O PRIMO BAZILIO
Reading edition
I
Tinham dado onze horas no
cuco
da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha
voltaire
de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:
—Tu não te vaes vestir, Luiza?
—Logo.
Ficára sentada á mesa, a lêr
o Diario de Noticias
, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a
soutache
, com largos botões de madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos davam scintillações escarlates.
Tinham acabado d'almoçar.
A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silencio recolhido e somnolento de manhã de missa; uma vaga
quebreira
amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor dormente.
Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de chita, sem collete, o jaquetão de flanella azul aberto, os olhos no tecto, pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o como uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. Que massada por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que não acabam nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol baço, onde os moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar no ar o bafo quente das queimadas! E só!
Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades d'aquella salinha, que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se prolongavam em tão suaves preguiças!
E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de cassarola e os rosados desbotados d'um mólho de rabanetes! Defronte, na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830, tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição. Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe «que o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre n'aquella casa com sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai!
Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fôra sempre robusto, d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros fortes.
De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. Quando era estudante na Polytechnica, ás 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro de latão, abria os seus compendios. Não frequentava botequins, nem fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia vêr uma rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada, e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma pontinha de febre. Jorge achava-a
romanesca
, e censurava-lh'o. Elle, nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe
proseirão, burguez
: Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas, era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dividas, e sentia-se feliz.
Quando sua mãi morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno, e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste; sobretudo á noite, quando estava debruçado sobre o compendio, os pés no capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braços, com o peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e dôce, ouvir na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu intimo, o bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave da cabeça, esfregando vagarosamente as mãos:
—Casou no ar! casou um bocado no ar!
Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho: e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio.
—É um anjinho cheio de dignidade!—dizia então Sebastião, o bom Sebastião, com a sua voz profunda de
basso
.
Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando aquella existencia facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a perna traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu jaquetão de flanella!
—Ah!—fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
—Que é?
—É o primo Bazilio que chega!
E leu alto, logo:
«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.
a
que, como é sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do anno passado. A sua volta á capital é um verdadeiro jubilo para os amigos de s. exc.
a
que são numerosos».
—E são!—disse Luiza, muito convencida.
—Estimo, coitado!—fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão.—E vem com fortuna, hein?
—Parece.
Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma das portadas da janella.
—Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo Deus!—Batia as palpebras sob a radiação da luz crua e branca.
A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui, alli, n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, tornava espesso o ar luminoso.
—Cahem os passaros!—disse ella cerrando a janella.—Olha tu pelo Alemtejo, agora!
Veio encostar-se á
voltaire
de Jorge, passou-lhe lentamente a mão sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste já da separação: os dous primeiros botões do seu roupão estavam desapertados; via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os.
—E os meus colletes brancos?—disse.
—Devem estar promptos.
Para se certificar chamou Juliana.
Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta annos, era muitissimo magra. As feições, miudas, espremidas, tinham a amarellidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam n'uma inquietação, n'uma curiosidade, raiados de sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de retroz imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um
tic
nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, tufado pela gomma das saias—mostrava um pé pequeno, bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.
Os colletes não estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, não tivera tempo de os metter em gomma.
—Tanto lhe recommendei, Juliana!—disse Luiza.—Bem, vá. Veja como se arranja! Os colletes hão-de ficar á noite na mala!
E apenas ella sahiu:
—Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge!
Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se podera acostumar á sua fealdade, aos seus tregeitos, á maneira aflautada de dizer
chapieu
,
tisoiras
, de arrastar um pouco os
rr
, ao ruido dos seus tacões que tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do pé, as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos.
—Que antipathica!
Jorge ria:
—Coitada, é uma pobre de Christo!—E depois que engommadeira admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!—O Julião diz bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! Não é sympathica, não, mas é aceada, é apropositada...
E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de flanella:
—E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doença da tia Virginia... Foi um anjo para ella!—Repetiu com solemnidade:—De dia, de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!—E começou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito séria.
Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, poz-se a dizer:
—Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a embora.
Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato:
—Se eu consentir, minha rica. É que é uma questão de gratidão, para mim!
Ficaram calados. O
cuco
cantou meio dia.
—Bem, vou á vida—disse Jorge. Chegou-se ao pé d'ella, tomou-lhe a cabeça entre as mãos.
—Viborasinha!—murmurou, fitando-a muito meigamente.
Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos, luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:
—Queres alguma cousa de fóra, amor?
Que não viesse muito tarde.
Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo...
E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono:
Dio del oro, Del mondo signor. La la ra, la ra.
Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! Desejaria estar n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada, e adormecer! Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas, embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:—em meias de sêda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres guardanapos que a lavadeira perdera...
Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio estender-se na
voltaire
, quasi deitada, e, com o gesto acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a lêr, toda interessada.
