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Raios de extincta luz

IBERIA

Reading edition

I

Flor dos povos! oh tu que inda te embalas, E inda em botão, aos ventos do futuro! Que tens por vazos e jardins e salas Toda a vasta extensão do tempo escuro! E frontes gloriosas a adornal-as, A fronte da historia, o grande auguro! Lirio que saes do seio á humanidade Como filha melhor—Fraternidade!

Deixa que escreva aqui teu nome todo, E já d'aqui aspire teu perfume! E, arredando co'as mãos o frio lodo Do presente, me aqueça a esse teu lume! Deixa beijar-te em sonho, e d'este modo Trazer-te unida ao seio, que consumme Esta ancia ardente de destino novo, E este fogo roubado ao seio do povo!

Porque te vemos só quando sonhamos… E, irmã! só nos sorris em nosso somno… E, a dormir, doce amiga, te beijamos! Tu—só em nossas almas—tens teu throno Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos, E, como um cão fiel segue o seu dono, Trazemos ante o olhar tua lembrança, E caminhamos cheios de confiança!

Fraternidade! esta palavra é suave, Como antegosto de melhor destino! Como a onda de um Ganges que nos lave! E como a pósse de um penhor divino! Como o vôo sereno de uma ave Que, sendo apenas ponto pequenino, Emtanto faz, transpondo ao longe um monte, Sonhar com melhor céo e outro horisonte!

O grande céo! o céo da humanidade! Onde os povos serão constellações, E, destillando a luz da liberdade, Serão astros e estrellas as nações! Onde hade o grande laço da egualdade Reunir a vontade e os corações! Cobrindo-os, a dormir, os mesmos céos, Terão todos tambem o mesmo Deus.

Não vejo outro Evangelho de ouro escripto Dentro no homem,—nem sei que outro areal, Outro cabo, outro monte de granito, Do grande navegar surja a final! Guiados pelo instincto do infinito É para lá que os povos—náo real!— Hão a prôa virar lá quando um dia Marearem pela bussula harmonia!

II

Hãode então, como irmãos, reconhecer-se Os amigos—ha tanto tempo ausentes! Hão então (caso novo e estranho!) ver-se Face a face as nações, sem que dementes As entranhas se rasguem! e hade lêr-se Um protocolo, em letras de ouro, ingentes, Escripto, sem emenda e sem errata, Por mãos do amor—o grande diplomata!

III

Elle é quem concilia as differenças, Quem nos concilios hade erguer a voz, Tirando nova ideia e novas crenças Das esfriadas cinzas dos avós! E, sem trabalhos, e sem dôres immensas, E sem rios de sangue e pranto após, Rasgando o ventre á velha liberdade Sairá á luz a joven Egualdade!

É doce vêr assim, á luz da esperança, Pelo futuro dentro, as cousas bellas… Prevêr do céo humano essa mudança, Que em sóes converte as minimas estrellas! Do passado infeliz eis a vingança! E dos mortos as faces amarellas, Córando de ventura e de alegria, Hãode surgir, emfim, á luz do dia!

IV

E nós tambem, tambem commungaremos Na grande communhão das novas gentes: Tambem os nossos braços ergueremos —Braços livres de jovens impacientes— E o cinto d'este Velho quebraremos, De aonde a espada e o sceptro estão pendentes, (Já tão gastos!) lançando-os á ribeira… Para o coroar de palmas e oliveira!

Hespanha—irmã! que boda alegre a nossa! Como hãode então teus seios palpitar! Que ribeira de lagrimas tão grossa Teu branco véo de noiva hade estancar! Como hade parecer pequena poça Para os banhos, então, o grande mar! E entornar-nos volupia nos desejos O mixto de odio antigo e novos beijos!

………………………………….

Mas tu 'stás presa!… e nós… 'stamos dementes! Separa-nos o abysmo! os teus algozes… A cruz de Ignacio… e as garras inclementes Dos leões orgulhosos e ferozes… E a estupidez do povo dos valentes, D'estes pardaes de atroadoras vozes… Entre nós nos cavaram oceanos… Sejam-lhe ponte os corpos dos tyrannos!

Porque beijas teus ferros, pobre louca, E cuidas 'star beijando cousa santa? E, tendo em tuas mãos cousa tão pouca, Tão tenue como a capa de uma santa, Pensas avassalar a terra amouca, E te ergues com vaidade e gloria tanta? Oh! tu, cuidando os orbes abraçar, Só ruinas abraças—Throno e Altar!

Lembre-te a voz do Cid! a atroadora Voz que se ouvia ao longe nos combates! Porque tu estás feita psalmeadora No côro das egrejas—porque bates No peito, em vez de erguer dominadora A tua mão em meio de combates, E livre e bella, oh Hespanha, olhar os céos Procurando por lá teu novo Deus!

V

Como nos amaremos, doce amiga! Como então amaremos! que noivado O nosso não será!… Não tem a espiga No campo côr melhor, nem mais doirado Esplendor, do que tu, bella inimiga. Hasde vêr a ventura… quando o estrado Do leito nupcial fôr Liberdade, E fôr docel o céo—Fraternidade.

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