiça. O professor do Curso Superior de Letras não aceitou o oferecimento que pela segunda vez lhe era feito.
E, em verdade, que havia o autor do artigo
Movimento Litterário
de dizer em contestação do libelo documentado que tinhamos produzido? Nenhuma justiça lhe assistia, e por consequência não ousou reclamar. Recolheu-se ao silêncio,―áquele prudentíssimo silêncio que se seguiu á publicação do notavel trabalho do Dr. Sílvio Romero sobre a
Patria Portuguêsa
.
No artigo que publicamos na
Lucta
, de 3 de janeiro do ano em curso, tomámos o compromisso de tratar em livro todos os pontos tocados pelo snr. dr. Theóphilo Braga no seu aranzel do
Dia
, com a largueza e documentação que o assunto exige, em homenagem á memória de Bernardim Ribeiro; pelo dever moral que nos impusemos de contribuir, quanto em nossas mingoadas forças caiba, para que justiça seja feita, embora tardia, a um dos mais belos temperamentos poéticos da nossa terra.
Uma lenda é fácil de forjar, e com facilidade toma corpo e lança raizes, obcecando muitas vezes os mais esclarecidos espíritos.
A nossa Historia Literária está cheia de lendas e embustes, graças aos Farias e Sousa e Bernardos de Brito. Mas a Verdade, superior a todas as lendas, e a todas as reputações de historiadores burlões e de críticos trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora isso leve anos, embora decorram séculos.
Na defeza da causa que prosseguimos, que é nobre e justa, não nos animam quaesquer intuitos de evidenciação, não nos move qualquer mesquinho sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos contribuir com o nosso esforço de modestos obreiros das letras para desfazer um erro que a ignorância engendrou, que a rotina não-te-ralesca impôs como um dogma, e que a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Theóphilo Braga persiste em sustentar, a torto, que não a direito,
impondo-o
autocraticamente a quantos vêem no professor do Curso Superior de Letras o pontífice máximo, ditador inviolavel e sagrado da Republica... das letras portuguêsas.
II O snr. dr. Theóphilo Braga, descobrindo a verdade, e procurando enterrá-la
Ao preparar os materiaes para a refundição de seu livro sobre Bernardim Ribeiro, o snr. dr. Theóphilo Braga teve ensejo de reconhecer que a figura do
trovador
Cristovam Falcão era mero produto de uma lenda, mas não teve a coragem precisa para vir a público declarar que tinha errado ao dar á estampa o seu primeiro volume sobre os poetas bucolistas, em que, seguindo a rotina, dera existência real ao suposto poeta, que já havia classificado de
ultimo eco do alaúde provençal, modificado pelo gosto hespanhol de
Padron
e Stuniga
.
[3]
E não querendo confessar que errara, como se semelhante facto constituisse desdoiro ou apoucasse de qualquer fórma seus méritos, o autor do livro
Bernardim Ribeiro e o Bucolismo
procurou, por um processo que não nos atrevemos a chamar genial, enterrar a verdade, sepultando-a sob um pedregulho enorme, para que ali dormisse um sono de séculos, tantos séculos pelo menos como a lenda contava, para que, assim, ninguem pudesse aludir ao erro em que se deixara enredar o professor do Curso Superior de Letras.
Como o snr. dr. Theóphilo Braga procedeu, vão os leitores conhecer, e depois ficarão habilitados a julgar da sinceridade com que o infatigavel escritor impugna o nosso livro sobre o poeta
Crisfal
.
A pag. 356/7 do seu livro
Bernardim Ribeiro e o Bucolismo
, na parte respeitante a Cristovam Falcão, escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga:
«O primeiro documento historico que encontramos acerca do poeta, de um modo irrefragavel, é datado de 1517; é uma graça régia motivada talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraçada paixão, ou apparentemente pelos serviços de seu pae. Em um alvará ao Almoxarife de Coimbra foi passada ordem para que dê o rendimento d'este anno de 1517 a Christovam Falcão: 97:000 réis. Recebeu-os o seu procurador Mestre Jorge.»
Como se vê da transcrição feita, o autor declarava que o documento invocado referia-se ao suposto poeta
de um modo irrefragavel
, isto é: «
irrecusavelmente, incontestavelmente
.» Esse documento dizia respeito, segundo inculcava o snr. dr. Theóphilo Braga, a
uma graça régia
, mercê de
97$000 réis
, concedida ao suposto bardo
talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraçada paixão, ou apparentemente pelos serviços de seu pae
.
Ora fazendo taes afirmativas, autoritária e catedraticamente, o snr. dr. Theóphilo Braga abusava da boa fé dos seus leitores, por isso que s. ex.
a
muito bem conhecia que estava deturpando a verdade, a seu bel-prazer, que nada d'aquilo que apregoava como autêntico era verdadeiro.
Nem o alvará de 1517 dizia respeito ao suposto poeta, nem semelhante alvará mencionava a verba de 97$000 réis.
Tratava-se de uma tença de 97$734 reis (resultante de dois padrões) que pertencia a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, e não ao suposto poeta Cristovam Falcão de Sousa.
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a existência dos dois padrões constituitivos da referida tença?―Não ignorava. E a prova de que os não desconhecia está nas citações que s. ex.
a
faz a paginas 331/2 do seu mencionado livro, atribuindo-os a quem eles diziam respeito, isto é a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, que nada tinha que ver com o suposto poeta, como o snr. dr. Theóphilo Braga, de resto, muito bem estabelecia.
Mas a existência de uma tença de 97$000 reis, pelas alturas de 1517, a favor de Cristovão Falcão de Sousa, comprovaria de certo modo a data em que o snr. dr. Theóphilo Braga fixou habilidosamente o nascimento do
ultimo eco do alaúde
, e permitia ao fantasioso escritor justificar tam rasgada mercê régia atribuindo-a á
sympathia que suscitava a sua desgraçada paixão
.
D'esta maneira, servindo-se de um alvará que não dizia respeito ao suposto poeta, e alterando-lhe caprichosamente a quantia mencionada, o snr. dr. T. Braga creava um
recurso histórico
graças ao qual os discípulos do professor do Curso Superior de Letras podiam aceitar que pelas alturas do ano da graça de 1517 já existia um afamado poeta com o nome de Cristovão Falcão, tam desventurado em seus amores que el-rei, compadecido, lhe fizera mercê da tença, verdadeiramente principesca, de 97$000 réis! E sucedendo um
caso
d'estes em nossos dias, ainda ha quem ache estranho que Faria e Sousa e frei Bernardo de Brito improvisassem (é este o termo próprio?) documentos... históricos!
Ao publicarmos o nosso trabalho sobre Bernardim Ribeiro, não salientamos devidamente estes pouco recomendaveis processos do snr. dr. Theóphilo Braga, poupando, com generosidade, o nome do encanecido trabalhador, em respeito aos seus cabelos brancos.
E á nossa manifesta generosidade correspondeu o aclamado professor apodando os nossos processos críticos de:―processos... á tôa!
Que nome conceder a esses processos do snr. dr. Theóphilo Braga?
Mas não ficaram por aqui as habilidades de que se serviu o autor da
Historia da Litteratura Portugueza
. E chamamos-lhes
habilidades
, por não encontrarmos á mão um termo mais anodino, mais suave, mais doce, para definir o feito, e não por qualquer propósito agressivo.
