PERSONAGENS
Reading edition
O Marquez de Marialva, 72 annos Sr. Rosa
Manuel Simões, mercador, 69 annos Sr. Theodorico
Gonçalo Mendo de Sendim, da casa de Mendel, tenente de dragões de Campo Maior, 33 annos Sr. Tasso
Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage, cadete do regimento de Setubal, 19 annos Sr. Santos
Bartholomeu Tojo, morgado da Gesteira, 44 annos Sr. Cezar
Sebastião de Brito Louzellos, commendador de S. Marcos de Monsarás, 52 annos Sr. Izidoro
Francisco Pedro Simões, filho do Manuel Simões, 26 annos Sr. Coelho
Um Transeunte Sr. Corrêa
Zé da Moita, guarda de montado, 30 annos Sr. Pinto
Luiz Manuel, escudeiro, 65 annos Sr. Moreira
D. Maria Joanna Galvão Lobo, morgada de Valmoreno, Fresnos e Carregueiros, 23 annos Sr.^a E. Adelaide
D. Felicia Moutoso de Cerqueira, morgada da Torre da Palma, 48 annos Sr.^a Delfina
Maria Gertrudes, sua afilhada, 20 annos Sr.^a Marianna
Tia Paschoa do Espirito Santo Sr.^a Maxima
Tia Vigencia da Purificação Sr.^a C. Emilia
Uma Palmilhadeira. Sr.^a Maria das Dores
Compadre Theotonio Alves Sr. Marcolino
Compadre Amancio Pires Sr. Sargedas
1.^o} { Sr. Amaro 2.^o} POETAS { Sr. Polla 3.^o} { Sr. Soller
1.^o} { Sr. Vencancio } MANCEBOS { 2.^o} { Sr. Christiano
O alcaide do bairro do Rogio Sr. J. Antonio
O tabelião
Um cavalheiro
O Almeirão } } Picadores O Gaeta }
Um cego, pregoeiro de impressos Sr. Farruja
Um Volantim
Um penitente
Um escudeiro do Marquez.—O mouro do Marquez.—O escudeiro de D. Felicia.—Povo.—Convidados.—Damas.—Ronda do Alcaide—Criados, etc.
1785 a 1786
O COMMENDADOR (atrás de D. Maria Joanna, do mesmo modo)
Bem… bem diz Xenophonte!… Nem eu sei o que diz! (Deixa-se ir meio desfallecido sobre outra cadeira á entrada da porta do F.)
(Silencio geral. Cada um dos tres personagens procura resfolegar e reanimar-se.)
D. MARIA JOANNA (como tornando a si.) (Para os dois)
Que foi isto?… Como foi isto?…
MORGADO
Pois não sentiu?—Um tiro… tropel de cavallos…
D. MARIA JOANNA
E desappareceu tudo!… E deixaram-me só!… (meio reprehensiva) E o primo a fugir!
MORGADO (levantando-se)
Fugir eu, minha prima!… (Formalisado.) Fugir!… Seria a primeira vez.
D. MARIA JOANNA (recobrando gradualmente o bom humor)
Pois para a primeira não o fazia mal.
MORGADO
Avistei esta casaria… Corria para aqui… para me fazer forte… para nos fazermos fortes!
D. MARIA JOANNA
Mas corria diante… E eu corri tambem… corri que nem eu sei… corri devéras para o poder seguir… E até o commendador correu… Não correu, commendador?
COMMENDADOR (gravemente)
Affirmam boas auctoridades que muitas vezes é prudencia o correr… Pedibus celer, diz Virgilio com louvor.
D. MARIA JOANNA (sorrindo)
Já está mais em si, o commendador… Já não falla como toda a gente.
MORGADO (com extrema volubilidade, que é o seu natural)
Mas, prima, que havia de fazer um homem só, n'aquelle descampado, contra tanta gente!… Agora que venham. Dez, doze, vinte que sejam…
D. MARIA JOANNA (erguendo-se como escutando)
Espere…
MORGADO (assustado)
Que é?
COMMENDADOR (idem, levantando-se e approximando-se á D.)
Que é?
D. MARIA JOANNA (Applicando o ouvido, aos dois que se lhe reunem em grupo turbado)
Não ouvem?
COMMENDADOR
Tropear de cavallos!…
MORGADO (inquieto e interrogando as saidas com os olhos)
Não ter aqui a minha espada!…
D. MARIA JOANNA (com leve ironia)
Perdeu-a?
MORGADO (mais inquieto)
Não sei como foi… (dirigindo-se apressadamente a uma porta lateral) Vou procurar uma arma.
D. MARIA JOANNA (com terror dirigindo-se a outra)
Chame gente, primo.
COMMENDADOR (que ficára escutando)
Vem subindo alguem! (encaminhando-se desorientado á outra).
(No momento em que os tres aterrados procuram debalde atinar com os fechos das portas a que se dirigem, apparece ao F. Gonçalo Mendo)
SCENA II
OS MESMOS e GONÇALO MENDO
GONÇALO
Da parte d'el-rei… nem mais um passo.
COMMENDADOR (apegando-se á umbreira)
Ai!
MORGADO (idem)
Jesus!
D. MARIA JOANNA
Desmaiava… se tivesse onde.
GONÇALO
Ninguem tente fugir ou esconder-se. Da parte d'el-rei está preso tudo.
MORGADO (esperançado, comsigo, e ainda voltado para a porta)
Da parte d'el-rei!
D. MARIA JOANNA (do mesmo modo)
Havia de jurar que me não é desconhecida esta voz.
COMMENDADOR (voltando dissimuladamente o rosto, e procurando reconhecer)
Da parte d'el-rei!… Então…
GONÇALO (adiantando-se)
Vamos… Toda a resistencia seria inutil…
D. MARIA JOANNA, MORGADO e COMMENDADOR
(voltando-se simultaneamente)
O sr. Gonçalo Mendo!
GONÇALO (attonito)
Que é isto! (affirmando-se e reconhecendo-os) Na verdade não sei se acredite… A sr.^a D. Maria Joanna Galvão!… O sr. morgado da Gésteira!… O sr. commendador Louzellos!… E eu que pensava colher um bando de salteadores!… (a D. Maria Joanna sorrindo) Não são os salteadores?
D. MARIA JOANNA (recobrando a jovialidade)
Somos os assaltados. Respondo-lhe por elles.—Agora diga-me antes de tudo. Que aventura é esta? Como veiu aqui? Onde estamos? Diga. Foi terrivel o susto, mas ainda é maior a curiosidade.
GONÇALO
Responderei logo; perguntarei primeiro. Estes senhores pódem auxiliar as explicações, e eu completo o meu dever. Vinham de jornada e foram atacados alli em baixo, na estrada, ao fundo do valle, entre a ribeira d'Aviz e o azinhal grande?
COMMENDADOR (no seu caracter habitual de prolixa gravidade)
Fomos. Tinhamos jantado em Portalegre, onde mais nos detivemos do que deviamos. E não foi por eu não repetir ao morgado, com a auctoridade de Cicero: «nos negocios graves são perigosas as demoras.» Jornadas, em boa razão, são graves negocios.
MORGADO (no seu caracter de costumada loquacidade)
A que proposito vinha o tal Cicero, ou o que é, quando eu tinha conseguido pôr na meza á prima, em Portalegre… em Portalegre, como se estivessemos na côrte!… tudo por diligencias minhas, tudo com receitas minhas!… uma ôlha á castelhana, um prato de gallinhas de alfitete, outro de coelho á Fernão de Sousa, outro de arteletes de vitella, outro de coroa real de folhado francez, sem contar as miudezas… Em jornada nem princezas teriam melhor, hade confessar, sr. Gonçalo Mendo… Não, que se não fôra a minha consummada pratica n'estas coisas…
D. MARIA JOANNA
Estavamos ha uma hora em Monforte… e provavelmente não nos tinha succedido o que nos succedeu.
MORGADO (desconsolado)
Ah! prima!
GONÇALO (a D. Maria Joanna)
Não me queixarei eu do succedido. (Aos homens.) Vamos ao caso…
COMMENDADOR
Era já ao pôr do sol e estavamos quasi ao meio do azinhal, a sr.^a D. Maria Joanna com a sua aia n'uma liteira, nós dois e dois criados, todos a cavallo, um pouco atrás uma azemola com as bagagens mais leves, e um moço de pé…
MORGADO
Bagagens leves!… Leves serão, mas preciosas!… Mil coisas necessarias!… Uma bateria de cosinha de viagem como não ha outra ainda em Lisboa… completa… completa… Fôrmas, facas, espatulas, agulhas, passadores… Nem na uxaria de Salvaterra!… E tudo precaução minha para commodidade da prima, tudo…
GONÇALO (interrompendo)
Vamos ao caso… vamos ao caso, commendador.
