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Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

A Lenda do Crisfal (continued 2)

Reading edition

Do artigo «Movimento litterário»

Pela transcrição que o snr. dr. Theóphilo Braga indica, póde alguem acreditar que foram realmente aquelas as palavras por nós empregadas no nosso estudo. Não foram. O ilustre professor modificou a seu bel-prazer o que nós escrevemos, que se lê a paginas 6 do nosso livro sobre Bernardim:

«Muito embora o temperamento dos dois poetas fosse semelhante, mesmo muito semelhante, e eguaes as influências e educações literárias que houvessem recebido; embora fossem eguaes os episódios dos seus infortunados amores, é estranho que por fórma tam absolutamente semelhante traduzissem o seu sentir, revelassem o seu temperamento artístico, chegando a empregar versos absolutamente eguaes! etc.».

Porque não reproduziu,

fielmente

, o snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que escrevemos? Estranha maneira de exercer a crítica... moderna!

3

«D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de Crisfal indo buscar á tôa ás palavras Crisma falsa, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro.»

Do artigo «Movimento litterário»

Afirma o snr. dr. Theóphilo Braga que consideramos a individualidade poética de Cristovam Falcão como uma lenda estúpida formada pelos genealogistas... Onde encontrou s. ex.

a

a base em que firma a sua menos verdadeira afirmativa?

Vamos reproduzir o que escrevemos a paginas 9/10 do nosso livro, para desfazer a arbitrária interpretação do venerado professor.

«Cotejámos então as referências de Bernardim a Francisco de Sá com a alusão que na écloga de Crisfal haviamos interpretado como visando esse poeta, e qual não foi a nossa alegria, a nossa viva satisfação ao reconhecer que os versos de Crisfal que alvejavam Miranda condiziam perfeitamente com as referências das éclogas de Bernardim ao seu grande amigo e confidente! Não condiziam apenas: completavam, aclaravam, a nosso ver, essas alusões.

«Fez-se então uma grande luz no nosso espírito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um ùnico poeta. O trovador Cristovam Falcão era o produto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo ao anagrama Crisfal. «E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, lá estavam os dizeres alusivos á ecloga de Crisfal da edição de Colónia, revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphánio Dias: «que dizem ser de Cristovam Falcão, ao que parece aludir o nome da mesma écloga.» «Que dizem ser... ao que parece aludir... «Isto, a nossos olhos, era decisivo. «Os editores de 1559 das obras de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois viemos a apurar, tinham registado com relação á écloga uma fábula que devia datar da primeira edição das Trovas de Crisfal, etc.»

O que nós dissemos, pois, e isso sustentâmos, é que a individualidade poética de Cristovam Falcão nascera da errada interpretação prestada pelo vulgo ao anagrama

Crisfal

,―fábula que os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro tinham registado,

sob reservas

.

Como haviamos nós de propalar terem sido os genealogistas que formaram a lenda, se os genealogistas, depois de 1554 e 1559, é que foram buscar as

tradições vagas

recolhidas pelos editores de Bernardim?

Onde estão os genealogistas anteriores ás edições de Ferrara e de Colónia que se fizessem éco da fábula do

Crisfal

?

Ah! malfadados

processos inductivos da crítica moderna

!

Diz o snr. dr. Theóphilo Braga que nós fomos buscar

á tôa

as primeiras sílabas das palavras

Crisma

e

falso

para a nosso alvedrio designarem Bernardim Ribeiro!

Não foi

á tôa

, como inculca o nosso acerbo censor, que conseguimos apurar a constituição do criptónimo

Crisfal

; e que não foi á tôa sabe-o muito bem o implacavel critico, que não deixou de ler, e que até a reproduziu, a explicação que sobre tal facto demos:

«Alcançada a convicção de que Crisfal era um anagrama de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas produções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com um pequeno trabalho de raciocínio não nos foi dificil deduzir a constituição do criptograma, que era formado pelas primeiras sílabas das palavras Crisma e Falso.»

E corroborando estes dizeres do prólogo do nosso livro (p. 10), escrevemos mais adeante (p. 82/83) ao tratar da interpretação da écloga atribuida ao suposto

Crisfal

, Cristovam:

«Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta écloga das palavras Crisma e Falso, de que aproveitou as primeiras sílabas, formando assim a palavra Crisfal.

«Os nomes pastoris que figuram n'esta écloga, obedecendo á ideia que fundamentou a composição, são todos êles crismas falsos, sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta pôs em scena, o que deu lugar a erradíssimas interpretações, contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do próprio anagrama Crisfal, que foi tomado como deduzido dos nomes de Cristovam Falcão.»

Não foi á tôa mas seguindo uma orientação criteriosa, que alcançámos a verdade, que nenhuma subtileza conseguirá destruir já agora.

Outro-tanto não se póde dizer da maneira pela qual o snr. dr. Theóphilo Braga conseguiu, por exemplo: decretar os

cantos de ledino, estampar como documento do século XVI um apócrifo contendo versos do século XVIII, e fazer Camões bacharel formado... em latim pela Universidade de Coimbra

!

Se nós, invocando esses precedentes, ousassemos retorquir que

á tôa

costumava proceder o escritor que contraditâmos, caía-nos em cima o Carmo e a Trindade!

Á tôa!

... É realmente forte, e não deixa de ofender.

4

«Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na écloga de Crisfal condizem com os seus parentes taes como o de Pantaleão Dias de Landim, seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr. Jordão de Freitas?»

Do artigo «Movimento litterário».

Lenda genealógica

, chama o snr. dr. Theóphilo Braga á lenda do

Crisfal

, como se fossem os genealogistas que a inventassem, quando s. ex.

a

muito bem sabe que estes não tiveram tal primasia... O caso está sobejamente debatido, e por isso não vale a pena perder mais tempo com tam ruim defunto.

Tratemos do

Pantaleão

...

Na eclóga de

Crisfal

, refere se Bernardim ao

Val de Pantaleão

...

O snr. dr. Theóphilo Braga, interpretando erradamente uma passagem da

Pedatura

do genealogista Alão de Moraes, em que se mencionava o casamento de uma parenta remota de Maria Brandôa com um João

Patalim

, escreveu a pag. 344 do seu livro

Bernardim Ribeiro e o Bucolismo

:

«Pelo Manuscripto já citado de Alão de Moraes acha-se noticia do aqui chamado Val de Pantaleão: D. Joanna, tia avó de D. Maria Brandão, casara a primeira vez com João Pantalião; etc.»

No nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, desfizemos esse erro, escrevendo a pag. 159:

«O ilustre professor equivocou-se na leitura do texto. Não se trata de nenhum João Pantalião, como erradamente leu, mas sim de um João Patalim, que é o que se lê no manuscrito de Alão de Moraes, como verificámos por nossos próprios olhos.»

Desfeita essa interpretação, não se dá o snr. dr. Theóphilo Braga por vencido, e vae agarrar-se a um avoengo de Maria Brandôa para justificar a referência ao

Val de Pantaleão

...

Quanto á

Joana

, o caso não é menos interessante...

Vejamos o que, no seu

Bernardim Ribeiro e o Bucolismo

(pag. 342), escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga em 1897:

«Esta Joanna, que denunciou os amores de Crisfal e Maria, era D. Joanna Pereira, sua irmã mais velha; Maria era a mais nova, de cinco filhos que tinha o Contador João Brandão.»

Foi esta mais uma

gaffe

em que o snr. dr. Theóphilo incorreu, por haver confiado demasiadamente nos créditos do genealogista Alão de Moraes.

A pag. 162 do nosso livro sobre o

Poeta Crisfal

, desfizemos esse erro, escrevendo:

«Maria Brandão, a lendária amada do Crisfal, não teve nenhuma irman! era filha única!»

Em face da corrigenda, o distinto escritor não se sentiu com coragem para sentencear que Joana era irman natural de Maria Brandôa, mas procurou arranjar (iamos a escrever

á tôa

, mas não tivemos coragem) outra Joana, e, á primeira que encontrou á mão, chamou-a em seu auxílio.

Dera-se o caso de o snr. Jordão de Freitas, distinto funcionário da biblioteca da Ajuda, no louvavel empenho de auxiliar aqueles que quisessem discutir a questão literária suscitada pelo nosso livro, publicar no «Diario de Noticias» o resultado das suas pesquizas nos arquivos, reproduzindo quanto julgou interessante para o estudo do problema.

Fez s. ex.

a

menção de uma parenta de Maria Brandôa com o nome de Joana...

Como um naufrago, que se agarra á primeira táboa que lobriga ao alcance da mão, o snr. dr. Theóphilo agarrou-se (no bom sentido da palavra, bem entendido!) á sobre-dita Joana, e, radiante de contentamento, exclamou:―«Estou salvo!»

E, julgando-se, realmente, salvo da rascada, escreveu ufano:

«...a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas.»

A esse engano de alma, ledo e cego, foi arrancá-lo o snr. Jordão, desapiedadamente na carta que, a propósito, dirigiu ao «Dia», e de que reproduziremos a parte essencial:

«O sr. dr. Theóphilo Braga equivocou-se na sua referencia a Joanna e ao que diz ter sido notado por mim.

...tive unicamente em vista assentar que Joanna Brandão não era tia avó de Maria Brandão, como erroneamente escrevera o sr. dr. Theophilo Braga, mas sim sua prima remota.

«Tão remota, direi agora, que era neta de um irmão (Diogo Lopes Brandão) do 4.º avô (Gonçalo Brandão) de Maria Brandão (Bibliotheca Real da Ajuda, 49-XII-28, pag. 259). «Sendo assim, nem é presumivel que aquella chegasse a viver no tempo de Maria Brandoa, quanto mais que andasse a pastorear com ella, etc.»[9]

Veremos, depois de este insucésso, que nova Joana nos apresentará na primeira oportunidade o distinto escritor...

Quem sabe se a Joana do

Crisfal

não teria sido aquela encantadora Joaninha dos olhos verdes, que tanto enfeitiçou Garrett... Mas não; em caso contrário o autor das

Viagens

não deixaria de mencionar essa circunstância!

Na estrofe de Bernardim Ribeiro, na écloga

Crisfal

, em que a amada do poeta se refere a ter passado para o

casal da Figueira

do

Val de Pantaleão

, designações que a nosso ver disfarçam, sob

falsos crismas

, os nomes verdadeiros da casa e localidade para onde se transferiu, talvez após o casamento, a decantada

Aonia

, encontra-se, nítida, a alusão á ultima entrevista dos namorados:

«Quando contigo falei aquela ultima vez, o choro que então chorei,

que o teu chorar me fez, nunca o esquecerei. Foi esta a vez derradeira, mas começo de paixão, passando-me eu então era o casal da Figueira do Val de Pantalião.»

Achamos interessante reproduzir, n'esta altura, do capítulo XXVIII da

Menina e moça

, os periodos referentes á ultima entrevista de

Bimnarder e Aonia

para que os leitores, com maior facilidade, possam orientar o seu juizo, verificando a absoluta identidade entre as duas produções de Bernardim Ribeiro:

«...Buscando achaque de querer lá ir pera detraz das casas, levando Enis consigo, ouve tempo pera Aonia entrar onde elle (Bimnarder) estava então deitado, escontra a outra parte da parede, chorando, porque não vira Aonia ao passar, que bem se podera elle erguer. E como isto perdera, cuidava tambem que avia de perder a tornada; porque um mal nunca lhe viera sem outro; pelo que estava no maior pranto do mundo, antre si.

«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que elle chorava, e suspirava baixo, de maneira que como, naquello, se forçava a si mesmo.

«Ella, para ver se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber d'elle, deteve-se ainda mais; mas elle, com pensamentos muitos, que sobrevinham ao choro, mais o acrescentava do que o diminuia.

«Assentando-se então Aonia na borda d'aquella sua pobre cama, lhe pôs a mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o espirito.

«Virando-se Bimnarder, e vendo a, tambem lhe faleceu o seu.

«Estiveram assi ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro: e elle, com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão, que, em se virando Birmnarder, tomou vergonha. Levando-os assi á terra, cobriu-se-lhe o seu fermoso rosto de uma tamalavez de côr, alem da natural; e soía dizer meu pae (que parte d'esta historia em seu tempo se soubera) que não parecia se não que viera aquella côr como por ajudar ainda Aonia escontra Bimnarder, tam formosa a ella, formosa, fizera.

«Mas, estando assi nisto elles ambos, e não estando elles ambos ali, chegou Enis muito rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a mandavam chamar.

«Assi, foi forçado levantar-se Aonia, e ir se, e Bimnarder ver tudo, e ficar.

