INTRODUCÇÃO[1] (continued 2)
Reading edition
curvo
um modilhão simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares á mesma parede; e com feitio de florão, é uma consóla que não tem as faces nem parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás vezes são os curvos e esses florões ornados de esculpturas representando cabeças humanas, figuras grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc.
A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham abobadas senão no abside do côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em muitas egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente.
Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas, eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes lateraes dois arcos de menores dimensões. Para supportar a pressão obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas.
Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que supportem a curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se contra a principal parede da nave central no logar onde começa a sua abobada.
Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos compõem-se de uma ou de duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e apresentam uma secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman, e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado têem regularmente o feitio de tóros.
As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tóro, algumas vezes acompanhado de dois ou quatro tóros de menor espessura. No fim da época Roman, e durante o periodo da transição, o tóro principal foi em certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas que as das Ogivaes.
Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras geometricas.
Chamam-se
contrafortes
aos pilares embebidos nas paredes exteriores dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a pressão das abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios correspondem sempre exactamente (nos monumentos que não têem abobadas) aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão combinada dos arcos duplos e das nervuras das abobadas.
Nas construcções de architectura Roman, especialmente nas mais antigas, os contrafortes apresentam-se algumas vezes com a apparencia de uma pilastra semi-cylindrica.
No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes variadissimas fórmas. Uns são muito largos na base, e diminuem successivamente em cada um dos seus tres lados isolados; outros, mais delgados, têem sempre a mesma largura entre as duas faces lateraes e parallelas, e não diminuem senão na face exterior, em que essa diminuição se faz successivamente em diversas partes na sua total elevação. Alguns ha que têem sempre as mesmas dimensões em todas as faces, sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio até á cornija.
Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman são raros.
Na Europa Occidental os telhados conservaram até ao seculo XII uma pequenissima inclinação.
É só no meiado d'este seculo, e até mesmo mais tarde, que se encontram declives com excessiva correnteza nos telhados dos edificios da edade média.
As
Torres
, tanto na Europa Central como na Occidental, anteriores ao seculo XI, são em geral quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas ornadas com simples arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de quatro abas de fórma concava, formando uma pyramide obtusa.
Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, são mais elevados e ornamentados que os dos seculos precedentes. Compõem-se de dois e mais pavimentos, que se sobrepõem, e cujas dimensões vão muitas vezes diminuindo successivamente. A sua fórma e aspecto geral variam de um paiz para outro.
Os campanarios isolados, que são quasi exclusivamente proprios da Italia, distinguem-se por mais duas especies.
Ha uns construidos no ponto de intersecção do transepte com a nave principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as extremidades do côro ou do transepte. Os primeiros assentam sobre quatro grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares sobre os seus quatro lados; ou são sustentados por arcadas abertas sobre uma, duas e até mesmo tres das suas faces.
Os campanarios centraes têem em geral differentes fórmas. Ha-os quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior numero de lados; existem tambem alguns em fórma de cúpula.
Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do côro ou dos transeptes das egrejas, apresentam ainda fórmas mais variadas que os centraes. Os mais simples são quadrados e divididos tanto interior como exteriormente em dois ou mais pavimentos. Outros, elevando-se sobre uma base quadrada, tornam-se em polygonos de maior numero de lados logo no primeiro ou segundo andar, tendo em geral a fórma octogonal.
No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com feitio de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou octogonaes, eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides de base quadrada eram ás vezes ornados com pequenos campanarios. Muitos remates de cantaria foram destruidos pelas chuvas e pelos gêlos, e depois substituidos nos seculos XIII e XIV pelas flechas esguias.
Algumas torres tinham por cobertura um telhado apenas com duas abas, terminando por uma empêna em cada um dos lados. As torres cobertas por este modo só se usaram durante uma parte do periodo Ogival.
Os pavimentos em
opus alexandrinum
continuaram a usar-se na Italia e em todos os paizes aonde havia marmore. Na Allemanha, na França e na Belgica, por exemplo, serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou de pedras gravadas e com embutidos de massa colorida. Até ao fim do seculo XII cada tijolo tinha a sua côr propria. As côres que se encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, são a preta, cinzenta, vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As duas ultimas predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do seculo XII.
No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns na Europa Occidental.
Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas fórmas que tinha o mosaico, e se inspirou dos principios d'esta arte, não podia tardar muito que ella tomasse mais livre desenvolvimento e adquirisse certos principios que lhe fossem especiaes em consequencia da propria natureza dos seus processos e da maneira por que estes satisfazem a vontade do artista.
Com effeito, a pintura liga-se ás fórmas da architectura até nas mais delicadas molduras; e por conseguinte de um modo mais intimo que o mosaico. Desde os primeiros seculos até á época da Renascença, a pintura das paredes pôde, sem duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o tom e a harmonia das côres empregadas, seguindo o progressivo desenvolvimento da arte de construir, mas ficou sempre subordinada á architectura.
A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente n'um painel.
Um painel, no sentido moderno da palavra, não é mais do que uma scena mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma janella aberta. A pintura monumental, pelo contrario, é uma arte convencional na qual a imitação da natureza, a reproducção das suas fórmas e dos phenomenos atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer não existem.
A figura humana e as composições em que esta apparece em grupos são geralmente reservadas para as grandes superficies planas das paredes; só muito raramente se encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a parte o symbolismo ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres tanto da pintura das paredes como de todas as artes em geral durante o periodo de que nos occupamos.
As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a composição do assumpto de que trata. As côres são applicadas com tintas eguaes, sem indicar sombras nem os differentes accidentes da luz, de fórma que é muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o artista teve em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes dos corpos são regularmente indicadas por traços finos, e os contornos são representados com linhas cheias.
A pintura a
fresco
, que tem a vantagem de produzir tons agradaveis, foi a preferida para as pinturas historicas e legendarias. A
encaustica
foi tambem escolhida para certos trabalhos. A intensidade e a harmonia dos tons que resultam do emprego da cêra, a possibilidade de nos occuparmos
indefinidamente
do trabalho já começado fizeram com que muitas vezes fosse adoptado este processo. Com effeito até mesmo a pintura a oleo é tambem muito antiga. Durante toda a edade média eram preferidos os outros processos, por meio dos quaes, obtendo-se tons baços, evitavam o reflexo tão desagradavel na pintura das paredes.
Durante a edade média a primeira pedra do alicerce dos edificios religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma inscripção. A sua collocação era feita com grandes solemnidades: um prelado ou um dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle proprio a collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da construcção.
Tambem muitas vezes se serviam de inscripções lapidares para conservar a memoria da fundação do edificio e o nome do architecto ou do mestre da obra. Em algumas egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando a data da consagração, os nomes dos santos cujas reliquias se acham depositadas no altar, e até mesmo o nome do orago da egreja.
Os altares eram uns fixos e outros portateis.
Altares fixos
.―As mesas dos altares fixos, ordinariamente de marmore ou de pedra, e de fórma quadrada ou rectangular, continuaram até meiado do seculo XII a ser vasadas em fórma de bandeja, como já se usára no periodo Latino.
O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base cubica de alvenaria sem ornamentação alguma, e algumas vezes tendo em roda uma inscripção e um simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se estes altares com alfaias de lã e seda ou de outros tecidos preciosos.
Outras vezes o altar é sustentado por uma ou muitas pequenas columnas.
Os altares de fórma cubica eram muitas vezes revestidos de oiro e de prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com esculpturas e pinturas.
A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida em tres compartimentos com a fórma de arcadas mais ou menos ricamente decoradas. Jesus Christo lançando a benção, de pé ou sentado, occupa ordinariamente a parte central, que é muitas vezes a mais elevada, ou com a fórma de uma auréola oval ou de quatro lóbulos. Nas arcadas lateraes vêem-se figuras de santos e os symbolos dos evangelistas, que se acham dispostos ou em torno do compartimento do meio, ou nos fundos das arcadas.
O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia no periodo Latino, encimado por um
ciborium
, e o mesmo acontecia com alguns dos altares lateraes.
No final do XI seculo começou o uso dos retabulos, isto é, dos paineis ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente ditos. O retabulo não constitue por si só uma parte essencial do altar, mas sim um accessorio. O seu primitivo e principal fim é promover a devoção entre o padre que offerece o santo sacrificio e os fieis que a elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos religiosos produzidos pelo cinzel, esculptura, pintura, etc.
A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do periodo ogival e na época da Renascença.
Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias: Christo, sentado ou em pé, occupava em geral o painel do centro, tendo imagens de Santos e assumptos tirados da Historia Sagrada, ou da lenda, em arcadas lateraes, ou em medalhões de diversas fórmas, collocados em redor da imagem do Salvador.
A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes ultimos só se generalisaram no fim do periodo roman e no principio da época ogival.