COMMENDADOR
A meio do azinhal, pouco mais ou menos, onde a estrada faz um cotovelo e se aperta entre os montes, damos de rosto com uns poucos de homens armados…
MORGADO
Poucos!… Quinze eram pelo menos… vinte talvez… vinte de certo, se não eram mais…
GONÇALO (atalhando impaciente)
O numero pouco importa.
MORGADO (protestando)
Importa pouco! Para o valor o numero…
COMMENDADOR
O numero não é indifferente… Por não ser indiferente se distinguiu em singular e plural… Basta ver o que a respeito do numero escreveu Prisciano Cesariense… mas n'este caso…
D. MARIA JOANNA
N'este caso, continúo eu… ou não se acaba.—Parámos. O morgado e o commendador vinham ainda um pouco distantes, penso. Os homens fazem menção de nos cercar a liteira. A minha aia desmaia. Os liteireiros fogem pelo azinhal, e creio que os criados tambem. Emfim achei-me não sei como a pé na estrada. N'isto o commendador caiu…
COMMENDADOR
Dei de esporas para acudir, e tropeçou-me o cavallo…
D. MARIA JOANNA
Muito a tempo.
MORGADO (que espreitava a occasião, apoderando-se da palavra)
No meio d'estes apuros, conservo toda a presença d'espirito… deito á carreira, faço parada firme, ponho pé em terra n'um relance, com todos os preceitos… os tres tempos velozes em meio circulo seguido… levanto o commendador que estava tolhido pela sella… não indago mais… a pé mesmo levo da espada, e caio como um raio sobre a malta… Ah! que se tenho tempo! Duas voltas, um cambiamento, treta sobre treta, talho e revez, e ensinava-lhes o que é o morgado da Gésteira com a espada na mão!… A prima veria… Por seu respeito!… Veria… Não digo mais!
D. MARIA JOANNA
Veria… estou certa. Mas não vi. Foi pena. Apagou-se o raio antes de fulminar!
GONÇALO (a D. Maria Joanna)
Depois?
D. MARIA JOANNA
Depois… nem eu sei bem… ouviu-se um galope… um tiro, creio… O morgado diz que foi um tiro…
MORGADO
Foi… Por signal, com o estrondo os nossos cavallos, que tinhamos deixado soltos na estrada, fugiram á desfilada…
D. MARIA JOANNA
Dando exemplo aos cavalleiros. Fugiram os cavallos, fugiram os salteadores… se eram salteadores… já tinha fugido o commendador, fugiu o primo, e eu, que estava desatinada, confesso, vendo-o fugir… segui-o. Debandada geral… Não se ria, sr. Gonçalo Mendo… Segui-o, é verdade, a correr, a bom correr, eu mesma, por essas ladeiras acima, por entre o matto… E tive folego!… Veja que forças dá o terror, e como eguala as condições!… Por fim viemos dar todos aqui. Póde explicar-me o enigma?
MORGADO
Tive a imprudencia de não trazer armas de fogo. Estava apeado, não esperava dois ataques ao mesmo tempo… Mettido assim entre os salteadores que nos esperavam, e o outro bando que atirou sobre nós… Senti assobiar a bala aos ouvidos.
GONÇALO
Admira. Disparei para o ar.
MORGADO (surpreso)
Disparou!
D. MARIA JOANNA
Então o outro bando era o sr. Gonçalo Mendo!
GONÇALO
Eu mesmo. Voltava de Marvão, com duas ordenanças do meu regimento, em direcção a Monforte. Ao descer a encosta avistei um ajuntamento na estrada… Não podia distinguir bem, porque estava distante ainda, e já começava a escurecer o valle com a sombra do arvoredo… Metti a galope, e desconfiei que era ataque a passageiros. Disparei então uma das pistolas para dar aviso de soccorro, e prevenir alguma ousadia maior. Não esperava tão grande resultado. N'um instante desappareceu tudo… menos a liteira e a sua aia, minha senhora!
D. MARIA JOANNA
Jesus! é verdade! A minha pobre Anna Maria! Que é feito d'ella?… Com o sobresalto, com tudo isto, quasi me tinha já esquecido.
GONÇALO
Tornou a si… Acompanha-a um dos meus dragões… Vem ahi já. Nem pode acreditar ainda, que esteja viva.
D. MARIA JOANNA
E os ladrões, os criados, os liteireiros…
GONÇALO
Dos ladrões, nem vestigios… Parece que se abriu a terra com elles…
MORGADO (que escutava attentamente, comsigo)
Ainda bem!
GONÇALO (fitando-o)
Como?
MORGADO
Nada, nada… Explica-se tudo perfeitamente. Ainda bem, dizia eu. Ainda bem que se explica, está visto.
GONÇALO
Os liteireiros e os criados… deixei a outra ordenança incumbida de procural-os, e esses de certo não hão de estar longe.
D. MARIA JOANNA
E como veio aqui ter, tanto a proposito?
(Vae carregando a noite)
GONÇALO
Porque vi que se acoitavam n'esta casaria alguns vultos… e por… (mais baixo) por destino talvez!
D. MARIA JOANNA (idem, motejando)
Como ha dois annos?
GONÇALO (gravemente e com ardor)
Como sempre!
D. MARIA JOANNA (afastando a conversação)
Mas a final, onde estamos? Que havemos de fazer?
GONÇALO
Em primeiro logar… procurar luz. É noite quasi. Sr. Morgado da Gésteira, a casa tem ares de habitada. Se quizesse…
MORGADO
Pois não. Eu chamo. (Successivamente e a intervallos, ás portas da D.) Olé! Oh!… ó de casa. Venha alguem? Está aqui o morgado da Gésteira!… Está uma senhora!… Gente de bem, tudo!… (Silencio absoluto.) Nem viv'alma!
GONÇALO
Estarão longe…
COMMENDADOR
É singular!
D. MARIA JOANNA (inquieta)
Será a propria guarida dos salteadores!
GONÇALO
Tem-se visto, mas não é provavel… Vamos, sr. morgado. Veja se acha uma luz. Bem reconhece que não posso ir eu. Está aqui uma dama, e agora, como militar, respondo pela sua segurança.
MORGADO (irresoluto)
Assim é, mas… (sem se atrever a ir) Commendador, mais vêem dois do que um.
COMMENDADOR
«Não é a luz dos olhos a que mais vê», como diz…
GONÇALO (instando)
Então! Cada vez se faz mais escuro, e não sabemos onde estamos.
MORGADO (resolvendo-se)
Vamos, commendador, antes que seja noite de todo! Por aqui… (indo á E.) Uma varanda… (indo á D.) d'este lado um corredor… Vamos a ver.
(Saem os dois pela 1.^a porta da D.)
SCENA III
GONÇALO, e D. MARIA JOANNA
(Longo silencio como se receiassem quebral-o)
D. MARIA JOANNA
Sr. Gonçalo Mendo, é ainda submisso como d'antes jurava?
GONÇALO
Nunca faltei a nenhum juramento.
D. MARIA JOANNA
Tornamos a vêr-nos em circumstancias extraordinarias… n'um ermo a bem dizer… entre sombras e mysterios… Não lhe permitto uma palavra de galanteio ás escuras… Estão entre nós…
GONÇALO (gravemente)
Estão tres seculos de honra… está a espada de um soldado.—Faz-me a injuria de suppôr necessario advertir-m'o?
D. MARIA JOANNA
Não. Desculpe. É ainda do sobresalto! Desculpe. Conversemos.—Estava bem longe de me encontrar, não? E assim, e aqui muito menos?
GONÇALO
Só adivinhando. Suppunha-a ainda em Paris.
D. MARIA JOANNA
Volto de lá. Um mez de jornada, faça idéa! Se não posso aturar o mar!
GONÇALO
Um mez!… Entre o commendador e o morgado?
D. MARIA JOANNA
O commendador…
GONÇALO
Uma reminiscencia das academias do sr. D. João V… a quem Deus perdôe…
D. MARIA JOANNA
Ao sr. D. João V?
GONÇALO
Não, minha senhora, ás academias.
D. MARIA JOANNA
O morgado…
GONÇALO
A casca dos antepassados… que não teve.
D. MARIA JOANNA
Já vejo que os conhece a fundo.
GONÇALO (ponderando dolorosamente)
Um mez em tal companhia!… A fadiga do caminho é nada ao pé d'isso.
D. MARIA JOANNA
Um mez com o commendador, que o meu contra-parente D. Vicente de Sousa Coutinho incumbiu de acompanhar-me, attendendo á sua edade, e que emprehendeu render-me á força de erudições… um dia com o morgado, que encontrei em Porto de Espada, e que foi esperar-me á raia, não sei se por sua conta, se por ordem de minha tia D. Felicia, a quem escrevi de Paris.