Era a
Dama das Camelias
. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmára-se por Walter-Scott e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazões da
clan
, mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas tapecerias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, Morton e Ivanhoé, ternos e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o
moderno
que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro—Julia Duprat, Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, com ceias, noites delirantes, afflicções de dinheiro, e dias de melancolia no fundo d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um céo pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves.
—Até logo, Zizi—gritou Jorge do corredor, ao sahir.
—Olha!
Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas.
—Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela madame François que me mande o chapéo. Escuta.
—Que mais, bom Deus?
—Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... Mas está fechado!
Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas da
Dama das Camelias
. E estendida na
voltaire
, com o livro cahido no regaço, fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar baixinho, com ternura, a aria final da
Traviata
:
Addio, del passato...
Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo Bazilio...
Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.—Fôra o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos! Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastião...
De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, ria, recordando as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle—alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e um geito de metter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves!
Aquillo
começára em Cintra, por grandes partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito
bife
, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo havia romanzeiras, onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas rôlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;—e, no silencio aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom aristocratico.
Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, sobre a relva pallida, com grandes descanços calados no Penedo da Saudade, vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz saudosa, idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vão de pedra em pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre a agua escura da sombra dos freixos,—e que risadas quando iam encalhar nas hervagens altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos!
Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz!
Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mamã, coitadinha, toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, dormitava: Bazilio era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe cartuchos de dôce...
Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada de papel
sangue-de-boi
da rua da Magdalena. Que bons serões alli! A mamã resonava baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume da
Bibliotheca das Damas
cahido sobre o regaço. E elles, muito chegados, muito felizes no sophá! O
sophá
! Quantas recordações! Era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia veio o
final
. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas.
Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou os primeiros dias sentada no sophá querido, soluçando baixo, com a photographia d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, quando os paquetes tardavam...
Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio, recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: «Tenho pensado muito e entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice...»
Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em duas laudas cheias d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes de ter para dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, pobre anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma firma complicada.
Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada á janella, por dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desilludida, pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, ao anoitecer, cantava Soares de Passos:
Ai! adeus, acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado...
ou o final da
Traviata
, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle lhe ensinára.
Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram os sustos, as noites veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre colladas uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos,
Ao Lyrio de Bellas
:
Sobre a encosta da collina Cresce o lyrio virginal...
Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações.
Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas côres. E um dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio Bazilio lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo
panamá
, fitou-a, encolhendo os hombros:
—E o que eu me ralei por esta figura! Que tôla!
Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé d'elle como uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, sem receio de nada. Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar, hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge tinha-lhe tomado a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga penetral-a, tomar posse d'ella: disse que
sim
, ficou como idiota, e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dôcemente os seus seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descanço para a mamã!
Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. Foi necessario accender luz para lhe pôr a corôa e o véo de tulle. Todo aquelle dia lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho antigo—onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura medonha d'uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão colerica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja, Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. Sentira-se enjoada da madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde muito forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de desfazer os seus bahus!—Quando Jorge apagou a véla, com um sopro tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos.
Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pôz-se a adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se aos seus pés, era muito
dengueiro
. E sempre de bom humor, com muita graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu brio tinha severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma punhalada. Ella que não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou, e isso mesmo creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu
tudo
,—a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o seu homem!—Pôz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado com o primo Basilio. Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!
—Está alli a snr.
a
D. Leopoldina—veio dizer Juliana.
Luiza ergueu-se surprehendida.
—Hein? A snr.
a
D. Leopoldina? Para que mandou entrar?
Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle que lhe tinha dito tantas vezes «que a não queria em casa!» Mas se já estava na sala, agora, coitada!
—Está bom, diga-lhe que já vou.
Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfandega. Chamavam-lhe a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e queijo».
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina!
Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com os olhos em alvo: é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de modêlo, d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma negrura intensa, afogados n'um fluido, muito
quebrados
, com grandes pestanas.
Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se muito. E Leopoldina, sentada no sophá, enrolando devagarinho a sêda clara do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? Achava-a mais gorda.
Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente os olhos, descerrando os beiços gordinhos, d'um vermelho calido.
—A felicidade dá tudo, até boas côres!—disse, sorrindo.
O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os chapéos. E ha tanto tempo que a não via, já tinha saudades, tambem!
—Mas não imaginas! Que calor! Venho morta.
E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.
Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e n'aquella decoração sombria destacavam muito—as molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a
Medea
de Delacroix e a
Martyr
de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos volumes do Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho onde se reflectia um napolitano de
biscuit
que, na console, dançava a
tarantella
.
Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado e secco: uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos.
—E teu marido?—perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de Leopoldina.
—Como sempre. Pouco divertido—respondeu, rindo. E, com um ar serio, a testa um pouco franzida:—Sabes que acabei com o Mendonça?
Luiza fez-se ligeiramente vermelha.
—Sim?
Leopoldina deu logo detalhes.
Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensações, da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella, descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras d'amar, os
tics
, a roupa, com grandes exagerações! Aquillo era sempre muito picante, cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos: Luiza costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão curioso!
—D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica filha!—exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.
Luiza riu.
—Tu enganas-te quasi sempre!
Era verdade! Era infeliz!
—Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me sahe uma massada!
E picando o tapete com a ponta da sombrinha:
—Mas se um dia acerto!
—Vê se acertas—disse Luiza.—Já é tempo!
Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina «indecente»; mas tinha um fraco por ella: sempre admirára muito a belleza do seu corpo, que quasi lhe inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: era tão infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a agua d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificação sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco misturado de
feno
, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.
—E que fez elle, o Mendonça?
Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio:
—Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era melhor que acabasse tudo, porque não estava para se metter em camisa d'onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta.
Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma do
Price
.
Fallou então do circo.—Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição!
E de repente:
—Então teu primo Bazilio chega?
—Assim li hoje no
Diario de Noticias
. Fiquei pasmada!
—Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer um assim.
Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.—Vem vêr. Vem cá dentro.
Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com
cretones
d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre as bambinellas, em mesas redondas de pé de gallo, plantas espessas, Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e forte, em vasos de barro vermelho vidrado.
Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda:
—E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha, tu é que fazes bem!
Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no pescoço, nas faces:
—Tu é que fazes bem!—repetia—Mas vá lá uma mulher prender-se a um homem como o meu!
Sentou-se na
causeuse
com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituaes sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoista!
—Acreditarás que ha tempos para cá, se não estou em casa ás quatro horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto d'elle—nós temos dous quartos, como tu sabes—é um chiqueiro!
Luiza disse com severidade:
—Que horror! A culpa tambem é tua.
—Minha!—e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais negros.—Não me faltava mais nada senão occupar-me do quarto do homem!
Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no mundo!
—Nem ciumes tem, o bruto!
Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche:
—A senhora sempre quer que engomme os colletes todos?
—Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir deitar.
—Que mala? Quem parte?—perguntou Leopoldina.
—O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo.
—Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem!
E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que se fizera dôce.
—É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha!
—O quê? Outra paixão?—fez Luiza rindo.
A face de Leopoldina tornou-se grave.
Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo. Sentira-se tão só em casa, tão nervosa!—Vou até Luiza, vou palrar um bocado!
E com a voz mais baixa, quasi solemne:
—D'esta vez é serio, Luiza!—Deu os detalhes. Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! É poeta!—Dizia a palavra com devoção, prolongando o som das syllabas.—É poeta!
Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel dobrado. Eram versos.
E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa:
A TI
Pharol da Guia, 5 de junho.
Quando scismo á hora do poente Sobre os rochedos onde brame o mar...
Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações em que a via a ella, Leopoldina,
visão radiosa que deslisas leve
, nas aguas dormentes, nas vermelhidões do occaso, na brancura das espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando dizia-lhe, que não era «nos esplendores das salas» ou nos «bailes febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos,
Onde todos os dias ao sol posto Eu vejo adormecer o mar gigante.
—Que bonito, hein!
Ficaram caladas, com uma commoçãosinha.
Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:
—Pharol da Guia, 5 de junho!
Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, atarantada, metteu o poema no seio.
Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se á mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais estupida!
—Adeus. Até breve, não?—E agora que Jorge ia para fóra, havia de vir muito.—Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque?
Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada, ainda parou, gritou:
—Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein?
Luiza debruçou-se sobre o corrimão:
—Eu assim fiz, é o melhor...
—Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque.
—Sim. Rua do Ouro. Adeus.—E com um gritinho:—Porta á direita, Madame François.
Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala a um canto:
—Já sei que tiveste cá uma visita.
Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante do toucador já penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas.
Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandára-a entrar... Ficára mais contrariada! Era por causa da
adresse
da franceza dos chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.—Quem te disse?
—Foi a Juliana: que a snr.
a
D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.
—Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto!
Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, pôz-se a sacudir as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino coração assustado.
Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo preto: tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha.
—O calor tem-lhes feito mal—disse.
Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem suffocado:
—Ouve lá, é necessario que deixes por uma vez de receber essa creatura. É necessario acabar por uma vez!
Luiza fez-se escarlate.
—É por causa de ti! é por causa dos visinhos! é por causa da decencia!
—Mas foi a Juliana...—balbuciou Luiza.
—Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China! que estavas doente!
Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços:
—Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebraes! É a
Pão e queijo
! É uma vergonha!
Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um
gingão
desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos!
Tutti quanti!
E encolhendo os hombros, exasperado:
—Como se eu não percebesse que ella esteve aqui! Só pelo cheiro! Este horrivel cheiro de feno! Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! Corro-a!
Parou um momento, e commovido:
—Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não razão?
Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada:
—Tens—disse.
—Ah! bem!
E sahiu, furioso.
Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella bisbilhoteira! De má! Para fazer sizania!
Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a porta:
—Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar?
Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro:
—Pensei que não era segredo, minha senhora.
—Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.
a
D. Leopoldina?
—A senhora nunca me disse nada—replicou, toda offendida, cheia de verdade.
—Mente! Cale-se!
Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi encostar-se á vidraça.
O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento: pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico d'um piano, a
Oração de uma virgem
, tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riçados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar um homem—ou debruçadas, com uma attenção idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da calçada.
Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella fazer? Já não ia a casa de Leopoldina, tirára o seu retrato do album da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia d'ir empurrar pela escada abaixo!
Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a
Casta Diva
! com uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua.
Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente d'intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe-de-chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas de caça.
Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida de luto, estendendo o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio nús, quasi negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fóra da chinella bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas enfurecia-o. Assobiava frequentemente a
Maria da Fonte
; e mostrava-se nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado.
O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre, ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o instrumento.
Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, traziam ao collo as crianças adormecidas da caminhada e do calor: velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura, dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o céo tomava uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma serenidade cançada e triste.
—Luiza—disse a voz de Jorge.
Ella voltou-se, com um vago—hein?
—Vamos jantar, filha; são sete horas.
No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto á face:
—Tu zangaste-te ha bocado?
—Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão.
—Ah!—fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.—Está claro,
Quem melhor conselheiro e bom amigo Que o marido que a alma m'escolheu?
E com uma ternura grave:
—Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta, que é uma dôr d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do
feno
, do cigarro, e do resto!...
Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia!
Á sopa!
II
Aos domingos á noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma
cavaqueira
, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana côr de rosa. Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco
á estudante
. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava.
O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escóla. Muito intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era um
tumba
. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella,
começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vintens, do seu paletot coçado d'alamares; e entalado na sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes,
furar
, subir, installar-se á larga na prosperidade! «Falta de
chance
», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa da provincia, com pulso livre, ter uma casa
sua
, a
sua
creação no quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o aterrava; via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, morrendo de cachexia. Por isso não «arredava pé»; e esperava, com a tenacidade do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, um coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias melhores, não cessava de ter ditos sêccos,
tiradas
azedadas—em que a sua voz desagradavel cahia como um gume gelado.
Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um
ar nordeste
, detestava o seu tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito talento! grande homem!
Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava a sua chavena de café; e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as
toilettes
frescas de Luiza. Aquelle parente, um
mediocre
, que vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no ministerio, com alguns contos de reis em inscripções—parecia-lhe uma injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas affectava estimal-o; ia sempre ás noites, aos domingos; escondia então as suas preoccupações, cavaqueava, tinha pilherias,—mettendo a cada momento os dedos pelos seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa.
Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia e de gazes, áquella hora não se podia espartilhar e as suas fórmas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura baça e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle já engelhada em redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da bocca uns pellos de buço pareciam traços leves e circumflexos d'uma penna muito fina. Fôra a intima amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle habito de vir vêr a
pequena
aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.
Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luiza, perguntava-lhe baixo, com inquietação:
—Vem?
—O conselheiro? Vem.
Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca vinha aos
chás de D. Luiza
, como elle dizia, sem ter ido na vespera ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:
—Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua boa esposa a minha chavena de chá.
Ordinariamente acrescentava:
—E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, os meus respeitos a s. exc.
a
Os meus respeitos a esse formoso talento!
E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados.
Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquella
chamma
. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice d'ella! Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, a ia devastando como uma doença e desmoralisando como um vicio. Todos os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. Amára um official de lanceiros que morrêra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhança, e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o
Bilro
; uma criada despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o
Bilro
rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos como combustiveis antigos. Accacio tornára-se a sua
mania
: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». O conselheiro era a sua ambição e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammára-se com a idade. Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida de lhe deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a, penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas rôscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se penitencias de muitas corôas á Virgem; mas apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade tinha agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho! A indifferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella glacial e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, á parte, no vão favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto do sophá,—mas apenas ella fazia uma demonstração sentimental, elle erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella julgára perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundancia do seio; fôra mais clara, mais urgente, fallára em
paixão
, disse-lhe baixo: Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a—e de pé, grave:
—Minha senhora,
As neves que na fronte se accumulam Terminam por cahir no coração...
É inutil, minha senhora!
O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarçado; ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:
—Que regalo d'homem!
Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no braço. Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo aprumado e official, veio apertar as mãos ambas de Luiza, dizendo-lhe com uma voz sonora, de
papo
:
—Minha boa snr.
a
D. Luiza, de perfeita saude, não? O nosso Jorge tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem!
Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado n'um collarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até á calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca—e aquelle preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho á calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo.
Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que dizia—El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; não dizia
vomitar
, fazia um gesto indicativo e empregava
restituir
. Dizia sempre «o nosso Garrett, o nosso Herculano». Citava muito. Era author. E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os
Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuição
,
segundo os melhores authores
, e como sub-titulo:
Leituras do serão!
Havia apenas mezes publicára a
Relação de todos os ministros d'estado desde o
grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e obitos
.
—Já esteve no Alemtejo, conselheiro?—perguntou-lhe Luiza.
—Nunca, minha senhora—e curvou-se.—Nunca! E tenho pena! sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.
Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:
—De resto, paiz de grande riqueza suina!
—Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara em Evora—disse Julião do canto do sophá.
O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:
—Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?
—Talvez!...
Todos desapprovaram.
—Ah! Lisboa sempre é Lisboa!—suspirou D. Felicidade.
—Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande historiador!—disse solemnemente o conselheiro.
E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.
D. Felicidade disse então:
—Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o conselheiro!
O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado, replicou:
—Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma!
—O conselheiro—lembrou Jorge—nasceu na rua de S. José.
—Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!
Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia d'ovos.
—Aqui nasci—repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da India—e aqui conto morrer.
E assoou-se discretamente.
—Isso ainda vem longe, conselheiro!
Elle disse, com uma melancolia grave:
—Não me arreceio d'
ella
, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao pé da choça dos Verissimos amigos.
—E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?—perguntou Julião, do canto, ironico.
—Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa, o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome—com a minha designação de conselheiro—a data do meu nascimento e a data do meu obito.
E com um tom demorado, de reflexão:
—Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:
Orai por elle!
Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse:
—Dão licença?
—Oh Ernestinho!—exclamou Jorge.
Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura:
—Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza?
Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço, delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,—e escrevia para o theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em
calembourgs
. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra consideravel, um drama em cinco actos, a
Honra e Paixão
. Era a sua estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo de cafés e de
cognacs
, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte—porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia, obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da
Honra e Paixão
mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o
galan
, botas de verniz para o
pai-nobre
! O seu nome de familia era Ledesma.
Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer todo o final d'um acto! todo!
—E tudo isto—acrescentou muito exaltado—porque é um pelintra, um parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um abysmo!
—N'um quê?—perguntou surprehendida D. Felicidade.
O conselheiro, muito cortez, explicou:
—N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom vernaculo, um
vortice
.—Citou:
N'um espumoso vortice se arroja...
—N'um abysmo?—perguntaram.—Porquê?
O conselheiro quiz conhecer o
lance
.
Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:—Era uma mulher casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem.—É uma scena muito commovente, dizia, é de noite, ao luar!—O conde desembuça-se, atira uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, abutres!...
—Bello final!—murmurou o conselheiro.
—Emfim—acrescentou Ernesto, resumindo—aqui ha um enredo complicado: o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa.
—Como?—perguntaram.
—Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi assim que eu imaginei a cousa!
Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto.
—É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!—disse o conselheiro, passando as mãos sobre a calva.—Os meus parabens, snr. Ledesma!
—Mas que quer o empresario?—perguntou Julião, que escutára de pé, attonito—que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado pelo Gardé?
Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente:
—Não, snr. Zuzarte,—a sua voz era quasi meiga—quer o desfecho n'uma sala. De modo que eu—e fazia um gesto resignado—a gente tem de condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro. Tomei tres chavenas de café!...
O conselheiro acudiu, com a mão espalmada:
—Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por quem é, prudencia!
—A mim não me faz mal, snr. conselheiro—disse sorrindo.—Escrevi-o em tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui...
—Leia, snr. Ernesto, leia!—exclamou logo D. Felicidade.
Que lêsse! que lêsse! porque não lia?
Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado.
—Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos os FF e RR.—Fez então voz theatral:—
Agatha!...
É a mulher; isto aqui é a scena com o marido, o marido já sabe tudo...
agatha (cahindo de joelhos nos pés de Julio)
«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vêr, com esses desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!»
julio
«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste tu piedade? Não. Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que arrebatados...»
O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era Juliana, d'avental branco, com o chá.
—Que pena!—exclamou Luiza.—Depois do chá se lê. Depois do chá.
Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:
—Não vale a pena, prima Luiza!
—Ora essa! É lindo!—affirmou D. Felicidade.
Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras, os bolos do Cócó.
—Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro—dizia Luiza.—Sirva-se, Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma torrada, conselheiro?
—Estou amplamente servido, minha prezada senhora—replicou, curvando-se.
E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento.
Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? Já tem a sala...
Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, explicou:
—O que o empresario quer é que o marido lhe perdôe...
Foi um espanto:
—Ora essa! É extraordinario! Porque?
—Então!—exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,—diz que o publico que não gosta! Que não são cousas cá para o nosso paiz.
—A fallar a verdade—disse o conselheiro—a fallar a verdade, snr. Ledesma, o nosso publico não é geralmente affecto a scenas de sangue.
—Mas não ha sangue, snr. conselheiro!—protestava Ernestinho, erguendo-se sobre os bicos dos sapatos—mas não ha sangue! É com um tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro!