Existem na Torre do Tombo cartas autógrafas do suposto autor do
Crisfal
. A simples publicação d'essas cartas constituiria um golpe decisivo na lenda que atribuia produções de Bernardim Ribeiro a Cristovão Falcão de Sousa, por isso que taes documentos revelam que este, alem de iletrado, não escrevia meia dúzia de linhas sem uma enfiada de asneiras...―«
uma acumulação de tolices
», no dizer insuspeito de uma ilustre escritora.
Que fez o snr. dr. Theóphilo Braga?
Publicou essas cartas, alterando-lhe,
paternalmente,
a ortografia e a gramática, e deixando assim transparecer que o autor de taes escritos poderia muito bem ter produzido as poesias bucólicas que lhe atribuiam.
Para que se não ajuízasse que faziamos uma afirmação gratuita ao dizer que o snr. dr. Th. Braga publicara
emendada
a obra... em prosa de Cristovam Falcão, démos no volume
Bernardim Ribeiro
(O Poeta Crisfal) uma reprodução foto-zincográfica de uma das cartas do suposto poeta, e, não desejando colocar n'uma situação pouco invejavel o professor do Curso Superior de Letras, escrevemos, procurando desculpar o seu procedimento:
«........o copista, a quem o distinto professor encarregou de reproduzir o documento existente na Torre do Tombo, forneceu-lhe uma reprodução com summa deligencia emendada, que o snr. dr. Theóphilo, com a melhor boa fé, estampou no seu livro, e que muito se afasta do original.»[4]
Nem na sua comunicação á Academia das Sciências de Portugal, nem no seu artigo do jornal «O Dia», nem na carta que nos dirigiu, se referiu, embora ao de leve, o snr. dr. T. Braga á carta de Cristovam Falcão de Sousa... Compreende-se. O documento é tam esmagador, que o infatigavel polígrafo foge d'ele como dizem que o diabo foge da cruz.
Mas, embora isso não agrade a s. ex.
a
, vamos dar aqui a reprodução paleográfica de outra carta de Cristovam Falcão de Sousa, devendo elucidar os leitores que o snr. dr. Theóphilo Braga já deu publicidade a tal documento a pag. 368/70 do seu
Bernardim Ribeiro
(edição refundida). Mas deu-lhe publicidade:
emendando-o
...
Como não temos a peito celebrizar o alto engenho e mais partes que concorriam na pessoa do suposto poeta, reproduzimos a carta fielmente, e, para desfazer algum erro de leitura ou qualquer
gralha
que passe á revisão, juntamos em foto-gravura o seu
fac-simile
.
Eis a carta:
[Figura: Reproducção foto-zincográfica da carta de Cristovam Falcão de Sousa]
«Sñor. mjnha jrmã dona bracajda faleceo da ujda presemte a dez dias deste mes pasado estando eu nesa corte ẽ serujço de v. a. onde me foy a noua pera [~q] viese prover ẽ algũas cousas da su alma por me ela dejxar por seu testamẽtejro cõ seu marido ejtor de figuejredo. fiquou-lhe hũ só filho e doutro marido [~q] deste não ouve nenhũ e tão Riquo [~q] me dizẽ que foy posta a fazẽda de seu pay quãdo faleceo (que eu não era no Rejno) ẽ doze contos. fez meu pay antes [~q] eu de la partise petição a uosa a. [~q] lhe mãdase ẽtregar seu neto e tirar de poder de seu padrasto. sayo lhe na petição [~q] Requerese ao Juiz dos orfãos da uila donde ho moço está que he borba donde seu padrasto he natural e alquajde mor pelo duque de bragança e que ele prouerja e que não no fazẽdo proverja ẽtão vosa a. a qual deligẽcia eu tenho fejto que Requery ao Juiz [~q] lho tjrase de poder e que fose loguo por [~q] eu tjnha sabjdo [~q] eitor de figueiredo detremjnaua quasar ho moço cõ sua f.
a
no fim deste mes ẽ que lhe diziã que ho moço faz quatorze anos pera ho matrimonjo ser valioso. mãdou ho Juiz dar ujsta de meu Requerim.
to
a eitor de figueiredo e njsto e ẽ ele Responder pasaram ojto dias e nestes me fizerão mujtos agrauos alomgãdo me ho tempo e me fizerão perdediça hũa petjção dagrauo na qual agrauaua pera v. a. apresemtandoa eu ẽ audiencja onde foy lida e jsto tudo por ele ser alquajde mor e ser toda a ujla de seus paremtes e criados e por [~q] da li não pasão os agrauos se não pera ho ouujdor do duque onde tão bẽ me deterjão pera ho moço chegar ao termo dos quatorze anos detremjney dejxar a cousa neste termo e fazelo saber a v. a. pera [~q] proueja njsto como lhe parecer serujço de deos e seu que mjlhor proueja [~q] pois tẽ tal fazẽda que v. a. ho quase cõ quẽ ouuer por seu serujço [~q] não [~q] ho orfão seia asy Roubado. no que v. a. deue loguo prouer como pay dos orfãos [~q] he quanto mais [~q] quarega jsto sobre cõcjẽcja de v. a. por hũ alu.
rá
que vosa a. pasou a ejtor de figueiredo ao tẽpo [~q] quasou cõ mjnha Jrmã pelo qual tjrou a titorja a meu pay de seu neto por lha dar a ele. ao qual agora ajnda se pega, como se não fose cerada a cousa por morte de mjnha Jrmã. e o [~q] me parece [~q] se deue fazer he pasar v. a. logo alu.
rá
por esta quarta [~q] pode serujr de petjção, [~q] polo qual mãde a hũ dos quoReiadores destremoz elvas ou por talegre [~q] qualquer deles va a borba e tjre ho moço de poder de seu padrasto e ẽtregue sua p.
a
a meu pay seu auô ou a meu jrmão barnabé de sousa [~q] tẽ fazẽda p.
a
ho mjlhor mãter [~q] biue ẽ portalegre onde ho moço tẽ parte de sua fazẽda e lhe he já dado por tutor desta fazemda e despois do moço tjrado prouer v. a. ẽ quẽ seia seu tutor e seja ouujdo ejtor de figuejredo das Rezomis [~q] diz ter pera [~q] ho moço quase cõ sua f.
a
mas jsto deuela ser amte v. a. [~q] qua não sey quãto se gardara Justiça e ho aluará pode v. a. mãdar dar a demjão de sousa meu irmão [~q] la amda [~q] ele ho fará vir cõ mujta deligẽcia [~q] eu fiquo qua esperamdo p.
a
ho Requerer e apresemtar. e lẽbro mais a uosa a. [~q] mãde ao mesmo coReiador que ẽtẽda nas partjlhas e jmbẽtajro [~q] doutra manejra será Roubado ho orfão e asi [~q] o tẽpo aquaba p.
a
fim deste mes e eu s.
or
neste trabalho nõ pretendo mais [~q] fazer ho [~q] deuo e tenho dejxado os Requerjm.
tos
que trago cõ v. a. ẽ mão de fernão daluarez peço a v. a. que nõ perqua por ausente de ser despachado. a quẽ deos a ujda e Real estado acrecẽte. de portalegre sete de novembro. as Reajs mãos de v. a. bejjo. xpouão falcão de sousa.»
