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Os Primeiros Amores de Bocage

ACTO IV

Reading edition

Em casa da morgada D. Felicia, ás Portas da Cruz.—Sala de visitas dando para outra.—Ao F. a porta que abre sobre esta.—Á E. a porta da ante-sala, fechada com reposteiro de pano azul, orlado de amarello, com as armas da casa ao meio.—Á D. duas portas. Para o F., á E. da porta de communicação com a outra sala, um bufete com tinteiro, etc.—Trumeaux, cadeiras o canapés; a mobilia branca e dourada de meias canas.

SCENA I

(Ao levantar do panno, um grupo de homens á porta do F. como vendo e admirando o que se passa na outra sala.—Ouve-se n'esta uma rebeca terminando o minuete da côrte.—Apenas acaba, muitas palmas em que toma parte o grupo da porta. Logo depois entram os personagens da scena seguinte, e a sala toma o aspecto de uma reunião ou assembléa do tempo.—As damas vêem successivamente sentar-se na ordem adiante designada.—Os homens ficam pela maior parte em pé diversamente grupados.)

SCENA II

D. FELICIA pelo braço do COMMENDADOR; successivamente D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MORGADO, GONÇALO MENDO, DAMAS e CAVALHEIROS CONVIDADOS

D. FELICIA (para fóra)

Não o faz melhor o proprio Dupré!… Admiravel!… Divino!… Uma suspensão!… (ao commendador.) Ninguem dança o minuete da côrte como o sr. Thomaz Xavier… Uma gravidade… um garbo!… Viu, aquelle rasgado das cortezias?

COMMENDADOR

E a sr.^a D. Angelica?… Uma magestade… um donaire!

D. FELICIA.

É o par mais completo!… (procurando com os olhos em redor.) Maria?… A minha filha?…

MARIA GERTRUDES

Estou aqui, minha mãe!

D. FELICIA (sentando-se)

Isso… Bem ao pé de mim, filha. (ao commendador) Não repare… Não me canço de repetir este nome de filha… Tinha-o quasi desaprendido!… Ainda o não creio… Ainda me parece tudo um sonho… Foi milagre, sr. commendador, não foi?

COMMENDADOR

Com razão symbolisaram os doutos e discretos o maternal affecto na ave chamada pelicano, figurando-a o dar-se a morte para dar vida aos filhos. (continúa como conversando.)

GONÇALO (dando o braço a D. Maria Joanna)

Se sua tia soubesse com quem desafoga aquelles enlevos!

D. MARIA JOANNA

E para que o ha de saber? Mais lhe vale ignorar sempre similhantes vilanias. (sentando-se.) Foi meu cumplice no cumprimento do dever. Seja-o no segredo d'essas iniquidades.—É dever tambem.

GONÇALO

A que não me obrigará com a perspectiva de tal cumplicidade?—Cumplice!… Mediu bem a palavra?

D. MARIA JOANNA (graciosamente)

Medi. (continuam conversando.)

(Entra Francisco, como procurando alguem. Vê D. Maria Gertrudes, e vae tristemente encostar-se ao trumeau fronteiro.)

SCENA III

OS DITOS e FRANCISCO

D. FELICIA (beijando D. Maria)

A minha filha!… Bem parecia que me adivinhava o coração!… (vendo Francisco.) Sr. dr. Francisco Pedro, seu pae está na roda do isque?… Estas modas novas de Inglaterra fazem os homens bem pouco sociaveis!

FRANCISCO (com melancolica resignação)

Não, minha senhora… Não é homem de modas, meu pae.—Creio que o vi ao pé do padre procurador de S. Vicente.

D. FELICIA

Ai! se elle se fica a ouvir as historias que o sr. D. frei Caetano conta ás meninas, não sae de lá tão depressa… (abanando-se.) Porque não nos tem apparecido, sr. morgado da Gesteira?

(Acham-se todos dispostos como segue: D. Felicia n'um canapé á E., tendo ao lado D. Maria Gertrudes em cadeira.—N'outro canapé, defronte, D. Maria Joanna, e Gonçalo Mendo proximo, em pé.—O Commendador, que passou á extremidade D., sentado conversando com uma dama. Junto d'este o morgado em pé.—Do mesmo lado, encostado ao trumeau, Francisco Pedro extatico para D. Maria Gertrudes, que não ousa levantar os olhos para elle.)

MORGADO

Não tenho tido mãos a medir, sr.^a D. Felicia, não tenho tido mãos a medir… Fui passar quatro dias ao pé da Arrabida… Não me deixava um amigo, homem poderoso, que tenho para aquelles sitios… Tudo por causa d'uma caçada de javardos… Sem mim não se podia fazer… Fui eu que dispuz os emprazadores. Fui eu que dirigi os couteiros. Fui eu que fiz chapear os cavallos por causa dos estrépes, e metter-lhes as çapatilhas e peitoraes de matto como é indispensavel. Fui eu que determinei a calcada… Finalmente, bateram-se duas moitas, e trouxemos nem menos de seis rezes grandes, uma cerva, dois vareiros e trez javardos… Só eu á minha parte, a tiro e á faca, matei sete.

COMMENDADOR (sorrindo)

Trouxeram seis, e matou sete!

MORGADO

É verdade. Perdeu-se um bique enorme… Sumiu-se no brejo que não foi possivel achal-o.

COMMENDADOR

Fez tudo o morgado. E os outros caçadores?

MORGADO (ao commendador)

Admiraram. (a D. Felicia) Antes de hontem passei a tarde n'uma academia de espada… (ao commendador) em casa de mestre Estevão da rua das Hortas… (á companhia) Ia lá um genovez de quem se diziam maravilhas. E com effeito é homem desembaraçado na arte. Tirou a melhor de quantos contenderam. Eu estava alli a vêr, e não queria assim sem mais nem menos entrar em assalto com um estrangeiro, que não sabe a gente quem é… Mas os amigos, que me tinham levado alli… provavelmente já de proposito… começam a dizer-me: «Sr. morgado, isto é uma vergonha para o reino!… Sr. morgado, só v. s.^a póde desaffrontar a nação!… Sr. morgado, isto são pontos d'honra!…» Atacaram-me pelo meu fraco… Não pude resistir… (fazendo menção de despir) Largo o josésinho… pego na espada… colloco-me no recto… Ao terceiro passe, o genovez tira-me de quarta a fundo… Paro de forte contra forte!… Faço um prendimento rapido… Estava desarmado o homem! (Gonçalo sorri.) Não é por me gabar: confessou elle mesmo que nunca vira pulso tão rijo, nem uma agilidade assim!

GONÇALO (com obsequiosidade ironica)

Estava em boas mãos… a honra nacional!