GONÇALO
Ao menos foi só meio supplicio no mez!
D. MARIA JOANNA
Ai! o dia do morgado tem valido bem o mez do commendador. Imagine. È um nunca acabar de proezas em cavallaria, em… esgrima, em altanaria, em monteria e em… gastronomia, como se diz em França. Com o pretexto de um parentesco… de que eu não tinha noticia… quer-me captivar pelas artes como o commendador pela sciencia.
GONÇALO
Concluo d'ahi que tenho n'elles dois… dois… Como direi?…
D. MARIA JOANNA
Rivaes. Póde dizer. Não tem risco.
GONÇALO
Em summa, requestam-n'a ambos!
D. MARIA JOANNA
O commendador dês que partimos de Paris… O morgado dês que nos saiu ao encontro na fronteira…
GONÇALO
Complicando o galanteio… ambulante.
D. MARIA JOANNA
Pelo contrario: simplificando-o. Distraem-se mutuamente, e deixam-me respirar. Dois são menos perigosos que um.
GONÇALO
E tres?
D. MARIA JOANNA
Menos perigosos que dois. Já lhe esqueceu o promettido? (Pausa.) Ambos pertendem a minha mão, é verdade… porque n'esta mão, com ser pequena, cabe a herança de tres casas.
GONÇALO (simplesmente)
Não me lembrava!
O MORGADO (fóra)
Prima! Prima!
D. MARIA JOANNA
Ouve? Temos temporal de palavras.
SCENA IV
OS DITOS, MORGADO e COMMENDADOR
(Ambos com luzes—Clarea de novo a scena)
MORGADO
Prima. Achámos luz.
GONÇALO
Não é difficil verifical-o.
MORGADO
E não só achámos luz, fizemos um grande descubrimento. (Vão pôr as luzes no bufete.)
D. MARIA JOANNA
Não foi o novo mundo?
MORGADO
Não foi o novo mundo. Foi um mundo antigo… um canto d'elle… muito seu conhecido… A prima mal se podia lembrar. Não o vê de pequenina… E eu mesmo… Se não venho por aqui ha bons quinze annos!…
D. MARIA JOANNA
Vamos, acabe. Encontrou gente?
MORGADO
Gente! Ninguem. Um deserto.—Quer saber onde estamos?
D. MARIA JOANNA
Porque não começou por ahi? Não vê que estou morta de impaciencia?
MORGADO
Deus me livre de a molestar na minima coisa, prima. Quizera antes… brigar commigo! Bem sabe que para lhe evitar um dissabor… uma sombra d'elle, um… (Gesto de impaciencia de D. Maria Joanna.) Já vou, prima. Lá vae.—Quer saber onde estamos? Estamos no paço da Torre da Palma!
D. MARIA JOANNA
Em casa de minha tia D. Felicia?
MORGADO
No seu proprio solar. Não ignorava que era para estes sitios, mas deram nova direcção á estrada, e lá em baixo não me occorreu… Depois, quando entrámos, com o lusco-fusco…
D. MARIA JOANNA (maliciosa)
Com a perturbação…
MORGADO
Nem reparei sequer. Agora, entrando por ahi dentro, quiz-me parecer que me não era estranho o corredor… tópo uma escada, e dá-me ares de conhecida… desço, entro n'uma casa lageada, e cada vez se me afigura mais familiar o piso… Procuro, acho vélas, accendo, ólho em redor… Era a cosinha… foi um raio de luz…
GONÇALO (sorrindo)
Pudéra! Na cozinha!
MORGADO
Tantas vezes jantei n'esta casa!… Fui eu que dei as receitas de fartes e de manjar real á Dorothéa!… Foi alli que ensinei o Fernandes velho a fazer perdizes de gigote, quando vinha caçar com seu tio capitão mór…
D. MARIA JOANNA
Memoraveis recordações!… Admira como não reconheceu logo a casa.
MORGADO (machinalmente)
Com a perturbação… (emendando-se) com o escuro, quero dizer… E era tão novo ainda n'aquelle tempo!—Não se lembra de seu tio João, de Carregueiros? Parece-me estar vendo ainda o sr. capitão mór, João Alvares Lobo, sempre sisudo, e sempre triste… triste como a noite!… Tudo por quê? Por não deixar filho varão para herdeiro, (a D. Maria Joanna) e por causa da paixão de sua tia D. Felicia pelos donaires… Nunca se viram dois genios mais oppostos… Elle todo monteador e fragueiro; ella toda côrte e mimos!… Teimava o capitão-mór em eternizar, na Torre da Palma, os costumes do tempo em que era castello fronteiro a casa. A sr.^a morgada D. Felicia não tinha senão um fito… ser açafata no Paço.
D. MARIA JOANNA
E já é?
GONÇALO
Espera ainda ser. Ha treze annos que espera.
MORGADO
Na filha unica via o capitão-mór a continuação provavel da indole de sua mulher, e a ruina dos proprios intentos.
D. MARIA JOANNA
Tenho idéa de ouvir dizer que por isso se apartaram.
MORGADO
Por isso, certamente. Foi ella viver na côrte como desejava. Elle deixou-se ficar, não consentindo que sua tia levasse a filha… provavelmente para a criar a seu modo… Ficou pois… Mas como ficou!… Esta casa um ermo, elle uma sombra.—Levou-o mais cedo á sepultura aquelle desgosto!
D. MARIA JOANNA
E a pequenina?
MORGADO
Tinha dezoito mezes apenas. Tratava d'ella aqui a Joaquina Simôa, filha de um matteiro de Carregueiros, que havia dois annos casára com o Luiz Manuel, o escudeiro da Torre da Palma… A creança morreu, e seu tio pouco mais durou… Ha bons quinze annos isto… dezeseis talvez!
D. MARIA JOANNA
E dezesete porque não? Apezar de mais moço, meu pae havia casado muito antes de meu tio João. Tinha eu os meus seis annos feitos por esse tempo, e lembra-me bem de ouvir contar. Foi por morte do tio João e da filha herdeira, que as casas de Fresnos e Carregueiros passaram para meu pae, na qualidade de immediato successor. Não é isto?
MORGADO
É. Vivia ainda seu irmão Nuno Alvares, quando morreu o capitão-mór. Ao menos acabou persuadido de que as terras dos seus iam a herdeiro varão, como tanto desejava.
D. MARIA JOANNA
Deus tinha disposto d'outro modo. Meu irmão Nuno morreu ainda menino tambem.—O morgado não é menos forte em genealogias… patrimoniaes… do que em esgrima, e no resto.—Minha tia D. Felicia nunca mais voltou aqui? Fui cedo para Lisboa, casei aos quinze annos, e parti logo com meu marido para a embaixada de Vienna d'Austria, onde elle era secretario. Desejo informações.
MORGADO
Sua prima? Não voltou. A côrte é o seu encanto, e esta casa só lhe lembrava desgostos. Haverá dez annos mandou ir para a sua companhia a pequena da Simôa, que é sua afilhada. Tem o mesmo nome que tinha a filha, e nasceu pelo mesmo tempo… Recordações… saudades provavelmente.
D. MARIA JOANNA
E a Joaquina Simôa? E o Luiz Manuel? Tenho ainda uns longes d'elles.
MORGADO
Ficaram por feitores da casa.
D. MARIA JOANNA
E não apparecem, essas reliquias de outro tempo?… Procure-m'as, commendador… procure-as morgado… Ah!… (como achando uma idéa) Estarão ellas encantadas? Querem vêr que estão!… Desencantem-m'as.
MORGADO
Se não mudaram os costumes, foram ao terço a Vayamonte, e não tardam.
D. MARIA JOANNA
Sabemos onde estamos, e estamos em morada da familia… Não é pouco, mas não é tudo. Agora que fazemos? Monforte fica ainda longe?
GONÇALO
Meia legoa, o muito.
D. MARIA JOANNA
Não me fio n'estas meias legoas.—Visto que nos podemos julgar a salvo… (a Gonçalo.) Podemos?
GONÇALO
Sempre o julguei.
D. MARIA JOANNA
Acho-me um pouco moída das carreiras que dei atraz do morgado; e não sei se é do susto, se do ar, se da jornada, sinto uma fraqueza que… que está solicitando com empenho a intervenção e o soccorro da famosa ucharia… (para o morgado) Não seria occasião de experimentar alguma das receitas?… Qualquer coisa.
MORGADO
Preveni tudo… Vem tudo nas bagagens, muito bem acondicionado… Servir-lhe-hei duas ades estilladas, frias, que são um primor, e um queijo de presunto, que verá… sem contar um prato de broas d'ovos que tinha de reserva.
D. MARIA JOANNA
Ouviu já fallar no supplicio de Tantalo, morgado?
COMMENDADOR
Tantalo, rei da Lydia, filho de Jupiter e de Plotis.