«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma manga de sua camisa, e, rompendo-a, pera remedio de suas lagrimas lh'a deu, significando, na maneira só de como lha deu, o pera que lh'a dava; que parece que a dor grande que sentia não lh'o deixou dizer por palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só assi:

―«Pesa-me, pois a minha ventura ou desaventura, não quis que eu vos deixasse de magoar com o que eu não quisera.»―

«E estas palavras lhe disse já fora da porta.

«E com ellas, e com o que sentiu ao dizer d'ellas, duas e duas, lhe começaram as lagrimas a correr dos seus fermosos olhos, e, pelas suas faces fermosas abaixo, lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que Bimnarder a tanto pranto convidou quanta era a rezão d'elle, pois perdia a vista.

«Foi tanto o choro, que não lhe abastavam os seus olhos ás suas lagrimas...»

5

«Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.º 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão;»

Do artigo «Movimento litterário».

É com verdadeiro pesar que vemos o encanecido trabalhador recorrer a processos como o que ressalta da afirmação que deixamos transcrita, só pela caturrice de não querer confessar que errou...

O leitor desprevenido ficou julgando, certamente, por honra da firma que subscrevia o artigo

Movimento litterario

, que na livraria do Conde de Vimieiro tinham existido

os manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro

, que

andavam ligados com os de Christovam Falcão

...

Pois, se tal ficou julgando, enganou-se redondamente.

O snr. dr. Theóphilo Braga adulterou a verdade dos factos, procurando talvez iludir-se a si proprio, pois não podemos admitir que s. ex.

a

imaginasse, por tal processo, mistificar alguem. É até possivel, muitissimo provavel mesmo, que o ilustre escritor não pesasse devidamente as palavras de que se serviu, e que assim incorresse, na melhor boa fé, n'uma indesculpavel inexactidão.

Vejamos onde o snr. dr. Theóphilo Braga foi fazer a descoberta preciosa dos

manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro

...

Ao n.º 180 do catalogo da Livraria do Conde de Vimieiro, como consta do tomo V da

Colleçam dos documentos, e memorias da Academia Real da Historia Portugueza

.

O distinto professor não indicou a

fonte

, certamente por lapso, mas nós conseguimos descobri-la sem carecer do auxílio de

dunguinha

.

Ouçamos agora a conferência do Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes, em relação ao codice N.º 180:

«Tem o volume que examinei 287 folhas, as quaes nos primeiros numeros eram 330, porem as que lhe faltão, parecem mudadas para outras Collecções, e sendo a letra, e papel de duzentos annos de antiguidade, pois a folhas 122 se acabão as noticias com a morte del Rei D. Manoel, que foi a 13 de Dezembro de 1521; se conserva este manuscripto inteiro, e em bom estado

(Traz a divisão do livro em 5 partes e segue:

«A segunda divisão deste livro consiste em algumas Memorias de successos raros de Europa, como são uma carta del Rei Ludovico de Hungria para o Emperador na ultima batalha que deu ao Turco, uma Relação dos infelizes principios de Luthero, e outros. Seguem-se cartas de homens celebres d'aquelle tempo pelo seu engenho, e graça, que entre as alusões jocoserias descobrem memorias particulares: deste genero são sete de Antonio Ribeiro Chiado, duas de Lourenço de Caceres, e outros. As obras em prosa, e verso de Francisco de Sá de Miranda, as de Bernardim Ribeiro, Christovão Falcão, André Soares, Francisco de Moraes, Gil Vicente, Duarte de Oliveira, o Barão D. Diogo Lobo, e outros Poetas antigos, servem de verificar as varias lições das impressas, e de restituir as manuscriptas.»[10]

Como se vê, por uma fórma irrefragavel, não se tratava dos manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro,

como

não se tratava egualmente de manuscritos de Cristovam Falcão...

Tratava-se de uma miscelánea manuscrita, em prosa e verso, que continha produções de vários poetas, e, entre essas, as que se atribuiam ao suposto

Crisfal

. A simples citação do nome de Cr. Falcão logo após o de Bernardim não bastará para se ajuizar que no manuscrito havia cópia das poesias que nas obras de B. Ribeiro vinham atribuidas, sob reservas, ao suposto trovador?

Se nós, para documentarmos o nosso livro

Bernardim Ribeiro

, tivessemos recorrido a expedientes semelhantes, como não seriamos julgados pelo snr. dr. Theóphilo!

6

«tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a Menina e Moça, duas eclogas de Bernardim Ribeiro―«e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, Dicc. Bibliog.)»

Do artigo «Movimento litterario».

O arcediago do Barreiro, invocado pelo snr. dr. Theóphilo Braga, era o arcediago do Barroso, cujos apontamentos manuscritos foram explorados por Innocencio.

Vejamos o que o benemérito bibliófilo escreveu a pag. 379 do seu

Diccionario Bibliographico portuguez

:

«Nos apontamentos manuscriptos do arcediago de Barroso Jeronymo José Rodrigues, de que já outras vezes me aproveitei n'este volume, encontro ácerca do auctor da Menina e moça o trecho que se segue:

«As obras de Bernaldim Ribeiro (que assim se acha escripto o seu nome no manuscripto que lemos, e assim diz Nicolau Antonio na Bibl. Hispanica, que vulgarmente era chamado) por sua muita raridade são difficeis de encontrar, e duvidamos que se hajam impresso todas. A Bibl. Lus. faz só menção da Menina e moça, ou Saudades de Bernardim Ribeiro. Além das impressões que alli cita, que são tres, faz Nicolau Antonio menção de uma, impressa em Lisboa em 1559, em 8.º, que em tudo tem muita semilhança com o manuscripto, que tivemos alguns tempos em nossa mão, e que vamos aqui extractar. O titulo em nada desmente do que traz a Bibl. Hisp., e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, de que se faz menção n'este mesmo logar de Nicolau Antonio.―O titulo que se lê no manuscripto é: Historia da Menina e moça, por Bernaldim Ribeiro. Principia: «Menina e moça me levaram de casa de minha may para muito longe», e acaba: «Com demasiada ira disse contra a Donzela que ho aly trouxera estas palavras». Consta de historia em prosa, e inclue em alguns lugares poesias de gosto são e pura linguagem, etc. E além da historia, acham-se no manuscripto duas eclogas de que o abbade Barbosa talvez não teve noticia. Na primeira são interlocutores Persio e Fauno; principia: «Nas selvas junto do mar», e consta de trinta e quatro estancias de dez versos cada uma.―Na segunda são interlocutores Jano e Franco, principia: «Dizem que havia um pastor», e acaba: «Tambem tempo é tormento.»

«De tudo o que diz aqui o arcediago de Barroso concluo, que não só elle ignorou a existencia da moderna edição da Menina e moça, feita em Lisboa no anno de 1785, mas tambem só conheceu de nome as edições anteriores sem que lograsse ter presente algumas d'ellas, pois que a tel-as visto, nenhuma novidade encontraria nas duas éclogas que cita do tal manuscripto, onde pelo que se mostra faltavam todas as outras já então impressas.»

Não conheceu Innocencio a edição das obras de Bernardim Ribeiro publicada em Ferrara em 1554, porque se a houvesse conhecido logo concluiria que o manuscrito examinado pelo arcediago de Barroso outra cousa não era mais do que uma cópia incompleta d'essa edição.

Ignora o, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga?

Se o não ignora, para que veio a público com a citação incompleta da passagem do Diccionário de Innocêncio?

Bom serviço prestou o arcediago de Barroso trasladando o período inicial na novela na edição de 1554, conforme o manuscrito que teve entre mãos: «Menina e moça me levaram de casa de minha may...»

7

«Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram?»

Do artigo «Movimento litterario».

Chamámos ineptos aos editores das obras de Bernardim Ribeiro, e que não erramos em nossa apreciação demonstra-o evidentemente o próprio snr. dr. Theóphilo Braga, quando na carta que nos escreveu, referindo-se ás edições de Ferrara e de Colónia, diz terem sido feitas

por curiosos sem critério litterário

.

Se esses curiosos não fossem ineptos, podia porventura o ilustre professor negar-lhes

critério

?

As rúbricas da edição de Colónia, em 1559, são reprodução das de 1554, como o snr. dr. Theóphilo Braga não desconhece.

Pertencem as rúbricas da edição de 1554 ao seu editor ou este não fez mais do que reproduzi-las da primeira edição?

Sem que seja conhecida a edição principe das obras de Bernardim Ribeiro, não é possivel aclarar este ponto, mas o que ninguem póde dizer com autoridade é que taes rúbricas: «que dizem ser... ao que parece aludir...» pertencessem aos manuscritos do infortunado Bernardim.

«Por terem reproduzido

esses textos

manuscriptos como os encontraram», escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga, procurando incutir que taes edições foram feitas sobre os manuscritos pertencentes ao Conde de Vimieiro e sobre o outro examinado pelo arcediago do Barroso!

A primeira edição das obras do poeta bucolista resultou dos manuscritos de Bernardim Ribeiro, recolhidos após a morte do apaixonado cantor de Joana, ou no ultimo período da sua desventurada existência, e dados á estampa por qualquer curioso sem critério literário...

E proclamando isto, que representa a expressão do nosso sentir pessoal, estamos convencidos de que está com a nossa opinião o snr. dr. Theóphilo Braga, que sempre tem sustentado que as edições das obras de Bernardim se fizeram sobre os manuscritos encontrados no seu espólio....

Mudará s. ex.

a

de orientação? Até prova em contrário, não acreditamos.

8

«...o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta...»

Do artigo «Movimento litterário»

«

Grande descoberta

», é como o snr. dr. Theóphilo Braga chama, ironicamente, ao resultado dos nossos trabalhos... Pequena ou grande descoberta, o facto é que està de pé, não conseguindo o abalisado professor destrui-la.

Compreendemos bem que isso seja pouco agradavel a s. ex.

a

, que tanto se havia

empenhado

em pôr um pedregulho sobre o caso do poeta

Crisfal

, mas nós, só pelo prazer de ser agradaveis ao ilustre escritor, é que não vamos ressuscitar o trovador Cristovam Falcão. Deixá-lo dormir em paz, serenamente.

Quanto a descobertas grandes, lembra-nos citar uma que

in illo tempore

fez o snr. dr. Theóphilo Braga...

Dirigia o distinto poeta snr. Joaquim de Araujo uma publicação camoneana, cujo título nos não ocorre.

Vae se não quando recebe uma comunicação do snr. dr. Theóphilo Braga... Uma descoberta importante... Nada menos que um parente ignorado do grande épico Luis de Camões.

Chamava-se o homem

Pero Camões

, segundo o ilustre professor lera, radiante, em determinado texto...

Pois, senhores, na volta do correio, Joaquim de Araujo prevenia generosamente o Mestre de que este errara a leitura do texto... O

Pero Camões

do snr. dr. Theóphilo Braga era um simples e inofensivo

pero camoês

!

9

«No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia.»

Do artigo «Movimento litterário»

Por esta fórma pouco...

generosa

se referiu o snr. dr. Theóphilo Braga ás palavras de caloroso elogio com que o ilustre escritor snr. José Pereira Sampaio, em carta publicada no «Diario da Tarde», do Porto, valorizou com o prestígio do seu nome o fruto do nosso trabalho.

Contra a injusta apreciação do professor do Curso Superior de Letras, já lavrámos o nosso protesto, de amigos e admiradores de

Bruno

, no artigo que publicámos na «Lucta» e que vae transcrito no primeiro capítulo d'este livro.

Quando mesmo, o que não sucede, o ilustre escritor portuense estivesse em erro, era digna de todo o respeito a sua opinião, e não seria nunca o snr. dr. Theóphilo Braga, com a sua consciente falta de sinceridade, quem teria direito para o arguir pela maneira insólita por que o fez.

Será, porventura, o

positivismo

inimigo inconciliavel da Justiça?

10

«A verdadeira descoberta pertence ao snr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 refere se a Christovam Falcão, com a tença de moço fidalgo leva a deduzir que nascera em 1512.»

Do artigo «Movimento litterário»

Fixa o snr. dr. Theóphilo em 1530 os amores do suposto poeta com a sua suposta amada Maria Brandôa.

Muito bem.

Admitindo que assim fosse, só depois de 1530 Cristovam Falcão poderia ter produzido a

Carta

e a

Écloga

que lhe foram atribuidas...

Ora como podia isto ser, em face dos

processos inductivos da critica moderna

, tam preconizados pelo snr. dr. Theóphilo Braga?