MORGADO (seccamente)

Favores! (continuando.) Hontem fui a uma corrida de pombos a Carnide. (negligentemente) Não enfiei senão cinco. Deram-me para correr um cavallo quasi serril… E era á gineta, que se fosse á brida!… Hoje estava convidado para jantar em casa d'um desembargador da Casa da Supplicação, meu amigo de tu. Chegou-lhe um cosinheiro de França, que faz na perfeição a sopa de natas e as tortas de espargos.—O meu amigo, sabendo como sou entendedor, fazia empenho no meu voto.—É tambem tarde de opera na Rua dos Condes. Representam uma coisa italiana que se chama… que se chama…

COMMENDADOR

Il Mercato di Malmantile… Uma opera nova.

MORGADO

Creio que sim. A estas primeiras representações nunca falto.

D. FELICIA

E não foi? Um peralta de quarto voto, como o sr. morgado!

MORGADO

Não fui… só para não faltar aqui logo no principio, e vir aos pés da sr.^a morgada!

D. FELICIA

Já vejo que me queixei sem razão. Uma pessoa como o sr. morgado nunca é senhora de si. (ao commendador.) E que tal é a opera?

COMMENDADOR

Não são para mim similhantes futilidades. Em coisas de theatro só acho sabor aos gregos e romanos.—Sabia o titulo da opera nova, porque o vi na Gazeta de terça feira. Aqui a trago eu. (tira do bolso uma folha impressa, em papel pardo, em quarto pequeno.)

D. MARIA JOANNA

A opera nova?

COMMENDADOR

Não, minha senhora… a Gazeta. Já se sabe a razão por que o eleitor de Saxonia toma parte tão activa na liga germanica. Eu prophetisei-o sempre!

D. FELICIA

Não gosta do nosso theatro? Não tem razão. Queria que visse aquella peça intitulada… As lagrimas da bellesa são as armas que mais vencem… que se representou o anno passado no Bairro Alto… Faz chorar as pedras… E já não é o que era, aquella casa. Viu, sobrinha?

D. MARIA JOANNA (que conversava com Gonçalo)

Não vi, minha tia.

D. FELICIA

Em França tambem ha theatros e peças bonitas? Se hade haver! Tem gracioso em todas, como cá? E magicas?

D. MARIA JOANNA

Ha de tudo, e com abundancia.—Para mim nunca achei auctor que me deleitasse como um chamado Molière. Não é dos modernos, nem está agora em voga; mas escreveu comedias, que ainda não li outras de egual verdade… duas sobre tudo… o Tartufo… Não conhece o Tartufo sr. commendador?

COMMENDADOR (um pouco turbado)

Não conheço senão os antigos… Terencio, Plauto, Aristóphanes…

D. MARIA JOANNA

Que pena! Pois é excellente comedia o Tartufo… E acho tambem um sainete particular ao Importuno… O sr. morgado da Gesteira devia dar uns annos de folga á monteria, ou á esgrima, ou á gastronomia, e aprender o francez… só para ler o Importuno!… Estou que havia de gostar.

(D. FELICIA que a ouvia admirada)

Vês, filha, que de coisas se sabem lá por fóra?

MORGADO (a D. Maria Joanna)

Os homens da minha condição não perdem o seu tempo com…

D. MARIA JOANNA (atalhando ironicamente)

Com um insignificante como Molière. Acho-lhe razão.

D. FELICIA

Em operas, vi eu já o que se póde ver. Quem assistiu em Queluz á opera da Galathea!… Eram os annos do principe D. José, e estavam para se ajustar as pazes com a Hespanha… Quem assistiu a uma coisa d'aquellas…

D. MARIA JOANNA

Ah! esteve no theatro da côrte?

D. FELICIA (hesitando um pouco)

Estive… alguma coisa de longe… Não era onde devia estar… mas estive… Alcancei entrada pelo sr. marquez de Marialva, que esse sabe dar estimação a quem a merece… Estive… Por signal fui achar entre as açafatas a mulher d'aquelle da alfandega… que se não sabe d'onde lhe veiu o dom… Não tem senão um criado d'almofada… e quando lhe vão visitas, chama pelo nome e sobrenome o criado de porta abaixo, que não ha outro na casa, para figurar de escudeiro… Estava lá, estava alli, ella, em quanto pessoas que sempre se trataram á lei da nobreza… Açafata aquillo!… Não foi senão por empenho do Estacio, o bobo do paço, algum dia que teve a fortuna de fazer rir Suas Magestades… Aquillo açafata!… Ai!… Ai!… Maria, filha… a agua de Melissa… depressa!…

D. MARIA JOANNA E D. MARIA GERTRUDES (erguendo-se como para socorrel-a)

Tem alguma coisa?

D. FELICIA

Não é nada… o meu hysterico!…

D. MARIA JOANNA (ameigando-a)

Passou?… Passou… (voltando a sentar-se.) E a Galathea?

D. FELICIA

Isso sim!—A Galathéa, de Metastario, com musica do Antonio da Silva… a orchestra dirigida pelo João Cordeiro… tudo professores da real capella!… Pois os cantores!… Vindos de Italia de proposito… o Romanini, o Violani… o Violani principalmente… Umas volatas… uns gorgeios… uma… uma suspensão!… Não espero tornar a ouvir cantar assim… E depois o baile d'Alberti!—E as pessoas reaes!… E toda aquella côrte… Não se via senão sedas, veludos e oiro!… E que tellas, que pinturas, que lustres!… Theatro aquelle! Opera aquillo!… o mais…

SCENA IV

(Entra um escudeiro velho e dirige-se respeitosamente a D. Felicia.)

D. FELICIA

Que quer, João Rodrigues? (a D. Maria Gertrudes)—São já sete horas?

D. MARIA GERTRUDES (distraida, e sem levantar os olhos)

São.—Hão de ser.

D. FELICIA (vivamente)

Que tens?… Triste agora!

D. MARIA GERTRUDES (constrangendo-se)

Triste, eu?—Nunca estive tão alegre!…

(O escudeiro diz algumas palavras em voz baixa a D. Felicia.)

D. FELICIA (ao escudeiro)

Já sei, já sei. Ponha a banca e as urnas na outra sala. (Levanta-se, e todos. Aos circumstantes.) São horas do nosso chá. (indo a uma das damas presentes.) A menina Escolastica hade-nos cantar depois aquella modinha brazileira com primeiras e segundas… tão linda, tão linda… uma suspensão mesmo!… Aquella… Recorda-se?… (achando.) Ah! «Os Melindres da Sinhá!» Canta, riquinha, sim?

D. MARIA JOANNA (a Gonçalo)

Se não estiver com a rouquidão do costume.