[5]
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ao leitor deixamos a faculdade de comentar a carta
primorosa
do sarrafaçal engenho que durante alguns séculos gosou da fama de poeta insigne, em prejuizo do nome aureolado de Bernardim Ribeiro.
III Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga
1
«A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Não ha a menor dúvida quanto á primeira parte d'esta afirmação.
Com efeito, o snr. dr. Theóphilo Braga esboçou uma biografia de Cristovam Falcão, e ninguem ousará contestar-lhe o mérito de haver sido o Plutarco do suposto trovador.
Esboçando-lhe a biografia, o abalisado professor de literatura serviu-se de documentos autênticos... mas utilizando alguns que não diziam respeito ao pseudo-poeta, e sim a um outro Cristovam; e interpretando, modificando e adulterando outros documentos ao sabor do seu paladar, ao capricho da sua fantasia.
No capitulo XIX do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro destrinçamos os documentos históricos que o snr. dr. Theóphilo Braga propositadamente confundiu, e restabelecemos o texto de uma das cartas de Cristovam Falcão de Sousa que o habil professor
emendara
, com o zelo de Plutarco cioso do bom nome do seu heroe... lendário.
No
segundo
capítulo d'este livro, ficou tambem fielmente reproduzida outra carta de Cristovam Falcão, que o infatigavel historiador havia
corrigido
, como se se tratasse de um tema de algum discípulo seu. Mesmo quando se entrega a trabalhos de reconstituição histórica, o snr. dr. Theóphilo Braga não se esquece de que é professor de literatura portuguêsa!
Depois de isto, como ousa o snr. dr. Theóphilo Braga invocar os documentos autênticos de que tam mau uso fez?
2
«Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Tem graça, e não ofende!
Se leu imediatamente o nosso livro, não foi para ver que novos subsídios forneciamos para o estudo da história da literatura portuguêsa, mas sim para conhecer quaes os materiaes que lhe facultariamos para o aperfeiçoamento do seu trabalho...
Cabe n'esta altura, a talho de foice, deixar consignada certa passagem de uma palestra que o snr. dr. Theóphilo Braga teve com um dos seus mais inteligentes discípulos a propósito da publicação do nosso livro sobre Bernardim Ribeiro:
«V. compreende... Eu sou como um mestre de obras... na construção de um edificio. Ha vários pedreiros... Vão-me chegando ás mãos diversas pedras... Aproveito aquelas que se me afiguram de feição, geitosas, convenientes para a minha obra, e as outras ponho as de parte, deito-as fóra.»
E a um distinto confrade nas letras, ainda por motivo da publicação do nosso livro, o professor do Curso Superior de Letras teve ensejo de referir-se á nossa obscura pessoa, fazendo o favor de nos reconhecer talento, mas...
que os estudos de investigação histórica eram umas teclas muito dificeis, muito complicadas
...
O apreciado
mestre de obras
(segundo a frase de s. ex.
a
) escusava de ter lido o nosso trabalho. O sub-título do livro,
O Poeta Crisfal
, demonstrava suficientemente ao snr. dr. Theóphilo Braga que nenhuma pedra de feição poderiamos proporcionar-lhe para o
aperfeiçoamento
da sua obra, porque o nosso livro lhe atirava a terra com os alicerces em que se firmava o edificio... ou monumento erguido ao falso
Crisfal
.
Foi um castelo de cartas que um sopro deitou ao chão...
Oh! os estudos de investigação histórica são realmente... umas teclas muito complicadas!
3
«Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Não escrevemos tal no prólogo do nosso livro que o snr. dr. Theóphilo Braga aproveitaria d'ele
tudo quanto se prestasse a futuras emendas
.
O que nós escrevemos a pag. 24 do nosso estudo sobre Bernardim é o período que segue:
«Embora, em resultado da nossa descoberta, o snr. dr. Theóphilo Braga tenha de refundir mais uma vez os seus trabalhos sobre Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda, estamos plenamente convencidos de que ninguem estimará mais do que o incansavel professor do Curso Superior de Letras a luz derramada sobre a figura do grande poeta bucolista, amigo de Francisco de Sá.»
Nas linhas transcritas, o que havia da nossa parte era um cumprimento de cortesia,―uma gentileza, uma amabilidade, própria de quem, não tendo qualquer agravo do snr. dr. Theóphilo Braga, procurava colocar s. ex.
a
em bom terreno, oferecendo lhe, por assim dizer, uma ponte, uma táboa de salvação, pela qual, sem quebra de linha, o escritor consagrado pudesse atravessar, reconhecendo, ou fingindo reconhecer, o mau terreno que estava pisando, e abraçando honestamente a verdade evidenciada.
Era um cumprimento, repetimos; não um acto de justiça, que a ele não tinha jus o infátigo escritor. E da mesma natureza, no decurso do nosso trabalho, outras demonstrações de cortesia ficaram assinaladas, prestando homenagem á vida laboriosa do escritor encanecido cujos erros combatiamos.
Mas como as amabilidades se agradecem, e os actos de justiça não são credores de qualquer agradecimento, aprouve ao snr. dr. Th. Braga ver nas nossas palavras um acto de justiça.
Não lhe queremos mal por isso, pode crer o venerado professor.
Cada qual segue os impulsos do seu temperamento.
4
«Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, sendo ambos muito crianças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Quando chegámos a esta altura da preciosa carta do snr. dr. Theóphilo Braga ficamos verdadeiramente surpreendidos, para não dizer boquiabertos!
Lemos e tornamos a ler o período transcrito, pesamos detida e pacientemente cada uma das palavras que o constituem, e, ao cabo, alcançamos o convencimento de que uma tal afirmação constituia uma habilidade, um processo, uma engenhoca,―deixem chamar-lhe assim, embora o termo destôe, por menos académico,―a que o professor de literatura recorria para não confessar ter sido o nosso trabalho que o obrigava a aceitar o nascimento do suposto poeta no fim do primeiro quartel do seculo XVI.
Fôra pelas noticias genealogicas trazidas pelo snr. Braamcamp Freire sobre D. Maria Brandão que o snr. dr. Theóphilo Braga, conforme nos escrevia, se vira forçado a não insistir no nascimento do pseudo Crisfal no ano de 1497, se não antes!
Mas como podia isto ser, se o trabalho do ilustre escritor invocado pelo snr. dr. Theóphilo ainda não fôra dado á estampa?
Teria o professor do Curso Superior de Letras recebido qualquer comunicação sobre o assunto por parte do snr. Anselmo Braamcamp Freire?―Não, não tinha recebido, como o demonstram eloquentemente os seguintes períodos de uma carta que em 5 de dezembro de 1908 nos dirigiu, em resposta a uma nossa, o primoroso director do
Archivo Historico
:
«Vamos agora á sua pergunta de hoje originada pela carta do dr. Teofilo Braga. Elle não conhece nada do meu trabalho sobre a Maria Brandoa, e faça-me a justiça de crer que, não lho tendo mostrado a si, não o mostraria a mais ninguem. Não lho mostrei a si, porque nas 150 paginas já impressas, de que em breve lhe mandarei um exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos Brandões do Cancioneiro e da Feitoria de Flandres.»