MORGADO (sériamente)
Não conheço o sujeito, mas tratarei de fazer o seu conhecimento, se é pessoa de bem.
D. MARIA JOANNA
Não é preciso.—Tantalo ardia em sede, e fugia-lhe a agua que via proxima; devorava-o a fome, e retiravam-se d'elle os fructos que tinha á vista… Assim estamos nós… Tão boas coisas nas bagagens, e as bagagens por montes e valles!
GONÇALO (que parecia escutar)
Perdoe! (Continua a applicar o ouvido.)
D. MARIA JOANNA
Novidade?
GONÇALO (saindo precipitadamente)
Volto já.
SCENA V
OS DITOS menos GONÇALO
D. MARIA JOANNA
Mais inquietações ainda!
COMMENDADOR (turbado)
Não agoiro nada bom… Ouço rumor se me não engano…
MORGADO
Não tem a gente um momento de socego. (comsigo) Dar-se-ha caso que devéras… (alto) Isto está como nunca… Anda tudo minado de malfeitores!
COMMENDADOR (com o ouvido attento)
Que ha rumor lá fóra, ha!
D. MARIA JOANNA
Assim é que me tranquillisam!
SCENA VI
OS DITOS e GONÇALO
D. MARIA JOANNA (assustada)
Que foi?
GONÇALO
São as suas bagagens. Não é caso de consternar, creio.
D. MARIA JOANNA (meio enleiada ainda)
De certo não.
GONÇALO
Teve alguma coisa?
D. MARIA JOANNA
Não tive…—Tive… tive os terrores chronicos do morgado e do commendador.
MORGADO (protestando)
Terrores! Cuidados pela prima.
D. MARIA JOANNA (aos dois)
Hão de acabar por me tornar convulsa.
GONÇALO
Chegou a sua aia, voltaram os liteireiros, e appareceu o criado do sr. morgado. Não falta senão o do sr. commendador.
COMMENDADOR
Esse não me dá cuidado. É dos sitios.
GONÇALO
Tantalo tem férias?
D. MARIA JOANNA
Tem.—A minha Anna Maria?
GONÇALO
Entrou para os quartos inferiores.
D. MARIA JOANNA
Já agora aqui pernoitamos, commendador!
COMMENDADOR
É o mais prudente, se o sr. Gonçalo Mendo nos assegura…
GONÇALO
Basta que esteja em Monforte de madrugada. Eu e as minhas ordenanças ficamos de guarda a esta casa.
D. MARIA JOANNA
O Luiz Manuel não póde tardar. Sempre ha de haver modo de não ficarmos peior do que em Monforte.
MORGADO
Ha, pois não… Hade haver onde a prima se accommode como cumpre. Nós…
GONÇALO
Nós em qualquer parte e de qualquer maneira.
MORGADO
Como homens de guerra.
D. MARIA JOANNA
Que poeira trago… reparo agora!—Commendador… minha prima havia de ter um quarto de toucar… Quer dizer à Anna Maria que suba e procure.
COMMENDADOR
Procurarei eu mesmo (galanteando). Pretende Tibullo…
D. MARIA JOANNA (atalhando)
Ai! o morgado que faz que não vae acudir ás ades… ás ades… Como é?
MORGADO
Estilladas, prima, estilladas… Vou. Já vou. Deus me livre de entregar coisas d'estas a lacaios nem mochillas… Vou no mesmo instante.
COMMENDADOR (indo para sair pela D., e mirando desconfiado Gonçalo Mendo)
Dar-se-ha caso que…—Póde lá ser…—Um soldado!
MORGADO (idem, á porta do F.)
Querem vêr que…—Ora… um filho segundo!
SCENA VII
D. MARIA JOANNA e GONÇALO
D. MARIA JOANNA (que tem ido sentar se na cadeira junto ao bufete, acompanhada de Gonçalo, que fica de pé)
Não está cançado, sr. Gonçalo Mendo?
GONÇALO
De quê?
D. MARIA JOANNA
Estou eu… creio que estou.
GONÇALO
Com um mez de jornadas!…
D. MARIA JOANNA
Não é das jornadas.
GONÇALO
Será dos companheiros?
D. MARIA JOANNA
Será.—Continuemos a conversar em quanto elles não veem, os companheiros.
GONÇALO
A respeito de quê?
D. MARIA JOANNA
Do que lhe parecer.
GONÇALO
Sem restricção?
D. MARIA JOANNA (indicando)
Agora temos luzes.—Diga-me alguma coisa de Lisboa. Hade estar informado.
GONÇALO
Sahi de lá ha quinze dias, e volto antes de oito. Vim á provincia em commissão apenas. Estou ás ordens do conde de Aveiras.
D. MARIA JOANNA (distrahidamente)
Que se faz? que se diz?
GONÇALO (encostando-se-lhe ao espaldar da cadeira)
Hade-se dizer em breve que possue Lisboa a perola das formosas e discretas… que já Paris admirava, e agora fica invejando.
D. MARIA JOANNA
Cumprimentos!
GONÇALO
Bem sei que a enfadam já por continuados.—Cumprimentos não, prophecias.
D. MARIA JOANNA
É moço para propheta… e ninguem o é na sua terra.
GONÇALO
O que se faz?… Deixe-me vêr… (como recordando-se) Não se faz nada.
D. MARIA JOANNA
Pois nada?
GONÇALO
O mesmo sempre.—A rainha, minha sr.^a, vae a Salvaterra, e sae ás suas devoções. De tempos em tempos opera em Queluz. Fóra d'isso a nau de viagem de anno a anno, e… e acabou-se. É assim depois que morreu o marquez de Pombal. Ao principio ainda se entretinham em ter medo d'elle, mesmo depois de desterrado. Agora até essa distracção falta.
D. MARIA JOANNA
Ai! sr. Gonçalo Mendo, desculpe. Está ali uma cadeira convidando-o… e ahi um logar a esperal-o. (Indica o lado opposto do bufete. Gonçalo vae buscar a cadeira, e senta-se no ponto designado.) Não lhe parece que estaremos melhor?—São ainda moda os abadeçados?
GONÇALO
Uma vez por outra. Agora estão em voga as assembléas.—Como lhe hade parecer tudo isto semsabor!
D. MARIA JOANNA (sériamente)
Engana-se. Sempre são ares nossos. Não sabe que me trazem saudades?
GONÇALO (com intenção)
De…?
D. MARIA JOANNA (accentuando)
Da patria.
GONÇALO
E sentimento digno de tal dama. Mas depois sempre se hade lembrar d'esse Paris, que era já tão seu.
D. MARIA JOANNA
O Paris que viu ha dois annos vae de dia para dia degenerando… Os requebros são curtidos em philosophia… as canções tem um sabor de finanças… Que distracção para damas!…
GONÇALO
Amortalharam então a galanteria franceza com a Dubarry?
D. MARIA JOANNA
Que está dizendo! Seria leval-a de caixão á cova. A galanteria sobrevive; mas agora tem por figurino a sensibilidade… e anda de braço dado com uma coisa nova, que veiu ha pouco de Inglaterra, e que se chama… (recordando-se) chama-se?… (occorrendo-lhe) philantropia. Sabe o que é?
GONÇALO
Um nome que trescalla a grego. Hade sabel-o o commendador.—Acredita na sensibilidade de figurino?
D MARIA JOANNA
Não; nem na philantropia de apparato.
GONÇALO
N'isso se occupam agora os francezes!… Substituiram isso aos madrigaes?… Pois não ganharam na troca. Estou tentado a preferir-lhes as nossas formalidades ronceiras… a nossa rustiquez e lhaneza… Por fim de contas, são coisas de casa… e muito de bom tem algumas.
D. MARIA JOANNA
Prefiro-as eu. Por isso vim.
GONÇALO
E bem haja que veiu! (admirando-a) Vem, ainda mais formosa do que era ha dois annos, quando fui levar officios de gabinete á embaixada de Paris… Lembra-se?
D. MARIA JOANNA
Tinha-se levantado o cerco de Gibraltar!
GONÇALO
Só isso lhe lembra?… Vem prendada de todos os primores do espirito, de todas as graças da beleza, e não consente…
D. MARIA JOANNA (detendo-lhe a palavra com o gesto)
Escute! Cuidei que era já o commendador… Quer ver se o commendador com effeito achou o quarto?…
GONÇALO (Ergue-se vivamente. Pausa. Contemplando-a.)
É cruel! (Nova pausa. Com visivel despeito.) Vou procurar o commendador. (Encaminha-se á D.)
D. MARIA JOANNA (levantando-se como por effeito de reflexão)
Não. Espere. O commendador era capaz de pensar que não posso passar cinco minutos sem a sua presença.
GONÇALO (voltando esperançado)
Dispensa-a então… por óra?
