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Romanceiro I

VIII POR BEM AS PÊGAS DE CINTRA

Reading edition

Dou aqui logar a ésta composição que, moderna, como é, e minha, toda é feita de coisas populares e antigas. A anecdota devêra ter sido celebrada pelos menestreis do tempo: não o foi, e eu procurei supprir o seu descuido. Não apparece pois em meu nome, senão no d’elles, embora de longe os rastreie.

Quando a primeira vez sahiu de minha carteira a presente ballada foi para se imprimir na ILLUSTRAÇÃO[31], jornal que se publicava em Lisboa em 1845-46. Reimprimirei com ella aqui tambem a carta que então escrevi ao redactor d’aquelle jornal, porque devéras contêm a historia de sua composição.

Eis aqui a carta:

’—Queria escrever-lhe um artigo, meu caro redactor, para a sua ILLUSTRAÇÃO, que realmente faz milagres no meio d’esta escacez de tudo, e d’estes impedimentos para tudo que characterizam a nossa boa terra. É promessa velha e que eu devia ter cumprido ha muito. Mas como, mas quando? E que hade um homem escrever que se leia—que se leia por damas bellas e elegantes cavalheiros—quando lhe anda intallado nos bicos da penna o fatal fio da politica, que a faz espirrar e esgravatear em tudo o mais?

‘Com as leis das eleições, e as questões da fazenda, e as organisações ministeriaes, e não sei que mais coisas taes, foi-se-me detodo a derradeira reminiscencia litteraria que ainda por cá havia. Tenho saudade d’ella, mas foi-se, ‘morreu pela patria!’

‘Não sei se morreu bem ou mal, se fez bem ou mal em morrer; mas é certo que morreu.

‘Eu porêm nunca prometti, que faltasse, a homem nenhum—nem a mulher, que mais é! O ponto está que me acceitem em pagamento aquillo que eu posso dar. Que, ás vezes, o máu pagador não é máu senão pelas absurdas e excessivas exigencias do crédor. Axioma de eterna verdade, especialmente quando applicado a tudo o que passa entre os representantes de nosso pae Adão e as representantas de nossa mãe Eva...

‘Passemos adeante. Quer, senhor redactor, acceitar-me, em pagamento da lettra de minha promessa, este papel que achei embrulhado entre mil rabiscos de projectos de lei, tenções de autos, notas ao orçamento e outras coisas galantes do mesmo genero?

‘Se quer aqui o tem, e disponha d’elle.

‘Deixe-me só dizer-lhe o que é, e como foi feito.

‘Estava eu em Cintra, foi em... Que importa lá quando foi? Basta saber que não era n’essa estação fashionavel em que a elegancia de Lisboa se vai infastiar classicamente para o mais romantico sítio da terra. Era na primavera; passeavamos dois sós, ou quasi sós, n’aquelle Eden delicioso. Fomos ver o palacio; chegámos á sala das pêgas. Pêgas são chocalheiras e linguarudas: eu detesto o bicho... e n’este tempo, estava-lhe com zanga de morte...

‘Abominavel bicho! Isto ja lá vai ha muito tempo, meu caro redactor, e ainda me faz ferver o sangue...

‘Passemos adeante!

‘Perguntaram-me a explicação d’aquellas pêgas da sala. Contei a historia popular que é tam sabida. Acharam-lhe graça, pediram-me que a posesse em verso: fiz isto.

‘E isto que é? Não sei. É romance ou é apologo? É fabula ou é cantiga? Nunca fui grande classificador d’essas coisas; que fará agora!

‘O que lhe sei dizer é que no seculo XVI a XVII, segundo consta do ‘Fidalgo aprendiz’ do nosso Francisco Manuel de Mello, se cantava em Portugal uma cantiga que começava assim como ésta:

«Gavião, gavião branco, Vai ferido e vai voando.»

‘Nunca pude encontrar o resto, nem procurei muito por elle; mas ingracei com este princípio, e servi-me d’elle aqui. Acha mal feito? Eu não.

‘Se soubesse, meu caro senhor, todas as circumstancias d’esta composição! Se soubesse de certa pêga ou pêgas que me perseguiram com seu malditto palrear, e me queriam, ainda em cima, assacar, a mim gavião, ellas pêgas, as manhas que só ellas têem!

‘Mas ficou lograda a pêga e...

‘Adeus, meu amigo, outra vez, adeante! O gavião, e sobretudo o gavião branco—note—é animal nobre, de especie, genero e até de familia differente da pêga.

‘Passe muito bem. Aqui estão os versos; eu vou salvar a patria.’

‘Julho, 22—1846.’

POR BEM AS PÊGAS DE CINTRA

Gavião, gavião branco Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n’o feriu, Gavião, gavião branco! O gavião é callado, Vai ferido e vai voando; Assim fôra a negra pêga Que hade sempre andar palrando. A pêga é negra e palreira, O que sabe vai contando... Muito palra, palra a pêga Que sempre hade estar palrando. Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes, fallando, O segredo dos sisudos Que elles não guardam callando. Era uma pêga no paço Que el-rei tomára caçando; Trazem-n’a as damas mimosa Com a estar sempre afagando. Nos paços era de Cintra Onde estava el-rei poisando: A rainha e as suas damas No jardim andam folgando, Entre assucenas e rosas, Entre os goivos trebelhando; Umas regavam as flores, Outras as vão apanhando; E a minha pêga com ellas Sempre, sempre palreando. Vinha el-rei atraz de todos Com Dona Mécia fallando. Era a mais formosa dama Que andava n’aquelle bando: No hombro de Dona Mécia, A pêga vinha poisando, E zelosa parecia Que os andava espreitando... Colhêra el-rei uma rosa, A Dona Mécia a ia dando, Com um requêbro nos olhos Tam namorado e tam brando... Inda bem, minha rainha, Que adiante te vais andando! Pegou na rosa a donzella, Disfarçada a está cheirando... Senão quando a negra pêga Que lh’a tira e vai voando. Deu um grito Dona Mécia... E a rainha, voltando, Deu com os olhos em ambos... Ambos se estão delatando. —‘Foi por bem!’ lhe disse o rei, Seu accôrdo recobrando: —‘Foi por bem!’—‘Por bem’ repete A pêga emtôrno voando. —‘Por bem, por bem!’ grasna a tonta, De má malicia cuidando Co’a chocalheira da lingua Andar o caso inredando. Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes fallando O segredo dos sisudos Que elles não guardam callando Riu-se a rainha da pêga, E ficou acreditando Que a innocencia do caso N’ella se estava provando. Da pêga mexeriqueira, Do bem que fez, mal pensando, Nos reaes paços de Cintra A memoria está durando. E eis-aqui, senhora, a historia Da pêga que ahi ves palrando, Da rosa que tem no bico, Da lettra que a está cercando. A pêga é negra e palreira, O que sabe vai contando: Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem segredo fallando. O gavião, esse é outro; Vai ferido e vai voando: Mas não diz quem n’o feriu... Gavião, gavião branco!

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