Depois da transcrição d'estas linhas, eloquentes e insuspeitas, do snr. Braamcamp Freire, tornam-se desnecessários de nossa parte quaesquer comentários á afirmação sem base do snr. dr. Theóphilo Braga.
Passemos adeante sobre este caso triste!
5
«Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as relações pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V. acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as relações com Cristovam Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim Ribeiro.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Pelo exposto, entende o snr. dr. Theóphilo Braga que nós lhe demos elementos para uma melhor interpretação das éclogas de Bernardim, o que importa implicitamente a afirmação de que não soubemos interpretá-las, ou que erramos a exegese com que julgavamos ter corrigido as lições ministradas pelo ilustre professor.
Aguardemos, pacientemente, que o snr. dr. Theóphilo Braga refunda mais uma vez o seu livro sobre Bernardim Ribeiro, para então apreciarmos as novas interpretações que o imaginoso historiador se propõe apresentar das éclogas de Bernardim, e ficarmos tambem conhecendo quaes os
centões e intercalações
de versos de Ribeiro que o novel Falcão introduziu nas suas produções... em prosa, únicas que obrou. Obrou, no sentido de: produziu, claro está.
6
«Ha uma affirmativa histórica, de Diogo do Couto, na sua Decada VIII, que fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: «irmão de Cristovam Falcão, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas de Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Cristovam Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Cristovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se repete a attribuição «que dizem ser de Cristovam Falcão, ho que parece alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos genealogistas.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
A habilidade, ou antes o processo habilidoso, ou, melhor, a tendenciosa redacção d'estes períodos não consegue iludir ninguem... Julgou talvez o snr. dr. Theóphilo Braga que nos desnortearia com esta subtileza de processos... críticos. Tal não conseguiu, como terá de reconhecer no foro íntimo da sua consciência.
Vamos por partes:
Foram os editores de Ferrara e Colónia que propagaram pela imprensa a lenda de que a paternidade da carta e ecloga de Crisfal era atribuida a Cristovam Falcão, e, fazendo-o, limitaram-se, com honestidade, a escrever: «que dizem ser... ao que parece aludir o nome da mesma ecloga». Ao contrário do que o snr. dr. Theóphilo Braga procura fazer incutir, tendenciosamente, os editores citados não repetiram uma atribuição de homens de letras do seculo XVI...
Os homens de letras do seculo XVI é que repetiram, fazendo-a certa, a atribuição feita com reservas pelos editores das obras de Bernardim Ribeiro em 1554 e 1559. Aceitaram por boa, sem se darem ao trabalho de a verificar, uma simples atoarda.
Quem eram os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro?
Di-lo, judiciosamente, o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que vamos analisando:
Eram «
curiosos sem critério literário
».
Será a estes obscuros obreiros do século XVI que o laureado professor quer guindar á categoria de homens de letras com foros de autoridades?
Não, os editores de 1554 e 1559 foram realmente creaturas sem o menor critério literário, e por isso deram alentos á lenda forjada pelo vulgo; mas não resta a menor dúvida de que eram pessoas de bem, porque consignaram uma
tradição vaga
, sem se atreverem a registá-la como um facto positivo, indiscutivel, incontroverso. A cobrir a sua responsabilidade de editores conscienciosos, lá estamparam: «que dizem ser... ao que parece aludir.» Outros fossem eles, que asseverassem que as duas produções, carta e écloga, pertenciam a Cristovam Falcão incontestavelmente, irrefragavelmente!
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga que os editores da obra de Bernardim Ribeiro, ao produzirem as rúbricas respeitantes ao suposto autor do Crisfal, mencionavam apenas uma atoarda, uma vaga tradição?
Não; o venerado professor não ignorava isso. Testemunha-o o que s. ex.
a
escreveu a paginas 21 da sua chamada edição crítica das obras de... Cristovam Falcão:
«As rubricas do editor de Colonia, encerram as tradições vagas, que, passados nove annos, ainda corriam ácerca d'aquelle infeliz namorado.»
Para que veio pois o snr. dr. Theóphilo Braga asseverar que
tambem nas edições de Ferrara e de Colonia se repete a atribuição
?
Mais diz o apreciavel escritor que «não se podem refutar por negativa» as atribuições que Diogo do Couto e Frutuoso fizeram, repetindo
como certo
o que os editores das obras de Bernardim registaram
sob reservas
.
Não se podem refutar por negativa, não; mas podem refutar-se cabalmente, pondo em confronto da obra poética atribuida a Cristovam Falcão a obra em prosa que ninguem ousará disputar ao suposto trovador.
E a admitir alguem, de reconhecida inteligência e critério, que o autor das cartas em prosa podia ser o poeta da Carta e da Ecloga de
Crisfal
, o mesmo equivaleria a aceitar como razoavel que Rosalino Candido pudesse firmar as obras do snr. dr. Theóphilo Braga, e que, consequentemente, o laureado professor de literatura fosse capaz de produzir a obra gigantesca de Victor Hugo.
É realmente desolador, para a fabula consagrada, que a Torre do Tombo conserve os autógrafos de Cristovam Falcão de Sousa!
7
«A ecloga de Crisfal não podia ser publicada pelo seu autor, nem pelo seu consentimento porque era uma inconfidencia de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Esta bizarra revelação do snr. dr. Theóphilo Braga constitue, naturalmente, uma desenfastiada brincadeira de s. ex.
a
.
Pois qual é a obra
lírica
onde se não encontrem
inconfidências
semelhantes ás da ecloga de Crisfal?
O snr. dr. Theóphilo Braga, que aos catorze anos já se entregava a devaneios poéticos, não deixou certamente de dar publicidade a versos em que foi decantada alguma dama unida pelos laços matrimoniaes... E estamos convencidos de que ninguem chamou
inconfidências
aos suspiros poeticos do trovador açoreano. As inconfidências não servem de tema ás locubrações dos vates; onde existe arte, no bom sentido da palavra, não ha inconfidências, embora n'este ponto estejamos em absoluta discordância com a doutrina exposta pelo professor do Curso Superior de Letras.
Em toda a obra, prosa ou verso, de Bernardim Ribeiro, vive, palpita, a história ingénua da sua vida, o trama dos seus mal-aventurados amores por uma dama que trocou a afeição do poeta pela de um outro zagal. Foi um inconfidente o magoado Bernardim?―Não, foi um artista, foi um poeta apaixonado, alma de eleição que da sua dor fez um poema, como diria Goethe. E que adoravel e sentido poema nos legou o grande poeta bucolista!
Mas não vale a pena insistir mais n'este ponto. A afirmativa do snr. dr. Theóphilo Braga constitue, naturalmente, um gracejo inofensivo de s. ex.
a
.
8
«A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Cristovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em 1547 na Carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do Crisfal, que então andava no gosto.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Reproduzamos aqui o que o autor da
Historia da Litteratura Portugueza
escreveu a paginas 394/5 do seu volume
Bernardim Ribeiro
(edição refundida):
«N'esta folha volante não vem a Carta, nem as Cantigas e Esparsas incluidas na edição de Colonia. Parece mais uma vulgarisação popular, talvez uma das muitas que tornaram a Ecloga muy nomeada, e de que a reprodução de 1571, feita em Lisboa (existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que serviu para a reprodução de 1619, em que apparecem elementos só conhecidos pela edição de 1559. «A folha volante sem data diverge do texto de Colonia profundamente; basta observar as variantes entre as lições das estrophes 51 e 52. Attribuimos a impressão das Trovas de Crisfal, a 1536, quando appareceram tambem em folha volante as Trovas de Dois Pastores (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro. «A vinheta do Pastor com capuz e cajado no Crisfal é a mesma que serve nas Trovas de dois Pastores; o typo gothico corpo 12 do titulo do folheto de 1536 é o empregado no texto do Crisfal. Tambem a vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em outra folha volante de 1536, intitulada Tragedia de los amores de Eneas y de la reina Dido.»