A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios quando elles não tinham mais ornamentos, ou para os emmoldurar quando os seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter sido nos mosteiros que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a maior parte das abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a disposição interior das egrejas no que diz respeito ao logar reservado aos religiosos durante a celebração do Santo Officio: as cadeiras ou bancos dos padres, que d'antes occupavam o proprio côro do abside, foram transportadas para o transepte, e desciam ordinariamente até á segunda ou terceira arcada da nave principal, como na egreja d'Alcobaça.
Ao fundo do Sanctuario, proximo á curvatura do abside, elevava-se o altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram expostos os restos mortaes dos Santos, que até ali se tinbam conservado religiosamente nas cryptas das egrejas.
Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e collocadas no interior do altar.
Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo; mas não é facil actualmente determinar se esta exposição era permanente ou temporaria, isto é, durante certas solemnidades religiosas extraordinarias.
Comtudo, está provado que existia em muitos paizes o costume de se conservarem os relicarios sobre os altares. Este costume pouco a pouco se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta exposição se realisava por detraz dos altares, o cofre era collocado pouco mais ou menos dois metros acima do piso e sustentava um dos lados triangulares sobre o proprio altar, ou então sobre um retabulo de pedra, collocado em cima d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma consola ou um grupo de columnas junto á parede absidal ou interior da egreja.
Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos relicarios, quer de pé, quer de joelhos, ainda hoje existe em muitos paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha assentar sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se então com um retabulo de metal ou de pedra; se pelo contrario, como succedia com as urnas de oiro, de prata ou de cobre doirado e esmaltado, tinha figuras primorosamente executadas, ficava inteiramente livre e visivel por detraz do altar. Construia-se então por cima da urna uma especie de tabernaculo ou de baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central do lado triangular, com um retabulo de metal precioso.
O altar-mór das cathedraes assim como das collegiaes que não possuiam grandes reliquias, só veiu a ter retabulo no XIV seculo. Tanto no XII como no XIII seculo, se collocavam n'estes edificios retabulos sobre os altares secundarios do transepte e das Capellas absidaes. Estes retabulos eram de pouca espessura, não se lhes podendo collocar em cima nem crucifixos, nem candeeiros.
Altares portateis
.―Apresentam ordinariamente, bem como os do periodo Latino, a fórma de um parallelogrammo rectangular, e são compostos de uma lagea de marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e guarnecida com bordados de oiro ou de prata, de modo a não tornar visivel senão a parte superior da placa.
A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e até mesmo de ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa unicamente como recordação historica que a ella estava ligada, por exemplo, um fragmento das lageas tintas com o sangue de S. Thomaz de Cantorbery.
As reliquias, cuja presença é de rigor em todo o altar, encontram-se entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho de madeira: algumas vezes era este concavo em fórma de recipiente. Em geral os altares portateis são de pequena altura, apenas alguns têem a fórma de um pequeno cofre sustentado por pés pouco elevados. As laminas de metal que constituem os adornos são muitas vezes cobertas com filigranas, de pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.
Usaram-se estes altares até ao final do seculo XIII.
Piscinas
.―A ablução das mãos, tanto antes como depois do sacrificio da missa, foi sempre um dos preceitos dos padres. Deitava-se nas piscinas não sò a agua de que o padre se servia para a ablução das mãos, mas até mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os calices ordinarios como os ministeriaes em seguida á communhão do padre e dos fieis.
N'esta época o padre não tomava as abluções do mesmo modo que actualmente.
Algumas piscinas, que são as mais antigas, têem apenas uma abertura ou concavidade para dar passagem á agua; ha porém outras que têem duas, uma para escoadouro das aguas ordinarias, e outra para receber as abluções das mãos.
As primeiras chamam-se
piscinas simples
, e as segundas
duplas
. As mais antigas são de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia junto á parte inferior das paredes, ou sustentada por uma pequena columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que são sustentadas por columnas chamam-se
pediculadas
.
No XII seculo começou-se a collocar
piscinas
em nichos abertos nas paredes exteriores da egreja. As piscinas duplas só no fim do XII seculo appareceram.
Doceis
.―Foi durante o periodo roman que maior uso tiveram os doceis. Em geral consistem n'uma especie de cúpula quadrada ou polygonal, de marmore, de estuque, ou de pedra. Muitas vezes têem um leão sentado entre a base e o fuste das columnas. A face anterior da cúpula é quasi sempre munida de uma estante, sobre a qual o diácono ou o leitor collocava o livro sagrado.
Esta estante assentava ordinariamente na cabeça de uma aguia, symbolo do Evangelista S. João; e algumas vezes na de um homem munido de azas, emblema de S. Matheus. Quando a estante assentava sobre a cabeça de aguia ou de homem com azas, os symbolos dos outros evangelistas estavam tambem, ás vezes, representados nos angulos da base da cúpula.
Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cúpula era revestida de oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com esculpturas sobre marfim.
Cadeiras episcopaes ou do clero
.―A cadeira episcopal nas cathedraes, ou do celebrante nas egrejas inferiores, achava-se regularmente, como no periodo Latino, no fundo do abside do côro, contiguo á muralha; e aos lados estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta disposição, que foi conservada até nossos dias em algumas egrejas romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto cathedraes, como collegiaes e parochiaes.
Havia, já o dissemos, algumas excepções a esta regra, como succedia com certas collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do côro, e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram mudadas as cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem duvida por causa do grande numero de religiosos, que era impossivel collocar convenientemente na curvatura do côro.
Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou
fórmas
,
formulae
, de madeira, foram raras até ao fim do XII seculo; apenas se encontram algumas que escaparam á destruição. Vê-se perfeitamente que estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, imitam todavia exactamente as antigas de pedra.
Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares
Capellas funerarias
.―Construiram-se algumas vezes, nos cemiterios e na proximidade das egrejas, capellas funebres, de fórma circular ou polygonal, á similhança da rotunda construida pelo imperador Constantino sobre o Santo Sepulchro, ou o mausoléu de Theodorico em Ravenna (Italia).
Tumulos
.―O costume de encerrar em sarcophagos os restos mortaes das pessoas ricas e poderosas existiu no Norte da Europa até ao XII seculo, e nos paizes meridionaes, isto é, no Sul da França, na Italia e na Hespanha existiu pelo menos até ao XIV. Estes sarcophagos constavam, como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de marmore, muitas vezes mais estreitos para o lado dos pés, e fechados por uma tampa convexa ou em fórma de telhado de duas aguas. Eram esculpidos com ornatos e symbolos; florões, folhagens, monogrammas, cruzes e alguns assumptos allegoricos. Collocavam-nos habitualmente sobre pequenos pilares grossos, ou sobre columnas curtas só com o fim de os isolar do solo.
Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos
cenotaphios
que consistem em sócos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de columnas, assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um sarcophago simulado ou a effigie do defunto. Em tôrno do sóco ou do macisso d'alvenaria acha-se disposta uma serie de pequenas columnas. Umas vezes são unidas por meio d'arcos, outras, o rebordo da grande lage que corôa o sóco é apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios começaram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida em relevo e ás vezes até mesmo gravada ao traço ou representada em esmalte. O personagem é geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas as insignias da sua dignidade; os bispos estão com a mitra e o báculo pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a corôa. Estas estatuas deitadas não apresentam o aspecto d'um morto; porque têem os olhos abertos, os gestos e attitudes de pessoas vivas.
Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada sobre que assenta a cabeça do personagem.
Tumulos não apparentes
. Consistem, como os do periodo anterior, em cofres de pedra ou de alvenaria mais largos do lado da cabeça que dos pés e fechados por uma tampa chata ou prismatica. No interior do cofre encontra-se algumas vezes, principalmente do XI até ao XIV seculo, um espaço circular destinado a receber a cabeça do cadaver. Alguns têem no fundo dois regos, no prolongamento dos quaes está feita uma abertura destinada a dar vasão ás materias viscosas.
Pedras tumulares
. O uso das pedras tumulares continuou durante o periodo roman. Em geral têem a fórma d'um trapezio; algumas tambem, as mais antigas, são rectangulares. A sua decoração em geral consiste em figuras geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se lê o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.
Pias baptismaes
. As pias baptismaes eram de grandes dimensões durante todo o periodo roman, por isso que se continuou a administrar o baptismo por immersão até ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo algumas havia de bronze e outras de cobre. Em França e especialmente na Inglaterra tambem as havia de chumbo.
As pias romans eram de variadissimas fórmas; sendo algumas similhantes a uma vasilha.
O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pôde conservar-se na vanguarda do movimento artistico da Europa Central e Occidental.
Com a applicação do
esmalte
, os objectos d'ourivesaria mudaram completamente d'aspecto no XI e XII seculos. Até ali a accumulação das pedrarias ligadas por folhagens de filigranas constituia todo o segredo d'ornamentação dos ourives do Occidente; desde o fim do X seculo que as laminas duplas e lavradas alternam a maior parte das vezes com laminas esmaltadas. Estas encontram-se não só nas grandes peças d'ourivesaria, taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas até nos menores objectos.
Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro e prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da incrustação do esmalte. Foi a começar no XI seculo que em algumas localidades substituiram o esmalte introduzido no rebaixo pelo dividido em separação.
Até meado do seculo XII, a influencia Bysantina é apparente nos esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com effeito, os esmaltadores allemães imitaram o estylo Oriental, reproduzindo mais ou menos fielmente typos bysantinos, modificando-os comtudo segundo o seu proprio engenho. Os seus processos technicos tambem se resentem da origem Bysantina da arte allemã: é assim, por exemplo, que, nos esmaltes em separação, e até mesmo nos mais antigos esmaltes executados em rebaixos, as carnações são substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do que se praticava em Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das margens do Rheno não tardaram em gravar sobre metal reservado, as figuras de pequenas dimensões, emquanto que para as grandes, continuaram ainda, durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso só se serviam da gravura para as carnações. No final do XII seculo, para proceder sem duvida d'uma maneira mais expedita, começaram a gravar figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi que não era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas vezes grandes e profundos da gravura.
Em França, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do XII, continuaram a servir-se exclusivamente, para a decoração das suas obras, de placas cinzeladas ou até simplesmente estampadas, e d'applicações de pedrarias ligadas com filigranas. Até 1145 os ourives francezes ignoravam o modo de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio d'esse anno,
Suger
, abbade do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris, quiz mandar fazer uma peanha e cobril-a de placas de esmalte engastadas sobre cobre, viu-se obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu auxilio ourives da Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram o trabalho de terminar esta obra em dois annos.
As producções dos primeiros esmaltadores francezes apresentam grandes analogias com as dos allemães do Rheno, que vieram ensinar a arte de esmaltar, em França.
Uma vez começado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em breve foi augmentando em França, e deu logar a que, em 1160, se creasse uma celebre escola de esmaltadores em cobre cuja séde foi em Limoges.
Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus esmaltes o aspecto do dos allemães; representavam as figuras inteiras, até as proprias carnações, com côres d'esmalte; só aproveitavam o metal para lhe fazer traçar as principaes linhas do desenho. Em pouco tempo, para mais rapida e mais barata producção, renunciaram a este processo e principiaram a gravar logo sobre o metal, todas as figuras e a esmaltar
apenas
o fundo. Muitas vezes até substituiam as partes gravadas por figuras em alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de Limoges cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao fundidor e ao cinzelador, limitando assim o seu trabalho á simples decoração dos fundos, operação que se tornava pouco difficil.
Pelo lado artistico o esmalte rhenano é muito superior ao de Limoges. Os esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do Mósa, em Liêge, Maestricht, Stavelot, em Waulsort e em Gembloux têem os caracteres da escola rhenana, cujo principal centro de fabrico era em Colonia, constituindo por isso uma variedade dos esmaltes rhenanos. As differenças que se encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges, os do Rheno e os do Mósa são estas: nos primeiros predominam as côres azul e verde claros, em quanto que nos outros são o verde e o azul carregados. Os esmaltadores do Rheno e os do Mósa servem-se d'algumas côres que lhes são proprias; o bello azul de torqueza, o branco de leite, o vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons são mais harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na França. Os esmaltes do Rheno e do Mósa reproduzem scenas em que toma parte um grande numero de personagens, com inscripções latinas em verso, gravadas e encrustadas de esmalte; nos de Limoges não se encontram inscripções a não ser apenas um ou outro nome. Os differentes lavôres que os esmaltadores do Rheno e do Mósa executavam sobre o cobre e com as incrustações de esmalte, são notaveis pelo bom gosto e variedade de assumptos,
qualidade
que se não encontra entre os de Limoges.
Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do Mósa ou do Rheno apresentam geralmente uma particularidade que se não observa na ourivesaria franceza contemporanea. Têem, além das placas esmaltadas, filigranas e pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e inscripções douradas sobre campo brunido ou vice-versa.
Calices e patênas
. Conservou-se, durante o periodo roman, o uso dos calices ordinarios e ministeriaes.
Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas vezes, como os do periodo Latino, a taça profunda e estreita, o pé pequeno e ligado á taça por um simples nó sem haste.
No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e ás vezes de fórma espherica e com azas. O pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas dimensões que nos precedentes.
Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o pé muito grandes, o nó bastante grosso e a haste curta quando a têem.
Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o exterior da taça inteiramente coberto de medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de filigranas; estes ornatos são apenas interrompidos por um pequeno espaço semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a communhão.
Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e principalmente a sua crucifixão, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de reproduzir sobre os medalhões circulares ou ovaes com que decoravam a taça e o pé dos calices.
Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.
Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os reservatorios circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com florões, folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e até é facil vêrem-se assumptos legendarios ou historicos.
Grades
. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram até ao XI seculo. estas grades.
Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importação meridional.
Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em geral em curvas entrelaçadas.
Alfaias religiosas
No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para proc No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a vir trabalhar no Occidente.
Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome, pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio, e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o edificio religioso que elle acabára de construir em Aix-la-Chapelle, teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam formado na Italia, particularmente em Ravenna.
Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso.
No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo.
A restauração artistica, começada sob a influencia dos artistas bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X seculo, a escola de Trèves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento, no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da restauração artistica na Allemanha.
Os
calices ministeriaes
conservaram, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinham tido anteriormente. A sua decoração é a mesma que a dos calices ordinarios. São munidos d'azas com a fórma de folhagens, ou de dragões e d'outros animaes phantasticos.
Nos medalhões sobre a taça representavam-se scenas da vida do Salvador; nos do pé, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia do Velho Testamento; e nos medalhões do nó mostravam-se as personificações dos quatro rios do Paraizo.
As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a configuração d'um pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso, com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou gravados ao buril, eram de pequenas dimensões. Encontram-se comtudo algumas patênas da época roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as esculpturas.
Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios
. Desde o XI seculo que as pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja origem alguns auctores reputam ser do V seculo. Dá-se o nome
pyxides
a pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se, debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou então collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar.
Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.
Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas vezes no exterior esculpturas em relevo.
As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de cobre dourado e esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma tampa de fórma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges.
As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e são em geral tanto umas como outras de pequenas dimensões, por isso que apenas servem para guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado Viatico aos doentes em perigo de vida.
Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepções, têem a tampa ligada ao cylindro por meio de charneira.
Relicarios
. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos mortaes dos Santos, porém, hoje têem um sentido mais lato; considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista d'isto não é para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um tão grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes preciosos thesouros e expôl-os á veneração dos fieis.
Relicarios da verdadeira Cruz
. A maior parte dos relicarios que contéem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos bysantinos. São ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e têem muitas vezes a fórma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a inferior, leva isto a suppôr que o que parece uma repetição dos braços seja simplesmente o
titulo
da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes sempre tiveram especial veneração.
Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma cruz com uma simples travessa.
As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes, filigranas e pedras preciosas.
Não eram só os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a fórma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edíficios em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes de madeira ou de pedra com a mesma fórma.
Urnas
. A urna é uma especie d'um cofre dentro do qual são guardadas as reliquias d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI seculo. Ha-as
grandes
e
pequenas
. As grandes urnas têem o feitio d'um pequeno edificio rectangular, com a fórma de telhado de duas vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que imitam uma egreja com as suas paredes exteriores.
Em geral são cobertas de placas de metal ornadas com filigranas, esmaltes e pedrarias. Christo lançando a benção, sentado ou em pé, só ou no meio de dois Santos, occupa ordinariamente uma das faces extremas, e na outra face a Santissima Virgem entre dois Santos cujas reliquias a urna encerra. As faces lateraes são divididas por arcadas de volta inteira ou abatida, debaixo das quaes se vêem as figuras dos Apostolos ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da imitação de telhado são decoradas com baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos differentes assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das arcadas. Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.
As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII, têem a fórma d'um cofre oblongo, coberto com uma tampa semelhante a um telhado de duas aguas. Compõem-se em geral de placas de cobre vermelho, esmaltadas segundo o processo do buril. Tanto as quatro faces da urna, como a tampa são adornadas de figuras e algumas vezes com assumptos completos. Merecem attenção as figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de execução especial.
Sobre muitas d'estas urnas se vêem em relevo as cabeças e as mãos ou sómente as cabeças; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente gravadas, são incrustadas de esmalte.
D'ordinario o trabalho é rude e barbaro e o desenho deixa muito a desejar com relação a correcção.
A tampa é geralmente terminada por uma lamina de cobre recortada em fórma de crista.
Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges.
Tambem se têem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e mesmo de madeira.
Estatuêtas
,
bustos
,
braços
,
pés
, etc. No seculo X, começou-se a collocar as reliquias em estatuêtas, bustos, ou relicarios de metal ricamente ornamentados e imitando a fórma do corpo humano a que ellas haviam pertencido. Assim, quando queriam guardar os ossos d'um pé, ou d'um braço, dava-se ao relicario a fórma de qualquer d'estes dois modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os seculos seguintes, tornando-se bastante vulgares.
