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Romanceiro III

XVII A ROMEIRA

Reading edition

Aqui vai outra romeira, e não sei se de Sanctiago tambem; mas creio que não, porque o diria algures o texto do romance: não é orago que deixasse de se nomear.

É lindo, singelo, perfeito exemplar no seu genero. Não me consta que ande por mais terras nossas do que pelas do Minho e Tras-os-montes. So pelas duas versões d’estas provincias o tive de appurar; e sem muito custo, porque é simples de si, e pouco o alteraram na tradição. Tem todo o sabor e ingenuidade antiga, conserva perfeitamente os costumes crus da edade barbara a que se refere. Tambem não occorre nos romanceiros dos nossos vizinhos, e estou seguro que é ésta a primeira vez que se vê escripto e impresso.

As variantes que valem alguma coisa vão notadas á margem, e não são muitas.

A ROMEIRA

Por aquelles montes verdes Uma romeira descia; Tam honesta e formosinha Não vai outra á romaria. Sua saia leva baixa Que nas hervas lhe prendia; Seu chapelinho cahido Que lindos olhos cubria! Cavalleiro vai traz d’ella, De má tenção que a seguia[1]! Não a alcança, por mais que ande, Alcançá-la não podia Senão juncto a essa oliveira[2] Que está no adro da ermida. Á sombra da árvore benta A romeira se accolhia: —‘Eu te rogo, cavalleiro, Por Deus e a Virgem Maria, Que me deixes ir honrada Para a sancta romaria.’ Cavalleiro, de malvado, Nem Deus nem razão ouvia; Cego no desejo bruto, De amores a accommettia. Pegaram de braço a braço: Lucta de grande porfia![3] A romeira, por mais fraca, Emfim rendida cahia...[4] No cahir, lhe viu á cinta Um punhal que elle trazia; Com toda a fôrça lh’o arranca, No coração lh’o mettia. O sangue negro saltava, O negro sangue corria... —‘Por Deus te peço, romeira[5], Por Deus e a Virgem Maria, Que o não digas em tua terra, Nem te vás gabar á minha Da vingança que tomaste, Da affronta que te eu fazia.’ —‘Heide dizê-lo em tu’terra, Heide me ir gabar á minha, Que mattei um vil covarde Co’as armas que elle trazia.’ Tocou a campa da ermida, A campa que retinia: —‘Ermitão, por Deus vos peço[6], Bom ermitão d’esta ermida, Tenhais dó d’essa má alma Que inda agora se partia: Dae terra benta ao seu corpo, Que Deus lhe perdoaria.’

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