GONÇALO

Está decerto, em quanto não chegar o seu tudo.

D FELICIA (a outra)

A sr.^a D. Euphrasia das Neves faz a segunda e o sr. D. frei Caetano acompanha-as ao cravo… (a uma dama.) Alli onde o vê, o meu cravo foi o primeiro cravo de martellos que veiu a Lisboa… já depois da guerra de 62, creio… Mandou-o vir Sua Alteza o sr. conde de Lippe, que era grande tocador, e muito divertido, (a Gonçalo Mendo.) Lembra-se da guerra de 62?…

GONÇALO

Uma guerra que não passou do principio?

D. FELICIA

Desculpe… Não póde lembrar-se… Tive um primo nos reaes voluntarios… foi morrer á India. A proposito, o nosso cadete? O seu amigo Bocage demora-se… Estou vendo que nos falta hoje!… Logo hoje que não veiu outro, e estão cá tantas pessoas para o ouvir!…

GONÇALO

Não falta. (em voz baixa) Mas pelo amor de Deus, sr.^a morgada, não lhe diga isso…

D. FELICIA

Isso o quê?

GONÇALO

Que lhe faz falta por não ter outro. É capaz de se declarar mudo… se não fizer peior!

D. FELICIA

Sempre lhe digo que tem um tal genio, o cadetinho!

GONÇALO

Desculpe-o. Não é poeta como os outros.

D. FELICIA

Fazem-se sempre assim. Em ganhando fama!… (como em confidencia ao commendador, que veiu dar-lhe o braço) É a novidade, que eu cá para mim acho mais chiste ao padre Braz… e mesmo ao Caldas.

COMMENDADOR

Pois tem dúvida!—Chamarem áquillo poeta!…

D. FELICIA

Ai! nem tanto!… (Saem.)

(Vão saindo todos. Fica em ultimo logar Gonçalo Mendo com D. Maria Joanna pelo braço.)

GONÇALO (em quanto os outros saem)

Que me diz ás nossas assembléas? Francamente, lembra-se com pena do seu Paris?

D. MARIA JOANNA

Pensa que não há ridiculos tambem? Não tenho pena! Vaidades? Ólhe a lucta de Marmontel e do abbade Arnaud por causa de Gluck e do Orlando. Vicios? Ólhe o processo do cardeal de Rohan o anno passado, a prisão da condessa de la Mothe, e as negras machinações de Cagliostro!… Se visse o que de lá me escrevem!

GONÇALO

Devéras; não lhe dão saudades?

D. MARIA JOANNA (gentilmente)

Cada vez menos.

GONÇALO (transportado)

Oh!… Quando poderei eu ter esperanças?

D. MARIA JOANNA (como acima)

Não começou já?

SCENA V

OS DITOS, BOCAGE (da E.)

GONÇALO (vendo Bocage)

Ah!… Ahi chega o nosso poeta. Permitte-me que lhe falle em quanto vão ao seu chá? (conduzindo-a á porta da outra sala.)

D. MARIA JOANNA

Permitto que vá da minha parte agradecer-lhe.

SCENA VI

GONÇALO e BOCAGE

BOCAGE

Pelo que vejo parece-me que lhe posso dar os parabens.—Pois dou, e de todo o coração. É mais do que formosa a sr.^a D. Maria Joanna… é mais do que discreta… é uma alma grande, d'essas que é fortuna encontrar. Como ella se despojou facilmente e alegremente da maior parte dos bens, que desde pequena tinha como seus!

GONÇALO

É o menos, isso. Era dever: bastava. Tem raras qualidades em tudo… por isso a adorava já de longe…

BOCAGE

Ah! confessa?

GONÇALO

Posso confessal-o… agora.

BOCAGE

Porque a adora… de perto. Foram então a proposito os parabens!

GONÇALO

Os parabens, ainda não.

BOCAGE

Mas não podem tardar.

GONÇALO

Mais caso de parabens é o seu. A transformação da menina da casa engrandece o objecto das suas predilecções. Em vez da humilde afilhada, pobre e dependente, acha uma boa familia e uma rica herdeira!

BOCAGE (despedidamente)

Por causa d'isso estive para não vir!

GONÇALO

Porquê? Não lhe tem já amor? Bem me dizia então…

BOCAGE

Dizia mal… O que lhe dizia não se entendia com esta!… Não lhe tenho já amor? Tenho. E bem devéras, e bem de dentro… De certo o primeiro da minha vida… e… quem sabe?… talvez o ultimo! Mas o que provocou este amor desappareceu. Foi-se o que lh'o fazia grato, o que m'o fazia generoso. Foi-se-lhe com a condição, foi-se-lhe com a orphandade.

GONÇALO

Se tem esse modo de encarar as coisas…

BOCAGE

Poucos me hão-de entender. Poucos me entendem com effeito. Mas entende-me o sr. Gonçalo Mendo… Sei já que entende.—Rica! Rica? E eu que lhe levo em troca?… Dirão que lhe procuro a riqueza!… Dirão que fiz do affecto um pretexto, do carinho um degrau, da paixão uma usura!… «A poesia áquelle serviu», repetirá contente por ahi a turba vilan dos malevolos e dos zoilos… Arrendou-a por contrato… poz a lyra a juros… vende mais caro o coração que as obras.»—Dirão isto, dirão… e Deus sabe o que mais… E o grande numero crê… e não poucos applaudem…—Vender-me, eu!… Eu, Bocage!… Vender o coração! vender a musa!… esta musa indomita e indomavel!… Oh! basta que o suspeitem!

GONÇALO (calorosamente)

Pois a taes considerações sacrifica a felicidade? Pois…

BOCAGE

A felicidade?… Seria… Aqui presinto que era… Mas o orgulho a sublevar-se-me de continuo!—Resistiria a felicidade a similhante procella?—Podia a donzellinha modesta ser a estrella pollar do poeta sem graus nem haveres… Podia em quanto era o infortunio… Deixou de ser a constellação melancholica das noites saudosas; fez-se o astro d'oiro dos dias refulgentes!… Era… era a felicidade no amor casto, no puro enlevo… Veiu a fatalidade, e levantou em seu logar o idolo das multidões.—Esse não póde ser o idolo de Bocage!

GONÇALO

Tudo exagera… tudo leva ao extremo. É de condição distincta. Casando com a herdeira, póde desafogadamente cultivar o talento, aproveitar o estro, e servir a patria… O que recebe em fortuna, paga-o em gloria!