Urnas de marfim
. Encontram-se, com frequencia, nos thesouros das egrejas e nas collecções d'objectos antigos, cofres de marfim cobertos de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem assumptos religiosos ou alguns signaes de symbolismo christão, e que por consequencia foram executadas para o serviço do culto, são extremamente raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos usos profanos, por exemplo, para guarda joias. No entanto não é para admirar que se encontrem nas egrejas, pois que umas foram cedidas ás egrejas como obras artisticas offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no Oriente, serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, ficaram encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto preço no Egypto, na Syria e na Asia Menor. Estes pequenos cofres, que sahiam d'officinas musulmanas ou indianas, são regularmente cobertos de figuras geometricas, d'arabescos d'animaes phantasticos e algumas vezes d'inscripções Orientaes.
Frascos de crystal de rocha
. D'entre os varios objectos de que os cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'ani. D'entre os varios objectos de que os cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'animaes phantasticos. Muitos estiveram guardados, durante o periodo ogival, em ricos estojos de ouro ou de prata.
Diversos relicarios
. Ha-os com diversas fórmas architecturaes imitando, em metal ou em marfim, as principaes partes das egrejas romans, e até mesmo as dos edificios civis.
Corôas suspensas nos altares
. Estas corôas conhecidas com o nome de
votivas
eram por devoção offerecidas a Deus e aos Santos, ou em cumprimento d'algum voto. Já existiam durante o periodo latino; como então, compunham-se de um circulo de metal precioso, muitas vezes adornado com o brilho de pedrarias e de esmaltes. Fabricou-se grande numero d'estas corôas directamente para o serviço dos altares; todavia os antigos chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas por reis e principes, de corôas d'ouro e de prata e que elles precedentemente cingiam como insignia de realeza.
Corôas para luzes
. As corôas para luzes continuaram a usar-se durante o periodo roman e as mais bellas que a idade media nos legou são d'esta época.
Todas estas corôas, guarnecidas de torres e ameias parecem alludir á visão de que falla S. João no capitulo XXI do Apocalypse.
Deus me mostrará a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, mandada por Deus...
representada por uma alta muralha, franqueada por dôze portas; vendo-se a estas portas dôze anjos, e tendo gravados os nomes das dôze tribus de Israel. As portas ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres ao Sul e tres ao Occidente. A muralha tinha dôze socalcos, em que se achavam gravados os nomes dos dôze Apostolos.
Suspendiam-se estas corôas no côro proximo do altar e tambem no ponto de intersecção da nave com o transepte, quando eram muito grandes.
A corôa para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de circumferencia; é composta de oito arcos de circulo unindo-se de maneira que formam angulos reintrantes. Estes angulos são guarnecidos de lanternas em fórma de torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo, uma torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres vellas; como são dezeseis torres, oito quadradas e oito redondas, a corôa póde receber quarenta e oito luzes em todo o seu circuito. Duas inscripções latinas se lêem em tôrno do circulo metallico, indicando a data do XII seculo em que foi dada á egreja de Aix-la-Chapelle pelo imperador Frederico Barba-rôxa.
Cruzes d'altar e para as procissões
. Até ao final do XV seculo, não havia distincção alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou estacionarias. A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se sobre o altar fixando-a em uma peanha, trazia-se em procissão na extremidade d'uma vara comprida.
As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo d'ouro, têem em geral apenas uma só cruzeta; as mais antigas são de fórma Trina, e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais tarde, no XI e no XII seculos, são então compostas com a imagem de Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimensões, isto é, deixam de ter a fórma Trina.
Grande parte das cruzes d'altar romans são de cobre vermelho adornado com esmaltes entalhados ao buril, outras compõem-se de simples laminas de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a imagem do Divino crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas cruzes são formadas de madeira, tendo as duas faces ou só a principal revestidas com placas esmaltadas. A imagem de Christo era representada n'estas cruzes e em alto-relevo. O
perizonium
, que cobre os rins e a corôa que cinge a cabeça do Salvador, são ordinariamente esmaltados e os olhos representados por fragmentos de vidro azul.
No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas eram de fórma triangular, a mais geral; e outras tinham quatro faces. Em cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, apresentam um Evangelista escrevendo textos relativos á vida ou á morte do Salvador. Queria-se d'este modo symbolisar a diffusão, pela prédica do Evangelho, da Fé em Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.
Candelabros
. Os candelabros eram em geral pequenos e terminavam na sua parte superior por uma dirandella ponteaguda. A fórma d'estes candelabros do XII seculo, varía pouco; consta em geral de um pé assente sobre tres patas de leão ou em tres corpos de dragão; um nó de folhagens ou de dragões enroscados; e uma dirandella bastante concava, sustentada por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se assimilham aos dragões ou aos lagartos com azas.
O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma tão descommunal altura que obrigaram a substituir as antigas velas de cêra por um cirial simulado e accrescentado com uma vela. Não devemos esquecer que os ciriaes se accendem em homenagem ao Crucifixo ou ao Santissimo Sacramento, e que portanto não devem exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se, pois, a razão por que um candelabro d'altar é maior e mais monumental que outro qualquer de sala.
Candelabros para o Cirio Pascal
. Tinham uma altura bastante consideravel.
A ornamentação d'estes candelabros, destinados a sustentar o Cirio Pascal, era analoga á dos candelabros d'altar. N'elles se encontram, tanto no pé como na dirandella, os dragões e os lagartos com azas (geralmente no numero de tres), as folhagens e os florões. Em alguns, tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos nas facetas do pé.
Candelabros de sete braços
. Estes candelabros sempre de bronze, usavam-se desde o periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida, a fazer recordar o antigo candelabro dos israelitas, são tambem muito elevados. O pé, o nó e os ramos eram ordinariamente ornados.
Os braços estão collocados, em geral, no mesmo plano, tres de cada lado da haste central e as dirandellas tambem se encontram ao mesmo nivel.
Evangeliarios
. Durante o periodo roman, trataram, como até ali, de reproduzir o mais correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram do mesmo modo a transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro sobre velino branco ou côr de purpura.
As Biblias completas e os evangeliarios, isto é, os manuscriptos em que se encerra o texto dos quatro Evangelhos, são em geral ornados com um grande numero de miniaturas representando personagens e assumptos do Novo e Velho Testamentos, e até mesmo alguns factos legendarios. Todavia, nos mais antigos manuscriptos o numero das illustrações é geralmente muito menor que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com frequencia, na parte superior de cada Evangelho, a figura do Evangelista, sentado e escrevendo o seu livro.
Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em arcadas sobre columnas, agrupadas ás t Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em arcadas sobre columnas, agrupadas ás tres e ás quatro, sob um arco commum que abrange toda a largura da pagina; em cada arcada lêem-se series de numeros collocados uns debaixo dos outros.
Estas columnatas formam o que se chamam os
canhões d'Euzebio
ou de
concordancia Evangelica
. Foram compostas por Euzebio de Cezaréa para facilitar o estudo comparativo dos Evangelhos, e consistem em quadros que indicam, por meio de algarismos escriptos na mesma linha horisontal em duas ou mais arcadas, as citações dos Evangelhos com relação ao mesmo objecto.
São dez: o primeiro indica todos os logares communs aos quatro Evangelhos; o segundo, os que se não lêem senão em S. Matheus, S. Marcos e S. Lucas; o terceiro, o que é referido por S. Matheus, S. Lucas e S. João; o quarto, as passagens comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S. João; o quinto, o accôrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S. Matheus com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. João; o oitavo, de S. Lucas com S. Marcos; o nôno, de S. Lucas com S. João; emfim o decimo, sob differentes series, o que cada evangelista escreveu de particular.
Cada Evangelho tem á margem, com tinta preta por ordem numerica, a indicação de todos os versos que o compõem; e inferiormente a cada verso está notado a encarnado o numero do canhão a que se tem de recorrer para encontrar a concordancia.
Capas evangeliarias
. Durante o periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um. Durante o periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um comprimento dobrado ou triplicado da largura. Comtudo já havia n'essa epoca encadernações que se approximavam sensivelmente da fórma quadrada, que foi a que mais tarde prevaleceu.
As capas dos livros romans são de metal e tambem de marfim; acontecendo muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou servindo de caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e com relevos metallicos.
Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos evangelhos são: 1.º O Salvador, sentado ou de pé, lançando a benção e collocado n'uma aureola oval; 2.º A crucificação de Christo; 3.º A Santissima Virgem com o menino Jesus; 4.º Scenas tiradas da historia do Novo Testamento.
Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das capas.
Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, rectangulares, fabricadas em Limoges, representando a crucificação do Senhor, com as figuras accessorias.
Thuribulos
. É provavel que nos primeiros seculos fossem simples vasos com grande diametro e um peso consideravel.
Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.
São d'uma simplicidade notavel; têem, como todos os que se lhes seguiram, a fórma espheroidal.
No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos.
Caldeirinhas d'agua benta portateis
. Estas caldeirinhas serviam para levar agua benta aos imperadores, aos reis e outros grandes personagens no momento em que entravam na egreja. Têem a fórma d'um cóne troncado e invertido.
Geralmente são de pequenas dimensões, não excedendo 20 centimetros em altura.
Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo, representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.
Pentes lithurgicos
. Os padres eram obrigados a pentear os cabellos e a barba antes de celebrar o Officio Divino. O uso dos pentes lithurgicos existiu até ao XVI seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na Sagração dos Bispos.
Os pentes lithurgicos
são geralmente d'osso ou de marfim e tambem algumas vezes de madeira.
Uns são maiores do que outros; os maiores são guarnecidos com duas ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais finissimos dentes. O espaço comprehendido entre as duas ordens de dentes é em geral esculpido. Os pentes de menores dimensões têem apenas uma ordem de dentes, sendo egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.
Cadeiras
. O uso da cadeira,
cathedra
, foi durante, muito tempo considerado como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos temporaes.
No fim do periodo Latino e no começo do Roman, as cadeiras, eram por vezes feitas á imitação da cadeira
curúl
dos Romanos, a qual era formada de duas dobradiças em fórma de X, entre as quaes assentava um coxim. Os ramos das dobradiças d'esta especie de cadeiras romans são ordinariamente terminados, superiormente, por cabeças d'animaes e inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com as cadeiras curúes mais ricamente esculpidas.
As cadeiras romans têem d'ordinario a fórma d'um cofre rectangular, não tendo costas nem tão pouco braços. Adornavam-nas com incrustações de marfim, ouro, prata ou outros metaes; eram estofadas de preciosos brilhantes e damascos. As cadeiras de costas altas são raras.
Baculos pastoraes
. Desde os primeiros seculos que os Bispos empunhavam o bastão pastoral como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este privilegio extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.
Os bastões pastoraes mais antigos eram de duas fórmas diversas: havia o bastão em fórma de muleta e o bastão em
voluta
. O primeiro, pela sua similhança com a letra T (a que os gregos chamavam
tau
) é conhecido pelo nome de
bastão
ou baculo em fórma de
tau
. O cabo ou travessa ordinariamente de marfim é todo esculpido.
Os baculos de
voluta
que ainda hoje existem, datam do XII seculo. A fórma que tinham antes d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas e miniaturas.
Não nos parece que se encont Não nos parece que se encontrem Bispos empunhando o baculo em monumentos cuja data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.
No seculo XII e até mesmo já durante a ultima metade do seculo XI, é que se começaram a usar os
baculos de voluta
. São tambem d'esta epocha os
bastões de metal
ornados de pedrarias d'esmaltes e filigranas.
A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma cabeça de serpente ou de dragão encimada por uma cruz, ou lutando com o Divino Cordeiro armado com o signal da redempção. As volutas terminando em florão são por emquanto raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas que têem representadas scenas historicas.
Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas differentes partes, uma significação symbolica. O baculo representa o bordão do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do abbade no seu mosteiro. A haste é recta para recordar ao Prelado a rectidão da governação; a ponteira de metal é o emblema da justa severidade com que deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade como as almas são attrahidas para o bem pelas consolações. A voluta do baculo voltada para o peito, indica a jurisdicção interna dos Abbades; voltada para fóra, mostra a auctoridade dos Prelados.
Sapatos lithurgicos
. Estes sapatos, que desde os primeiros seculos são considerados como uma das principaes insignias dos Bispos e dos Abbades, tinham o nome de sandalias,
sandalia
, e eram em geral de fórma identica. Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de dois quartos.
A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma especie de lingueta,
lingua
, e quatro appendices,
ligulae
, em fórma de orelhas atravez das quaes passavam os cordões. As seis chanfraduras, formadas por estas orelhas, fizeram dar á gaspea o nome de
coiro fenestrado
,
corium fenestratum
, por affectarem a fórma de aberturas dos rotulos de janellas.
Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma significação symbolica.
As sandalias são guarnecidas, inferiormente, por uma solla e superiormente por um pedaço de cabedal chanfrado ou fenestrado, porque os pés dos prégadores devem ser resguardados inferiormente para se não sujarem nas coisas terrestres conforme as palavras do Senhor―
Sacudi o pó de vossos pés
―; são descobertos pela parte superior para que lhes seja relevado o conhecimento dos celestiaes mysterios, segundo estas palavras do propheta: «Desvendae-me os olhos e considerarei as maravilhas da tua Lei».
A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e até mesmo de pedras preciosas.
Mitras
. As mitras de dois bicos eram desconhecidas até ao fim do XI seculo. D'antes os Bispos usavam algumas vezes uma corôa ou grinalda de laminas de metal, cravejada de pedras, debaixo da qual elles punham um barrete pouco elevado ou um pedaço rectangular de seda ou de tela, cujas extremidades, ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente sobre as costas.
No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da corôa tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma especie de touca ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e pouco tempo depois duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi substituido o circulo de metal por fachas de pergaminho primorosamente pintadas e as extremidades fluctuantes do pedaço de tela por duas fachas compridas e estreitas, que se chamam
fanons
.
Alfaias preciosas
.
Tecidos.
Durante os primeiros seculos da éra christã, os tecidos de seda apenas se fabricavam no Oriente.
Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.
Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de seda no Sul da Hespanha, e a começar do seculo seguinte, a pequena cidade de Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre as costas do Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria de seda, cujos productos da Europa eram procurados.
Em seguida á expulsão dos musulmanos no anno de 1146 ou 1147, as fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha da Sicilia, e o commercio de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e prospero, graças aos intelligentes esforços do rei normando Roger, secundado na sua empreza por operarios trazidos da Grecia na escolta d'uma expedição militar. Os tecidos d'ouro e seda, fabricados na celebre manufactura official de Palermo, e conhecida pelo nome de
Hotel de Tiraz
, foram os mais estimados durante toda a edade média.
Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, são uns lisos e outros ornados de desenhos representando animaes, plantas, flôres e fructos, empregados apenas como decoração, sem a menor intenção de symbolismo. Os estofos produzidos pelas fabricas musulmanas, tinham tambem ás vezes inscripções arabes; aquelles cujas decorações consistiam em assumptos biblicos ou symbolos christãos, fabricavam-se em Constantinopla, na Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.
Bordados
. Os bordados continuaram a usar-se para reproduzirem assumptos religiosos quer em medalhões quer sobre umas fitas que applicavam ás velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de bordar fez consideraveis progressos durante o periodo roman. Encontram-se um grande numero de passamanarias inteiramente executada á agulha «
acula pictae
» no XI e XII seculos.
Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos em seda ou lã fina sobre uma talagarça de tela fina.
Paramentos sacerdotaes.
No principio do periodo roman eram ainda desconhecidas as côres lithurgicas, e só se começaram a empregar no IX seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo tempo que se fixou o seu symbolismo. A côr branca e a vermelha foram as primeiras adoptadas: aquella, como emblema da innocencia e da candura, servia nas festas do Salvador, da Santa Virgem, dos anjos, dos Santos que não morreram martyres e durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da caridade e do heroismo, foi destinado aos martyres bem como ao Pentecostes, festas por excellencia do amor.
No XII seculo duas novas côres vieram augmentar as que já se usavam: o verde, symbolo da esperança, foi empregado aos domingos e nos dias de semana em que se não celebrava festa alguma de Santo e durante o tempo que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o Pentecostes e o Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a sexta feira Santa e para os officios funebres.
A principio, o uso d'estas differentes côres era facultativo; porém desde o final do XII seculo e ainda mais durante o seculo XIII, tornou-se obrigatorio.
Mais tarde, tambem se introduziu o uso da côr violeta, symbolisando
penitencia
, para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.
A
casula
conservou, durante o periodo roman a mesma fórma que até ali havia tido, isto é, a d'uma veste dupla, sem mangas, e caindo livremente á roda do corpo.
As
casulas
mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e bordadas a ouro, prata, seda ou lã, reproduzindo figuras geometricas, flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario, apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas
praetestae
,
listae
ou
augusti clavi
; regularmente são duas, uma na frente e outra na parte posterior. Além do modo decorativo que ellas tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas, egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e atraz, uma Cruz em fórma de Y.
Ha
casulas
antigas que não têem as fachas de juncção que passam sobre os hombros e cuja decoração se resume nas duas fachas verticaes. Algumas vezes tambem estas fachas são substituidas por arvores ou plantas com muitas ramificações.
As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não eram de seda, materia de um preço excessivo n'essa época, mas sim de lã, tela ou outros tecidos mais baratos.
A
estola
consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de lã ou de tela, medindo em geral 2
m
,70 de comprimento sobre 6 a 7 centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta fórma e estas dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem.