D. MARIA JOANNA
Por mais um instante. (Vae sentar-se no canapé.)
GONÇALO (defronte, de costas para o bufete, fitando-a)
Porque me obriga a dissimular commigo mesmo? Porque me força a estes colloquios frivolos? É isto para nós? Não sabe que só a bocca lhe responde, porque tenho a alma e o sentido n'outra coisa?
D. MARIA JOANNA (depois de pausa)
Tem razão. É-lhe absolutamente indispensavel fallar-me do que já me disse ha dois annos em Paris? Pois fallemos… Fallemos.—Dei-lhe então esperanças?
GONÇALO
Nenhumas, é verdade.
D. MARIA JOANNA
Dei-as a alguem?
GONÇALO
Rodeam-n'a as homenagens como a soberana… é agradavel. Sorri a todos… mas fica a todos insensivel… tambem sei!
D. MARIA JOANNA
Insensivel!… Uma pedra, porque não?… Um gelo dos Alpes, vamos… Diga, diga… Se não o diz, pensa-o.—Somos insensiveis para estes senhores, nós outras, quando não nos declaramos humildemente rendidas apenas se dignam dar-nos um signal de preferencia… Nascemos para seu desenfado… «Sorri a todos»!… Vejam! Uma causa crime, completa só n'esta phrase: «sorri a todos»! Olhem o attentado! Queriam que chorassemos sempre? Queriam que os chorassemos!… E quando choramos… Nem eu digo!—Sentenciado a pena ultima, o nosso sorriso. Sentenciado porquê?… Não sabem que nas mulheres o sorriso anda perto das lagrimas!… Deixem-nos ao menos esse raio de luz entre chuveiros… como o sol de inverno.
GONÇALO
Poderia responder-lhe que mais commodo do que ter amor é deixar-se amar… Mas não digo… não me queixo… nada peço. Está na sua mão não preferir ninguem?… Não o está impedir que lhe queiram… mesmo sem esperança. Porque não serei eu d'esses?
D. MARIA JOANNA
O sr. Gonçalo Mendo!…—Sente-se ahi. Vamos, sente-se. Quero confessal-o.
GONÇALO
E dá-me a penitencia antecipada!
D. MARIA JOANNA
Verei depois a que merece… segundo o arrependimento.
GONÇALO (com esperança, fazendo menção de ajoelhar)
As culpas dizem-se de joelhos.
D. MARIA JOANNA (vivamente)
Sente-se. Os culpados começam por obedecer. Isso. Vamos a saber: (solemnemente) é verdade que por occasião da sua ida a Paris desafiou em Versailles um capitão dos guardas francezes, e o deixou tres mezes de cama com uma estocada?
GONÇALO
É verdade. Foi para lhe provar que as parisienses não eram as primeiras entre todas as damas, como elle pertendia.
D. MARIA JOANNA
E porque não seriam?
GONÇALO
Tinha cá as minhas razões.
D. MARIA JOANNA
Boas razões haviam de ser. Como se estiveramos ainda no tempo dos Magriços!
GONÇALO
Os Magriços em Portugal são de todos os tempos.
D. MARIA JOANNA
É verdade que o anno passado, quando se festejou o casamento do sr. infante D. João com a sr.^a infanta D. Carlota, n'uma corrida de touros no paço da Murteira, saiu ao terreiro de espada na mão, e a pé, sem mais capa nem defesa, chamou a si o animal furioso, e matou-o de um golpe, só para que elle não pozesse os pés n'um lenço, que da varanda havia caido a uma dama?
GONÇALO
É verdade. A dama tinha sessenta annos.
D. MARIA JOANNA (incredula e motejando)
Sessenta annos!
GONÇALO
Mas chamava-se D. Mencia Jorge, e o lenço tinha bordado um M e um J… as suas iniciaes.
D. MARIA JOANNA (lisonjeada)
Ah! (Pausa.) Mais…
GONÇALO
Mais ainda? Devo agradecer a curiosidade, que se informou… ou a informou… com tanta miudeza a meu respeito?
D. MARIA JOANNA
Deve responder.—É verdade que um dia, amotinando-se o regimento de Meklemburgo… servia então lá… o tenente-coronel… um allemão, creio… ficou só, ameaçado dos soldados enfurecidos? É verdade que unicamente um alferes se atreveu a collocar-se ao lado do commandante, com tal resolução e bizarria, que o exemplo envergonhou os sublevados, e a firmeza do official salvou a vida ao tenente-coronel?
GONÇALO
É verdade. O alferes cumpriu o seu dever, nada mais.
D. MARIA JOANNA
Mas dizem que n'esse dever lhe serviram de estimulo os olhos azues da irmã do tenente-coronel. Será assim?
GONÇALO
É. Foi. Ha quantos annos?
D. MARIA JOANNA
Eu sei!…
GONÇALO
Ha seis. (a D Maria Joanna.) Não a conhecia ainda.
D. MARIA JOANNA
Ahi está… «Não a conhecia ainda!» O estribilho costumado. É como todos.
GONÇALO
Pouco mais ou menos. Se imagina uma especie differente… Sou um simples mortal, confesso humildemente.
D. MARIA JOANNA
É… é todo verduras e temeridades… Por uns olhos affrontar um regimento!… Por uma palavra provocar os melhores espadas de França!… Por um lenço arriscar-se a ficar nas armas de uma fera!… Póde lá dispôr da sua mão, um homem assim?… Para trazer sempre a mulher em vesperas de viuvez!
GONÇALO (encantado)
Oh! se isso fosse uma esperança!
D. MARIA JOANNA
Deus me defenda.—Quando me começavam a florir os annos, casaram-me com um homem… que já ia desfolhando os seus. Deixei patria e familia aos dezoito. Achei-me viuva aos vinte. Acolhendo-me a casa de minha prima, na nossa embaixada em Paris, senti sinceramente a falta do companheiro e protector. Mas d'esta alliança… da primavera com o inverno… podem ter-me ficado memorias que me façam desejar novo captiveiro?
GONÇALO
Não o captiveiro, mas a compensação.
D. MARIA JOANNA
Quem m'a assegura?
GONÇALO
Quem? A constancia.
D. MARIA JOANNA
Que diria a isso a allemã?
GONÇALO
Ama-se devéras uma só vez. Quer-me crer? Amo-a assim eu. Digo-lh'o singelamente, chãmente, cá de dentro, á moda da minha provincia, como um verdadeiro transmontano…. Deixe-me desabafar. Esta vez, e acabou-se.—Não sei que pense, não sei se espere… Unicamente sei que não posso deixar de…
D. MARIA JOANNA
Ia repetir.
GONÇALO
Tem razão. Para quê?
D. MARIA JOANNA
Interrompe a confissão?
GONÇALO
Visto que me não absolve… (interrogando D. Maria com os olhos; silencio d'esta.) Vou ter com o commendador.
D. MARIA JOANNA (que deitára os olhos para dentro debruçando-se no canapè)
Não é preciso; elle ahi vem.
SCENA VIII
OS DITOS e o COMMENDADOR
D. MARIA JOANNA
Então achou?
COMMENDADOR
Está remediado. Não é um boudoir, como lá diziamos em França, mas póde passar. Eu mesmo ajudei a pôr tudo em ordem.
D. MARIA JOANNA
O sr. Gonçalo Mendo permitte?
GONÇALO (inclinando-se)
Minha senhora!
D. MARIA JOANNA
Escuso dizer-lhe que ceia comnosco… Desculpa de certo o incommodo que lhe tenho dado, e preciso agradecer-lhe a companhia que me tem feito. (ao commendador) Ha luzes no corredor?
COMMENDADOR (galanteando)
Tudo prevenido, como quem sabe o que n'estes pontos convém. Marcial, que tão bem conheceu os gyneceus de Roma, dá a respeito dos adornos femininos informações preciosas.—Acompanho-a?
D. MARIA JOANNA (relanceando os olhos a Gonçalo)
Obrigada. (ao commendador) Quer ir ver se descarregaram as bagagens, e mandar-me ao quarto as minhas malas?
GONÇALO (vendo o commendador hesitar)
Aproveito a occasião para fazer accommodar as ordenanças.
(Gonçalo dirige-se ao fundo. D. Maria Joanna á D. O morgado apparece á porta d'entrada do F.)
SCENA IX
OS DITOS e o MORGADO
MORGADO (ainda fóra da porta, mas á vista do espectador, como reparando e fallando para dentro)
Levantem o animal… Puxa-lhe a arreata, Jacintho… Tirem-lhe o resto da carga… Fortes alarves!… (Entra.)
D. MARIA JOANNA (que parou á porta da D.)
Que mais temos, sr. morgado?
GONÇALO
Deixaram deitar-se a azemola… Um instante que eu falte!… Mas não tem duvida já… Arrecadaram-se os comestiveis. (voltando ao F. a observar) Lá está a mula a espojar-se… Levantem-n'a, levantem-n'a.