BOCAGE

Bocage casar! Casar eu!… Curvar o collo a esse jugo!… roxear os pulsos com esses grilhões! Sujeitar-me a esse perenne captiveiro!… Eu!… Que mal me conhece!—É pouco para mim o ar e o espaço… Toda a idéa de sujeição me opprime como as grades de um carcere… Alexandre de Macedonia, no auge do poder, visitou em Corintho o philosopho que da miseria extrema fazia officio e gala.—«Pede sem receio. Que queres de mim?» disse o grande conquistador.—«Que te affastes d'ahi, para me não tirar o sol,» respondeu o festivo indigente. Tenho alguma coisa do espirito d'esse philosopho… Acima de todas as venturas ponho uma… a verdadeira, a maior, a superior, a unica… a minha independencia!

GONÇALO (severamente)

Que quer então fazer? Desvalida ou abastada, a menina da Torre da Palma é uma flor de candura.—Quer-lhe inutilisar sem fito os breves annos juvenis?… Quer-lhe immolar a mocidade?… A quê?… Ainda ha pouco estava ahi um pobre moço, penando por ella que fazia dó… penando uma paixão sincera e sem egoismo. Sabe quaes são os intentos d'esse mancebo? Deixar o lar e a patria… só para não vêl-a indifferente!…

BOCAGE (arrebatado)

Quem é?

GONÇALO

Conhece-o já… É o filho de Manuel Simões, que se doutorou ultimamente.—É um rapaz honrado… é rico tambem… e começa uma carreira estimada. Podia fazel-a feliz… e fazia de certo. Com que direito a priva se não póde compensal-a? Julgaria elle destino invejavel o que o sr. Bocage reputa insupportavel prisão!

BOCAGE (pensativo)

E ella?

GONÇALO

Ella, a pobre innocente, sabe lá!—Diga-me, o que quer fazer?

BOCAGE (pensativo)

Não sei. (reparando para dentro) É o morgado da Gesteira, e o commendador de Monsarás, que vejo na outra sala?

GONÇALO

São.

BOCAGE

Aqui? ambos!

GONÇALO

Ambos.—A sr.^a D. Maria Joanna deseja formalmente que se não falle do que se passou com elles em casa do mercador. E tem rasão. Impõe-lhe este dever a delicadeza. Não podemos publicar a parte vergonhosa, que tiveram no caso, sem dar occasião a divulgarem elles a fraqueza do capitão-mór.—Isso quer evitar a sr.^a D. Maria Joanna por attenção á memoria de seu tio. Calando nós, calam-se forçosamente os dois. Que estamos todos na resolução de nos calar, já o Commendador percebeu, e d'ahi tiram ambos a audacia.—Comprehende agora o nobre silencio da sr.^a D. Maria Joanna, e a presença do Commendador e do Morgado?

BOCAGE

Comprehendo o silencio: não comprehendo a impudencia. Esses homens não teem sentimentos!

GONÇALO

Se tivessem sentimentos não faziam o que fazem. Eil-os ahi.

BOCAGE

Vamo-n'os então, nós. Custa-me a conter.

SCENA VII

OS DITOS, COMMENDADOR e MORGADO

(Gonçalo e Bocage vão a sair. Os dois veem entrando. Encontram-se.)

COMMENDADOR (indo prazenteiramente a Bocage, e offerecendo-lhe a mão)

Oh! sr. Bocage! Como vae?

BOCAGE (sem lhe dar a mão, passando)

Vou para diante! (Sae com Gonçalo para a outra sala.)

SCENA VIII

COMMENDADOR e o MORGADO

COMMENDADOR (tirando a caixa e encolhendo os hombros)

Mocidade imprudente!

MORGADO

Vê, commendador? Não temesse eu que fallassem, e saberiam…

COMMENDADOR

Não fallam. Se o podessem fazer, já o tinham feito.

MORGADO

O que lhe invejo é o socego.

COMMENDADOR

Claudiano diz: «O espirito do sabio é similhante ao cume do Olympo; fica tão superior aos ventos e ás nuvens, que nunca as tempestades o inquietam.»

MORGADO

Mas eu que não sou sabio… nem tenho pena… aqui estou agora… (olhando em redor) Ninguem nos ouve… Aqui estou agora sem dinheiro, sem casamento, e sem esperanças.

COMMENDADOR (saboreando a pitada)

Sem esperanças!… Porquê?—Sua prima tem ainda a casa de Val-moreo. Cinco mil cruzados de renda, creio que me disse… Não é o mesmo, seguramente… um terço apenas do que era… mas nas suas circumstancias actuaes… Pela minha parte sou justo. (olhando em redor, em voz baixa) A escriptura de divida, não será já de trinta, será de dez mil cruzados. Dispenso a sege.

MORGADO

Pois teima ainda! Não se desenganou com o desastre do outro dia?

COMMENDADOR

O outro dia… veja o que tirou das suas duvidas e espalhafatos! Quintilliano tem por vergonha desesperar do possivel. Eu nunca me desengano em quanto vejo remedio.

MORGADO

Remedio! Mas que remedio? Não vê como o tenente anda todo derretido para minha prima? Não vê como ella o attende? E agora, de mais a mais, que está senhor de uma boa casa.

COMMENDADOR

Extranho-o. Pois é possivel imaginar que póde alguem competir com o Morgado?

MORGADO

Não digo isso…

COMMENDADOR

O tenente fica por minha conta. Tenho que lhe pagar uma divida… e ao Bocage tambem. Nós sabemos esperar… e nada esquecemos. Não ha inimigo peior do que o inimigo que espera e não se espera. Inexpectatus hostis, lhe chama Ovidio, Sulmonense.—Sua prima está já casada, porventura?

MORGADO

Mas aquelle ajuste que ella ouviu! a impressão que lhe ficou!

COMMENDADOR

Empregue tambem pela sua parte algum esforço. Não sejam tudo vozes vãs.—Se estivesse no seu logar, d'isso mesmo faria um merecimento mais. Attribua-me toda a culpa. Indigne-se bem contra mim: não tem duvida. Diga-lhe que foi a desesperação, o amor, o desejo de alcançar a sua mão. As damas raramente deixam de se convencer d'isso. Affirme-lhe que vive no meio de um incendio… como a salamandra… Ainda que Gesnéro assevera que a cinza de salamandra é remedio soberano, e d'ahi se deva concluir que mal poderá viver no fogo o que se reduz a cinzas… Em fim pinte-lhe ao vivo as chammas em que se abraza… (enfastiado) Isso é com o Morgado, não é commigo.—Convem-lhe ou não lhe convem ainda o casamento?

MORGADO

Se convem! O que eu não sei é como se ha de agora estorvar o tenente!

COMMENDADOR

Sei eu (olhando para dentro). Acabou o chá. Ahi vem todos outra vez. (Vae ao F. dar o braço a D. Felicia para a conduzir para o seu logar)

SCENA IX

OS DITOS, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, BOCAGE, GONÇALO, FRANCISCO e CONVIDADOS

D. FELICIA

Que pena ter enrouquecido a menina Escholastica! Tambem, havia de ir logo sentar-se ao pé do corredor… Não foi senão o ar da porta com o calor do chá… (á Dama) Quer a sua pelicia, minha joia? (gesto negativo) Tomára que ouvissem!… Canta as modinhas brazileiras como ninguem… Tem uma graça n'aquelles tons menores!… É mesmo…

COMMENDADOR (atalhando)

Uma suspensão.—E é, na verdade, é.

GONÇALO (a D. Maria Joanna)

Não lhe dizia eu? Faltou-lhe o seu tudo.

D. MARIA JOANNA

Faltando-lhe… tudo, como havia de ter voz!

GONÇALO

São os namorados mais extremosos! Ella, sangrou-se ha tempos. Elle, foi logo procurar o cirurgião, e deu-lhe cinco moedas pela lanceta!

D. FELICIA

Felizmente veio o sr. Bocage. Não imagina como estamos impacientes por ouvil-o. (Sentam-se. Tomam todos os seus anteriores logares. Unicamente D. Maria Gertrudes passa á E. de sua mãe. Bocage fica em pé junto a D. Felicia na extremidade E. e o Commendador em pé ao lado do Morgado, defronte.) Aqui é melhor, não? O padre procurador não acaba com as suas historias!…

BOCAGE

Pedi já desculpa, sr.^a morgada. Fui passar o dia ao Lumiar. Na volta demorei-me mais do que desejava no Campo Pequeno. Ha toiros ámanhã.

GONÇALO

No Campo Pequeno? Tinham-me dado idéas. É cavalleiro o Manuel dos Santos, não?

BOCAGE

É. E o Romão a pé.

MORGADO (intromettendo-se)

Tem disposições o Manuel dos Santos. Chama bem á estribeira; mas não tem pulso para o rojão, e á espada é fraco. O Romão com as farpas não vae mal. Se um dia me resolver…

BOCAGE (cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna)

A sr.^a D. Maria Joanna vae?

D. MARIA JOANNA (que estava entretida)

Como, sr. Bocage? (percebendo) Não vou. Confesso que não é dos divertimentos mais do meu gosto.

D. FELICIA

Ouvi que se não correm touros em França. Naturalmente hão de dizer mal de nós por isso.

D. MARIA JOANNA

Nem todos. Ao conde de Saint-Germain, que os tinha visto em Hespanha no tempo de Filippe V, ouvi eu que era apaixonadissimo.

BOCAGE

No tempo de Filippe V! Quantos annos tem hoje esse conde de Saint-Germain, e quantos tinha quando esteve em Hespanha?

D. MARIA JOANNA

Esteve em Hespanha e percorreu o mundo. O conde de Saint-Germain é um viajante como não ha outro. Beijou a mão a Francisco I na vespera da batalha de Pavia; conheceu El-Rei D. Sebastião quando se preparava a expedição d'Africa; e teve em Cuba amisade com Fernando Cortez antes de este ir conquistar o Mexico.

BOCAGE (rindo)

Parece tão convencida! Ninguem dirá que está gracejando.

D. MARIA JOANNA

Mas não estou.

BOCAGE (rindo)

Ha então em França Mathusalens ainda? Julgava perdida a especie.

D. MARIA JOANNA

Um Mathusalem! Na apparencia não. Quem o vir dirá que tem a edade do sr. Morgado, pouco mais ou menos… (maliciosa) antes para menos que para mais.

MORGADO

E conheceu El-Rei D. Sebastião! Essa agora!…

D. MARIA JOANNA

Diz elle. Pergunte ao sr. Commendador, que o viu na embaixada, e lhe fallou nas salas do meu contra-parente D. Vicente de Sousa. É verdade, sr. Commendador?

COMMENDADOR

É verdade. E viu-o toda a gente em Paris. O conde affirma que possue o elixir da immortalidade. Só assim.—O grande Raymundo Lullio refere…

BOCAGE (cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna)

E os parisienses acreditam isso?

D. MARIA JOANNA

Acreditam.

BOCAGE

Fallem-me então na credulidade portugueza.

D. MARIA JOANNA

Duvidaram ao principio. Agora vão-lh'o negar! O conde sabia os segredos de todos… Não admira, tendo vivido e viajado tanto!… Está lá, ainda creio… Se acaso se lembra de dar uma volta por Lisboa… Ha de ser incommodo, um homem que está senhor dos segredos de toda a gente… Não lhe parece, sr. Morgado?

MORGADO (balbuciante)

Por mim…

D. FELICIA

Coisas de estrangeiros! Eu, se tal visse, tinha o meu hysterico, por força. Nome da Benta Hora! Credo!

BOCAGE

E eu quizera encontral-o, para satisfazer uma curiosidade. Desejava perguntar-lhe… visto que tanto andou e tanto sabe… se alguma vez, nas suas longas peregrinações, encontrou figurão mais sem pejo… do que dois sujeitos do meu conhecimento.

COMMENDADOR (baixo ao Morgado)

Estão apostados a molestal-o. Não succumba.

MORGADO (idem)

Vae vêr. Deixe… Deixe que vae vêr.

D. FELICIA (a Bocage)

Queria encontral-o? Não diga isso.—N'estas conversas se vae o tempo, e nada se faz.—Sr. Bocage… Um improviso dos seus… Quem dá mote?… Dê mote, sobrinha!

MORGADO

Versos a motes quem quer faz… Não tenho eu querido, senão… Versos a motes!… Sempre ouvi dizer que era o A B C… e está claro que é (sem achar saída), porque os versos com os motes e os motes com os versos… ou para fallar mais claro, os versos sem os motes e os motes sem os versos…

COMMENDADOR (sugerindo-lhe indirectamente a idéa)

O mote com effeito é uma sentença, que serve de assumpto, e põe a caminho o engenho. O principal está feito. O mais é ajustar palavras e combinar as rimas. Com algum exercicio não é difficil!

BOCAGE (medindo-os admirado e retraido)

Ah!

COMMENDADOR (continuando)

Mote querem alguns que venha do latim motus, que significa movimento. E bem se póde ter que assim é, porque do mote em verdade nasce o impulso que faz mover o estro…

MORGADO (atalhando)

É o que eu queria dizer. O mote vem a ser tudo… Mais por aqui, mais por alli, é tudo o mote.—O mote é o assumpto; não havendo mote não ha assumpto; e ahi é que está! (satisfeito de si e com extrema volubilidade) Fazer versos sem assumpto não é para qualquer: tem de se tirar tudo da cabeça, assim de repente, do pé para a mão, sem mais nem mais. Tambem não sei porque se ha de pedir mote. Quando uma pessoa monta a cavallo não precisa de mote para fazer os piafés, e as curvetas, e as balotadas, e as garupadas; nem tão pouco se dá mote quando qualquer mette mão á espada, e entra a executar batiduras, ligamentos, juntamentos, cambiamentos, tentamentos, e esquivamentos. Eis ahi. Isto é que eu queria… Chegar um homem, não esperar por mais, nem esfregar a testa, nem pôr os olhos em alvo, bater as palmas e logo alli, zás… como quem deita um foguete de sete respostas!…

BOCAGE (atalhando e batendo as palmas)

Lá vae!

COMMENDADOR (sorrindo)

Sem assumpto?

BOCAGE

Está ahi defronte, o assumpto.

Famosa geração de falladores Consta que foi, Morgado, a origem tua, Que nem todos os cães, ladrando á lua, Tiveram que fazer com teus maiores:

Um a lingua ensinou dos palradores; Outro, o motu continuo achou na sua; Outro, além de encovar toda uma rua, Açaimou n'uma junta a cem doutores:

Teu avô, santanario venerando, Soube mais orações que mil beatas, Com reza impertinente os ceus zangando:

Teu pae foi um trovão de pataratas: Teu tio, o bacharel, morreu fallando; Tu, fallando sem tom, não morres—*matas*!

TODOS (applaudindo)

Bravo! bravo!

MORGADO (engasgado de raiva)

Sr. Bocage!… Sr. Bocage!…

BOCAGE (fitando-o serenamente)

Que é?…

COMMENDADOR (com o seu sorriso, ao Morgado)

Agasta-se? De quê? Não tem rasão… São facecias innocentes, e muito graciosas na verdade!… (Gonçalo passa disfarçadamente para o lado de Bocage) Mais picantes ainda as fez Juvenal!… Se fosse verdadeiramente improviso, era deveras um primor… E não digo que não seja… Mas é facil trazer estas coisas estudadas já… (Bocage estremece de indignação ante a contradictoria perfidia.—Gonçalo que lhe está ao pé detem-o.)

GONÇALO (baixo)

Querem fazel-o sair de si. Com algum fito é. Modere-se.

COMMENDADOR (observando)

Depois, os conceitos naturalmente andam preparados com antecedencia.

BOCAGE (sem poder ter-se, batendo as palmas)

Lá vae!—Sr. Commendador, permitta-me descrever-lhe um certo individuo… do nosso conhecimento… á moda de Juvenal!

Do Sena, que foi ver por seu desdouro, Um pedante voltou, de escassa fama, Que os livros cata, os cartapacios ama, E n'elles julga os annos um thesouro:

Traz laivos de francez, arranha o mouro, Sabe que Deus em turco Allah se chama, Que no grego alphabeto o G é gamma, Que taurus em latim quer dizer touro:

Tem de velhos canhenhos chocho extracto; Abocanha talentos que não gosa; Se rosna, prega unhadas como um gato:

Achareis na pintura rigorosa Um fofo sabichão, posto em retrato, Que é nada em verso, quasi nada é prosa!

(Impressão de assombramento. Ninguem ousa applaudir. Segredam todos mutuamente.)

COMMENDADOR (parecendo satisfeitissimo)

Muito bem, muito bem, sr. Bocage. Esse sim. A isso é que se chama responder apposité. (O escudeiro, vem apressadamente a D. Felicia, e falla-lhe em voz baixa) Retrato lhe chama, não? Vê-se que é: ha de mostrar-me o original. Mas cuidado, não o saiba elle!…

D. FELICIA (ao escudeiro)

Que me diz! (erguendo-se alvoroçada) Meus senhores, o sr. marquez de Marialva está ahi. (levantam-se todos.)

SCENA IX

OS DITOS e MANUEL SIMÕES

MANUEL SIMÕES (alvoroçado)

O meu compadre! Está ahi o meu compadre? (a Francisco.) Olha que é o teu padrinho, Francisco.

D. FELICIA

Valha-me Deus! Sem estar nada prevenido… Mande abrir já o portão, João Rodrigues. (O escudeiro sae vivamente para a E.) Querem fazer-me o favor de me acompanhar?…

MANUEL SIMÕES

Vamos esperal-o todos!

D. FELICIA

Vamos receber sua excellencia.

(Saem todos. Fica só o morgado passeiando agitado, e o commendador observando-o.)

SCENA X

COMMENDADOR e MORGADO

MORGADO (depois de os ver sair)

Ter a confiança de me tratar por tu!… D'esta vez faço uma fallada!… Ambos… hão de ser ambos!… Fizeram bem em aproveitar a occasião de se esgueirar…. Não podia já conter-me!… E agora…

COMMENDADOR (tomando-lhe o braço)

Deixe-se d'isso.

MORGADO (forcejando para se desembaraçar, e mais agitado)

Não me sustenha, commendador, não me sustenha!

COMMENDADOR (largando-o)

Aonde quer ir?

MORGADO

Aonde quero ir? Boa pergunta! Aonde quero ir!… (forcejando como antes.) Não me sustenha… (vendo que o não sustem, e hesitando.) Quê?… (em grandes passos.) Não me sustenha… Quero dizer, sustenha-me, sustenha-me, senão vou fazer uma grande desgraça!…

COMMENDADOR

Accommode-se. Não ouviu quem vem ahi?

MORGADO (estacando transido.)

São elles?

COMMENDADOR

Não, homem. Não sabe que é o marquez?

MORGADO

Não são elles? (recomeçando as bravatas.) Podéra! Olhem se nos apparecem agora! Olhe lá se voltam senão no meio de toda essa gente!… Cobardes!

COMMENDADOR

Esteja quieto. Estamos aqui sós… e já nos conhecemos!

MORGADO

Então isto hade ficar assim?—Não é senão o tenente que mette a caminho o Bocage para nos chasquear. Não o viu ha pouco ir ter com elle?—Isto hade ficar assim!…

COMMENDADOR (com o seu sorriso)

Não lhe disse já que não… Andam a semear!… Deixe, que hão de colher!… Ouve? O marquez subiu já. Vamos tambem. (Dirigem-se á porta da E.. Entra o escudeiro, corre o reposteiro, e colloca-se á humbreira. Os dois tomam tambem de uma e outra parte logar á porta.—Entra o marquez, ao lado de D. Felicia, e seguido de toda a companhia anterior.)