Luiza fez a D. Felicidade—
pst!
e, n'um áparte, com um sorriso:
—D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos!
Ella respondeu, com uma voz lamentosa:
—Ai, filha, não!
E indicou o estomago, compungidamente.
No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia: tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:
—Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado!
—Mais um bolinho, conselheiro?
—Estou repleto, minha prezada senhora.
E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto devia perdoar?
—Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho!
D. Felicidade acudiu, toda bondosa:
—Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E elle então que é um coração d'anjo!
—Está enganada, D. Felicidade—disse Jorge, de pé, diante d'ella.—Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um principio de familia. Mata-a quanto antes!
—Aqui tem um lapis, snr. Ledesma—gritou Julião, estendendo-lhe uma lapiseira.
O conselheiro, então, interveio, grave:
—Não—disse—não creio que o nosso Jorge falle serio. É muito instruido para ter idéas tão...
Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto guarda-sol erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:
—...Tão anti-civilisadoras.
—Pois está enganado, conselheiro, tenho-as—affirmou Jorge.—São as minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, encontrei minha mulher...
—Oh Jorge!—disseram, reprehensivamente.
—...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a!
Protestaram. Chamaram-lhe
tigre
,
Othello
,
Barba-Azul
. Elle ria, enchendo muito socegadamente o seu cachimbo.
Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo
abat-jour
, dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua testa branca como sobre um marfim muito polido.
—Que dizes tu a isto?—disse-lhe D. Felicidade.
Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros...
E o conselheiro logo:
—A snr.
a
D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de familia:
Impurezas do mundo não me roçam Nem a fimbria da tunica sequer.
—Ora muito boas noites—disse, á porta, uma voz grossa.
Voltaram-se.
Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão!
Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião
tronco d'arvore
,—o intimo, o camarada, o
inseparavel
de Jorge, desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas.
Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta.
Veio sentar-se ao pé de Luiza.
—Então d'onde vem? d'onde vem?
Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.
O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um sorriso bom:
—A pipa tem muita graça. Muita graça!
Sorveu um gole de chá e depois d'um momento:
—E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir por ahi fóra com elle, minha cara amiga?
Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em criados...
—Está claro, está claro—disse elle.
Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o:
—Ó Sebastião! Fazes favor?
Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico.
Entraram para o escriptorio.
Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de
Diarios do Governo
, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.
—Sabes quem esteve ahi de tarde?—disse logo Jorge, accendendo o cachimbo—Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein?
—E entrou?—perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado reposteiro de fazenda listrada.
—Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, a
Pão e queijo
!
E arremessando o phosphoro violentamente:
—Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra!
E quasi ao ouvido de Sebastião:
—Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do Mendonça dos callos!
Teve um gesto furioso, exclamou:
—E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho—procurou mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente—dou-lhe açoutes!
Sebastião disse devagar:
—E o peor é a visinhança.
—Está claro que é!—exclamou Jorge.—Toda essa gente ahi pela rua abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a
Pão e queijo
! Todo o mundo conhece a
Pão e queijo
.
—Má visinhança—disse Sebastião.
—De tremer.
Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era uma economia...
—Senão! Não parava aqui um dia!
Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda!
—É o diabo!—disse Sebastião.
—A Luiza é um anjo, coitada—dizia Jorge, passeando pela saleta—mas tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas exigencias!...
E depois d'uma pausa:
—Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:—Alto lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!... Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a Leopoldina apparece ao largo, tu logo:—Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião?
—Então havia de me esquecer, homem?
Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e clara, cantando a
Mandolinata
:
Amici, la notte é bella, La luna va spontari...
—Fica tão só, coitada!...—disse Jorge.
Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa:
—Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve ter pelo menos um!...
Sebastião coçou a barba em silencio—e a voz de Luiza, elevando-se com um certo esforço aspero, nos
altos
da melodia :
Di cà, di là, per la cità Andiami a transnottari...
Era uma tristeza secreta de Jorge—não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados, finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos já grisalhos...
Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade completadora!
Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano Luiza recomeçou a
Mandolinata
, com um
brio
jovial.
A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou:
—Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr campos, mas...
E sorriu com amargura.—
Addio! Addio!
Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse alguma cousa do Alemtejo!...
Julião carregou o chapéo na cabeça:
—Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous!
—Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!
Embrulhou-lh'a n'um
Diario de Noticias
; Julião metteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus:
—Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro!
Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss—o
Danubio Azul
.
Jorge disse, rindo, estendendo os braços:
—Uma valsa, D. Felicidade?
Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada! Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época:
A Perola d'Ophir
.
Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um dialogo mais querido—continuou, baixo para elle, com uma voz meiga:
—Pois creia, acho-o com optimas côres.
O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India.
—Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?
—Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gazes... Estou outra!
—Deus o queira, minha senhora, Deus o queira—disse o conselheiro, esfregando lentamente as mãos.
Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer:
—Espero que esse interesse seja verdadeiro...
Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito.
O conselheiro recahiu lentamente no sophá,—e com as mãos nos joelhos:
—D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...
Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de paixão e supplicas de felicidade:
—E eu, conselheiro!...
Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto.
O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se:
—É alguma canção do Tyrol, D. Luiza?
—Uma valsa de Strauss—murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao ouvido.
—Ah! Muita fama! Grande author!
Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade:
—Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é nocivo, a estação traiçoeira!
E apertou-o nos braços com uma pressão commovida.
D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.
—Já, D. Felicidade?—disse Luiza.
Ella explicou-lhe, ao ouvido:
—Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os meus sitios, hein?
—Como um fuso, minha senhora!
Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia sobre o dorso d'um leão domado.
—Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a
Honra e Paixão
cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha!
Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, com gravidade:
—Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinações scientificas!
E curvando-se profundamente:
—
Al rivedere
, como se diz em Italia.
Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar.
Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado.
Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. Outr'ora, compozera mesmo uma
Meditação
, duas
Valsas
, uma
Ballada
: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscencias, sem estylo.—Da cachimonia não me sahe nada—costumava elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo—mas lá com os dedos!...
Pôz-se a tocar um
Nocturno
de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao pé de Luiza.
—Já tens prompto o teu farnelzinho!—disse-lhe ella.
—Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com
cognac
.
—E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues!
—Pudera!
—Tu d'aqui a quinze dias, vens!
—Talvez...
Ella teve um gesto amuado.
—Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua.
E olhando em redor:
—Que só que vou ficar!
Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:
—Pst, Sebastião! A
malaguenha
, faz favor?
Sebastião começou a tocar a
malaguenha
. Aquella melodia calida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santissima cantando as horas...
—Muito bem, Sebastião! Gracias!
Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu chapéo desabado:
—Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro.
Bom Sebastião!
Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua branca, muito séria.
—Que linda noite!
A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra:
—Dá vontade de passear, hein?
—Linda!
Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse:
—Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!
Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria.
—A que horas quer a senhora que a venha acordar?—disse a voz secca de Juliana.
Luiza voltou-se:
—Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura.
Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. Era bom agouro!
Jorge prendeu-a nos braços:
—Vai ficar sem o seu maridinho, hein?—disse tristemente.
Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito.
—Jorge! Querido!—murmurou.
III
Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a
toilette
, algum romance... Mas de tarde!
Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o
seu
toque da campainha, os seus passos no corredor!...
Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles. O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites de viuvez.
Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos era
alguem
: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga sobre um nariz d'aguia.
N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, frisando e fazendo ninho.
A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no quarto um cheiro agudo de vinagre de
toilette
: os transparentes de linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite.
Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha, pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do Engenheiro.—E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho.
A porta do quarto rangeu devagarinho.
—Que é?
A voz de Juliana, plangente, disse:
—A senhora dá licença que eu vá logo ao medico?
—Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que vossê tem?
—Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro.
Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos velhos.
—Pois sim, vá—disse Luiza.—Mas arranje tudo antes. E não se demore, hein ?
Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do fogão.
—Diz que sim, snr.
a
Joanna—disse á cozinheira—que podia ir. Vou-me vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por sua!
A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal largo,—a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana, mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado.
Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.
—Ai!—suspirou Juliana.—A snr.
a
Joanna é que a leva!
A rapariga ficou escarlate.
Mas Juliana acudiu logo:
—Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem!
Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle «escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos regalos aos seus fracos de gulosa.
—Fosse eu!—repetiu—dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a morrer, e é como fosse um cão.
E com um risinho amargo:
—Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa ou espicha depressa!
Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:
—Todas o mesmo, uma récua!
Desceu, começou a varrer o corredor.—Toda a noite estivera doente: o quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão: na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára, limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o estomago embrulhado!—Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.
—A snr.
a
D. Luiza está em casa?
Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.
—A senhora vai sahir—disse ela olhando-o muito.—Faz favor de dizer quem é?
O individuo sorriu.
—Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas.
Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete dous botões de rosa de chá.
—Um negocio!—disse muito surprehendida—Deve ser algum recado para o snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é?
—Um janota!
Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de
peau de suède
claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez
ah!
toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio.
Houve um
shake-hands
demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos calados:—ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente:—Quando tinha elle chegado? Se sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella?
Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a
adresse
...
—Como tu estás mudada, Santo Deus!
—Velha?
—Bonita!
—Ora!
E elle, que tinha feito? Demorava-se?
Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma poltrona, toda nervosa.
Tinha deixado o
degredo
—disse elle.—Viera respirar um pouco á velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de Paris!—Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz.
Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava mais interessante!
—Mas tu, conta-me de ti—dizia elle com um sorriso, inclinado para ela.—És feliz, tens um pequerrucho...
—Não—exclamou Luiza rindo.—Não tenho! Quem te disse?
—Tinham-me dito. E teu marido demora-se?