D. MARIA JOANNA
Commendador, as minhas malas! Acuda ás minhas malas! Cá as vou esperar, e não tardo. (Sae pela D.)
SCENA X
OS DITOS menos D. MARIA JOANNA
COMMENDADOR (ao morgado)
Sr. morgado, as malas?
MORGADO (a Gonçalo)
Sr. tenente, as malas?
GONÇALO
Cada qual no seu officio! (Sae.)
SCENA XI
OS DITOS menos GONÇALO
MORGADO
Então, commendador, as malas da prima. Eu não posso servir para tudo!
COMMENDADOR (tomando o seu partido)
Bem dizia Socrates, atheniense, «que a mulher é como o altar»: nunca está bastante ornada (para sahir) E com razão a definia o famoso Julio Cesar Scaligero, de Verona… (Sae.)
MORGADO (seguindo-o)
Muito melhor canta o nosso rifão «com a mulher e o dinheiro, não zombes companheiro.»
SCENA XII
MORGADO só (voltando)
Bem te percebo, meu feixe de maximas velhas e sentenças occas!… Bom signal é que de mim te receies… Pressentes que te foge a presa… E não ha 48 horas ainda!… O que fará d'aqui a dias… Pudéra! similhante deposito de latins e de catarros, ao pé d'um homem da minha tempera, moço ainda, bem posto, prendado e cavalleiro!… (esfregando as mãos) Está certa, Bartholomeu Tojo, morgado da Gésteira… está caida. Pódes ir encommendando sege á boleia… Sege de côrte e sege de campo!… A fallar a verdade vem a tempo… era tempo. Iam-se já os últimos torrões! (esfregando as mãos) O que é ter artes e astucias!…
SCENA XIII
MORGADO e ZÉ DA MOITA
ZÉ (deitando a cabeça pela porta da E. em voz baixa e cauteloso)
Sr. morgado… Pschiu!… eh! sr. morgado!
MORGADO (assustado)
Que é? (voltando-se e dando por elle) Tu, homen! (inquieto) Que queres?
Zé (entrando)
Está só?
MORGADO
Não vês? Vae-te, que póde vir gente. Como vieste aqui parar?
ZÉ
Ê sê as trilhas de cór e salteado. Vinha em sua précura.
MORGADO
Porquê? Para quê?
ZÉ
Ê que lá a rapaziada está levada de quantos démos ha. O Manuel da Brazia, o Domingos Picanço, o Chico d'Alter, o João Gallego, o Timotheo d'Alcaraviça… aquillo é todos á uma.
MORGADO
Deixou-se apanhar algum?
ZÉ
Q'al! Bem alma tinham para isso os cavallarias, que não sabem caminho nem carrêra. A gente mettemo-nos pelo azinhal dentro… pés para que te quero… Fossem lá pôr mais a vista em cima a nenhum. D'ali a um credo estava tudo junto no barranco de baixo, ao fundo da Fonte da Fornalha, ahi ao pé da azinhaga da herdade.
MORGADO (inquieto)
Pois sim, mas que me queres?
ZÉ
Como eu é que les fallê por conta do sr. morgado…
MORGADO
Avia-te. Não te dei já o que ajustámos? Quantos eram?
ZÉ
Eram sete… commigo oito.
MORGADO
Dei-te uma moeda. Um cruzado novo para cada um, e dois para ti. O resto para beberem.
ZÉ
Ai! senhor!… Se os ouvisse!
MORGADO
Não estão contentes?
ZÉ
Contentes! Ficaram derramados!… Andam na mente que os enganê… que não era uma brincadêra, como o sr. morgado me disse… que foi uma fidalga que nós fizemos cara de assaltar na estrada… que dá brado o caso e que se mettem n'isso as justiças… que o sr. morgado o que queria era fazer de pimpão sem perigo, á custa dos rapazes… que pódem ficar agora todos mettidos em trabalhos… e que torna e que deixa… Ih! Jesus!… um dia de juizo!
MORGADO
Por esta não esperava eu!
ZÉ
P'ra mais ajuda, um dos criados foi-se direito a Vayamonte, e achou lá o sr. juiz ouvidor com uma escolta do regimento de Setubal… Contou-le tudo pelos modos… e os rapazes dizem que o melhor é ir pedir perdão, porque a final elles não teem culpa, e o sr. morgado ha-de contar a verdade.
MORGADO (atterrado)
Pelo amor de Deus, homem. Vae ter com elles… Anda, depressa, vae. (comsigo) Que não diria minha prima!… (a Zé) Para que haviam de fazer tal? Ninguem os conheceu.
ZÉ
Pois sim! Não ha quem os accommode. Como pesquê que os senhores tinham botado para aqui, lá assoceguê a gente dizendo-le que esperassem todos um nada, que vinha fallar com o sr. morgado.
MORGADO
Mas se te veem aqui!…
ZÉ
Não tem duveda. Ê conheço o feitor, e já fui guarda cá da casa. O Timotheo d'Alcaraviça é que está mais perro. Tem lá a sua aquella que ninguem le põe o pé adiante, (elevando a voz) e como o sr. morgado quiz assim fazer pouco da rapaziada…
MORGADO (afflicto)
Mais baixo. Que precisão tens tu de gritar?
ZÉ
Bem sê que não era a valer… Se fosse… ai… se fosse!… Mas um home é um home, e…
MORGADO (inquieto)
Está bom, está bom… Se lhes désse mais?…
ZÉ (coçando a orelha)
Ê sê!… tão bravos como estão!… Talvez se accommodassem pedindo eu… talvez.—Mais quanto?
MORGADO (com esforço)
Uma peça.
ZÉ
Uma peça! Quanto faz uma peça?
MORGADO (ponderando)
Quinze cruzados novos menos oito tostões.
ZÉ
Quinze?… (comsigo, contando pelos dedos) menos… (resolutamente) Tem-n'a ahi?…
MORGADO (mostrando-lh'a)
Aqui está.
ZÉ (fazendo-lhe cara)
Em oiro?
MORGADO
Se não tenho troco!
ZÉ
Tem a gente de ir trocal-a a Evora, que lá na villa, se nos vêem com isto, são capazes de pegar logo a desconfiar…
MORGADO (perdendo a cabeça)
Então como ha de ser?
ZÉ (tocando-lhe familiarmente com o cotovelo)
Ó sr. morgado, a fidalga tem uns olhos!… Ella sempre vale as duas loiras! (elevando a voz) Se vem a saber que foi tudo fingido… hein?…
MORGADO
Cala-te! (fitando-o) Com que então… (comsigo.) A final o assaltado sou eu. (Alto) Aqui tens duas peças. (Dá-lhe as duas.)
ZÉ (respeitosamente)
Não manda mais nada o sr. morgado?
MORGADO
A casa do feitor é para esse lado. Olha não te encontre.
ZÉ
É o mesmo. Não desconfia, já le disse. Até mais ver! (sae)
MORGADO
Vae com Deus! (depois de o vêr sair) Os demonios te levem, tratante!
ZÉ (tornando a deitar a cabeça)
Chamou?
MORGADO (impaciente)
Vae com Deus! vae com Deus! (Zé sae definitivamente.)
SCENA XIV
MORGADO
Que tal é a lição! O susto que me pregaram os cavallarias… cuidar que andava tudo por ahi cheio de salteadores deveras… e ainda mais esta!… Calam-se, agora calam-se: é o seu interesse… O que o desalmado quiz foi… E gabem-me a singeleza dos rusticos!… Tomára que succedesse uma d'estas aos srs. poetas de Lisboa, que não fazem senão deitar lôas á innocencia pastoril… Que remedio! O que lá vae lá vae… E foram-se as peças!… E o que não rirão á minha custa, os malandrins, quando as beberem!…—Por fim de contas vale a pena… Se vale… Vale a pena de tudo…
SCENA XV
MORGADO, e LUIZ MANUEL (da E)
MORGADO (vendo-o)
Outro!… (reparando) Um retrato do tempo d'el-rei D. Pedro!… (conhecendo-o) Ai! o Luiz Manuel.
LUIZ MANUEL (Trajo do tempo de D. João V, tristeza profunda, sisudez inalteravel.)
Bem vindo seja á casa da Torre da Palma, o sr. morgado da Gesteira. Que estava aqui me disse um guarda do monte, que topei agora como nos tornavamos do terço. Já não è isto o que era, porque a sr.^a morgada… «gota a gota o mar se esgota», e quem em maio relva, fica sem pão nem herva.» Mas… ella é senhora do que é seu!… E eu venho só a dizer a Sua Mercê que, se bem «onde senhores empobrecem, criados padecem», tudo o que ha na casa e na quintan está ás ordens do sr. morgado, e mais da fidalga companhia que traz, a julgar pelo arruido que por ahi vae.
