← Table of contents
Romanceiro III

XXXVII O MARQUEZ DE MANTUA

Reading edition

Ei-lo que se apea de seu classico barbante em que tantos annos cavalgou, e despindo o papel-pardo em que o imbrulhavam os cegos e vendilhões de nossas feiras, vem o nobre ‘Marquez de Mantua’ tomar o seu logar entre os mais venerandos e antigos romances do cyclo de Carlos-Magno. Sua nobre origem bem sabida é e bem manifesta: franceza ou provençal. Se foi a lingua d’oeil ou a lingua d’oc a primeira que fallou, não sei; quando atravessou os Pyreneus e veio para nós, certo que era ja familiar com ambas. Passou muito tempo em Hespanha por ser composição de Jeronymo Treviño[139]; hoje com razão se crê que o Treviño não foi senão o editor que em 1598 o imprimiu: sem dúvida o romance é muito mais antigo que isso; so da licção portugueza me parece que posso responder que é dos fins do XIV, principios—quando muito—do XV seculo. E todavia a fórma em que elle apparece em portuguez não creio que fosse a primitiva que entre nós teve, e me inclino a que ella seja posterior á que teem os nossos vizinhos castelhanos em suas collecções[140]. Aqui é mais dramatico, lá mais épico: nas multiplicadas edições dos cegos chegou a obter o nome de tragedia. Todavia, não deixarei de observar que revestidos d’esta mesma fórma ha romances muito mais antigos do que os narrativos. As rúbricas de aqui falla o marquez, agora diz o imperador etc., não são indisputavel próva de que a composição fôsse para se representar theatralmente.

Sem profundar nenhuma d’estas questões, contento-me de sacar do lixo da “feira-da-ladra”, ésta bella reliquia da nossa litteratura popular e romanesca, e de restituir ao seu eminente logar o nobre marquez de Mantua, embora me criminem e escarneçam os superciliosos academicos de todas as academias reaes e não reaes d’este mundo.

O MARQUEZ DE MANTUA

Na caça andava perdido De Mantua o velho marquez, E no peito presentido O coração traz de envez; Mais, não sabe o succedido! Farto ja de caminhar Por tam fragosa montanha, Cançado assim sem companha, Sem ter onde repousar N’essa terra tam extranha, Vendo o mato tam cerrado, Assentou de se apear E o seu cavallo deixar Porque estava de cançado Que ja não podia andar: FALLA O MARQUEZ —Fortunosa caça é ésta Que a fortuna me ha mostrado, Poisque, por ser manifesta Minha pena e gran’ cuidado, Me mostrou ésta floresta. Nunca vi tam forte brenha Desque me accordo de mi, Eu creio que Margasi Fez ésta serra Dardenha, Estes campos de Methli. Quero tocar a bosina Por ver se algum me ouvirá; Mas cuido que não será, Porque minha gran’ mofina Commigo começou ja. Todavia quero ver Se mora alguem n’esta serra Que me diga d’esta terra Cuja é para saber; Que quem pergunta não erra. Agora vejo-me aqui N’esta tam grande espessura, Que nem eu me vejo a mi, Nem sei de minha ventura, Nem menos será cordura. DIZ VALDEVINOS —Oh Virgem minha senhora, Madre do rei da verdade, Por vossa gran’ piedade Sêde minha intercessora Em tanta necessidade. Oh summa regina pia, Radiante luz phebea, Custodia animæ meæ, Pois está na terra fria A alma de pezar chea, Pois es amparo dos teus, Consola os desconsolados, Rainha dos altos ceos, E roga a meu senhor Deos Que perdoe meus peccados. FALLA O MARQUEZ —Não sei quem ouço gemer E chorar de quando em quando: Alguem deve de aqui estar... Segundo se esta queixando, Deve ter grande pezar. FALLA VALDEVINOS —Domine, memento mei, Lembrae-vos de minha alma, Pois que sois da glória rei, Nascido da flor da palma, Remedio de nossa lei. DIZ O MARQUEZ —Segundo d’elle se espera, Aquelle home anda perdido, Ou, por ventura ferido De alguma besta fera. Quero ver este mysterio, Que a falla me dá ousadia, Porque dois em companhia Terão grande refrigerio Para qualquer agonia. DIZ VALDEVINOS —Oh minha espôsa e senhora, Ja não tereis em podêr Vosso espôso que assim chora, Pois a morte roubadora Vos roubou todo o prazer. Oh vida do meu viver, Resplandecente narciso, Gran’ pena levo em saber Que nunca vos heide ver Até o dia do juizo. Oh esperança por quem Tinha victoria vencida! Oh minha glória, meu bem, Porque não partis tambem, Poisque sois a minha vida? Senão for vossa vontade De haver de mim compaixão, Mandae-me meu coração, Minha fe e liberdade, Que está em vossa prizão. Madre minha muito amada, Qu’é de o filho que paristes, De quem ereis consolada? Como se ha tornado nada Quanta glória possuistes? Ja me não vereis reinar, Ja me não dareis conselho, Nem eu o posso tomar; Que quebrado é o espelho Em que vos sabeis olhar. Ja nunca me haveis de ver Fazer justas e torneios, Nem vestir nobres arreios, Nem cavalleiros vencer, Nem tomar bandos alheios. Ja não tomareis prazer Quando me virdes armado; Ja vos não virão