Ouçamos a lição autorizada do ilustre professor, que se lê a pag. 4 da sua chamada edição das obras de Cristovam Falcão:

«

Se Christovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de Miranda propagou as fórmas da poetica italiana, teria então adoptado o verso endecasyllabo, a fórma da OUTAVA e do TERCETO, o SONETO, e teria perdido o conceito provençalesco dos poetas que seguiam o INFERNO DO AMOR; Falcão desconheceu esta nova poetica.

»

Pela mesma maneira se exprimiu o snr. dr. Theóphilo Braga na sua edição de

Bernardim Ribeiro e os Bucolistas

.

Repudia s. ex.

a

o que com tanta clareza e precisão deixou estampado?

Seria caso para invocar o

era, não era, andava lavrando

...

Para o nascimento do pseudo-trovador, escolhe o snr. dr. Theóphilo Braga, em ultima análise, a data de 1512, sem se lembrar talvez de que por essa fórma caía em contradição consigo proprio...

Vejamos:

Na carta que nos dirigiu, escreveu o distincto escritor:

«...D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou,

sendo ambos muito crianças

...»

Ora tendo Cristovam nascido em 1512, como afirma o snr. dr. Theóphilo Braga, e fixando-se as suas relações amorosas em 1530, como quer s. ex.

a

, tinha o mancebo quando começou a namoriscar os seus dezoito anos seguros...

A um rapazola de 18 anos ninguem com propriedade poderá classificar de

muito creança

, a não ser por troça,―salvo melhor opinião.

11

«Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Cristovão Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim.»

Do artigo «Movimento litterário»

Não só corrigimos a interpretação das eclogas I e III de Bernardim Ribeiro

como todas

as outras do desventurado poeta... Mas o snr. dr. Theóphilo Braga entende em seu alto critério que só ha a corrigir as duas que citou, e essa correcção reserva-se s. ex. fazê-la, certamente. Aguardemos a futura refundição do livro sobre os bucolistas, para ajuizarmos da fertilidade inventiva do ilustre professor,―

de fantasia fertil em combinações

, no dizer autorizado da senhora D. Carolina Michaëlis.

12

«Os logares comuns a Cristovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua carta de Africa intercalava na sua prosa.»

Do artigo «Movimento litterário»

Como comentário único, permitir nos-emos endereçar algumas perguntas ao snr. dr. Theóphilo Braga:

Estando Bernardim Ribeiro louco no ano de 1532, como o próprio snr. dr. Theóphilo tem sustentado, como explica o ilustre professor que no espólio do poeta bucolista fossem encontradas as composições atribuidas ao falso Crisfal?

Na edição refundida do seu livro sobre os bucolistas, em 1897, o snr. dr. Theóphilo Braga explicou o facto da seguinte maneira:

«...

os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se salvaram as poesias do auctor do Crisfal.

»

Ora não podendo o abalisado professor continuar persistindo em que Bernardim Ribeiro teve por amigo e confidente Cristovam Falcão de Sousa, como poderá s. ex.

a

explicar que entre os manuscritos legados por Bernardim se encontrassem as composições do...

último eco do alaúde

?

Para prevenir qualquer subtiliza de argumentação, é conveniente não esquecer s. ex.

a

que na écloga

Crisfal

se encontram lugares comuns a todas as éclogas de Bernardim Ribeiro e á própria novela

Menina e moça

.

E não esquecer egualmente que, após a publicação do nosso estudo sobre o

Poeta Crisfal

, já o snr. dr. Theóphilo Braga foi obrigado a reconhecer que: não podia continuar a admittir

as relações pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade

.

Bernardim nasceu em

1482

, é bom não olvidar tambem.

Cristovam Falcão de Sousa nasceu em...

1512

, conforme a ultima versão apresentada pelo articulista do

Movimento litterário

.

Os amores de

Falcão

e Maria Brandôa foram fixados pelo snr. dr. Theóphilo Braga, em ultima análise, no ano de

1530

.

Ora na

Carta de Crisfal

, fala o poeta na prisão de amor que está sofrendo

ha cinco anos

... Logo, ou não ha lógica, uma das composições do suposto trovador foi elaborada pelo ano da graça de

1535

, quando Bernardim havia já três anos que fôra ferido pela desgraça que o levou ao hospital de Todos os Santos, onde veio a acabar seus desventurados dias em

1552

.

Consignado o que fica exposto, aguardemos a resposta ás perguntas atrás formuladas, e, para fechar o capítulo, façamos nossos os seguintes versos de Bernardim:

Baste o que tenho dito pera aver, por galardão, tres regras de vossa mão, pera resposta das quaes ......... fique o mais que aqui escrever devera, se o escrever podera.

VI Uma patranha genealógica

Seguindo a lição de vários genealogistas, démos curso, no nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, á atoarda que fazia Cristovam Falcão de Sousa descendente de certo John Falconet, cavalheiro inglês que viera para o nosso país na comitiva da desposada d'el-rei D. João I, Filipa de Lencastre. Antes de nós, os snrs. Epiphánio Dias e dr. Theóphilo Braga haviam incorrido no mesmo erro.

Publicado o nosso trabalho, honrou-nos o erudito escritor sr. Anselmo Braamcamp Freire com o seguinte esclarecimento, que registamos com prazer:

«...Julgo-me obrigado a advertil-o que publiquei um documento no Archivo histórico, suficiente para destruir a petarola inventada pelos genealogistas dos Falcões descenderem do tal Falconet. Catorze anos antes deste chegar a Portugal já existiam Falcões, proprietarios em Evora, e vassalos de D. Fernando (Arch. hist. III, 407.) É uma minucia que não influe em nada no seu têma; mas, repito, entendo dever meu avisál-o».

Não será este, certamente, o único erro em que teremos incorrido no nosso trabalho, e de que nos penitenciâmos sem a menor relutância.

Errar é próprio dos homens, como afirma o conhecido aforismo latino; o que é condenavel é persistir no erro.

Não temos a estulta vaidade de haver produzido um trabalho sem defeitos, e de bom grado aceitaremos as correcções que nos ministrarem, e com que o nosso critério se conforme. Somos incapazes de persistir n'um erro por simples capricho de amor-próprio, indesculpavel em assuntos de natureza

histórica

.

Bem presentes conservâmos as palavras sensatíssimas do professor bracarense Pereira Caldas: «Em

história

, ha sempre que discutir, sempre que examinar, sempre que emendar, sempre que aditar.»

VII O criptónimo «Fileno»

No numero do jornal

O Dia

, de 15 de dezembro de 1908, consagrou-nos o conceituado filólogo, snr. A. R. Gonçalves Viana, uma das suas interessantes

Palestras filológicas

.

É aquela que vamos registar, e que em seguida comentaremos:

«Delfim Guimarães, no seu livro recentemente publicado, e que faz honra á erudição portuguesa, com o titulo Bernardim Ribeiro, e o sub titulo O poeta Crisfal, aventa a idea de que o criptónimo Fileno seja o disfarce do adjectivo felino, latim felinus, procedente do substantivo felis, «gato», por alusão ao apelido Gato, do marido de Joana Tavares, sua apaixonada.

«Não se pode aceitar esta origem do dito nome, porque tal adjectivo não existia em português ao tempo do poeta. É êle modernissimo na lingua, pois nem Bluteau o incluiu no seu Vocabulario portuguez e latino, nem mesmo no próprio Diccionario portuguez de Morais e Silva figura tal adjectivo atè á 3.ª edição, feita no anno de 1823, «correcta e acrescentada.» Vê-se pois que a introdução do vocabulo felino é não só posterior, e muito, ao século XV, mas até aos começos do XIX, e que o poeta o desconhecia portanto. «Assim, pois, o nome Fileno, masculino, foi talvez fabricado conforme o femenino Filene, que os gregos usaram, e cujo radical será o de Filipe, por exemplo.»

Em primeiro lugar agradecemos ao snr. Gonçalves Viana o cumprimento amabilissimo com que nos penhorou, que muito bem sabemos representar uma gentileza, que não um acto de justiça. A benevolência usada para comnosco por s. ex.

a

motivou um remoque do snr. dr. Theóphilo Braga, do que resulta tornar se ainda maior a nossa dívida de reconhecimento para com o sábio poliglota, o que temos a peito deixar registado nas páginas d'este trabalho.

Consignado isto, digamos o que se nos oferece sobre a

palestra

motivada pelo nosso livro:

Coube ao snr. visconde de Sanches de Baena a interpretação do nome

Fileno

como criptónimo de

Felino

, em alusão a

Pero Gato

, que o referido titular apresenta como marido de Joana (

Aonia

).

Nós não acreditamos na existência do Pero Gato do snr. Sanches de Baena, como com inteira franqueza deixamos exarado nas páginas do nosso trabalho; mas não nos repugnou admitir que o criptónimo invocado alvejasse a alusão a um animal felino. E assim escrevemos a pag. 87 do nosso estudo sobre Bernardim:

«O anagrama

Fileno

oculta, provavelmente, um individuo que tinha por nome, apelido ou alcunha o nome de um animal

felino

. Seria Pantaleão? Seria Gato? Estamos em crer que o assunto ainda poderá ser resolvido, como outros muitos pontos por aclarar respeitantes á vida de Bernardim.»

E na mesma página, a propósito do nome de

Lor

, ou

Lor-Vão

, referido nalgumas edições da écloga de

Crisfal

, escrevemos nós:

«Desde que se apure,

com segurança

, quem fosse o marido de Joana etc.»

O não se ter ainda apurado quem fosse o feliz rival de Bernardim, não se nos afigura motivo para pôr de parte, por em quanto, a interpretação enunciada pelo snr. visconde de Sanches de Baena quanto a Fileno, aceite pelo snr. dr. Theóphilo Braga, e a que nós tambem demos curso, embora sob reservas.

O facto dos antigos dicionários não fazerem menção do vocábulo

felino

não constitue razão para que se abandone essa hipótese, que póde não ser exacta, mas que é sem dúvida racional. Como o snr. Gonçalves Viana muito bem sabe, desde que no latim existiam os vocabulos

felis

,

felinus

, com o significado de

gato

, ou

respeitante a gato

, nada mais natural do que um escritor ter introduzido, lógicamente, o termo português

felino

. E ninguem poderá contestar que Bernardim Ribeiro tivesse envergadura sobeja para crear essa palavra. Bacharel formado em direito, e poeta bucolista não ignorava certamente o vocábulo latino.

A ser exacta a maneira de ver do snr. Gonçalves Viana sobre semelhante assunto, como poderiam justificar-se tambem os numerosos neologismos com que Luis de Camões enriqueceu a lingoa portuguêsa?

Hoje mesmo, após recentes trabalhos de dicionaristas distintos, quantos vocábulos

portuguêses

não falta ainda registar?!

A hipótese, porém, que o ilustre filólogo apresenta merece ser ponderada devidamente, sendo até possivel que s. ex.

a

tenha resolvido o problema quanto ao nome do marido de Joana Tavares, que poderia muito bem ter sido

Filipe

.

N'um

pliego-suelto

castelhano do século XVI, de que existe um exemplar na secção dos

Reservados

da Biblioteca Nacional de Lisboa, ha um dialogo em verso entre as personagens:

Alethio

e

Fileno

.―Aleixo e Filipe? Talvez!

Em fim, parafraseando o que já escrevemos: Quando se apure

com segurança

quem foi o marido da mulher amada por Bernardim Ribeiro, estarà implicitamente resolvido este problema.

VIII In terminis

Não estamos sós no combate que tivemos a satisfação de iniciar em prol da obra de Bernardim Ribeiro.

Ao nosso lado contamos a individualidade cheia de prestígio do snr. José Pereira Sampaio, que em breve defenderá em livro tese idêntica á nossa, demonstrando que o Poeta Crisfal é o bucólico Bernardim.

Se de estímulo carecessemos para prosseguir confiadamente na tarefa que nos impusemos, seria incentivo bastante o contarmos já entre aqueles que se confessam convencidos pelo nosso trabalho, alem de muitos outros espìritos esclarecidos, os nomes preeminentes dos srs. Anselmo Braamcamp Freire, José Caldas e dr. Sylvio Romero.

Não conseguiremos nós fazer vingar em nossos dias, por uma fórma absoluta, a obra de justiça a que metemos hombros? Não será dada essa satisfação ao ilustre escritor snr. José Sampaio?

―Que importa? As sementes estão lançadas, o solo não é ingrato... As sementes hão de vingar; a verdade triunfará, alastrando, impondo-se...

Por fim, só nos resta endereçar, muito comovidamente, um aperto de mão, agradecido e sincero, a quantos―bons amigos, camaradas e simples conhecidos―nos teem bafejado com palavras de elogio e incitamento por motivo da publicação do livro que deu origem a este novo trabalho.