MORGADO
Boa companhia trago com efeito. Como no tempo do sr. capitão-mór!
LUIZ MANUEL
Como no tempo do sr. capitão-mór, que Deus haja!… Isso já lá vae, e não volta… Não volta… Nem conhecia o sr. morgado, se me não avisam… Que annos ha! E como assim nos enterramos n'este ermo!… Tanto faz. Como o outro que diz: «ainda que nos não fallemos, bem nos queremos.»—O sr. morgado precisa alguma coisa?
MORGADO
Já por ahi procurámos e dispozemos do que encontrámos… São ainda necessarias roupas, talheres…
LUIZ MANUEL
Ha de apparecer tudo… Tudo?… tudo o que resta. Fizeram bem em se ir logo servindo… Haviam de achar as chaves nas portas… Era o costume antigo, bem sabe.
MORGADO
Achámos. Extranhei até… Estando aqui sós…
LUIZ MANUEL
Não tem perigo. Pouco ha já que fechar e arrecadar. Vasios quasi, os taleigos que andavam de cogulo… a bem dizer no fundo, as arcas d'antes a arrebentar de fartas. Não será como então, que melhor se podia dizer: «em casa cheia depressa se faz a ceia.» Mas o que ha, o que houver… É a vontade da sr.^a morgada… decerto ha de ser. Com ir ahi tudo por agua baixo… que nem sei já se virei a cerrar os olhos n'esta casa onde nasci… ella a final sempre é quem é… (como para atravessar para a D.) Vou dar ordem a… (parando de repente e com tom consternado.) Queria, sr. morgado, mas não posso… Queria pôr a alma e a vida no que me cumpre, já que a Torre da Palma está sem amos… Eu bem conheço que «hospedes em casa dia santo é»… mas… mas… Estou velho, faltam-me as forças! «Uma coisa se deseja e outra é bem que seja.»
MORGADO
Tem alguma coisa, Luiz Manuel?
LUIZ MANUEL
Eu não, sr. morgado. É a minha Simôa… Isto de viver assim vinte annos juntos, deita raizes cá dentro!…
MORGADO
Pois… que lhe succedeu?
LUIZ MANUEL
Mal acabou o terço, a minha Simôa foi á sacristia buscar um papel, que pelos modos tinha encommendado ao nosso padre cura do Vayamonte… Eu estava á porta á espera… Mal vinha a sair, entra-me a tremer, a tremer toda, a torcer-se como um vime, e a revirar os olhos, e a sumir-se-lhe a falla, e sem se poder ter!… Aquillo não é senão olhado que lhe deram!… Foi preciso trazel-a em braços, e lá ficou em baixo na cama… (lembrando-se de subito) Ai! Jesus! esta cabeça como está com tanta coisa de repente!… Então não me esquecia?… Quando o moço passou por nós, e nos advertiu que estava cá o sr. morgado da Gesteira, tornou assim mais a si a minha Simôa, e disse… (como recordando) Queira Deus que me lembre… Foi isto: «É parente da sr.^a morgada… pede-lhe que venha ver-me, pede-lhe Luiz… Tral-o hoje aqui a Providencia!» Foi isto, foi!
MORGADO
E não m'o dizia? Vamos já. (comsigo) Porque será?
LUIZ MANUEL
Pois o sr. morgado quer?… Aquillo é tresvario do mal!
MORGADO
Sua mulher assim!… Vamos. (comsigo.) Para que será?
LUIZ MANUEL
Como o outro que diz: «o pequeno mal espanta, o grande amansa.» Deixei gente com ella. A obrigação primeiro. E a obrigação era…
MORGADO
Dispenso-o eu d'ella… Vamos, vamos. Depois se tratará do mais.
LUIZ MANUEL
Agora é o sr. morgado quem manda. (Sae. O morgado vae a seguil-o, entra Gonçalo e Bocage.)
GONÇALO (da porta)
Sr. morgado.
MORGADO (saindo vivamente)
Já volto. Volto já!
SCENA XVI
GONÇALO, e BOGAGE
BOCAGE
Quem é?
GONÇALO
Uma singularidade, emparelhada com outra que hade ver logo.—Não o esperava aqui, sr. Bocage. Vem mesmo por ordem do Ouvidor?
BOCAGE
Mesmo por ordem do Ouvidor. Faz trez semanas que me aquartelei em Monforte, n'um destacamento do meu regimento. Esta manhã o sr. Juiz Ouvidor de Villa Viçosa, que está em correição na villa, saiu a Vayamonte, e trouxe comsigo uma escolta em que eu vim. Ha pouco chega lá um homem todo esboforido… Um criado ouvi que era… D'ahi a um instante o sr. Ouvidor manda-me chamar em pessoa, e envia-me com quatro soldados aqui, para proteger não sei que fidalga que vem de jornada… O encargo póde ser lisongeiro, mas confesso que o dava a todos os demonios quando deitei por esses fraguedos abaixo. Agora, encontrando-o, meu tenente, dou-me por pago de tudo… Informei-me, e disseram-me que se tinham recolhido n'esta casa os viajantes. (reparando) Que casa santo Deus!… Dá-me ares de ter escapado ao diluvio… Pois a mobilia!… Da arca de Noé a trouxeram para aqui, certamente!… E aquelle canapé… Que canapé!… Um canapé? Um monumento!…
«Quando a velha antiguidade Dentro n'esta sala entrou, Disse áquelle canapé: Sua benção, meu avô!»
GONÇALO
Bravo, sr. Bocage. Não se lhe estanca a veia por estes desertos do Alemtejo. O mesmo sempre!
BOCAGE
O mesmo diz? Estou a ponto de cair em melancolia… britanica. Mulher que se alberga n'uma habitação d'estas é por força como ella. Uma mumia, não? Uma curiosidade archeologica… uma contemporanea das pyramides… Não me diga quantos annos tem.
GONÇALO
Vinte e tres annos, viuva, todos os dotes do espirito, todas as graças da formosura, todos os primores de duas côrtes.
BOCAGE
Tudo isso! Aqui?… Aqui!…
GONÇALO
De passagem.
BOCAGE
Não diga mais, meu tenente. Quer-me fazer apaixonar, ou está já apaixonado.
GONÇALO
Isso estão quantos a vêem.
BOCAGE
Severa ou jovial?
GONÇALO
Um porte que infunde respeito, uma afabilidade esmaltada de sorrisos. Não ha temeridade que se lhe atreva, nem isenção que lhe resista.
BOCAGE
Esse enthusiasmo faz-me tremer! Uma perfeição!
GONÇALO
Um enigma.
BOCAGE
Enigma ou mulher, o mesmo é.
GONÇALO (olhando para dentro)
Eil-a!
BOCAGE
O enigma.
GONÇALO
A perfeição.
SCENA XVII
OS DITOS, D. MARIA JOANNA e o COMMENDADOR
GONÇALO
Se dá licença, a sr.^a D. Maria Joanna Galvão, apresento-lhe o sr. Manuel Maria Barbosa de Bocage, cadete do regimento de Setubal, que lhe traz recado do sr. Juiz Ouvidor de Villa Viçosa.
D. MARIA JOANNA
O sr. Juiz Ouvidor teve noticia de nós, e digna-se pensar em mim!
BOCAGE
Dever é de todo o homem proteger as damas. Mais ainda quando o homem é magistrado. Mais ainda quando as damas são de tal qualidade.—Por sua ordem e em seu nome venho. Infelizmente não chego a tempo de ser util.
D. MARIA JOANNA
Se não é já necessario auxilio, o sr. cadete vem sempre a tempo de receber os meus agradecimentos, e os do sr. commendador de Monsarás… (Os homens inclinam-se, cumprimentando-se) que me acompanha… para os transmittir á estremada cortezia do sr. Juiz Ouvidor.—Está aqui ha muito?
BOCAGE
Ha um instante. Os meus soldados esperam as ordens de v. s.^a
D. MARIA JOANNA
Soldados! Mais? Temos uma guarnição completa. Coitados! Mande-os descançar.
BOCAGE
Estão já descançando.
D. MARIA JOANNA
N'esse caso, o sr. cadete demora-se tambem.
BOCAGE (inclinando-se)
Mandaram-me ficar ás ordens! (baixo, a Gonçalo.) Tinha rasão. Gentilissima!
GONÇALO (a Bocage, do mesmo modo)
Inflammado já? (alto.) Apresentei-lhe o militar, permitta-me agora que lhe apresente o poeta… O sr. Bocage é conhecido, e já apreciado, pelo seu estro brilhante… um estro que se revelou desde a infancia… Nem só em França se frequenta o Parnaso. Aqui tem um moço que nasceu poeta.