Procedemos ao mesmo exame a que o snr. dr. Theóphilo Braga sujeitou o
pliego-suelto
, e chegamos a egual conclusão. Algumas vezes nos haviamos de encontrar em concordância de vistas com s. ex.
a
. E porque o nosso pensar sobre o assunto egualava o do ilustre professor, escrevemos a pag. 119 do livro
Bernardim Ribeiro
(O Poeta Crisfal), aludindo ao folheto sem indicação de data nem de lugar de impressão:
[Figura]
«...mas reconhecendo-se, pelo confronto com outros folhetos, ser de 1536).
«Como muito bem observou o snr. dr. Theóphilo Braga, etc.»
Seguiu-se a transcrição do parágrafo do snr. dr. Th. Braga que atrás reproduzimos.
Mudou o abalisado professor de opinião quanto á data do
pliego-suelto
, querendo agora fixar-lhe o ano de 1542, como poderia fixar-lhe o de 1552 ou 1562, arbitrariamente.
Se ao menos s. ex.
a
tivesse a condescendência de indicar-nos quando seguiu os
processos inductivos da crítica moderna
! Ao fixar a data de 1536 ou quando arbitrou a de 1542?
Em folha apensa, damos uma reprodução foto-zincográfica das primeiras páginas dos tres folhetos que levaram o snr. dr. Theóphilo Braga a fixar a data da primeira edição conhecida das
Trovas de Crisfal
em 1536.
Se nos perguntarem se estamos dispostos a quebrar lanças para sustentar a antiga opinião do historiador da
Litteratura Portugueza
, responderemos, com toda a franqueza, negativamente. O que não podemos admitir é que se procure agora determinar-lhe
com precisão
a data de 1542, com o simples fundamento de que n'esse ano estava em Roma o seu suposto autor...
Alude o snr. dr. Theóphilo Braga ao facto de Camões empregar versos do
Crisfal
.
A explicação, a nosso ver, é muito simples:
Em Faria e Sousa, o insigne fabulista, autor muito da predilecção do snr. dr. Theóphilo, encontra-se uma afirmativa, que constitue em nosso juizo uma das raras que merecem algum crédito, não obstante a impureza da
fonte
.
Referindo-se a Bernardim Ribeiro, escreveu Faria e Sousa: «poeta bien conocido y a quien llamava su Enio el divino Camões.»
Não desconhece isto o professor do Curso Superior de Letras, porque a pag. 131 da primeira edição do seu
Bernardim Ribeiro
reproduziu da
Fuente de Aganipe
o dizer de Faria.
Como demonstrámos no volume sobre o
Poeta Crisfal
, Camões glosou o magoado solau da
Menina e moça
, de Bernardim Ribeiro.
Em uma das cartas atribuidas ao cantor dos
Lusiadas
, encontra-se uma alusão directa ao autor das
Saudades
, indicando-lhe o nome:
Bernardim Ribeiro
.
Se Bernardim era o seu
Enio
, naturalíssimo é que Camões se deixasse influenciar pelo Mestre, imitando alguns dos seus versos.
A não ser que o snr dr. Theóphilo Braga queira concluir que, sendo Bernardim o
Enio
de Camões, Cristovam Falcão era o
Enio
numero 2 do mesmo poeta,―assim a modos de um
Enio
barato, para trazer por casa.
Prossigamos...
9
«Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma inconfidencia. Isto leva a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Salvo erro, o snr. dr. Theóphilo Braga quer referir-se apenas a uma, e não a duas estrofes.
E á estrofe que reza:
Muitos pastores buscaram mas um pastor por ser-te amigo, e outro por ser-te enemigo, um e outro se escusaram. E dão-lhe logo comigo gados que farão mil queijos; mas como se despediam é já mostrar que temiam que o sabor dos teus beijos na minha boca achariam!
Falava-se em
beijos
... Era uma
inconfidência
, e gravíssima, e por isso a estrofe foi suprimida nas edições de Ferrara e de Colónia! Está claro, e tam claro que, no dizer do snr. dr. Th. Braga, «
isto leva a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga
...»
Ora admitindo por um momento que Cristovam Falcão houvesse sido poeta, e tivesse a lembrança de escrever uma écloga abundante em
inconfidências
, pespegava-lhe, sem mais nem menos, com um anagrama deduzido das primeiras sílabas do seu nome, para que toda a gente logo o apontasse a dedo como
inconfidente
?
De mais a mais, como quer o snr. dr. Th. Braga na sua exegese, se o suposto poeta empregasse os nomes verdadeiros de todas as personagens que a écloga alvejava, isso constituiria um
apagamento
de paternidade muito pouco apagado...
Todo o mistério, o discreto veu da fantasia, a cobrir a realidade dos episódios que a écloga do
Crisfal
menciona, equivaleria á ingenuidade infantil d'aquela antiga adivinha: «Branco é, galinha o põe»!
Ponha se o snr. dr. Th. Braga no lugar do pseudo-trovador, imagíne que resolvia arquitectar uma écloga cheia de
inconfidências
, e diga-nos, com franqueza, se, desejando apagar a paternidade de um tal feito, assinaria a sua produção com o anagrama
Theobra
?
Logo os seus discípulos concluiriam, triunfalmente: «Cá temos mais um poema do Mestre!» E fosse lá s. ex.
a
convencê-los de que não era tal o autor da
inconfidência
!
10
«Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na decadencia.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Com o respeito devido ao professor de literatura, de modo nenhum podemos aceitar a sentença de s. ex.
a
A
subtileza
do snr. dr. Theóphilo Braga, proclamando que os lugares comuns a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discípulo do que á fusão dos dois poetas, é da natureza do conhecido artifício pelo qual se póde sustentar que cinco vintens não são um tostão, ou vice-versa!
Admitindo que Cristovam Falcão tivesse sido um imitador de Bernardim, como quer o abalisado professor, explica-se porventura que levasse tam longe a sua improbidade literária, que roubasse por inteiro versos e cantigas ao seu mestre, com a maior desfaçatez? Pois o autor da
Carta
e da
Eclóga de Crisfal
, a ser um imitador, não teria o bom senso suficiente para reconhecer que, roubando versos de Bernardim, não alcançaria renome de poeta, mas o apodo de salteador literário?
Um imitador, por mais inexperiente e tacanho, não se aproveita dos textos que imita de maneira a que lhe possam apontar os versos
palmados
. Ou não será isto o que a lógica permite conjecturar?
Como ignoramos
os processos inductivos da critica moderna
, é possivel que estejamos em erro, e que da mesma ignorância resulte não alcançarmos o sentido das palavras do snr. dr. Theóphilo Braga quando afirma que o mestre (Bernardim Ribeiro) se repetiu na decadência.