Amadora, 16 de março de 1909.

APRECIAÇÕES DA IMPRENSA ao livro "Bernardim Ribeiro (O POETA CRISFAL)"

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

Delfim Guimarães é um poeta e um contista que há muitos annos firmou brilhantemente o seu nome. Alma delicada de poeta, é, ao mesmo tempo, um prosador elegante e correcto que conhece a sua lingua e sabe maneja-la. Afastado de todas as egreginhas literarias, isento de todos os snobismos, sem perder tempo nos cenaculos dos cafés, Delfim Guimarães tem-se destacado e destaca se entre os da sua geração, sem dever nada ao reclamo.

Admirador entusiastico, apaixonado, de Bernardim Ribeiro, Delfim Guimarães apurou um facto da mais alta importancia para a historia literaria do seu paiz:―que Christovão Falcão e Bernardim Ribeiro são uma mesma entidade.

É essa demonstração, consciente, documentada, que o nosso amigo vem de fazer neste livro―

Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)

―que é digno de ser lido por quantos querem conhecer a historia das letras patrias.

A Delfim Guimarães, os nossos parabens pelo seu valioso trabalho.

(Do jornal O Mundo, de 16 de Novembro de 1909)

«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães

É um livro de incontestavel valor, este que o sr. Delfim Guimarães acaba de publicar, editado pela Livraria Guimarães & C.

a

, da rua de S. Roque. Fructo de um aturado e consciencioso estudo, n'elle se demonstra que Bernardim Ribeiro e

Crisfal

representam um unico poeta, e que

Crisfal

é apenas um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das palavras

Crisma

e

Falso

, não passando, portanto, de uma lenda a existencia do poeta

Christovão

Falcão. Como se vê, o assumpto d'este livro do laborioso e intelligente escriptor é de molde a interessar vivamente todos quantos se dedicam ao estudo da nossa litteratura patria.

(Do jornal O Seculo, de 16 de N, de 16 de Novembro de 1909).

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

Subsidios para a história da literatura portuguesa, por Delfim Guimarães.―Lisboa, 1908. Livraria Editora Guimarães & C.a, 274 pág. 800 réis.

É o livro sensacional da semana que hoje finda. É o desabar de uma lenda secular. A ineptidão de uns editores quinhentistas insinuara a crença de que as trovas de

Crisfal

eram de

Cristovam Falcão

, cujo nome era representado pelo anagrama, formado da primeira silaba do nome e a primeira do apelido.

A lenda criou raizes; e, não obstante as hesitações e dúvidas de alguns criticos, ninguém, até hoje, contestara abertamente em publico a personalidade poética de Cristovam Falcão.

Mas Delfim Guimarães, estudando Bernardim Ribeiro, editorando-lhe as

Saudades

, e confrontando os trabalhos dos bucolistas do século XVI, chegou á convicção de que, tendo havido algumas personalidades com o nome de Cristovam Falcão, este nome não pertencia a nenhum poéta, e as trovas de Crisfal eram obra de Bernardim Ribeiro.

Documentando e justificando a sua convicção, acaba êle de dar á estampa o substancioso volume que hoje noticiamos.

No prefácio da obra, expõi o autor, com a devida lealdade, as circunstâncias e o processo que o levaram á absoluta rejeição da referida lenda, e congratula-se justamente por ter agora a noticia de que o ponderado publicista Pereira de Sampaio (Bruno), tinha já adquirido convicção análoga, que esperava justificar em livro.

Metodizando as provas e a documentação de que o poeta

Crisfal

não é outro, senão Bernardim Ribeiro, Delfim Guimarães faz minuciosamente a biografia crítica do poeta, estuda e analisa a primeira edição das obras de Bernardim, dá nos a história e a genealogia do suposto poeta Falcão; e, depois, de nos dar a exegese de numerosos factos e documentos, cerra o seu volume com a reproducção da

Carta

e da

Écloga

de

Crisfal

, e de

três

poesias mais de Bernardim Ribeiro, até agora ignoradas.

Claro é que, de um livro de tal significado e alcance, mal se podem formular juizos e sentenças em meia dúzia de linhas do nosso registo bibliográfico; e temos de nos restringir a dar da obra ideia sumária, chamando para ela a atenção, e naturalmente o apreço, de quantos se interessam pelos mais momentosos problemas da nossa história literária.

Mas remorder-nos-ia a consciência, se cerrássemos já a presente noticia, sem significar a Delfim Guimarães a satisfação que nos deu o seu melindroso e arrojado trabalho, e o encanto com que repassamos os olhos pelo ingénuo e delicioso bucolismo dos avoengos da poesía nacional.

Formoso livro e serviço memorável.

Dr. Candido de Figueiredo (Do Diario de Noticias, de Lisboa, de 28 de novembro de 1908).

O poeta Chrisfal

Delfim Guimarães: Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)―Subsidios para a historia da literatura portuguêsa―1908―Livraria Editora Guimarães & C.a―68, R. de S. Roque, 70―Lisboa.

Ha uns espiritos fortes, solidos―e que tanto abundam n'esta nossa bôa terra de Portugal―que hão de sentir-se escandalisados com a arrogancia d'alguem que, contra a opinião dogmatica e ensinamento incontestado dos grandes Sacerdotes, se abalança a demonstrar que os bucolistas Bernardim Ribeiro e Chrisfal (pretenso anagramma de Christovam Falcão) são uma e mesma pessoa; isto é: que o glorioso auctor da 1.ª parte da novella pastoral «Menina e Moça» é igualmente auctor da celebre peça poetica conhecida pelo nome da «Egloga de Chrisfal»―n'uma palavra, que o poeta Christovam Falcão nunca existiu e que a maioria das composições poeticas que andam com o seu nome pertencem de juro e herdade ao principe do bucolismo entre nós, a esse surprehendente Bernardim Ribeiro, que é, em toda a nossa litteratura, o vaso d'eleição d'onde mais trasborda o sentimento augusto da alma portugueza.

Mas outra raça d'espiritos não menos solidos sorrirá piedosamente (e, n'este caso, o sorriso é uma outra fórma de nos sentirmos escandalisados) perante a utilidade proxima ou longinqua que póde adquirir-se d'uma descoberta d'esta ordem.

Que importa ao bem do individuo ou da collectividade de hoje, que uns versos repassados d'uma verdade sentimental, á força de sentida quasi incomprehensivel,―versos, demais a mais vasados n'uma trama ingenua, bucolica, pastoril, sejam obra d'um ou d'outro recuado quinhentista ou, mesmo, tenham sido levados á conta d'um lendario personagem que, como poeta, nunca tivesse existido, a não ser na phantasia d'uns novelleiros de profissão que, com o rodar do tempo, conseguiram guindar a sua improbidade litteraria aos pinaculos d'uma certeza irrefutavel?!

Pois essa arrojada impiedade e esse improductivo bysantinismo―esse magno escandalo―acaba de perpetral-os o meu velho amigo Delfim Guimarães, poeta de verdade, infatigavel estudioso, paciente investigador, acurado cultista em materia litteraria, com a publicação do seu recente estudo «

Bernardim Ribeiro

(

o poeta Chrisfal

)», cujo apparecimento estas ligeiras notas intentam celebrar.

O mesmo é dizer que me não sinto com forças para, pormenorisadamente, passo a passo, ir vincando as passagens exegeticas d'este trabalho masculo e delicado que revela, no seu auctor, uma erudição e um methodo que eu entendo precisos n'aquelles que se propuzerem critical-o.

Não é, pois, um artigo critico o que vou fazer; mas se uma affirmação sincera e sentida, de valor nimiamente critico, me é permittido accentuar desde já, eu direi: Delfim Guimarães está na verdade. Christovam Falcão, poeta, nunca existiu. Chrisfal é um pseudonymo de Bernardim Ribeiro.

E isto porquê?!

Porque todos os que se occupam de Falcão o dizem pessoa de qualidade―pertencia á primeira fidalguia portugueza, diz o sr. dr. Th. Braga―e, quanto ao valor do seu estro, tanto era que mereceu ser confundido com Bernardim Ribeiro seu amigo e confidente, quando não seu predecessor. Como se explica, pois, que um tão illustre personagem não figure no Cancioneiro de Resende, onde aliás se encontram, com tão assombrosa profusão, nomes que, nem pela clareza da estirpe nem pelo fulgor do engenho, se impunham á consideração dos posteros?!

É crivel que o erudito, o dedicadissimo collector que se chamou Garcia de Resende―o homem, do seu tempo, que mais larga e intensamente privou na corte dos nossos reis―não tivesse noticia d'uma individualidade tão fortemente accentuada e tão parecida com o então e já apreciadissimo Bernardim?! Não me parece.

Seria qualquer despeito, qualquer d'estas pequeninas miserias que se transmudavam em acerbos espinhos d'odio (e ao tempo e antes e depois e sempre tão vulgares!) que levariam mesquinhamente o celebre collector do Cancioneiro a relegar, da convivencia dos seus 351 poetas, esse illustre Chrisfal e ao mesmo tempo (s Seria qualquer despeito, qualquer d'estas pequeninas miserias que se transmudavam em acerbos espinhos d'odio (e ao tempo e antes e depois e sempre tão vulgares!) que levariam mesquinhamente o celebre collector do Cancioneiro a relegar, da convivencia dos seus 351 poetas, esse illustre Chrisfal e ao mesmo tempo (segundo o ensinamento do sr. dr. Theophilo Braga) a recolher, como de Bernardim Ribeiro, versos de Falcão?!

Não me parece. Gil Vicente, como é sabido, apodára cruelmente Resende, e nem por isso deixou de figurar no Cancioneiro.

Estes simples e, quero crel-o, contestaveis argumentos levavam-me de ha muito, a duvidar da existencia poetica de Christovam Falcão, só muito mais tarde posta em fóco, entre outros, por Faria e Sousa, cujos

escrupulos

de caracter são por demais conhecidos.

Mas a simples argumentação sobre cancioneiros nem sempre é de colher, como um facto recente me leva a constatar.

Ha dois annos (outomno de 1906) appareceu nas livrarias a seguinte publicação:

Odysséa dos Tysicos―Album de Musicas para piano e canto, original de Raul Pereira, sobre versos de poetas portugueses?

É obra musical do sr. Raul Pereira que, á falta d'outra indicação, entendo dever tambem consideral-o como collector das varias poesias que o album encerra.

A primeira d'estas poesias, posta em musica apparece sob um retrato com esta epigraphe:

Guilherme Braga (1845-1874)

, e tem este titulo «

A Jesus Crucificado

», e é como segue:

A Vós, correndo vou, braços sagrados N'essa cruz sacrosanta descobertos Que para receber-me estaes abertos E, por não castigar-me, estaes cravados. A Vós, olhos divinos eclypsados De tanto sangue e lagrimas cobertos: Que para perdoar-me estaes despertos E por não devassar-me estaes fechados. A Vós, pregados pés, por não fugir-me; A Vós, cabeça baixa, por chamar-me; A Vós, sangue vertido para ungir-me; A Vós, lado patente, quero unir-me, A Vós, cravos preciosos, quero atar-me, Para ficar unido, atado e firme.

Devo confessar que ao ler este soneto nasceram-me duvidas―muito vagas, é certo―sobre a sua authenticidade quanto ao nome que o firmava. E como não o encontrasse entre as poesias colligidas nas

Heras e Violetas

, assentei, á falta de melhor solução, que se tratava de uma poesia solta, religiosamente recolhida por pessoa intima ou admiradora convicta do insigne e mallogrado poeta portuense.

N'isto estava, quando o acaso d'uma busca litteraria me levou a folhear, na Bibliotheca Publica,

O Ramalhete

, «jornal de Instrucção e Recreio» (2.ª série, n.º 165, 4.º anno) e a encontrar, a paginas 112 do vol. IV, o mesmissimo soneto, sem descrepancia d'uma unica palavra, sob esta assás curiosa rubrica:

«

No momento derradeiro da vida humana, qual o estado de moribundo, nada excita amor e conforto como a doce inspiração de abraçar um crucifixo, unico remedio d'alma. Por este motivo fez o dr. Manuel da Nobrega o seguinte soneto: «A Jesus Crucificado»

».

Portanto, teremos nós: os vindouros, que não leram o

Ramalhete

, a attribuir a Guilherme Braga (que, segundo o sr. Raul Pereira, nasceu em 1845, embora Innocencio nos diga 1843) uns versos do dr. Manuel da Nobrega, que vieram á estampa em 1841.