dizer A fama de meu podêr, Nem louvar-me de esforçado. Oh valentes cavalleiros, Reinaldos de Montalvão, Oh esforçado Roldão, Oh marquez Dom Oliveiros, Dom Ricardo, Dom Dudão, Dom Gaifeiros, Dom Beltrão, Oh gran’ duque de Milão, Que é de vossa companhia? Duque Maime de Baviera, Que é de vosso Valdevinos? Oh esforçado Guarinos, Quem comsigo vos tivera! Meu amigo Montesinhos, Ja nunca mais vos verei; Dom Alonso de Inglaterra, Ja nunca acompanharei O conde Dirlos na guerra. Oh esforçado marquez De Mantua, teu senhorio, Ja não me poreis arnez, Nem me vereis outra vez Gozar vosso senhorio. Ja não quero o vosso estado, Ja não quero ser pessoa, Nem mandar, nem ter reinado; Ja não quero ter coroa, Nem quero ser venerado. Oh Carlos imperador, Senhor de mui alta sorte, Como sentireis gran’ dor Sabendo da minha morte, E quem d’ella é causador: Bem sei, se sois informado Do caso como passou, Que serei mui bem vingado, Ainda que me mattou Vosso filho mui amado. Oh principe D. Carloto, Quem, sendo tam desegual, Te moveu a fazer mal Em um logar tam remoto A teu amigo leal? Alto Deus omnipotente, Juiz direito sem par, Sôbre ésta morte innocente Justiça queirais mostrar, Pois morro tam cruelmente. Oh Madre de Deus benigno, E fonte de piedade, Arca da Sancta Trindade, De donde o Verbo Divino Trouxe sua humanidade, Oh Sancta Domina mea, Oh Virgem gratia plena Em que a alma se recrea, Dae remedio á minha pena, Pois que morro em terra alhea. FALLA O MARQUEZ —Senhor, porque vos queixais? Quem vos tratou de tal sorte, E quem é o que tal morte Vos deu, como publicais, Que assás é ésta má sorte? Não me negueis a verdade, Contae-me vosso pezar, Que vos prometto ajudar Com toda a força e vontade. DIZ VALDEVINOS —Muito me agasta, amigo, Certamente teu tardar, Dize se trazes comtigo Quem me haja de confessar? DIZ O MARQUEZ —Eu não sou quem vós cuidais: Nunca comi vosso pão, Mas vossos gritos e ais Me trouxeram aonde estais Mui movido a compaixão. Dizei-me vossa agonia, Que, se remedio tiver, Eu vos prometto fazer Com que tenhais alegria. DIZ VALDEVINOS —Meu senhor, muitas mercês Por vossa boa vontade! Bem creio que me fareis Muito mais do que dizeis, Segundo vossa bondade. Mas minha dor é mortal, Meu remedio so é morte, Porque estou parado tal, Que nunca homem mortal Foi trattado de tal sorte. Tenho, senhor, vinte e duas Feridas todas mortais, As intranhas rotas, nuas, E passo penas tam cruas, Que não poderão ser mais. Ha-me morto á traição O filho do imperador, Carloto, a gran’ sem razão, Mostrando-me todo o amor, Não o tendo no coração. Muitas vezes requeria Minha espôsa com maldade, Mas ella não consentia Pelo bem que me queria, Por sua grande bondade. Carloto com gran’ pezar, Como mais traidor que forte, Ordenou de me matar, Cuidando com minha morte Com ella haver de casar. Mattou-me com gran’ falsia, Tranzendo cinco comsigo, Sem eu trazer mais commigo Que um pagem por companhia. A mim chamam Valdevinos, Sou filho de elrei de Dacia, E primo de elrei de Grecia, E do forte Montesinos, Que é herdeiro de Dalmacia. Dona Hermelinda formosa Minha madre natural, Sibylla minha espôsa De graças especial, Mas com primores famosa. Ésta nova contareis Á triste de minha madre Que em Mantua achareis, E ao honrado marquez Meu tio, irmão de meu padre. FALLA O MARQUEZ —Oh desestrado viver, Oh amargosa ventura, Oh ventura sem prazer, Prazer cheio de tristura, Tristura que não tem ser! Oh desventurada sorte, Oh sorte sem soffrimento, Desemparado tormento, Muito peior do que a morte, Morte de desabrimento! Oh meu sobrinho, meu bem, Minha esperança perdida, Oh gloria que me sustêm, Porque vos partis de quem Sem vós não terá mais vida? Oh desventurado velho, Captivo sem liberdade! Quem me póde dar conselho, Pois perdido é o espelho De minha gran’ claridade! Oh minha luz verdadeira, Trevas do meu coração, Penas de minha paixão, Cuidado, que me marteira, Tristeza de tal traição! Porque não quereis fallar A este marquez coitado, Que tio sohieis chamar? Fallae-me, sobrinho amado, Não me façais rebentar. DIZ VALDEVINOS —Meu tormento tam molesto Me faz não vos conhecer Nem na falla, nem no gesto; Nem intendo vosso dizer Se não for mais manifesto. Estou tão posto no fim, Que não sei se sou alguem, Nem menos conheço a mim; Pois quem não conhece a sim, Mal conhecerá ninguem. DIZ O MARQUEZ —Como não me conheceis, Meu sobrinho Valdevinos? Eu sou o triste marquez Irmão de elrei Dom Salinos, Que era o pae que vos fez. Eu sou o marquez sem sorte, Que devêra rebentar Chorando a vossa morte, Por com vida não ficar N’este mundo sem de porte. Oh triste mundo coitado, Ninguem deve em ti fiar, Pois es tam desventurado, Que o que tens mais exaltado, Mor quéda lhe fazes dar! FALLA