As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.
O
manipulo
, que d'antes consistia n'uma especie de toalha, com a qual os padres limpavam as mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, só perdeu a fórma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se tornou um verdadeiro paramento similhante á estola na fórma, côr e decoração.
A
capa
conservou, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinha antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita com um tecido ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por consequencia, não havia capas ricamente decoradas.
A
alva
era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca. Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas
albae purae
ou
simplices
, e as alvas guarnecidas,
albae paratae
ou
frisiatae
. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero, especialmente nos grandes dias de festa.
A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em volta do pescoço, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além de duas orlas parallelas verticaes que lembram as
augusti clavi
dos Romanos, e que descem do pescoço até aos pés, tanto na frente como nas costas.
O
cinto
era geralmente ornamentado com grande luxo.
Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a fórma d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas.
O
amicto
é composto d'um pedaço de panno quadrado ou rectangular, que o sacerdote põe na cabeça, quando começa a revestir-se, e que depois faz descer sobre o pescoço.
Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os havia de seda, e de fio d'ouro.
No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se conservou em uso durante toda a edade média, e que recebeu o nome de―
parura plaga
―e tambem, ás vezes o de―
praetextae
. Este adorno consistia, no seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em torno do pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras preciosas.
A
dalmatica
é o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman, regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e uma abertura para passar a cabeça. Duas faixas verticaes d'ouro ou de côr brilhante se applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se até ao bordo inferior.
Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados até uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em volta do pescoço, e nos canhões das mangas.
O
pallium
constituia entre os antigos o principal paramento de vestir por cima.
Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte principal, e primitivamente essencial, isto é, o manto foi supprimido, e apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se lhe applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em fórma de Y, da mesma maneira que as
listae
em certas casulas.
Durante o periodo Latino já se decoravam as faixas do
pallium
com pequenas cruzes gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio, foram-se multiplicando insensivelmente, e desde o XI que já se contavam muitas sobre toda a extensão das faixas.
Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos
Desde o VIII seculo que se começaram a levantar estabelecimentos religiosos, compostos de numerosas construcções edificadas e dispostas com arte. Havia já egrejas, edificios para alojamento e exercicios dos frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias para os estrangeiros, celleiros, jardins, edificações destinadas aos aprovisionamentos, emfim, habitações e officinas para as corporações d'artistas que as abbadias tinham sempre ao seu serviço.
Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente modificados com o correr dos seculos.
Examinaremos as suas disposições interiores, quando tratarmos do plano das abbadias do periodo ogival.
A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em communidade como os religiosos.
Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das abbadias, contiguos ás paredes meridionaes da egreja, porque a exposição ao sol do meio dia é a mais agradavel e a mais vantajosa para a saude. Por estas razões o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das egrejas, para edificarem os seus claustros.
Todavia, esta regra não era geral: existem muitos exemplos de claustros tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros logares. Estas excepções á regra geral são devidas a differentes causas, taes como a presença de ruas ou de construcções que era impossivel supprimir, e, nos paizes montanhosos, os accidentes do terreno que torneava a egreja.
Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes, compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, rodeado de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e aos conegos.
Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda contínua. Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de ornamentação com as galerias cobertas d'um simples alpendre de madeira, cujo madeiramento só era visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes alpendres substituidos por abobadas de berço com aresta, por baixo das quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.
Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas descendentes das archivoltas são sustentadas por columnas duplas, cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas isoladas alternam com columnas duplas.
Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das abbadias, rodeados de edificações indispensaveis para a vida commum dos conegos.
Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao serviço da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi abandonada pelos capitulos, as habitações privadas dos conegos occuparam, em torno das galerias, o logar d'estes differentes edificios.
A iconographia, isto é, a
sciencia das imagens
, occupa-se das representações figuradas devidas á esculptura e, em geral, a todas as outras artes de modelar.
A gloria, o nimbo e a auréola
. A gloria é um ornamento symbolisando uma nuvem luminosa, que os artistas da idade média põem em torno da cabeça ou do corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do poder. Quando ella não rodeia senão a cabeça, dá-se-lhe o nome de
nimbo
; quando rodeia o corpo inteiro, chama-se
auréola
.
O nimbo derivado da palavra latina (
nimbus
) é um adorno circular, e tambem ás vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam adornar as cabeças das figuras que representam as pessoas divinas, os santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer civil, quer ecclesiastica. É costume collocal-o verticalmente na parte posterior da cabeça. Assim como a corôa é o signal da realeza, assim o nimbo é o da santidade ou da auctoridade.
O nimbo circular ou em fórma de disco é o symbolo de Deus, dos anjos e dos Santos; comtudo, quando circumda a cabeça d'alguma das pessoas divinas, o disco é regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas se vêem tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do nimbo crucifero deve ser vertical, e não inclinada como a cruz de Santo André X. Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra esta regra de iconographia. O nimbo crucifero é o symbolo caracteristico das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam por figuras symbolicas. Assim, por exemplo, a mão, symbolo do Pae Eterno, o cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, symbolo do Espirito Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero.
Os ramos do nimbo crucifero são geralmente bastante compridos e mais largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz é o symbolo dos anjos e dos Santos do Novo Testamento. No Oriente tambem os Santos do Velho Testamento têem o nimbo, mas no Occidente não se segue essa pratica. As personificações das virtudes, das provincias e das cidades têem tambem o nimbo. Elle é egualmente concedido aos Papas, aos imperadores, aos reis, e aos padres quando são representados administrando o Sacramento do baptismo, por isso que elles se acham n'estes casos revestidos d'uma auctoridade suprema.
Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo é muitas vezes substituido pela corôa que se dá ás imagens esculpidas do Salvador crucificado ou da Virgem com seu Filho.
Origem do nimbo
. Os pagãos já faziam uso do nimbo, para ornamentar os seus deuses e imperadores.
Assim se vê Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino e Antonio o Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas que época indicará a introducção do nimbo na iconographia christã? O nimbo parece só ter sido empregado pelos christãos depois da conversão de Constantino. Até este tempo não se conhece monumento algum authentico dos tres primeiros seculos, em que vejamos Christo ou os Santos adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, de data determinada, em que este ornamento se acha empregado como signal iconographico, são os mosaicos de Roma e de Ravêna.
Ora foi da comparação d'estes differentes monumentos entre si que se conheceu terem sido as imagens do Salvador as primeiras que tiveram nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois as dos evangelistas e seus symbolos e emfim as dos Santos e dos soberanos. As imagens de Nosso Senhor começaram a ter nimbo desde o principio do IV seculo; até ao VI seculo se vê o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima Virgem e os anjos começaram a ter nimbo desde os primeiros annos do seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo seculo, os Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana no começo do seculo seguinte.
Auréola (palavra derivada do latim
aura
,
vento suave
,
sôpro luminoso
) é uma especie de moldura que envolve todo o corpo como se fôsse o nimbo do corpo inteiro.
Os artistas da edade média dão auréola ás tres Pessoas Divinas e á Santissima Virgem e tambem ás almas dos Santos e principalmente á do pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente nú. A alma é assim deificada no momento em que volta ao seio do Creador.
Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca têem auréola.
Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na auréola, os seus pés assentam em geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco similhante.
Estes arco-iris são muitas vezes substituidos, o primeiro por um escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. Sendo a auréola mais recente do que o nimbo, caíu comtudo em desuso primeiramente do que este ultimo.
Representações da Santissima Trindade
. Durante o periodo roman eram as pessoas da Santissima Trindade representadas de varios modos.
1.º―Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens, representavam-se estes com fórmas inteiramente similhantes. Ás vezes tambem o Deus Filho se representa nos pés ou nas mãos, e o Espirito Santo é representado com a fórma d'uma pomba. As pessoas Divinas quando se representam com fórmas humanas, têem sempre nús os pés.
2.º―Tambem empregavam a representação do baptismo do Senhor nas aguas do Jordão, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.
3.º―Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a Santissima Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um arco-iris, tendo nas mãos uma cruz na qual está crucificado o Salvador; o Espirito Santo, representado por uma pomba, apparece entre a bôca do Pae e a do Filho, para mostrar que o procede tanto d'um como do outro. Este typo foi conservado durante toda a idade e mesmo até aos XVI e XVII seculos.
Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da procissão do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no braço da cruz ou no hombro do Pae.
Representações das tres Pessoas Divinas
.
Deus Pae
. Até ao seculo XI, nunca se attribuiram a Deus Pae fórmas humanas. A sua presença era apenas indicada por uma mão saindo das nuvens. Esta mão symbolica, primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou crucifero, encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois no XI seculo que Deus Pae começou a ser representado sob fórmas humanas.