Veiu isto a proposito da confiança absoluta a depositar nos cancioneiros. Verdade seja que entre Garcia de Resende e o sr. Raul Pereira (que eu não tenho a honra de conhecer), o unico elo que os prende deve ser, se não laboro em erro, o laço musical...

Outras razões, porém, antes do trabalho de Delfim Guimarães, me levavam a pender para o arrocho da não existencia poetica de Christovam Falcão. É certo que a Renascença produzira uma eclosão genial em todos os ramos da vida sentimental, artistica e scientifica do occidente europeu, e que nós tivemos largo quinhão nas benemerencias d'esse glorioso Sol―e tão grande que ainda hoje d'elle vivemos. Mas é igualmente certo que, por grande que fosse, e foi, a prodigalidade do estro que nos coube, não era natural que dois vultos geniaes, a um tempo, surgissem tão parecidos, tão irmãos na concepção sentimental, na realisação artistica e até―suprema coincidencia―nos azares da vida amorosa! Delfim Guimarães embrenha-se em trabalhos de genealogia e de exegese litteraria, pacientemente cuidados, para nos infiltrar o convencimento que eu, sem razões de peso e sem auctoridade para as formular, de ha muito

sentia

da existencia d'um só poeta na obra de Bernardim e na obra de Chrisfal.

É, pois, para mim um livro de consolação. Por um lado, simplifica, no meu espirito, um caso que se achava enredado nas malhas autoritarias, embora convencionaes, de nomes respeitados; por outro, entorna, no meu coração, o intimo, o ineffavel jubilo de ver alguem da minha estima e do meu tempo elevar-se tanto, pelo trabalho intelligente e probo, n'uma manifestação eloquente de força moral e espirito combativo de que tanto carecemos.

E esta probidade litteraria não é coisa de pouca monta ou que alguem possa dispensar-se de a encarar com o mais profundo respeito, porque me hei de lembrar d'aquelle supremo prefacio do

Disciple

de Paul Bourget, quando elle se dirige á mocidade da sua terra:

Dentro de vinte annos tereis em vossas mãos a fortuna d'esta velha patria, nossa mãe commum. Vós sereis a propria patria. Que tereis recolhido nas nossas obras? Pensando n'isto, não ha homem de lettras, por mais modesto que seja, que não deva tremer de responsabilidade

...

Hemeterio Arantes. (Do Diario Illustrado, de 2 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

Subsidios para a historia da litteratura portugueza, por Delfim Guimarães. 1 vol. de 278 pag. Livraria editora Guimarães & C.a 1908 Lisboa, typ. Libanio da Silva.

A velha sentença portugueza―

o seu a seu dono

viria muito a propósito, noticiando o apparecimento d'este livro, com que se pretende, e consegue a nosso ver, reivindicar para o nome do grande poeta quinhentista a autoria e a glória de differentes producções que inconscientemente andavam attribuidas a outros. E se não fosse a bella coragem do sr. Delfim Guimarães, nosso antigo e presado amigo, que sendo poeta muito primoroso é tambem investigador ordenado e pacientissimo, o deploravel engano continuar-se-ia por muito tempo, ou, peor ainda, não se desvaneceria jámais talvez.

Entre outras, a lenda de que existira um Christovam Falcão, pretenso poeta de tão alto valor como Bernardim Ribeiro, e, assim, auctor tambem de maviosos versos, principiara a correr mundo em 1554, dois annos depois de fallecido este, e teria origem, parece, em certa nota posta n'uma edição pouco criteriosa feita n'aquelle anno, de differentes poesias, esparsas umas, outras logo colligidas após a morte de Bernardim, edição onde veem de mistura com a

Historia de Menina e Moça

, diversos motes, cantigas e églogas e entre estas, (diz a tal nota) «

hũa muy nomeada e agradavel... chamada Crisfal, que dizem ser de Christovão Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma egloga

...»

D'isto, e de outras investigações pacientemente realizadas pelo sr. Guimarães resulta a presumpção de provir a dita lenda principalmente d'aquellas vagas referencias e a allusão que o editor julgou encontrar em o nome de Crisfal do facto de serem as duas syllabas de que elle se compõe eguaes ás primeiras dos dois nomes

Cris

tóvam e

Fal

cão. Mas isto, que não constitue prova e não passa de mera hypothese, teria de cahir redondamente, quando se verificasse que esse Falcão era homem de poucas lettras e, portanto, incapaz de produzir trabalho de tanta valia como é a

Égloga de Crisfal

.

E assim succederia talvez se o sr. dr. Theophilo Braga não houvesse, em má hora, pretendido transformar a hypothese em lei, apresentando como definitivamente adquirida para Falcão a paternidade d'aquella e de outras poesias de altissimo valor litterario.

Não seguiremos o sr. Delfim Guimarães na critica acerba, se bem que correctissima, com que se refere a este erro do sr. dr. Theophilo Braga e ainda a muitos outros. Este operoso escriptor dirá de certo da sua justiça, não deixando, d'esta vez, mal parada a sua fama de erudito. E, sendo como é, sempre consciencioso nos seus trabalhos de historiador litterario, virá certamente á estacada, para explicar a razão do seu engano.

Muitos outros descobrimentos são indicados n'esta valorosa reivindicação, não se mostrando possiveis mais duvidas a respeito da não existencia de Christovam Falcão, poeta, e parecendo ao contrario definitivamente provado que o nome de Crisfal fôra um dos muitos pseudónymos e anagrammas adoptados por Bernardim Ribeiro nas suas obras. Tambem graças ao indefesso trabalho do sr. Delfim Guimarães ficará pertencendo irrevogavelmente ao poeta de

Menina e moça

não sómente a celebre égloga, mas ainda outras poesias attribuidas a diversos e que veem apontadas ou reproduzidas n'este volume.

Em compensação, porém, algumas até agora emprestadas ao bucólico poeta, lidima gloria das lettras portuguezas, terão de passar para outros, com o que, seja dito de passagem, a exceptuarmos o solau

[11]

―

Pensando-vos estou filha

, que o sr. dr. Theophilo Braga deu, tambem levianamente, como de Bernardim, sendo aliás de Camões, nada virá a perder o nome de Bernardim Ribeiro―antes pelo contrario!

N'este trabalho notavel do sr. Guimarães, obra de paciente investigação e bem disciplinado criterio, faz-se referencia a muitos outros factos interessantes, que nos abstêmos de contar, porque do livro apenas pretendemos dar rapida noticia; mas todos os elogios serão poucos a quem com coragem estréme veio inteirar a gloria de Bernardim Ribeiro que, desventuroso poeta, de uma parte d'ella havia sido espoliado.

Muito agradecemos a captivante offerta de um exemplar de

Bernardim Ribeiro

, com que fomos brindados pelo auctor.

(Da Mala da Europa, de L, de Lisboa, n.º 669, de 6 de dezembro de 1908).

Ainda Chrisfal

Longe estava de ver tão depressa e amplamente confirmada a minha asserção de que o trabalho de Delfim Guimarães «

Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)

» era, para mim, um «livro de consolação», quando o

Diario de Noticias

de 3 do corrente, sob a epigraphe «

Academia de Sciencias de Portugal

» me trouxe esse verdadeiro manjar (para lhe não chamar capitoso petisco...) espiritual á minha insaciavel fome de aprender.

É como segue a passagem, que me interessa da local jornalistica em questão:

«

Em seguida

(o sr. dr. Theophilo Braga)

realisa uma communicação sobre Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1565, senão n'aquella data moço fidalgo, e tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já idoso; evidencia como na Égloga transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jámais confundir-se

».

Eu imagino estar vendo estas palavras cahir do labio venerando, sobre a douta assembleia, como outras tantas perolas que, depois de serem ali devidamente apreciadas, resvalaram cá p'ra fóra, para o monturo anonymo, offerecidas em repasto magnifico aos cerdos iconoclastas.

Bacorejemos, pois, as preciosas gemmas...

Diz o Mestre que a

vida amorosa

de Christovam Falcão oscilla entre 1525 e 1565, sem ficarmos sabendo se a sua

vida poetica

tambem oscilla dentro do mesmo periodo, isto é: se a actividade

amorosa

e a actividade

poetica

de Chrisfal se confundem, caminham a par-e-passo ou se, pelo contrario, é o amoroso que precede o vate, se este antecede o namorado.

Eu, por mim, se alguma coisa entendo n'esta complicada psycologia, estou em dizer que, em geral, as duas actividades se confundem, são isochronas, e, segundo este criterio, Falcão só poetou com exito desde 1525.

Não póde elle, pois, ter figurado no Cancioneiro de Resende, que tem a data de 1516, como o sr. dr. Theophilo Braga pretendia até ha uma duzia d'annos atraz―opinião que depois modificou no seu trabalho, sobre Bernardim Ribeiro, que veio á estampa em 1897.

Mas o Mestre, em 1897, deixou de lhe dar entrada no Cancioneiro pela subtil razão de que Chrisfal não poetára nos Serões da côrte por pertencer ao

ramo pobre

dos Falcões. Lembrança exegetica que nos leva a concluir que todos os poetas do Cancioneiro poetaram nos ditos serões e demais a mais com a escarcella bem provida d'aureos recursos―embora muitas e muitas poesias d'aquella grandiosa collecção resvalem da casuistica amorosa, que é a caracteristica da poetica palaciana, para a lucta dos interesses em que se revela a necessidade do vil metal.

Mas agora que o insigne Professor colloca a vida amorosa de Falcão entre 1525 e 1565, pergunto eu: permanece este argumento para a sua exclusão do Cancioneiro ou teremos de assentar que Chrisfal n'elle não figurou pela simples razão de, em 1516, andar ainda com coeiros?

Naturalmente teremos de optar por esta ultima versão e, portanto, pôr de banda a sua amisade e apregoadas confidencias com o auctor das

Saudades

.

Fica de vez assente, pois, que Christovam Falcão não foi poeta do Seculo XV.

Proponho-me agora provar,

currente calamo

(como não pode deixar de ser tratando-se d'alguem que se não familiarisou com

os processos inductivos da critica moderna

... ) que Christovam Falcão tambem não foi poeta do Seculo XVI, como agora pretende o sr. dr. Theophilo Braga.

E isto porquê?!

Porque eu posso duvidar (ainda que me apodem de irreverente pedantismo) das, por vezes, arrojadas conclusões chronologicas do insigne Professor. Mais anno menos anno, mais seculo menos seculo são, para os grandes Generalisadores, coisas d'uma importancia mediocre. Outro tanto me não succede, quando a generalisação visa um assumpto basilar na essencia, no modo de ser do facto scientifico.

E é este o caso. Cristovam Falcão foi poeta entre 1525 e 1565?!

Ouçamos o sr. dr. Theophilo Braga:

«Se Cristovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de Miranda propagou as formas da poetica italiana, teria então adoptado o verso endecasyllabo, e a fórma da

outava

, do

terceto

, e trocaria pelo

soneto

o conceite provençalesco dos que ainda seguiam o typo do Inferno de Amor (

Bern. Rib. e os Bucolistas

, pag. 141)».

Na edição refundida do seu Bernardim Ribeiro, publicada em 1897, esta affirmação cathegorica permanece igual ou identica, como, aliás, não podia deixar de ser.

Demos de barato que se possa ter opinião diversa da do insigne lente do Curso Superior de Lettras, o que ninguem póde é contrariar a

realidade historica

, porque, como é sabido, contra factos não ha argumentos.

E esta

realidade

diz-nos que, depois de Sá de Miranda, não houve um uníco poeta que não tivesse experimentado as formas petrarchinas e o verso heroico.

Houve um dr. Antonio Ferreira que nunca em sua vida fez um verso de

medida velha

; houve muitos, e entre elles o proprio iniciador da poetica italiana, que não desdenharam a redondilha e os velhos agrupamentos metricos. De quem poetasse

exclusivamente

pelos antigos processos... não consta.

Logo, a não ser que rasguemos a

logica

do Mestre e a

verdade

da Historia, Christovam Falcão não encontra cadeira onde se sente, nem na vasta saleta da poesia palaciana, nem no refulgente salão do Seculo de Quinhentos!

Uma passagem do meu ultimo artigo teve o condão d'excitar duas communicaçôes que amavelmente me foram endereçadas.

A primeira, d'um amigo, que me escreve: «Sobre o soneto attribuido a Guilherme Braga, devo dizer-lhe que o auctor do mesmo não é o dr. Manuel da Nobrega, mas sim outro poeta.»

Claramente, corri logo a casa d'este amigo que me aconselhou uma intervista com o insigne bibliophilo e bibliographo sr. Annibal Fernandes Thomaz, o que, para mim, foi d'um prazer espiritual, como, de ha muito, me não era dado gosar.

Annibal Fernandes Thomaz é pessoa familiar a todos que n'este paiz se occupam de livros e―coisa rara!―a todos sorri, a todos mette no coração e em todos tem um admirador dos seus vastissimos conhecimentos e, o que é mais, um amigo devotado das suas grandes qualidades.

Disse-lhe ao que ia; mas, como da nossa conferencia resulta uma resposta á segunda communicação que recebi, é bem que n'este momento aqui fique exarada essa communicação.

Trata-se d'um bilhete-postal anonymo, e, se quebro a minha velha praxe e o bom-conselho de todos de lançar para os papeis inuteis esta ordem de documentos, é porque se trata d'um assumpto litterario e o meu correspondente, por qualquer razão se não querer fazer conhecido, o que muito me contraria. Diz assim:

«O soneto que v. reproduziu no

Diario Illustrado

tem mais de dois seculos. Bastava o estylo para o denunciar seiscentista; mas a prova positiva está em a Nova Floresta, terceiro tomo, tit. V, apopht. LIV. Permitta-se a um obscuro padre dizer mais. Com essa ancianidade de taes versos toma nova força o contra argumento de v. sobre o silencio dos cancioneiros a respeito de Crisfal. Na margem do soneto pag. 207, da edição da

Nova Floresta

de 1759 (4.ª impressão que tenho á vista) lê se o nome do autor assim:

Do Doutor Manuel da Nobrega

. Quem fez um tal soneto, tão seriamente engenhoso, apesar do gongorismo, e tão bem metrificado, havia de ter mais poesias: e sendo

doutor

, não era um desconhecido. Que temos d'elle na

Fenix Renascida

? Quem o conhece? Alguns annos ha, o soneto reproduzido anónimo em muitos livros devotos, foi publicado em o

Novo Mensageiro do Coração de Jesus

(revista piedosa mas de muita litteratura) com a indicação, que a minha memoria aproveitou agora, da

Nova Floresta

, e com uma nota que dizia ser o nome do Dr. M. Nobrega desconhecido dos bibliographos.»

Vamos agora, rapidamente, ao resultado das pesquizas com Fernandes Thomaz.

O soneto

A vós, correndo vou, braços sagrados

encontra-se a fechar uma dedicatoria a «Jesus Christo Senhor Nosso Crucificado» d'um curiosissimo livro de 1734 intitulado «

Anacephaleosis medico theologica, moral e politica

, etc., etc.», obra d'um tal Bernardo Pereyra, medico do partido da villa do Sardoal.

O meu primeiro correspondente, que conhecia o livro, attribuiu facilmente a Pereira a autoria do soneto, por não reparar nas palavras que precedem a sua reproducção, e que dizem:

«...e finalmente como se consegue a gloria que é a melhor conclusão que se tira depois de sahir da Universidade do mundo para as Escollas do Céo; mas será bem, meu amoroso Jesus,

que antes de tudo diga com hum devoto

que hoje para renacer do estado da culpa ao da graça, que de vós espero, para seguir o caminho por onde não vá precipitado, mas antes com a vossa direcção fortalecido!

«

A vós correndo vou, braços sagrados

, etc., etc.»

Mas (e vae isto em resposta ao anonymo correspondente) tanto Barbosa, na sua

Bibliotheca

, como Innocencio, no

Diccionario

, citam Manuel da Nobrega, como auctor do

Epicedio inconsolavel á morte do Ser. Principe de Portugal D. Theodosio que falleceu em 15 de maio de 1653

e como collaborador nas

Memorias funebres de D. Maria de Athayde

fallecida em 22 de agosto de 1649.

É livro muito interessante estas «

Memorias funebres sentidas pelos engenhos portugueses na morte da Senhora D. Maria de Athayde

». N'ellas se encontram poesias em portuguez, francez, hespanhol, italiano, latim, assignadas pelos nomes dos poetas mais illustres do tempo e, para não citar outros, bastará lembrar os de Soror Violante do Céo e D. Francisco Manuel de Mello.

Ao que parece tratava-se d'uma extremada formosura

doublée

(como hoje se diz) d'uma alma de eleição.

O Doutor Manuel de Nobrega

concorre a este florilegio poetico com um soneto e uma egloga. O soneto:

Aquelle bello Sol, que amanhecia

, não desmerece, antes tem grandes ares de familia com o que tem sido causa d'esta palestra... algo pesada.

Não quero, porém, terminal-a sem exarar o meu parecer de que o Soneto, embora

culterano

, tem tão pouco de

gongorico

que Guilherme Braga, ou qualquer outro grande poeta de hoje, não desdenharia assignal-o, se essa fosse

a sua corda

.

Hemeterio Arantes. (Do Diario Illustrado, de Lisboa, de 9 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

Subsidios para a Historia da literatura portuguesa, por Delfim Guimarães. 1908―Liv. ed. Guimarães & C.a Lisboa―8.º, 274 pag. Delfim Guimarães, Bibliographia: Prosa: Alma Dorida, com prefacio de Teixeira Bastos, O Rosquedo (scenas do Minho), Ares do Minho (contos).―Critica litteraria: A viagem por terra do sr. João Penha.―Verso: Lisboa negra, Confidencias, Evangelho, Não! mil vezes não!, Sim! mil vezes sim!, Sonho Garretteano, A Virgem do Castello e Outonaes.―Theatro:―Aldeia na Côrte, de collaboração com D. João da Camara. (3 actos―Th. D. Amelia), Juramento sagrado (1 acto, verso.―Th. D. Maria). Traduziu a Dama das Camelias, de Dumas, filho; reviu e publicou as Saudades de Bernardim Ribeiro e as Trovas de Crisfal, do mesmo auctor. Fundou e dirige a Bibliotheca Classica Popular. Collaborou longo tempo na Mala da Europa, Provincia, O Lima, Chronica, etc. Varias obras de Delfim Guimarães teem já 2.ª edição, estando algumas outras exgotadas.

Desde longos tempos até este anno 1908 da era de Xpõ, como escreviam os nossos velhotes, tudo era suppor que, ahi por alturas de mil quinhentos e tal da mesma era do Senhor, viveu, floresceu, e ninguem mais soube d'elle, certo

Crisfal

, poeta e namorado, que toda a gente indicava como sendo Christovão Falcão, um Christovão Falcão que se sabe agora escrever como um carreiro e ter mais erros de orthographia do que cabellos tinha na cabeça... se a Historia não provar que elle era careca. Indicava se Christovão Falcão tacteando. Para manter a suspeição havia só o corresponder o pseudonymo

Cris fal

ás primeiras sylabas do nome do supposto poeta. Longo tempo a mentira prevaleceu e longo tempo os doutos acceitaram de boamente a patranha, uns supplementando-a com fabulações

á priori

, outros asseverando que tal era porque era e «por ser verdade passavam a presente que assignavam».

Caminhava tudo em doce paz quando Delfim Guimarães, publicando o livro de que nos occupamos, desfez a lenda, tombou os castellos e pôz a cousa nos devidos termos. Mas vamos ao que importa.

«De como e porquê Delfim Guimarães achou que

Crisfal

não passou de um pseudonymo de Bernardim Ribeiro e de cousas varias que ao deante se verão», é um capitulo que, n'esta critica, deve interessar o leitor, agora que já sabe que tal

Crisfal

nunca existiu.

Delfim Guimarães é um estudioso e um devotado. Manuseia os classicos com a mesma curiosidade com que aguarda o ultimo livro de Anatole France ou o novo romance de Octave Mirbeau.

Ha tempo, dirigindo uma collecção, publicou as

Saudades

do nosso Bernardim, auctor que, por sua natural tristura e dulçorosidade, desde menino e moço mais o prendia e captivava. Tudo estaria bem até aqui se, mente cogitativa e emprehendedora, não scismasse em publicar uma Bibliotheca de Classicos animado pelo exito das

Saudades

. Uma Bibliotheca de vulgarisação, destinada a mostrar á alma do vulgo o escrinio das melhores joias dos nossos antepassados.

Anteriormente uma natural curiosidade o levara a estudar os poetas que se apontavam como maiores amigos de Bernardim: Sá de Miranda e

Crisfal

, o celebrado Christovam Falcão que hoje deve ás musas a celebreira que por seculos desfructou,―elephante que conseguiu passar por canario, o animal.

A extraordinaria semelhança de

Crisfal

a Bernardim, os mesmos lamentos, a mesma situação amorosa, os mesmos queixumes; a ausencia absoluta de noticias e referencias na obra de Sá de Miranda e Bernardim ao poeta coevo e imitador, tudo isto deu a Delfim Guimarães a certeza de que

Crisfal

e Bernardim era o mesmo, só, e altissimo poeta. Além d'isto nenhum documento da epocha autorisava a pôr a carapuça

Crisfal

em cabeça de Christovam Falcão. O mesmo editor de Bernardim, edição de 1554, onde se acha incorporada a «Egloga chamada Crisfal» escreve, referindo-se-lhe: «

que dizem ser

de Christovam Falcam, ho que parece alludir ho nome da mesma Egloga».

Estudado o contemporaneo Christovão Falcão, vê-se que elle era pouco menos de bronco e não poderia ser nunca o auctor da

Egloga

. Adquirida a certeza, que era

Crisfal

? E logo, deductivo, Delfim Guimarães achou a chave. É

crisma falso

, pois que na Egloga se move a mesma passionalidade de Bernardim com supositicios nomes―falsos crismas.

O livro do escriptor é ilustrado com um fac-simile de uma carta do pretenso Christovam Falcão e acompanhado de uma arvore genealogica dos Falcões. De uma logica cerrada e inteligente, preciosamente documentado, é um trabalho collosal que dará echoantissimo nome ao seu auctor. E enquanto se não perder na memoria das gerações o nome do bardo amoroso, o triste Bernardim, o nome de Delfim Guimarães não se desacorrentará da gloria de ter focado com intensa luz um tão curioso e deturpado caso da litteratura portugueza.

Lá fóra esta obra faria não só a gloria mas o nome de um trabalhador. As Academias levar-lhe-hiam o seu

fauteuil

estofado, e os editores disputariam a honra de lhe pagar.

Cá dá desgostos, nada mais.

O illustre publicista José Sampaio (Bruno) chegára ás mesmas conclusões. Anselmo Braamcamp Freire vae publicar um trabalho curiosissimo sobre Maria Brandão; José Caldas é da opinião de que se achou a verdade. Quem resta? Carolina Michaelis, cuja opinião importa saber, e Theophilo Braga, que discorda.

As impugnações que Delfim Guimarães fez aos livros de Theophilo estão em aberto. E Delfim veio com este seu trabalho não só elliminar um Christovam da litteratura e uma Maria das muitas Marias enamoradas, mas fazer luz sobre uma poesia de Camões falsamente attribuida a Bernardim Ribeiro, e documentar que

sómente

Sá de Miranda foi o introductor da Escola Italiana em Portugal. Bernardim Ribeiro foi o introductor mas das novas eglogas vergilianas.

Raro talento, muito estudo, aturada analyse, observação profunda e um grande serviço prestado á litteratura, eis como julgamos o livro

Bernardim Ribeiro

. Com ares impugnativos veio o sr. Jordão A. de Freitas no

Diario de Noticias

carretar materiaes para o rude e esforçado prelio a travar-se. Não crêmos que o haja. Theophilo Braga, porém, que tem estado silencioso, dirá de sua justiça. O trabalho de Delfim Guimarães é probo e consciencioso. Merece o applauso incondicional de todos, e que rejubile a litteratura que ainda tem artistas que, fructo de seu labor, lhe dão tão bellas obras.

Albino Forjaz de Sampayo. (Do jornal A Lucta, de Lisboa, de 16 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães

A obra que Delfim Guimarães acaba de publicar é o producto d'um lucido criterio aliado a uma habil quanto meticulosa investigação. Sem ser um erudito nem rebuscador d'archivos, Delfim Guimarães, antes de encetar quaesquer pesquizas, teve a maravilhosa intuição―ou elle não fosse um poeta―de que os admiraveis versos do

Crisfal

, desirmanados no decorrer do tempo da obra litteraria de Bernardim, constituiam com o poetico romance de

Menina e Moça

, reflexos d'um mesmo espirito, vibrações d'um unico coração.

É que o illustre critico interpretára com verdadeiro sentimento o genio do infortunado poeta, levando a tal ponto a sua predilecção por elle, que com as

Saudades

abrira essa galeria de publicações classicas portuguezas em edições populares vulgarisadas, cujo inicio no nosso meio litterario a Delfim Guimarães se deve.

Toda aquella paixão do enternecido bucolista das

Saudades

, a fluidez incomparavel d'essa linguagem que é na sua simplicidade uma mimica d'alma e tem a harmonia d'um fio d'agua gorgolejante, tudo isso,―o sentimento, que é a vida na obra d'arte, Delfim Guimarães foi encontrar nas composições erradamente attribuidas a Cristovam Falcão.

Obtida a prova subjectiva de que o poeta das

Saudades

era o trovador do

Crisfal

―na realidade um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das palavras

crisma

e

falso

―o distincto escriptor encetou a investigação historica do que para elle fôra um presentimento e pelo estudo feito sobre os documentos da epoca, seu confronto e interpretação, conseguiu destruir n'uma argumentação irrefutavel e cheia de brilho, a lenda feita tradição e cimentada pelo mais auctorisado critico da nossa litteratura, que o trovador do

Crisfal

nunca poderia ter sido Cristovam Falcão.

A carta d'este moço fidalgo a D. João III, que Delfim Guimarães transcreve na integra e que na edição de Theophilo Braga apparecera deturpada, é inquestionavelmente a prova mais evidente―e outras não houvesse com relação a datas―de que nunca o espirito trivial que alinhavou aquelles periodos―se é que ali os ha―idealisaria a enternecida ecloga do

Crisfal

, que é ainda, a alguns seculos de distancia, n'esta epocha em que a arte possue riquissimos processos de technica e a linguagem tanto ganhou em expressão emocional,―uma soberba joia litteraria.

Nesta obra, tão cheia de revelações, começa o auctor por fixar em bases positivas as

étapes

da infortunada vida de Bernardim, desde o seu nascimento no Alemtejo em 1482 até á sua morte no Hospital de Todos os Santos, de Lisboa, em 1552, submerso nas trevas horriveis da loucura. Depois com o esboço dos seus amores da adolescencia e paixão tragica que votou a Joanna Tavares, que foi a mais intensa affeição de Bernardim e a inspiradora do seu triste trovar, entra-se nos capitulos da exegese, sendo todo o livro uma refutação completa das idéas correntes sobre a problematica personagem do trovador do

Crisfal

. Nêle se visionam muitos pontos de vista até então desconhecidos e se estabelecem novas pistas para norteamento dos estudiosos, as quaes, certamente, muito contribuirão para que todo o interessante enigma literario se desvele em absoluto.

Nas suas curiosas investigações, fez Delfim Guimarães preciosos achados que denotam uma grande subtileza nas suas faculdades de critico, como a da poesia de Camões, erradamente atribuida a Bernardim, que se acha no cancioneiro de Luis Franco, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, tão interessantemente descoberta, e o das tres poesias constantes d'um

pliego-suelto

de 1656, da mesma Biblioteca, que o distincto escriptor filia com boas razões no estro de Bernardim.

Mercê da linguagem castiça, tão saborosamente portugueza, de que o auctor se serve, assim identificada com o thema historico versado, a obra é por si só, e independente da maneira de vêr do auctor, o trabalho honesto de um escritôr que é ao mesmo tempo um artista, n'essa evocação, d'um tão forte relevo, das saudosas edades em que os poetas amavam mais sinceramente e eram menos complicados, a arte não sendo como hoje um

métier

lucrativo, mas a manifestação espontanea d'um espirito no vôo errante da inspiração.

Fecha o livro um curioso estudo sobre a vida de Cristovam Falcão e sua genealogia, certamente o mais completo até agora.

Felicitamos Delfim Guimarães pelo seu valioso trabalho que vem deslocar cómodos preconceitos arreigados e abrir novos horizontes aos que se interessam―que são todos os portuguezes―pelo estudo da litteratura portugueza no periodo aureo d'esta nacionalidade.

(Do jornal O Dia, de Lisboa, de 9 de janeiro de 1909.)

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

É esta obra que perpetuará o nome do seu auctor, se bem que Delfim Guimarães em precedentes trabalhos litterarios tenha já adduzido sobejas provas para que lhe possâmos reconhecer um elevado grau de intelligencia.

Com a publicação do volume cujo titulo encima esta noticia, o serviço prestado por Delfim Guimarães á historia da litteratura patria está sendo louvado tão extraordinariamente a ponto do sr. Albino Forjaz de Sampaio, primoroso chronista da

Lucta

, não ter duvida em afirmar que no Estrangeiro tal publicação franquearia ao seu auctor as portas d'uma Academia.

O livro apresentado é o producto d'uma ardua tarefa em que pacientes faculdades de investigação, alliadas a uma singular vivacidade, removem com cauteloso tino os escabrosos obstaculos que tão ingrato estudo frequentemente depára. Por isso é que, sem receio de contradicta, nos afoutamos a asseverar que em Portugal ninguem melhor do que Delfim Guimarães conhece o periodo da historia litteraria a que o mesmo assumpto directamente respeita. E nem isso pode causar surpreza ao leitor illustrado, uma vez que a arrojada affirmativa do illustre publicista, que é por signal a

negação

da existencia de Christovam Falcão, como trovador quinhentista, demandava um minucioso exame analytico a todos os documentos litterarios de então; e nisso só a mais escrupulosa cautella conjugada com uma aguda perspicacia, como já deixamos dito, poderia lograr o exito desejado.

Os materiaes que Delfim Guimarães colligiu para invalidar a personalidade litteraria de Christovam Falcão, deixa-os elle dispersos nos varios capitulos do seu livro, os quaes sobrepostos uns aos outros, á medida que se vai avançando na leitura, introduzem em qualquer espirito a certeza da these que o auctor se propoz comprovar.

De envolta com os persuasivos esclarecimentos allegados em prol do seu proposito, o auctor rectifica raciocinios errados e affirmações insustentaveis de Theophilo Braga, se bem que o sabor acre d'essas frequentes correcções seja attenuado ou neutralisado quasi pelas assucaradas referencias ao passado de tão incançavel trabalhador.

Pelo volume a que estamos alludindo vê-se que a obra de Bernardim Ribeiro chegou para fazer a reputação de dous homens, vindo o nome de Christovam Falcão usurpar em seu proveito algumas das produções d'aquelle mavioso lyrico, e sendo, portanto, a sua memoria um nefasto saprophyta que do merito alheio foi vivendo durante um longo periodo de tempo. A duplicidade desapparece agora com as aturadas canceiras de Delfim Guimarães que assim reivindica para o grande corypheu do bucolismo em Portugal todos os fructos do seu prodigioso talento, corrigindo um erro em que os bibliophilos laboraram durante seculos. D'aqui resalta―e é esse um dos evidentes intuitos do auctor do livro em questão―o desenho da verdadeira figura de Bernardim Ribeiro, com as proporções proprias da sua gigantesca estatura litteraria, em cima do seu elevado pedestal de gloria, pedestal a que algumas pedras foram subtrahidas para sobre ellas figurar o ficticio vulto trovadoresco de Christovam Falcão.

Em Portugal abundam os devotados enthusiastas de Camões e Camillo, apparecendo agora um ardente propugnador d'outro nome tambem illustre, a legitima-lo como uma das maiores glorias litterarias de que se pode ufanar um povo. Esse nome é Bernardim Ribeiro e entrelaçado n'elle apparecerá d'oravante o de Delfim Guimarães, que acaba de restituir a obra do immortal bucolista á sua primitiva integridade.

Antonio Ferreira (Do Commercio do Lima, de Ponte do Lima, de 9 de Janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»

Com este titulo e o sub-titulo de

O Poeta Crisfal

, tambem o distincto escriptor a cujo nome, já tão merecidamente aureolado, fica feita referencia na rubrica anterior, publicou recentemente um interessante volume, apodado por esse proprio auctor de

subsidios para a historia da litteratura portugueza

, e que não é nem mais nem menos do que a demonstração a nosso vêr evidentissima, digam os

mestres

pilhados em deturpação o que quizerem, de que Bernardim Ribeiro e

Crisfal

são uma e a mesma pessoa, não sendo

Crisfal

pseudonimo de Christovão Falcão, mas sim um composto das primeiras sylabas das palavras

Crisma falso

, de que Bernardim Ribeiro fez uso. Percorrendo se, com olhos de ver, e com vontade de acertar com a demonstração explanada por Delfim Guimarães, todas as 200 e tantas paginas do volume em questão, adquire-se o convencimento de que ficaram por terra, uma a uma, «as pedras basilares com que o nome consagrado do sr. dr. Theóphilo Braga ergueu o monumento, aparentemente solido, que offertou ás lettras patrias, fazendo quase real, palpavel, uma miragem secular»―que dava

Crisfal

como sendo Christovão Falcão, quando este não pertence senão ao dominio da lenda, sendo uma perfeita mystificação a sua pretendida existencia de litterato.

O trabalho de verdadeiro erudito, que representa o livro de Delfim Guimarães, assignala de um modo inconfundivel o seu alto valor de estudioso, de investigador benemerito e de operoso trabalhador das nossas lettras. Felicitando-o cordealmente por esta nova prova das suas excepcionaes qualidades, cumprimos apenas um dever.

A. B. (Do Jornal das Colonias, de Lisboa, de 13 janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»

Temos retardado a noticia do apparecimento d'este livro notavel do illustre poeta e prosador, sr. Delfim Guimarães, porque quizemos consagrar á sua leitura algumas horas socegadas, afim de poder estudar convenientemente o problema litterario que em suas paginas se debate.

Esta obra é o resultado de longas e aturadas investigações e de um estudo conscienciosissimo, não só da obra de Bernardim Ribeiro, mas ainda da obra de todos os poetas, apontados como seus amigos e companheiros.

Cotejando os versos do iniciador do lirismo portuguez com os que se attribuem a Cristovão Falcão, o sr. Delfim Guimarães facilmente reconheceu que, embora pudésse admittir-se que a educação litteraria dos dois poetas tivesse sido a mesma, não era possivel que as suas tendencias esteticas fossem por tal maneira similhantes, que os seus versos chegassem a confundir-se. Um d'elles teria sido seguramente o imitador do outro.

Continuando nas suas indagações, e apreciando demoradamente a obra supposta contemporanea de Cristovão Falcão, notou ainda o sr. Delfim Guimarães que era frequente Sá de Miranda referir-se a Bernardim Ribeiro nas suas obras poeticas, havendo tambem allusões repetidas, nos versos d'este poeta, ao seu amigo e confidente. Ao auctor do

Crisfal

não notou a mais leve referencia.

N'aquelle bello poema havia allusões que alvejavam claramente Sá de Miranda, e foi do estudo attento d'essas allusões, que perfeitamente condiziam com as referencias das éclogas de Bernardim Ribeiro ao seu amigo, que resultou chegar aquelle illustre escriptor a conclusões inteiramente satisfatorias.

A analise de varios documentos de caracter historico e juridico produziu no espirito do sr. Delfim Guimarães a convicção de que a personalidade litteraria de Cristovão Falcão não existiu, sendo a obra que se lhe attribue toda do autor das

Saudades

.

Houve, é certo, um Cristovão Falcão de Sousa, que foi moço fidalgo em 1527 e capitão da fortaleza de Arguim em 1545, mas este personagem, na opinião de Delfim Guimarães, era incapaz de escrever a mais insignificante das quadras de Bernardim Ribeiro.

Como se vê, é realmente muito notavel este livro, que os eruditos e todos os que se interessam pelo movimento litterario portuguez, certamente deverão apreciar pela intensa luz que projecta sobre um dos principaes capitulos da historia da poesia nacional.

(Do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 20 de janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães

Não pode um povo viver sem ideal e esse ideal ha de ser como a flôr que firma as raizes no terreno proprio das suas tradições. O futuro ha de ser explicado pelo passado em que potencialmente está contido.

Assim, comprehende-se quanta importancia tem para a vida intellectual e artistica d'um povo o conhecimento de tudo quanto se refere á evolução litteraria dos generos e ás condições mesologicas em que os seus grandes prosadores e poetas produziram monumentos de dura.

É por isso que lá fóra se não considera trabalho inutil todo aquelle que consiste em escavar no passado, com paciencia e com intelligencia, para d'elle desenterrar uma ideia, uma verdade, a correcção d'uma data, a explicação de um texto obscuro.

É sobre este trabalho á primeira vista inglorio que philosophos e historiadores edificam as largas syntheses, cuja necessidade é redundancia encarecer para a comprehensão da psychologia d'um povo.

Entre nós, modernamente, nada ou quasi nada se tem feito n'esse sentido. Os nossos manuaes de litteratura repetem cegamente o que estava dito e feito, antes da descoberta dos modernos processos de critica e interpretação do passado.