VALDEVINOS —Perdoa-me, senhor tio, A minha descortezia, Que a minha grande agonia Me pôs em tanto desvio, Que ja vos não conhecia. Não me queirais mais chorar; Deveis de considerar Que para isso é o mundo, Que dobrais meu mal profundo. Para bem é mal passar: E bem sabeis que nascemos Para ir a ésta jornada, E que, quanto mais vivemos, Maior offensa fazemos A quem nos creou de nada. Assim que, necessidade Não tendes de me chorar, Poisque Deus me quiz levar No melhor de minha edade Para mais me aproveitar. Mas o que haveis de fazer, É por minha alma rogar, Porque o muito chorar Á alma não dá prazer, Mas antes mui gran’ pezar. Quero-vos incommendar Minha espôsa e minha madre, Poisque não tem outro padre Que as haja de amparar, Senão vós, como é verdade. Mas o que me dá paixão Em ésta triste partida, É morrer sem confissão; Mas se parto d’esta vida, Deus receberá a tenção. Vem o ermitão e o pagem. DIZ O ERMITÃO —A paz de Deus sempiterno Seja comvosco, irmão! Lembrae-vos de sua paixão Que, por nos livrar do inferno, Padeceu quanto a varão. DIZ VALDEVINOS —Com coisa mais não folgára Do que vê-lo aqui chegado, Padre de Deus enviado, Que se um pouco mais tardára, Não me achára n’este estado. FALLA O PAGEM —Oh que desestrada sorte, Meu senhor Danes Ogeiro! Olhae vosso escudo forte, Olhae, senhor, vosso herdeiro, Em que extremo o pôs a morte! Oh desditoso caminho, Caça de tanto pezar, Que cuidando de caçar, A morte a vosso sobrinho Vieste, senhor, buscar. DIZ O ERMITÃO —A gran’ pressa que trazia Não me deu, senhor, logar De conhecer nem fallar A vossa gran’ senhoria. N’este êrro se ha culpa, Peço-lhe d’ella perdão, Ainda que a discrição Sua me dará desculpa. FALLA O MARQUEZ —Rogae a Deus, padre honrado, Que me queira dar paciencia; Que o perdão é escusado, Porque vossa diligencia Vos não deixa ser culpado. DIZ O ERMITÃO —O filho de Deus enviado Vos mande consolação! E pois que aqui sou chegado, Quero ouvir de confissão Este ferido e angustiado. Coisa é mui natural A morte a toda a pessoa, A todo o mundo em geral, Poisque a nenhum perdoa. Não a tenhamos por mais. Porque o peccado de Adão Foi tam fero e de tal sorte, Que não só foi perdição: Mas Deus, que é salvação, Quiz tambem receber morte. E por tanto, filho meu, Não se deve de espantar Da morte que Deus lhe deu; Pois em provimento seu Lh’a deu para o salvar Lembre-lhe sua paixão: Veja este mundo coitado, E não o ingode o malvado, Que não dá por galardão Senão tristeza e cuidado. Em quanto, filho, tem vida, Chame a Madre de Deus, Aquella que foi nascida Sem peccado concebida, E coroada nos ceos. Ésta foi santificada E visitada dos anjos, E em corpo e alma levada Á gloria, onde exaltada Lá está sobre os archanjos. Assim, que ao Redemptor E a ésta Virgem sem par Se hade, filho, incommendar Depois que aos sanctos for Sua vontade chamar. As mãos levante aos ceus, Faça confissão geral, Confessando-se a Deus E á Virgem celestial E a todos os sanctos seus. DIZ O MARQUEZ —Oh bonancia abhorrecida, Oh desestrada fortuna, De prazeres gran’ tribuna! Porque não desemparais A quem sois tam importuna? Tristeza, desconfiança, Porque não desesperais A quem não tem confiança? Contae-me, pagem Burlor, O caso como passou, Quem foi aquelle traidor Que mattou vosso senhor, Ou por que causa o matou FALLA O PAGEM —Seria mui mal contado Se a sua gran’ senhoria Não contasse o que é passado. Eu sei certo que faria O que não é esperado Contra quem me deu estado, E ha feito tantas mercês Que nunca meu pae me fez: Que é meu senhor amado, E mais vós, senhor marquez. Estando pois em Paris O filho do imperador, Mandou chamar meu senhor Nos passos da imperatriz: Fallaram muito a sabor; O que fallaram não sei, Se não que logo n’essa hora, E sem fazer mais demora, Com quatro detraz de si Foram da cidade fóra, Armados secretamente, Segundo depois ouvi. Partimos todos d’ahi, E Dom Carloto presente Tambem armado outrosi. E tanto que aqui chegaram, N’este valle de pezar Todos juntos se apearam E fizeram-me ficar C’os cavallos que deixaram. E logo todos entraram Em este esquivo logar, Onde meu senhor mattaram, E depois de o mattar, Nos cavallos se tornaram. Como eu os vi tornar, Sentindo muito tal dor, Temendo de lhe fallar, Não ousei de perguntar Onde estava meu senhor. Vendo-os assim caminhar, Porque nenhum me fallava, Quiz a meu senhor buscar, Porque o coração me dava Sobresaltos de pezar. Não o podia topar Porque a grande espessura E a noite medrosa, escura Me fazia não o achar: De que tinha gran’ tristura. Buscando-o com gran’ paixão, N’aquelle lugar remoto O achei d’esta feição. Disse-me como á traição O mattára Dom Carloto. Perguntei porque razão: Triste, cheio de agonias, Disse-me com afflicção: —‘Vai-me buscar confissão, Ja se acabaram meus dias.’ Como taes novas ouvi, Com grande tribulação E pezar de vê-lo assi, Me parti logo d’aqui A buscar este ermitão. Isto é, senhor, o que sei D’este caso desastrado, Quanto me ha perguntado: Outra coisa não direi Mais do que lhei contado. DIZ O MARQUEZ —Quando sua majestade Justiça me não fizer Com toda a rogaridade. Á força de meu podêr Cumprirei minha vontade. DIZ O ERMITÃO —Ja o senhor se ha confessado, E fez actos de christão; Morre com tal contricção, Que eu estou maravilhado De sua gran’ discrição. Muito não póde tardar, Segundo n’elle senti. Acabei de lhe fallar Porque lhe quero rezar Os psalmos d’elrei David. FALLA VALDEVINOS —Não tomeis, tio, pezar, Que me parto de vos ver Para nunca mais tornar, Pois Deus me manda chamar E não posso mais fazer. Torno-vos a incommendar Minha espôsa e minha mãe, Que as queirais consolar E ambas as amparar, Poisque não têem mais a quem. ORAÇÃO DE VALDEVINOS —Em as tuas mãos, Senhor, Incommendo meu espirito; Poisque es Salvador meu, Meu Deus e meu Redemptor, Não me falte favor teu: Pois, Senhor, me redemiste, Como Deus, que es de verdade, Senhor de toda a piedade, Lembra-te d’esta alma triste Cheia de toda a maldade. Salve, Senhora benigna, Madre de misericordia, Pas de nossa gran’ discordia, Dos peccadores mezinha, Vida doce e concordia, Spes nostra, a ti invocamos, Salva-nos da escura treva. A ti, Senhora, chamamos Desterrados filhos de Eva, A ti virgem, suspiramos, A ti gemendo e chorando Em aqueste lagrymoso Valle sem nenhum repouso, Sempre, Virge’, a ti chamamos, Que es nosso prazer e gôso. Ora pois, nossa advogada, Amparo da christandade, Volve os olhos de piedade A mim, Virgem consagrada, Poisque es nossa liberdade. Dá-me, Senhora, virtude Contra todos meus imigos; Poisque es nossa saúde, Eu te rogo que me ajudes Nos temores e perigos: Roga tu por mim, Senhora, Oh Sancta Madre de Deus, A quem a minha alma adora, Pois es rainha dos ceus E dos anjos superiora. Aqui expira Valdevinos e DIZ O MARQUEZ —Oh triste velho coitado, Oh cans cheias de tristura! Oh doloroso cuidado, Oh cuidado sem ventura, Sem ventura desestrado! Quebrem-se minhas intranhas, Rompa-se meu coração Com minha tribulação. Chorem todas as campinas Minha grande perdição, Scureça-se o sol com dó, Caiam estrellas do ceu, As trévas de Faraó Venham ja sôbre mim só. Pois minha luz se perdeu Na luz de mui claro dia, Claridade sem clareza, Minha doce companhia, Onde está vossa alegria, Que me deixa tal tristeza? Oh velhice desestrada, Sem gloria e sem prazer, Para que me deixais ser, Pois que sendo, não sou nada, Nem desejo de viver? Porque não vens, padecer, Porque não vindes, tormentos, Paraque são soffrimentos A quem os não quer ja ter, Nem busca contentamentos? Paraque quero razão, Paraque quero prudencia, Nem saber, nem discrição? Paraque é paciencia, Pois perdi consolação? DIZ O PAGEM —Oh meu senhor muito amado, Porque vos tornastes pó? Porque me deixastes só Em este mundo coitado Com tanta tristeza e dó? Leváreis-me em companhia, Pois sempre vos tive, vivo. Oh minha grande alegria, Porque me deixais captivo, Mettido em tanta agonia? Meu senhor, minha alegria, Dizei, porque nos deixais Com tanta pena notoria? Lembrai-vos, tende memoria De quantos desemparais. Oh sem ventura Burlor! De quem serás amparado, De quem terás o favor Que tinhas de teu senhor, Poisque ja te ha faltado? FALLA O ERMITÃO —Não tomeis, filho, pezar, Pois claramente sabeis Que pelo muito chorar Não cobrais o que perdeis. Deveis, filho, de cuidar Que nossa vida é um vento Tam ligeiro de passar, Que passa em um momento Por nós assim como o ar. Quem viu o senhor infante, Tam pouco ha, fazer guerra, E ser n’ella tam possante, E agora em um instante Se tornado escura terra, Diria com gran’ razão Que este mundo coitado Não dá outro galardão, Senão tristeza e paixão, Com a vós outros foi dado. Olhae a elrei Salomão O galardão que deu; A Amon e Absalão, E ao valente Sansão, E ao forte Macabeu. Em a Sacra Escritura Muitos mais podia achar Se os quizesse contar; Mas vossa grande cordura Supprirá donde faltar. E poisque não tem ja cura O mal feito e o passado, Cesse a vossa tristura, E demos á sepultura Este corpo ja finado. Levemo-lo onde convêm Para que seja interrado; E póde bem ser guardado N’aquella ermida que vêem Até ser imbalsemado. Aqui levam a Valdevinos á ermida. E entra o imperador, o conde Ganalão, e DIZ O IMPERADOR —Certo, conde Ganalão, Muito gran’ perda perdemos. Péza-me no coração, Porque na côrte não temos Reinaldos de Montalvão, Nem o conde Dom Roldão, Nem o marquez Oliveiros, Nem o duque de Milão, Nem o infante Gaifeiros, Nem o forte Meredião. DIZ GANALÃO —Muito alto imperador, Muito estou maravilhado