Deus Filho
. Quando tratámos da iconographia das catacumbas, dissémos que, durante os tres primeiros seculos, só se representava o Salvador, debaixo das fórmas symbolicas ou das scenas historicas. Já no IV seculo se encontram imagens isoladas do Salvador. Até ao X seculo, Christo representa-se muitas vezes com as feições d'um mancebo de quinze a vinte annos, sem barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade Divina; só excepcionalmente Christo tem barba e parece não ter mais de vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os artistas dão-lhe uma expressão mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter trinta a trinta e cinco annos.
Deus Espirito Santo
. Até meiado do X seculo foi sempre representado com a fórma d'uma pomba; mas no XI e XII seculos começou tambem a ser figurado com a fórma humana.
A cruz e a crucificação
Considerações geraes
. A historia da representação da crucificação póde resumir-se dizendo que este assumpto não se encontra sobre os monumentos christãos e outros objectos do culto anteriores á conversão de Constantino; a cruz apresenta uma fórma dissimulada.
No IV seculo, a cruz fez a sua apparição na iconographia christã. Desde a conversão de Constantino foi então que appareceu sobre um grande numero de monumentos; mas até ao VI seculo ainda não tinha a imagem de Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e ás vezes circumdada por uma auréola.
No VI seculo começam então alguns artistas christãos, ainda que timidamente, a representar o Salvador sobre a cruz. Primeiramente servem-se do Cordeiro symbolico, que elles representavam de differentes maneiras com o signal da redempção. Tambem se vêem cruzes tendo ao centro, e ás vezes nas extremidades dos braços, uns medalhões com o Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador Triumphante.
Desde o VI até ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a cruz com o fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a minima idéa de soffrimento ou d'opprobrio.
Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e Triumphante, apesar de ser manifesta a idéa de soffrimento.
Do XIII ao XV seculo, os artistas christãos, tendo mais ou menos em vista o symbolismo das épocas precedentes, esforçam-se por patentear realmente os soffrimentos do Divino Crucificado.
Durante o periodo do renascimento, o culto da fórma e da realidade constitue por assim dizer a unica preoccupação do artista, que, dominado pela idéa de expressar uma dôr vulgar ou de representar um corpo morto ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre symbolismo.
A historia das representações da cruz e do crucifixo comprehende, pois, duas épocas distinctas: a primeira, que durou desde o IV ao XII seculo inclusive, tem por caracter distinctivo a representação glorificada do instrumento da Paixão e da Victima, sem signal de que se tivesse prestado voluntariamente; a segunda, que começa no XIII seculo e termina no XIX, é caracterisada pela expressão dos soffrimentos do Divino Salvador.
A época do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do renascimento.
No IV seculo a cruz é frequentemente encimada por um monogramma inscripto em uma corôa. Quando não tem o referido monogramma, (o que se dá principalmente desde o V seculo) ou tem os braços eguaes e mais largos nos extremos, ou é ornada de perolas em renques, ou ornada de flôres e folhagens, ou rodeiada de auréola. Ha todo o cuidado de apresentar na cruz qualquer idéa d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz não é o instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento da Redempção do genero humano.
Estas diversas fórmas de cruz continuaram a usar-se até muito antes do periodo Roman.
Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do Salvador crucificado. Porém, entre a cruz simples e o Cruxifixo encontra-se uma série de monumentos intermediarios, offerecendo a cruz associada ao Cordeiro symbolico.
Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do VII seculo.
Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado á cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes são a miniatura do celebre manuscripto syriaco de Florença, do anno 586, e muitos objectos enviados por S. Gregorio o Grande, a Theodolinda, rainha dos Longobardos e conservados hoje no thesouro de Monza. Alguns d'estes ultimos mostram-nos claramente Christo na cruz, ao passo que outros, taes como os frascos de chumbo, que continham liquidos recolhidos dos tumulos dos martyres, não fazem mais do que relacionar a imagem de Christo com a cruz, d'uma maneira muito mais sensivel do que a cruz do imperador Justino e outros objectos similhantes. Tres d'estes curiosos frascos têem ao meio da face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual se acha o busto do Salvador entre as personificações do Sol e da Lua; aos lados da cruz vêem-se dois adoradores, os dois ladrões, a Santissima Virgem e S. João; inferiormente está figurado o Anjo e as Santas mulheres ao pé do tumulo de Christo.
No reverso acha-se a Ascensão do Senhor, nos dois lados do gargalo uma cruz grega de braços eguaes debaixo d'um arco de triumpho e inscripto n'uma corôa folheada. Sobre o quarto frasco figuram scenas symbolicas analogas: está Nosso Senhor em pé entre os dois ladrões, tendo os braços estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que não se vê na face principal, é comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um arco de triumpho, e cercado pelas cabeças dos Apostolos inscriptas em medalhões circulares e formando uma especie de corôa. Conclue-se, pois, que o artista christão foi obrigado primeiramente a não representar a menor idéa de opprobrio e de soffrimento; para isto elle transformou a cruz tornando-a de braços eguaes, ornando-a de folhagens e metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz affirmar o triumpho alcançado com a morte, por Aquelle que morreu sobre a cruz, recordando a Resurreição e Ascensão do Salvador.
Os crucifixos primitivos não têem quasi nunca Christo esculpido em alto relevo.
Christo está vestido com um
colobium
ou tunica, ordinariamente sem mangas, que chega até aos pés. O uso d'esta longa veste serviu exclusivamente durante o VII seculo e generalisou-se no IX seculo. N'esta época foi substituida por uma tunica larga cobrindo os rins do Salvador.
Christo tem sempre a cabeça elevada ou ligeiramente inclinada para a direita e os braços estendidos e perfeitamente horisontaes. Os pés estão pregados separadamente á cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem supprimidos os cravos com a intenção manifesta de significar que o Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente sobre a cruz para a redempção dos homens.
Desde o VI seculo até ao VIII, a scena da crucifixão é muitas vezes acompanhada de personagens e outros accessorios fundados na verdade historica, mas que se representam, bem como a imagem de Christo, de uma maneira symbolica. Assim vemos a Santissima Virgem e S. João, o phariseu que empunha a lança e o que segura a esponja, o Sol e a Lua, a resurreição do Salvador, o bom e o mau ladrão. Todos estes accessorios, com excepção do bom e do mau ladrão, se encontram ainda representados nos crucifixos do seculo VIII.
O sacrificio da crucifixão e os crucifixos do
seculo
IX até ao XII, apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os pés conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do outro e assentes geralmente em um―
suppedaneum
.
Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando Christo com os pés
sobre-postos
.
Christo poucas vezes se encontra vestido com o
colobium
; apenas em geral tem á volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que lhe cobre o corpo desde os quadris até aos joelhos. Nos seculos XI e XII, esta toalha tem muitas vezes a configuração d'uma pequena saia que se chama―
perizonium
.
A Cruz tem geralmente quatro ramos.
Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripção alguma; outras, nem mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma pequena travessa de madeira rectangular. As inscripções costumam ser variadissimas.
Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham a Cruz, são historicos, isto é, a sua presença é justificada pela narração dos proprios Evangelistas. No IX seculo começaram então a apparecer os crucifixos com figuras allegoricas, taes como a Egreja, a Synagoga e as personificações da Terra e do Oceano. Vamos, pois, tratar successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas representações, começando pelos accessorios historicos, visto que elles se empregam desde o VI seculo.
Personagens e accessorios historicos
A Santissima Virgem e S. João
.―Santa Maria está á direita e por debaixo da Cruz, e o Apostolo em posição analoga, mas á esquerda do Salvador. Só muito raramente se encontram ambos do lado direito, como succede na miniatura de Florença.
Ordinariamente estão como que erguendo os braços ao Salvador ou occultam o rosto em signal de dôr com a mão núa ou escondida na ponta do manto. A Santissima Virgem tem a cabeça envolvida em um veu e os pés calçados, em quanto que S. João, de cabeça descoberta e com os pés descalços, tem nas mãos um livro.
O phariseu que empunha a lança e segura a esponja
.―Ha uma piedosa tradição, desde a idade media, em que se diz que o guarda que feriu o Salvador com uma lançada, era um pagão chamado
Longino
, que mais tarde se fizera christão, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.
Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre parece ser um judeu.
O Sol e a Lua
.―No seculo VI, tambem estes astros começaram a ser representados no sacrificio da crucifixão, vendo-se o Sol á direita e a Lua á esquerda do Senhor.
A presença do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, parece ter por fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que subitamente se deram em seguida á morte do Salvador.
No seculo IX, a significação, ainda limitada e puramente historica d'este assumpto, foi amplificada com outra mais allegorica, desde esta epocha. O Sol e a Lua não alludem sómente á obscuridade que envolveu a terra por occasião da morte de Christo, simulam tambem o firmamento assistindo e tomando parte na morte e no triumpho do seu Creador.
N'este mesmo seculo os dois astros são quasi sempre personificados e representados por um homem e uma mulher. A personificação do Sol tem regularmente a cabeça cingida de raios luminosos, a da Lua é em geral encimada por um crescente. Uma e outra teem ás vezes um facho.