SCENA XI

MARQUEZ, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MANUEL SIMÕES, FRANCISCO, GONÇALO, BOCAGE, COMMENDADOR, MORGADO e CONVIDADOS

MARQUEZ

Se soubesse que vinha incommodal-a, sr.^a morgada…

D. FELICIA

Incommodar-nos, v. ex.^a! Estava bem longe de esperar tamanha honra, e por isso…

MARQUEZ

Cheguei ha pouco de Cintra, e achei em Belem uma carta de Martinho de Mello, que me obrigou a vir logo aqui.—Passei por sua casa, Simões… Disseram lá ao meu volantim, que tinha ido com seu filho de visita á sr.^a morgada.—(a D. Felicia.) Vim assim mesmo, com as minhas saragoças… Não esperava encontrar tão luzida companhia.—Como é caso de pressa não queria perder a occasião.

MANUEL SIMÕES (sem perceber)

V. ex.^a dignou-se passar por minha casa… é negocio de pressa…

MARQUEZ

Um negocio com o meu afilhado… Onde está elle?

FRANCISCO (apresentando-se respeitoso)

Meu padrinho!

MARQUEZ (em confidencia)

Teu pae sempre o hade saber… e mais vale que seja agora, diante de mim. (alto.) A nau de viagem sae para a semana. Já vês que se não póde perder tempo.

MANUEL SIMÕES (attonito)

A nau de viagem… o Francisco!…

D. FELICIA.

O sr. marquez de pé! (offerecendo-lhe o canapé.) Sr. marquez…

MARQUEZ

Não me demoro… (indicando a cadeira junto ao bufete.) Prefiro aquella cadeira. Está alli um tinteiro, e hade ser preciso… (a Francisco.) Fui eu mesmo fallar a Martinho de Mello. Achei-o em boa occasião. Serviu-me logo, sem objecções… que é raridade. Pediu-me só que lhe mandasse o nome por escripto… Não sei como… as minhas distracções do costume… passou-me de todo. Agora, á volta de Cintra, recebo uma carta d'elle, e dentro o decreto já assignado, dizendo-me que fôra expedido com o nome em branco para não causar atrazo, vista a proximidade da partida… Venho remediar o esquecimento. (Dirige-se á cadeira indicada, e senta-se. Sentam-se as damas.)

MANUEL SIMÕES

Mas, meu senhor… V. ex.^a foi fallar ao ministro da marinha? Por causa de meu filho?… Traz-lhe um decreto!… Sou pae, sr. marquez… não se hade estranhar… Um decreto de quê?

MARQUEZ

De guarda marinha para Gôa.

MANUEL SIMÕES (atterrado)

Guarda marinha!… Para Gôa!… quando eu pensava… quando esperava… E pediu meu filho similhante coisa a v. ex.^a… pediu-lh'o sem me dizer nada!

MARQUEZ

Ponderei-lhe isso mesmo… aconselhei-o… Deu-me razões que me convenceram. Entendo que faz bem… As viagens são distracções poderosas… são convenientes á mocidade… Voltará quando fôr tempo… e espero que será breve… Se lhe não convier a vida do mar, dará baixa… Agora é bem que vá.—Simões seu filho está formado, não se lhe póde oppôr… Dê-lhe o seu consentimento. Peço-lhe que dê, e digo-lhe que o deve dar… (a Francisco.) Aprompta-te quanto antes. Embarcas para a semana.

D. MARIA GERTRUDES (sem poder já, levando a mão ao coração.)

Ai! Jesus!

D. FELICIA

Que tens… que tens, Maria?… (vendo-a debulhada em lagrimas.) Ai! a minha filha… A agua de Melissa… a agua da Rainha d'Hungria!… (acodem todas as damas a soccorrel-a.) Não repare v. ex.^a, sr. marquez… é minha filha!

MARQUEZ (erguendo-se)

Sei… sei já… É coisa de cuidado?

D. MARIA JOANNA

Não é nada. Um pequeno espasmo. Passa já.

GONÇALO (de parte a Bocage, indicando D. Maria Gertrudes)

Vê?

(Bocage contempla-a meditativo.)

D. MARIA GERTRUDES (com esforço)

Não foi nada… Um affrontamento.

FELICIA

O melhor é recolheres-te ao teu quarto. Queres?

D. MARIA GERTRUDES (vivamente)

Não, não, minha mãe… Não é nada.

(Retomam todos os seus logares. O marquez senta-se de novo.)

MARQUEZ (a Manuel Simões)

Então, Manuel Simões, consente?

MANUEL SIMÕES

Que remedio… É desejo d'elle… e v. ex.^a approva.

MARQUEZ (tirando o decreto, desdobrando-o sobre a meza, e tomando a penna.)

Vamos… é pôr o nome, e podemos dar os parabens ao novo guarda marinha.

(Bocage passa lentamente por detraz de todos dirigindo-se ao bufete.)

MANUEL SIMÕES (tristemente, ao filho)

Sempre cuidei que te acharia ao pé de mim… para me fechar os olhos.

FRANCISCO (lançando-se-lhe commovido nos braços)

Meu pae!

MARQUEZ (acabando de ler o decreto)

«Samora Correia, em 31 de janeiro de 1786. Com a rubrica de Sua Magestade.»—Está em ordem. (Sem levantar os olhos.) O nome todo?

BOCAGE (atraz do marquez)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage!

(Espanto nos circunstantes.)

MARQUEZ (erguendo attonito o rosto, e depondo a a penna)

Quê?

BOCAGE (mostrando Francisco nos braços do pae)

Será elle que deva partir?

MARQUEZ

Mas sabe porque o meu afilhado quer embarcar?

BOCAGE

V. ex.^a deseja-o feliz?… Deseja… é o seu coração, e o seu costume. Permitta-me que faça por um momento as suas vezes, e verá… (indo ao grupo do pae e do filho.) Desculpe, sr. Manuel Simões. (tomando Francisco pela mão, em voz baixa.) Não viu já que o ama? (indo a D. Maria Gertrudes, em voz baixa e rapida, indicando-lhe Francisco.) Quer-lhe como ninguem. (alto a D. Felicia.) Sr.^a morgada da Torre da Palma, estou auctorisado a pedir a mão de sua filha para o sr. dr. Francisco Pedro Simões. (Attenção geral.)

D. FELICIA (assombrada)

A mão de minha filha… Se não fosse o respeito do sr. marquez, tinha o meu hystérico!… A mão de minha filha!… D'esse modo!… tão de repente!… (depois de breve pausa) O sr. Manuel Simões é um homem honrado; estimo-o; sou-lhe obrigada, não nego… mas… mas elle bem sabe que a nossa jerarchia… (O marquez ergue-se. Erguem-se todos.)

MARQUEZ (intervindo)

Perdoe, sr.^a morgada… O meu afilhado segue uma profissão nobre… Doutorou-se… poderá em breve alcançar algum despacho de Juiz de fóra… Como seu padrinho tenho obrigação de lhe dar um presente de noivado. (baixo) Fallei já á rainha, minha senhora, a respeito da sr.^a D. Felicia.—O presente que destino ao meu afilhado é um alvará de açafata para sua sogra.