Apenas o sr. Theophilo Braga com louvavel tenacidade se tem consagrado á especialidade, nem sempre sendo feliz, não só pela sua tendencia a tudo systhematisar, forçando os factos para os encaixar nas suas concepções aprioristicas, mas tambem pela vastidão do assumpto que é impossivel ser abrangido pelo trabalho de um homem só, principalmente quando não teve quem lhe preparasse o terreno.

Estas considerações accodem-nos a proposito do livro de Delfim Guimarães―BERNARDIM RIBEIRO―que representa incontestavelmente o acontecimento mais importante em historia litteraria do nosso tempo.

O facto, que é já do dominio publico, é este: Christovão Falcão, que passava por auctor da ecloga «Crisfal», uma das joias da nossa litteratura, foi na realidade um mediocre fidalgo, incapaz de produzir aquella obra prima. O auctor d'esta foi, effectivamente, Bernardim Ribeiro, o meigo poeta das «Saudades» que serviu de modelo e estimulo a Luiz de Camões.

O livro de Delfim Guimarães, que é um modelo de investigação paciente e de critica leal não deixa duvidas a tal respeito. Seria descabido aqui repetir os argumentos que por ora ninguem desfez em que o auctor fundamenta a sua sensacional descoberta.

Limitamo-nos simplesmente a consignar que se Delfim Guimarães revelou uma extraordinaria sagacidade estabelecendo «a priori» a identidade de Bernardim Ribeiro e do auctor de «Crisfal», a fórma cheia de probidade por que procurou «a posteriori» justificar a sua opinião honra não sómente as suas faculdades de investigador, mas tambem o seu caracter.

Quer nos parecer que, depois d'este precioso livro, a ninguem é licito alimentar duvidas a tal respeito. E se se perde para o quadro dos nossos poetas um nome, fica enriquecido e aureolado com gloria nova, mas que lhe pertencia o doce e encantador namorado da «Menina e Moça».

A Delfim Guimarães os nossos parabens e, com elles, os nossos agradecimentos.

(Do Jornal de Noticias, do Porto, de 8 de fevereiro de 1909).

Divagações

I

Só agora,―ainda que me não creiam―, só agora acaba de morrer, neste anno da graça de 1909, um dos grandes bucolicos da época de ouro dos escriptores quinhentistas!

Esse macrobio das letras, Mathusalem portuguez, de nome e de nação, era, sem mais nem menos, Chistovam Falcão de Sousa, que, embora quatro vezes secular, me parece, indefinidamente vivo continuaria se não o tivessem acaso assassinado...

Companheiro, amigo e confidente de Bernardim Ribeiro, houvera entre os dois, segundo Theophilo Braga, a infeliz conformidade de uma sorte infeliz; pois, ao passo que aquelle se desperdiçava por amores, tambem este por amores se perdia...

As celebradas «Trovas de Chrisfal» collocavam a figura de Maria Brandão, «com a casta graciosidade de uma virgem de Cimabue, dentro de paisagens que pareciam ter os traços do pincel de Giotto»; e toda a tradição popular, já assignalada pelo chronista Diogo do Couto, era unanime em considerar esse nome de «Chrisfal» como formado das duas primeiras syllabas do prenome e appellido de Christovam Falcão. De outra parte, o poema das «Saudades», ou a «Menina e moça», de Bernardim Ribeiro, lembrava a desventurada paixão do poeta pelo typo feminil de Joanna Tavares, que elle disfarçava com o pseudonymo pastoril de «Aonia».

Tão notavel se afigurava a individualidade literaria de «Chrisfal» que, para a illustre romanista D. Carolina Michaëlis, elle teria sido o creador do genero bucolico em Portugal, e Bernardim apenas o seu immediato imitador; mas, tambem, a semelhança entre elles era tal que, conforme a judiciosa observação do professor Simões Dias, «as obras de um podiam passar como feitas pelo outro.»

E assim se devia entender e ensinar nas escolas, até que um novo escriptor lusitano, o sr. Delfim Guimarães, nos apparecesse com um trabalho recente e valioso, onde a toda luz demonstra, com grande escandalo dos mestres, que Christovam Falcão é, sem menos nem mais, o mesmo Bernardim Ribeiro, que adoptara nas

«Trovas» o chris (ma) fal (so)

de Chrisfal». E a «Maria» de taes versos tambem constituia, a seu turno, mais um cryptonymo de amor...

Por certo que existiu Christovam Falcão, e existiu naquelles mesmos annos, mas o sr. Delfim Guimarães prova que semelhante personagem era um ignorantaço de marca.

―Arranque-se-lhe, por conseguinte, e para sempre, o rutilante diadema de poeta com que lhe cingiram a cabeça romantica... Puramente emprestada era a luz que o sobredourava na historia,―luz que lhe não provinha do merito, senão antes da phantasia dos criticos.

Em todo o caso, e emquanto houver a memoria dos homens, viverá o seu «renome», attribuido apenas á felicidade do «nome»...

Se elle, como escriptor, morreu, ha de ser, comtudo, evocado nas obras de erudição, ao menos, quiçá, como testemunho de quanto podem os enganos e a tardia justiça dos homens.

O trabalho consciencioso do sr. Delfim Guimarães honra a sua fina argucia, e nos leva a confiar no indefectivel juizo da historia cuja precaria relatividade é razão sobeja para nos empenharmos contra os «tortos» iniquos de que nos faça réos a precipitação ou a desidia. A averiguação do que pertence a cada um não transcende as raias da judicatura terrestre; e, para os que esperam na vida futura, parece que, perante o seu tribunal supremo, com jurisdicção apenas sobre o bem e o mal, não se levarão os problemas de preeminencia literaria, nem scientifica...

Á posteridade é que compete extremar as glorias de cada autor; sendo que, muitas vezes, a injustiça ou a ignorancia dos coevos, não impedem que as gralhas sejam finalmente despojadas do atavio das pennas do pavão.

Recordando o padre Manuel Bernardes o costume romano de ser punido, com o venablo e a nota de infamia, o legionario fanfarrão que enchia a boca de mentirosas façanhas, accrescenta que, se houvera de andar semelhante correição pelos ostentadores de engenho, muitos funccionarios exigiria a devida e cabal applicação da pena, que, na velha organisação militar, era privativa dos «tribunos». Verifica-se, porém, que, com o correr dos tempos, nunca faltam «tribunos» da milicia literaria, para o castigo dos soldados, «que blasonam falsas valentias», ou para que se desmascarem os miseraveis impostores da sciencia. Se até os reis, desde Homero, e, como dizia Camões,

«Dão os premios, de Ajace merecídos, Á lingua vã de Ulysses fraudulenta»

vêm mais tarde os divinos aedos, que, no tribunal dos pósteros, pleiteiam e ganham a causa dos que foram injustamente aggravados.

Não permitte, afinal, o criterio dos competentes, que um simples erudito, como Ptolomeu, usurpe, inappellavelmente, a fama devida ao saber mathematico de Hipparcho.

Este não é precisamente o caso de Christovam Falcão de Sousa, que não póde responder pelo erro dos que lhe enfiaram na modesta fronte uma corôa gloriosa de poeta. Elle, se vivo fôra, repugnaria acceitar o que a outrem pertencia de direito; pois, se os elogios que não merecemos, nos deprimem, em vez de exaltar-nos, o protesto da nossa consciencia não deve tardar quando aquillo que nos dão representa o resultado de uma espoliação alheia.

Reproduzindo a carta que ainda se encontra na Torre do Tombo, o sr. Delfim Guimarães apurou, e deixou de manifesto, que o suposto trovador tinha apenas a instrucção rudimentar dos moços fidalgos do seu tempo.

Se «idiotas», na accepção archaica de―«sem letras», eram, como sabemos, os barões da edade media, que até disso mesmo se ufanavam, a ponto de―«o condestavel Duguesclin nunca ter querido sujeitar-se á doutrinação de um mestre», nem ainda na aurora da Renascença pareceu melhor a cultura de certos homens, apesar de illustres.

Francisco Pizarro, logar-tenente de Sua Alteza, cavalleiro da ordem de Santiago e conquistador do Perú, ouviu ler, deante do Grande Concelho dos nobres de Hespanha, a minuta do decreto que o fazia senhor de todas terras descobertas e por descobrir;―e, como, na expressão de Heredia, não pudesse assignar o protocollo,

«Fit sa croix, déclarant ne savoir pas écrire, Mais d'un ton si autain que nul ne put en rire.»

Á vista de tal exemplo, não ha extranhar, no gentil-homem Christavam Falcão, nem as faltas de grammatica, nem as de orthographia, patentes em sua carta a el-rei, conforme o documento que ainda se conserva na Torre do Tombo... Mas essas faltas e a rudeza geral do estilo são bastantes para que não mais o tenhamos na conta de um emulo do suave e melancholico Bernardim Ribeiro, autor incontestavel das «Trovas de Chrisfal», depois de tantos argumentos sagazmente colhidos de uma profunda analyse psychologica e linguistica.

Um dos mais fortes indicios (aliás não aproveitado pelo sr. Delfim Guimarães) consiste na estrophe 77, das «Trovas», com o começo, em prosa, do poema das «Saudades»:

Por ti me vi desterrada em estas estranhas terras de donde eu fui criada, e, por ti, antre estas serras, em vida, são sepullada: onde, a se me perderem a frol dos annos se vão; ora julga se é rezão das minhas lagrimas serem menos daquestas que são!

Ha aqui uma clara allusão ao mesmo facto referido no trecho:

«Menina e moça me levaram de casa de meu pae para longes terras; qual fosse então a causa daquella minha levada, era pequena, não na soube.»

O sr. Delfim Guimarães deixa agora envolta em trevas a personalidade de Christovam Falcão; mas o raio de luz que deste se afasta, só serve de augmentar a gloria de Bernardim Bibeiro, cujo peregrino talento até hoje scintillava repartido pela auréola de dois nomes de poeta...

Silvio de Almeida. (Do jornal O Estado de S. Paulo, de S. Paulo, Brasil, de 29 de março de 1909).

Divagações

II

Que extranha e mal debuxada figura não era a desse Christovam Falcão, a quem, de principio, a gente ignara, depois editores sem critica, e, por fim, os mesmos autorisados mestres, attribuiram a paternidade das «Trovas de Crisfal», sem outro algum motivo que só este, aliás, deveras pueril: conjugarem-se na palavra «Crisfal» as duas primeiras syllabas de «Christovam» e de «Falcão»!

Unicamente, pois, a sorte de seu «nome» lhe grangeára o dilatado «renome» de quatro seculos, cheios de uma admiração que tanto (segundo o costume) tinha de enthusiastica, quanto mais era infundada e gratuita.

Aos phantasistas nada, certo, importava que jamais fosse o ideal trovador, nem uma vez, referido no volumoso in-folio do «Cancioneiro» de «Rezende», em cujo indice se catalógam até as mediocridades pulhas daquelle tempo. Nem cuidaram tampouco que a sua unica pretendida obra lyrica (não sem causa deparada entre os papéis, que foram, de Bernardim Ribeiro)―versava Aos phantasistas nada, certo, importava que jamais fosse o ideal trovador, nem uma vez, referido no volumoso in-folio do «Cancioneiro» de «Rezende», em cujo indice se catalógam até as mediocridades pulhas daquelle tempo. Nem cuidaram tampouco que a sua unica pretendida obra lyrica (não sem causa deparada entre os papéis, que foram, de Bernardim Ribeiro)―versava o mesmo assumpto predilecto deste ultimo, reflectia o mesmo gosto da paisagem, era fundida nos moldes do mesmo estilo, vinha molhada pelas lagrimas da mesma dorida commoção!

A todos que tenham olhos de ver, demonstra agora o sr. Delfim Guimarães, com miudezas de analyse, que certos passos das «Trovas», ou reproduzem heptasyllabos das pastoraes ribeirescas, ou correspondem a phrases similares do romancete das «Saudades».

Deixando, porém, de lado dezenas de significativas coincidencias esparsas, como entre o verso da egloga 4.ª:

«Coitado, não sei que diga,

e o da estrophe 21 de «Crisfal»:

«Mas, triste, não sei que digo»;

eu apenas aqui darei o que não expoz o novél escriptor portuguez, ou aquillo que elle só levemente adduziu.

Já na carta prefacial das «Trovas», cujo tom dagua chorosa nos suggere o «memento» do «Cancioneiro», os versos:

«Cuidai quanto nos quisemos, e não vos possa mudar dizer que vos podem dar outrem que tenha mais que eu»,

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