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Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

A Lenda do Crisfal (continued 3)

Reading edition

perfeitamente combinam com a 1.ª egloga:

«Veio ahi outro pastor ter: com o que prometteu ou deu se deixou delle vencer»,

e com a «Menina e moça»:

―«...succedeu, no castello, um filho de um cavalleiro muito valído e rico nesta terra, que por meio de vizinhos desejou Aonia por mulher»;

―«...bem lhe pareceu que se não descontentaria Aonia do esposo, porque era bem aposto cavalleiro e dos bens do mundo abastado».

Note-se, mais, que a locução―«dos bens do mundo abastado», tambem inserta na 2.ª bucolica, reapparece na 5.ª estrophe de «Crisfal», cujo introito (conforme com as eglogas 1.ª, 2.ª e 5.ª) faz das «selvas junto do mar» o delicioso theatro dos amores dos dois zagaes.

A descripção desse local (de Sintra e de seu Val de Lobos), apenas esboçada no começo das «Trovas», melhor se delineia da estrophe 55 em deante:

«Vão alli grandes montanhas de alguns valles abertas, todas de soutos cubertas, aos naturaes extranhas, mas á saudade certas. Cuberta era a fonte de tam fresco arvoredo, que não sei como o conte, muito quieto e mui quedo, por ser antre monte e monte. Ao pé de um castanheiro me pus, triste, assentado, ouvindo o tom de um ribeiro. Meus olhos e eu passámos alli a noite em amores. Naqueste tempo corrompe a ave que chamam leal o silencio do seu mal, que é quando a alva rompe e ao dia faz signal».

Depois disso, abram o livro da «Menina e moça», e façam-me o favor de ler:

«Neste «monte mais alto de todos» (que eu vim buscar pela suavidade de outros que nelle achei) passava eu a minha vida como podia; ora em me ir «pelos fundos valles que os cingem dearredor», ora em me pôr do mais alto delles olhar a terra como ia acabar ao mar; e depois o mar como se estendia logo após ella, pera acabar onde ninguem o visse».

―«E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte) determinei ir-me pera o pé deste monte, «que d'arvoredos grandes e verdes ervas e deleitosas sombras» é cheio, «por onde corre um pequeno ribeiro» de agua de todo o anno, que nas noites caladas, o rogido delle faz no mais alto deste monte um «saudoso tom, que muitas vezes me tolhe o sono».

―«Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo que por cima da agua se estendia, «veio pousar um rouxinol».

Para completar a symetria e a belleza idyllica da pintura, nem faltou a esse quadro o vultinho animado da mesma «ave leal» de que nos. falavam as «Trovas».

Quanto ao par apaixonado, a referencia da 2.ª estrophe de «Crisfal»:

«Sendo de pouca edade, não se ver tanto sentiam que o dia que se não viam, se via na saudade o que se ambos queriam».

ligada á da 77:

«a frol dos annos se vão»,

e á da 84:

«Quando vos dei a vontade,

inda vós ereis menina, e eu de pouca edade»,

em nada discrepa da do capitulo 18 das «Saudades» de Bernardim:

―«...a senhora Aonia, que ainda então era donzella d'antre treze ou quatorze annos...»;

―«...a barba um pouco espessa e um pouco crescida, que a elle traz, parece que é aquella a primeira ainda...»

Em relação ao poeta, a 2.ª egloga positivamente declara que contava os seus vinte e um de edade quando se fez «servidor» de Aonia.

Mas dos parentes desta a interesseira má vontade, que «Crisfal» vehemente assignala, assentou de lhe curar o coração doente de mulher pelo processo sedativo de um apartamento para «longes terras» (expressão egual da estrophe 7.ª e do 1.º capitulo da «Menina e Moça»).

Ainda na 2.ª egloga, Bernardim, que com os italianos aprendera o reavidado uso das allegorias de Vergilio, se manifesta como um pastor nascido «antre Tejo e Odiana»; e muito é para notar que nas «Trovas» tambem exista o mesmo verso (6.º da 30.ª estrophe).

Attingido o pegureiro (na 2.ª bucolica) do encantamento de amor,

«logo então começou seu gado a emagrecer: nunca mais delle curou.»

E «Crisfal», outrosim (como réza a 5.ª estrophe),

«...por curar da paixão, não curava do seu gado».

O mesmo pensamento se exprimiu, pois, aqui, sómente com tal ou qual superioridade artistica, que não é a injusta superioridade de Christovam Falcão sobre Bernardim Ribeiro, senão antes a deste sobre si proprio, no progressivo burilamento da fórma impeccavel.―Mas o artista, como que apostado em exceder-se cada vez mais, só achou a sua melhor expressão esthetica quando depois insistiu, na estrophe 22:

«descuido matou meu gado, cuidado matou a mim».

A antithese (que tira de duas idéas oppostas a scintillação do choque de duas pedras) constitue quasi sempre o ultimo resultado de uma longa elaboração mental.

Ha, na melancholia das «Saudades», um topico onde o seu autor diz que, já de affeito ás dores, parecia viver nellas. E tal conceito assume, na 10.ª estrophe das «Trovas», uma formulação mais abstracta e geral:

«O longo uso dos danos se converte em natureza».

A hypothese de «Crisfal» ser Christovam Falcão exigiria, portanto, que delle fosse, tambem, um simples reflector o nosso, aliás original, Bernardim Ribeiro; ou isso, ou, então, plagiario o outro...

Gemeos intellectuaes, e ainda irmãos no infortunio de seus affectos, nunca se houvera visto, sequer em dois relogios, uma tão completa concordancia!

Mas, dentre o suffocante accumulo de provas contrarias, uma, sobretudo, victoriosamente resalta da egloga «Alejo» de Sá de Miranda, o «philosopho» amigo e confidente do «ternissimo» Bernardim Ribeiro.

Alli diz o Miranda, disfarçado sob o cryptonymo de «Antonio»:

«Vine por Ribero ver, como otras vezes solia.»

Pois bem: Esse mesmo «Antonio» apparece na estrophe 32 de «Crisfal», que delle assevera:

«Aqueste é o pastor que aqui vêo buscar-me.»

De semelhante parallelismo não ha concluir senão que «Ribero» e «Crisfal» representam um só e mesmo «pastor», o que vale dizer «poeta», na linguagem allegorica do bucolismo.

Demais:

Os versos que se acham em «Alejo»:

«Io sonava que me via entre unas cerradas breñas; de una parte i de otra peñas, do nunca el sol descobria»,

traduzem no castelhano os da estrophe 7.ª das «Trovas»:

«esconderam-me antre serras, onde o sol nunca era visto,»

Ora, se (a paginas 188 de sua obra refundida sobre Sá de Miranda) reconhece Theophilo Braga, como todos, em «Alejo», uma segunda figura de Bernardim, deverá reconhecer ainda que «Crisfal», sendo «Alejo», é Bernardim tambem.

A gloria do sr. Delfim Guimarães foi de haver apanhado a verdade, que tão fóra andava da corrente unanime do parecer dos mestres.

Mas, já das muitas adhesões que elle conquistou, licito me seja destacar o voto preponderante da senhora dona Carolina Michaëlis de Vasconcellos,

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como primeira autoridade―que ella o é―da moderna philologia portugueza.

Tambem, no Brasil, Sylvio Romero entende que estão reivindicados, de uma vez, os direitos de Bernardim Ribeiro «a essa bella parte da sua obra que a lenda lhe andava a tirar estupidamente»...

Silvio de Almeida. (Do jornal O Estado de S. Paulo, de S. Paulo, Brasil de 5 de Abril de 1909).

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