XXXIV O CORDÃO DE OIRO
Reading edition
Não parece ésta uma d’aquellas verdes anecdotas que a prosa de Bocacio e os versos de Lafontaine immortalizaram? O stylo é menos licencioso, porque, sincera e nua ás vezes, comtudo é sempre mais casta a poesia primitiva. O seu pudor é o da ingenuidade que se despe porque mal não pensa, não o da hypocrisia que por maliciosa se cobre. Comtudo os dois ultimos versos são um verdadeiro remate de epigramma que faria honra a um poeta da eschola de Voltaire, e podia ser feixo de uma cantiga de vaudeville de Scribe. Entre portuguezes, só D. Francisco Manuel de Mello ou Nicolau Tolentino os faria tam naturaes e tam picantes ao mesmo tempo.
Assim a adivinhar, que é o unico modo de entrar n’estes pontos, orço a data d’esta composição pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por meados do seculo XVII.
É ommisso nos romanceiros dos nossos vizinhos; e em Portugal não tenho noticia de que se incontre senão na tradição oral de Tras-os-Montes, onde achei tres cópias d’elle, uma mais completa que as outras: d’ellas se appurou o presente texto. As variantes quasi todas despreziveis.
O CORDÃO DE OIRO
Lá se vai o capitão C’os seus soldados á guerra: Duzentos eram quintados, Eram duzentos de leva[124]. Se todos elles vão tristes, Um mais que todos o era; Baixa trás a sua espada, Seus olhos postos em terra. Lá no meio do caminho O capitão lhe dissera: —‘Porque vais triste, soldado, Essa paixão por quem era?’ —‘Não é por pae nem por mãe, Nem por irman que eu tivera[125], É pela espôsa que deixo Lá tam só na minha terra. Este cordão de oiro fino, Que sette arrateis bem pésa, Mais me pésa a mim levá-lo, Que ao partir lh’o não dera!’ —‘Soldado, tens sette dias Para que voltes a vê-la. Se a incontrares chorando, Ficas sette annos com ella: Senão, nem mais uma hora Terás de aguardo ou de espera.’ Quem saltava de contente O meu soldadito era. Deixou estrada direita, Por atalhos se mettêra; Inda não é meia-noite, Á sua porta batêra. —‘Quem bate á minha porta; Quem bate com tanta pressa?’ —‘É um soldado, senhora, Que vos trás novas da guerra.’ —‘Mal haja a nova que trás, E mais quem veio trazê-la! Ergue-te tu, minha vida, Assoma-te a essa janella; Despede-me esse soldado Que a tam má hora aqui chega.’ —‘Amigo, vindes errado Co’as vossas novas da guerra: Deixae-nos dormir em paz, Que bem precisamos d’ella.’ Foi-se d’alli o soldado Mais prompto do que viera: —‘Bem haja o meu capitão Pelo bem que me fizera! Com sette dias de aguardo... Nem sette horas carecêra Para me quitar saudades, Livrar-me de toda a pena! Tomae lá meu capitão Os mimos da minha terra; Este cordão de oiro fino, Que agora inda mais me pésa. Minha mulher não precisa, Que os primos podem mantê-la.’ —‘Pois tua mulher tem primos, E tu vinhas com dó d’ella!...’