XXXII FIAT LUX!
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FIAT LUX!
(POEMETO)
Et terra erat inanis et vacua.
Tinham os astros já mil annos,—tinham Talvez cem mil—ou tinham um minuto— (Pois quem sabe contar horas ou seculos No relogio—que tem o firmamento Por quadrante,—e algarismos, sóes e estrellas?)
'Stavam ha muito ali. O velho Cahos, O oleiro do infinito, que entre as duas Mãos—o tempo e o espaço—os amassára, Cansou por fim tambem de fazer mundos, Não tendo já mais barro, nem mais raios Com que o barro pintar.
Ora, limpando As mãos, que estavam sujas do trabalho, E esfregando uma palma contra a outra, Soprou depois os restos, sem vêr onde, Por esse abysmo além.
Oh pó de mundos! Migalha dos banquetes do Principio! Triste parto das sombras, atirado Sobre o berço de luz do firmamento! Morcêgo horrivel, meio tonto e cego, Cahido no salão de lustres de astros!
O pó soprado, informe bola escura, Como filho engeitado, que se esconde Pela sombra dos muros, foi rolando Pelos cantos do espaço, involto em trevas… Que o não vissem os sóes.
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E foi descendo, Extranho, negro, horrivel, monstruoso. E, quanto era maior a treva, ainda Mais o medo crescia que o olhassem… E mais o horror de si o endoudecia… E mais girava, immenso já de inchado De terror e delirio!
Os grandes astros Como um viveiro immenso de fulgores Atiravam, de sol em sol, as notas Do eterno concerto…
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E foi rolando, Vertiginoso e bebado de horrores!
O feio, ebrio da mesma fealdade! O mal, possesso do seu mal! As trevas Cheias de medo de se vêr tão negras!
E o firmamento arfava n'um delirio De harmonia e ventura! O espaço ardente Suava luz—girando no infinito— Pelos póros do céo… que são estrellas.
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Oh! como a ave da noite eterna, ao vêr-se Dentro do dia eterno… endoidecia! Como rolava tonta a um lado e ao outro Batendo as duas azas—Sombra e Espanto,— Por todo esse infinito já não via Um só buraco que a escondesse!
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O Abysmo —Escravo, mas heroe—chorava mudo… E engulia os soluços. Despojado, Que lhe havia elle dar?
Os outros riam.
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Oh! a belleza é cruel! A altura é fria! E impiedosa e feroz! A ave aérea Não tem dó do insecto! A virgem branca Pisa o negro reptil! o louro infante Crucifica o morcêgo! Os astros de ouro Viram a Terra assim… e não choraram!
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Um riso louco, então, feito de raios Infinitos de luz, encheu o espaço! O giro das espheras cambaleava E estorcia-se, doido, em grandes frouxos De hilaridade e brilho! E o écco eterno Que em vez de voz, repete os esplendores, Confuso co'as mil ondas tumultuosas Parecia tempestade de harmonia.
Todo o céo se inclinava, incendiado N'uma aurora boreal prodigiosa, Vendo o truão horrivel do infinito!
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Foi então que o Abysmo, o triste escravo Dos senhores da luz—partido, oppresso Co'a immensa dôr d'aquelle rir,—não pôde Suster-se mais.
Ouviu-se desde baixo Vir subindo um suspiro—e quantos éccos Da antiga confusão ha 'hi no espaço: E todas as tristezas que ficaram Dos combates de outr'ora: e os soffrimentos De quantas luctas houve, antes do tempo: E essas mil dôres, e essas mil torturas, Que custou cada sol: todo esse inferno De negrumes, que o céo lançou, despindo-os, Quando quiz ser só luz… de ais e gemidos Quando quiz ser só canto… a parte infame Que na injusta partilha coube ao Abysmo… Tudo isto, no suspiro do captivo, —Triste, mas grave; queixa, mas não súpplica… Antes accusação,—na voz debaixo Tudo isto ali subiu!
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Os grandes astros Enfiaram de pasmo e emudeceram! E, se em seios de luz ha 'hi remorsos, Sentiram-no n'essa hora…
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Então abriram-se As portas do silencio—e, como um sôpro Que agitasse as espheras, voz sem timbre (Se ha ouvir…) se ouviu: «Quem faz chorar o Abysmo?»
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Oh! o grande bem e a grande formosura, Que tendo a estrella e o céo, inclina a face Para a grande abjecção! A Aurora immensa, Que quer saber quem escurece a Treva! A ventura sem fim, que se conturba Porque a desgraça soffre!
O Abysmo horrivel Sentiu que seus mil males vacillavam, Sobre a base da eterna injúria, e se íam Co' esse sôpro de amor.—E estranho, e pávido, Duvidou se soffria e teve, em sonho, Como visões do céo d'onde o lançaram… E quasi perdoou…
'Stava adorando!
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Oh, gotta de piedade, que adoçaste Aquelle oceano de injustiça! Oh, lagrima Teda feita de bem!… Bebeu-te o Abysmo!
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E a Terra informe viu.
Como o silencio De algum poço—que o fundo das montanhas Guarda velado pela treva—pode Ouvir, cheio de horror, o écco primeiro De uma pedra descendo: como o centro Da mina pode vêr o alvião primeiro Que a abre de par em par,—assim a Terra Viu a coisa sem nome que descia Pelo infinito abaixo.
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Olhou transida. Era uma Mão—que parecia treva, Tanto brilhava! E vinha-se alongando Com cinco dedos—cinco continentes De luz—fixa, sem côr, indefinivel, Leviathan de brilho, pelo ether Descia—e as ondas de harmonia erguiam-se Como em tormenta de espleddor—horrivel… Tanto era bello!
Ao longe, ao longe, ao longe, 'Té aonde a visão abre os espaços, A orla do infinito radiava.
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E cada sol, e cada estrella, vendo Aquella Mão descer, dizia—Certo Que me vem afagar!—E estremecia.
E a Mão passou em face das estrellas… Mas não as viu.—Passou o grande côro Dos sóes… e não os viu.—A via-lactea… E não a viu.—E foi seguindo ávante.
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Lá onde o escuro é tanto que suffoca O tempo, no nevoeiro esquecimento, Onde em vaga fronteira se confundem O sêr e o não sêr—lá para o extremo, É onde a Mão já ía…
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E os grandes astros, De sol em sol, de um horisonte ao outro, Inquietos, através do ether immenso, Lançavam vozes de ouro, perguntando «Onde vae o Senhor?»
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E a Mão descia.
Já não havia mais. Tinha chegado Por defronte da Terra. E n'essa hora Dois infinitos—um de horror, e o outro Infinito esplendor, se contemplaram.
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E os astros de ouro pelo céo disseram: «Eis que Deus vae brincar tambem co'a Terra!» E a Mão estava.
E a Terra negra olhava-a, Como um selvagem um espelho; o susto Co'o prazer inefavel combatiam-se Lá dentro… e a massa informe estremecia.
Convulsa se agitava. Fascinada Parecia recuar… e approximava-se! E, n'um ultimo esfôrço, dando um salto Enorme, por fugir—cahiu no centro D'aquella Mão.
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E os astros murmuravam Aos sóes: «Certo que Deus a precipita!»
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Mas a Mão não se abriu para lançal-a. Os grandes dedos sobre a massa horrivel Se fecharam. Pareciam, sobre o corpo Tenebroso, que tinham apertado, Cinco chagas de luz.
E consultaram.
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Os cinco dedos entre si disseram: «Que havemos nós fazer a isto?» E todos Immoveis ali estavam.
E entre os dedos D'onde—bem como um sapo entre os dois seios De uma virgem—a Terra olhava o espaço, Pareceram-lhe ao longe os grandes astros Como pontinhos negros.
Um segundo Roubado á eternidade é quanto basta, Quer se seja morrão, quer seja estrella.
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Então a grande Mão abriu-se e disse Á Terra: Vae!—E como aguia sublime Desde os Alpes se atira, a Terra ergueu-se, Levando um vôo immenso entre as estrellas!
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Viam-se-lhe luzir no dorso negro Cinco traços de luz! Leito de brilho Aonde os cinco dedos se poisaram! E lepra de esplendor!
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Rolou no espaço.
E os astros entre si se consultaram: «Dar-lhe-hemos nós logar?»
E o Sol altivo Fallou e disse:—Eu vejo-lhe no dorso Uma mancha de luz—a Natureza!
E a Lyra disse:—Eu vejo-lhe outra fórma Resplendente—é Idéa!
E Vesper disse: —Eu vejo-lhe um signal de affago—é Alma!
E Venus disse:—Eu vejo reluzir-lhe Uma cicatriz de luz—é Amor!
E disse, Então, o Sete-estrello:—Eu adoro-lhe Como o sitio de um beijo do Eterno… —É Immortalidade!
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E o côro immenso Abriu-se e deu logar á Terra escura, De cuja face cinco grandes f'ridas Gottejavam a luz—a Natureza, Que tem de Deus a força; a Idéa, filha Da immensidade d'elle; a Alma, eterna Como seu sêr; o Amor, que é olhar d'elle; E a Immortalidade luminosa, Que é o berço onde n'elle repousámos.
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…………………………………. …………………………………. …………………………………. E, agora, oh Terra! que és, entre mil rodas, Uma roda do carro—vae rolando E desprende, ao rodar por sobre o tempo, Tuas cinco faíscas prodigiosas, Pela estrada do Sêr—a Eternidade!
Bussaco, Outubro de 1863.