—Tres, quatro semanas, creio.
Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais vezes, palrar um momento, pela manhã...
—Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora...
Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica: fallaram da mãi de Luiza, a
tia Jójó
, como lhe chamava Bazilio. Luiza contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai...
—Onde está sepultada?—perguntou Bazilio com uma voz grave; e acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:—Está no nosso jazigo?
—Está.
—Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó!
Houve um silencio.
—Mas tu ias sahir!—disse Bazilio de repente, querendo erguer-se.
—Não!—exclamou—Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia tomar ar. Não saio, já.
Elle ainda disse:
—Não te prendas...
—Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento.
Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente.
Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:
—Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu...
Ella riu-se.
—De certo que não...
Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão:
—Ah! Outros tempos!
E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?...
Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé.
—A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de rosas!—disse Bazilio; e fitando-a:—Lembras-te das nossas partidas de bilhar?
Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para elle, disse, sorrindo:
—Eramos duas crianças!
Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:
—Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!
Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos brancos—que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.
Fôra sempre o seu desejo viajar—dizia—ir ao Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras...
—Estás muito valente!—disse Bazilio.—Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada!
Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos cantos, beijos furtados...
Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito.
Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas bonitas... Tinha algumas intimidades illustres...
Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de tarde—dizia—no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, fumando tranquillamente o seu cachimbo!
Se tinha corrido perigos?
De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua
toilette
:—uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida dos Beduinos.
—Devia-te ficar bem!
—Muito bem. Tenho photographias.
Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou:
—Sabes que te trago presentes?
—Trazes?—E os seus olhos brilhavam.
O melhor era um rosario...
—Um rosario?
—Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre o tumulo de Christo, depois pelo papa...
Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo branquinho, vestido de branco, muito amavel!
—Tu d'antes não eras muito devota—disse.
—Não, não sou muito caturra n'essas cousas—respondeu rindo.
—Lembras-te da capella de nossa casa em Almada?
Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,—e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas pousadas...
—E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica?
—Não fallemos no que lá vai!
Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida...
Ella sorriu, perguntou:
—E no Brazil?
Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata.
—E porque te não casaste?...
Estava a mangar! Uma mulata!
—E de resto—acrescentou com a voz d'um arrependimento triste—já que me não casei quando devia,—encolheu os hombros melancolicamente—acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.
Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio.
—E qual é o outro presente, então, além do rosario?
—Ah! Luvas. Luvas de verão, de
peau de suède
, de oito botões. Luvas decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o punho, um horror!
De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha
chic
, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as
toilettes
d'aquelle verão! Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!—Só em Paris se come—resumiu.
Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço por uma fita de velludo preto.
—E estiveste então um anno em Paris?
Um anno divino. Tinha um
appartamento
lindissimo, que pertencera a lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos...
E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:
—Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão?
—O retrato de meu marido.
—Ah! deixa vêr!
Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos.
—Muito bem, muito bem!—fez Bazilio.
Ficaram calados.
—Que calor que está!—disse Luiza.—Abafa-se, hein!
Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda. Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas.
—É o calor do Brazil—disse elle.—Sabes que estás mais crescida?
Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido para ella:
—Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr?
—Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja...
—Eu—acudiu Bazilio—foi justamente por elle não estar...
Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem:
—Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós...
Ella interrompeu:
—Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai!
—Eu tinha vinte e sete annos—observou elle, curvando-se.
Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor.
—Estás muito bem installada aqui—disse.
Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes.
—Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro?
E indicava o retrato por cima do sophá.
—A mãi de meu marido.
—Ah! vive ainda?
—Morreu.
—É o que uma sogra póde fazer de mais amavel...
Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo.
—Já? Onde estás?
—No Hotel Central. E até quando?
—Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario?
Elle tomou-lhe a mão, curvou-se:
—Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima?
—Porque não?
Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce.
—Adeus!—disse.
E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se:
—Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai isto passar?
—Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?
Elle hesitou, sorriu:
—Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein?
No fundo da escada accendeu o charuto, devagar.
—Que bonita que ella está!—pensou.
E arremessando o phosphoro, com força:
—E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr! Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha talvez!...
Ao pé da Patriarchal fez parar um
coupé
vazio; e estendido, com o chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava:
—E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito bem tratadas! O pé muito bonito!
Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas. E as fórmas redondinhas de
Luiza
decidiram-no:
—A ella!—exclamou com appetite:—A ella, como S. Thiago aos mouros!
Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no quarto, atirou o chapéo para a
causeuse,
e foi-se logo vêr ao espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.—Havia sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais queimado, mas ia-lhe bem!
E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na
voltaire
, com um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na
voltaire
esquecida, absorvida, sem pedir luz.
—Que vida interessante a do primo Bazilio!—pensava.—O que elle tinha visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances—a Escocia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta!
Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.—A noite escurecia, outras estrellas luziam.—Mas de que servia viajar, enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo, elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente, porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu