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Os Primeiros Amores de Bocage

ACTO II

Reading edition

Ao fundo a frente e esquina d'um quarteirão da rua Augusta, tomadas da extremidade de uma travessa, cujos edificios estão ainda em obras. Janellas praticaveis em dois andares. A entrada do predio pela travessa.—Renques de marcos de pedra guarnecendo os passeios.—Toldo cubrindo a rua.—As janellas, ornadas de armações de damasco, e preparadas para illuminação. Cubertores de seda e colxas da India nos parapeitos.—O chão areiado; espadanas e murta. Faltam ainda os lampiões.

Fins da tarde. Pouca animação. Alguns transeuntes apenas.

SCENA I

BOCAGE (á paizana, encostado á esquina da direita, com os olhos n'uma das janellas da rua Augusta.)—COMPADRE THEOTONIO e COMPADRE AMANCIO (que veem de lados oppostos.)

(Durante esta scena e a seguinte, BOCAGE dá algumas voltas, apparecendo e desapparecendo, mas sempre tornando ao mesmo logar e á mesma observação.)

COMPADRE AMANCIO (topando-se com o outro)

Aonde vae com tanta pressa, compadre Theotonio!

COMPADRE THEOTONIO

Ao presepio da Mouraria. Quero ver se apanho ainda o Manuel Gonçalves da Ribeira das Naus.

COMPADRE AMANCIO

Trabalha hoje com os arames?

COMPADRE THEOTONIO

Entra no fim. Porquê? Não vou a tempo?

COMPADRE AMANCIO

Se vae! O Manuel Gonçalves tem sua graça… principalmente na scena do diluvio, quando se queixa que perdeu o pente de derrubar.

COMPADRE THEOTONIO

Pois quando ardem as estopadas! As pulhas que elle deita aos demonios!… Tem pilhas de graça!—Deixe-me ir que se faz tarde, e já agora a de seis está destinada (partindo).

COMPADRE AMANCIO (detendo-o)

Que eu, cá para mim, como o Tortinho da Sé, apesar de velho, é que não ha… Nem o Antonio Antunes, do Bairro-Alto. Saca as palavras assim com um tremor do buxo, o maldito, que é a gente espojar-se!—Deus o leve, compadre. Até á noite na loja.

COMPADRE THEOTONIO

Não fecha hoje?

COMPADRE AMANCIO

Lá mais tarde. É dia de muito freguez de fóra, não tem mãos a medir os rapazes, e para alguma barba, assim mais tal, preciso servir eu. Bem sabe a roda que tenho.—Chego alli abaixo á Arcada, a comprar os Autos da Maria Parda para o serão das pequenas, e volto já.

COMPADRE THEOTONIO

Vá com Deus, compadre Amancio, e até logo. (Separam-se e sahem, compadre Theotonio para a E., compadre Amancio para a D.—Entram logo tia Paschoa, e tia Vicencia vindo juntas da E.)

SCENA II

TIA PASCHOA, TIA VIGENCIA e BOCAGE

TIA VICENCIA

Ih! Jesus, Deus Menino! Ainda por aqui arrastadinha, tia Paschoa! O seu homem ainda no Limoeiro! Quer creia, quer não, estava de pedra e cal que se tinha ja livrado. Uma pessoa estabelecida! com loja aberta!…

TIA PASCHOA

E mestre d'officio!… Um mestre de torno, que ninguem lhe leva as tampas!… É isto, que vê, tia Vicencia… Debaixo dos pés se levantam os trabalhos… Que a culpa não é d'elle…

TIA VICENCIA

Isso sempre eu disse… Pobre homem!… Não fui logo lá quando sube, porque da rua dos Remedios á Esperança sempre é um estirão. Aquillo com a labotação do padejo, é vir uns dias por outros ao Terreiro, e não ha tempo para mais.

TIA PASCHOA

Pois eu não sei!—Tudo intrigas do Alcaide!

TIA VICENCIA

Sim? Ora vejam! E então como foi?

TIA PASCHOA

O Alcaide tem uma sobrinha na rua do Lambaz… Sobrinha, vamos… sobrinha ou o que quer que é, que se eu tivesse má lingua…

TIA VICENCIA

Sim, sim, não sabe a gente o que são sobrinhas d'essas!… Que mundo, ai! que mundo, tia Paschoa!

TIA PASCHOA

Uma sobrinha toda peralta!… Sempre como em dia de cirio ou de festa!… Quer na rua, quer em easa, capotilho de durante e bajú de escumilha, um palmito mesmo!… Sobrinha, pois não!… Vá que fosse sobrinha… Estava a ir-nos todos os dias à loja, que até já eu não andava contente, Deus me perdôe… Tudo era encommendar continhas, botõesinhos, coquilhos, cabos de chapeus… um nunca acabar. Mas coisa de pagar, qual! Tanto encommendou, e tanto faltou, que o meu Francisco por fim deixou de lhe fazer obra, e quiz obrigal-a a pagar por justiça… Justiça, está bom!… Ella tinha o pae Alcaide… pae ou tio, que eu sei lá o que lhe é… Foi-n'os a casa toda assanhada… palavra puxa palavra… Emfim, deram-n'os uma força por injuria, e agora o veràs… Eu bem dizia ao meu homem: «ó Francisco, deixa… deixa. Não apertes com a moça.» «Agoa vertida nem toda é colhida.» Mas, nada. Pensam que só elles teem juizo, estes senhores homens! Teimou, teimou, e aqui está. Vae já para um mez que dura este fadario. Sempre com o mantinho aos hombros!… E Deus sabe o que durará!… E tudo em casa a derreter-se… Os meus cordões e arrecadas, foi tempo… Dois tóros de buxo, que elle tinha comprado pelo S. Miguel… sem um nó, que eram mesmo uma perfeição… e haviam de render bons vintens… já lá vão por dez réis de nada… Até uma grosa de piões, que estavam para a Senhora do Cabo… hade crer, tia Vicencia?… a quinze réis cada um, que a bem dizer mais custou o ferrão!… E ainda se não fosse o mestre José Gomes… Deus lh'o pague!… Sabe? O mestre José Gomes, cerieiro ás Trinas, que é juiz do povo!… Se não fosse elle nem resquicios havia já da loja. Agora venho eu do Terreirinho das Olarias, de casa do escrivão, e vou para o Poço dos Negros, a ver se fallo ao sr. juiz do crime do Mocambo.

TIA VICENCIA

Até hoje! Cuidei que andava a ver as ruas!

TIA PASCHOA

A ver as ruas, eu! Ai, santo Antonio e almas! Não faço senão correr de Herodes para Pilatos… E é duas peças a um, quatro moedas a outro… Que os leve a todos trezentos… Jesus, santo nome de Jesus! Nossa Senhora do Livramento me perdôe, que nem eu sei o que ia a dizer… Cruzes, inimigo!… Mas Paschoa do Espirito Santo não seja eu, se o Alcaide, e a beberrona da tal sobrinha, m'o não pagam mais duro que ossos… Pesquei hontem cá uma coisa… O que eu queria era fallar ao sr. Juiz… Dizem que ha ahi uma tal sr.^a morgada, de lá de cima… uma sr.^a D. Felicia, que dá assembléa todas as semanas, aonde vae o sr. Juiz…

TIA VICENCIA

Sei eu quem é… Móra ás Portas da Cruz… É minha fregueza, e por signal que me deve bons vintens. Vou lá muita vez.

TIA PASCHOA

Vae? Se me arranjasse modos de fallar á morgada, para ver se ella pedia…

TIA VICENCIA

Isso é fácil. Mas quer que lhe diga?… Se deseja que o Juiz lhe dê audiencia, e depressa, vá á Esteireira… aquella que representa no Salitre… passe por casa da madama Charles, e leve-lhe uma peça de esguião… se não póde chegar a um rosicler de pedras.

TIA PASCHOA

Ai! Senhor!… Coisas que custam os olhos da cara!…

TIA VICENCIA

Então é deitar o coração á larga… Deus ainda está onde estava, e atraz do tempo, tempo vem. Eu cá nas minhas afflicções pego-me com a Senhora da Purificação, rainha madrinha, que ainda me não faltou. Agora mesmo lhe vou levar á Boa Hora uma quarta de cera, que comprei alli em cima no Soccorro…

TIA PASCHOA (dispondo-se a acompanhal-a)

Vamos para a mesma banda.

TIA VICENCIA

Eu da Boa-Hora tenho de ir á botica das Portas de Santo Antão, que se vende lá uma agoa…

TIA PASCHOA

Tambem tenho de tornar ao Terreirinho. Em quanto fica na egreja, chego eu acima e volto por lá.—Teve novidade em casa?

TIA VICENCIA

Tive a minha Guiteria com umas terçãs, que não havia tirar-lh'as do corpo… Estava-me a enthisicar, a enthisicar todos os dias… na espinha mesmo… Assim Deus purifique a minha alma, em como não foi se não mal que lhe deu a Brites do Forno… Conhece?

TIA PASCHOA

Pois não conheço. Não fosse ella atravessada! O tição!… E então porquê?

TIA VICENCIA

Contos largos. Vamos andando. (Saindo juntas ao passo que entra da D. um transeunte.) E a respeito da sobrinha do Alcaide, não me disse…?

TIA PASCHOA

Paga-m'as todas, com certeza. O caso é fallar ao Juiz. Hontem ao escurecer, tinham dado trindades no convento, vinha eu… (desapparecem.)

SCENA III

BOCAGE, e o TRANSEUNTE

TRANSEUNTE (embuçado, observando, descendo a Bocage, que está de novo parado á esquina, e batendo-lhe no hombro)

Elmano, a lyra divina Por que razão emmudece?

BOCAGE (voltando attonito, mas acudindo logo)

Porque mais cala no mundo Quem mais o mundo conhece!

TRANSEUNTE

Que tens n'esse mundo achado Que mais assombro te faça?

BOCAGE

Um poeta com ventura, Um tratante com desgraça.

(Entra da E. Gonçalo Mendo, de fumo no braço, e pára ao F. observando.)

TRANSEUNTE

Bem respondido, sr. Bocage.

BOCAGE

Bem perguntado, sr. Tolentino.

(Nicolau Tolentino aperta-lhe a mão, e segue para a D. saindo.)

SCENA IV

BOCAGE, GONÇALO MENDO

GONÇALO

Quizera que tivesse mais testemunhas o encontro e o improviso.

BOCAGE (chegando-se)

Para que?… Riam… mofavam. Dois poetas que se cumprimentam em verso!

GONÇALO

Effectivamente não são vulgares os cumprimentos entre poetas… e consta que não é prodigo d'elles o sr. Bocage.

BOCAGE

Não sou, porque não me inclino senão ao merito verdadeiro e superior. A este qualquer póde inclinar-se. Raramente nos encontramos; fallamo-n'os ainda menos; mas admiro-o e respeito-o.

GONÇALO

Desejara tambem que lhe ouvissem essas palavras.

BOCAGE

Porquê?

GONÇALO

Porque sou seu amigo. Correm por ahi, de mão em mão, copias d'alguns improvisos satyricos… seus decerto…—Deixa-me fallar-lhe com franqueza?

BOCAGE

Tão custoso é o que me quer dizer!

GONÇALO

A verdade amarga.

BOCAGE

Trava menos na bocca da amizade, e eu creio na sua.

GONÇALO

Encontro-o em occasião grave para mim. Talvez d'ahi venham estes desejos de o prevenir e aconselhar.

BOCAGE

Ainda agora reparo. De luto?

GONÇALO

Achei em Lisboa a noticia do fallecimento de meu irmão.

BOCAGE

Sinto!… (apertando-lhe a mão.) Sinto-o.—Cheguei tambem ha oito dias do Alemtejo com licença. Não sabia ainda…

GONÇALO

Tornou-se-me obrigação a sisudeza.—Tem um grande talento, sr. Bocage; não lhe faltam protecções… Empregando esse talento em proveito da patria, será grande em pouco, e dar-lhe-ha grandeza. Se tão altos dotes recebeu de Deus, foi para honra da sua terra. Dedicar-lh'os é dever; esperdiçal-os é sacrilegio. O engenho, o saber, o estro são instrumentos que valem segundo o uso que d'elles se faz. Não ha gloria maior quando bem dirigidos; não ha mais pesada responsabilidade quando mal aproveitados.

BOCAGE (um pouco resentido)

Porque me diz isso? Estou em crer que tenho aos pés um abysmo.

GONÇALO

E tem talvez. As suas frechas epigrammaticas promovem-lhe odios tenazes e profundos. Quanto mais agudas forem, e mais acertarem no alvo, mais inimigos lhe hão de suscitar. E os perigosos não são os que lhe respondem como podem; são os que na perfidia dissimulam a vindicta; são os que no sorriso affectado encobrem a vaidade ulcerada, e o rancor que não perdôa.

BOCAGE

Quer então que desça a humilhar-me em dissimulação egual? Quer que abata aos pés do vicio dourado, ou da ignorancia presumida, esses dons em que me falla? Quer que envileça a lyra fazendo-a servir aos festins dos poderosos, como accessorio apettitoso, ou como adorno comprado?

GONÇALO

Quem lhe diz tal! Supõe-me capaz de lhe aconselhar baixezas? Consagre a lyra á patria, como os egregios poetas de todos os tempos, como Homero, como Virgilio, como o Dante, como Camões… como o nosso grande Camões… tão grande e tão nosso, que se tudo em Portugal acabasse, elle só bastara para dar a immortalidade ao nome portuguez!… Faça-o que pode. São largos trabalhos esses, são cruas batalhas tambem. No arduo trilho achará egualmente diante de si o erro, o vicio, a vulgaridade, a ignorancia!… mais ainda, a mediocridade!… peior ainda, a inveja! Terá de cingir o corpo como os peregrinos, terá de affrontar o martyrio como os apostolos. Não lhe faltarão obstaculos nem dissabores. Não lhe faltarão perigos nem trabalhos. Não lhe faltará a luta, a luta acerba, continua, ardente… Mas ao cabo está a gloria, a verdadeira gloria, a gloria infallivel ainda que tardia.—Hade seduzil-o esta!

BOGAGE

E não será ainda servir a patria castigar os ridiculos? Não faltam ahi tambem em compensação de qualquer desgosto, os applausos para impellir, para embriagar, para exaltar, para inspirar a musa… E a minha musa… que lhe hei de fazer, sr. tenente?… a minha musa é toda isenções e aventuras. Não consente sujeição.

GONÇALO

Os ridiculos d'estes! os applausos d'aquelles! Que applausos e que ridiculos? Não valerão tanto uns como outros? É para mais o seu engenho do que para servir de desafogo a rivalidades pequenas. E diga-me: tem certeza de ser sempre justo? Não o entristecem muitas vezes esses ruidosos applausos em recintos frequentados de ociosos? Não vê que muitos glorificam nos seus versos, menos a claridade que os illumina, do que o raio que vae ferir um émulo, ou um superior? «[1]Não vê que arrastando na ignominia os seus competidores, a si mesmo se apouca? Não repara que d'esse modo só favorece os baixos instinctos dos detractores sem alma?» É para isso a musa e a lyra? Applaudem-n'o! Applaudem. Mas como? Mas porquê? Mas quem? Ólhe em torno de si e medite. Applaudem-n'o enthusiasmos que depois o nauseam, applaudem-n'o paixões que depois o envergonham. O epigramma cortante, a hypérbole sarcastica, a imagem insultuosa, despertam na sua presença um delirio interessado, que lhe deixa após o vacuo e o pejo. Compare esse applauso suspeito com outros menos estrepitosos, mas selectos, que já lhe tem grangeado obras mais altas e mais dignas. Recorde a satisfação que lhe fica na consciencia, quando arremessa o vôo ás regiões luminosas onde fita os astros!—Falla-lhe pela minha bocca a sympathia, e a experiencia. Somos camaradas; sou seu amigo, repito-lhe… sou ainda mais amigo d'esta terra, de que deve ser, de que póde ser ornamento e brazão… e que o precisa, creia… que precisa de todos os grandes esforços para a levantar da ameaçadora decadencia.—Está nas primeiras impressões e nos primeiros annos. Tem aberta a carreira das armas. Com o seu nascimento, com a sua capacidade, com a instrucção e o estudo… qualquer outra que prefira se lhe póde abrir. É por isto, é para isto que o importuno… Nicolau Tolentino é official de secretaria… Manuel de Figueiredo tambem… Ahi em dois poetas!…

BOCAGE (interrompendo arrebatado)

Manuel de Figueiredo, poeta!… Um moralista seccante, que se julga innovador por imitar de longe os antigos!… O Tolentino, sim… esse ha de ficar para a posteridade!… (Pausa, longa reflexão. Gonçalo observa-o attentamente. Levanta depois o rosto e continúa com progressiva exaltação.) Ouça-me tambem, sr. Gonçalo Mendo. Verá que avalio os seus affectuosos conselhos… E se alguma vez lhe disserem que Bocage é uma indole pertinaz e intractavel, poderá affirmar como a austeridade e a razão o acharam docil.—Oiça-me. Não é novo para mim o que me diz…

GONÇALO

Ahi verá!

BOCAGE

Tem-m'o repetido a meudo a consciencia.

Oh! não mais que momentos inebria O sordido clamor da turba sordida!…

Perdoe, involuntariamente se me formulou em, verso a idéa.

GONÇALO

Prodigiosa faculdade! E quer desbaratal-a?

BOCAGE (proseguindo)

Não pense que estimo a plebe das admirações… tanto como admiro as magras rimas de ôccos versejadores!… No meio das mais estimulantes palestras, quando é maior o alarido e a matinada, quando egualmente espumam os copos e os labios, quando se condensa o vapor que tolda a casa e o cérebro, quando os motejos se crusam como settas, e os paradoxos refervem como vagas, que de vezes não fico eu mudo, absorto, sem escutar, sem perceber, sem discernir o que tenho diante!… É que se me desprende a alma para cima!… Tenho os olhos e o espirito nos espaços radiantes, d'onde se encara o infinito e o futuro!… Ouço o hymno triumphal na bocca dos povos reconhecidos!… Enfeixo nos braços as palmas das nações!… Cinjo na fronte os louros perpetuos!… Vejo as edades curvadas aos pés d'um monumento coroado de perennes resplendores!… Esta e só esta é a gloria, digo… esta e só esta… eterna primavera, eterna aurora… eterna recompensa!

GONÇALO (enthusiasmado)

E quem tal sabe conceber não ha de saber realisal-o!

BOCAGE (tristemente, estendendo-lhe a mão)

Dê-me que o mundo se povoe de juizos como o seu, de almas como a sua… e será possivel, e será facil… Como elle é, não sei se algum dia terei força para tanto… Por ora, não… Resgate a minha franqueza a minha fragilidade… O menor abalo que d'esse extasi me atire á realidade, mal acerto com a vista na nullidade soberba, na villeza prospera, na abjecção remunerada, na astucia triumphante, na hypocrisia omnipotente… n'esse ascoroso acervo das miserias humanas… todo se me revolve o coração… e sae-me pela bocca em strophes irritadas, que a amargura envenena, que a indignação inflamma! Quero, e não posso, conter esta furia, represar esta onda, que se entumece, e trasborda com o temporal de dentro!… Depois… Nenhuma fraqueza lhe dissimulo… Depois, as palmas, os bravos, as acclamações, o frémito das turbas, que pendem da minha voz e a minha voz avassalla, todo este rumor contagioso e irresistivel… é novo excitante á febre, é maior alimento ao incendio, que lavra, que lavra, que se desata em labaredas accumulando as cinzas… que investe ao acaso… que devora quanto encontra… que hade acabar por me devorar tambem!

GONÇALO

Veia exuberante! Seiva excessiva! Torrente impetuosa!—Os annos o corrigirão.

BOCAGE

Não sei… Nasci assim. Acho-me assim ao entrar no mundo. Corrige-se isto?

GONÇALO

Quando se não corrige, mata. E o sr. Bocage ha de viver.—Desculpe se o turbei nas suas contemplações… Não pude resistir… posto saber o fito d'ellas.

BOCAGE (sorrindo)

Das minhas contemplações de agora? Duvido (passeiando com Gonçalo).

GONÇALO

Quer que o vá perguntar ao honrado mercador Manuel Simões, que móra n'aquelle primeiro andar, para onde entrou haverá uma hora, com a sua interessante afilhada a sr.^a morgada D. Felicia? Bem se vê que está todo no seu enlevo… Tem por mysterio o que se passa nas ruas!… Presumo que não anda ahi por causa da morgada velha… (Bocage protesta) Logo vi.—E a viuva, diga-me? Quando ha quinze dias nos encontrámos na Torre da Palma parecia meio apaixonado.

BOCAGE

Apaixonado de todo.

GONÇALO

Que fez então a essa paixão subita?

BOCAGE (gracejando)

Foi como veio… subitamente. «Vê que não está na minha mão dissimular, e aproveita-se.»

GONÇALO

«Se pensa…»

BOCAGE

«Não: desculpe.—Sei que não é curiosidade indiscreta. E a quem melhor podia abrir o coração? Como hei de eu dizer-lh'o? A viuva é cheia de attractivos… merece todas as adorações… (malicioso) Não é esta a sua opinião, sr. tenente?»

GONÇALO

«Ainda que o seja? Pouco vem ao caso.»

BOCAGE

«Reservas commigo! Vamos, confidencia por confidencia. Confesse que não deita luto pela morte da minha paixão da Torre da Palma.»

GONÇALO (sériamente)

«A sr.^a D. Maria Joanna Galvão nunca me deu direito para me offender de qualquer preferencia sua.»

BOCAGE

«Podia não se offender, e custar-lhe. E não seria da minha parte loucura constituir-me rival do unico amigo verdadeiro que ainda encontrei?… (Movimento de Gonçalo.) Oh! não, não cuide que lhe quero forçar os segredos… não pense que foi generosidade…» Já que me obriga, digo-lhe tudo. Peço-lhe só que não seja severo. Ou venha dos annos ou do temperamento, o amor em mim é egual á musa, compraz-se no improviso. Rebenta em chammas, mas a chamma fulge e esvae-se como relampago… Depois… outra fraqueza ainda… é tão superior ás damas que tenho conhecido, a sr.^a D. Maria Joanna Galvão!… tão superior pela graça senhoril, pelo tracto do mundo e cultura do espirito!… (Pausa.) Encontrei-a, logo que cheguei, n'uma assembléa, em casa de sua tia D. Felicia onde me apresentaram… Ferviam os motes, e eu calado. Passei quasi todo o tempo escutando-a e reflectindo.

GONÇALO

Foi um estudo então?

BOCAGE

Um exame de consciencia. Intimida aquella distincção, subjuga aquella formosura, ordena respeitos aquella voz. Revoltou-se-me o coração contra similhante imperio… Se abomino todo o captiveiro!… Estava alli tambem, como esquecida, uma flor modesta, a afilhada da sr.^a D. Felicia. Com ser mimosa sua, era visivel a inferioridade da condição. Como, porquê, não sei… Para essa me voou a alma… Admira-se?…. Não posso supportar a idéa da dependencia, nem sequer em amor. Á dama opulenta e festejada que podia dar o pobre cadete, o poeta noviço? Ainda que me correspondesse… esmola seria a sua mesma preferencia. Com a donzella humilde succede o contrario… é ella a favorecida, e eu o generoso.—Prefiro estes amores… não tolero outros!

GONÇALO (olhando para a E.)

Tem muito empenho em se encontrar com o mercador?

BOCACE

Porquê?

GONÇALO

Porque se não tem, podemos ir aqui de roda dar uma volta até á esquina da Inquisição, e tornar depois.

BOCAGE (olhando tambem)

É elle, e não sei quem mais. (a Gonçalo) Com todo o gosto… (indicando a janella) Como vê, as minhas contemplações não eram bem succedidas… não tinham ainda objecto.

GONÇALO (andando)

Logo terão. As estrellas levantam-se com a noite!

BOCAGE (saindo com elle pela D., ao passo que entram da E. Manuel Simões e Francisco)

Invade tambem os dominios da poesia, o sr. tenente! (Saem.)

SCENA V

MANUEL SIMÕES e FRANCISCO PEDRO SIMÕES

MANUEL SIMÕES

Que espantos que não vae agora fazer a sr.^a Monica!… Se nem me lembrou dizer-lhe nada!…

FRANCISCO

E está boa a minha tia Monica?

MANUEL

Toda em cuidados pelo seu menino, pelo seu Francisquinho, que has de ser sempre para ella o Francisquinho, como ha vinte e trez annos, quando o Sebastião foi para a Bahia, e tu ficaste tanto monta no berço… As raparigas e a caixeirada não te chamam já senão o sr. doutor… Ella… sim!… Nem annos nem Coimbras lhe persuadem que o seu Benjamim está um homem… (revendo-se n'elle) e d'aqui a pouco um sr. doutor devéras… não é assim?

FRANCISCO

Este anno ainda, espero.

MANUEL

Mas vê lá, rapaz… Não te sirva de atrazo esta vinda a Lisboa! Jornadas para cá, jornadas para lá… sempre é tempo perdido!…

FRANCISCO

Sendo por poucos dias…

MANUEL

Será. Pois que!… Não pensei n'isto quando te escrevi.—Recebeste a minha carta a tempo? Recebeste, está visto. Pui-te esperar á estalagem, por me parecer que não faltavas… mas como não respondeste…

FRANCISCO

Mandei logo buscar os machos, e puz-me a caminho. A resposta era obedecer. Que novidade foi esta, pae?

MANUEL

Estava tremendo não chegasses… (em voz baixa) Vem esta noite cá teu padrinho.

FRANCISCO

O sr. marquez!… a nossa casa!

MANUEL

Á nossa propria casa. Será o primeiro marquez que vem a casa de teu pae?

FRANCISCO

É verdade… o sr. marquez de Pombal era tambem padrinho de meu irmão, e tenho-lhe ouvido que…

MANUEL

Que me visitava em pessoa, elle mesmo… (olhando em redor) o grande marquez… E não foi só isso… De vez em quando mandava-me parar a sege á porta da loja… (esquecendo-se) É que tambem não torna cá homem como aquelle… (caindo em si e olhando em volta) que este não é somenos, em certas coisas! Vem, vem hoje… Podia lá deixar de lhe ter cá o afilhado! Vem hoje… hoje, em vespera de Corpo de Deus, faze idéa! E toda a gente pelas janellas!… E o que se hade fallar no arruamento!… E o que ahi não virá de encommendas!—Já mandei buscar mais um caixeiro.

FRANCISCO

Que não seja como o Zé Braga ou o Zeferino… Lembram-me ainda.

MANUEL

O Zé Braga estabeleceu-se na terra… e vamos, tem queda para o negocio… É nosso correspondente.

FRANCISCO

Ah!

MANUEL

O peralvilho do Zeferino… esse lá foi para esses Brazis… Não sae d'alli coisa de geito, verão… Confundia-me sempre o lemiste com os droguetes, e o panno jardo com as baetas!… Deu em fazer de faceira… já de chapeu á Anastacia… sempre em touros e presepios… Só lhe faltavam os polvilhos. Deixal-o. Cá me tenho remediado com outros dois novos, e marçanos não faltam.—Ai! nós aqui a fallar, a fallar, e lá em casa tudo cheio de gente!… A Monica estou que perde a cabeça!… Não me lembrava com o gosto de te ver, e de te fazer beijar a mão ao sr. marquez… que elle sempre hade puxar por ti!—Anda, rapaz, vamos… vamos!… (em acto de partir.)

FRANCISCO

Tudo cheio de gente lá em casa! É novidade… E quem está? Não me hei de apresentar n'este trajo de jornada, se são pessoas de respeito.

MANUEL (voltando)

Tens razão. Não vieras tu de Coimbra!… Com isto sempre me embalaram: «ou armas ou letras.» Quem está?… Has-de ir mudar de fato primeiro, has-de. Estão pessoas de consideração, e espero mais. Verás… Sujeitos de peso e de porte, que me honram com a sua amizade… (comsigo) e precisam do meu dinheiro… Pois n'um dia d'estes, e vindo cá teu padrinho!… Está a sr.^a morgada D. Felicia, que essa é já conhecimento velho… está…

FRANCISCO (alvoroçado, vivamente)

E a afilhada?

MANUEL

E a afilhada… bem sabes que nunca a larga… Está a afilhada, e vem tambem uma sobrinha, que chegou de França ha dias!

FRANCISCO (em acto de partir)

E nós aqui a perdermos tempo.

MANUEL (detendo-o)

Espera, espera. Que fogo te deu mal te fallei na morgada! Dar-se-ha caso… (severo.) Francisco?

FRANCISCO (timidamente)

Meu pae.

MANUEL

Esse alvoroço não é natural!

FRANCISCO (como acima)

Está fazendo falta de certo, pae.

MANUEL

Já vamos. (Comsigo.) A morgada não póde ser… a sobrinha não a viu ainda… Querem ver… (com inteireza) Sr. Francisco Pedro, forma-se este anno. D'aqui a tempos será juiz de fóra, desembargador, quem sabe?… Conversei já a seu respeito com o meu amigo João Pires… Conhece? O sr. João Pires, á Magdalena, que traz dois navios para a India, e tem uma filha que não anda por assembléas, mas leva quarenta mil cruzados de dote.—Quando pensar em casar, é a noiva que lhe convém.

FRANCISCO (consternado)

Oh! meu pae! Por quem é não disponha assim do meu coração!

MANUEL

Do seu coração! A que proposito vem o seu coração? Quer dizer que olhou para a afilhada da sr.^a D. Felicia? Ignora que é filha d'uma criada?

FRANCISCO

Mas educada com tanta estimação! O amor não mede distancias.

MANUEL

Ensinaram-lhe isso em Coimbra?… Não o tirasse eu do balcão!… Felizmente seu pae não dorme. Perca d'ahi o sentido. Já lhe disse o que lhe convinha. Escusa de se cançar… não costumo repetir as coisas duas vezes!

FRANCISCO

Não me permitte uma supplica ao menos?

MANUEL

Com tanto que seja breve.

FRANCISCO

Morro por ella… (hesita).

MANUEL

Se me não diz mais…

FRANCISCO

E dei-lhe palavra de casamento.

MANUEL

Deu-lhe palavra… (furioso) Porquê? Para quê?… Sem me consultar… sem consultar seu pae!… sem saber se lhe fazia transtorno!… Viu-se já!… (fitando-o) Estes rapazes!… (mais brando) Com que então deste-lhe palavra? (Gesto affirmativo de Francisco.) Pois se lh'a déste, cumpre-a.—Um Simões nunca faltou a ella!

FRANCISCO (transportado)

Consente!… Consente?… Como lhe hei de agradecer, meu pae!

MANUEL

Não é o que eu queria, e custa-me… Não te mandei a Coimbra para te empregar na filha d'uma criada!… Mas na nossa casa a palavra é escriptura. Pagamos á vista… sempre, e tudo: é o nosso brazão!

SCENA VI

OS DITOS e o MORGADO

MORGADO

Ora até que o encontrei, sr. Manuel Simões. Procurei-o hontem, antes de hontem, esta manhã…

MANUEL (interrompendo-o seccamente)

Sei, sei… Bem sei.

MORGADO

Se me désse licença logo…

MANUEL

Tenho gente em casa, tenho muita gente… Hade-me dar licença.—Vamos, Francisco, vamos.

SCENA VII

MORGADO pouco depois o COMMENDADOR

MORGADO (desesperado e ameaçador)

Se fôra da nobreza… e se não fôra a necessidade!…

COMMENDADOR (que tem entrado)

Que é isso, sr. Morgado? Quem o fez agastar?

(Durante esta scena os creados acendem de dentro as illuminações das janellas.)

MORGADO

Quem hade ser? Esta gente de negocio que na verdade…

COMMENDADOR

Não tem uso do mundo, é sabido… cança-se de dar dinheiro, e nem sempre se lembra das jerarchias!… Que quer? Na opinião de Cicero o dinheiro faz todos eguaes… e lá resa o nosso rifão: «negro è o carvoeiro, branco é o seu dinheiro!!»

MORGADO

Mas quem lhe diz…

COMMENDADOR

Que precisa de dinheiro? O sr. Morgado precisa sempre… Que o mercador lh'o recusa? Encontro Manuel Simões, e acho-o enfadado. Não é preciso ser astrologo para adivinhar. Excellentes astrologos são os olhos… que sabem ver. Bem o disse o poeta Manilio, e melhor o explica Julio Firmico Materno, contemporaneo de Constantino Magno, nos oito livros que escreveu sobre o assumpto.

MORGADO (meio aborrecido)

Oito? Admiro-lhe a paxorra.—Mas, vamos, sr. Commendador… Estão já accendendo as luminarias. D'aqui a pouco enche-se ahi tudo de gente.—Que noticias?—Sabe que morreu Salvador Teixeira, o irmão mais velho de Gonçalo Mendo? Ficou senhor da casa agora o tenente, e…

COMMENDADOR

E… receia o competidor.

MORGADO

Receial-o! Porquê? Em quê? Um homem como eu não teme nenhum rival… Minha prima é senhora de gosto e de juizo… E em ultimo caso tenho modo infallivel de supplantar o tenente… (intencionalmente) ou qualquer outro.

COMMENDADOR (sorrindo)

Infallivel!

MORGADO

Infallivel.

COMMENDADOR

Contra qualquer?

MORGADO

Contra qualquer.

COMMENDADOR

No dizer de Plinio poucas coisas se pódem julgar infalliveis.—Tem estado com sua prima?

MORGADO

Todos os dias.—Ainda antes de hontem em casa da morgada da Torre da Palma… ainda hontem a ver correr parelhas e alcanzias em Campolide.

COMMENDADOR

Então para que pergunta noticias?

MORGADO

Para saber o que se diz.—Posso contar com a sua amizade?

COMMENDADOR

Como eu com a sua.—Amizade de obras mais do que de palavras, como a quer Tito Livio.

MORGADO

Tambem… commigo póde o commendador contar para a vida e para a morte. O braço e a espada do morgado da Gesteira estão sempre ao seu dispor.

COMMENDADOR

Deseja saber o que ha?

MORGADO

Não se me dava… para afugentar de vez o primeiro que se atreva a galantear abertamente minha prima.

COMMENDADOR (malicioso)

Terá que fazer.—Veja o que Propercio diz da sua Cynthia… Póde fazer calar os requebros dos pintasilgos á aurora?

MORGADO

Pintasilgos, diz bem. Principalmente o cadetinho… o tal sr. poeta de loas, ou das duzias… Ia-me saindo das medidas na casa da Torre da Palma. Se não fosse a morte quasi repentina de Simôa!… Já o encontrei por ahi e não o perco de vista. Não que minha prima possa olhar para similhantes figuras…

COMMENDADOR

Eu sei, morgado. Elle é de boa gente, e as damas… Emfim a respeito d'esse, descance… Traz o Sentido n'outra parte.

MORGADO (avidamente)

Em quem?

COMMENDADOR

Ainda não reparou?… Na afilhada de D. Felicia.

MORGADO (desdenhoso)

Ah!… (como reflectindo.) Mas o filho do mercador? É correspondido, e está ahi.

COMMENDADOR (sorrindo)

Era correspondido… Verá como os dois se arrufam, como o poeta fica e é acceito, como… Isso corre por minha conta.

MORGADO

Por conta do commendador! (desconfiado.) E com que interesse?

COMMENDADOR

Interesse? Nenhum… Amizade… Desejo de lhe ser util… Não queria afugentar os galanteadores de sua prima?… Para isso vale mais a astucia do que a força, creia. O mestre das rhetoricas ensinava a Herennio «que a verdadeira prudencia era a sagacidade,» e como diz Cornelio Nepote, «mais poude a destreza de Themistocles do que as armas da Grecia.»

MORGADO (pensativo)

Não é fóra de rasão… ainda que nada d'isso vale uma recarga a tempo como a ensina o alferes Theotonio Rodrigues, ou uma flanconada como as queria o grande Montenegro. (mirando-o de revez) Com que o poeta desistiu já de minha prima?

COMMENDADOR (sorrindo, e do mesmo modo)

Respondo-lhe por elle.

MORGADO

O tenente, esse…

COMMENDADOR

Faz-se desistir.

MORGADO (como acima)

E depois?

COMMENDADOR

Depois… não ha rivaes que affrontem o sr. morgado. (Cresce o numero dos passeiantes.—Ruido dentro.) Ahi vem já o rancho dos poetas. Conhece-se pela algazarra.

(Principiam a apparecer ás janellas algumas senhoras de gala, e toucadas.)

MORGADO (olhando para as janellas)

Já as madamas começam tambem a apparecer.

COMMENDADOR

Vou n'um instante a casa do mercador para lhe fazer a vontade. Volto logo.

MORGADO

Encontra lá minha prima.

COMMENDADOR

E não vem?

MORGADO (despeitado)

O sr. Manuel Simões não me fez a honra de me convidar.

COMMENDADOR

Que dissabor lhe ha de ser ter sua prima alli e ficar de fóra! Que quer? Diogenes, de Synope, comparava as riquezas ás plantas… que nascem em despenhadeiros! (Sae tomando á esquina ao F.)

(Entram logo Bocage, 1.^o e 2.^o poetas, companheiros, e Gonçalo Mendo, da E.)

SCENA VIII

BOCAGE, GONÇALO MENDO, 1.^o e 2.^o POETAS

GONÇALO (a Bocage, despedindo-se e indicando as janellas de Manuel Simões)

Boa sorte e propicios amores!… Da inspiração não lhe fallo: nunca lhe falta, e hoje menos lhe faltará.

BOCAGE (meio desconfiado)

Já não quiz entrar commigo um instante no Nicola, e agora deixa-me!

GONÇALO

É noite de festas, e está ainda mal fechada a sepultura de meu irmão!

BOCAGE (caindo em si)

Tem rasão.

MORGADO (chegando-se)

Sube o desgosto que teve, sr. tenente Gonçalo Mendo… Muitos parabens… (corrigindo-se) dou-lhe os sentimentos, quero dizer… Seu irmão, tambem era doente… Quantos annos tinha?… Boa casa!… É uma boa casa, a casa de Mendél, dizem todos. E de mais a mais com os coutos de Sandim!… Deixou uma grande casa!… O sr. Gonçalo Mendo naturalmente larga a vida militar.—Com uma casa d'aquellas!

GONÇALO (com inteireza)

«Sr. morgado da Gesteira, a minha familia foi sempre uma familia de soldados. Alli cumprir a lei e servir a patria não é especulação, é preceito. Se meu irmão por fraco e enfermo não poude satisfazer a obrigação, por elle a satisfazia eu. Hoje, que me falta, essa obrigação fez-se duplicada: é a d'elle e a minha!»—Creio que o sr. Bartholmeu Tojo não vê no vinculo senão a renda. A mim ensinaram-me de pequeno a só considerar no patrimonio dos meus, como coisas superiores, o dever e o nome!—Adeus sr. Bocage! (Sae.)

MORGADO

E então! Dês que está senhor da casa parece que traz el-rei na barriga!

BOCAGE (fitando-o)

Engana-se. Tem o coração no seu logar… e não succede o mesmo a todos.

(Signaes de approvação nos circumstantes.)

MORGADO (ameaçador)

Isso entende-se commigo?

BOCAGE (com obsequioso sarcasmo)

De nenhum modo: era suppor-lhe coração!

(Riso nos circumstantes.)

MORGADO (com satisfação)

Logo vi que se não podia entender commigo.

(retira-se magestosamente, e sae pela E.)

SCENA IX

BOCAGE 1.^o e 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, 1.^o e 2.^o MANCEBOS, DAMAS, POVO

(Vão-se povoando mais e mais as janellas; augmenta na rua a concorrencia.)

1.^o MANCEBO

Sr. Bocage, sr. Bocage!

BOCAGE (ainda agastado da altercação com o morgado)

Que é?

1.^o MANCEBO

Fez-me o favor de limar aquellas decimas, que lhe entreguei o outro dia?

BOCAGE

Pois não!

1.^o MANCEBO

Queria ver se as recitava esta noite… Tem-n'as ahi?

BOCAGE

O que?

1.^o MANCEBO

As minhas decimas.

BOCAGE

Como hei de ter, se nada sobrou d'ellas.

1.^o MANCEBO (pasmado)

Não sobrou nada?

BOCAGE

Absolutamente nada. Ficou-me tudo na lima!

(Riso nos circumstantes; o 1.^o mancebo mette-se na turba corrido.)

2.^o MANCEBO

Sr. Bocage, um obsequio?

BOCAGE

Que temos?

2.^o MANCEBO

Faz annos, depois d'amanhã, um tio que eu tenho…

BOCAGE

A novidade seria fazer annos um tio que não tivesse.

2.^o MANCEBO

Compuz dois sonetos…

BOCAGE

Dois d'uma assentada! Já vejo. Monta um Pegaso manhoso que lhe desandou uma parelha de…

2.^o MANCEBO (ingenuamente)

Isso. Estão aqui os sonetos. Só lhe peço que me diga qual é o melhor… para o offerecer ao tio…

BOCAGE

Ao sr. seu tio… que vocemecê tem.—Deixe ver. (2.^o mancebo entrega-lhe um papel de dois que tem na mão.—Bocage chega-se á luz das luminarias, e lê attentamente. Em quanto lê, o 2.^o mancebo responde aos poetas que parecem divertir-se com elle. Depois de ler, restituindo-lhe o papel e em tom decidido.) Leve-lhe o outro.

2.^o MANCEBO

O outro! Mas ainda não viu o outro.

BOCAGE

É o mesmo… leve.

2.^o MANCEBO

Porquê?

BOCAGE

Porque não póde ser peior do que esse.

(Riso dos circiumstantes; o 2.^o mancebo sae tambem corrido.)

SCENA X

BOCAGE, 1.^o e 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, DAMAS, POVO

2.^o POETA

Está de veia hoje, o nosso cadete.

BOCAGE

Menos isso.—O cadete ficou onde ficou a farda. Aqui está só o poeta.

1.^o POETA (ao 2.^o)

Condemnado como reu de lesa Arcadia. O Bocage tem razão. Será cadete no regimento; entre os pastores do Pindo é Elmano, o esperançoso Elmano, como tu és Alcino, como eu sou Lereno. A propósito, falta-nos Albano.

(Bocage parece cair em profunda meditação.)

2.^o POETA

Foi jantar a casa d'algum fidalgo. É o seu costume. Mas vem de certo. Disse-me que vinha.—Agora nego que fosse reu de lesa Arcadia tratando Elmano pelo grau militar.

1.^o POETA

Como provas essa?

2.^o POETA

Muito facilmente. Qual é n'este caso o distinctivo do vale e do soldado? Uma estrella. O mesmo em ambos. Cada qual tem a sua. Logo… (declamando)

O Appollo, e o Marte que zellas, Não se afastam grande espaço: Tem um a estrella no braço, Outro o braço nas estrellas!

1.^o POETA

Fóra o seiscentisto. Sempre te achei queda para os conceitos alambicados e antitheses retorcidas! Essa vem na Phenix renascida, ou nos Desmaios de Maio, aposto!—Bocage… (reparando e tomando-lhe o braço.) Bocage!… Em que pensas?… Que fizeste á picante jovialidade tão bem estreada, e que tanto promettia para esta noite?

BOCAGE (como despertando)

Que?… Eu?… (comprehendendo.) Ah!… Jovialidade lhe chamas? Não era, não. Era raiva, era furia, era…

1.^o POETA

Contra uns pobres rapazes! Deixa versejar a vadiagem. Cançará depressa. Não vale a indignação.

BOCAGE

Isso dizem todos, e d'isso sobra forças á mediocridade e a vilania, que são gemeas. Uns pobres rapazes! Hoje nescias vaidades apenas… ámanhã calumniadores invejosos!… Deixae-os medrar, deixae; e queixae-vos depois dos damnos que vos fizerem! E ha peiores ainda… Peiores e mais nocivos são os desalmados, que nem adivinham a alma, e d'esse aleijão moral fazem a bitola de todos os caracteres!… Que me hão de apparecer por toda a parte vilezas!… Não reparem, amigos… São restos da cólera em que me deixou esse homem, que até na morte vê o interesse sem lhe ver as lagrimas!… Quando estas ignominias me surgem diante, sou como aquelle tyranno antigo, que desejava um só corpo á humanidade, para a degollar d'um golpe!… Quizera tel-as tambem todas congregadas e encorporadas debaixo da mão, para lhes arrancar a mascara hypocrita, para as retalhar com o látego justiceiro, para apresental-as como são, hediondas e infames, perante a sociedade que illudem ou pervertem.—Desculpem a rajada. Vamos ao que importa. (olhando para as janellas do mercador, ainda desertas) Ficamos aqui?

1.^o POETA

Alcino tem uma Anarda alli n'um segundo andar do quarteirão immediato, e ella provavelmente traz-lhe mote preparado. Queres vir?

BOCAGE (com os olhos nas janellas)

Com tanto que voltemos depressa!

2.^o POETA

Percebo. Temos tambem por cá pastora! Uma Armia, uma Isbella, uma Anfrisa?

BOCAGE

Melhor do que isso. Uma esperança!

(Gritos, tumulto fóra á E.)

2.^o POETA

Ha novidade, ao que parece.

(Grande tumulto á E. fóra. Gritos: Aqui d'el-rei! Agarra! O povo afllue áquelle lado.)

BOCAGE

É desordem?

1.^o POETA

O costumado.

VOZES (no povo)

Arreda! arreda!

(Reflue tudo sobre a D.—Bocage, á frente dos companheiros, impellido pela turba, acha-se na extremidade D. quando entra, correndo d'este lado, Alcaide, e a ronda de quadrilheiros e paisanos.)

SCENA XI

ALCAIDE, BOCAGE, 1.^o e 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, MORGADO (que entra esboforido da E.) DAMAS, POVO.

ALCAIDE (topando Bocage, e pondo-lhe uma pistola aos peitos)

Da parte da ronda—quem é? d'onde vem? para onde vae?

BOCACE (serenamente)

Sou o poeta Bocage, Venho ha pouco do Nicola, E vou para o outro mundo Se me dispara a pistola!

POETAS e COMPANHEIROS

Bravo! Bravo, Bocage!

ALCAIDE (deixando-o)

Ah! é o Bocage! Que foi então? Quem gritou?

MORGADO

Foi um chibante de cigarro que deu tres facadas n'um moço das carvoarias, que ia cantando a Fôfa alli para a banda da Bitesga!… Ah! que se o apanho a geito!… (esquiva-se para a D. logo que o Alcaide interroga.)

ALCAIDE

Quem fallou para ahi?… (á ronda) Depressa, anda… Venham as lanternas, que nas travessas está escuro como breu. (Os paisanos adiantam-se com as lanternas, mostrando certa repugnancia.) Mais depressa… (aos quadrilheiros) Para a frente vocês. (Estes obedecem com promptidão, e passam velozmente para a E.—O Alcaide continua para este lado como fallando a um dos quadrilheiros que passou.) Ó Gaiola, bota cordão lá para diante… agarra tudo!… O sr. Corregedor do Crime mora ahi para cima; elle que os joeire!… Vá, vá.

(Os grupos abrem vivamente passagem ao Alcaide e aos mais da ronda, que saem apressados pela E.)

SCENA XII

OS DITOS, menos o ALCAIDE e RONDA, depois UM CEGO (que vende impressos)

(Apenas o Alcaide sae, ouve-se tambor e gaita de folles para a D.—O povo grupa-se para esse lado.)

2.^o POETA

Cirio agora, querem vêr!

1.^o POETA (observando)

Não. São os foliões do Espirito Santo com a bandeira, e o ermitão da Senhora do Monte com o Embrechado. Metteram-se para a outra travessa.

BOCAGE

Por isso estão todos nas janellas dos lados.

2.^o POETA

Com similhante inferneira, bem se ha de poetar agora.

O CEGO (passando ao F. e apregoando em cantilena)

Comprae, meninas comprae, Por dez réis, ou meio tostão, O Testamento da Velha Ind'antes da serração; Ou as obras afamadas, Que ninguem comprou em vão, Da Chrystaleira de Coimbra, Coisa de satisfação.

BOCAGE (rindo e como terminando a trova do cego)

Temos rival pela prôa: Vá, ao outro quarteirão

1.^o e 2.^o POETAS (galhofeiros)

Vá, vamos. (Saem os tres.)

SCENA XIII

O CEGO, logo depois TIA VICENCIA. e TIA PASCHOA, logo depois COMPADRE THEOTONIO e COMPADRE AMANCIO. (Movimento. Homens apregoando caramello. Pretas apregoando alcomonia, etc.)

CEGO

Comprae, meninas, comprae, Por dez réis ou meio tostão…

(Perde-se-lhe a voz na distancia.)

TIA VICENCIA

Bem lh'o cantava eu, tia Paschoa! Qual juiz, nem meio juiz! Não lhe poem a vista em cima! A Esteireira é que é de desengano. Que eu não lhe digo isto para me esquivar… Se quer que peça á morgada, appareça ámanhã… ámanhã não, é dia de festa… appareça depois de ámanhã, e lá iremos… Verá que me não diz que não…

TIA PASCHOA

Vou… Sempre vou… Se por ahi se arranja o negocio é uma boa dóse que poupo, e para quero está já tão arrastado…

COMPADRE AMANCIO (entre as dez e as onze, capote a um lado, entrando com compadre Theotonio)

Safa!… Cuidei que me filavam tambem!

TIA PASCHOA

Se não se fizer nada, então tomo o seu conselho, e vou á Esteireira… Por fim de contas são conhecimentos que se tomam… Ah! meu rico Santo Antonio! sou capaz de vender a camisa do corpo só para metter pelo chão abaixo aquelles marotos que nos desgraçaram… (Saem pela E. conversando.)

SCENA XIV

COMPADRE THEOTONIO, COMPADRE AMANCIO (observando para a E.) pouco depois MORGADO e COMMENDADOR. Grupos rareados.

COMPADRE THEOTONIO (tambem com um grão na aza, mas dando-lhe para taciturno, e preoccupado, e servindo-se com frequencia de um cheirador de simonte)

Prenderam o homem?

COMPADRE AMANCIO

A ronda vae apanhando a torto e a direito, mas o homem, sim! Metteu-se para a rua das Hortas, salta n'um pulo a S. Roque, e de lá á Cotovia… Depois… boas noites… (puxando, endireitando o capote, e mirando-o) Por um triz se não vae d'esta feita, o meu cobre-miseria! E o seu não ficou tambem pouco derreado, compadre Theotonio!

COMPADRE THEOTONIO

Leve a fortuna os apertões, compadre Amancio.

COMPADRE AMANCIO

Olhe se não vae na ronda o mestre Joaquim da Ferraria… (olhando em redor) Está isto por aqui só ainda! (Ouvem-se fóra á D. palmos e applausos.) Que é? (Vae vêr) Ah! são os poetas que andam pelo outro quarteirão… Vamos até lá, compadre?… Quero dar o meu voto a respeito do Bocage, que ainda não ouvi… Tem-me ido já umas poucas de vezes barbear-se á loja, e dizem que na versaria põe tudo a uma banda!

COMPADRE THEOTONIO

Cá por mim… o José Daniel!

COMPADRE AMANCIO

Não digo que não, mas vista faz fé. Vem?

(Entram da D. o morgado e o commendador. Formam dois grupos distinctos.)

COMMENDADOR

Onde ia tão assustado? Não me via?

MORGADO

Assustado eu!… Ia desesperado… O tal sr. cadete, o tal sr. poeta!…

COMMENDADOR

Disse-lhe alguma?

MORGADO

A tanto não se atrevia elle… Ainda agora o fiz eu tornar atraz… Os modos… os modos é que me dão a perros… Tomára achar azo de lhe pregar uma boa vaia, ahi diante de toda a gente.

COMMENDADOR

Havia de lhe doer… mas isso é antes desforra de mulher que de homem… A verdadeira vingança quer-se mais segura. No conceito de Seneca toda a soberba é injuria, e Plauto ensina como as injurias se pagam… (Ficam conversando.)

COMPADRE AMANCIO (do outro lado)

Não se mexe d'ahi, compadre? Parece-me jarra! Largue o cheirador, que é capaz de lhe subir o simonte ao miolo. Se não está para ouvir os poetas, venha até ao Talaveiras, que tem uma pinga do velho…

COMPADRE THEOTONIO

Cá por mim, o Petinga.

COMPADRE AMANCIO

Não sae d'isto! Ó compadre Theotonio, você por mais que me digam já fez hoje mais de uma estação!… (Ouve-se campainha á E.) Será a Misericordia? (Indo verificar) Ora o que ha de ser!

COMPADRE THEOTONIO

O que é?

COMPADRE AMANCIO

É o Bernardo atafoneiro, que vem ahi todo vestido de hollandilhas, com bordão de gancho e lanterna pendurada, a pedir para o Senhor Jesus dos Afflictos… Conheço-o pelo roliço. Aquillo faz dinheiro de tudo! Rendem-lhe mais as penitencias que o officio, e ainda em cima aluga a preta para andar a vender pelas ruas.

(Atravessa ao F. o penitente, como está descripto tocando a espaços a campainha; traz á cinta um mealheiro. Dão-lhe esmola.)

COMPADRE THEOTONIO (elevando a voz)

Ora se ha um birbas assim!

COMPADRE ANASTACIO (impondo-lhe silencio)

Mais devagar, compadre, mais devagar, que o Bernardo é familiar do Santo Oficio… como alguns fidalgos!

MORGADO (do outro lado, ao commendador olhando para a janella dum 2.^o andar)

Lá está uma palmilhadeira do meu conhecimento, no 2.^o andar, mesmo por cima da casa do mercador… (depois de reflectir, como achando) Ah!

COMMENDADOR (ironico)

Teve alguma lembrança feliz?

MORGADO

Tive. (olhando para a D.) Cá vem o rancho outra vez! (D. Felicia e D. Maria Joanna apparecem a uma das janellas do 1.^o andar da esquina. Maria Gertrudes a outra. Enchem-se as janellas.—Affluem suecessivamente os grupos.) Verá Verá que vergonhaça!… Digam que não sei varar um gamo, nem pegar n'uma espada, nem determinar uma mesa, se o poeta não fica hoje corrido!… (Sae precipitadamente pela D. dobrando a esquina. O commendador vê-o sair, encolhe os hombros desdenhosamente, e mette-se por entre os grupos. Compadre Theotonio e compadre Amancio giram na turba. Entra Bocage e os poetas. O grupo d'estes fica sobresaindo.)

SCENA XIV

BOCAGE, 1.^o e 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, COMMENDADOR, COMPADRE AMANCIO, COMPADRE THEOTONIO, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA e MARIA GERTRUDES, (nas janellas) DAMAS, POVO.—(Grande animação)

1.^o POETA

Oh! agora está já tudo pelas janellas. Vamos, quem rompe?

BOCAGE

Eu não… Logo.

2.^o POETA

Rompo eu. (para as janellas) Mote… Venha mote, minhas senhoras!

(Grupam-se todos curiosamente para ouvir.)

D. FELICIA

Essas peraltas de agora, Eu não sei d'onde lhes vem.

2.^o POETA (repetindo)

Essas peraltas de agora… Eu não sei d'onde lhes vem.

(Fica por momentos pensativo.)

BOCAGE (ao 1.^o poeta)

Foi a morgada que deu o mote?

1.^o POETA

Foi. (ao 2.^o Poeta.) Glosa-lh'o ao geito, se queres que te applauda, a tartaruga!

2.^o POETA

Deixa. (batendo as palmas) Lá vae:

Cambrayas, sedas, matizes; Vermelhas capas bem fartas Forradas de pelles martas; Bons vestidos de paizes; Filós, rendas, pertiguizes; Sécias tudo, e a toda a hora; Sempre em visitas por fóra; Conhecendo toda a gente: Eis-aqui, succintamente, «Essas peraltas de agora;»

1.^o POETA (interrompendo)

Bravo!

D. FELICIA (applaudindo)

Bravo! Bravo!

BOCAGE (de parte ao 1.^o poeta)

Não é glosa: é rol da roupa!

2.^o POETA (continuando)

No dia cinco e seis vezes Correm, sem que isto as affronte, Dos perfumes do Le-Conte Ás lojas dos genovezes; Não faltam nos entremezes; De casa, nem um vintem; Trazem fiado o que tem E na roca não põem mão: Ou é milagre, ou então «Eu não sei d'onde lhes vem!»

D. FELICIA (debruçando-se encantada e applaudindo)

Bravo!… Lindo!… Bravissimo… Uma suspensão!… uma suspensão!

(Alguns applausos nos quaes se distingue Mestre Amancio.)

2.^o POETA (a Bocage rindo)

Que tal?

BOCAGE

Um trocadilho de Luiz de Gongora!

COMPADRE AMANCIO (como consultando Compadre Theotonio)

Então?

COMPADRE THEOTONIO (cheirando)

Percebeu, compadre?

COMPADRE AMANCIO

Isso é seca, homem! Se percebesse, porque havia de applaudir?

VOZES (no povo, que, olhando á E., se afasta como para dar logar)

Olha! Olha! É o volantim do nosso Marquez.

COMPADRE AMANCIO

O volantim do Marquez… De qual Marquez?… (olhando) Ai! é o do sr. Marquez de Marialva! (o volantim, passa, e dirige-se rapidamente á casa da D., que dobra.) Lá vae… Como elle vae!… (a onda do povo dirige-se para aquelle lado, como para observar. Compadre Amancio precede-a.) Aonde irá? (Olhando para fora. Attonito.) A casa do mercador Manuel Simões!… Vae… Entrou… (Voltando ao Compadre.) Compadre Theotonio, compadre. Grande novidade!… Querem ver que o Marquez vem a casa do Manuel Simões!… (observando) Vem… Lá estão já os caixeiros com as tochas á porta, e o patrão no patim!

COMPADRE THEOTONIO

Nós que temos com isso?

SCENA XV

OS DITOS e MORGADO (que se aproxima procurando o Commendador)

2.^o POETA

É feliz este Manuel Simões! Compadre do Marquez de Marialva!… e já o foi do outro… Por isso lhe chove a freguezia, que está podre de rico… (a Compadre Theotonio.)

COMPADRE THEOTONIO (a Compadre Amancio)

O Marquez de Pombal é que era o nosso!

COMPADRE AMANCIO (baixo e vivamente)

Cale-se! Quer que nos mettam na inquisição?

1.^o POETA (ao segundo)

Não ha nada como negociar!

2.^o POETA

O mau da poesia é não se medir aos covados.

BOCAGE

Estás enganado. N'esse ponto a poesia é como as fazendas da loja. Medidos se querem tambem os versos… e quem peior os mede mais lucro tira.

COMPADRE AMANCIO

Ahi vem o sr. Marquez de Marialva… ahi vem… Traz comsigo o Almeirão e o Gaeta. Olhe, compadre, o Gaeta, que em mettendo o rojão, deita sempre abaixo o toiro!

COMPADRE THEOTONIO

Cá por mim… o Fava-Secca!

COMPADRE AMANCIO

Deixou a sege na travessa, para não atropellar ninguem… Elle sempre é bom de lei!… Viva o nosso Marquez, que é pae do povo!

(Entra o Marquez, 3.^o Poeta, o Gaeta, o Almeirão, sequito de picadores e escudeiros.)

VOZES

Viva!

SCENA XVI

OS DITOS, o MARQUEZ, 3.^o POETA e sequito

MARQUEZ

Obrigado! Obrigado! (a um dos picadores) Toma cuidado, Gaeta. O teu cardão tem um gavarro no pé esquerdo. Sente-se do casco ao bater na calçada. Está em principio ainda, mas se lhe não acodes, vae-se-te o animal, e é pena! (aos poetas) Então, tem-se poetado muito?… (Olhando para as senhoras, que lhe fazem mesura.) Com taes musas, muito e bem decerto (a outro picador). Almeirão, anda-me com tento no tordilho. É um cavallo fino, mas tem pouca escola ainda. Tira pela mão, e não ganhou união nos movimentos. Para praça não está capaz. (olhando de novo para as janellas) Oh! lá vejo a Morgada da Torre da Palma, e mais a sobrinha que veiu de França. (Cumprimenta-as. Aos poetas) É formosa, e dizem que não menos discreta… (a Bocage) Oh!… Manuel Maria… Está em Lisboa com licença, sabia já… D'esta vez ainda não foi ver-me a Belem.

BOCAGE

V. Ex.^a estava em Salvaterra.

MARQUEZ

Cheguei esta tarde, é verdade. Quero-o lá um dia cedo… Aqui lhes trago reforço. (indicando o 3.^o poeta) Foi esperar-me ao desembarque!

2.^o POETA

Tardava-nos o nosso pastor Albano!

MARQUEZ

Ahi está já o meu compadre Manuel Simões. Hãode me dar licença.—Manuel Maria, espero ter o gosto de ouvil-o hoje. (Sae com o sequito para o F. acompanhado do grupo dos poetas.—As senhoras das janellas do mercador desapparecem momentaneamente.)

SCENA XVIII

OS DITOS menos MARQUEZ e sequito

VOZES

Viva o nosso Marquez! Viva!

MORGADO (de parte ao Commendador)

Verá agora a camisa de onze varas em que eu metti o poeta!

COMMENDADOR

Quem! o sr. Morgado? Hade permittir que duvide.

MORGADO (impondo-lhe silencio)

Pschiu!—Verá!

(O grupo dos poetas volta alvoroçado.)

3.^o POETA (para as janellas)

Mote, minhas senhoras.—Venha mote!

A PALMILHADEIRA (no 2.^o andar)

Sr. Bocage, sr. Bocage!

BOCAGE (levantando a cabeça)

Quem me honra?

PALMILHADEIRA

«O meu amor foi para a India!»

1.^o POETA

India!—Mais parece peça que mote!

MORGADO (ao Commendador esfregando as mãos)

Olhe como ficou embuchado!

BOCAGE (comsigo, surprehendendo-lhe o movimento)

Já vejo d'onde vem a chufa. (aos poetas) Será peça, mas se é, tenho pena de quem a quiz pregar. Seja quem for, é ainda mais asno que tratante.

3.^o POETA

A rima é difficil.

BOCAGE (desdenhosamente)

Difficil! Com dois verbos que remedeiam.—Guindar, findar; guinde-a finde-a. (fitando o grupo do Morgado e do Commendador) Nem sabem inventar difficuldades! (Dá-lhes as costas e passa adiante.)

PALMILHADEIRA

Sr. Bocage: «O meu amor foi para a India.»

BOCAGE (voltando a cabeça)

Sim? Pois quando vier… dê-lhe muitas saudades. (Segue.)

(Riso. Applauso.)

COMMENDADOR (ao Morgado)

Não lhe dizia eu?

(As senhoras voltam ás janellas do mercador.)

3.^o POETA

Mote, minhas senhoras… Mote.

D. MARIA JOANNA

«Ás ondas se lançou Ero formosa!»

(Bocage aproxima-se; o 3.^o poeta fica meditando momentos.)

2.^o POETA

O mote é conceituoso.

BOCAGE

É. Dá um banho de mar á formosura!

3.^o POETA (batendo as palmas)

«Ás ondas se lançou Ero formosa!»

Cançada de esperar o terno amante, Ero infeliz ao ceu se pranteava, E como que o futuro adivinhava, Aqui e alli corria delirante;

Da aurora em tanto a face radiante, Nos mares pouco a pouco se espelhava, E á frouxa luz ao longe se avistava Sobre ellas um cadaver fluctuante:

A triste vacilava suspirando Nos braços da incerteza suspeitosa, Até que emfim se vae desenganando:

Então, desesperada e lacrimosa, Do caro esposo os manes invocando. «Ás ondas se lançou Ero formosa!»

(Alguns applausos.)

2.^o POETA

Bravo, Albano!… Descriptivo e sonoro!

1.^o POETA (a Bocage)

Correcto, não?

BOCAGE

Correcto, mas frio. Não admira. Uma paixão que vae por agua abaixo!

2.^o POETA

Mote. Venha mote.

MARIA GERTRUDES

«Os roubos que me fez a má ventura!»

BOCAGE (vivamente aos poetas)

Este para mim. (repetindo immediatamente)

«Os roubos que me fez a má ventura!»

Eu deliro, Gertruria, eu desespero No inferno de incertezas e temores, Eu da morte as angustias e os terrores Por ti mil vezes sem morrer tolero!

Pelo céo, por teus olhos te assevero Que ferve esta alma em candidos amores: Longe a riqueza, e os seus vãos favores, Quero o teu coração, mais nada quero.

VOZES (diversas)

Bravo! Bravo!

BOCAGE (continuando arrebatado)

Ah! não sejas tambem qual é commigo A cega divindade, a sorte dura, A varia deusa, que me nega abrigo!

Tudo perdi; mas valha-me a ternura; Amor me valha, e pague-me comtigo «Os roubos que me fez a má ventura!»

(Grande explosão de applausos.)

2.^o E 3.^o POETAS

Bravo! bravo, Bocage.

1.^o POETA

Inimitavel!

3.^o POETA

Uma copia!

DIFFERENTES VOZES (em torno de Bocage)

Uma copia! uma copia.

COMMENDADOR (junto a Compadre Amancio)

Gertruria! Gertrudes!—Dava uma moeda de oiro só por uma copia d'este soneto.

COMPADRE AMANCIO

Uma moeda!… É devéras?

COMMENDADOR

Devéras.

COMPADRE AMANCIO

Aonde lh'a heide levar? (Commendador diz-lh'o ao ouvido.—Misturam-se os grupos, continuando todos a felicitar Bocage.)

MORGADO (ao Commendador)

Quer dar uma moeda de ouro por uma copia d'aquillo! Para quê?

COMMENDADOR

O sr. Morgado tem os seus segredos… Eu tenho os meus!

1.^o POETA (a Bocage)

Está aqui um amigo que nos convida a todos para o Izidro á meia noite.

BOCAGE (rindo)

Vem a proposito a ceia… para servir de jantar!

(Ouvem-se á E. os clarins e tambores dos pretos, que logo se afastam.)

VOZES

As charamellas! As charamellas!

(Corre tudo á E.—N'este movimento Bocage fica um pouco isolado. Compadre Amancio aproveita a occasião e aproxima-se-lhe.)

COMPADRE AMANCIO (tomando-o de parte)

Sr. Bocage!

BOCAGE (satisfeito do triumpho)

Tambem por cá, mestre?

COMPADRE AMANCIO

Venho aqui pedir-lhe um favor, que é quasi uma esmola… O sr. Bocage bem me podia remediar a minha necessidade!

BOCAGE

Diga, mestre!

COMPADRE AMANCIO

Um ginja quer copia d'aquelles versos que recitou ainda agora, e dá por ella uma moeda d'ouro… (instando) Podiamos repartir ao meio…

BOCAGE (atalhando)

Fique-se ahi, ou estraga o negocio.—Ámanhã lhe dou a copia… se me lembrar ainda. E guarde para si o que lhe offereceram. O sr. mestre póde vender barbas e sonetos, se quizer… (Compadre Amancio desfaz-se em agradecimentos.) A lyra de Bocage ninguem a paga!

(Repiques, foguetes ao longe. Afflue o povo. Está a festa no auge da animação.)

OS POETAS

Mote, mote… Minhas senhoras, venha mote!

(Cae o panno)

FIM DO SEGUNDO ACTO

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