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Romanceiro III

XXX DOM DUARDOS

Reading edition

O último conhecido dos nossos poetas populares antigos, o verdadeiro fundador do theatro d’Hespanha, Gil-Vicente, não era só poeta comico, segundo vulgarmente se crê ás cegas, porque poucos abrem os olhos para o ler com attenção, para estudar n’elle, como todos deviam, lingua, costumes, stylo, côr e tom nacional da epocha: nenhum outro escriptor portuguez os teve tam verdadeiros, tam characterizados e sinceros.

O romance heroico ou epico, isto é, o que celebrava grandes feitos e successos nacionaes, ou interessantes aventuras de guerras e de amores—que d’elle tomaram depois o appellido de romanescas, ou porque não romancescas? hoje mais inglezadamente romanticas—este que tambem rhymou muitas vezes devotas legendas de sanctos e de milagres, os passos da historia sagrada de ambos os Testamentos, e até os proprios mysterios do dogma; o romance epico em toda a sua primitiva simpleza foi tambem cultivado por Gil-Vicente.

Com elle e com Bernardim-Ribeiro creio que morreu, litterariamente fallando, nos fins do seculo XV, principios do XVI, para resuscitar depois, á primeira trombeta do seiscentismo, como todos os generos populares que por essa reacção resurgiram; mas rebicado e contrafeito, secante de metaphoras, pesado de conceitos, escripto emfim com a penna d’aza da ‘Phenix-renascida.’

Quanto elle fôra estimado e cultivado entre nós em tempos de Gil-Vicente, vê-se de muitos logares de seus dramas. E ahi se vê tambem que promiscuamente compunham os nossos trovadores ja no dialecto de Castella, ja no de Portugal, e ainda o mesmo romance ou soláo ora se cantava em uma, ora n’outra linguagem.

Para exemplo e próva, leia-se com attenção o dialogo do feiticeiro com a ama de Cismena na scena II de Rubena[107]. Ahi véem citados como portuguezes e em portuguez, apar de outras cantigas castelhanas, muitos romances que alguns passam hoje por legitimos filhos de Castella e em suas collecções se incontram; de outros nem por ellas ha memorias. Tal é o que começa:

‘Eu me sam Dona Giralda’;

de que não achei outro vestigio nem nos romanceiros castelhanos, nem na nossa tradição oral. Tal é est’outro:

‘Em Paris está Donalda’;

que vem nos citados romanceiros, pôsto que differentemente escripto.

Tambem no auto dos Quatro tempos cantam estes ‘até chegar ao presepio,’ manda a rubrica[108], uma cantiga franceza que diz:

‘Ai de la noble Villa de Paris!

É claro que este é um romance; e romance conhecido, e que não era castelhano nem portuguez, mas francez. E d’aqui se deprehende tambem uma coisa que muitas vezes tenho julgado intrever, e de que tenho quasi uma consciencia íntima, sem ousar dá-la por certa, porque não ha ainda todas as próvas documentaes que se precisam para uma asserção que hade parecer atrevida: e é—que os romances primitivos quasi que eram communs ás linguas romanas, e que nenhuma os vindicava exclusivamente; porque o trovador catalão ou provençal, portuguez, normando ou castelhano pertencia mais á republica litteraria e artistica de sua profissão, do que a nenhum reino ou nação, ou divisão politica do paiz. Cantava-se o romance para lá do Ebro? davam-se ás palavras desinencias mais curtas e contrahidas; dizia-se para cá d’elle? produziam-se mais arredondadas. Entre Portugal e Castella menos era preciso ainda, porque as linguas, ja tam similhantes, ainda o eram mais então, e no especial dialecto do romance dobradamente.

Apponto isto aqui somente como ementa, para mais devagar se reflectir e estudar no que indico. Ha grande verdade na indicação; mas até onde ella chega, não sei dizer porora, nem saberei talvez nunca, porque me não sobra tempo nem paciencia para dar professadamente a estas coisas. Vou escrevendo o que me occorre como curioso. A sciencia fará o seu officio com o tempo. Eu não pretendo a litterato nem a crítico, e n’estas coisas menos que em nenhuma. Occupo as minhas horas vagas com estes divertimentos innocentes; não faço mais nada.

Tornando ao nosso Gil-Vicente, na segunda scena—acto, jornada, ou parte II—da Rubena, canta a Cismena em portuguez outro princípio de romance mui notavel pelo metro pouco usado na nossa lingua:

‘Grandes bandos andam na côrte, Traga-me Deus meu bonamore.’

Muitas outras próvas achará alli o leitor curioso de que este genero era o mais popular então entre nós. Como tal o cultivou Gil-Vicente; e assim o mostra o romance dos Padres no Limbo no auto da ‘Historia de Deus’, o da Barca dos Anjos no auto do ‘Purgatorio’, o da Infanta no auto das ‘Côrtes de Jupiter’, e muitos outros dispersos por suas obras dramaticas, alêm dos dois bem conhecidos que expressamente compôs, um á morte d’elrei Dom Manuel, outro á acclamação de Dom João III.

Este primeiro que aqui ponho é o de Dom Duardos que vem ao fim da tragicomedia (aliás drama cavalheiresco) do mesmo titulo. Em castelhano foi escripta a tragicomedia, e em castelhano alli vem o romance; na collecção, que por vezes tenho citado, do cavalheiro de Oliveira, apparece em portuguez com declaração de se incontrar assim n’um antigo manuscripto do seculo XVI que visivelmente era contemporaneo do poeta. Eu dou-o em ambas as linguas. E pôsto que os nossos vizinhos o codificassem em seus romanceiros como proprio, fica assim evidente o ser elle de fábrica portugueza e do nosso Gil-Vicente, quer primitivamente o composesse elle na nossa lingua, quer na d’elles.

Eisaqui o que, no fim da tragicomedia, diz Artada, antes de cantar o romance:

‘Por memoria de tal trance Y tam terrible partida Venturosa, Cantemos nuevo romance A la nueva despedida Peligrosa.’

Acabado de cantar e findo o auto, diz o patrão, virando-se para elrei—não o rei da comedia, mas o rei portuguez Dom João III em cuja côrte e presença ella se representava:

‘Lo mismo iremos cantando Por esa mar adelante, Á las sirenas rogando Y Vuestra Alteza mandando: Que en la mar siempre se cante.’

Era pois novo o romance, por seu o dava Gil-Vicente, que não precisava nem usava de brilhar com o alheio, e a elrei seu amo e seu protector, como tal o endereçava. Não posso deixar de o crer e acceitar como seu.

A licção portugueza de Oliveira differe algum tanto da castelhana de Gil-Vicente; e ésta não pouco da que vem no ROMANCEIRO GERAL de Duran e no TESORO de Ochoa.

Juntam-se aqui todas tres, para que as confrontem os curiosos, e se illustre assim a questão que, tórno a dizer, suscito, não resolvo.

DOM DUARDOS[109]

Era pelo mez de Abril, De Maio antes um dia, Quando lyrios e rosas Mostram mais sua alegria; Era a noite mais serena Que fazer no ceo podia, Quando a formosa infanta, Flérida ja se partia; E na horta de seu padre Entre as árvores dizia: —‘Com Deus vos ficade, flores, Que ereis a minha alegria! Vou-me a terras extrangeiras Pois lá ventura me guia; E se meu pae me buscare, Pae que tanto me queria Digam-lhe, que amor me leva, Que eu por vontade não ia; Mas tanto atimou commigo Que me venceu co’a porfia. Triste, não sei onde vou, E ninguem não m’o dizía!...’ Alli falla Dom Duardos: —‘Não choreis, minha alegria, Que nos reinos de Inglaterra Mais claras aguas havia, E mais formosos jardins, E flores de mais valia. Tereis trezentas donzellas De alta genealogia; De prata são os palacios Para vossa senhoria; De esmeraldas e jacynthos E oiro fino de Turquia, Com lettreiros esmaltados, Que a minha vida se lia, Contando das vivas dores Que me déstes n’esse dia Quando com Primalião Fortemente combatia: Mattastes-me vós, senhora, Que eu a elle o não temia...’ Suas lagrymas inchugava Flérida que isto ouvia. Ja se foram ás galeras Que Dom Duardos havia. Cinquenta eram por conta, Todas vão em companhia. Ao som do doce remar A princeza adormecia Nos braços de Dom Duardos, Que tam bem a merecia. Saibam quantos são nascidos Sentença que não varia: Contra a morte e contra amor Que ninguem não tem valia.

I VERSÃO CASTELHANA DE GIL-VICENTE[110]

En el mes era de Abril, De Mayo antes un dia, Cuando lirios y rosas Muestran mas su alegria, En la noche mas serena Quel el cielo hacer podia, Cuando la hermosa infanta Flérida ya se partia: En la huerta de su padre A los árboles decia: —‘Quedaos adios, mis flores, Mi gloria que ser solia; Voyme á tierras estrangeras Pues ventura alla me guia. Si mi padre me buscare Que grande bien me queria Digan que amor me lleba Que no fué la culpa mia: Tal tema tomó conmigo Que me venció su porfia. Triste nó se adó vó, Ni nadie me lo decia.’ Alli habla Don Duardos: —‘No lloreis mi alegria, Que en los reinos de Inglaterra Mas claras aguas habia, Y mas hermosos jardines Y vuesos, señora mia. Terneis trecientas doncellas De alta genealogia; De plata son los palacios Para vuesa señoria, De esmeraldas y jacintos, De oro fino de Turquia Con lettreros esmaltados Que cuentan la vida mia, Cuentan los vivos dolores Que me distes aquel dia Cuando com Primaleon Fuertemente combatia: Señora vos me matastes, Que yo a el no lo temia. Sus lagrimas consolaba Flérida qu’esto oia; Fueron-se a las galeras Que Don Duardos tenia. Cincuenta eran por cuenta, Todas van en compañia. Al son de sus dulces remos La princesa se adormia En brazos de Don Duardos Que bien le pertenecia. Sepan cuantos son nacidos Aquesta sentencia mia: Que contra la muerte y amor Nadie no tiene valia.

II VERSÃO CASTELHANA DE DURAN[111]

En el mes era de Abril, De Mayo antes un dia, Cuando los lirios y rosas Muestran mas sua alegria, En la noche mas serena, Qu’el cielo hacer podria, Cuando la hermosa infanta Flérida ya se partia; En la huerta de su padre A los árboles decia: —‘Jamas en cuanto viviere Os veré tan solo un dia, Ni cantar los ruiseñores En los ramos melodia. Quédate á Dios, agua clara, Quédate á Dios, agua fria, Y quedad con Dios, mis flores, Mi gloria que ser solia. Voime á las tierras estrañas, Pues ventura allá me guia. Si mi padre me buscáre, Que grande bien me queria, Digan que el amor me lleva, Que no fué la culpa mia. Tal tema tomó conmigo, Que me forzó su porfia. Triste nó sé donde voy: Ni nadie me lo decia.’ Alli habló Don Duardos: —‘No lloreis mas, mi alegria, Que en los reinos de Inglaterra Mas claras aguas habia, Y mas hermosos jardines, Y vuestros, señora mia. Terneis trescientas doncellas De alta genealogía; De plata son los palacios Para vuestra señoria; D’esmeraldas y jacintos Toda la tapeçaría; Las camaras ladrilladas D’oro fino de Turquia, Com letreros esmaltados Que cuentan la vida mia, Contando vivos dolores Que me diéstedes un dia Cuando com Premaleon Fuertemente combatia. Señora, vós me matastes, Que yo a el no lo temia.’ Sus lagrimas consolaba Flérida qu’esto oia, Y fueron-se á las galeras, Que Don Duardos habia: Cincuenta eran por todas, Todas van en compañia. Al son de sus dulces remos La infanta se adormecia En brazos de Don Duardos, Que bien le pertenecia. Sepan cuantos son nacidos Aquesta sentencia mia: Que contra muerte y amor Nadie no tiene valía.

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