D. FELICIA (encantada)

Ai! sr. marquez! Devéras? Filha, filha, a minha agua da rainha d'Hungria!…

MANUEL SIMÕES (baixo ao commendador em tom supplicante)

Sr. commendador, posso dizer que sim ao casamento?

COMMENDADOR

Embarca o Bocage? (Gesto affirmativo de Manuel Simões) Póde.

MARQUEZ (proseguindo a D. Felicia, mais baixo)

Depois, Manuel Simões dá ao doutor quarenta mil cruzados. Excellente occasião de restaurar a Torre da Palma, que o precisa. (a Manuel Simões) Não dá quarenta mil cruzados a seu filho, Simões?

MANUEL SIMÕES (no auge de alegria)

Não, meu senhor. Dou sessenta.

MARQUEZ (baixo a D. Felicia)

Por causa de sua filha, queria o meu afilhado embarcar! (indicando Francisco e D. Maria Gertrudes.) E veja… Terá coração para fazer dois desgraçados? (alto.) A sr.^a morgada diz que sim.

FELICIA

Basta ser vontade do sr. marquez. (comsigo) Açafata do paço!

MARQUEZ (que passou a Bocage, em jovial confidencia)

Acertou, sr. Manuel Maria.

BOCAGE

Então ganhei o meu decreto.

MARQUEZ

Insiste?

BOCAGE

Espero só que v. ex.^a me faça a honra de escrever o meu nome.

MARQUEZ (indo sentar-se ao bufete)

Veja bem. Pensou?

BOCAGE

Pensei. Meu pae deixou-me a vocação livre. O mar é a minha vocação. (dolorosamente) Se tivesse aqui um affecto, se podesse haver esperança que me prendesse… Não tenho. Não ha. E é justo. (com profunda amargura) Nós os poetas cantamos tanto o amor, que o amor todo nos vôa no canto!

MORGADO (baixo ao commendador)

Que lhe parece? Vae para Goa..

COMMENDADOR

Em Goa temos gente tambem.

MORGADO

E se voltar?

COMMENDADOR

Está cá o Santo Officio.

MARQUEZ (dispondo-se a escrever)

Repita-me o nome por inteiro… Bem sabe a triste memoria que tenho… Está a tempo ainda. Considere.

BOCAGE (decidido)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage. (Marquez escreve lentamente) Meu avô, Gil de Bocage, foi coronel do mar. Herdei talvez a inclinação com o sangue.

FRANCISCO (indo a Bocage)

Não o conhecia ainda… (intencionalmente) Ninguem agora o admira mais.

GONÇALO (apertando-lhe a mão)

Regosije-se. Felicito-o. É uma nobre acção.

BOCAGE

Começo outra vida, rude vida de ancias e trabalhos, mas vida explendida de alvoroços e promessas. (inebriando-se das proprias palavras) Oh! quem me déra já nas solidões do oceano, entre os dois abysmos, para não ver mais do que o eterno lampadario dos astros, para não ouvir mais do que o magestoso hymno das vagas!… (como vendo o que repete) Ondeante á pôpa a bandeira que recorda as margens distantes… a melancolia da saudade!… Diante de mim os horisontes infinitos… a incerteza do futuro!… Aos meus pés a voragem tumultuosa… a advertencia dos desenganos!… E além… lá bem ao longe, a nossa India… a India que démos de presente ao mundo!… o recesso dos mysterios… a terra dos prodigios… crivada dos nossos padrões, povoada das nossas memorias, cheia ainda do nosso passado, repetindo de todos os angulos a maravilhosa historia que os povos decoraram em todas as linguas!… além as grandes recordações dos grandes feitos… os grandes éccos dos grandes nomes… as grandes imagens das grandes edades!… além emfim a perenne e inflammada visão, que acima da escuridão dos tempos e do luto das catastrophes, como um pharol no meio das trevas, ergue rutilante do berço do sol a gloria da patria!

D. MARIA JOANNA (fervorosamente)

Tem a India inspirado os nossos grandes poetas! Começou já a inspiral-o!

MARQUEZ (erguendo-se e dando-lhe o decreto)

Aqui tem sr. guarda marinha. (a D. Felicia) Está tudo justo, não? As escripturas do casamento assignam-se em Belem d'hoje a oito dias!

D. FELICIA

Pois v. ex.^a quer fazer tamanha fineza a minha filha!…

MANUEL SIMÕES (promptamente)

Que honra!… Que honra para o afilhado!…

MARQUEZ

Justo é que sejam testemunhas todos os que presenciaram este feliz accordo. Ficam prevenidos. (inclinando-se) Terei occasião de dizer á sr.^a D. Maria Joanna Galvão o muito que a estimo e respeito. (D. Maria Joanna faz mesura.—O marquez dirige-se á porta da E.—Dispõem se todos a seguil-o.) Sr.^a morgada, dispenso etiquetas… não consinto…

D. FELICIA

Seria privar-nos da maior satisfação!

MARQUEZ (a Bocage)

Não nos falte, Manuel Maria. Quero vêl-o com o seu novo uniforme! (Sae com D. Felicia.—Acompanham-n'o todos. Ficam successivamente em ultimo logar, Francisco que dá o braço a D. Maria Gertrudes, Gonçalo ao lado de D. Maria Joanna, o commendador e o morgado da parte opposta, Bocage.)

SCENA XIII

OS DITOS, menos MARQUEZ, D. FELICIA e os CONVIDADOS

GONÇALO (a D. Maria Joanna, indicando D. Maria Gertrudes)

Não lhe diz nada a vista d'aquelle par?

D. MARIA JOANNA

Diz-me que preciso um protector… e que já o aceitei!

GONÇALO (transportado)

É definitivamente uma esperança?

D. MARIA JOANNA (dando-lhe a mão)

É mais… é uma certeza.

(O morgado mostra ao commendador esta acção.—D. Maria Joanna esquiva-se como envergonhada, e mette-se no sequito.)

MORGADO (consternado ao commendador)

Viu?

COMMENDADOR (saboreando a pitada)

Vi… Não estão ainda casados.

GONÇALO (que seguiu um instante D. Maria Joanna, volta a Bocage, e mostra-lhe D. Maria Gertrudes e Francisco que de embevecidos se deixaram ficar atraz de todos.)

Repare… O amor e a mocidade, coroados pela ventura!… Alli tem o seu melhor poema!

BOCAGE

Creio que sim… (dolorosamente) porque nenhum ainda me custou tanto!

(Cae o panno)

FIM DO QUARTO ACTO

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