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Resumo elementar de archeologia christã

INTRODUCÇÃO[1] (continued 4)

Reading edition

No XIII seculo, e mesmo ainda no XIV seculo, as arestas da archivolta são formadas por tóros inscriptos na face quadrada da peça do arco; no XIV seculo e durante uma grande parte do XV seculo, os tóros já não são completamente cylindricos, mas teem antes do termino a curva d'esta moldura, um filete destinado a deter a força do reflexo; no final do XV seculo e no principio do XVI, os tóros cylindricos tornam a apparecer.

As

arcaduras

são bastante vulgares nos monumentos do periodo ogival; servem para ornar o liso das paredes internas e exteriores dos edificios. Na parte interna apparecem principalmente no

triforium

e por baixo dos peitorís das janellas das naves lateraes; na parte exterior, por baixo das cornijas e nos frontespicios, nos vasamentos dos grandes portaes e nas galerias dos claustros.

As arcaduras que se vêem em baixo das janellas de quasi todos os grandes monumentos, compõem-se de uma serie de pequenas arcadas fingidas, collocadas entre os peitorís das janellas e o solo ou no sóco de cantaria que fórma, muitas vezes, uma especie de base ao longo das paredes das naves lateraes.

No XIII seculo, as curvas das arcaduras assentam sobre columnellos mais ou menos embebidos na parede. No XIV e no XV seculos, os

columnellos

ficam substituidos por simples nervuras, ás vezes cylindricas; porém as mais das vezes a secção polygonal não differe muito da de uma semi-hombreira de janella. Estas nervuras teem remate junto do solo, sobre as bases que lhes pertencem. No final do periodo ogival, supprimem-se, por vezes, as nervuras, e então as

arcaduras

assentam sobre modilhões.

No XIV e no XV seculos, as arcaduras sobre os peitorís das janellas ligam-se inteiramente com as hombreiras das janellas e parecem, de alguma maneira, confundir-se com elles: parecendo que atravessam a cantaria do peitoril e descem até ao solo. As arcaduras não são mais do que a parte inferior da janella que está tapada, e na verdade, a parede necessitando de diminuir para dentro, ficando á face da vidraça, afim de deixar metade do peitoril apparente, conserva apenas uma pequena grossura, que equivale a uma simples divisão.

Nos edificios mais esmerados, os

seguintes

, isto é, os lados triangulares comprehendidos entre os extradoz das archivoltas e de duas

arcaduras

, proximas uma da outra, estão geralmente ornatados com esculpturas, pinturas ou rendilhados, mostrando a fórma trilobada ou quadrilobada, e com vidros pintados, emquanto as paredes que separam os entre-columnios, apresentam pinturas decorativas.

As esculpturas e as pinturas com as quaes se decoravam os

seguintes

das arcaduras, durante o periodo ogival, são ora legendarios ou satyricos, ora tirados do reino vegetal. Nos monumentos inglezes do XIII seculo, os

seguintes

estão muitas vezes com ornatos similhantes a estofo cheio de relevo.

Dentro das grandes egrejas do XV seculo existem como decoração as arcaduras e outras figuras por cima e por baixo do

triforium

, sobre o dorso das grandes arcadas e ao correr das janellas mais superiores; ás vezes mesmo sobre o liso das paredes e em outras partes do edificio.

Triforium

Os

triforiums

comprehendem toda a largura das naves lateraes, não se vêem senão por acaso nos edificios do periodo ogival. Desde o final do XII seculo, lhes substituiram, nas egrejas da Europa occidental, galerias estreitas, abertas na grossura da parede, por baixo dos peitorís das janellas superiores da nave principal. Estas galerias estreitas offereciam commodidade: em primeiro logar facilitavam a circulação dentro da egreja quasi á altura das janellas superiores, e davam logar a collocarem-se as armações e outros adornos com que havia o costume de decorar as egrejas nos dias de festa; e em segundo logar, diminuindo a grossura das paredes superiores, alliviavam a pressão exercida sobre os pilares principaes dos edificios; finalmente, offereciam uma das mais importantes disposições para a decoração da nave principal.

O triforium communica com o interior da egreja por series de arcaduras abertas, tendo o mesmo feitio que as arcaduras que havia sobre o liso das paredes, debaixo dos peitorís das janellas inferiores. Muitas vezes, principalmente no XV seculo, tapava-se a parte inferior da arcadura com um parapeito formando ornato de feitio de trêvo ou de quatro folhas.

Nota-se que nos triforiums, assim como nas arcaduras com ornato, as archivoltas ficam assentes sobre columnatas com capitel pertencente ao estylo do XIII seculo, e sobre

nervuras das hombreiras

dos seculos seguintes. A disposição das arcaduras do triforium apresenta ainda uma outra analogia muito parecida com as arcaduras de ornato, formando regularmente, desde o final do XIII seculo, a continuação das janellas das naves lateraes. Depois d'esta época tambem as arcaduras do triforium se assemelham ás janellas superiores da nave principal.

No termo do periodo ogival, supprimem-se muitas vezes as arcaduras, não conservando mais do que um simples guarda-peito; o ornamento denominado

chama

apparece regularmente nos desenhos que formam as hombreiras d'esses guarda-peitos. As janellas superiores ficam, n'este caso, collocadas a prumo sobre a parede exterior do triforium.

Na Belgica, o triforium é geralmente tapado do lado exterior da nave por uma parede; é, por excepção, que esta parede tem abertura, e a um ou dois metros por cima do pavimento da galeria, pequenas aberturas circulares,

trilobadas

ou

quadrilobadas

, cobertas de grisalhas ou com ornatos elevados. Nos edificios francezes do XIII e XIV seculos, pelo contrario, a galeria do triforium não fica, as mais das vezes, separada do exterior senão por uma simples lumieira, apresentando bellos vidros pintados, semelhantes aos que decoram as janellas.

Cornijas

As cornijas do estylo ogival têem geralmente pouca importancia. Nos edificios que pertencem ao periodo de transição, e mesmo, na Belgica, em algumas que são dos primeiros annos do periodo ogival, o

larmier

superior da cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em distancia, do mesmo modo que na época

roman

, sobre cachorros servindo de modilhões, com muita sacada, mas de grande simplicidade.

Em França, as cornijas dos monumentos mais principaes compõem-se, quasi sempre, de duas fiadas de cantaria. A fiada inferior está ornada de crochetes vegetaes no XIII seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de folhas de repôlho encrespadas no XV. Algumas vezes vê-se tambem, entre estas esculpturas, modilhões formados por cabeças humanas ou por carrancas.

As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas fórmas geraes que as cornijas francezas, porém não têem esculpturas, sendo substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo Roman, as arcaduras serviam de decoração, imitando-se o estylo Lombardo, e foram usadas para ornar certas partes dos edificios.

Desde o começo da ultima metade do XIII seculo até o final do XIV, os edificios de segunda ordem, e mesmo os de primeira ordem na Belgica, têem as cornijas compostas de simples perfis, formados por um pequeno numero de molduras pouco importantes.

Platibandas

As

platibandas

que corôam as cornijas no exterior dos edificios principiaram nos primeiros annos do XIII seculo. Antes, a agua da chuva caía dos telhados directamente sobre o solo; até o meiado do XIII seculo sómente os edificios mais importantes tiveram canos de chumbo para dar vasão á agua da chuva e se assentaram platibandas sobre a beira do telhado. Estas platibandas encanavam a agua por gargúlas, que a lançavam para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as aguas da chuva podessem prejudicar a base da construcção, introduzindo-se-lhe a humidade. As platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo que apresentava passar sobre as gargúlas, facilitam além d'isso os concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando cáem; permittindo aos architectos darem melhores decorações ao exterior dos monumentos.

As mais antigas platibandas têem a fórma de arcaduras rendilhadas, compostas de columnatas, sobre as quaes vem assentar um remate vasado, na sua parte inferior, em arco ogival,

trilobado

. No final do XIII seculo substituiram-se as arcaduras pelas folhas de trêvo e de quatro folhas vasadas.

A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham folhas de trêvo e de quatro folhas, vasadas e divididas de distancia em distancia, na prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as prumadas são compostas, umas vezes pela reunião de rhombos, de triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras geometricas angulares; outras vezes por desenhos flammejantes, parecidos com os que caracterisam os tympanos das janellas d'esta época. No final do XIV seculo apparecem, principalmente nos edificios civis, as platibandas com ameias, nas quaes se vêem os mesmos feitios que nas platibandas vulgares. O seu uso persistiu até ao final do periodo ogival.

As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou acolá nos edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo.

Abobadas

. As abobadas ogivaes distinguem-se ao mesmo tempo pela sua elegancia e leveza. Isto foi resultado da pouca grossura dos triangulos do enchimento que vedava a parte composta de arcos-duplos e de nervuras. Comtudo a leveza não excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas ogivaes são mais solidas e mais resistentes que as dos periodos anteriores, posto que sejam muito menos massiças.

Estabilidade e plano das abobadas

. Já explicámos que a estabilidade das abobadas não depende do mesmo principio dos edificios antigos e do periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos tão importantes realisados pelos architectos do XII e XIII seculos nas construcções das abobadas.

Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como são construidas as abobadas ogivaes, causam um esforço lateral que tende a desviar para fóra dos seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes ou paredes. Os constructores do periodo ogival evitavam esse esforço lateral, oppondo-lhe quer um esforço em sentido inverso, quer um obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o empregando cargas verticaes. É caso particularmente para notar, porque constitue egualmente uma differença essencial do systema de construcção dos antigos, esses obstaculos apresentam as dimensões unicamente necessarias para preencher o fim ao qual são destinados.

Esta neutralisação dos esforços lateraes não se obtem da mesma maneira nos edificios religiosos, cuja nave principal é notavelmente mais alta do que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual altura.

Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que as outras lateraes

. Foi o systema adoptado, desde o final do XII seculo, pelos constructores da Europa occidental, afim de conservar o equilibrio das differentes partes de que se compunham os seus monumentos; porque o arco-duplo da abobada principal á parede mestra, o arco butante, o contraforte e a columna que separavam a nave principal da nave lateral do seu arco-duplo, formavam um triplo esforço motivado pelo arco-duplo da abobada principal e os seus dois arcos ogivaes, que faziam pender para fóra a parede mestra do edificio. A este esforço, o constructor da edade média oppunha o arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede mestra, ficando collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforço triplo causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a columna que sepára as duas naves; por ambas as forças reunidas, tornava-se esta bastante fixa para aguentar e neutralisar o triplo esforço exercido pelo arco-duplo da nave lateral e pelas nervuras proximas da mesma nave. O esforço do arco-duplo d'esta nave e das duas nervuras ficam supprimidas pelo encontro do contraforte.

Egrejas em que as naves ficam na mesma altura

. N'estas egrejas os esforços lateraes que a abobada da nave principal opéra sobre os seus pontos de apoio ficam diminuidos pela pressão das abobadas exteriores d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes, geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppõem um obstaculo rigido, que produz o equilibrio das abobadas.

Abobadas de feitio de tecido

. As abobadas sobre plano

quadrado longo

, formadas por arcos ogivaes que se entroncam uma só vez, foram geralmente abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem então as abobadas em

tecido

, designadas tambem pelos archeologos, abobadas

com divisões prismaticas

. N'estas abobadas as nervuras bifurcam-se, ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de maneira a figurar um verdadeiro tecido, como está representado na surprehendente abobada do cruzeiro da egreja monumental dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de intersecção das nervuras estão regularmente ornados de esculpturas.

Perfis das nervuras nas abobadas ogivaes

. As nervuras ou arcos ogivaes das abobadas construidas no final do periodo Roman consistem muitas vezes em um grosso tóro, algumas vezes tendo dois ou quatro tóros de menos vulto. Os arcos-duplos da mesma época, muito mais massiços que as nervuras, apresentam secções quadradas ou rectangulares, e teem os angulos das partes concavas da abobada talhadas em tóro. Desde o principio do XIII seculo, os arcos-duplos tiveram, com raras excepções, os mesmos perfis que os arcos ogivaes.

Durante os primeiros annos do periodo ogival, vê-se ainda arcos-duplos e arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos edificios romans. Todavia não tardou a adelgaçarem, a diminuirem de grossura. Pouco depois, a parte redonda do tóro principal apresenta uma aresta viva. Esta fórma teve logar em França desde o final do XII seculo, e na Belgica sómente no meiado do seculo seguinte. Mais tarde, em França ao principio, e na Belgica proximo do meiado do XIII seculo, a aresta viva é substituida por um filete, que ficou adoptado até ao final do periodo ogival. Nos edificios francezes apparece tambem o filete sobre os tóros secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no começo do XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o perfil composto de molduras concavas e redondas.

Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as dos ultimos. Esta mudança na fórma dos perfis não se fez sem motivo: os constructores tinham aprendido por experiencia que a resistencia de um arco ou de uma nervura está em razão directa da altura da peça de voltas e não em razão da sua largura.

Fecho da abobada

. No XII seculo, tinham principiado a ornar com esculpturas os fechos da abobada. Estes primeiros fechos esculpidos representavam Jesus Christo deitando a benção, o Cordeiro Divino, Nossa Senhora, os anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e muitas vezes tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos edificios de segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um simples florão ou entrelaços.

No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a ser geral, sendo representado nas abobadas do côro, Jesus Christo, o Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros objectos religiosos. Na nave principal e nas lateraes a ornamentação distingue-se por ser vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na primeira metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma decoração que a do XIII seculo; todavia na sua esculptura vegetal ha os caracteres proprios da ornamentação de cada um d'estes seculos. No XV seculo, os brazões dos bemfeitores da egreja são esculpidos frequentemente sobre os fechos da abobada.

No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um appendice que recebeu o nome de

pendente

, que ficou em uso durante uma parte do XVI seculo, imitando stalactites que estão suspensas ás superficies superiores das grutas. Algumas vezes tem o feitio de um florão ou um ornamento extravagante; outras representa uma estatua pegada á abobada.

Muitas vezes os fechos da abobada são furados por um buraco circular, para se poder içar os sinos e outros objectos acima das abobadas: como havia dois oculos na abobada da egreja de Belem, indicando não sómente essa applicação, mas que o edificio

deveria ter duas torres

: todavia, construiram modernamente um torreão colossal, que esmaga aquelle monumento, e não respeitaram o que fôra projectado na sua primitiva edificação!

Arcos butantes

. Chama-se

arcos butantes

aos arcos destinados a transportar até aos contrafortes exteriores o esforço lateral das abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e apoiam-se sobre as paredes da nave principal nos differentes pontos onde vão confinar os resultantes dos

encostes

dos arcos ogivaes e dos arcos-duplos.

Já explicámos os dois systemas empregados durante o periodo roman para contramurar o esforço lateral produzido pelas abobadas superiores sobre as paredes altas das egrejas em que a abobada principal é muito mais alta que as outras das naves inferiores, e notámos os inconvenientes que resultavam de uma e de outra applicação. Estes dois systemas foram em pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal ficava sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em segundo logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves lateraes precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se effectuava o encontro combinado das nervuras das abobadas altas. Raciocinadores dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos do XII seculo e do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das abobadas em berço contiguo, do qual alguns dos seus antecessores se tinham servido com o fim de neutralisar o esforço lateral das abobadas altas, não era necessario na sua fórma completa, e que se obtinha o mesmo resultado applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde viesse dar a resultante dos encostes, um arco partindo de um contraforte exterior: foi esta combinação que deu origem aos arcos-butantes.

Para que satisfaça á sua applicação deve o arco-butante: 1.º, ter as juntas das peças de sua construcção

normaes

ou perpendiculares á curva por elle descripta; 2.º, ficar o seu vertice sobre a parede exterior no ponto onde passe a resultante do esforço da abobada. Esse ponto acha-se entre o nascimento das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da altura da abobada. Em theoria esse ponto é um ponto geometrico; todavia na prática é preciso que a summidade ou cabeça do arco-butante seja larga; primeiro porque é impossivel, na execução, determinar de uma maneira exacta a direcção da resultante dos differentes esforços das abobadas; depois porque a direcção d'esta linha póde facilmente desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio verticaes, effeito que acontece frequentemente nas grandes construcções medievaes cujos pontos de apoio são delgados e supportam uma pesada carga.

Os arcos-butantes são geralmente reforçados, no seu

extradoz

, por um encosto em linha recta, construido em cantaria. O espigão d'este encosto é muitas vezes ornatado de

crochets

.

Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os mais antigos são geralmente formados por um quarto de circulo. Depois a curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da linha recta.

Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo, arcos-butantes

duplos

, isto é, dois arcos-butantes collocados um por cima do outro.

Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos monumentos d'esta época, mesmo os mais principaes, julgavam-se sufficientes os contrafortes muito massiços e salientes para diminuir o esforço das abobadas.

Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria posto sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no cimo dos contrafortes, e eram depois lançadas fóra por gargulas, caindo afastadas da base do monumento. As infiltrações causadas pela passagem das aguas sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes, produziram damnos tão consideraveis nas construcções que ficou em pouco tempo abandonado este systema de dar escoante ás aguas da chuva.

Contrafortes

. Durante os primeiros annos do periodo ogival, os contrafortes dos edificios de abobadas foram demasiadamente engrossados e tiveram bases bastante salientes; á proporção que se elevavam assim, iam diminuindo consideravelmente por grandes resaltos successivos sobre cada uma das faces.

No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares, erguem-se quasi verticalmente da base á extremidade superior, e não apresentam já por cima do envasamento um ou dois resaltos bastante pequenos e sómente sobre a face principal.

Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter até á cornija, e muitas vezes era de fórma abahulada, quando ficavam isolados ou excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes limitavam-se algumas vezes a pôr pinaculos, e ornavam as suas faces lisas de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.

No XIV seculo a fórma dos contrafortes ficou quasi a mesma que durante a ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua extremidade, como d'antes, quer em pinaculos e fórma abahulada, quer ficando os pinaculos assentes sobre base quadrada ou octogona, terminando por agulhas pyramidaes, cujas arestas estão ornadas de cróchets.

Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos dois seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em distancia, diminuição de grossura pouco apparente sobre a sua face anterior, e são ornados de arcaduras, nichos e doceis, ornamentação no gosto da época. Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a modificar algumas vezes a sua disposição; regularmente deixaram subsistir a base quadrada ou rectangular, tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes perpendiculares com o liso da parede; porém, a certa distancia acima do solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face anterior, parallela á parede, passa a ser angular; mesmo ás vezes se vêem contrafortes cuja face anterior fica angular á parede desde a base do edificio. Estes contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um plano inclinado, platafórma ou espigão de feitio abahulado, ou por um pinaculo bastante ornado.

No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de intersecção de paredes que se encontram em angulo recto, são sempre em numero de dois. No XV seculo, julgavam ás vezes ser sufficiente um unico contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta época.

Por causa do excessivo esforço lateral que produzem sobre os seus pontos de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de contrafortes com base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros annos do periodo ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas faces inteiramente livres, apresentam saliencias grandes sobre as paredes exteriores dos edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco tempo aos constructores, que cogitaram em as diminuir ou fazel-as desapparecer inteiramente disfarçando os contrafortes. Para esse fim recuáram até á parede mestra a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na parte interna do monumento o espaço de um rectangulo que communicava com a extremidade da nave lateral e servia ás vezes de capella.

Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples fôrro do tecto, de madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o liso das paredes.

Gargulas

. Dá-se o nome de

gargulas

aos canaes salientes pelos quaes as aguas da chuva sáem dos telhados e são lançadas longe da base das paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configuração de animaes monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na capella mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura humana revirada, isto é, em posição dobrada, com a cabeça para o lado do telhado e a parte trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo anus que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura de mulher na mesma attitude, saindo aos canaes salientes pelos quaes as aguas da chuva sáem dos telhados e são lançadas longe da base das paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configuração de animaes monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na capella mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura humana revirada, isto é, em posição dobrada, com a cabeça para o lado do telhado e a parte trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo anus que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva pelo que distingue o seu sexo. Eram de proporções curtas e solidas no principio da sua applicação; vieram a ser mais compridas e com melhores fórmas desde o final do XIII seculo.

Nichos e doceis

. Dá-se o nome de

nicho

a qualquer espaço aberto, mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar ou contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, ou qualquer objecto de decoração. Os nichos apparecem poucas vezes nos monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa época as estatuas, com as quaes ornavam ás vezes certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas salientes, tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.

No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vêem-se bastantes vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos contrafortes e nos tympanos dos portaes.

Os doceis, isto é, os remates salientes, mais ou menos ornamentados de esculpturas, ficando collocados por cima da cabeça das estatuas, são muito geraes desde o final do periodo roman. No XII e no XIII seculos, esses doceis primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas, e mesmo algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. Não havia ainda n'esta época, por cima, pinaculos ou pyramides delgadas, posto que em certas partes do centro da França, as tiveram desde o meiado do XIII seculo, sendo terminadas por

clochetons

. As fórmas architectonicas dos edificios representadas pelos doceis são muitas vezes anteriores á época em que foram esculpidos; é por isso que no XIII seculo apparecem n'elles zimborios, arcos de volta inteira, etc., que todavia não se vêem já nos monumentos contemporaneos.

No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de arcaduras com ornamentação e com outros detalhes imitados da architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, muitas vezes vasados.

No XV seculo, apresentam quasi as mesmas fórmas que no seculo precedente, porém exaggeradas; sendo os doceis contornados demasiadamente, e a sua ornamentação feita com muita delicadeza.

Madeiramentos

. Distinguem-se, nos edificios do periodo ogival, duas especies principaes de madeiramentos: os que não ficavam apparentes, porque não revestiam as construcções abobadadas, e os apparentes que se empregavam nos edificios que não tivessem abobadas, sendo estes que interessam sobretudo os archeologos.

Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto é, visiveis no interior do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de fórma de berço. Este berço é algumas vezes semi-cylindrico, semelhante aos que se encontram em algumas egrejas romans; as mais das vezes, todavia, são traçados por tres centros.

Ripas

de carvalho, ou de qualquer outra especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, são pregadas sobre as

cambotas

, circulares ou ogivaes, formadas pelas asnas e

varedo

. Tendo pinturas por decoração, e algumas vezes as extremidades das peças de madeira ficam visiveis, tendo esculpturas, que representam anjos com escudos ou phylacterias, cabeças de gente, figuras de cocoras com carranca, ou animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as

franquias

ficam parallelas ás nervuras das

asnas

, porém sendo mais estreitas, estão pregadas sobre o varedo e sustentam no seu logar as ripas. Estas nervuras são cobertas com vivas côres ou com elegantes entrelaçados.

Algumas vezes tambem são assentes sobre as ripas, as nervuras que se encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as ogivas das abobadas de cantaria.

As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham não lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, serviam-se do madeiramento apparente, que se ornava tão artisticamente quanto fosse possivel. Nunca se empregavam pueris dissimulações, fingimentos architecturaes, onde as

ripas

appareciam a imitar a cantaria com a capa desprezivel de gesso ou de argamassa! Não se esquecia n'esta época, que a verdade é a condição essencial da existencia da arte; esta deve engrandecer o espirito, encantar a vista, e não enganal-a.

Telhados

. No meiado do XII seculo, os telhados teem grandes inclinações nos edificios da Europa Central e Septentrional; emquanto nos paizes meridionaes conservam pequena correnteza, como se praticava nos telhados da antiguidade e no periodo roman.

Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. Ás grandes cathedraes e aos edificios mais importantes punham chapas de chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem alterar a sua superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a temperatura.

Cumieira e cimeira.

Dá-se o nome de

cumieira

ao remate do espigão de um edificio. Durante o periodo ogival este remate era de metal (quasi sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. As

cimeiras

são telhas que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.

O maior numero dos grandes monumentos da edade média tinham d'antes por remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, imitando quasi sempre folhagens. Infelizmente são poucos os edificios do XIII e XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De todas as cumieiras de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em uso n'essa época) não ha já vestigios: a oxydação do metal e muitas outras causas de destruição as teem feito desapparecer.

Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como, por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se de uma continuação de cimeiras de barro de cozedura, mais ou menos ornado. Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas cumieiras para se tornarem menos permeaveis á humidade.

Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no meio dia de França. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um grande numero de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes escaparam á sua destruição. As mais antigas apresentam enlaçamentos e figuras geometricas; as que pertencem ao XIV e XV seculos são compostas de ornamentação com remate de folhagens, como ha na egreja de Belem.

Torres e campanarios

. Do mesmo modo que no periodo roman os campanarios da época ogival são compostos de dois ou mais andares sobrepostos. A separação dos differentes andares é indicada, no exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma pequena diminuição de grossura do andar superior sobre o inferior. Estes andares não teem já, como precedentemente, a mesma altura: são baixos ou altos, conforme as disposições internas dos campanarios. O rez-do-chão das torres é geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no segundo andar, e as mais das vezes sómente no principio da flecha o plano vem a ser octogono. Os espaços triangulares, que ficam livres nos angulos do quadrado, pela passagem da fórma de quadrado para octogono, apresentam quasi sempre quatro pinaculos ou clochetões.

As frentes das torres teem aberturas nos differentes andares, janellas estreitas ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas ou reunidas em tres vãos.

Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por flechas construidas de madeira ou de cantaria, com muita elevação, tendo a fórma de uma pyramide com oito lados eguaes. Já no XIII seculo, as arestas das flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do octogono estão por vezes ornados, de distancia em distancia, por crochets vegetaes; no XIV seculo, principia-se a vasar os lados das flechas fazendo-se pequenas aberturas do feitio de flor de trevo, ou quatro folhas e com florão. No XV seculo, essas ornamentações são substituidas por feitios de chammas e por outras figuras geometricas vasadas. No final do XV seculo e no principio do seculo seguinte, construiram-se, em muita parte, os campanarios com flechas rendilhadas.

Muitos campanarios mais importantes, de grandes proporções, ficaram por concluir desde a base da flecha projectada, e ás vezes ainda mais abaixo. Algumas vezes tambem, as flechas da primitiva construcção, depois de terem sido destruidas por uma tempestade ou incendio causado pelo raio, foram substituidas por corpos simples ou remates hybridos, que não teem nada de commum com as lindas pyramides da época ogival.

No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes.

A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito é agradavel e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca resistencia dos meios empregados para a execução. Estes campanarios, sem nenhum ornato, compunham-se de dois andares quadrados, dos quaes o superior só tinha as quatro frentes com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo para sair o som do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.

Os constructores da edade média comprehendiam que, sobretudo nos edificios de menor importancia, as combinações geraes mais simples eram as unicas mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.

Em Flandres maritima tem-se conservado até ao presente um grande numero de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, dignos de chamar a attenção dos archeologos e dos architectos; encontram-se alguns muito bellos até nas modestas freguezias do campo. Estes campanarios, construidos com tijolos, como todas as outras partes dos edificios d'este paiz, são geralmente terminados por uma flecha octogona tambem de tijolos, muitas vezes tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as arestas da flecha e dos pinaculos são quasi sempre decoradas de crochets egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos são cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. Uma outra particularidade que apresentam alguns campanarios de Flandres maritima, é inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppõe ser um facto intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os ventos d'este quadrante que sopram com extrema violencia á beira mar.

Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem um campanario collocado quer na extremidade da capella mór, quer em um dos dois angulos formados pela intersecção da capella mór e o cruzeiro. Esta disposição é bastante geral nas egrejas ruraes na Baviera e na Austria. As abbadias preferiam esta collocação afim de que os frades incumbidos de darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas não fossem obrigados a afastar-se da egreja.

Os constructores romans construíam muitas vezes um campanario no logar da intersecção da nave e do cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia, estes campanarios centraes conservam-se durante o periodo ogival; por toda parte, fóra d'isso, são raros desde o XIII seculo, e muitas vezes foram substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica, encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, porém de resumida dimensão, nos edificios do periodo de transição.

As

escadas dos campanarios

e tambem as que servem em outras partes dos monumentos para subirem aos madeiramentos, são geralmente de caracol com centro cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no exterior do edificio nos angulos formados pela saliencia dos contrafortes, nunca são dissimuladas, mas visiveis, facilitando as seteiras que estão abertas darem luz á escada.

Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre

cruzes de ferro batido

no cimo das flechas dos campanarios, na extremidade do espigão do côro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os espigões do cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente por uma composição de bastante trabalho. As cruzes dos campanarios são quasi sempre encimadas por um gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno encontrava-se sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos apenas. O gallo collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos prégadores; pois o gallo vela durante a noite escura e assignala as horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e annuncia a aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a si mesmo a cantar, dando ás azas.

Pavimentos

. Os pavimentos romans eram compostos com mosaicos. Nos paizes meridionaes esses mosaicos foram formados de marmores differentes. Tanto em França como na Belgica, Allemanha, Inglaterra e Portugal, eram compostos de ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e com embutido egualmente de côres diversas. Os ladrilhos e os lagedos gravados continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios ogivaes na Europa Occidental e Septentrional.

Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos. Poucas vezes o chão todo das egrejas estava coberto por bellos mosaicos; em geral, não se adoptou este genero de decoração senão para a capella mór e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, onde todas as pessoas são admittidas indistinctamente, o roçar do calçado em pouco tempo teria destruido o verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.

Como já explicámos, o amarello e o verde-escuro são as côres preferidas no final do periodo roman, nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste da Europa. No XIII seculo, substituiu-se muitas vezes a côr verde-escura, o encarnado e o avermelhado escuro, empregando-se o amarello para os embutidos. As côres carregadas e escuras deixaram de ser usadas nos pavimentos.

Os ladrilhos esmaltados são geralmente de pequenas dimensões, como havia no cruzeiro da egreja monumental do convento de Alcobaça, cujos ladrilhos estão agora

escondidos por baixo de simples lagedo

, na profundidade de

0

m

,34 centimetros

!

Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um só ladrilho, ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de ladrilhos reunidos, formam regularmente figuras geometricas, brazões, florões, animaes existentes ou phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com duas cabeças, é o que mais frequentemente se vê.

No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em pé foram algumas vezes representadas pela reunião de um certo numero de ladrilhos pintados. Estas effigies de personagens eram muitas vezes acompanhadas de letreiros, empregados nas campas de cantaria.

Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi o mesmo caracter precedente, mas são menos vistosos e não teem o vigor das côres e o desenvolvimento que apresentavam os do XIII seculo. No XIV seculo, as ornamentações são muitas vezes substituidas por firmas, letras, inscripções, escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo apparecem os tons verdes e azues-claros.

Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes côres, sem nenhum ornato.

Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados, apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos são muito raros, porque não se podiam fazer senão com barro muito rijo, para que os relevos não ficassem em pouco tempo gastos.

Lages gravadas e com embutidos

. Desde o XII seculo, empregaram-se algumas vezes, para cobrir o chão das egrejas, lages de pedra e de marmore gravadas e com embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados em parte pelos espaços conservados da propria lage, ou por um betume colorido que enchia as cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este genero não foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua destruição! Um dos mais bellos e mais completos é o que ornava a capella mór da cathedral de

Saint-Omer

(França), e do qual bastantes fragmentos se têem conservado até ao presente. Os fundos dos arabescos são de côr castanho-escuro, assim como a inscripção; os traços do contorno das personagens e do cavallo são a encarnado, assim como está representado em gravura o nobre cavalheiro, no meio d'essa composição, que é do meiado do XIII seculo.

Labyrinthos

. Na antiguidade pagã designavam-se com o nome de

labyrinthos

, as galerias subterraneas ou os edificios construidos em cima do solo, com ramificações em grande numero e complicadas. Todos sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a mythologia, o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade média o nome de labyrintho foi dado a uma disposição particular que se vê no pavimento de algumas egrejas dos periodos Latino, Roman e Ogival. A disposição, divisão e côr das lages, formam, pelas suas combinações, linhas sinuosas com bastantes voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os Gregos representavam já, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas habitações. Os labyrinthos que existem desde os primeiros seculos nas egrejas christãs, por exemplo, na de S. João Vidal de Ravana (Italia), que é do VI seculo, acharam, sem nenhuma duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios pagãos. A presença da figura de Theseo combatendo o Minotauro, que se vê no centro dos labyrinthos de alguns monumentos christãos, como em Pavia e em Luca, dão uma prova evidente d'esta affirmação. Os christãos introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma significação symbolica. Seria comtudo difficil, por não dizer impossivel, determinar de uma maneira irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas egrejas christãs.

Na edade média, parece ter-se reputado os labyrinthos como emblema da viagem á terra Santa, ou, segundo outras opiniões, o transito doloroso de Jesus Christo desde a casa de Pilatos até ao Calvario. Indulgencias eram concedidas ás pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as orações prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca eram tambem designados com o nome de

dedalo

,

meandro

,

caminhos de Jerusalem

.

A fórma dos labyrinthos não é sempre a mesma, O de

Chartres

é circular; o de

Saint-Quentin

, octogono; taes eram tambem os de

Arrhas

,

Amiens

e

Reims

. Na egreja de

Saint-Bertin

em

Saint-Omer

, tinha a fórma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e aos angulos do labyrintho, pedras com inscripção lembrando algum facto relativo á construcção do edificio. Em

Amiens

, por exemplo, a pedra central representava os architectos da egreja e o bispo

Évrard

, seu fundador, com os nomes dos personagens e a época da construcção, gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede.

Pinturas das paredes

. Já descrevemos os caracteres da pintura mural na época roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.

Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do estylo ogival, da sua decoração esculpida e do seu systema de construcção, comprehenderá facilmente que uma modificação notavel motivou tambem o colorido da decoração. Com effeito, nas construcções ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o espaço para aberturas de janellas; os membros da architectura multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem custo a sua fórma e os seus fins, desde a base da columna até ao fecho da abobada que reune as nervuras da abobada. Além d'isso, as superficies das paredes, que não foi possivel supprimir, ficavam com esses espaços divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series de arcaduras estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentações esculpidas, diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espaço de união, modificaram a seu modo as condições da pintura, dando-lhe caracteres novos.

O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto grandioso que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraças pintadas eram quasi todas as preoccupações do constructor do periodo ogival. Era ali, em certo modo, que devia apparecer o effeito da decoração. Os progressos da arte da pintura sobre o vidro corresponderam então ás exigencias que esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada do pintor vidraceiro impôz á coloração adoptada pelo pintor ornatista uma harmonia e combinações novas. Por outras palavras, a pintura historica e legendaria, não tendo mais do que um espaço limitado e parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram, onde apparecem, ainda umas proporções acanhadissimas. A intensidade da coloração das vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia, maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi essa a unica consequencia do emprego das vidraças excessivamente coloridas: a luz não entrando já no interior da massa vitrea a qual atravessava como peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois a attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas com as da pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que as vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes. D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de côres vivas sem ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realçado, ás vezes, por tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos elementos decorativos e desenho dos detalhes.

Não é pois para estranhar que as

pinturas historicas e legendarias

tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo dos peitorís das janellas inferiores, são muitas vezes as unicas superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse espaço é muito limitado e regularmente dividido em pequenos compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas representam muitas vezes personagens isolados.

A influencia das tradições byzantinas sobre a arte occidental é manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII seculo se observa no

desenho

uma tendencia a abandonar os typos byzantinos, não foi senão nos seculos seguintes que o caracter das pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se observa uma transformação cada vez mais visivel no que respeita ao estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeças mais individual, a expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as situações. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o começo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes.

Na

colorisação

succederam, tanto como no desenho, transformações successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto é geralmente suave.

No XIII seculo, a colorisação teve, na

pintura decorativa

, as mesmas transformações que na pintura historica e legendaria. Nos edificios romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraçadas as mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porém, quando, no XIII seculo, os vãos das janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela intensidade da colorisação das novas vidraças. O azul e o encarnado, entrando com maior emprego na composição das vidraças pintadas, davam um aspecto turvo aos tons claros e terreos ás pinturas: os verdes, por exemplo, ficavam pardos e baços; os brancos, e em geral todos os tons claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso necessariamente mudar a gamma de colorisação das pinturas muraes, fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com vivas côres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas servindo-se de côres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante todo o tempo do periodo ogival.

No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de decoração por baixo dos peitorís das janellas inferiores, muitas vezes representavam pannos de armações. No XV seculo, viam-se bastantes vezes sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma egreja de Bruxellas.

Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripções da regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de pintura de decoração muito simples, consistindo na imitação das pedras de construcção: traçavam-se sobre fundo mais ou menos claro traços de côres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos, representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com ornamentação.

Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de decoração da idade media não se servia da perspectiva; nem conservava nos monumentos as paredes lisas e opacas, não procurando affastal-as, por assim dizer, do espectador pela illusão da perspectiva linear e aerea. São principalmente as pinturas representando as formas architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram não ter o artista nenhuma intenção de disfarçar a ornamentação em relevo; o que elle pretende é sómente um effeito de decoração, não pensa por nenhum modo em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo, apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos monumentos.

Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as suas pinturas bastante completas para se poder formar uma idéa cabal do systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela esplendida decoração, e além d'isso pela sua restauração tão habil quanto perfeita, é a da Capella Santa de Paris.

A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da decoração pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos têem conservado até ao presente bastantes vestigios de dourados e polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraças pintadas e as pinturas a fresco das paredes.

A decadencia da pintura monumental, decoração historica e legendaria, data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas não vão além do XVI seculo.

Cruz de consagração

. O Pontifical romano prescreve que, para a dedicação de uma egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que geralmente eram pintadas. As cruzes de consagração datam do periodo roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no oratorio carlovingiano de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da epocha ogival debaixo de grossas

camadas de cal

na parte interna das egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasião do renascimento. Todas são executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas.

Acontece ás vezes que as doze cruzes de consagração do XIII e XIV seculos são sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em esculptura.

Altares, tabernaculos, piscinas cadeiras do côro, bancos para os celebrantes, tribunas e separações da capella-mór

Altares

. Como já explicámos, o altar verdadeiramente designado é uma mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o altar não existe; ella e só ella, forma, todo o altar. Esta mesa é de pedra, porque o altar é a imagem e o symbolo de Jesus Christo em pessoa. Portanto, durante os oito primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz, pela veneração por este famoso symbolismo, que o altar ficasse inteiramente independente; prohibiu severamente que n'elle se pozesse o mais simples objecto, salvo o livro dos Evangelhos, a custodia eucharistica com as divinas hostias. No correr do IX, o Papa Leão IV permittiu que se collocassem reliquarios contendo reliquias de santos. Quando o altar é formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar muitas vezes durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram cobertos com laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou ornados de esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos preciosos.

Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, entre as quaes se suspendia, sobre varões, pannos cortinas, que se corriam durante certas partes da missa afim de occultar os sacerdotes da vista dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se tambem o uso dos

retabulos

.

Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de maneira a não obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime do altar.

Explicaremos successivamente, o

altar

com

a sua verdadeira fórma

, os

frontaes

dos altares,

baldaquino

, os

cortinados

e os

retabulos

do periodo ogival.

O altar assim designado

. Como os do periodo roman, os altares da epoca ogival compunham-se as mais das vezes de um simples macisso de alvenaria, apresentando regularmente uma especie de ornamentação pintada ou esculpida. Estes macissos estavam rodeados de tapeçarias cujas côres mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, porém poucas, se decoravam os lados nús d'estes altares com arcaduras fingidas, cujos arcos assentavam sobre columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as arcaduras tinham pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e baixos relevos.

Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos traçados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas ou postas a pár, e no XVI por arcos abatidos ou de volta inteira.

Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira. Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: não havia então as

pedras aras

, bentas, que se podiam assentar depois na meza de um altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.

O altar mór das egrejas cathedraes, conservou durante quasi todo o periodo ogival, uma fórma simples e positivamente symbolica. Em geral ou era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um retabulo de pouca altura. Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, dois castiçaes, e ás vezes um tabernaculo para a conservação da Eucharistia. Outra maneira de reservar o Santissimo Sacramento usada em certos paizes pelo menos desde o XIII seculo, foi aquella cuja recordação se conservou n'um curioso quadro do XIII seculo, representando o altar mór da antiga cathedral d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura, tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de uma corrente, e a custodia eucharistica é formada com o feitio de torrinha.

Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mór, por detraz do altar proximo do abside oriental da egreja.

Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de modo a deixar passar as pessoas por baixo; ás vezes tinham um docel.

Frontaes

. São cortinados de seda que cobrem tambem os lados verticaes de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa ainda hoje em muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de

antependium

. Na idade media quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram cobertos com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de ouro, prata e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira cobertas de pinturas.

Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e Roman, vieram a ser mais raros a começar do final do XII seculo, e pouco a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante a epocha ogival, os frontaes com estofo fôram, por assim dizer, os unicos empregados. A sua côr condizia com as vestimentas lithurgicas e mudava, por conseguinte, conforme os dias festivos. Havia de linho, seda e mesmo de veludo; os mais sumptuosos eram todos bordados e ornados de pedras preciosas. Representavam figuras de Santos e assumptos historicos e legendarios.

Baldaquino

. O uso do baldaquino cobrindo o altar em signal de veneração, foi bastante geral até ao XII seculo; mas ficou quasi abandonado na Belgica e França durante o periodo ogival; na Europa Occidental e Septentrional não se serviram mais do baldaquino n'esta epocha, como summidade dos reliquarios.

Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve principio, vê-se ainda um grande numero de baldaquinos da epocha ogival. Os mais notaveis são os de S. Paulo fóra dos muros, os de S. João, de Santa Maria no Trastever, Santa Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.

Na França e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do baldaquino, suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado com estofo de custo.

O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para inspirar aos fieis o respeito e a veneração devida ao altar, symbolo do Salvador. Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o retabulo, preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se confundir com elle, e conservando-lhe assim toda a sua significação symbolica. O retabulo, pelo contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte d'elle, desvia a attenção das pessoas para o accessorio com grande perda do objecto principal, que é o altar apropriadamente assim chamado.

Cortinas

. Chamam-se cortinas a armação suspensa nos dois lados do altar, e por detraz do retabulo quando fôr pouco alto. Essas cortinas, da mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos bordados, ornamentação, figuras e objectos religiosos.

Ficavam estas cortinas prezas por varões apoiados muitas vezes em quatro ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas de figuras de anjos, tendo na mão luzes ou differentes instrumentos da paixão. A côr das cortinas mudava conforme os dias de festa e as differentes occasiões do anno lithurgico.

Além das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a idade media, de duas outras especies de armação lithurgica. Eram: 1.º a grande cortina que se suspendia durante a quaresma na entrada da capella-mór ou do presbyterio, e que se designava

o véo do templo

; 2.º os véos que serviam na mesma occasião nos crucifixos, retabulos e imagens, eram designados pelo nome

véos de quaresma

.

Retabulos

. Como já indicámos, o uso dos retabulos foi introduzido no final do XI seculo. No começo collocavam-os sobre os altares das reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados á tribuna ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a capella-mór. Nas egrejas matrizes, collegiaes e monasticas de primeira ordem, o altar-mór ficava quasi sempre sem ter retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em França, Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes septentrionaes da Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira do bispo ou do abbade e as cadeiras do côro dos conegos ou dos frades, que até então ficavam por detraz do altar-mór ao correr da parede do hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario sobre os dois lados do côro, isto é, para o logar onde se vê presentemente nas egrejas do Norte.

Durante o periodo ogival serviram-se de diversa qualidade de materiaes para os retabulos. O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo roman a cantaria (excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde a ultima metade do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem sido preferidos. No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira com obra de talha foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram quasi completamenle os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, já n'essa epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em fórma de

trypticos

, que, no meiado do XVI seculo supplantaram, para assim dizer, totalmente, os retabulos com obra de talha.

As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo, tiveram no principio ornamentação de esculptura na face interior, e pinturas na exterior. Porém o peso das portas com ornatos compostos de estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito difficil, e mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou fechar o retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para decoração d'essas duas frentes das portas.

Os retabulos não apresentavam a mesma

fórma

durante todo o periodo ogival. Quasi sempre com pouca altura no começo, tendo tambem pouca grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas vezes comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima fórma, principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se em alguns paizes, até o meiado do XV seculo.

O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio, tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos retabulos pintados tendo portas, o nome de

tryptycos

ou

polyptycos

, conforme tinham tres ou maior numero d'esses appendices.

Na Belgica, França, Inglaterra no XV seculo, e na Europa central e meridional já durante o seculo precedente, os retabulos perderam a bella e elegante simplicidade que os distinguiam antes. Os seus contornos e subdivisões se complicam cada vez mais, á proporção que se aproximam do final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos dos retabulos do XV seculo passam depois por transições com mistura de linhas rectas e curvas para chegar por fim ás ogivas de requebro, arcos unidos de volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero que ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e florões; chegando mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas e enlaçamentos do feitio de firmas.

Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos triptycos pintados. Os moldurados d'este u Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo seculo apresentam sempre maior simplicidade que os dos retabulos com obra de talha.

Os assumptos representados sobre os retabulos

, eram tirados da historia do antigo e novo testamento ou das lendas dos santos. No XII seculo e no XIII, ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer de estatuasinhas collocadas em arcaduras; um medalhão central de forma quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o arco-iris. No XV seculo, as arcaduras não apparecem senão poucas vezes; quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo esta dividido em muitas series verticaes e horizontaes com as divisões cheias de baixos relevos sobrepostos uns aos outros. A representação da cruxificação com a Virgem Nossa Senhora e S. José, com os dois ladrões e grupos de personagens, occupa bastantes vezes o compartimento central, commummente mais alto e por vezes tambem mais largo que os compartimentos inferiores.

Os retabulos estavam cobertos, em certas occasiões, por frontaes similhantes aos dos altares. Muitos

retabulos pintados

do periodo ogival se têem conservado até ao presente. Arrancados quasi todos ao logar que occupavam primitivamente detraz dos altares, apparecem agora como paineis nos museus de pinturas ou estão dependurados nas paredes internas das egrejas.

As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do principio do XVI seculo, não são como os antigos retabulos em forma de triptyco.

Os retabulos esculpidos

foram usados simultaneamente com os retabulos pintados. Os que se fizeram na Belgica durante o XV seculo e os primeiros annos do XVI seculo compunham-se quasi sempre de um certo numero de grupos com mais ou menos alto relevo, em caixilhos ou collocados debaixo de docel delicadamente recortado; os dos outros paizes, pelo contrario, e particularmente os da Europa Oriental, compõem-se de estatuas perfiladas no compartimento central, e muitas vezes tambem sobre as portas. Ainda que entre os retabulos belgas do ultimo seculo do periodo ogival apparecem alguns de execução grosseira e sem nenhum merito, quasi todos, todavia apresentam bastante apreço artistico e testemunham o estado florescente da esculptura n'esse periodo.

Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados de côres. Convém advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem frequentemente sobre os bordados das vestimentas dos personagens, não apresentam commummente nenhuma significação, tendo sido ahi collocadas unicamente com o fim decorativo.

No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um sóco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se liga ao altar.

Esta base se designa

predella

, nome que se dá egualmente aos degrausinhos para os castiçaes do throno dos altares modernos. O lado superior, que corresponde á base do retabulo, é muitas vezes mais comprido que o lado interior; n'este caso a differença de tamanho é disfarçada por um arco de circulo saliente.

A

predella

(banqueta) é muitas vezes ornada do busto do Redemptor e dos doze apostolos.

Das observações precedentes resulta que, não obstante as dimensões por vezes exageradas, o retabulo parte inteiramente accessoria, conservou até aos fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte dos artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo ogival não se preoccupam de forma alguma com o primitivo destino do retabulo, a que dão impropriamente o nome de altar. Desconhecendo a verdadeira significação do retabulo, substituem-lhe tablados ridiculos, muitas vezes de

madeira

, com côr de

pedra!!!

compostos de socos, arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os baixos relevos são inteiramente supprimidos ou estão mesquinhamente representados. Muitas vezes estes symbolos, estas imagens, e estes assumptos são executados apesar das regras da iconographia christã, regras das quaes os architectos, esculptores e pintores

não teem geralmente o incommodo de adquirir as noções as mais elementares

! É tambem para lastimar, que nas restaurações das antigas egrejas, não encarreguem os retabulos

triptycos

ao talento dos pinto ao talento dos pintores que se occupam de trabalhos religiosos.

Sacrarios

. Durante quasi todo o periodo ogival não se reservava, depois da celebração da missa, senão a quantidade de hostias consagradas e necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e para expor o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis.

Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar, approximavam-se da mesa da communhão durante a missa, e recebiam

uma parte das sacramentaes

que o padre acabava de consagrar. Não se deve, pois, estranhar que os vasos sagrados destinados á veneração da Santa Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas dimensões durante o XIII e o XIV seculos.

Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:

1.º Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se manteve em uso durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se fazia precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.

2.º Em França e na Belgica e nos paizes septentrionaes da Europa serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da maneira indicada na

pag. 272

. As hostias encerradas em uma pyxide ou dentro de uma pomba dourada e esmaltada, ficavam collocadas n'uma pequena torre ou pequena tenda (

tabernaculum

) em estofos custozos, que se suspendiam, por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de prata.

3.º Algumas vezes conservam-se as hostias em cofres de forma de arca, relicario ou torre. Estes cofres eram transportados e depositados no sacrario, ou sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.

4.º No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de segunda e terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.

5.º No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva Eucharistica, tabernaculos de fórma de torre, inteiramente isolados e ao lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a ser communs na Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se muitos n'este ultimo paiz que são do XIV seculo.

O maior numero dos tabernaculos com a fórma de torre são de pedra; encontram-se não obstante, mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de metal.

Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na parede um armario imitando a fórma de tabernaculo, porém mais pequeno e muito menos ornado.

Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos que deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas que guarnecem os lados da capella-mór ou da nave.

Piscinas

. O uso das piscinas ou pias abertas na parede do lado da Epistola, que havia durante o periodo roman, foi conservado tambem na epocha ogival.

No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram

geminadas

, isto é compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma bica, quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fóra do pavimento do edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as aguas de uso, a outra, as oblações das mãos do sacerdote e mesmo as do calix; porque, ainda n'esta epocha, as oblações do calix eram lançadas nas piscinas, e não bebidas pelo padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas

simples

, isto é tendo um unico orificio para sahir a agua.

As piscinas gemeas fingem geralmente a fórma de um duplo nicho, separado por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas de arcaduras fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina occupa duas arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a columnasinha posta entre as duas arcaduras forma a divisão dos dois nichos da piscina.

As piscinas do XIV seculo não differem muito das outras do seculo precedente senão pelo genero da ornamentação architectonica e esculptura, que harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes são gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde então, a agua de que se serve para fazer a oblação do calix.

No XV, e mesmo já no final do XIV seculo, as piscinas tornaram-se raras e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para desapparecerem completamente.

Cadeiras de côro

. Estas cadeiras collocadas no côro das egrejas eram destinadas ás dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de pedra; porém desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de madeira.

As cadeiras de madeira compõem-se de differentes partes, tendo cada uma um nome para a designar.

As separações de duas cadeiras são formadas por curvas elegantes com ornamentação de obra de talha na sua parte superior, que lhes dão graça e belleza. Os

arrimos

são apoios horisontaes que limitam as cadeiras na parte superior; geralmente esta parte tem bastante largura com fórma inclinada, podendo as pessoas de pé encostarem-se facilmente.

Alguns auctores dão impropriamente o nome de encosto á

rampa curva

da divisão da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, quando se está sentado. A taboa movediça servindo de assento gira sobre gonzos ou eixos, e póde-se abaixar e levantar como se quizer. Tem, por baixo uma misula que se chama

misericordia

ou

paciencia

, sobre a qual se póde sentar,

fingindo estar a pessoa de pé

, quando a taboa que pertence ao assento está levantada.

No côro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas cadeiras ficam collocadas á direita ou esquerda do fundo do côro em duplo renque e altura: cadeiras altas para os conegos e religiosos, cadeiras mais baixas para os ecclesiasticos de cathegoria inferior ou de congregação. O piso das cadeiras superiores fica alto com dois ou mais degraus acima do chão; em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre um unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que as debaixo vêr o altar. As costas das cadeiras do primeiro renque ficam muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que estiverem nas cadeiras superiores; as costas d'estas são muitas vezes inteiramente semilhantes das cadeiras baixas, outras teem por cima obra de madeira bastante alta e limitada por um remate em sacada com a fórma de um docel. As pessoas que occupam as cadeiras baixas se ajoelham sobre o chão com o rosto virado para as costas de suas cadeiras. De distancia em distancia a fila das cadeiras baixas fica interrompida pela suppressão de uma cadeira para dar passagem aos que vão assentar-se nas cadeiras mais altas; estas aberturas chamam-se

entradas

. Encontram-se tambem cadeiras com genuflexorios.

As cadeiras do côro do XIII seculo são notaveis tanto pela sua singeleza como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, uma na parte inferior e outra na parte superior, ornam quasi sempre os lados de cada divisão d'estas cadeiras. As mais sumptuosas têem além d'isso, esculpturas sobre as

misericordias

e nos remates, que no quarto de circulo. E reunem ás columnasinhas servindo de apoio aos braços das cadeiras. Estas ornamentações constam de folhagens, fructos e algumas vezes de figuras de animaes reaes ou phantasticos.

As cadeiras do côro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio que as do XIII seculo; só com a differença de maior ostentação na obra de talha.

Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princípio do XIV seculo, estas cadeiras não tinham costas. Quando as apresentavam eram com uma almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado similhante a um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas esculpturas. No XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais apparatoso; cada vez mais saliente, descança sobre reprezas, acabando em forma de curvatura. Nos dias de grandes festas, suspendiam-se em frente, no cimo do encosto, sedas de côres, bordados e pannos de raz.

Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do côro, mesmo quando não tenham alto encosto, cobrem-se de diversas esculpturas, representando estatuasinhas, animaes reaes ou phantasticos, e uma decoração vegetal muito vistosa.

As cadeiras do côro do XV seculo distinguem-se geralmente das precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. São cheias de bastante decoração e executadas com mais primor e delicadeza que nos seculos XIII e XIV. Os seus altos encostos compõem-se quasi sempre de baixo relevos dentro de arcaduras com redentes feitos delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que um pinaculo vasado muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos das costas representam assumptos tirados da Biblia, da historia ecclesiastica ou da legenda; successos da vida de Jesus Christo ou de Nossa Senhora são representados quasi sempre. As esculpturas dos lados internos das cadeiras e das misericordias apresentam muitas vezes figuras com carantonhas, animaes reaes ou phantasticos, symbolisando os vicios. Poucas vezes as esculpturas das cadeiras representam santos ou assumptos religiosos.

Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do côro do XV e XVI seculos.

Em França, as mais notaveis são as da cathedral d'Amiens (XV seculo), e d'Auch (principio do XVI seculo), e na Allemanha, as da cathedral d'Ulm, com esculpturas de Jorge Syrlino de 1474 a 1476; em Portugal as da Sé Velha de Coimbra.

Bancos e docéis dos celebrantes

. O banco dos officiantes era destinado para o celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta o

Gloria

,

Credo

, e

Dies irae

; servia ao mesmo fim as poltronas que é costume collocar presentemente no côro proximo dos degraus do altar. Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de primeira e segunda ordem, estavam regularmente no

presbyterium

, do lado da Epistola defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa analogia com as cadeiras do côro. Conforme as prescripções lithurgicas, distinguia-se por uma grande simplicidade; eram lisos e sem subdivisões. Algumas vezes, todavia, se compunha de tres cadeiras mais ou menos similhantes ás do côro. Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel cheio de esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede do côro, quando este não tinha naves lateraes ou sustentado por columnas e de paredes mestras quando o côro estava rodeado de naves lateraes.

Jubes, Screens

[4]

e Cruzes triumphales

. Antigamente chamava-se

Jube

á tribuna (em latim

doxale

) especie de barreira com tres e mais arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o côro das naves; tinha por cima uma especie de galeria ou tribuna com

guarda-peito

, havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral, em cuja tribuna um abbade vinha lêr o Evangelho, depois de ter pronunciado a formula:

Jube, Domine, benedicere

.

D'ahi vem o nome

Jube

.

As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro de caixas rendilhadas com linda decoração.

Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo portas ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns paizes esta disposição primitiva; na Belgica, por exemplo, na França e em certas partes da Allemanha, a arcada central só ficou aberta com uma grade de pau ou de ferro servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes encostando-lhe altares.

Na primeira metade do XIII seculo, os

Jubes

eram raros. Foi sómente no final d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que se fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No XV e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais importantes. Alguns se teem conservado na Belgica até ao presente: o mais antigo é da era 1490.

O mais magestoso é o da cathedral de Milão.

Os

jubes

teem sempre proxima a

cruz triumphal

. Esta cruz, de grande dimensão, é geralmente de madeira e ornada de pinturas e dourados. Os seus quatro ramos com florões teem muitas vezes quadrilobos, nos quaes estavam do lado da nave os symbolos dos quatro evangelistas, e do lado do côro, os quatro doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio, S. Agostinho e S. Jeronymo. Ao pé da cruz estão as imagens de Nossa Senhora, e do apostolo S. João; a primeira á direita, e a segunda á esquerda.

Antes da introducção dos

jubes

a cruz triumphal estava igualmente suspensa por tres correntes no meio do arco chamado

triumphal

, que occupa a entrada da capella-mór.

Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo Latino e Roman uma

haste

(Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o côro e a parte reservada para o publico uma viga atravez do côro, sobre o qual se punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem durante a quaresma, servia para pôr o véu chamado

velum templi

.

Separações do côro

. A disposição dos antigos bancos da clerezia ao comprimento da parede absidal do côro, ja descripto, não foi conservada durante o periodo ogival, sendo em Italia e tambem em Portugal, onde continua ainda, assim como em algumas egrejas da Allemanha, principalmente nas cathedraes de Spire e de Mayence.

Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da

Europa central e occidental

tinham, como já referimos, transferido para o cruzeiro, os bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudança se introduziu pouco a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas mesmas regiões, principalmente depois da reunião das naves lateraes e capellas absides á roda da capella mór. Os bancos de pedra do periodo roman transformados em cadeiras do côro ou cadeiras de madeira, foram collocados diante do sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O côro ficou separado das naves lateraes pelas barreiras, as mais das vezes de cantaria, bastante alta, vedado por detraz com as cadeiras do côro collocadas entre as columnas da capella-mór. A roda do sanctuario propriamente chamado, ás vezes, recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que estivessem nas naves lateraes podessem vêr o altar, e outras vezes tambem substituiam as barreiras da porta circular da capella-mór por tumulos ou mausoléos. Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em alto relevo ornavam as partes lizas das separações tanto no exterior como no interior da capella-mór. Alguns monumentos, por exemplo as cathedraes de Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em parte, as suas antigas separações da capella-mór.

Pulpitos e confessionarios

Pulpitos

. Durante os primeiros seculos da era christã, as tribunas do alto onde se fazia a leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao mesmo tempo de pulpito.

Ao uso de prégar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um pulpito saliente que se conservou na Europa central e occidental até ao final do XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores ao meiado do XV seculo se encontram mui raras vezes. Foi sómente no começo d'esta epocha que se principiou a pôl-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte da Europa.

Os mais antigos pulpitos são quasi todos de pedra; no XV e XVI seculos fizeram-se egualmente de madeira.

O espaço dentro do pulpito, para o prégador, no periodo ogival é geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado reservado para a entrada n'elle; a decoração compõe-se de estatuas, baixos relevos, e algumas vezes tambem, de simples desenhos geometricos ou chammas. Vê-se com frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre quatro evangelistas ou os quatro doutores da egreja do Occidente, S. Gregorio, Santo Ambrosio, Santo Agostinho e S. Jeronymo.

Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel composição, que pertence á egreja de Santa Cruz de Coimbra, de que tirámos o modelo e figurou na exposição universal de Paris em 1867; depois o museu de Londres quiz compral-o, ao que nos oppozemos.

O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um macisso de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes, todavia, está assente sobre uma columnata ou sobre um pedunculo. Esta ultima maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo. Estes apoios eram ornados com esculpturas, muitas vezes muito intrincadas conforme o uso adoptado no final do periodo ogival. Na Allemanha haviam por vezes representado as figuras de Adão, Eva ou Moysés em alto relevo nas frentes do pulpito.

O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival, e mesmo não era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de uso geral no fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo têem geralmente a forma d'uma pyramide, d'um coruchéo ou d'um campanariosinho. Na Inglaterra vêem-se sobreceus sómente com uma simples guarnição. Esta ultima forma nos parece a melhor, pois não causa a desagradavel vista do remate de tanto vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos do periodo ogival.

Confessionarios

. Os confessionarios em que o confessor fica separado do penitente por uma rotula, foram desconhecidos durante o periodo ogival. N'essa epocha, o confessor collocava-se, para ouvir as confissões, em uma poltrona ou nas cadeiras do côro, e o penitente ajoelhava deante d'elle. A recordação d'esta maneira de se confessar foi conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.

Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula foram introduzidos na Belgica.

Capellas funereas, tumulos, campas, lanternas dos defunctos e cruz de cemiterio

Capellas funereas

. Estas capellas funereas eram construidas isoladas nos cemiterios durante o periodo ogival. São raras em quasi todos os paizes. Não ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em França vêem-se algumas nos cemiterios bretões, e existe uma muito notavel, do XV seculo, em Avioth nas

Ardennes

francezas. É na Austria que são mais communs.

Tumulos apparentes

. O uso de encerrar os cadaveres nos sarcophagos e pôl-os sobre o solo ficou completamente abandonado no norte da Europa desde o XIII seculo.

Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da França, os tumulos apparentes do periodo ogival são cenotaphios, consistindo em socos de cantaria com massiços de alvenaria postos sobre uma sepultura subterranea, tendo a effigie do finado. Compõem-se geralmente, como no XIII seculo, de um sóco ou macisso coberto de uma grande lousa, sobre a qual está deitada a estatua do defuncto. Este estendido sobre uma cama ricamente disposta, apresentando todas as insignias de sua dígnidade: os bispos e os abbades trazendo mitra e baculo; os reis e principes, a corôa e o sceptro; os cavalleiros, o seu escudo e a sua armadura. Os pés dos bispos e dos ecclesiasticos, e em certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um dragão ou um monstro phantastico; os dos clericaes, principes e nobres, contra um leão, symbolo de coragem, e mesmo, ás vezes, como para as damas tendo os pés sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras de anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que descança a cabeça do personagem. Depois do XIII seculo, os anjos com thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, a effigie do finado não apresenta nenhum dos caracteres da morte.

No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas têem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes dos personagens vivos. Sómente depois do XIV seculo o defuncto principia a ser representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.

Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras são dispostas em roda do sóco, no qual estão assentes; algumas vezes, mas, raramente, as arcaduras são vasadas, e a estatua

deitada

do finado occupa o

logar

do sóco supprimido.

Os cenotaphios do periodo ogival são geralmente de pedra, poucas vezes de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra têem quasi um metro de altura, em quanto que os sepulchros de metal, que se conservam até ao presente têem apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de metal que possue a Sé de Braga tem maior altura.

Para evitar o estorvo nas egrejas, não se permittia, salvo raras vezes, erguer-se um cenotaphio. Na capella-mór admittia-se o tumulo do fundador ou de um bemfeitor distincto, collocando os dos outros personagens de distincção nas capellas que cercam os lados do côro e da nave principal. Estes monumentos apresentavam muitas vezes uma decoração de pinturas e dourados. Alguns ficavam encostados á parede e dentro de um grande nicho sob fórma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, ficavam separados em todos os seus lados.

As campas com gravuras a traço

tornaram-se vulgares desde o XIV seculo. Muitas têem sido conservadas até ao presente, não obstante o grande numero de causas de destruição, ás quaes têem ficado expostas desde seis seculos. A maior parte estão ornadas de imagens do finado, debaixo de arcaduras trilobadas do feitio de docel, muito simples e sustentado por columnatas. Quasi sempre vê-se uma mão deitando a benção, symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; e anjos agitando thuribulos occupam os

seguintes

da arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos abbades e dos padres, vê-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do personagem, clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas accesas.

Muito antes do XIII seculo, as campas têem, bastantes vezes ainda, como durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto é, são mais estreitas do lado dos pés. A inscripção que quasi sempre têem, forma geralmente o contorno exterior da pedra, menos geral do que o emmoldurado de ogiva; principia por uma cruz a inscripção e quasi no fim do XIII seculo, ajuntam já por vezes, aos quatro angulos, os emblemas dos evangelistas collocados nos quadrilobos.

As campas dos tumulos do XIII seculo que não têem um emblema, um symbolo ou um escudo com armarias, são bastante raras na Belgica.

Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, porém não durante os primeiros annos. Sómente esta arcadura é muito mais carregada de detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes, crochetes, florões, pinaculos e rosaes; além d'isso, as arcaduras principiam a não ser sustentadas por columnatas com base e capitel, mas sim por pés-direitos do feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e nichos, nos quaes se vêem pequenas figuras de homens.

Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as arcaduras estão reunidas no numero de duas ou tres, e contéem, cada uma, sua effigie. O leão, o cão e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre as estatuas deitadas dos cenotaphos, se vêem tambem sobre as campas do XIV seculo. Estas são geralmente de fórma rectangular, e não têem o feitio de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferários não se vêem excepcionalmente a começar do XVI seculo.

As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, são regularmente substituidos no XV seculo por docéis, representados em perspectiva e muitas vezes compostos de ogivas inflexas com desenhos complicados; os pinaculos, os nichos, as rosaceas flammejantes se multiplicam sobre todo o moldurado; além d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os docéis aos contrafortes.

Será bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV seculos apresentam a maior similhança com as decorações do mesmo genero que se vêem nas vidraças pintadas contemporaneas.

Como no XIII seculo, a inscripção apparece no XIV e no XV seculos sobre a borda da campa e está inscripta entre duas linhas parallelas. Nos angulos formados pela intersecção d'essas quatro linhas se vêem quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou tambem algumas vezes, desde o começo do meiado do XIV seculo, as armarias; acontece mesmo que a inscripção está, além d'isso, interrompida pelo escudo da armaria sobre os seus lados mais compridos.

Já explicámos que, quando são applicados para ornar os quatro angulos de um quadrado ou de um rectangulo, os symbolos dos evangelistas põem-se, pelo menos, até ao XIII seculo, da maneira seguinte: o homem alado no angulo superior á

esquerda

do espectador; a aguia á

direita

, o leão no angulo inferior á

esquerda

e o novilho á

direita

. No XIV seculo, houve uma mudança; desde esta epocha, vê-se quasi geralmente a aguia no

angulo superior esquerdo

, e o homem alado no

angulo superior direito

. É ali tambem o logar que estes symbolos occupam sobre as campas.

Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do periodo ogival, não são de tal maneira proprios como os que são mais proximos da epocha indicada. Pelo contrario, acontece muitas vezes, principalmente na Belgica, que as campas do XV seculo apresentam ainda, por assim dizer, os caracteres que não se está acostumado a encontrar n'outra parte nas campas do seculo precedente. Não é raro tambem achar campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes o ornamento architectural seja moderado de detalhes, ou inteiramente os supprimiram.

Em França quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as carnes, em vez de serem imitadas a traço, são represeutadas por embutidos de marmore ou de metal.

Tumulos chatos de cobre

. Durante o periodo ogival, introduziu-se o uso do cobre ou de laminas de latão sobre as quaes as linhas do desenho são feitas a traços gravados bastante fundos, estando cheios com uma substancia rezinosa de côr preta e de tom mate. Essas largas linhas pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie brilhante do metal brunido ou adamascado, até mesmo dourado, cujo reflexo luzidio é muitas vezes realçado pela armaria colorida em esmalte da composição da campa, a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a estas qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, assim como o pavimento e as vidraças pintadas, para a decoração das egrejas. É na Inglaterra e Flandres que têem sido mais communs durante toda a idade media.

Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A primeira, de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de marmore ou de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em

silhoeta

na lamina de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas, inscripções em feitio de fita, gravadas sobre tantas peças distinctas, ficam embutidas e arrebitadas separadamente nos entalhes correspondentes da pedra, designados

casements

pelos auctores inglezes. A segunda classe parece ter sido menos numerosa, porém contém especimens mais bellos e preciosos. Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que apparecem debaixo do aspecto de grandes placas de cobre, d'uma só peça, mas que, na realidade, são muitas vezes compostas de muitas laminas ajustadas, das quaes com grande habilidade ficam disfarçadas as juntas na profundura dos traços. A figura do finado, geralmente de grandeza do natural, representa-se de pé ou deitada.

Os tumulos de latão consistem em grandes laminas soltas, não destinadas a ser embutidas nas laminas de pedra, e que formam por si um todo completo; foram communs na Belgica durante todo o periodo ogival; o seu uso continuou, em certos sitios, até o XVII seculo. Na Allemanha e igualmente no Norte da França tiveram acceitação. Sobre as laminas, não sómente a figura do finado, como tambem os accessorios symbolicos e de decoração que lhe servem, foram executadas da mesma maneira que sobre as pedras das campas gravadas. Todavia, a composição do assumpto é regularmente mais superior, e a execução mais esmerada que das outras; os mais insignificantes detalhes do vestuario, os docéis do remate, as pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes assim como os pés-direitos, todas as partes, em uma palavra, são feitas com fidelidade, com arte e com delicadeza. Além d'isso, o fundo sobre o qual se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem ornato, como sobre as pedras das campas gravadas, é regularmente adamascado, isto é, coberto de ornatos differentes imitando os desenhos que apresentam certos estofos orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vêem á roda dos personagens nas vidraças pintadas do XIV seculo. São compostos de folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, côres matizadas, figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas vezes repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os detalhes architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos fundos adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam ainda as laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que as

phylactéres

se veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das campas. Chama-se

phylactéres

a bandeirolas compridas e estreitas, saindo da boca das personagens ou estão seguras nas suas mãos, e sobre as quaes está inscripta uma oração, uma divisa ou uma sentença.

Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo

. Além dos cénotaphos, das campas e dos tumulos chatos de latão, erigiam-se tambem, nos XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou latão, encaixados na face da parede proxima do logar da sepultara. Estes monumentos curiosos encontram-se, não só no interior das egrejas, mas tambem nos claustros das cathedraes, collegiaes e mosteiros. Compõe-se regularmente d'um epitaphio, por cima do qual se vê um assumpto religioso, por exemplo, a SS. Trindade, a flagellação, a crucificação ou qualquer scena da Paixão. Muitas vezes tambem se vê Nossa Senhora com o Menino Jesus. O finado está regularmente representado ao lado da scena principal, de joelhos em oração e por vezes acompanhado do santo da sua devoção, o qual fica em pé por detraz d'elle e parece recommendal-o á clemencia Divina; sobre a bandeirola saindo da boca na direcção da scena principal, lêem-se frequentemente as palavras que é natural dirigir a Deus ou aos santos, por exemplo:

Qui potes, oro, rei, Christe, mementa mei

, e

O mater Dei, memento mei

.

A scena religiosa está esculpida em relevo ou gravada a traço. Quando feita em alto relevo, vê-se quasi sempre em um nicho ogival, aberto na grossura da parede, e o epitaphio inscripto na parte inferior do nicho, sobre uma pequena chapa de latão, de marmore ou de pedra.

Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a traço, o assumpto e o epitaphio são geralmente collocados sobre uma unica pedra; ora n'uma, ora n'outra occupa a maior parte. A scena é coberta por um docél servindo de remate; algumas vezes, comtudo este docel não apparece.

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