I ADOZINDA
Reading edition
AO SR. DUARTE LESSA[3]
Eis-ahi vai, meu amigo, o romance em que lhe fallei n’uma das minhas últimas cartas de Portugal. Estava quasi todo copiado; e aqui nem paciencia nem tempo me chegavam para as muitas correcções e alterações que elle precisava; por limar lhe vai, e por limar irá para a imprensa: tanto melhor para quem gostar de dizer mal, que não lhe faltará de quê.
Creio que é ésta a primeira tentativa que ha dous seculos se faz em Portuguez de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior extenção, n’este genero de versos pequenos, octosyllabos, ou de redondilha como lhe chamavam d’antes os nossos. No meu resummo da historia da lingua e da poesia portugueza, que vem no primeiro volume do Parnaso-Lusitano impresso ultimamente em París,—a so coisa minha que ha n’aquella collecção, porque assim na escolha das peças, como na ordem e systema da obra me transtornaram e me inxovalharam tudo com notas pueris, ridiculas, e até malcreadas algumas,—n’esse resummo toquei de leve, e em tudo o mais, sôbre a belleza d’estes nossos versos octosyllabos, que nos são proprios a nós hespanhoes, tanto portuguezes como castelhanos, e, para certos assumptos e certos generos de poesia, mais adequados do que nenhuma outra especie de rhythmo. Boscan gaba-se de haver introduzido na Peninsula os metros toscanos: hoje está averiguado com certeza que não foi comeffeito elle o primeiro que nas duas linguas cultas das Hespanhas compoz dos taes versos hendecasyllabos; mas é certo e alêm de toda a dúvida que do tempo de Boscan e de Garcilasso em Castella, e logo de Sá-de-Miranda e Ferreira em Portugal, começaram aquelles nossos metros primitivos a cahir em mais desuso, a não se impregarem senão em certo genero de poesia ligeira ou, segundo lhe os Francezes chamam, fugitiva. Francisco Rodrigues-Lobo e muito depois D. Francisco Manuel-de-Mello ainda n’elles fizeram romances historicos; Violante do Ceo muitas das suas lindas e agora tam mal appreciadas poesias; ainda se fizeram posteriormente eglogas, e o que os poetas da Phenix-renascida e os campanudos vates das mil e uma academias do seculo XVII e XVIII chamavam romances—que certamente não eram o que hoje strictamente se intende por este nome. Em tempos mui posteriores felicissimamente os reviveu o nosso grande e incomparavel Tolentino na satyra, e no tam faceto e delicadissimo seu proprio e privativo genero da poesia de sociedade.
A nossa poesia primitiva e eminentemente nacional, a que do principio e, para assim dizer, do primeiro balbuciar da nossa lingua, nos foi commum com todos os outros povos que mais ou menos tiveram communhão com a lingua provençal, primeira culta da Europa depois da invasão septentrional, foi seguramente o romance historico e cavalheresco, ingenua e ruda expressão do enthusiasmo de um povo guerreiro. Logo vieram esses trovadores de Provença e nos insinaram modos mais cultos porêm menos originaes e menos cunhados do sêllo popular: era coisa mais de côrte. E como tal não pôde absorver, senão modificar, o que brotára spontaneamente do natural da terra. Mas as duas feições ficaram ambas, e deram assim á poesia portugueza um character talvez unico no mundo,—nas Hespanhas decerto.
Em geral a poesia da meia-edade, singela, romanesca, apaixonada, de uma especie lyrica-romantica que não tem typo nos poetas antigos, comquanto deixou seu cunho impresso no caracter das linguas e poesias modernas de todo o sul e occidente da Europa, não teve comtudo imitadores nem se cultivou e apperfeiçoou nunca mais, quasi desde o completo triumpho dos classicos, senão agora recentemente depois que as balladas de Bürger, os romances poeticos de Sir W. Scott e alguns outros ensaios inglezes e allemães, mas principalmente os do famoso escocez, introduziram este gôsto e o fizeram da moda. Fatigados do grego e romano em architecturas e pinturas, começámos a olhar para as bellezas de Westminster e da Batalha; e o appetite imbotado da regular formosura dos Pantheons e Acropolis, começou, por variar, a inclinar-se para as menos classicas porêm não menos lindas nem menos elegantes fórmas da architectura e da sculptura gothica.
Succedeu exactamente o mesmo com a poesia: infastiados dos Olympos e Gnidos, saciados das Venus e Apollos de nossos paes e avós, lembrámo’-nos de ver com que maravilhoso infeitavam suas ficções e seus quadros poeticos nossos bis e tres-avós; achámos fadas e genios, incantos e duendes,—um stylo differente, outra face de coisas, outro modo de ver, de sentir, de pintar, mais livre, mais excentrico, mais de phantasia, mais irregular, porêm em muitas coisas mais natural. O antiquado agradou por novo, o obsoleto entrou em moda: arte mais fina, gôsto mais delicado e de ingenhos mais cultos o soube impregar habilmente, ‘decalcar n’outra civilização.’ A poesia romantica, a poesia primitiva, a nossa propria, que não herdámos de Gregos nem Romanos nem imitámos de ninguem, mas que nós modernos creámos, a abandonada poesia nacional das nações vivas resuscitou bella e remoçada, com suas antigas galas porêm melhor talhadas, com suas feições primeiras porêm mais compostas. É a mesma selvatica, ingenua, caprichosa e aeria virgem das montanhas que se appraz nas solidões incultas, que vai pelos campos allumiados do pallido reflexo da lua, involta em veos de transparente alvura, folga no vago e na incerteza das côres indistinctas que nem occulta nem patenteia o astro da noite;—a mesma beldade mysteriosa que frequenta as ruinas do castello abandonado, da tôrre deserta, do claustro coberto de hera e musgo, e folga de cantar suas endeixas desgarradas á bôcca de cavernas fadadas—por noite morta e horas aziagas. É a mesma sem dúvida: porêm o gôsto mais puro e fino de seus adoradores, sem alterar a lithurgia, modificou os ritos e os accommodou para espiritos e ouvidos costumados aos hymnos, menos variados porêm mais cadentes, da antiguidade classica. Não ficou menos natural nem menos nacional, porêm muito mais amavel e incantadora a nossa poesia primitiva assim resuscitada agora.
Muito antes do nomeado escocez ja tinha havido tentativas para nacionalizar a poesia moderna e a libertar do jugo da theogonia d’Hesiodo:—mas a propria e verdadeira restauração da poesia dos trovadores e menestreis, sem questão nem disputa, só W. Scott a fez popular e geral na Europa.—Com ella se restauraram tambem os metros simples e curtos que mais naturaes são ao stylo cantavel, essencial ás composições d’aquelle genero.
Depois de muitas tentativas, de exame longo e reflectido, eu por mim convenci-me de que o metro proprio e natural de nossa lingua para este genero de poesia, e para todos os generos populares, não era o hendecasyllabo, o que dizemos vulgarmente heroico. Os portuguezes são uma nação poetica, a sua lingua naturalmente se presta e spontanea se offerece ás fórmas e cadencias metricas; os nossos mais rudos camponezes improvisam em seus serões e festas com uma facilidade que deve de espantar os extrangeiros: mas observe-se que o metro d’estes improvisos é sempre sem excepção alguma o de redondilha de oito syllabas, rara vez o da endexa; acaso farão os versos compostos visivelmente de dois metros, isto é, os alexandrinos ou dittos de arte-maior. A causa é óbvia; aquella é a medição mais natural que lhes offerece a musica da lingua.
Entre as canções antiquissimas conservadas nos dois cancioneiros, o do Collegio dos Nobres (impresso por Sir Charles Stuart em París) e o de Rezende, ha muita variedade de metros; mas outras poesias mais antigas, os romances populares ou xácaras, que por tradição immemorial se conservam entre o povo, principalmente nas aldeias, todos são no metro octosyllabo ou em endexas. Logo direi aqui alguma coisa mais de vagar sôbre éstas curiosissimas, e tam desprezadas mas tam interessantes, reliquias da nossa archeologia.
O genero romantico não é coisa nova para nós. Não fallo em relação aos primeiros seculos da monarchia: restam-nos ainda specimens das canções que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, de Egas Moniz, d’elrei D. Pedro Cru, mas são antiquissimos documentos de certo. As trovas dos Figueiredos, apezar do tam suspeito testimunho de Fr. Bernardo de Brito, creio, por convicção intima, que são das mais antigas composições poeticas da lingua que chegaram até nós. Não alludo porêm a epochas tam remotas e incultas. Depois de introduzido o gôsto classico por Sa-Miranda, e Ferreira principalmente, depois de esquecidas as graças singellas de Bernardim Ribeiro pelos mais ataviados primores de Camões e Bernardes, ainda então houve quem de vez em quando deixasse a lyra de Horacio e a frauta de Theocrito para tocar o alahude romantico dos menestreis. O proprio auctor dos Lusiadas nas canções, que, depois d’aquella, são sua melhor composição, para meu gôsto, n’essas canções tam bellas e tam profundamente sentidas, tam repassadas de melancholia suavissima, em alguns episodios dos mesmos Lusiadas, foi todo romantico, e felicissimamente o foi. Francisco Rodrigues-Lobo, segundo ja observei, em muitas das pequenas peças que se incontram dispersas pelo Pastor-peregrino, pela Primavera, e nos seus romances moiriscos e historicos, é eminentemente romantico. Tal é Jeronymo Cortereal no Naufragio-de-Sepulveda, quando o deixam com a natureza e lhe permittem ter senso commum as loucuras mythologicas com que perdeu tam bem escolhido assumpto, tam bellas scenas.
Deixando outros muitos, dos quaes o menor exame facilmente mostrará o mesmo, citarei aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro, que V. descobriu em Londres com o precioso achado dos papeis e livros do nosso infeliz Oliveira.
Depois que, na extincção dos Jesuitas, e pelos esforços da benemerita Arcadia se restauraram as bellas-letras e a lingua, e o verdadeiro gôsto poetico affugentou os acrostichos e os labyrintos seiscentistas, o genero classico resuscitou mais puro e tam bello nas lyras do elegante e puro Garção, do altissonante Diniz, do sublime Filinto, do numeroso Bocage, do classico Ribeiro-dos-Sanctos, do ingenuo Maximiano Tôrres, do galantissimo Tolentino, do philosopho Caldas; mas o genero romantico injustamente involvido na proscripção do seiscentismo, esse desprezado e perseguido, ninguem curou d’elle, julgaram-n’o sem o intender, condemnaram-n’o sem o ouvir.
No meu poemasinho do Camões aventurei alguns toques, alguns longes de stylo e pensamentos, annunciei, para assim dizer, a possibilidade da restauração d’este genero, que tanto tem disputado na Europa litteraria com aquelloutro, e que hoje coroado dos louros de Scott, de Byron e de Lamartine vai de-par com elle, e, não direi vencedor, mas tambem não vencido.
D. Branca, essa mais decididamente entrou na lice, e com o alahude do trovador desafinou a lyra dos vates; outros dirão, não eu, se com feliz ou infeliz successo.
Não é portanto, em nenhum sentido, novo hoje para a litteratura portugueza o genero romantico, nem me appresento agora com este meu romancesinho ao público portuguez a pedir privilegio de invenção ou patente de introducção. Se reclamo aqui prioridade é somente em ter instaurado as antigas e primitivas fórmas metricas da lingua em uma especie de poesia que tambem foi a primitiva sua, e ao menos a mais antiga de que tradição nos chegou.
De pequeno me lembra que tinha um prazer extremo de ouvir uma criada nossa, emtôrno da qual nos reuniamos nós os pequenos todos da casa, nas longas noites de hinverno, recitar-nos meio cantadas, meio rezadas, éstas xácaras e romances populares de maravilhas e incantamentos, de lindas princezas, de galantes e esforçados cavalleiros. A monotonia do canto, a singelleza da phrase, um não-sei-quê de sentimental e terno e mavioso, tudo me fazia tam profunda impressão e me inlevava os sentidos em tal estado de suavidade melancholica, que ainda hoje me lembram como presentes aquellas horas de gôso innocente, com uma saudade que me dá pena e prazer ao mesmo tempo[4].
Veio outra edade, outros pensamentos, occupações, estudos, livros, prazeres, desgostos, afflicções—tudo o que compõe a variada tea da vida,—e da minha tam trabalhosa e trabalhada vida!—tudo isso passou; e no meio de tudo isso, lá vinha de vez em quando uma hora de solidão e de repouso,—e as noites da minha infancia e os romances incultos e populares da minha terra a lembrarem-me, a lembrarem-me sempre.
Lendo depois os poemas de Walter Scott, ou, mais exactamente, suas novellas poeticas, as ballads allemans de Bürger, as inglezas de Burns, comecei a pensar que aquellas rudes e antiquissimas rhapsodias nossas continham um fundo de excellente e lindissima poesia nacional, e que podiam e deviam ser aproveitadas.
Em París fui ver o cancioneiro do Collegio dos Nobres na defeituosa edição de Sir Charles Stuart; depois voltando a Portugal tornei a percorrer o de Rezende: no primeiro nada, no segundo pouco achei do romance historico ou narrativo. D’ésta última especie não ha impresso mais que esses duvidosos fragmentos conservados por Fr. Bernardo de Brito e por Miguel Leitão.
Recorri á tradição: estava então eu fóra de Portugal; stimulava-me a leitura dos muitos ensaios extrangeiros que n’esse genero íam apparecendo todos os dias em Inglaterra e França, mas principalmente em Allemanha. Uma estimavel e joven senhora de minha particular amizade—a quem por agradecida retribuição é dirigida a introducção do presente romance—foi quem se incumbiu de me procurar em Portugal algumas cópias das xácaras e lendas populares.
Depois de muitos trabalhos e indagações, de conferir e estudar muita cópia barbara, que a grande custo se arrancou á ignorancia e acanhamento de amas-sêccas e lavadeiras e saloias velhas, hoje principaes depositarias d’esta archeologia nacional,—galantes cofres, em que para descobrir pouco que seja é necessario esgravatar como o pullus gallinaceus de Phedro,—alguma coisa se pôde obter, informe e mutilada pela rudeza das mãos e memorias por onde passou; mas emfim era alguma coisa, e forçoso foi contentar-me com o pouco que me davam e que tanto custou.
Assim consegui umas quinze rhapsodias ou, mais propriamente, fragmentos de romances e xácaras que em geral são visivelmente do mesmo stylo, mas de conhecida differença em antiguidade, todavia remotissima em todos. Comecei a arranjar e a vestir alguns com que ingracei mais; e para lhe dar amostra do modo por que o fiz, adeante copio um dos mais curiosos[5], ainda que não dos menos estropiados, e com elle o restaurado ou recomposto por mim, o melhor que pude e soube sem alterar o fundo da historia e conservando, quanto era possivel, o tom e stylo de melancholia e sensibilidade que faz o principal e peculiar character d’estas peças.
A minha primeira idea foi fazer uma collecção dos romances assim reconstruidos e ornados com os infeites singelos porêm mais symetricos da moderna poesia romantica, e publicá-la com o titulo de Romanceiro-portuguez, ou outro que tal, para conservar um monumento de antiguidade litteraria tam interessante, e de que talvez só a lingua portugueza, entre as cultas da Europa, careça ainda; porque de quasi todas sei, e de todas creio, que se não pode dizer tal[6].
Mas sobreveio tanta interrupção, tanta distracção de tam variado genero, mortificações, cuidados, trabalhos mais serios; emfim desisti da impreza.
Ja tinha decorrido muito tempo, e voltado eu a Portugal, lembrando-me sempre de vez em quando este impenho tam antigo e tam fixo; e a occasião a fugir-me. Uma circumstância fatal e terrivel me fez voltar ás minhas queridas antigualhas. Lançado n’uma prisão pela maior e mais patente injustiça que jamais se ouviu[7], voltei-me, para occupar minha solidão e distrahir as amarguras do espirito, aos meus romances populares, que sempre commigo têem andado, como uma preciosidade, que bem sei não avalia ninguem mais, de que muita gente rirá, mas que eu apprecio, e me ponho ás vezes a contemplar, e a estudar como um antiquario fanatico a quem se vão as horas e os dias deante d’um tronco de estatua, d’um capitel de columna, d’um pedaço de vaso etrusco, d’um bronze ja carcomido e informe, desinterrado das ruinas de Pompeia ou de Herculano. Mas quantos Davids e Canovas não faz, quantos Raphaeis e Miguel-Angelos não fez o estudo d’esses fragmentos que despreza porque mais não intende o vulgo ignorante!