BOCAGE
Como outros nascem vesgos ou tartamudos.—Talvez seja assim, se a amizade do sr. tenente o não cega, ou me não favorece… mas talvez tambem a segunda apresentação prejudique a primeira.
D. MARIA JOANNA
Porque? As armas e as musas não são inimigas, que eu saiba.
COMMENDADOR
Horacio esteve na batalha de Philipes, o Suetonio foi escriptor e guerreiro! Ainda que Pittaco, um dos sete sabios da Grecia, dizia «os validos de Marte são a injustiça e a violencia» não deixou o grande Plutarcho de escrever «que os Lacedemonios pintavam Pallas armada» posto serem uma só Pallas e Minerva.
BOCAGE (contemplando-o abysmado, a Gonçalo em voz baixa)
Este quem é?
GONÇALO (idem)
A outra singularidade!
BOCAGE
Que pena ter estudado! Forte asno se perdeu ali!
D. MARIA JOANNA
«N'uma das mãos a pena, n'outra a espada,» diz, creio eu, o nosso Camões, poeta e soldado tambem.
BOCAGE
Ahi está um tambem capaz de inventar orgulho no mais modesto… se o não tomasse á conta de exageração obsequiosa. (a Gonçalo, baixo) Venus, disfarçada em viajante!
D. MARIA JOANNA
Exageração! Em que? Por ler vivido fóra da patria não lhe desaprendi a lingua, nem lhe desestimo as glorias.
BOCAGE (lisongeado)
D'essas glorias não participo eu, como obscuro ainda.
GONÇALO
Não tanto, sr. Bocage!
D. MARIA JOANNA
Ainda? Não ha n'essa palavra a consciencia do que é? a confiança no que será? As musas não deixam muito tempo sem gloria os seus predilectos.
BOCAGE
Sabe se sou d'esses?
D. MARIA JOANNA
Adivinho-o. Deixa-me vaticinar-lh'o?
BOCAGE (com enthusiasmo)
Bastaria o vaticinio para inflammar o estro.
D. MARIA JOANNA
Deveria provar-me que tenho razão. Em França estima-se a poesia, e eu venho sequiosa da nossa. Era dar-me as boas vindas.
GONÇALO
Ninguem melhor do que o sr. Bocage. É não só poeta, mas improvisador.
D. MARIA JOANNA
Como em Italia.
GONÇALO
Ainda ha pouco…
BOCAGE (atalhando-o)
Por quem é! (a D. Maria Joanna) Vem de França, v. s.^a?
D. MARIA JOANNA
De Paris.
BOCAGE
Francez era meu avô; com as musas francezas me creou minha mãe… Somos quasi conhecidos.
D. MARIA JOANNA
Bocage!… Não me é novo o appellido. Não tem em França parentes?
BOCAGE
Tenho. Uma segunda tia materna… Bocage tambem por seu marido.
D. MARIA JOANNA
Já sei. A sr.^a D. Marianna, auctora do poema da Columbiada… coroada ha annos em Ferney pelas proprias mãos de Voltaire… E queixa-se de lhe faltar a gloria!
BOGAGE
Agora não me queixo. Ainda que não seja minha essa gloria, é meu o proveito d'ella.
COMENDADOR (que tem disfarçado alguns signaes d'impaciencia, murmurando comsigo)
Coroada por Voltaire!… Boa prenda hade ser!…
BOCAGE (que não ouviu bem, mas que lhe notou o gesto, a Gonçalo)
Antipathiso formalmente com a singularidade!
D. MARIA JOANNA
A poesia é hereditaria nos seus, já vejo.
GONÇALO
De ambos os lados. Seu pae o dr. José Luiz Soares de Barbosa adorna a toga com a lyra, e é um dos discipulos mais estimados de Souto-Mayor.
BOCAGE (sorrindo)
É doença de familia, não o nego. Doença chronica, e por isso incuravel.
D. MARIA JOANNA
Em França diz-se: noblesse oblige. A poesia, que é nobreza tambem, está a obrigal-o.
BOCAGE (exaltando-se progressivamente)
A poesia… A poesia é a lingua dos deuses, e a historia do mundo. É o raio omnipotente de Jupiter, e o carro fulgurante de Apollo. N'ella, em todos os tempos, teem cantado os homens as suas alegrias, teem chorado as suas dores, teem perpetuado os seus feitos, teem immortalisado as suas catastrophes. N'ella começou a balbuciar a humanidade; n'ella fundou os monumentos que desafiam os seculos. A poesia é a expressão do que ha mais intimo no coração e mais celestial no pensamento; é magnificencia e harmonia; é arrebatamento e seducção; esplendor pela fórma, delicia pelo som. É resumo de quantas artes levantam o homem ao Olympo; sentimento para a alma, idéa para o espirito, imagem para os olhos, musica para o ouvido, enlevo para todos os sentidos! Seria a poesia a unica lingua digna de saudal-a, minha senhora, se a mais completa poesia não fosse a propria formosura. (recrescendo) Deve ser a poesia…
COMMENDADOR (que durante esta falla passeou ao F. indo á janella)
Não quer que lhe feche esta janella, sr.^a D. Maria Joanna? Estão frias as noites, e o ar por aqui traspassa. Dos ares montesinhos, diz o insigne Columella…
D. MARIA JOANNA (atalhando-o impaciente e reprehensiva)
Commendador!
(O commendador approxima-se tirando a caixa de rapé.)
BOCAGE (reprimindo um gesto furioso e como continuando)
Mas a poesia, como dama, tem os seus dias, tem os seus momentos, tem os seus caprichos. É rainha, e não serva. Impéra, não obedece. Se vae arremessada no vôo, se a fazem colher as azas e baixar á terra (fitando o commendador)… para tropeçar na impudencia, ou no ridiculo… faz-se allegoria, faz-se apologo; é epigramma, é satyra; fustiga, flagella, punge, dilacera, fulmina… e segue, a sorrir desdenhosa, deixando atascada no seu lodaçal immundo a sandice enfatuada e grosseira!…
COMMENDADOR (sorrindo dubiamente e saboreando a pitada)
Hypotypóse arrojada! Já Democrito, philosopho da Thracia, dizia… o que quer que seja similhante… ao divino Hypocrates, natural da ilha de Cós! (Bocage vae para replicar arrebatado. Entra o morgado.)
SCENA XVIII
OS DITOS e o MORGADO
MORGADO (com um papel na mão, que esconde apenas vê os que estão em scena)
Grande novidade, prima! Grande novidade!
GONÇALO (que observou tudo)
Diversão a tempo.
D. MARIA JOANNA (ao morgado)
Como as do costume?
MORGADO
A mulher do Luiz Manuel que está muito mal! Perdeu já a falla.
D. MARIA JOANNA
Tão mal a pobre Simôa!… Commendador, sr. Gonçalo Mendo, venham, venham.
MORGADO
Póde ir logo, prima. A sua refeição hade estar prompta!
D. MARIA JOANNA
Quando me diz que temos ahi uma creatura em perigo! Enlouqueceu? (aos outros) Vamos… (como lembrando-se, e detendo-se) Sr. cadete… qualquer dos seus soldados póde ir buscar o cirurgião á villa.
GONÇALO
Que monte a cavallo um dos dragões: irá mais depressa.
D. MARIA JOANNA
Vamos, venham. (Sae, e o commendador pela E.)
BOCAGE (baixo, apressado e a Gonçalo.)
Uma nympha! uma deusa! Estou doido por ella. Tem só um defeito…
GONÇALO (indicando o commendador)
A singularidade?
BOCAGE
A asnidade, digo eu. (Sae pelo F.—Gonçalo segue D. Maria Joanna).
SCENA XIX
MORGADO só, pouco depois o COMMENDADOR
MORGADO (vendo-os sair, desconfiado)
Um cadete agora! É o quartel general aqui… (olhando em redor) Tardava-me já ver-me só… (tirando o papel e examinando-o) Fechado!… sem direcção!… E com que ancia e mysterio a Simôa me segredou… «isto á sr.^a morgada… sem falta!…» Que pena perder os sentidos!… Que será? Pois que não tem direcção… (lançando novamente os olhos em redor) facil é sabel-o. (Abre, lê attentamente, e acaba com um grito de admiração) Oh!… (passeiando e meditando) Quem tal havia de dizer? (pára como resolvendo de repente) Não ha que pensar… Agora posso ir encommendando a sege… (assoma á porta da E. o commendador, sem que o morgado o presinta) Com um segredo d'estes!…
COMMENDADOR
Que segredo, sr. morgado?
MORGADO (sobresaltado, e guardando apressadamente o papel)
Segredo!… (serenando, ironicamente) Um segredo meu, sr. commendador.
COMMENDADOR (com o habitual sorriso entre fatuo e maligno)
Segredos, só debaixo da terra… como faziam os romanos!
(Cae o panno)