Que repetições? e que decadência?
11
«Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em situações differentes.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que, pacientemente, estamos anotando.
É verdadeira esta afirmativa?
―Não, não é verdadeira, e o professor do Curso Superior de Letras sabe muito bem que o não é.
Em 1897, ao publicar a sua edição refundida do livro
Bernardim Ribeiro
, confrontando versos de Bernardim com os atribuidos a Cristovam Falcão, escreveu o professor de literatura.
«Vê-se que á medida que
a situação dos amores de Bernardim Ribeiro seguia o mesmo desfecho dos amores de Cristovam Falcão
, os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se salvaram as poesias do auctor do
Crisfal
.»
[6]
Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz s. ex.
a
, procurando agarrar-se a uma boia salvadora...
Mas tanto a paixão é uma só que o snr. dr. Theóphilo Braga, na écloga em que Bernardim se personifica sob o nome bucólico de
Persio
, viu n'essa personagem
Cristovam Falcão
! E estamos em crer que o ilustre professor não irá agora sentencear que a écloga primeira de Bernardim tambem foi elaborada pelo suposto trovador...
Pois se o snr. dr. Theóphilo Braga até concluiu que tanto Bernardim como Cristovão Falcão sofreram as agruras do
carcere privado
!
Como póde suceder que o distinto escritor já se não recorde do que escreveu a pag. 76/78 da sua edição refundida do livro «Bernardim Ribeiro», arquivemos aqui algumas das suas passagens:
«...Não ignorava Bernardim que o namorado de Maria tambem estivera em carcere privado:
Vi-me já preso; contente A meu mal queria bem.
«Na Carta, que escreveu estando preso, e mandou áquella com quem estava casado a furto, diz Christovam Falcão:
Mal cuja dor se não crê de prisão e de ausencia! Bem se enxerga nos meus danos que estou preso ha cinco annos, afóra os que heide estar...
«Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro:
Logo então começou Seu gado a emagrecer, Nunca mais d'elle curou, Foi-se-lhe todo a perder Com o cuidado que cobrou.
«Em Christovam Falcão lê-se:
Crisfal não era entam dos bens do mundo abastado, tanto como de cuidado, que por curar da paixão não curava do seu gado.
«E continuando o parallelismo, por onde se vê que os dois poetas eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais estes traços com que Bernardim Ribeiro retrata o Crisfal:
Sentava-me em um penedo Que no meio d'agua estava; Então alli só e quedo A minha frauta tocava.
«E no Crisfal, quasi pela mesma maneira:
Alli sobre uma ribeira de mui alta penedia, d'onde a agua d'alto caía, dizendo d'esta maneira estava a noite e o dia...
«Bastam estas comparações para se reconhecer a communhão artistica entre os dois namorados poetas.»
Depois de haver escrito o que acaba de ler-se, como se compreende que o snr. dr. Theóphilo Braga venha proclamar, com a maior sem-cerimónia, que ha
dois schemas de paixão amorosa que se não confundem
!
Quanto a
Fauno
, nome pastoril que, em uma das éclogas, Bernardim dá ao seu amigo, confidente e colega Francisco de Sá de Miranda, quer o snr. dr. Theóphilo Braga que seja a personificação do próprio B. Ribeiro,―talvez para não confessar que nós acertamos na interpretação apresentada no
Poeta Crisfal
.
Temos certa curiosidade em saber se na futura refundição do livro sobre os poetas bucolistas o seu autor transferirá para Sá de Miranda o crisma de
Persio
, na impossibilidade de continuar a ver na mesma figura os traços de Cristovam Falcão...
De uns versos de Francisco de Sá, imitando uma canção de Petrarca, já o ilustre professor concluiu que o amigo de Bernardim sofrera a prisão, por motivo de amores... É meio caminho andado para que, na fantasia de s. ex.
a
, o douto Sá de Miranda vá tomar o pouso do derreado Falcão.
A ver vamos... como dizia o cego, e cada vez via menos!
12
«Através de todo o hypercriticismo, o livro sobre Bernardim revela um trabalhador fervoroso, etc.»
Carta do snr. dr. Th. Braga.
Duas palavras apenas:
A nosso juizo, aquele
através
está a substituir, amavelmente, o advérbio
apesar
... É o que julgamos depreender da sequência da frase.
No nosso modesto e desvalioso estudo, o snr. dr. Theóphilo Braga apenas viu
hipercriticismo
, o que de modo nenhum póde agradar ao historiador da
Litteratura Portugueza
, que só emprega os modernos processos da crítica scientífica,―graças aos quaes... se vê obrigado a refundir amiude os seus trabalhos!
Continuaremos, impenitentes, a cultivar o
hipercriticismo
, deixando ao snr. dr. Theóphilo Braga o uso exclusivo dos seus processos, que não nos seduzem, com toda a franqueza o dizemos.
IV A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal
No seio da sociedade scientífica e litéraria, de que é ilustre presidente, proclamou o snr. dr. Theóphilo Braga, á porta fechada, isto é, em reunião privativa dos sócios d'aquela Academia, que a vida amorosa de Cristovam Falcão «
oscila entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos
».
Cristovam Falcão de Sousa era moço fidalgo em 1527, como se demonstra indubitavelmente pelo registo exarado n'um livro que existe no arquivo da Torre do Tombo, registo que reproduzimos com fidelidade a paginas 168/9 do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro.
Na sua erudita comunicação á Academia das Sciencias de Portugal, afirmou o snr. dr. Theóphilo Braga que o suposto autor do
Crisfal
tinha
pelo menos 12 anos á data de 1525
...
Não indicou o douto académico o documento ou
recurso histórico
, em que se estribava para sentencear, sem admitir réplica, que o pseudo-trovador tinha
pelo menos 12 anos á data de 1525
, mas é possivel que s. ex.
a
esteja munido de concludentes provas para demonstrar a justeza da sua afirmativa, se alguem se lembrar de contestar-lhe tam peremptória opinião.
Se o ilustre professor não possue a tal respeito documentos bastantes, póde dar-se o caso de alguem vir àmanhan, quando mais não seja para fazer pirraça a s. ex.
a
, declarar que Cristovam Falcão de Sousa, á data de 1525, não era ainda nascido, ou, quando muito, teria doze mêses, e não 12 anos...
Mas é possivel que o snr. dr. Theóphilo Braga tenha conseguido descobrir qualquer documento em que apoie a sua sentença. É até muito possivel!
O importante, por agora, é verificar que o laureado académico fixou o ano do nascimento do pseudo-poeta em 1513, poucos mêses mais, poucos mêses menos, se a lógica não é uma cantata para adormecer meninos.
Ora, sendo assim, vê-se que alguma cousa se ganhou com a publicação do nosso livro sobre o
Poeta Crisfal
, onde a paginas 176 escrevemos:
«
Quanto a Cristovam Falcão de Sousa, moço fidalgo em 1527, por muito que se queira afastar a data do seu nascimento, não poderá esta ser fixada em ano anterior a 1510. Fixando-se o seu nascimento entre os anos de 1510 a 1515, é natural que se fique muito próximo da verdade.
»
O snr. dr. Theóphilo Braga, em face do nosso estudo, escolheu o ano de 1513, cifra que se encontra compreendida
entre 1510 a 1515
, salvo erro.