Assim passei muitas horas de minha longa e amofinada prisão, suavizando mágoas e distrahindo pensamentos.—Tinha eu começado a ageitar outro romance que originalmente se intitula A Silvana, cujo assumpto notavel e horroroso exigia summa delicadeza para se tornar capaz de ser lido sem repugnancia ou indecencia. Era nada menos que uma nova Myrrha, ou antes o inverso da tragica, interessante, mas abominosa historia da mythologia grega; é um pae namorado de sua propria filha!—A filha joven, bella, virtuosa, sancta emfim.—A difficuldade do assumpto irritou o desejo de luctar com ella e vencê-la se possivel fosse. Dava larga o tempo, pedia extenção a natureza dos obstaculos; o que fôra começado para uma xácara, para uma cantiga, ou, como lhe chamam Allemães e Inglezes, para uma ballada, sahiu um poemeto de quatro cantos, pequenos sim, porêm muito maiores do que eu pensei que fossem, e do que geralmente são taes coisas. Mudei-lhe o titulo e chamei-lhe Adozinda, que soa melhor e é portuguez mais antigo. O fundo da historia, as circumstâncias do desfecho d’ella são conservadas do original; o ornato, o mechanismo do maravilhoso é outro mas accommodado, creio eu, ao genero e á indole do assumpto.
Mando-lhe aqui tambem uma cópia do romance original para ver e combinar. É dos mais mutilados e desfigurados, mas certamente dos que têem mais visiveis signaes de vetustade quasi immemorial[8].
Ora eis-aqui, meu amigo, a historia e origem da minha Adozinda, gerada no exilio, nascida entre sustos, criada na miseria e padecimentos de uma prisão. Entre tudo o que tenha rabiscado de prosas e versos este romancesinho é a composição minha a que tenho mais amor pelas memorias que me lembra, pelas affecções que me desperta.—Que de coisas passaram por mim durante o tempo que o compuz, os intervallos tam longos em que o deixei!—até o nascimento e a morte de uma filha unica, tam querida e para sempre chorada!...
Adeus, meu amigo: não sei o que ahi vai escripto, nem como. São ideas sem nexo, pensamentos desatados, coisas á toa como o espirito de quem as escreve. Lea-as assim, e assim se imprimam se porventura estão em termos d’isso,—do que muito duvido, porque eu por mim, nem que me dessem os louros de Camões, ou me fizessem apotheoses como a Homero, me punha a corrigir, nem siquer a rever o que ahi vai escripto, quer prosa quer versos[9].
Londres, 14 d’Agosto de 1828.
A ELYSA
Campolide, 11 d’Agosto 1827.
Thus, while I ape the measure wild, Of tales that charmed me yet a child, Rude though they be, still with the chime Return the thoughts of early time; And feelings, roused in life’s first day Glow in the line, and prompt the lay. Walter Scott.
Campo da lide é este; aqui lidaram, Elysa, os nossos quando os nossos eram Lidadores por glória,—aqui prostraram Suberbas castelhanas, e—venceram; Que pelo rei e patria combatendo Nunca foram vencidos Portuguezes. —Este terreno é sancto: inda estás vendo Alli aquelles restos mal poupados[10] Do tempo esquecedor, Dos homens deslembrados; Nobres reliquias são d’altas muralhas Forradas ja de lucidos arnezes, De tresdobradas malhas. Talvez fluctuava alli n’aquelle canto, Suberbo e vencedor Das Quinas o pendão victorioso; E junctos ao redor D’esse paladio augusto e sacrosancto, Invencivel trincheira lhe faziam Toda a flor dos mais nobres e esforçados; Que á voz da patria (voz que nunca ouviam Sem sentir redobrados Do nobre coração os movimentos) Heroes são todos, facil a victoria, Faceis as palmas que lh’infeixa a glória. Ah!—paremos aqui:—ve quaes na frente As arterias violentas me rebatem: Febril, descompassado corre e ardente E me angustia o sangue...—Ah! sim paremos Aqui... Não, aqui não; esse outeirinho Depressa o desceremos. Faz-me bem ésta vista:—essas arcadas[11] Suberbas, elevadas, Que uniram monte a monte e serra a serra, Acaso não serão Tam illustres talvez,—não lembram guerra, Glória não lembram; nem com sangue livido A morte da victoria companheira Para o erguido padrão O cimento amassou. Um rei que amou as artes, rei pacífico, A quem amor fadou Que seu fôsse e das musas,—que fugidas Da pátria ha tanto, á patria as volveria; Do povo á utilidade Este sublime monumento erguia. Para a posteridade Isto só lhe appurou o nome e a glória, E lhe ganhou as paginas da historia. Inda é muita oppressão; inda me acanha Tanta arte humana o coração no peito. Tam grandes massas, fábrica tammanha Absorto deixarão—mas satisfeito O ânimo, os sentidos?.. Não, Elysa, Não satisfaz ao homem a arte humana: Por mais que ella se uffana, Que aos abysmos o centro opprime e pisa C’os fundamentos de eternaes pyramides, Ou c’os erguidos vertices Ás nuvens rasga o seio tempestuoso. Nem assim:—á tristeza ou á alegria, E áquelle estado de innefavel gôso Que entre a dor e o prazer a alma suspende Brandamente e se diz melancholia, Oh! nada d’isso o excita. Oh! nada d’isso o coração intende! Oh! nada d’isso o espirito nos move Se a natureza, a pura natureza Por sua ingenua attracção nos não commove. Posso admirar o homem e a grandeza De suas nobres feituras, Mas somente admirar; Mais não póde excitar Mesquinha creação de creaturas. Vamos por essa incosta Subindo.—Eu gósto do alto das montanhas, Dos picos das erguidas serranias, O avaro á terra mãe abra as intranhas, Cave oiro e crimes, com que incurte os dias Seus e dos seus, e a sombra da virtude Acabe de varrer da face d’ella. Mas o que, em paz commigo e co’a existencia, Ainda ama a innocencia, Inda se apraz co’a natureza bella, A seus quadros surri, com seus dons gosa, Oh! esse venha ao cume do alto monte, Venha estender a vista saudosa Pelo valle que á falda lhe verdeja, A messe que loureja, E a despenhada fonte Que vai garrula e trepida saltando Té que se junta em cava pederneira. D’onde sai, o arco d’Iris imitando Na espadana da férvida cachoeira. Venha na solidão—e o só dos montes É mais só que nenhum,—o silencioso Mais augusto, solemne e magestoso! Venha na solidão Comsigo conversar, fallar um’hora Com o seu coração. —Quantos ha que annos longos hão vivido C’os outros sempre, sempre c’os de fóra Sem viverem comsigo nem um dia, Nem um momento só! Tenhamos d’elles dó; Viver não... têem apenas existido. Tua meiga companhia É doce, Elysa; e sempre na minha alma Foi teu brando fallar—e quantas vezes!— Celeste orvalho que abrandou a calma De paixões, que adoçou o agro a revezes: Porêm a minha solidão querida, De vez em quando, lá quando a alma o pede, Oh! não m’a tirem que é tirar-me a vida. Agora conversemos: eu ignoro A arte das vans palavras que bem soam; Oiço-as, e não demoro No ouvido os sons que de per si se escoam. O sol declina;—temos largamente Hoje philosophado. Na viva flor da edade e da saude Nem de todos sería accreditado Que tam suavemente Em austeras conversas de virtude Nos fôsse o tempo.—Crê-me, Elysa amavel, Tem muito mais prazeres a amizade E mais doces que amor: Para todos os sexos, toda a edade, Em todo o tempo a mesma, sempre affavel, Sem o cancro roedor Do ciume voraz que no mais puro D’amor, no mais seguro Suas raizes venenosas lança, E co’a mais branda flor Seus mordentes espinhos lhes intrança. Detestemos, Elysa, essa funesta Paixão brutal que a tudo e em tudo damna, Da virtude a tyranna: Não nos illuda a tam commum cegueira; Detesta o crime quem amor detesta. Crimes!—vê a amizade prazenteira, Que nenhuns tem;—e amor, ai! quantos, quantos! Honras perdidas, thalamos violados, Os vinculos mais sanctos Dos homens e de Deus, da natureza, Da propria natureza—espedaçados Por esse amor, que sua tocha accesa Do vivo fogo traz do averno immundo Para de crimes abrazar o mundo. Honesto, justo, sancto, consagrado, Nada respeita:—o sangue, o altar em meio De seus desejos não é termo ou freio; Não ha pomo vedado No Eden da virtude Que a mão perversa e rude Tocar não ouse,—árvore da vida Que dos gryphos mordida, Em peçonha de morte não converta, E a seiva salutar já corrompida Em lethal beneficio não perverta. Lembra-te aquella historia Que ingenuo o povo em seus trabalhos canta, E de longa memoria Entre elles perpetuada, É singella legenda de uma sancta, Que por brutal amor sacrificada, Desvalida virtude, Só do crime escapou no seio á morte? Eu a canção magoada Em verso menos rude, Mais moldado verti, dei novo córte Ao vestido antiquissimo, á simpleza Que ha seculos lhe deu De nossos bons maiores a rudeza. —Sereno está o ceo, Tranquillo o vento, a calma descahida; E, pois que não te infada A singella toada Do bardo alahude que sem arte soa E a rhyma desgarrada Da popular canção rustico intoa,— Aqui t’a cantarei, ouve: e se ao pranto Te commover a saudosa endeixa, Na selvagem bonina, Na campainha agreste d’esse mato Arrociá-lo deixa; São lagrymas sinceras, propria fonte Para regar as innocentes flores Que arte não sabem, nem conhecem arte; Flores como os meus versos não variados De refinadas côres, Em que alma só e coração tem parte, Não por classica musica modulados Ao graduado som de grega lyra, De cithara romana. A minha é melodia que só mana Dos intimos accordes só do peito; Nem ha corda que fira Em meu alahude rustico Tom menos natural, mais contrafeito. Em suberbos canaes, alto impedrados Por ingenhoso hydraulico, Vão d’arte subjugados Os caudaes da torrente conduzindo Riquezas de preciosa mercancia: E o arroio, que serpeia entre pedrinhas Pela relva macia, Bordado em-tôrno sinuosamente, Que póde elle levar Em sua doce e trépida corrente? —Alguma folha de silvestre rosa Que, ingenua divagando, Pastorinha formosa Lhe foi acaso á margem desfolhando.
ADOZINDA
CANTIGA PRIMEIRA
No, I’ll not weep: I have full cause of weeping; but this heart Shall break into an hundred thousand flaws Or ere I’ll weep. Shakspeare.
I
Onde vas tam alva e linda, Mas tam triste e pensativa Pura, celeste Adozinda, Da côr da singella rosa Que nasceu ao-pé do rio? Tam ingenua, tam formosa Como a flor, das flores brio Que em serena madrugada Abre o seio descuidada A doce manhan d’Abril! —Roupas de seda que leva Alvas de neve que cega Como os picos do Gerez Quando em Janeiro lhe neva. Cinto côr de violeta Que á sombra desabrochou; Cintura mais delicada Nunca outro cinto apertou. Anneis louros do cabello Como o sol resplandecentes Folgam soltos; dá-lh’o vento, Dá no veo ligeiro e bello, Veo por suas mãos bordado, De um sancto ermitão fadado Que vinha da Palestina; Passou pelo povoado, Foi-se direito ao castello Pediu pousada, e lh’a deram Porque intercede a menina: Que o pae suberbo e descrido, —‘N’essa gente peregrina, Disse, quem sabe o que vem?’ —Mas pede Adozinda bella, Tal virtude e formosura, Quem lh’o hade negar a ella? Não póde o pae nem ninguem.
II
Mas o outro dia á luz nada Houve quem visse Adozinda Debruçada em seu balcão Haver prática alongada Co’ aquelle velho ermitão. Quem sabe o que lhe elle disse? —Ninguem no castello ouviu: Mas d’aquella occasião A alegria lhe fugiu Dos olhos e do semblante: Ficou triste, sempre triste; Mas em seu rosto divino Fez-se formosa a tristeza. Como olhos d’amor quebrados Disseras os olhos d’ella; Mas não tem d’amor cuidados, Que a ninguem conhece a bella.
III
Qual semente arrebatada Da flor de vergel mimoso Pelos furacões do Outomno, Vai no incôsto pedregoso Cahir de serra escalvada; Vem Abril, e a seu bafejo Brota e nasce a linda flor, De ninguem vista ou sabida, Nem de damas cubiçada Nem de pastores colhida, E o vento da solidão Lhe bebe o perfume em vão.
IV
Quinze annos tem Adozinda; E desd’a vez que o romeiro Do saio pardo e grosseiro Lhe fallou ao seu balcão, Faz tres para o San-João.
V
E Adozinda sempre triste Vai sosinha pelo eirado Pelo jardim, pelo prado; Nem ja a divertem flores Em que punha o seu cuidado. Pelos sombrios verdores De sua espessa coutada Vaga á toa e derramada, Como a novilha perdida, Como a ovelha desgarrada A quem o tenro filhinho Lobo do mato levou: —Desfaz-se a mãe em balidos, Que de ninguem são ouvidos, E o filhinho não tornou!
VI
Que tem Adozinda bella Que em tal desconsôlo a traz? Serão saudades do pae Que anda co’os Mouros á guerra Por defender sua terra Mais a sancta lei de Deus? Tres annos ha que se foi; E dous filhos que levou, A cadaqual sua espada Com juramento intregou De lh’a tornarem lavada No sangue mouro descrido: E assim cada um jurou. Fizeram gente em suas villas, (Que preito muitas lhe dão) E guiaram seu pendão Para terras de Moirama. Ja vejo chorar donzellas, Vejo carpir muita dama, Que onde chega Dom Sisnando, Com sua espada portugueza Não ha lanças nem rodellas Que sirvam para defesa.
VII
Mas não são do pae saudades, Que sempre a lidar com armas Como ellas duro se fez; Mais lhe importam do que a filha Seus ginetes, seu arnez. E até—quem diria tal!— Quando a mãe, por diverti-la, Lhe falla do pae ausente E lhe diz que hade voltar, Parece que se lhe sente O coração apertar. —Suspira em silencio Auzenda, Auzenda tam bella ainda Que ao-pé da bella Adozinda Mais irman que mãe parece De filha tam môça e linda. Suspira em silencio a triste, Porque suspira não diz: —‘Filha amante de seu pae Conceder-me o ceo não quiz!’ —Ai! que sem razão se chora! —Ai! Auzenda malfadada, Tem de vir minguada hora Que á filhinha desgraçada Darás mais razão que agora.
VIII
Que tropel que vai nos paços De Landim ao-pé dos rios! Sons de festa e sons de guerra Em seus muros e alta tôrre? Geme a ponte, treme a terra C’o peso d’homens armados. Cavallos acobertados Trotam ligeiros;—e corre O alferes que tremolando Vai guião de roxa cruz... Ja chegado é Dom Sisnando. Entre os cavalleiros todos Sua armadura reluz: E o pennacho fluctuante Das plumas alvas de neve Sôbre o elmo rutilante De longe a vista percebe.
IX
—‘Portas do castello, abri-vos, Correi, pagens e donzellas, Que é chegado meu senhor, Meu espôso e meu amor!’ Auzenda bradava e corre. Portas se abrem, soam vivas, E o echo da antiga tôrre Com o som festivo acordou. —‘Viva, viva Dom Sisnando!’ E o tropel que dobra e cresce, E ás portas que chega o bando Dos guerreiros triumphantes. Do corcel suberbo desce E aos braços anhelantes Da cara espôsa voou. Doce amor que os apertou Não lhes deixou mais sentidos Que para se ver unidos, Ajuntar-se peito a peito, E em laço tam brando e estreito Longa saudade afogar. A Auzenda gotteja o pranto, Pranto que é todo alegria; E o rosto que nunca infia Do esforçado lidador Tambem sentiu—mais que a dor Póde o gôso!—descuidada Uma lagryma sensivel De seus olhos escapada.
X
Mas as lagrymas de gôsto, Como as de mágoa, teem fim; Dom Sisnando inchuga o rosto, E tomando a mão á espôsa: —‘D’onde vem, lhe diz, senhora, Que a joia mais preciosa Não vejo d’estes meus paços, D’onde vem que aos meus abraços Minha filha?..’ A filha bella, Pasmada, trémula, a um lado, O rosto ao chão inclinado, Parecia humilde estrella Que ao primeiro raio vivo Do sol que no alvor reluz Não fica, não, menos bella, Porêm pállida e sem luz.
XI
Tres annos ja são passados Que Dom Sisnando a não via, N’essa joven, linda dama Sua filha não conhecia. —‘Ei-la aqui, senhor,’ dizia A mãe, que d’um braço a trava, ‘Ei-la aqui.’—Os olhos crava O pae na formosa filha, E de assombro e maravilha Mudo, estatico ficou. Cora Adozinda, suspira, E—‘Pae!’ disse em voz tremente Submissa...—; languidamente Ajoelha, osculo frio Na paterna mão imprime: Pranto que atelli reprime, Corre agora em sôlto rio. —‘Que tens tu, filha querida, Que assim choras tam carpida? É teu pae, que hade querer-te, Que hade amar-te como eu te amo.’ E tomou-a nos seus braços, E a levanta Auzenda bella. Pasma o pae, suspira ella; E a custo os doces abraços De pae, de filha se deram.
XII
Pouco alegre a companhia Entrou nos paços brilhantes; E os atabales soantes Pregoaram festa e alegria No castello de Landim.
CANTIGA SEGUNDA
But yet thou art my flesh, my blood, my daughter! Shakspeare.
I
Oh! que alegrias que vão Pelos paços de Landim! Que magnificos banquetes, Que sumptuoso festim! Juncto ao valente campeão, Á cabeceira da mesa Ficou a bella Adozinda. A tam celeste belleza Estão todos admirando; E o imbevecido Sisnando Não se farta de abraçá-la, De beijar filha tam linda. Auzenda de gôsto chora, E abençoa a feliz hora Em que tanto amor nasceu. —‘Inda bem’ diz ‘que a rudeza De tanto lidar com armas Á innocencia, á belleza Da amada filha cedeu!’ Ella as caricias paternas Ja não ousa de esquivar-se; Cora, mas deixa abraçar-se; Ve-se que tantos affagos A repugnancia venceram Da timidez natural, —Ou, se outra causa fatal, Mais incuberta ella tinha... Ao menos lh’a adormeceram.
II
Ja de exquisitos manjares Os convivas saciados, De folias e cantares Pagens, donzellas cançados, E dos brindes amiudados Finda a primeira alegria, Doce repoiso pedía Quanto ésta noite em Landim Velou em baile e festim. A seus nobres aposentos Adozinda retirada, Com permissão outorgada —A custo—do pae, se foi. Auzenda, em grave cortêjo De suas damas rodeada Deixou ha muito o festêjo, E em seu camarim deitada Espera o momento anciosa Em que a sós a amante e a espôsa Nos braços de Dom Sisnando Se hãode em breve confundir.
III
Como um tapete mimoso, Juncto ao paço de Landim Se estende jardim formoso, De boninas arrelvado Da verde gramma e de flores: Remata em bosque frondoso Cujos opacos verdores Eternas sombras acoitam. —De pesados sentimentos Oppresso o peito fremente, A respirar livremente O ar puro da noite fria Entrou insensivelmente Dom Sisnando em seu vergel Jamais tam rico docel De azul bordado d’estrellas Se estendeu por sôbre a terra Do estio nas noites bellas.
IV
Alta a lua vai no ceo, E as sombras leves e raras Não impedem ás florinhas, Não tolhem ás aguas claras De brilhar co’a luz nocturna, Menos resplendente e fúlgida, Porêm mais suave e placida, Mais amavel que a diurna. Manso o vento, que murmura Entre as folhas brandamente, Convida suavemente A respirar, a bebê-la, Essa fresca viração, Das flores exhalação, Tam doce como o bafejo De dous amantes queridos Quando por amor unidos Se dão mútuo e doce bejo.
V
Na feiticeira belleza Da noite, do ceo, das flores Várias d’aroma e de côres, Sisnando todo imbebido, No seio da natureza Do resto do orbe esquecido, Pouco a pouco a agitação D’alma lhe foi abrandando, E o pesado coração Do affôgo desappertando: Ja póde gemer,—suspira, E como que se lhe tira Um pêso de sôbre o peito, Que a suspirar foi desfeito.
VI
Porque geme, porque anceia Dom Sisnando, o lidador? Sisnando, o triumphador, Cujo alto pendão campeia Victorioso e senhor Por tanta suberba ameia De nunca entrado castello, De jamais vencida tôrre! —Dor que lhe nasce no peito É dor que no peito morre; Ancia que lhe ralla a vida Não é para ser sabida. —E desde quando? ha tam pouco Feliz e ditoso ainda, Com tanta alegria e júbilo Festejada sua vinda!.. Vassallos, espôsa, filha... Filha!.. A filha é tam formosa! Oh! essa Adozinda bella Nos olhos incantadores Tem com que matar d’amores A metade dos humanos! Não, não é peito sensivel Peito que lhe resistir: Mas o pae!.. não é possivel.
VII
Não é, não é.—Mas Sisnando, Sem saber onde caminha, Melancholico e pesado, Insensivel foi entrando Pelo bosque immaranhado Que ao jardim avizinha: E o silencio, que o seguiu, Que no espesso coito habita, Nem um verde ramo agita, Nem uma folha buliu. —Á toa por entre as árvores Sem seguir carreiro ou trilho, Nem guiado d’um só brilho De froixa estrella que entrasse Por tam medonha espessura, Ora lento e vagaroso, Ora os passos apressura, Ja por caminho fragoso, Ja por vereda macia, Té que n’um claro onde os troncos Escasseiam de repente, E onde pallido e tremente Seu reflexo a lua infia, Sem o saber, foi parar.
VIII
Agreste, não feio é o sitio, Medonho, horrivel de ver; Porêm tem a natureza Horrores que são belleza, Tristezas que dão prazer, Mão d’arte alli não chegou; A virginal aspereza Ficou em toda a rudeza Que a creação lhe deixou. De um lado, choupos anciãos Seus ramos lobregos pendem, E o vivo seixo fendem Crespas raizes nodosas Das sovereiras annosas Que as cortiças remendadas Têem dos estios lascadas A pedaços a cahir. —Do outro, altivos rochedos, Como do ceo pendurados, Diffundem pallidos medos Que em funda gruta acoitados De espectros a povoaram. —Di-lo toda a vizinhança, Que ou são sombras de finados, Ou de negras bruxas más Alli ha nocturna dança. —Redobra ao sítio o pavor Um jôrro alto que despenha Saltando de penha em penha, E os echos em deredor Vai temeroso acordando. Este unico som d’horror Á callada solidão Da mudez quebra o condão. —Sisnando, o ardido Sisnando, O do forte coração, Sentiu soçobrar-lhe o ânimo: Uma voz dentro do peito Lhe diz que não passe ávante; Mas outra voz mais possante, Outra voz que é voz do fado, Voz que ao mortal desgraçado Não deixa fôrça ou razão, Lhe brada: Persiste, segue... —Ai do que a ella se intregue, Que se intrega á perdição!
IX
No seixo cavada grutta Tem escassa entrada aberta, Quasi de todo cuberta De festões d’hera lustrosa Que cingindo a rocha bruta Pende em grinalda ramosa. Entre as folhas, que meneia Ligeiro sôpro de vento, Viu Sisnando—e alma lhe anceia— Um lampejar vago, incerto De luz fraca,—ouve um accento De voz doce mas gemente, Voz que se ouve que está perto, Que intoa suavemente Uma angelica harmonia, Tam triste que faz chorar! E ésta voz assim dizia Em seu languido cantar: —‘Anjos do ceo, acudi-me, Valei-me, sanctos do ceo, Que me rouba mais que a vida Quem só a vida me deu. ‘Sancto ermitão, que me deste Aquella esperança ainda Que a desgraçada Adozinda Viria a ser venturosa Apóz de longo penar... Sorte que vieste Sôbre mim deitar, Sorte desastrosa Vem ver começar. ‘Anjos do ceo, acudi-me, Valei-me, sanctos do ceo, Que me rouba mais que a vida Quem só a vida me deu. Mas ah! tam negro crime, Tam horrida paixão D’um pae no coração... D’um pae...—Como é possivel! Não, não, não hade entrar.’
X
—‘Pois treme, infeliz, e sabe Que essa horrorosa paixão Aqui n’este coração...’ Sisnando, a quem ja não cabe No peito a angústia, o tormento De tam criminoso amor, N’estas vozes de terror Rompendo, a caverna entrou.
XI
Oh que pavoroso instante! Os anjos todos cubriram Seus rostos co’a aza brilhante; Sem vento os troncos d’emtôrno A ramagem sacudiram; A lua no ceo mais pallida Como de susto infiou E para traz da montanha Foi correndo, e se eclipsou.
XII
Quem hade a filha chorar Que está nos braços paternos! Oh! quem se hade horrorizar Dos beijos doces e ternos Que o amor...—Que amor é esse De ouvir tam medonho horror O proprio inferno estremece, E só lá... ha tal amor!
XIII
Oh! como heide eu cantar Se no peito a voz me treme! Historia que é de chorar, Quem a diz não canta, geme. —Só não gemia Adozinda, Que toda morta, gelada, Sancto Deus!—mais bella ainda, Na viva rocha, estirada Como um cadaver ficou.
XIV
E o pae ousou levantá-la, E apertar juncto a seu peito Aquella morta belleza! —Repugnou a natureza; E, da paixão a despeito, De si a affasta, vacilla... O anjo da sua guarda Inda um momento o resguarda... Mas ha na terra ou no ceo Fôrça maior que a paixão, Que subjugue um coração Que d’amor indoudeceu? Se a ha, não lhe acudiu Deus, Venceram peccados seus. Lembrou-lhe fugir... ficou: Sim, lembrou-lhe a salvação... E á sua condemnação O infeliz se votou.
XV
Geme, chora; altos soluços Do peito lhe véem bradando; Porêm fugir de Adozinda Não póde o triste Sisnando. Ella acorda, e em voz sumida: —‘Piedade, senhor, piedade!...’ Só pôde dizer: perdida Nos echos da soledade Vai soando e murmurando A voz triste e condoida. Ouve-a elle; e o coração No peito lhe estremeceu; Na execranda pretenção Recúa,—mas não cedeu.
XVI
Palavras que lh’elle disse, Respostas que lh’ella deu, Oh! não as contarei eu, Não as contará ninguem.... Quiz que lh’ella promettesse (E a terra alli não se abriu Quando tal a um pae ouviu!) Que para a noite seguinte, Quando tudo em paz jazesse Em seu leito o recebesse....
XVII
Chora a infeliz, chora, geme, De horror e de pasmo treme: Insta o perigo imminente, A esperança na demora.... Com voz cortada e gemente: —‘Senhor, não insteis agora, Deixae-me cobrar alento, E ámanhan responderei.’ —‘Pois solemne juramento Farás de que...’—‘Sim, farei...’ —‘Que ámanhan, antes que o dia Do horisonte despareça, Darás resposta final E ai de ti, ai do mortal A quem ousasses!...—Pereça O infeliz n’esse momento: Só a morte, só o inferno De meu cru resentimento O poderiam salvar.’
CANTIGA TERCEIRA
I must a tale unfold whose lightest word Will harrow up thy soul; freeze thy blood; Make thy two eyes, like stars, start from their spheres. Shakespeare.
I
Que mau fado, que hora má, Oh! qual agoirada estrella Levou Adozinda bella Á fadada grutta escura? Que foi ella fazer lá? No mais denso da espessura, A tão aziagas horas, Só, alta noite, a deshoras, Sem donzella ou escudeiro, Como o pedia a decencia, Sem levar mais companheiro Que sua debil innocencia, Que seu joven coração!
II
Quem o sabe?—No castello Nem a propria mãe, que a adora, Que pela filha querida Dera tudo, dera a vida... Nem a propria mãe sabê-lo! E como é que Auzenda ignora, Por que incanto ou maravilha, Que ao pino da meia noite Todos os dias a filha O escuro parque atravessa, E tenteando a treva espessa Vai sosinha áquella grutta Que no mais claro do dia Ninguem a entrar ousaria? —Mas vai; não o sabe Auzenda: N’este segredo fatal Coisa sobrenatural, Coisa medonha, tremenda Ha por certo... oh! que inda mal!
III
Desde aquella madrugada Que Adozinda em seu balcão Fallou c’o velho ermitão, De noite á grutta fadada Sempre vai. Sibille o vento No bosque medonho e feio, Ás nuvens o pardo seio Rasgue horrisono trovão, Nada teme; a passo lento, Só, para alli se incaminha E em rezas, em penitencia Horas longas jaz sosinha. Talvez d’aquelle romeiro, Por salutar providencia, Seu fado lhe foi preditto; Talvez lhe fôsse prescritto Por tam sancto conselheiro Que passasse em oração N’aquellas medonhas fragas Certas horas aziagas Em que a fatal conjuncção D’um astro seu inimigo Maior fizesse o perigo Da terrivel maldicção Que a persegue,—ella inocente!— Que tam injusta cahiu N’aquella votada frente... Mas diz que não ha condão Peior que o da maldicção! E quantas não attrahiu Sôbre a familia inculpada A suberba despiedada D’esse orgulhoso Sisnando? Quantas vezes o infeliz, C’os filhinhos expirando, Á porta do seu castello Se viu gemendo e chorando, E o desalmado senhor Essa gentalha atrevida Escorrassar a mandou! Taes peccados não guardou Para os punir na outra vida O supremo Arbitrador.
IV
Mas ja despontava o dia, Que tam alegre hoje vem, Tam risonho parecia, Que não dissera ninguem Senão que traz alegria: —E tantas, tam negras mágoas, Nunca as trouxe o sol nascente Desde que assoma no oriente E se sepulta nas aguas. Toda a noite longa, immensa, Auzenda velou chorando, De suas lagrymas regando O leito viuvo e só; A ninguem sua dor intensa A desgraçada confia: Ninguem da triste houve dó, Que do espôso em companhia Todo o castello a julgou. Porêm a noite passou, E porfim, do novo dia Ja o alvor vinha raiando, Sem apparecer Sisnando.
V
É manhan;—tenue inda a luz, Mas ve-se que é madrugada. Auzenda ainda acordada Sente abrirem-lhe com tento A porta do aposento, E entrar...—‘Será elle?... Oh vem! És tu, suspirado espôso?! Disse ella em timida voz: Não lhe responde ninguem. Um suspiro doloroso Lhe dissipou a illusão. Oh! quem se hade inganar Com aquelle suspirar! É Adozinda,—voaram Do maternal coração Toda a mágoa e dissabores; E os sentidos que ficaram Foi para amargar as dores Que n’aquelle ai a assaltaram.
VI
—‘Filha, filha... a ésta hora! Que succedeu?... que tens tu?’ Callada Adozinda chora. —‘Ai, não, não me chameis filha!’ Rompe em fim, a soluçar, Nadando n’um mar de pranto. Pasmo, terror, maravilha, Susto, medo, horror, espanto No peito da triste Auzenda Em confusão estupenda De tropel foram quebrar. —Que será?—E esse tyranno De todo o socêgo humano, Dúvida, o monstro fatal, Que até nos deixa a esperança Paraque do incerto mal Seja maior a pujança, Venha mais fino o punhal Quando n’alma se nos crava, Esse do peito lhe trava, E ao cruel padecimento Dobra angústias e tormento.
VII
Adozinda, ajoelhada Juncto ao leito onde convulsa Jaz a mãe attribulada, Do coração, que lhe pulsa Como se fôra quebrar, Traz d’amargo pranto um rio, Que dos olhos vem a fio As maternas mãos banhar; As mãos que ella aperta e beja, E que o pranto que gotteja Ja não sentem derramar.
VIII
Volve a ti, mãe desgraçada, Volve, que o morrer agora Tammanha ventura fôra Que da sorte despiedada Concedido não será. Vem ouvir tua sentença De morte... peior que morte, Vergonha horrorosa, offensa... E de quem!... de teu consorte, Do pae monstro, monstro espôso... Ai! para o tormento odioso, Para tammanha afflicção Não tem fôrça o coração.
IX
Tudo lhe conta Adozinda, Tudo... tudo,—interrompendo A horrorosa narração Ora as lagrymas fervendo, Ora os soluços rompendo Do rasgado coração, Ora os labios descorados De pejo e terror gelados, Sem podêr nem balbuciar O que é fôrça revelar.
X
—‘Irás’ disse Auzenda emfim, E a voz, que treme, assegura: ‘Irás a teu...’—pae não disse, E um som rouco lhe murmura Nos labios onde a meiguice, Onde a maternal ternura Procuram em vão surrir: ‘Irás, filha, a Dom Sisnando E lhe dirás que...’ —‘Senhora!’ Interrompe ella chorando —‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora Da meia-noite soar, Em teu quarto o hasde esperar. Não temas, filha, não tremas, Não chores, minha Adozinda, Querida filha, não gemas, Que hasde ser feliz ainda. No angustiado seio Guardemos inda a esperança: Do ceo mandada me veio Uma ditosa lembrança Que nos poderá salvar. No teu leito d’ouro fino Sou eu que me heide ir deitar; Tua camiza de hollanda A meu corpo heide lançar: E quando elle nos seus braços Ter Adozinda julgar... Ah! que o ceo hade abençoar Este ingano virtuoso, E a ser pae, a ser espôso Dom Sisnando hade voltar.’
XI
O dia em rezas passaram Em devotas orações; Mas quando as trevas poisaram Sôbre as muralhas da tôrre, Voltaram as afflicções: E o tempo—que leve corre Para todos os viventes— Só áquellas innocentes Accintoso parecia Que da ampulheta fadada Bago por bago espremia Cada hora minguada.
XII
Emfim meia-noite soa: Dom Sisnando, aguilhoado Do torpe amor—do peccado, Impaciente ao prazo voa Que elle d’amor julga dado. Como louco, arrebatado Corre ao leito de Adozinda, Cego bêja a face linda, Que decerto não é d’ella, Mas que não é menos bella; Ao convulso peito aperta Aquelle peito formoso... —Desgraçado, é tempo ainda, Do cruel sonho desperta, Que ao precipicio horroroso Ja te vai a despenhar!...
XIII
Dom Sisnando é criminoso Quanto o podia ficar; Do intento abominoso Nada resta a consummar. Ja tristemente acordou De seu delirio fatal, E surrindo amargamente, Á infeliz assim fallou: —‘E era por isto... innocente! Que tanto se recatava Tua virtude fingida? Ah! essa alma corrompida Mais do que teu corpo estava. E tu...’ —Não pôde ouvir mais A triste mãe; não lhe soffrem As intranhas maternais Ouvir a filha adorada De tal modo calumniada, E por quem, e em que momento! C’um suffocado lamento, Que do peito rebentando Trouxe aos labios alma e vida, Quebra o silencio:—‘Ah, Sisnando! Ah, senhor, mattae-me embora; A desgraçada sou eu.’ E a terra n’aquella hora Rasgada não soverteu O infeliz, que meio morto, No abysmo do crime absorto, D’este golpe inesperado A violencia cedeu!
XIV
Silencio largo, mortal Foi a unica expressão Que por longa duração N’aquelle estado fatal Entre esses dous foi ouvida. Porêm no perdido peito De Sisnando atribulado Foi a vergonha vencida Pelo irritado despeito: Dos remorsos avexado, Porêm mais pungido ainda De seu crime mallogrado, Brada em cholera abrasado: —‘Pereça a filha descrida Que deshonrou seu...’ —Pae não, Pae não ousa proferir. A palavra, suspendida Por fria, pesada mão De remorso insubjugado, Lhe voltou ao coração A lacerar-lh’o, a vingar-se Da mal-soffrida oppressão.
XV
—‘Ouvi-me, senhor: culpada Sou eu só...’ a triste espôsa Lhe diz; mas não ouve nada Aquella alma furiosa, Ja n’este mundo rallada De quanta pena horrorosa No inferno está guardada Para crimes como o seu.
XVI
Parte, corre;—o brado horrivel Por todo o castello soa Tam medonho como troa Medonho trovão d’outomno. Despertos do brando somno Todos são:—ordens que deu São taes, que de horror tremeu A gente absorta e pasmada. Tristemente obedecendo, Co’a face ao chão inclinada Se vão a medo, e mal crendo Que não seja sonho vão O que ouvindo e vendo estão.
XVII
Do castello para um lado Uma antiga tôrre havia Cercada de largos fossos, Que é memoria haver fundado Um rei mouro que vivia Ha muito, de quando os nossos Mourisca gente regia. Alli uma espôsa sua, Que elle achou ser-lhe infiel, Sette annos e mais um dia Fechada a teve o cruel, Sozinha, a grilhões e nua; E só pão sêcco lhe dava, Mas agua não consentia Que nunca ninguem lh’a desse Para que á sêde morresse. Valeu-lhe quem tudo póde, Que ao infeliz sempre accode: Vinha-lhe orvalho do ceo, De que os sette annos bebeu. E emfim o septimo anno De tal milagre vencido Foi o proprio rei tyranno, Que a liberdade lhe deu, E do crime commettido, Se o havia, se esqueceu.
XVIII
Para ésta tôrre deserta, No verão ao sol exposta, Que abrasado a queima e tosta, No rigor do hinverno aberta A chuvas, á ventania, Sisnando—quem tal diria! Mandou a filhinha linda, Que alli fechada gemesse, A virtuosa Adozinda!... E ai de quem agua lhe desse, Lhe desse vestido ou cama, Que da sêde á morte crua —Qual o mouro a sua dama— Alli quer que morra nua, De todos desemparada, De seu pae amaldiçoada, Só da triste mãe chorada!
XIX
Sem dar somente um gemido, Sem se carpir nem queixar, Como a ovelhinha tremente Que sem dar nem um balido Se deixa á morte levar, Vai Adozinda innocente Para aquella feia tôrre. Pranto que furtivo corre De quantos olhos a viam A acompanha tristemente. E o pae!... Ancias que o remordem Ninguem as sabe nem vê. N’um aposento incerrado, Onde nem ao mais privado Concedido é metter pé, Só ficou, só permanece: Só!—antes acompanhado De quem os seus não esquece, Do remorso,—do peccado.
CANTIGA QUARTA
You do me wrong, to take me out o’the grave:— Thou art a soul of bliss: but I am bound Upon a wheel of fire, that mine own tears Do scald like molten lead. Shakspeare.
I
Sette annos e um dia Foi a sentença cruel Que Adozinda cumpriria N’aquella tôrre fechada. E o tyranno bem sabia Que nem tres dias somente Viver podia a innocente Com a sêde, a denudez. Uma semana é passada Passado é um mez e outro mez, Anno e annos decorreram; E os sette annos feneceram Sem que Adozinda formosa Em tal mingua perecesse, Sem que ao menos desmer’cesse Em seu rosto uma só rosa.
II
Veio um dia—n’esse dia O captiveiro acabava— No mais alto o sol ardia E a terra toda abrasava, Na tôrre uma voz se ouvia, (E é ésta a primeira vez) Era uma voz que pedia, Que supplicava piedade: —‘Uma sêde, uma só d’agua, Uma só por compaixão, Que me abraso n’esta fragua, Que me estalla o coração.’
III
A voz de Adozinda bella Todos clara conheceram; C’os olhos na alta janella De toda a parte correram: —‘Vive, inda vive!’ bradavam, ‘A innocente! vinde ve-la.’ E uns aos outros recontavam Das virtudes, da paciencia D’aquelle anjo d’innocencia Que, ha muito, morta julgavam. —Outra vez se torna a ouvir O mesmo clamor sahir Da torreada prisão: —‘Uma sêde, uma só d’agua, Uma só por compaixão, Que me abraso n’esta fragua, Que me estalla o coração!’
IV
A todos se commoveu O mais intimo do peito, Mas não ousam a affrontar Do pae o sevo despeito. —‘Tem paciencia, anjo do ceo!’ Com lagrymas responderam, ‘Que ja não póde tardar O pae que te vem soltar. Os sette annos decorreram, O dia está a acabar; Soffre mais este momento, Que hoje acaba o teu tormento.’
V
—‘Oh! como heide eu supportar, Amigos meus da minha alma, Se a vida sinto acabar, Sinto abrasar-me da calma? Sette annos me accudiu Deus, Que por milagre vivi, Dava-me orvalho dos ceos, De que sette annos bebi. Do estio ardentes queimores No meu corpo os não senti, Do hinverno os frios rigores Tambem esses não tremi. Mas ha tres dias que a mão Do Senhor me abandonou. Tudo, tudo me faltou... Oh! tende de mim piedade! Uma sêde, uma só d’agua, Uma só por compaixão, Que me abraso n’esta fragua, Que me estalla o coração!’ —De novo alto chôro ergueram, Lastimado pranto gemem; Mas de seu tyranno tremem, Só a chorar se atreveram.
VI
Soa a nova no castello, Vai correndo em derredor, De que porfim fôra ouvido Aquelle anjo soffredor Soltar queixoso gemido, Piedade emfim suppllicar. Só a Auzenda, que expirando No leito da morte jaz, Para que morresse em paz Vão a noticia occultando. Mas soube tudo Sisnando, E no duro coração Ja vacilla a crueldade, Ja vislumbra a compaixão: Dos seccos olhos covados, Que inspiravam medo e espanto, Como que da mão tocados D’algum anjo punidor, Salta repentino o pranto, Qual onda que estalla em flor Sôbre o penedo ourissado. Todo em lagrymas sanguineas O infeliz debulhado, Para aquella infausta tôrre Com incerto passo corre Em altos gritos bradando: —‘Agua! trazei agua, vinde, Accudi á desgraçada, A uma filha malfadada Que por mãos de seu pae morre!’
VII
Assim correndo e gritando Chegava á horrivel prisão Em que gemia Adozinda: —‘Filha, filha, é tempo ainda; Perdão, ó filha, perdão Para este algoz...’—Cortou-lhe O excesso da paixão Lingua e fôrça; a voz quebrou-lhe, E por morto cai no chão.
VIII
Oh! que povo se ajuntava No castello de Landim! E com que horror que elle olhava Para aquelle triste fim De tammanho cavalleiro, Tam ricco e grande senhor, Tam esforçado guerreiro! A Auzenda chega o rumor Do successo inesperado, Dá-lhe fôrça e vida amor; O fio meio cortado Da existencia lhe atou. Ei-la se ergue, e em mal-firmado Passo corre—e lá chegou.
IX
E ja por ordem de Auzenda Co’a porta negra e tremenda Investem da tôrre erguida: Range o ferro, os gonzos gemem, Parece que ja rendida Vai de todo;—á roda tremem, Do fundamento aluida A tôrre, os solidos muros. Mas em vão de centenares Dos mais rijos braços duros Se movem os instrumentos Que em muralhas mais valentes De castellos regulares, De mais solidos cimentos Têem a miudo triumphado.
X
Parece incanto:—será? O povo maravilhado Ja por tal, tremendo, o dá. Cessam todos, incantado É o negro portão ferrado... E o povo desanimado Da impreza desiste ja.
XI
Arreda, arreda, infançoes, Cavalleiros, dae logar, Com licença, nobre dama, Que ahi vem um sancto ermitão: Com as suas orações Este incanto hade quebrar, Ou, se do demonio é trama, Com o seu bento condão Elle o hade desmanchar. —Ei-lo chega:—este semblante Não é aqui desconhecido... Ésta barba, este vestido... É elle, o mesmo ermitão Que a noite de San’João (Não ha dez annos ainda) No castello pernoitou, —Que Sisnando o maltrattou. Mas, por a bella Adozinda Pedir muito, lá ficou.
XII
Com a cabeça cuberta Do seu agudo capuz, Os olhos de côr incerta, Pasmados, fixos... e a luz Que d’elles sai é tam viva Que a espaços da vista priva Quem de perto os quer fitar! As mãos cruzadas no peito, Vagaroso seu andar, Tam pesado e de tal geito Que faz um echo tremendo Quando os passos vai movendo, E como que a terra e o ar, Com o pêso vão gemendo... —Foi seu caminho direito Da tôrre á porta ferrada; Sem attender a mais nada, Sem olhar nem para Auzenda, Que em lagrymas debulhada Supplices mãos lh’estendia. Chega á porta, e em voz horrenda —‘Abre-te!’—disse. Estallou O ferro medonhamente, E a porta se escancarou, —Mas elle subitamente, Voltando-se para a turba, Que alto alarido alevanta E em derredor se perturba, Com gesto que aos mais ousados Todo o ânimo quebranta, —‘Immudecei!’ lhes bradou. Ficaram todos callados; E—immudecei—revibrou De echos em echos dobrados Pelo castello e jardim, Pelos soutos ao redor, Pelos campos dilatados Que a Dom Sisnando obedecem E por senhor reconhecem Ao ricco-homem de Landim. —Depois estendendo a mão Ao logar onde jazia Por morto no frio chão O desgraçado Sisnando, Éstas palavras dizia Que em ouco som vão soando: —‘Eu te esconjuro, Alma perdida, Volta-te á vida! ‘Que o teu peccado, Abominado Do proprio inferno, Só tem perdão Com longa vida De penitencia, De contrição, Que a alma perdida Salve do inferno, Da maldicção. ‘Eu te esconjuro, Alma perdida, Volta-te á vida! ‘O anjo celeste Na hora última Te perdoou, E ao Pae Eterno A tua victima Por ti rogou ‘Lazaro immundo, N’esta grande hora Volve-te á vida, Vem, surge fóra!’
XIII
Em pé está Dom Sisnando: Vivo está, morto parece, Tam negro veo lh’innoitece O verde-pallido rosto, Onde o seu sêllo ja pôsto Tinha o archanjo da morte.
XIV
De joelhos o ermitão, Com a cabeça cuberta, Á porta da tôrre aberta Faz breve e baixa oração. Eis violento repellão A terra, tremendo, deu, E d’alto abaixo a muralha Largamente se fendeu. Viram todos claramente O interior patente Em que jazia Adozinda, D’onde ha poucas horas inda Sua voz se ouviu clamar, E por uma sêde d’agua Ao seu algoz supplicar.
XV
N’um leito de frescas rosas, Que aromas do ceo recendem, Morta Adozinda jazia: Suas feições mais formosas, Mais angelicas resplendem. Uma suave harmonia Tam brandamente soava, Que ao coração parecia Que por piedade o affagava A quem saudoso gemia. —A alva frente, não tocada Pela mão da morte livida, De lirios do ceo coroada Brilhava com luz tam vivida Que parecia toucada De puros raios do sol. As mãos postas sôbre o peito Para o ceo se alevantavam, E como que d’alma justa Para a morada apontavam.
XVI
Oh! que vista, oh! que momento Para a triste mãe!—Faltava Só este último tormento. A malfadada cuidava Que nenhum padecimento Para gemer lhe sobrava! Era este.—E a dor ignora, Não sabe o que é padecer Quem o filhinho que adora Não viu ainda morrer...
XVII
Levantou-se o ermitão E bradou:—‘Ajoelhemos, E a mão de Deus adoremos.’ —Submissa resignação Póde a voz tolher á dor, Não tira do coração Seu espinho pungidor, Que em silencio é mais cruel, Rasga mais, e na ferida Mais acre derrama o fel. A paciencia soffrida Da triste Auzenda cedeu; Não exclamou, não gemeu, E em tributo de respeito Sua mágoa fechou no peito.
XVIII
E Sisnando?—O desgraçado No pó da terra humilhado, Só se lhe conhece a vida Na agitação comprimida Do convulso soluçar.
XIX
Para a ermida do castello Emfim o corpo levaram E n’um cofre d’ouro fino Como reliquia o guardaram. —Muito a não carpiu Auzenda, Que a morte compadecida Cedo a libertou da vida. Porêm a longa existencia De remorso e penitencia Sisnando foi condemnado: Cuberto de horror e opprobrio Cumpriu seu mesquinho fado; Onde?—Ninguem mais o soube. Do castello aquella noite Com o ermitão se sumiu; Nunca mais d’elle se ouviu. Mas á meia-noite em ponto Na capella de Landim Se ficou sempre escutando Gemer uma voz medonha, Que pede perdão bradando: E essa voz diziam todos Que era a voz de Dom Sisnando.