As santas mulheres chegando ao tumulo do Salvador
.―Desde o VI até ao XII seculo, apparece muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a approximação, ao tumulo, das tres santas mulheres, Maria Magdalena, Maria, mãe de S. Thiago, e Salomé. Ellas seguram jarros, thuribulos ou outros vasos, e estão diante do Anjo, sentadas, não dentro do sepulchro, como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes figuram-se tambem soldados desfallecidos ou adormecidos.
A reproducção d'esta scena na parte inferior da Cruz era para pôr em parallelo a humilhação e a glorificação do Salvador, a sua morte sobre a Cruz e a sua resurreição gloriosa.
A resurreição dos mortos e a sua sahida do tumulo
.―Durante o seculo IX figurava-se muitas vezes ao pé da Cruz a Resurreição dos mortos que se deu por occasião da morte de Jesus Christo, segundo narra o Evangelho.
Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados têem a forma de pequenos edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente d'um frontão triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada havia que mais se prestasse a proclamar a victoria alçada contra a morte de Nosso Senhor expirando sobre a Cruz, como a Resurreição dos mortos.
Personagens e accessorios allegoricos
A Egreja e a Synagoga
. Desde o seculo IX até ao XII encontram-se, sobre a maior parte das representações do Sacrificio da Cruz, personificações da Egreja e da Synagoga. Tinham ellas por fim recordar aos Christãos a reproducção do povo d'Israel e a vocação dos infieis á Fé da Egreja Christã. A Egreja, quasi sempre á direita da Cruz, é representada por uma mulher com uma bandeira e aparando n'um calix o sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita no lado direito. A Synagoga é representada por uma mulher com uma bandeira e tambem ás vezes uma palma. Está collocada á esquerda do Salvador com as costas voltadas para o Senhor, e algumas vezes parece afastar-se lançando olhares d'insulto e de cólera.
O Oceano e a Terra
.―Os artistas romans collocavam frequentemente sobre o marfim e sobre as miniaturas dos manuscriptos, no pé da Cruz ou inferiormente a toda a composição, as personificações do Oceano e da Terra tiradas da mythologia.
O Oceano, geralmente collocado á direita do Salvador, é representado por um homem barbado, sentado sobre um monstro marinho, ou despejando uma urna; tem na mão um remo, um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de Neptuno, e na cabeça chavelhos em fórma de serpentes, e tambem, ás vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra com a fórma d'uma mulher, semi-nua, segurando, e até amamentando creanças ou serpentes, muito proximo d'ella; ás vezes mesmo, n'uma das mãos, vê-se uma cornucopia.
As personificações do Oceano e da Terra collocavam-se perto da Cruz, primitivamente, como acima dissemos, para exprimir a dôr que a Natureza soffreu com a morte do seu Creador; e mais tarde, para mostrar que todo o Universo partilhou da Redempção operada pela morte do Salvador.
A mão Divina e a pomba
. Muitas vezes vê-se na extremidade superior da Cruz uma mão, com ou sem nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e segurando uma corôa. Esta mão é o symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que a pomba, que se vê sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.
Os Anjos
. Superiormente á travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol e da Lua vêem-se ás vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de adoração. Algumas vezes suspendem sobre a cabeça do Salvador uma corôa. Nos monumentos mais remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente se vêem os anjos, são estes em numero de dois e designados pelos nomes de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo á morte do Salvador.
Os Evangelistas
.―Anteriormente ao IX seculo, nunca se representavam os Evangelistas do lado principal aos crucifixos, mas sim nas quatro extremidades do reverso, tendo no centro a imagem da Santissima Virgem. A razão d'isto é porque n'esta epocha não se admittiam no sacrificio da Cruz senão accessorios puramente historicos.
No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.
Encontram-se ora por cima dos braços horisontaes da Cruz, com os anjos e os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que forma a moldura da scena principal. Tambem ás vezes se encontram, tanto no IX como no XII seculo, no lado principal dos crucifixos, nas extremidades dos ramos.
O Calix
. Encontram-se crucifixos em que o
suppedaneum
é substituido por um calix.
É muito provavel que este calix não seja mais que o
Santo Graal
,
[3]
tão celebre na idade mèdia. O
Santo Graal
diz-se que servira á Ceia; foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho pelo seu proprio sangue.
Adão sahindo do tumulo
. Esta scena representa-se muitas vezes proximo da Cruz, para significar que a resurreição da carne é uma consequencia da morte de Christo.
O sacrificio da Cruz, desde o IX até ao XII seculo, com os seus accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a Natureza Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio do Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a Synagoga reprovada, a Egreja formada, a cabeça da serpente infernal esmagada, o genero humano rehabilitado e recebendo o testemunho da Resurreição da Carne.
Os crucifixos dos seculos XI e XII
. Existem muitos d'estes crucifixos; apresentam os seguintes caracteres:
A imagem de Christo é, em geral, de cobre vermelho; tem, quasi sempre, os olhos de vidro azul.
O perisonium
, ou a toalha que cobre o corpo de Christo desde os quadris até aos joelhos, toma ordinariamente a forma d'um saiote cujas orlas são ornadas de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos de tunica comprida com mangas ou com o
perisonium
em forma de saiote, que lhe chega até aos pés, são extremamente raros.
Nos crucifixos do XI seculo
, Christo está muitas vezes coroado com uma especie de gorra ou corôa real. No XII seculo, já a gorra e a corôa se tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.
Os braços das cruzes
que teem imagens de Christo, são geralmente ornados com esmaltes e symbolos, tanto no reverso como na frente principal.
Cruzes da Paixão e Cruzes da Resurreição
. A Cruz da Paixão é formada por uma haste e uma ou duas travessas e representa ou imita as proporções das differentes partes da Cruz, instrumento de supplicio.
A Cruz da Resurreição
é apenas um symbolo da Cruz Real ou da Paixão; é uma pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino Cordeiro.
A Santissima Virgem
. Durante os doze primeiros seculos da nossa era representa-se a Virgem umas vezes sósinha e outras acompanhada do Divino Filho.
A Virgem sem o Menino Jesus
tem ordinariamente os braços estendidos e erguidos parecendo orar e perto da cabeça está inscripta a sigla MPOY, isto é:
Mãe de Deus
. Este modo de representação, muito usado desde o IV até ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos seculos seguintes.
A Virgem com o Menino Jesus
. Ha duas maneiras de representar a Virgem com o Menino. Quando a scena é imaginada para prestar homenagem a Nossa Senhora, diz-se que ella é
poetica
.
Quando os reis magos, por exemplo, vêem trazer os seus presentes a Jesus no collo da Santissima Mãe, a scena é puramente historica.
Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo historico é o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas da vida do Senhor, principalmente na adoração dos reis Magos.
O grupo poetico póde reduzir-se a dois typos distinctos. O primeiro que chamaremos
grego
ou
bysantino
, consiste em representar a imagem da Virgem com os braços erguidos como que orando, tendo diante de si o Menino Jesus, lançando a benção, ao modo Grego, com as duas mãos, ou só com a direita. Este typo já se encontra nas catacumbas.
Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos ainda hoje se empregam.
O Guia da pintura
(manual iconographico, adoptado pelos antigos pintores e ainda hoje seguido pelos Gregos), recommenda que se represente Nossa Senhora com as mãos erguidas e Christo lançando a benção para ambos os lados, com o evangelho sobre o peito.
No outro typo do grupo
poetico
, a Santissima Virgem é representada umas vezes de pé com o Menino Jesus nos braços, outras sentada tendo-o sobre os joelhos.
Dá-se a este typo o nome de Occidental, não porque elle fôsse desconhecido pelos Gregos, pois que o usavam conjuntamente com o typo
bysantino
, mas por que foi este o unico usado no Occidente durante toda a idade média. Foi introduzido ou pelo menos generalisado insensivelmente na iconographia christã depois da condemnação de Nestorio pelo Concilio de Épheso, celebrado em 431. Este heresiarcha negava que Nossa Senhora fôsse mãe de Deus.
Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora, representavam-n'a com o Menino Jesus nos braços, e muitas vezes acompanhada da inscripção Η ΑΓΙΑ ΟΕΟΤΟΚΟϚ, isto é,
Santa Deipara
, ou a
Santa Mãe de Deus
.
Em geral Nossa Senhora está sentada com o Menino Jesus sobre os joelhos, lançando a benção, pelo menos, com uma das mãos.
Durante todo o periodo Roman estas representações de Nossa Senhora e do seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade e nobreza de sentimento como quasi se não encontra nos seculos seguintes.
A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus completamente vestido, não estando entretido com sua Divina Mãe, mas sim abençoando aquelles que lhe vêem prestar homenagem. Tem nas mãos uma esphera ou mais geralmente um livro, ou um rolo,
volumen
, symbolo da doutrina da nova Lei dada ao mundo.
Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os artistas occidentaes tambem conservaram esta tradição durante algum tempo, mas, a começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma corôa real e algumas vezes uma especie de gorra.