Nós, porém, com inteira franqueza o dizemos, temos ainda suas dúvidas, e após recentes pesquizas, em que vamos prosseguindo, inclinamo-nos a ajuizar que o pseudo-
ultimo eco do alaúde
ainda não era nascido no ano de 1516...
Mas, para aclarar este ponto de capital importância, aguardemos a nova versão que o snr. dr. Theóphilo Braga tem na forja sobre os poetas bucolistas.
Além de ter modificado a sua antiga doutrina sobre a epoca em que floresceu o falso
Crisfal
, na sua comunicação ao grémio literário a cujos destinos preside, o snr. dr. Theóphilo determinou que a vida amorosa do homenzinho oscilara
entre 1525 e 1526
,―isto é no período ingénuo e viçoso dos doze para os treze anos, quando a suposta mulher amada pelo Xpouão contaria, na melhor das hipóteses, as suas fagueiras e menineiras dez primaveras...
Mas, decorrido menos de um mês sobre a comunicação... scientífica, o egrégio conferente emendou este seu parecer, como se verá quando analisarmos o artigo epigrafado
Movimento litterario
.
Segundo o extrato publicado no jornal «O Mundo», que condizia com os de outras gazetas, o snr. dr. Theóphilo Braga «
evidenciou que na ecloga «Crisfal» transpareciam diversas situações da vida de Cristovam Falcão
.»
Infelizmente, os jornaes não nos forneceram qualquer pormenor elucidativo sobre a referida
evidenciação
, pelo que ficamos, com verdadeiro pesar, privados de reconhecer a maneira engenhosa pela qual o distincto professor de literatura conseguiu demonstrar,
urbi et orbi
, que na magoada écloga de Bernardim Ribeiro transpareciam
diversas situações da vida de Cristovam Falcão
.
É possivel, porém, que na próxima futura refundição do seu livro sobre os bucolistas, o snr. dr. Theóphilo Braga inclua um largo capítulo em que trate o assunto com o devido desenvolvimento, completando o extrato que os jornaes fizeram da sua apreciavel comunicação, com o que preencherá uma sensivel lacuna. Oxalá assim suceda.
Terminou o conferente a sua palestra por invocar, mais uma vez, Diogo do Couto e Gaspar Frutuoso; e mais uma vez afirmou que as duas individualidades (Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão de Sousa)
não podem jàmais confundir-se
.
Perfeitamente de acordo, n'esta parte, com o venerado professor!
Cristovam Falcão, o iletrado autor das
Quartas
, não póde jàmais confundir-se com Bernardim Ribeiro, o mavioso autor da
Carta
e da
Ecloga de Crisfal
...
Pelo que, implicitamente, fica demonstrado que nós não temos dúvida em adoptar uma ou outra das conclusões do presidente da Academia das Sciencias de Portugal, apesar de todo o nosso hipercriticismo, como está vendo o nosso
prezadíssimo amigo
!
V O artigo «Movimento litterário»
Como os leitores viram, pela reprodução que fizemos no primeiro capítulo d'este trabalho, no artigo que publicamos nas colunas do diário «A Lucta», sob a epigrafe: «
Os processos... scientificos do snr. dr. Theóphilo Braga
», salientámos várias inexactidões contidas no capcioso desarrazoado que o professor do Curso Superior de Letras estampou no jornal «O Dia», a pretexto de dar notícia do movimento literário português no ano de 1908.
Não insistiremos sobre os pontos já visados, embora prestassem o flanco a mais largas considerações, mas nem o tempo nos é sobejo nem tam pouco desejamos abusar da benevolência dos que nos lêem, prolongando demasiadamente este comentário desenfastiado e despretencioso ás refutações embrogliadoras e falhas de sinceridade do snr. dr. Theóphilo Braga.
Sem a publicação do artigo
Movimento litterário
, aguardariamos pacientemente a futura refundição do livro consagrado ao estudo dos poetas bucolistas pelo egrégio professor, e só em face das novas exegeses fantasiadas pelo snr. dr. Theóphilo Braga viriamos a público dizer o que se nos oferecesse, defendendo, o melhor que soubessemos e pudessemos, as conclusões que apresentámos no nosso trabalho sobre o
Poeta Crisfal
.
Não o quis assim o distinto escritor açoreano. Seja feita a sua vontade!
1
«...o snr. Delfim Guimarães publicava o seu livro Bernardim Ribeiro―O Poeta Crisfal, em que resume o já sabido da biographia do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a significarem os factos que imagina.»
Do artigo «Movimento Litterario.»
Na opinião soberana do consagrado professor, no nosso livro sobre Bernardim Ribeiro resumimos o
já sabido
da biografia do autor da
Menina e moça
, e forçámos interpretações de versos a significar os factos que imaginámos!
Tem carradas de razão o implacavel crítico quando proclama, desdenhoso, que nós resumimos o que já era sabido da biografia do grande poeta bucolista.
Resumimos quanto pudemos, exageradamente talvez, o que
já era sabido
da biografia de Bernardim Ribeiro, mas muito de propósito assim procedemos, para que ninguem, em face do nosso trabalho, pudesse dizer com justiça que fôra nosso intento fazer substituir no mercado o livro do snr. dr. Theóphilo Braga pelo nosso.
É certo que nos poderiamos ter conduzido pela mesma fórma adoptada pelo consciencioso escritor ao
resumir
no seu
Garrett
o trabalho desenvolvido de Gomes de Amorim, mas não quisemos seguir semelhante conduta, muito embora pudessemos invocar, como modêlo, o exemplo que nos fornecia o historiador da
Litteratura Portugueza
.
Não quisemos enveredar por esse caminho, e não estamos arrependidos, apesar do remoque com que fomos alvejados. Cada qual segue os processos que muito bem entende, mais em harmonia com o seu temperamento ou educação.
Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, é um facto; mas tivemos o cuidado de não aproveitar aquela descoberta mais que problemática que localizou a
Quinta dos Lobos
na
Quinta da Piedade
, em Sintra, e nem por um momento nos passou pela cabeça perfilhar as palavras do snr. dr. Theóphilo Braga quando vê «
a persistencia do elemento mauresco, na paixão exaltada do poeta e no calor surprehendente da sua linguagem
».
[7]
Não seguimos tam pouco na esteira do eminente exegeta quando s. ex.
a
pinta, ao sabor da sua fantasia rocamboliana, Bernardim Ribeiro: «
moreno, fino e enchuto de carnes, com a perdição no olhar e a fatalidade invencivel no amor
.»
[8]
Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, alto e bom som o declaramos; mas alguns erros tivemos ocasião de apontar ao biógrafo ilustre do autor da
Menina e moça
, para que os corrija, querendo, nas futuras edições, pelo que nenhum agradecimento nos deve, seja dito.
Que teria perdido o renome universal do Mestre em se mostrar, não diremos mais benevolente, mas mais justo? Oh! o positivismo!...
Mas assevera o snr. dr. Theóphilo Braga que nós
forçamos interpretações de versos a significarem os factos que imaginamos
!
Onde viu s. ex.
a
essas interpretações forçadas?
Tendo-as visto, por que motivo não veio indicá-las em público, para exautoração do nosso
hipercriticismo
, para maior glória do seu laureado nome, para mais intenso fulgor da nossa História literária?