Porque mostrais tal favor A quem vos ha deshonrado Com tanta íra e rigor, Que, chamando-se Almansor; Com o seu rosto mudado Aquelle falso traidor Com mui grande deshonor Quiz deshonrar vosso estado: Porquê, senhor, não sentis Que este malvado ladrão Vos prendeu de sua mão Tomando-vos a Paris Com muito grande traição? Pondo-vos em Montalvão Apezar do vosso imperio, Onde com gran’ vituperio Estivestes em prizão, Sem ter nenhum refrigerio? FALLA O IMPERADOR —Verdade é isso, cunhado: Porêm deveis de saber Que em Reinaldos me prender Eu mesmo sou o culpado: Isto bem o podeis crer. Se então me quiz offender Não é muita maravilha, Pois ja me quiz guarnecer Mattando elrei Carmeser, Que me trouxe a sua filha. DIZ GANALÃO —Vossa real majestade Dirá tudo o que quizer, Mas eu espero a Beltrão... Que se conheça a maldade De quem se hade conhecer. Aqui se vai Ganalão; e vêem dois embaixadores mandados pelo marques de Mantua, chamados Dom Beltrão e duque Amão: e virão vestidos de dó: e DIZ BELTRÃO —Gran’ Cesar Octaviano, Magno, augusto, forte rei, Grande imperador romano, Amparo da nossa lei, Poderosa majestade, Senhor de toda a Magança, Da Gascunha e da França, Gran’ patrão da christandade, Esteio de segurança! Pois sois senhor dos senhores, Imperador dos christãos, Somos vossos servidores, Amigos leaes e sãos. DIZ O IMPERADOR —Eu me espanto, Dom Beltrão, De vos ver d’aquella sorte, E a vós, forte duque Amão: Não é ésta disposição E trajo da nossa côrte. FALLA O DUQUE —Muito mais será espantado De nossa triste embaixada, E do caso desestrado O qual lhe será contado, Se seguro nos é dado. DIZ O IMPERADOR —Bem o podeis explicar Sem ter medo nem temor. Para que é assegurar? Pois sabeis que o embaixador Tem licença de fallar. DIZ O DUQUE Á EMBAIXADA —Quiz, senhor, nossa mofina Que o infante Valdevinos, Primo do forte Guarinos, Filho da linda Hermelinda E do grande rei Salinos, Fôsse morto á traição Na floresta sem ventura. A tam grande desventura Haverá quem não procure De vingar tal perdição? FALLA O IMPERADOR —É certa tam gran’ maldade, Que o sobrinho do marquez É morto, como dizeis? DIZ O DUQUE —Pela maior falsidade Que nunca ninguem tal fez. DIZ O IMPERADOR —Este caso é desestrado: Saibamos como passou E quem tam mau feito obrou: Que o que tal senhor mattou, Merece bem castigado. FALLA O DUQUE —Saiba vossa majestade Que dez dias póde haver Que o marquez foi á cidade De Mantua com gran’ vontade Á caça que sohe fazer. Andando assim a caçar, Da companhia perdido Foi por ventura topar Com seu sobrinho ferido Quasi a ponto de expirar. Bem póde considerar O gran’ pezar que teria De se ver sem companhia, E a morrer em tal logar A coisa que mais queria. Perguntando a razão, Sendo d’ella mui ignoto, Disse com grande paixão Que o mattára á traição Vosso filho Dom Carloto. A causa que o moveu Dar morte tam dolorosa A tam grande amigo seu, Não foi outra, senhor meu, Salvo tomar-lhe a espôsa. Mattou-o á falsa fe, Indo muito bem armado, Com quatro homens de pé. Quem matta tam sem porquê Merece bem castigado. O marquez Danes Ogeiro Lhe manda pedir, senhor, Justiça mui por inteiro: Que ainda que perca herdeiro, Elle perde successor. DIZ DOM BELTRÃO —Não deve deixar passar Tam gran’ mal sem o prover, Porque deve de cuidar Se seu filho nos mattar, Quem nos deve defender? E mais lhe faço saber Porque esteja apparelhado, Se justiça não fizer, Que o marquez tem jurado De por armas a fazer. O mui valente e temido Reinaldo de Montalvão Entre todos escolhido Está bem apercebido Como geral capitão. Dom Chrisão e Aguilante Com o forte Dom Guarinos, E o valente Montesinos, Primo do morto infante, Primo de elrei Dom Salinos, E o mui grande rei Jaião, De Dom Reinaldos cunhado, E o esforçado Dudão, E o gran’ duque de Milão, E Dom Richarte esforçado, O marquez Dom Oliveiros, E o famoso Durandarte, E o infante Dom Gaifeiros, E o mui forte Ricardo, E outros fortes cavalheiros, Todos têem boa vontade De ajudar ao marquez Em essa necessidade; Porque foi gran’ crueldade A que vosso filho fez. Evitae, senhor, tal damno, Pois que sois juiz sem par; Não vos mostreis inhumano, Acordae-vos de Trajano Em a justiça guardar. Assim que, alto, esclarecido, Poderoso sem egual, O que fez tam grande mal Bem merece ser punido Por seu mandado imperial. E pois, senhor, hei proposto A causa porque viemos, E sabeis o que queremos, Mandae-nos dar a resposta Com que ao marquez tornemos. DIZ O IMPERADOR —Oh poderoso Senhor, Que grande é o vosso mysterio! Pois para meu vituperio Me deste tal successor Que deshonrasse este imperio. Se o que dizeis é verdade, Como creio que será, Nunca rei na christandade Fez tam grande crueldade Como por mim se verá. Por minha coroa juro De cumprir e de mandar Tudo que digo e procuro. Ao marquez podeis dizer Que elle póde vir seguro, E todos quantos tiver, Venham de guerra ou de paz, Assim como elle quiser. E pois que justiça quer, Com ella muito me praz. ENTRA DOM CARLOTO, E DIZ —Bem sei que com gran’ paixão Está vossa majestade Pela falsa informação Que de mim, contra razão; Deram com gran’ falsidade; Porque um filho de tal home E tão grande geração Não deve sujar seu nome Em caso tal de traição. Por vida de minha madre, Que se tam gran’ deshonor Não castigar com rigor, Que me será cruel padre, Não direito julgador. DIZ O IMPERADOR —Não vos queirais desculpar Pois que tendes tanta culpa, Que se o mundo vos desculpa, Não vos heide eu desculpar. E portanto mando logo Que estejais posto a recado, Até ser determinado, Por conselho do meu povo, Se sois livre ou condemnado. Mando que sejais levado Á minha gran’ fortaleza, E que lá sejais guardado De cem homens do estado, Até saber a certeza. FALLA DOM CARLOTO —E como, senhor, não quer Vossa real majestade Saber primeiro a verdade, Senão mandar-me prender Por tam grande falsidade? DIZ O IMPERADOR —Não vos quero mais ouvir. Levem-no logo á prizão Onde eu o mando ir; Porque tam grande traição Não é para consentir. Vós outros podeis tornar, E contar-lhe o que é passado A quem vos cá quiz mandar; Que o seguro que lhe hei dado, Eu o torno a affirmar. AQUI VEM A IMPERATRIZ E DIZ —Eu muito me maravilho De vossa grande bondade: Que sem razão nem verdade Trattais assim vosso filho Com tam grande crueldade. Olhe vossa majestade Que é herdeiro principal, E que toda a christandade Lh’o hade ter muito a mal. DIZ O IMPERADOR —A mim, senhora, convem Ser contra toda a traição: E se vosso filho a tem, Castiga-lo-hei muito bem: E essa é minha tenção. E mais eu vos certifico Que com direito e rigor Heide castigar o iniquo, Ora seja pobre ou ricco, Ou servo ou gran’ senhor. FALLA A IMPERATRIZ —Como quer vossa grandeza Infamar o nosso estado Sem causa, com tal crueza? DIZ O IMPERADOR —Quem me cá mandou recado Não foi senão com certeza. DIZ A IMPERATRIZ —Por tal recado, senhor, Quereis trattar de tal sorte Vosso filho e successor, Que depois de vossa morte Hade ser imperador? FALLA O IMPERADOR Em eu o mandar prender Não cuideis que o maltratto. Mas se elle o merecer, Eu espero de fazer A justiça do Troquato; Porque pae tam poderoso, Sendo de tantos caudilho, Senão for tam rigoroso, Nem elle será bom filho, Nem será rei justiçoso. Que agora, mal peccado! Nenhum rei nem julgador Faz justiça do maior; Mas antes é desprezado O pequeno com rigor. Todo o mundo é affeição; Julgam com rara remissa O nobre que, sem razão Alguma, tem opinião lhe tocar a justiça... Que conta posso eu dar Ao Senhor dos altos ceos, Se a meu filho não julgar Como outro qualquer dos meus? Assim que escusado é Buscar este intercessor; Porque Deos de Nazaré Não me fez tam gran’ senhor Para minha alma perder. DIZ A IMPERATRIZ Ai triste de mim coitada! Para que quero viver, Poisque sempre heide ser Do meu filho tam penada Como uma triste mulher? Pois tão triste heide ser Por meu filho muito amado, Nunca tomarei prazer, Senão tristeza e cuidado. DIZ O IMPERADOR —Não façais tantos extremos, Pois dizeis que tem desculpa, Que antes que sentença dêmos. Primeiro todos veremos Se tem culpa ou não tem culpa. Mostrae maior soffrimento, Que o caso é desestrado; E i-vos a vosso aposento, Que elle não será culpado. Aqui se vai a imperatriz; e vem a mãe e espôsa de Valdevinos, e DIZ A MÃE —Oh coração lastimado, Mais triste que a noite escura! Oh dolorosa tristura, Cuidado desesperado E fortunosa ventura! Oh vida da minha vida, Alma d’este corpo meu! Oh desditosa perdida, Oh sem ventura nascida, A mais que nunca nasceu! Oh filho meu muito amado, Minha doce companhia, Meu prazer, minha alegria, Minha tristeza e cuidado, Minha sab’rosa lembrança, Que serei eu sem vos ver? Filho da minha alegria, Oh meu descanço e prazer, Porque me deixais viver Vida com tanta agonia? Adonde vos acharei, Consôlo de meu pezar? Onde vos irei buscar, Poisque perdido vos hei Para jamais vos cobrar? Filho d’esta alma mesquinha, Dos meus olhos claridade, Onde estais, minha mezinha. Filho de minha saudade, Meu prazer e vida minha? DIZ A ESPOSA POR NOME SYBILLA —Que é de vós, meu coração, Que é da minha liberdade, Espelho da christandade, Quem vos mattou sem razão Com tão grande crueldade? Quem vos apartou de mim, Meu querido e meu espôso? Oh meu prazer saudoso, Porque me deixais assim Com cuidado mui penoso? Oh minha triste saudade, Oh meu espôso e senhor, Minha alegria e vontade, Escudo da christandade, Das tristes consolador! Que farei pobre coitada, Mais que nenhuma nascida? Miseravel, angustiada, Para que quero ter vida, Pois minha alma é apartada? Oh fortuna variavel, Triste, cruel, mattadora, De prazeres roubadora, Inimiga perduravel, Matta-me se que’s agora. DIZ HERMELINDA AO IMPERADOR —Se vossa gran’ majestade Não der castigo direito A quem tanto mal ha feito, Nem sustentar a verdade, Não será juiz perfeito. Não olhe vossa grandeza Sua madre dolorosa, Nem sua tanta tristeza; Mas olhe tam gran’ princeza Com ésta sua espôsa. FALLA O IMPERADOR —Faz-me tanto intristecer Este tam gran’ vituperio, Que mais quizera perder Junctamente meu imperio, Que tal meu filho fazer. Mas se a verdade assim é, Como ja sou informado, Que tal castigo lhe dê Que seja bem castigado. DIZ SYBILA —Seja justiça guardada A ésta orphã sem marido. Viuva desamparada, Tam triste e desconsolada Mais que quantas têem nascido. Olhae, senhor, tam gran’ mal Como vosso filho, ha feito, E não queirais ter respeito Ao amor paternal, Poisque não é por direito. FALLA O IMPERADOR —Senhora, não duvideis, Que eu farei o que hei jurado, Se é verdade o que dizeis, Porque cumpre a meu estado De fazer o que quereis: Que mais quero ter commigo Fama de regoridade, Que deixar de ter castigo, Quem commetteu tal maldade. Para que é ser caudilho De tanto povo e tam grado, E imperador chamado, Se não julgasse meu filho Como qualquer estragado? Não cuidem duques nem reis Que, por meu herdeiro ser, Que por isso hade viver: Que aquelle que faz as leis É obrigado a as manter. Assim que, por bem querer, Amizade nem respeito, Como agora sohem fazer, Não heide negar direito A quem direito tiver. E bem vos podeis tornar, Fazei certo o que dissestes E não tomeis tal pezar, Porque o bem que ja perdestes Não o cobrais com chorar. DIZ HERMELINDA —Senhor, nós outras nos pomos Em mãos da vossa grandeza: Olhae bem, senhor, quem somos, E de que linhagem fomos, Pois Deus nos deu tal nobreza. DIZ SYBILA —Olhae os serviços dinos Que tanto tempo vos fez Meu espôso Valdevinos, Tambem seu tio marquez, E como foram continos. Aqui se vai Hermelinda e Sybila; e virá Reinaldos com um carta que tomaram a um pagem de Dom Carloto, e DIZ REINALDOS DE MONTALVÃO —O summo rei dos senhores, Que morreu crucificado Em podêr dos pharizeos, Accrescente vosso estado E vos livre de traidores. FALLA O IMPERADOR —Mui valente e esforçado Reinaldos de Montalvão, Vós sejais tam bem chegado Como a sombra no verão. Muito estou maravilhado, Invencivel e mui forte, De ver-vos assim armado, Sabendo que em minha côrte Nunca fostes maltratado. FALLA REINALDOS —Senhor, não seja espantado De ver-me assim d’esta sorte, Porque com todo o cuidado Ganalão, vosso cunhado, Sempre me procura a morte. Bem sabeis que sem razão, Com vontade mui maligna Fez mattar com gran’ traição A Tiranes e Erocina, E ao feito Salião, E a mim ja quiz mattar Muitas vezes com maldade; E para mais me danar, Fez á sua majestade Mil vezes me desterrar. O grande mal que me quer De todo o mundo é sabido, E por isso quiz trazer Armas para offender, Antes que ser offendido. Mas deixando isto assim Guardado p’ra seu logar, Onde se hade vingar, Vos quero, senhor, contar. Notorio a todo o christão É o pezar lastimoso Do marquez Danes Ogeiro, Que tem, com justa razão, Pela morte do herdeiro. N’esta nobre côrte estão Muitos mui nobres senhores Que sabem que Dom Beltrão E o nobre duque Amão Foram seus embaixadores: Tambem este é sabedor Das respostas que lhe destes, E mais de como prendestes Vosso filho successor. Do qual está mui contente De te-lo pôsto em prizão; E tem mui grande razão, Porque na carta presente, A qual fez de sua mão, Confessa toda a traição. E um pagem a levava Para o conde Dom Roldão, Que na cidade de Boava Faz a sua habitação. E como não ha falsia Que se possa esconder, Tinha o marquez espia, Porque queria saber O que Dom Roldão faria. Esse pagem imbuçado, Sem suspeita e sem revez, Ia mui determinado: Onde logo foi tomado E levado ao marquez. Lendo a carta Dom Guarinos, N’ella contava a tenção Porque o mattára á traição. Isto é, senhor, a verdade, E o que vos manda dizer: Se o que digo é falsidade, (Que por isso a quiz trazer) A lettra é bom conhecer, Que é este o seu signal. Pois, quem fez tam grande mal Bem merece padecer Morte justa corporal. DIZ O IMPERADOR Se tal a carta disser, Não se ha mister mais provar, Nem mais certeza fazer, Senão logo executar A pena que merecer. E portanto, sem deter, Lea-se publicamente Ante ésta nobre gente; Porque todos possam ver Vossa verdade evidente. CARTA DE DOM CARLOTO A DOM ROLDÃO Caudilho de gran’ podêr, Capitão da christandade, Ésta vos quiz escrever, Para vos fazer saber Minha gran’ necessidade. Porque o verdadeiro amigo Hade ser no coração, Assim como fiel irmão, E não nade temer p’rigo Por salvar quem tem razão. Porque sabereis, senhor, Que me sinto mui culpado, Como quem foi mattador; E temo ser condemnado De meu padre imperador. Eu confesso que pequei, Pois com vontade damnosa A Valdevinos mattei. Amor me fez com que errei, E o primor de sua esposa. O imperador, meu padre, Me mandou prêso guardar, E nunca quiz attentar, Os rogos de minha madre. A ninguem quer escutar, E o marquez tem jurado De não vestir nem calçar, Nem entrar em povoado, Até me ver justiçar. Tenho por accusadores, Reinaldos de Montalvão, E seu padre o duque Amão E muitos grandes senhores; O gran’ duque de Milão Com o forte Montesinos, Que é primo de Valdevinos. Assim que todos me são Accusadores continuos. Pois tantos contra mim são, Eu vos rogo, como amigo, Que vós queirais ser commigo; Porque, tendo Dom Roldão, Não temo nenhum perigo. DIZ O IMPERADOR Antes que algum mal cresça, Façamos o que devemos. Pois o signal conhecemos, E pois vemos que confessa, De mais próva não curemos, Nem vós façais mais detença. E, pois ja tendes licença, Podeis dizer ao marquez Que venha ouvir a sentença. Ir-se-ha Dom Reinaldos, e vem a imperatriz vestida de dó, DIZ O IMPERADOR Senhora, ja não dirão Que fui eu mal informado, Nem que o prendo sem razão, Pois por sua confissão Vosso filho é condemnado. Vêdes a carta presente, Que foi feita da sua mão Para o conde Dom Roldão: A qual muito largamente Declara toda a traição. DIZ A IMPERATRIZ Eu muito me maravilho Do que, senhor, me ha contado; Mas, pois elle ha confessado, Melhor é morrer o filho Que deshonrar o estado. Mas a dor do coração Sempre me hade ficar... Peço-lhe com affeição Que lhe busque salvação E que o queira escutar. DIZ O IMPERADOR Melhor é que o successor Padeça morte sentida, Que ficar o pae traidor: Que será trocar honor, Pela deshonra nascida. Tambem eu padeço dor, Tambem eu sinto paixão, Tambem eu lhe tenho amor... Mas antes quero razão, Que amizade sem favor. DIZ A IMPERATRIZ Poisque não póde escapar, Eu não consinto nem quero Que vós o hajais de julgar, Porque vos podem chamar Muito mais peior que Nero. DIZ O IMPERADOR Não vivais em tal ingano, Que tambem foram caudilhos O gran’ Trocato, o Trajano; E quizeram, com gran’ damno, Ambos justiçar seus filhos. Pois que menos farei eu, Tendo tam grande estado? Quem é com razão culpado Em maior caso que o seu? E portanto eu vos rogo Que não tomeis tal pezar, Porque com vos enojar Dá-se gran’ tristeza ao povo. DIZ A IMPERATRIZ Eu cumprirei seu mandado, Porque vejo que é razão; Mas sempre meu coração Terá tristeza e cuidado E grande tribulação. Aqui se vai a imperatriz: e vem o marquez de Mantua vestido de dó, e DIZ O MARQUEZ Bem parece, alto senhor, Que vos fez Deus sem segundo, E de todos superior, Dos maiores o melhor, Rei e monarcha do mundo. Porque vós, senhor, sois tal, Que com razão e verdade Sustentais a christandade Em justiça universal. A qual para salvação Vos é muito necessaria, Porque convem ao christão Que use mais de razão Que de affeição voluntaria: Como faz vossa grandeza Com seu filho successor. Assim que, digo, senhor, Que estima mais a nobreza Que amizade nem favor. FALLA O IMPERADOR Não curemos de fallar Em coisa tam conhecida; Porque n’esta breve vida Havemos de procurar Pela eterna e comprida. Para sentir gran’ pezar Vós tendes razão infinda, E tambem de vos vingar, Pois foi justa vossa vinda. Bem vimos vossa embaixada, E a causa d’ella proposta Foi de nós mui bem olhada, E não menos foi mandada Mui convencivel resposta. E vimos vossa tenção, E soubemos vosso voto, E vemos tendes razão Pela grande informação Do principe Dom Carloto. E vimos a confissão De Dom Carloto tambem, E soubemos a traição, Como na carta contêm, Que mandava a Dom Roldão. De tudo certificado, Eu condemno a Dom Carloto Em tudo o que hei mandado. VEM UM PAGEM DA IMPERATRIZ DIZENDO A imperatriz, senhor, Está tam amortecida De grande paixão e dor Que não tem pulso nem cor, Nem nenhum signal de vida. Nenhum remedio lhe vem; Está n’esse padecer Sem lhe podêrmos valer: E, segundo d’ella cremos, Mui pouco hade viver. DIZ O IMPERADOR Eu muito me maravilho De sua gran’ discrição; Mais sinto sua paixão, Que a morte de meu filho... Não te quero mais dizer, Quero-a ir consolar, Pois tanto lhe faz mister. Não sei porque é enojar Por se justiça fazer! Aqui se vai o imperador; e virá Reinaldos com o algoz, o qual trará a cabeça de Dom Carloto, e DIZ REINALDOS Jagora, senhor marquez, Vos podeis chamar vingado, Porque assás é castigado O que tanto mal vos fez, Poisque morreu degollado. Fazei por vos alegrar, Dae graças ao Redemptor, Pois assim vos quiz vingar, Sem nenhum de nós p’rigar E com mais vosso valor.

Notes in this chapter

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings