ACTO III
Reading edition
*Em janeiro de 1786*
Sala em casa de Manuel Simões. Mobilia dos meiados do seculo XVIII.—Porta ao F.—Á D., no 1.^o plano, porta do escriptorio; no 2.^o plano, porta que leva ao interior da casa.—Á E. janellas de sacada.
SCENA I
D. FELICIA, D. MARIA JOANNA e MARIA GERTRUDES
(em trajo de passeio)
D. FELICIA (a D. Maria Joanna)
Pois muito bem, sobrinha. Truxe já o meu escudeiro de proposito.—Aproveito a occasião para ir á festa de S. Domingos. Préga hoje o Padre Mestre fr. Joaquim do Rosario… Sabe? o Padre Mestre fr. Joaquim, que vae ás nossas assembléas, e canta á viola franceza «De saudades morrerei,» com tantos requebros, que é mesmo uma suspensão?
D. MARIA JOANNA
Sei. Póde ir descançada á sua festa.—Provavelmente preciso demorar-me com o sr. Manuel Simões, visto que em resulado de conselho seu lhe entreguei por uns mezes, como precisava, a administração da minha casa.
D. FELICIA
Não se arrependa. Honrado até alli. Depois que elle me administra… por obsequio, já se vê… é outra coisa. A minha pena é não lhe ter pedido ha mais tempo. Sermões não faltam, é verdade… o dinheiro espremido, que nem que fosse d'elle… mas prompto sempre, e incapaz de arredar um fio!
D. MARIA JOANNA
Acredito.—Tinha necessidade de descanço. Passei o verão no campo, e nada examinei ainda… Parece-me que é tempo.—Já lhe mandou recado?
D. FELICIA
Está lá em baixo nos armazens. Não tarda.—E foi só por isso que veiu?… Ai! sobrinha! não faz idéa que mal me sinto dos meus hystericos vendo tratar com tanto afinco d'essas coisas uma pessoa da sua edade, e no seu caso… com tantos vinculos… com…
D. MARIA JOANNA
Por isso mesmo!
D. FELICIA
Emfim, a sobrinha gosta de se entreter em negocios!… Cá por mim… abrenuntio!… Negocios, deixo-os a quem toca. Não são para senhoras da nossa jerarchia!… (movimento de D. Maria Joanna) Não digo nada, não digo nada… A sobrinha é senhora das sua acções.—É uma conferencia então? E hade ser longa!
D. MARIA JOANNA
Não se apresse, minha tia. Tem tempo para tudo, já vê.
D. FELICIA
Deixo-lhe a afilhada para a acompanhar. Venho logo buscal-a, e de caminho darei tambem duas palavras ao sr. Manuel Simões.
D. MARIA JOANNA (sorrindo-se e ameigando-a)
E dizia que era inimiga de negocios!
D. FELICIA
Jesus! Deus me defenda!… Ai! eu, são duas palavras só. Até logo. (para sair, e voltando á afilhada.) È verdade, Maria Gertrudes. Trazes-me ahi a minha agua da Rainha d'Hungria?
MARIA GERTRUDES (dando-lhe um pequeno frasco)
Aqui está, madrinha!
D. FELICIA (recebendo-o, cheirando-o, e depois arrecadando-o)
Não posso andar sem isto… por causa dos hystericos… Até logo, sobrinha.
SCENA II
D. MARIA JOANNA e MARIA GERTRUDES
D. MARIA JOANNA (voltando, e olhando meio impaciente para as portas da D.)
Demora-se!… (pausa.) Está triste, Maria?
MARIA GERTRUDES
Eu, minha senhora! Triste! Porque?
D. MARIA JOANNA
Não tem razão, decerto. Minha tia não a póde trazer mais estimada, e merece-lh'o.
MARIA GERTRUDES
A minha rica madrinha! Não sei como lhe hei de agradecer a creação que me deu… e o muito que me quer!…
D. MARIA JOANNA
Querendo lhe tambem, como faz.—Vamos, d'ahi não procede o mal. Do que de ordinario mais inquieta na sua edade menos ainda.—Se não me engano, está em Lisboa um certo cadete… já poeta de fama… cada dia de maior fama, que… É certo?
MARIA GERTRUDES (atalhando, envergonhada)
Oh! minha senhora!
D. MARIA JOANNA
Então que tem? Uma inclinação não está mal… Em se não faltando ao recato!… E elle mostra-se respeitoso, que é sempre bom indicio… Todos os casamentos por ahi principiam, e estou que não quer professar.—Que lhe diz o coração?
MARIA GERTRUDES (olhando receiosa em redor)
Nunca fallei n'isto, nem a minha madrinha!
D. MARIA JOANNA
Pudéra! Fallo-lhe eu, porque tambem lhe sou afeiçoada. Provavelmente não se entendia tão bem com minha tia.
MARIA GERTRUDES
O coração… Nem, eu sei.—O sr. Bocage diz-me coisas como ninguem… (inadvertidamente) mas o outro…
D. MARIA JOANNA
Ah!… Ah! temos outro!…
MARIA GERTRUDES (toda balbuciante)
Eu disse outro? (animando-se.) Disse. Disse, porque é verdade… (acudindo.) A culpa não é minha!
D. MARIA JOANNA
Está visto. Pois nós temos culpa nunca d'essas… complicações!—E o outro?
MARIA GERTRUDES (quasi chorando)
Foi um ingrato! Não posso, não devo mais lembrar-me d'elle…
D. MARIA JOANNA
Então d'ahi estamos desenganadas. Naturalmente fica preferido o poeta.
MARIA GERTRUDES (hesitando)
Ai! agora fica… (mais decidida.) Fica… mas…
D. MARIA JOANNA
Mas?… Suspeito d'esse mas.
MARIA GERTRUDES (meio impaciente)
Tomára quem me ensinasse como se conhece um amor verdadeiro. (achando uma idéa.) Ah!… A sr.^a D. Maria Joanna hade saber… É viuva, sabe… Diz-m'o?
D. MARIA JOANNA
Eu!… (enleiada.) Devia saber, devia… mas… (comsigo.) Aqui estou eu tambem a cair nos mas…
MANUEL SIMÕES (dentro)
Ainda agora m'o dizem!
D. MARIA JOANNA (comsigo)
Vem muito a proposito o sr. Manuel Simões.
SCENA III
AS DITAS, MANUEL SIMÕES (da porta, 2.^o plano, á D.)
MANUEL SIMÕES
Que vergonha!… que vergonha para esta casa!…
D. MARIA JOANNA
Que é isso, sr. Manuel Simões?
MANUEL SIMÕES
Fazerem esperar tanto tempo s. s.^a!… N'este instante me deram o recado, aquelles brutos… Que hade dizer?… Hade dizer que nem sei tratar com pessoas de condição, eu, Manuel Simões, que toda a minha vida… com bem o digamos… fui favorecido da grandeza!… eu, um compadre de dois marquezes!… (corrigindo-se) De dois… de um, que o outro…
D. MARIA JOANNA
O outro já lá vae.—Não se afflija com isso. Esperei, mas não me enfastiei. E bem era que esperasse, que o negocio é meu…
MANUEL SIMÕES
Negocios!—É verdade… a sr.^a morgada? Em seu nome me levaram o recado.
D. MARIA JOANNA
Vim com ella. Foi á festa a S. Domingos. Volta logo.
MANUEL SIMÕES (admirado)
Negocios! V. S.^a! Commigo!
D. MARIA JOANNA
Pois não me tomou a administração?
MANUEL SIMÕES
Por pouco tempo, disse-lh'o logo… Estou já tão sobrecarregado!… Depois, estas administrações… afastam-me do meu giro.
D. MARIA JOANNA
Justamente. Ahi verá se precisamos fallar. Para não o incommodar mais, e tomar a direcção da casa, preciso examinar, preciso esclarecer-me… e agora ninguem melhor do que o sr. Manuel Simões.
MANUEL SIMÕES (attonito)
Ah!
D. MARIA JOANNA
Admira-se?
MANUEL SIMÕES
Admiro, porque não é o costume. Admiro, mas approvo. Quando quererá sua tia D. Felicia fazer o mesmo, ou pelo menos ouvir-me? Pois devia… devia, que se continua como vae, não sei como hade ser… Por mais que lhe peça, por mais que lhe diga, nada. Não quer saber senão de dinheiro… Como se o dinheiro se cavasse!… Quando lhe fallo em contas, dão-lhe os seus hystericos, e… acabou-se, não é possivel.—Os papeis estão todos em ordem no meu escriptorio (indica a porta respectiva). Não é casa costumada a donaires, mas se não a assusta…
D. MARIA JOANNA (dirigindo-se á porta indicada)
Pois a que vim eu?
MANUEL SIMÕES (reparando em Maria Gertrudes e com certo affecto)
Ai! a menina Maria Gertrudes! Já aqui lhe mando minha irmã Monica para lhe fazer companhia.
MARIA GERTRUDES
Não é preciso… Vou eu mesmo procural-a, se me dá licença.
MANUEL SIMÕES (como acima)
Bem sabe que é de casa! (encaminha-se ao escriptorio.—Como lembrando-se de repente) Oh!… (Novamente ás senhoras) Permittem? (indo á porta da D., 2.^o plano) Levem lá para baixo essas peças de saragoça, que hão de ir ámanhã para Abrantes… e arêjem-me as baetas, não se esqueçam… (voltando) Isto, se eu não determinar tudo!… (inclinando-se e esperando á porta do escriptorio que D. Maria Joanna passe.—Sae D. Maria Joanna e Manuel Simões.)
SCENA IV
MARIA GERTRUDES, pouco depois FRANCISCO
MARIA GERTRUDES
Hade ser grande a demora e a espera. (indo á janella) Não são como as nossas estas ruas da baixa. É um borburinho de gente sempre! (Chega-se á janella.—Entra Francisco do F. Vê-a e não póde reprimir um movimento de involuntario alvoroço.)
FRANCISCO
Ah!
MARIA GERTRUDES (voltando vivamente, vendo-o)
Ah!
FRANCISCO (constrangido)
Desculpe… Não a esperava aqui… Já me retiro.
MARIA GERTRUDES (do mesmo modo)
Póde ter que fazer… Sou eu que vou procurar sua tia.
(Dão alguns passos; elle dirigindo-se ao F.; ella passando á D.—Quando vão a affastar-se, param e voltam-se quasi simultaneamente.)
FRANCISCO (com vivacidade)
Chamou?
MARIA GERTRUDES (de olhos no chão)
Chamou?
FRANCISCO (depois de pausa)
Nada.
MARIA GERTRUDES (idem)
Nada.
FRANCISCO
Adeus, menina Gertrudes!
MARIA GERTRUDES
Adeus, sr. doutor.
(A ponto de retirar-se, ella pela D., 2.^o plano, elle pelo F., Francisco torna atraz)
FRANCISCO
Quer-me ouvir um instante?
MARIA GERTRUDES
O sr. doutor está em sua casa! (de olhos baixos.)
FRANCISCO (picado)
Ah! é só por isso? E porque me não chama Francisco como d'antes?
MARIA GERTRUDES
Um doutor, já formado!—E porque me trata por menina? Não era o seu costume.
FRANCISCO
São preceitos do seu poeta?
MARIA GERTRUDES
Receia que o vão dizer á sua apaixonada?
FRANCISCO
Uma apaixonada, eu!
MARIA GERTRUDES (com impeto)
Hade negar que teve o outro dia uma briga por causa da Esteireira que representa no Salitre?
FRANCISCO
Ia passando… É mulher… Insultavam-n'a… defendi-a.
MARIA GERTRUDES (com ressentida ironia)
Deu agora em defender todas as mulheres! até mulheres que representam no theatro!… E o que ella lhe está obrigada… E o que falla no senhor!… no sr. Doutor!… E o que…
FRANCISCO
Mas se lhe digo…
MARIA GERTRUDES (atalhando)
Não negue… sei tudo… Contou-me tudo a mulher de um torneiro, que tem o marido na cadêa, e vae lá ás vezes ás Portas da Cruz, fallar á madrinha para peditorios… (elle quer atalhar; ella não o deixa.) Conhece tambem a tal creatura, a mulher do torneiro… ouviu-lh'o mesmo da sua bocca… (como acima) Veja se é verdade, ou não!
FRANCISCO (desesperado)
Pois é verdade… será verdade… Porque não hei de estar apaixonado de uma comica, se a menina não vê senão o seu novo arrojado.
MARIA GERTRUDES (quasi chorando)
Ólhe? Confessa!
FRANCISCO
Nem se atreve a dizer que não!
MARIA GERTRUDES
Depois do que me tinha promettido!
FRANCISCO
Depois do que me tinha protestado!—E eu que voltei ainda tão descançado para Coimbra, depois d'aquella vespera do Corpo de Deus o anno passado!… Estava entretido a responder a meu padrinho quando por alli andavam os poetas a versar… Nem dei por cousa nenhuma… Parti logo no dia seguinte de madrugada, e demorei-me depois até me doutorar… Andava cego… Mas apenas cheguei ultimamente a Lisboa, tive logo quem me abrisse os olhos.
MARIA GERTRUDES (vivamente)
Quem?
FRANCISCO
Quem? É verdade, já vê.—Quem? Uma pessoa de porte e de respeito… uma pessoa que não mente!… (mostrando um papel) Lembra-se do soneto que fez o Bocage ao mote que lhe deu n'essa noite? (lendo.)
«Eu deliro, Gertruria, eu desespero.»
Gertruria, Gertrudes! É evidente. (lendo)
«Pelo ceu, por teus olhos te assevero Que ferve est'alma em candidos amores.»
Ferve-lhe a alma em amores… Escreve-se isto!… Querem-n'o mais claro?
MARIA GERTRUDES (picada)
Porque me não hade o sr. Bocage fazer versos, se o sr. Doutor tem a sua apaixonada!
FRANCISCO
Outra vez a apaixonada! Sim? Não tem mais que me dizer? (suffocado) Pois eu estava morto por encontral-a em liberdade, para lhe declarar… que está tudo acabado…
MARIA GERTRUDES
Isso esperava eu!…
FRANCISCO (continuando)
E para lhe jurar, por alma de quem Deus tem, que haja o que houver…
MARIA GERTRUDES
Não jure, sr. Doutor, não se cance… Não é preciso… (com dignidade) Sua tia está lá dentro, não? Sou pobre, sou humilde, mas não obrigo ninguem. Faço-lhe a vontade. (Sae.)
SCENA V
FRANCISCO, só
Viu-se nunca uma coisa assim! Ainda em cima! É ella que me faz a vontade!… (passeiando agitado.) Quem me havia de dizer?… Com aquelles modos innocentes… Ah! mulheres, mulheres! O que são as mulheres!… Que heide agora fazer? Queria-lhe mais que á vida, mas humilhar-me, não… Embarco… é o verdadeiro… Embarco… vou para longe. Tomára eu uma vida em que nem ouvisse fallar de mulheres… Meu pae não consente de certo… Ah!… Meu padrinho… Vou hoje mesmo fallar a meu padrinho para que me alcance…
SCENA VI
FRANCISCO e MANUEL SIMÕES
MANUEL SIMÕES (á porta do escriptorio)
Falta a escriptura do arrendamento da Carvoíça. Tenho-a na carteira do armazem… Trago-a já.
FRANCISCO (correndo ao pae)
Meu pae, quer-me ouvir.
MANUEL SIMÕES (complacente)
Ai! é o sr. doutor… Deixa-me que estou com pressa.
FRANCISCO
São duas palavras. Pensei melhor. Escusa de fallar á sr.^a D. Felicia… Não caso já com a afilhada.
MANUEL SIMÕES (indignado e attonito)
Que é isto! Então assim se fazem e se desfazem essas coisas! «Dei-lhe palavra!… Já não caso!…» Assim zomba de seu pae, sr. Francisco Pedro!… Cuida que por ter o grau, já não sou quem sou?… Desembargador do paço que fosses, não consentia que me faltasses ao respeito… Já não casas!… Agora?… Depois de te formares, que era só o que faltava!… Tinha que ver!… Costumei me a considerar a pequena como filha!… E não sabes tambem que já dei uns longes á morgada?… (Entra o commendador.) Queres que passe por um catavento n'aquella casa, que por fim de contas é uma casa honrada!… Pensasses antes.—O dito, dito: casas… Queiras ou não queiras, has de casar!
SCENA VII
OS DITOS e o COMMENDADOR
COMMENDADOR (intervindo a Manuel Simões)
Faça a vontade a seu filho. (a Francisco) Descance que não casa.
MANUEL SIMÕES (furioso)
Quem diz que não casa?… (vendo o commendador, e moderando-se.) Ah! é o sr. commendador… Se fosse outro!… Isto são coisas de familia… V. s.^a não sabe…
COMMENDADOR
Sei… e hade chegar-se á razão.
MANUEL SIMÕES
Pois eu na minha casa, não posso…
COMMENDADOR (tomando-o de parte.—Francisco affasta-se)
O padre Ignacio deseja que se não faça este casamento.
MANUEL SIMÕES (respeitosamente)
O padre Ignacio!
COMMENDADOR
Bem sabe o que lhe deve, e o que deve aos padres da Companhia!… O irmão Simões não quer desobedecer decerto… e fazia mal se desobedecesse, que o nome acabou, mas o poder hoje revive!
MANUEL SIMÕES (fitando-o aterrado)
O sr. commendador tambem é?… (o commendador faz-lhe signal de silencio: a meia voz.) Os padres sabem que nunca desobedeço… Mas que interesse pódem ter…
COMMENDADOR
Não é preciso que o saiba.
MANUEL SIMÕES
E quem me assegura…
COMMENDADOR
Que o não engano? Veja este bilhete. (dá-lh'o.)
MANUEL SIMÕES (lendo)
«Faça quanto lhe disser o sr. commendador de Monsarás.—Padre Ignacio!» (resignado.) Não casará.
COMMENDADOR
Agradeça a seu pae, que por minha intercessão lhe faz o gosto.
MANUEL SIMÕES (comsigo)
Com esta gente nem pae se póde ser!…
FRANCISCO (humilde e tristemente)
Meu pae…
MANUEL SIMÕES
Está bom, está bom… O sr. commendador deseja mais alguma coisa?
COMMENDADOR
Tenho ainda que lhe fallar a respeito do negocio de um amigo meu, que hade aqui vir ter commigo.—Está occupado agora?
MANUEL SIMÕES
Estava ajustando umas contas, e confesso que muito desejo concluir.
COMMENDADOR
Conclua, conclua. Não tenho pressa, e o meu amigo ainda não chegou. Esperarei, se m'o permitte.
MANUEL SIMÕES
Está em sua casa. Dando-me licença, vou acabar. (comsigo.) E o tempo que já tenho perdido!… (como occorrendo-lhe.) Olha, Francisco… Vae lá abaixo ao armazem… abre a carteira… aqui tens a chave… (dá-lha) hasde achar ao canto da direita um masso pequeno, atado com um nastro encarnado. Manda-m'o aqui ao escriptorio, e a chave tambem… Pódem vir de roda para não incommodar o sr. commendador e o seu amigo, se já tiver chegado. (Francisco sae. Para o commendador.) Aproveito o obsequio, e abreviarei o que poder.
SCENA VIII
COMMENDADOR só, pouco depois MORGADO
COMMENDADOR (saboreando uma pitada)
Bem diziam os escriptores da gentilidade: estavam fóra de si os deuses quando inventaram o homem, e mal recobraram o tino desataram a rir pondo os olhos na sua obra. Tudo n'elle é vão. Vana mortalitas, como lhe chamava Plinio, o Historiador. Movem-se por um fio… (sentando-se) Tudo está em saber-lho atar. (Entra o morgado esboforido e derreado.) Chega a proposito, morgado… ia-me tardando… Que é isso?… Teve alguma coisa?… Aposto que fez das suas… Não quer domar esse genio!…
MORGADO (lisongeàdo)
Não posso. Muitas vezes quero ter mão em mim… mas qual… todo eu sou fogo.
COMMENDADOR
Deixe, deixe. «Casarás, amansarás!»—Foi briga, pendencia, rixa, desafio?… Pois nem pensando em sua prima, deixa descançar a espada! Quer ser como Lucio Licinio Dentato, que oito vezes em repto singular saiu vencedor á vista de dois exercitos?…
MORGADO (mais lisongeado)
Cada vez o vejo mais: o commendador é um amigo devéras… um amigo como ha poucos…
COMMENDADOR (sorrindo)
Ainda agora dá por isso!—Homem, é boa a fama de valente para captivar as damas, mas nem tanto que assuste. Brigou?
MORGADO
Nada. (com fatua arrogancia.) Não acho já quem queira.
COMMENDADOR (comsigo)
Miles gloriosus!
MORGADO
Quê?
COMMENDADOR
Estou morto por saber o que teve… que o morgado não vinha no seu natural.
MORGADO
Que havia de ser?—Esta manhã, para matar o tempo, fui até á feira das cavalgaduras… alli pela banda do nascente do passeio… Bem sabe o meu fraco. Estava na barraca dos juizes, segundo o costume… Tudo entendedores de mão cheia… Não sei como se passou o tempo… o caso é que deram dez horas… Era a hora a que tinhamos ajustado o nosso encontro aqui… Despedi-me á pressa… instaram-me que ficasse… Se elles não pódem passar sem mim! Foi preciso dizer-lhes que tinha que fazer na baixa, e era tarde já… O Domingos Sanches… aquelle polvorista rico… Decerto conhece… (gesto negativo do commendador.) Ora, não conhece outra coisa!… O Domingos Sanches quiz por força que viesse no seu lasão… um lasão melado… bonito animal… mas de maus signaes… gazio dos olhos, e bebendo em branco… «Não és boa peça, não,» disse eu logo commigo… «esperem que vão ver o que é o morgado da Gesteira a cavallo!…» (enthusiasmando-se.) Estava tudo attento… Monto… como eu costumo montar… O cavallo, apenas me sente, começa a defender-se, e a negar-se… Eu aperto-lhe as esporas… Elle atira dois saltos encabritados… Eu cozo-me com a sella… Elle furta-me o corpo…
COMMENDADOR (depois de breve pausa)
E depois?
MORGADO
Depois… caí!
COMMENDADOR (erguendo-se, sem poder suster o riso)
Caiu?… Cuidei… Caiu!…
MORGADO (mais enthusiasmado)
Mas como eu cai!… com todos os preceitos… Ficou tudo pasmado!
COMMENDADOR
Creio, creio… E o cavallo?
MORGADO
Fugiu.—Para não perder tempo, vim ás carreiras… Ahi tem a razão da demora.
COMMENDADOR
Bem empregada foi, visto que lhe proporcionou triumpho similhante.—Tacito conta que Julio Cesar, o fundador do imperio, tambem caiu d'um cavallo… Provavelmente caiu assim.
MORGADO
Favores, favores.—E a respeito do meu negocio? Fallou já a Manuel Simões?
COMMENDADOR
A respeito do seu negocio ainda não. Está ajustando umas contas, não tarda. E primeiro temos nós que fallar, porque emfim… (Sussurro na rua.—applicando o ouvido.) Espere. Não ouve?
MORGADO
Oiço. Parecem gritos de agarra! (Chegam ambos á janella do 2.^o plano, e debruçam-se para ver.)
SCENA IX
OS DITOS, MANUEL SIMÕES, e D. MARIA JOANNA (á porta do escriptorio)
MANUEL SIMÕES
Enganou-se o Francisco. Não era aquelle o arrendamento… (vae a avançar, e detem-se vendo os dois) Ai! que já me não lembrava.
D. MARIA JOANNA (rapidamente)
É o commendador Louzéllos, e o morgado da Gesteira?
MANUEL SIMÕES
São.
D. MARIA JOANNA
Quizera esquivar-me ás suas importunidades.
MANUEL SIMÕES
Não a viram. Póde esperar no escriptorio… O peior é que talvez tenha de me demorar um pouco. São horas de enfardar as fazendas, e…
D. MARIA JOANNA
Vá, vá… Não tenho pressa. Espero.
MORGADO (attento para fóra)
Vê o que é?
COMMENDADOR
São os rapazes a correr… Ah! agora… É um cavallo solto… e é lasão… Será o tal?
MORGADO (affirmando-se)
É, é!
MANUEL SIMÕES (rapidamente a Maria Joanna)
Se lhes não quer fallar…
D. MARIA JOANNA (fechando a porta)
Até logo. (fecha vivamente a porta.)
SCENA X
OS DITOS, menos D. MARIA JOANNA
MORGADO
E como elle se leva! Não o apanham, não.—Já se não vê.
COMMENDADOR (voltando tambem e rindo)
Em vez de vir o Morgado atraz do cavallo, veiu o cavallo atraz do Morgado. (vendo Manuel Simões) Ah! Sr. Manuel Simões! Acabou já as suas contas?
MANUEL SIMÕES
Ainda não. São horas de carregar as fazendas que hão de embarcar ao meio dia, e se eu não assisto… Não tendo v. s.^a coisa de maior urgencia… Na minha vida não se póde perder um instante!…
COMMENDADOR
Já lhe disse que o não quero estorvar.—Sei o que é a lida de uma casa, no ponto a que chegou a sua… (intencionalmente) Vamos, que lhe não tem corrido mal… Passei ainda agora pela loja, e vi a azafama que por lá ia… Uma fileira de carros á porta, e um deitar abaixo de fazendas das prateleiras, que era um terramoto!
MANUEL SIMÕES (cobrindo o rosto com as mãos)
Um terramoto!… Jesus! Santo nome de Jesus, sr. Commendador! Pelo amor de Deus, não diga essa palavra diante de mim! Já lá vão trinta annos, e ainda me parece ver as torres da Sé a dançar!… E a minha casa!… E a minha pobre mulher, a primeira, que alli ficou!… E toda essa ira de Deus!… (benzendo-se) Em nome do Padre, do Filho, e do Espirito Santo!… Todo eu me arripio ainda.
COMMENDADOR
Tem razão… não direi mais… Mas o que lá vae, lá vae! E dê graça a Deus (intencionalmente) pelas boas protecções que tem tido!
MORGADO (cumprimentando obsequiosamente)
Sr. Manuel Simões!
MANUEL SIMÕES (seccamente)
Viva, sr. Morgado! (ao Commendador) É o amigo que esperava?
COMMENDADOR
Em pessoa.
MANUEL SIMÕES (ao Commendador)
D'aqui a meia hora, o mais, estou ás suas ordens.
COMMENDADOR
Não se apresse… Temos tempo.
SCENA X
MORGADO e COMMENDADOR
MORGADO
Vê como elle me trata? Oh! que se não fosse…
COMMENDADOR
Quando estiver de posse da casa de Carregueiros, faça-lhe o mesmo.
MORGADO
Oh! isso!… E ha-de ser quanto antes. Estou resolvido a acabar de vez com estas incertezas e duvidas de minha prima. Tenho o remedio na mão.
COMMENDADOR (com o seu sorriso)
Tem?… (indo examinar a porta do F. e a da D., 2.^o plano, e depois voltando.) Ninguem na casa de fóra, nem no corredor… Estamos sós e á vontade… Podemos conversar um pedaço.—Com quê… resolveu casar com sua prima quanto antes? Faz muito bem. Casar, e casar rico, era já conselho de Plauto. Nubere in divitias!
MORGADO
Faço muito bem? É devéras a sua opinião, Commendador?
COMMENDADOR
Pois porque não há de ser?
MORGADO
Quer que lhe diga uma coisa?
COMMENDADOR
Diga.
MORGADO
Andei muito tempo desconfiado… Loucuras minhas, agora vejo!… Uma pessoa prudente e de juizo, como o commendador?…
COMMENDADOR
Diga sempre. De que andou desconfiado?
MORGADO
Tinha-me querido parecer que se inclinava a galantear tambem minha prima.
COMMENDADOR (tranquillamente)
Não se enganou.
MORGADO (sobresaltado)
Não me enganei?
COMMENDADOR
Socegue. Passou-me isso pela cabeça na jornada em que a acompanhei de Paris… Mas reflecti depois.—Socegue. Já lá vae.—Escreveu-me um antigo conhecimento de Santa Clara.
MORGADO (malicioso)
Ah! chegaram-lhe lembranças dos doces e da grade!
COMMENDADOR
Reflecti… dês que o encontrei.
MORGADO (lisongeado)
Dês que me encontrou?
COMMENDADOR
E principalmente quando o conheci a fundo. Cada vez tenho por mais seguro que ninguem convem tanto a sua prima… nem a mim.
MORGADO (admirado)
Nem ao Commendador?
COMMENDADOR
Reflecti muito.—Sua prima está ainda no calor da mocidade, não lhe ficaram as melhores impressões do primeiro matrimonio, e ha-de querer indemnisar-se… O segundo marido leva grande responsabilidade e grandes trabalhos!… Eu, o que preciso é descanço… Mesa substancial, o meu copo do Porto velho, os meus livros… e uma boa sege á bolea. A doirada mediania, de que falla Horacio Flacco, o Venusino.—N'isto assentei… e veja como o tenho ajudado.
MORGADO (convencido)
Assim é, assim é. Realmente, não sei como lhe hei de pagar tantas obrigações!
COMMENDADOR (sorrindo)
Ah! isso não lhe dê cuidado.—O Bocage não o affronta já: está todo captivo da afilhada de D. Felicia… E a afilhada de D. Felicia… não lh'o prognostiquei?… deu já de mão ao filho do mercador. O tenente, de um momento para o outro… D'esse depois se tratará, sendo preciso.—Bem vê como lhe abro praça, e o deixo só em campo tornando-lhe facil a victoria. (vae sentar-se á E.)
MORGADO (recuando com uma especie de terror)
E tudo por amizade!
COMMENDADOR
A amizade é o meu fraco. Chegue-se para aqui. Sente-se. Vamos ao que importa. (O morgado senta-se-lhe ao pé.) Manuel Simões não parece muito disposto a dar-lhe ao cincoenta moedas de que me disse precisava infallivelmente.
MORGADO
E preciso. Que faria eu diante de minha prima sem real?
COMMENDADOR (preparando a caixa para tomar uma pitada)
Mau era na verdade… Mas a Gésteira, que nunca chegou para muito, já não dá para mais… As vinte moedas, qne lhe arranjei o anno passado, foram-se n'um instante á banca, e ao loto de Génova… Manuel Simões sabe tudo isto perfeitamente, vê-o afogado n'um diluvio de hypothecas, e não é homem que deite o seu dinheiro pela janella fóra… (offerecendo-lhe a caixa) Toma?
MORGADO (erguendo-se consternado)
Mas então como ha de ser? Se me mandou vir aqui só para me dizer isso!…
COMMENDADOR
Hade ter as cincoenta moedas; abono-o eu.
MORGADO (sentando se e abraçando-o)
Isto é que é um amigo.
COMMENDADOR (saboreando a pitada)
Que rendimento terá a sr.^a D. Maria Joanna? Já averiguou?… Hade ter averiguado.
MORGADO
Só da casa de Val-Moreno, que recebeu pela mãe, anda por cinco mil cruzados.
COMMENDADOR (offerecendo-lhe tabaco)
Serve-se? (Morgado tira machinalmente uma pitada.) É isso.—Quanto aos vinculos de Fresnos e Carregueiros… que lhe tocaram por parte do pae, e que o pae tinha herdado de seu irmão o Capitão-mór, marido de D. Felicia, que morreu sem filhos… quanto aos vinculos de Fresnos e de Carregueiros, deve andar cada um para mais ainda… principalmente o de Carregueiros.
MORGADO
Não tem menos de quinze a dezeseis mil cruzados ao todo. Mas a que proposito…
COMMENDADOR
Calculos necessarios. Vinte moedas em junho passado, cincoenta agora, fazem setenta… que o morgado vem a dever-me.
MORGADO (como protestando)
Devo, devo… Heide dever, e heide pagar… juro-lhe. Juro por… pela cruz da minha espada.
COMMENDADOR
Se podesse jurar por outra coisa!
MORGADO (offendido)
Duvída?
COMMENDADOR
Ha viver e morrer.—Homem, a commenda, bem sabe, apenas me chega para viver com decencia… e parcimonia.—Suetonio, e outros auctores, louvam a parcimonia como virtude; mas Terencio tem que a dureza da vida não é para gente adiantada… e eu sou da opinião de Terencio!—O morgado não ha-de querer que perca assim setenta moedas!
MORGADO (desconfiado)
Deseja alguma segurança?
COMMENDADOR (saboreando a pitada)
Quasi nada. O morgado faz-me uma escriptura de divida de trinta mil cruzados!… e sou eu que lhe hei-de pôr a data!
MORGADO (erguendo-se de subito e exclamando furioso)
Trinta mil cruzados! Dois annos de rendimento da casa de minha prima!…
COMMENDADOR (tranquillamente)
Não grite.—Ólhe se estivesse ahi alguem perto?
MORGADO (contendo mais a indignação)
Trinta mil cruzados para pagar setenta moedas!
COMMENDADOR
Quem lhe diz isso? Para deitar sege, e ter honradamente as commodidades que me faltam.—Oiça, e entre na razão. Desistindo de aspirar á mão de sua prima, renuncio áquella riqueza toda. Não tem valor isto? E faço mais; trabalho para desafogal-o de rivaes perigosos… perigosos, podemos dizel-o entre nós. Não merecerão estes serviços trinta mil cruzados? Contou bem. São dois annos do rendimento de sua prima. Póde pagar em quatro. Fica-lhe ainda metade. Veja quem lh'o fazia por menos.—Não recuse, ou ponho-lhe quarenta por condição.
MORGADO
Por condição?
COMMENDADOR
Por condição. E hei-de obtel-a.—Ha condições de muitas especies. No codigo de Justiniano, e nos cincoenta livros dos Pandectas, que lhe servem de commentario…
MORIGADO (atalhando-o desesperado)
Quaes Pandectas nem qual Justiniano! Esse pinhal de auctores e de latins, é um pinhal da Azambuja. (passeiando agitado) Trinta mil cruzados!… Nada, não me deixo roubar… Tão tolo era eu que assinasse similhante escriptura!… Poem-me condições!… a mim!… Sempre quero vêr!…
COMMENDADOR (cruzando a perna tranquillamente e tirando um papel do bolso)
Hade ver.
MORGADO
Poem-me condições!… E d'essas!… É muito caro o seu auxilio, commendador. Dispenso-o. Tenho outro modo de convencer minha prima, mais seguro e mais barato.
COMMENDADOR
Mais barato, duvido.
MORGADO
Verá.
COMMENDADOR
O seu famoso segredo?
MORGADO
Verá.
COMMENDADOR (socegadamente)
Pois então experimente. (O morgado pára e fita-o.) Vá dizer a sua prima: «Prima, tenho aqui uma declaração, que me entregou nos ultimos momentos a Simôa da Torre da Palma…» É provavel que a traga no bolso… (O morgado leva vivamente a mão ao bolso, como para verificar se lá está o papel indicado.) Traz, descance!…
MORGADO (mais tranquillo)
Conjecturas para pescar verdades… O ardil é velho.
COMMENDADOR
Quer saber o que diz a declaração? (desdobra o papel que tem na mão. Estão ambos attentissimos um para o outro. Descerra-se mansamente a porta do escriptorio, e D. Maria Joanna apparece alli, a rapidos intervallos, observando.)
SCENA XII
OS DITOS e D. MARIA JOANNA (meia occulta)
COMMENDADOR (lendo)
—«Por temor de Deus, e amor da verdade, eu Joaquina Simôa, familiar da casa da Torre da Palma, tendo presentimento de que me chegará breve a hora de dar contas, e não querendo condemnar a minha alma, declaro o seguinte, que n'esta hora confirmo com juramento aos Santos Evangelhos, em presença do reverendo padre cura de Vayamonte, e por sua exhortação e conselho…» (O morgado, primeiro attonito, depois aterrado, tem tirado do bolso a outra declaração, como para comparar com o que ouve, e parecendo duvidar ainda.) É exactamente isto?
MORGADO
Ou o commendador tem parte com Satanaz… ou é verdade o que dizem!
COMMENDADOR (negligentemente)
Então que dizem?
MORGADO
Dizem que é um jesuita… dos que não trazem roupeta.
COMMENDADOR (severamente)
Sr. morgado, não repita levianamente as maledicencias do vulgo, que se póde arrepender!—Quer verificar o resto da declaração? Conta n'ella a Simôa:—como estando já separada do marido a morgada da Torre da Palma, a filha della Simôa adoecéra;—como o capitão mór, em casa de quem a mesma Simôa nascêra e se criára, a reduzira a prometter-lhe que, se a creança morresse, lhe substituiria a filha d'elle e de D. Felicia, e faria passar por morta a herdeira, tudo isto para que os bens de Carregueiros passassem a varão;—como o escudeiro Luiz Manuel fôra mandado administrar uma herdade da casa ao pé de Olivença, até á morte do Capitão-mór, para que nem elle soubesse do segredo, de que a mulher ficava unica depositaria;—finalmente como a Simôa, levada das obrigações que devia á casa do Capitão-mór, tivera a fraqueza de ceder, e criára como sua a filha de D. Felicia, até que esta a mandou buscar já crescida cuidando ser a afilhada.—Está tudo claramente explicado, e devidamente datado e assignado.
MORGADO (subjugado)
Essa declaração passou das mãos da Simôa ás minhas… nunca a mostrei… nunca a larguei… Como é possível sem ser por artes sobrenaturaes…
COMMENDADOR
Tem innocencias!—Dei uma volta a Vayamonte. O cura é… É meu amigo. Não me podia negar a minuta do papel que elle mesmo escrevêra. (sentando-se de novo) Como iamos dizendo… O morgado vae a sua prima… mostra-lhe esse documento, e diz-lhe: «a supposta afilhada de sua tia D. Felicia é sua prima direita, e herdeira da casa de seu tio Capitão-mór. Este papel e este segredo valem dois terços da sua riqueza. É a unica prova. Se quizer que tal prova desappareça, case commigo. Nada tenho de Adonis; sou um tanto nescio; fallador insoffrivel e farfante rematado.» (Movimento do morgado) É tudo isto, é, morgado… e mais alguma coisa. (Como se proseguisse o discurso do morgado.) «Mas,—continuará,—rasgando este papel é como se lhe trouxesse em dote os vinculos de Fresnos e de Carregueiros.» O argumento conclue. Entra na ordem d'aquelles a que Cicero chamava: argumento premente. Ora como o tenente Gonçalo Mendo não é ainda coisa certa, e como ninguem perde de vontade dez mil cruzados de renda, sua prima fecha os olhos, convence-se, e o morgado casa. Com isso conta, e faz bem em contar. Nada mais solido, mais engenhoso e brilhante. Que pena, se apparecesse esta minuta, e pela data se visse que o sr. morgado tem ha oito mezes em seu poder a declaração, sem a entregar!… Era deitar tudo a perder!—Verdade, verdade; não vale quarenta mil cruzados?
MORGADO
Quarenta agora!…Trinta!…Tinha dito trinta!…
COMMENDADOR (abrindo a caixa)
Tinha? Enganei-me. Quem se não engana? Lucio Floro, da nobre familia dos Anneanos, conta que um engano decidiu uma batalha, e Seneca chama-lhe allucinatio para mostrar a perturbação mental que o determina (voltando-se mesmo sentado, inclinando-se sobre a esquerda, como para evitar que a pitada que vae sorver lhe macule a tira.) Foram quarenta, nem menos um real… E se hesita…
MORGADO (acudindo)
Não hesito… Assigno-lhe a escriptura.
D. MARIA JOANNA (que se adiantára sem que os dois, absorvidos na conversação a presentissem, apresentando-se entre ambos com jovial placidez)
E eu sirvo de testemunha!
COMMENDADOR (erguendo-se sobresaltado)
A sr.^a D. Maria Joanna Galvão aqui!
D. MARIA JOANNA (com o mesmo modo prazenteiro)
Porquê? Não sou interessada?
MORGADO (enleiado)
A prima, naturalmente, não sabe ainda…
D. MARIA JOANNA (atalhando como transfigurada, com grave altivez o severa dignidade)
Sei… Sei que o sr. morgado da Gésteira me entrega immediatamente esse papel… e o sr. commendador esse tambem!
SCENA XIII
OS DITOS, BOCAGE e GONÇALO MENDO, (apparecendo ao F. e detendo-se a observar)
MORGADO
Ha de perdoar, prima. Este papel foi-me confiado.
D. MARIA JOANNA (como acima)
De que modo correspondeu á confiança?—Esse papel é o allivio d'uma saudade, a consolação de uma familia, a restituição d'um patrimonio… Esse papel é a consciencia e o dever. Tem direito de o conservar nas suas mãos?
COMMENDADOR (de parte ao morgado)
Não ceda. Se fica ella com a prova, fica o morgado sem o casamento!
D. MARIA JOANNA (sem os perder de vista)
Sr. commendador, não se envileça mais… nem faça envilecer mais o sr. morgado! A cegueira de um homem, que já não vive, privou sua propria filha do nome e dos bens que lhe pertenciam… O temor da hora extrema corrigiu essa injustiça… (crescendo em indignação) Sobre este erro, que é para chorar, sobre este remorso, que devia ser sagrado, ajusta-se um pacto infame… (Movimento dos dois.) Infame, repito!… Um mercadeja a honra, outro a consciencia!… Um sacrifica a natureza, outro o decóro!… Isso tudo que é senão valor para traficar, fazenda para vender?… Que importa a filha desherdada? Que importa a mulher offendida? A mulher ha-de calar-se e consentir. É o seu interesse… Pensaram isso?… Pensaram, e nem lhes passou pelo rosto o pejo de o pensarem! É o mal das indoles corrompidas não admittirem sequer a existencia de corações sãos e inteiros, para quem a satisfação do dever seja a primeira riqueza! Fizeram-me o ultrage de me julgar por si. Não o podiam imaginar maior!—Sr. morgado, esse papel!… Sr. commendador, esse papel!
MORGADO
Se outra pessoa que não fosse a prima se atrevesse a dizer-me similhantes coisas!…
(Bocage quer adiantar se; Gonçalo detem-n'o.)
COMMENDADOR
Estes papeis pertencem-n'os!
D. MARIA JOANNA (mais exaltada)
É a minha tia que pertencem. Sou eu que lh'os quero entregar!… Sou eu que devo entregar-lh'os!… Não me obriguem a…
GONÇALO (adiantando-se e interpondo-se com respeitosa serenidade)
Perdôe, sr.^a D. Maria Joanna Galvão… Uma senhora da sua qualidade não póde entender-se com estes senhores.
BOCAGE (com ironia mal dissimulada)
Estes senhores vão pôr já nas suas mãos os papeis que lhes não pertencem.
GONÇALO (com terrivel frieza, crescendo contra o morgado, que recua na sua presença)
O sr. morgado não ha-de querer desattender sua prima!—O papel?
BOCAGE (do mesmo modo ao commendador)
O sr. commendador de certo não falta ao respeito a uma dama.—O papel?
(O Morgado e o Commendador, tranzidos e suffocados, entregam os papeis aos homens que teem diante.)
GONÇALO (entregando reverentemente o papel a D. Maria Joanna)
Aqui está.
BOCAGE (idem)
Aqui está.
SCENA XIV
OS DITOS e D. FELICIA, entrando do F. pelo braço de MANUEL SIMÕES, que vem sem chapeu
MANUEL SIMÕES
Isto é coisa que se creia! Obrigar-me a sair assim pela rua fóra, eu, um compadre dos dois marquezes!
D. FELICIA
Queria que entrasse pelos armazens, ou désse o braço ao escudeiro? Viu-o na loja… chamei-o para me acompanhar. Vinha com o meu hysterico, e já não podia…
D. MARIA JOANNA (correndo a ella e atirando-se-lhe ao pescoço)
Minha tia! minha tia! Mal sabe…
D. FELICIA
Credo, sobrinha! Olhe que me desmancha o penteado. Isso são modos de uma senhora?—A afilhada não está na sua companhia?
MANUEL SIMÕES
Está lá dentro com a mana Monica.
D. MARIA JOANNA (alvoroçada)
A sua… a minha… (dando-lhe o braço do outro lado e levando-a comsigo.) Venha, venha, que a espera uma grande alegria.
D. FELICIA (toda turbada)
Que dia de juizo é este!—Não me largue o braço que não estou boa, sr. Manuel Simões.
(Saem pela porta do 2.^o plano da D.—D. Maria Joanna puxando por D. Felicia, D. Felicia puxando por Manuel Simões.)
SCENA XV
BOCAGE, GONÇALO, COMMENDADOR e MORGADO
(Pausa em que os quatro se medem reciprocamente.)
GONÇALO (rindo, para Bocage)
Conhece alguma coisa mais horrenda do que o sr. morgado quando se faz amarello?
BOCAGE
Conheço: é o sr. commendador quando se faz verde.
MORGADO
Oh! que se eu me não contivesse… Mas contenho-me.
COMMENDADOR (com o seu sorriso)
Motejos sempre, sr. Bocage! Plinio, o moço, celebra como coisa de muito apreço a graça das palavras!
BOCAGE (a Gonçalo)
Está mais verde ainda… Foi a peçonha que se lhe derramou!
MORGADO
Oh! que se eu me não contivesse!…
GONÇALO
Já disse isso!
BOCAGE
Que lhe parece, sr. Gonçalo Mendo! Acabamos com esta raça damninha? (indo á janella.) A altura é soffrivel. Dêmos um exemplo.—Deitemos isto á rua. (indica os dois.) Limpamos a cidade.
(Morgado recua aterrado.)
COMMENDADOR (sorrindo mais)
Tem graça o sr. Bocage, tem muita graça!
GONÇALO (fitando o commendador)
É a praga de todos os tempos!… Deixe… Espera-os a publica justiça, que hade chegar… Em gente d'essa não põem mão homens de bem. As viboras esmagam-se com o pé! (Indicando-lhes a porta, com um gesto a que os dois logo obedecem.) Temos que fallar com o dono da casa!
(Cae o pano)