Forçâmos interpretações de versos!
Se o professor de literatura estivesse de boa fé, e entendesse realmente que nós haviamos errado a interpretação de versos de Bernardim, que lhe competia fazer, que lhe cumpria fazer?
―Indicar-nos onde haviamos errado, fazendo-nos ver que estavamos em erro; e quando s. ex.
a
nos convencesse da razão das suas corrigendas, ou reprimendas, acredite o snr. dr. Theóphilo Braga que havia de ver-nos confessar, com honestidade, sem o menor rebuço, que tinhamos errado, e não fugiriamos a apregoar que o ilustre censor nos aplicara umas palmatoadas merecidas.
Mas quando mesmo (o que não está demonstrado) tivessemos incorrido em erros ao interpretar versos de Bernardim, tinha, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a precisa autoridade para os apontar por aquela fórma agressiva, com semelhante crueza?
―Não tinha. S. ex.
a
não póde arguir quem quer que seja de
forçar interpretações
, porque ninguem como o professor do Curso Superior de Letras é useiro em amoldar interpretações de versos ao sabor da sua imaginação.
Para que ninguem nos incrimine de injustos para com o snr. dr. Theóphilo Braga, vamos demonstrar com exemplos colhidos em obras do Mestre algumas
interpretações
bizarras, que oferecemos ao critério dos que nos lêem:
N'uma das éclogas de Bernardim Ribeiro, o poeta bucolista, referindo-se a uma visita que lhe fez o seu amigo Sá de Miranda, escreveu a narrar o facto:
e neste mêo chegou um pastor seu conhecido, e que dormia cuidou. Franco de Sandovir era o seu nome, e buscava ũa frauta que perdera, que elle mais que a si amava. Este era aquelle pastor a quem Celia muito amou, ninfa do maior primor que em Mondego se banhou, e que cantava melhor.
Veja-se como o snr. dr. Theóphilo Braga anotou estes versos:
«Deve entender-se que foi o pastor, que se banhou no Mondego, e não Celia, como pode inferir-se.»
Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 49
Na écloga em que Bernardim adoptou o criptónimo
Crisfal
, descreve o poeta a aparição da mulher amada, que vê em sonho
vestida de arenoso,
ou seja de amarelo, a côr simbólica do pesar ou desespero, o que qualquer bronco namorado de aldeia sertaneja não ignora.
Pois o snr. dr. Theóphilo, querendo fazer da mulher amada por
Crisfal
uma freira cisterciense, interpretou a passagem aludida pela seguinte maneira:
«Crisfal viu a sua Maria vestida de côr de arenoso, ou do habito amarellado da Ordem cisterciense...»
Obras de Christovam Falcão, p. 11
Ora o hábito da Ordem de Cister não era amarelado, mas branco!
Não obstante, seguindo o mesmo critério, o distinto professor tambem quis reivindicar para o suposto poeta Falcão a paternidade de uma poesia de Bernardim Ribeiro consagrada a
uma senhora que se vestiu de amarelo
...
Té aqui me pude enganar, mas agora que podeis trazer a côr do pesar pera mim só a trazeis...
que o snr. dr. Theóphilo Braga comentou pelo seguinte processo
inductivo
:
«Ora o amarello só podia ser côr de pezar no caso de representar a cúgula cisterciense; e em vista dos factos sabidos, só estava no caso de escrever esta cantiga Christovam Falcão, e não Bernardim Ribeiro pelo que se sabe da sua vida.»
Obras de Christovam Falcão, p. 12
Mas, felizmente para a memória do poeta bucolista, a poesia em questão foi uma das que o benemérito Garcia de Rèsende reproduziu no Cancioneiro Geral, publicado em 1516, quando Cristovam Falcão de Sousa... ainda andava de coeiros, se é que já pertencia ao numero dos vivos...
Ora que distinção concederia o ilustre professor áquele dos seus discípulos que, interrogado sobre a
côr branca
do cavalo de Napoleão 1.º, lhe respondesse que o sobredito imperial cavalo
branco
... era
amarelo
?
Em uma das suas éclogas, o poeta-filósofo Sá de Miranda, aludindo ao Amor, causa da desventura do seu camarada Bernardim Ribeiro, expressa-se por esta fórma:
Amor burlando vá, muerto me deja; Tiene de que por cierto; a su merced Como de señor vine; armó la red, Puso me en prision dura, ende me aqueja; Cada ora mas se aleja De mi, mucho cruel. Quien me desmiente? Ah que lo saben todos! quien ganó El precio de la lucha, ese perdió! Enemigo señor que tal consiente!
Pois no Amor, no travesso, inconstante e cruel Cupido, o snr. dr. Theóphilo viu nada menos que a personificação do favorito d'el-rei D. João III, D. António de Ataíde, conde da Castanheira!
Para que os leitores não julguem que fomos nós que interpretamos mal quaesquer palavras do arguto exegeta, reproduzimos a sua anotação:
«...aquelle retrato do inimigo senhor que tal consente, bem se parece com o omnipotente valido o conde da Castanheira.»
Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 206
Por um recente trabalho do nosso estimado camarada Hemetério Arantes sobre Frei Agostinho da Cruz, já os leitores não ignoram que o professor do curso Superior de Letras fez de
um gato bravo... uma cavalgadura
, e do
Monte do Lobo... um lobo
carniceiro que devorou, chamando-lhe um figo, a sobredita cuja cavalgadura!
Para fechar esta exposição, referiremos ainda mais um interessante episódio exegético da obra do Mestre:
Em uma das poesias líricas de Luis de Camões, alude o grande poeta á desventura que desde a infância o perseguia, como se vê dos seguintes magoados versos:
Foi minha ama uma fera; que o destino Não quis que mulher fosse a que tivesse Tal nome para mi, nem haveria. Assi criado fui porque bebesse O veneno amoroso de menino...
de que tambem se conhece a seguinte variante:
Por ama tive ũa fera, que o destino Não quis que melhor fosse a que tivesse Para o que elle de mi fazer queria...
Em face da segunda versão, concluiu o snr. dr. Theóphilo Braga, arguciosa e sibilinamente:
«Esta versão tira todo o sentido figurado á antecedente, e d'aqui se conclue, que Camões fora amamentado por uma alimaria, etc.»
Historia de Camões, Parte II, Livro II, p. 564
Esta ideia verdadeiramente original de interpretar os versos de Camões, dando-lhe por ama uma
alimária
, ou seja uma cavalgadura ou uma besta, corre parelhas com a interpretação dada á
gineta
de Frei Agostinho da Cruz.
Não se póde dizer que o eminente professor faça de um argueiro um cavaleiro, mas não ha a menor dúvida de que s. ex.
a
transforma um gato bravo e uma brava ama de leite... em cavalgaduras!
Pelo que respeita á ama de Camões, o que vale ao snr. dr. Theóphilo Braga é o facto do nosso grande épico não poder, com facilidade, escapulir-se do túmulo em que repousa no Panteão dos Jerónimos,
si vera est fama
! De contrário, o
Trincafortes
era capaz de fazer uma das suas.
Parece-nos que fica suficientemente demonstrado quem é que fórça interpretações de versos alheios a significarem aquilo que imagina...
2
«Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de Christovam Falcão―«dois poetas de temperamento semelhante, com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente eguaes.»