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O Primo Bazilio

O PRIMO BAZILIO (continued 6)

Reading edition

Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza:

—A snr.

a

Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar.

Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como soffrera as suas exigencias?

Foi ao quarto d'ella:

—Então vossê levanta-se a estas horas?

—Foi o que me recommendou o medico—replicou muito insolente.

E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um vestido.

Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava tarde, para o jantar, não se desculpava!

Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a calçar as luvas pretas:

—Vossê vai sahir?

Ella respondeu, muito atrevidamente:

—É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.—E abalou, batendo os tacões.

Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da

Piorrinha

!

Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.

a

Juliana, e eu é que aguento...»

—Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão—acudia Luiza, afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e sobremesa.

Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava succumbida.—Como acabaria tudo aquillo?

Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.

Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos...

Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á modista».

D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza.

—Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra criada para fazer o serviço da casa—disse elle.

Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas rolaram-lhe pela face.

Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu n'um choro nervoso, hysterico.

—Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...

Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de

toillette

, beijou-a muito.

Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada:

—Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa...

Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas—mas ficou inquieto.

Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma irritabilidade nervosa... Que seria?

Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava morrer!... A que tinha chegado!...

D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a varrer a sala.

—Que eu o faça—exclamou—que tenho só uma criada, mas tu!...

A Juliana tinha tanto que engommar...

—Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente!

Luiza sorriu, disse:

—Ora, por uma vez na vida!

A sua tristeza augmentava cada dia.

Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava por ella! Era

ella mesma

, era Luiza, como d'antes! Estava na sua alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e pão para o quarto—para fazer uma cêasinha!

Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe

ave nocturna

. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava—até que Jorge lhe dizia:

—Passa da uma hora, filha!

Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços.

Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com repugnancia—entrando no seu dia como n'uma prisão.

Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo». Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao primeiro homem que encontrasse—que ir a

Sebastião

, ao intimo de Jorge, ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia, pensava:—Mas com que conto eu?—Não sabia. Com o acaso, com a morte de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de tenebroso onde se afundaria!

Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:

—Isto não se póde vestir, está indecente!

Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a», etc.

Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a porta e poz-se a gritar—que a senhora sujava

um rôr

de roupa, o senhor

um rôr

de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil!

—E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se quer é arranjar quem me ajude.

Luiza disse simplesmente:

—Eu a ajudarei.

Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo!

Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio dizer—que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não!

Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem uma palavra, foi buscar o ferro.

Joanna ficou attonita.

—Então a senhora vai engommar?

—Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada!

Installou-se no quarto dos

engommados

,—e estava laboriosamente passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo.

—Vossê vai sahir?—exclamou Luiza.

—É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.—E abotoava as luvas pretas.

—Mas as camisas, quem as engomma?

—Eu vou sahir—disse a outra seccamente.

—Mas, com os diabos, quem engomma as camisas?

—Engomme-as a senhora! Olha a sarna!

—Infame!—gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu impetuosamente.

Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado, a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa!

Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella, sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia—era agora menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando d'agonia, largando a alma!

Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito tempo do puxão da sua mão febril.

A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:

—É a snr.

a

D. Luiza, minha senhora, é a snr.

a

D. Luiza!

E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, correu estendendo os braços:

—És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é isto?

Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de vinagre de

toilette

; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão, com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo:

—Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...

Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de lagrimas:

—Que é? Que tens tu? Que succedeu?

—Um horror, Leopoldina!—exclamou, apertando as mãos.

A outra foi fechar a porta, rapidamente.

—Então?

Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada.

—A Juliana apanhou-me umas cartas!—disse emfim por entre soluços.—Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!—E as lagrimas redobravam.

—E as tuas joias?

—Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?

Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os braços:

—Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!...

Luiza murmurava, limpando os olhos:

—Que expiação esta, Santo Deus, que expiação!

—Que diz a carta?

—Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle.

—De teu primo?

Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente.

—E elle?

—Não sei! Está em França, nunca me respondeu.

—Pulha! Como t'as apanhou, a mulher?

Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre.

—Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é medonho!

E

Leopoldina

pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, um expediente... Murmurava:

—A questão é de dinheiro...

Luiza, prostrada no sophá, repetia:

—A questão é de dinheiro!

Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella:

—Eu sei quem te dava o dinheiro!...

—Quem?

—Um homem.

Luiza ergueu-se, espantada:

—Quem?

—O Castro.

—O d'oculos?

—O d'oculos.

Luiza fez-se muito córada:

—Oh Leopoldina!—murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente:

—Quem t'o disse?

—Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez.

—Que horror!—exclamou Luiza subitamente indignada.—E tu propões-me semelhante cousa?—O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!—Tirou o chapéo, violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e com passos rapidos pelo quarto:—Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas!

—Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse o dinheiro, desinteressadamente...

—Acreditas tu?

Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa,

fazia girar os anneis nos dedos.

—E quando fosse outra cousa?—exclamou de

repente—Era um conto de reis, eram dous, estavas

salva, estavas feliz!

Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas

fazia girar os anneis nos dedos.

—E quando fosse outra cousa?—exclamou de repente—Era um conto de reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz!

Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras—dos seus proprios pensamentos, talvez!

—É indecente! É horrivel!—dizia.

Ficaram caladas.

—Ah! fosse eu!...—disse Leopoldina.

—Que fazias?

—Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!

—Isso és tu!—exclamou Luiza, arrebatadamente.

Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz.

Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço:

—Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!...

Começaram ambas a chorar, muito nervosas.

—Tu zangaste-te!—dizia Leopoldina cortada de soluços.—Mas é p'ra teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita!

E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime:

—Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã!

Nós de dedos bateram á porta.

—Quem é?

—Eu—disse uma voz rouca.

—É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso abrir. Logo.

Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo.

—Quando voltas?—perguntou Leopoldina.

—Quando puder, senão escrevo-te.

—Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...

Luiza agarrou-lhe o braço:

—E d'isto, nem palavra.

—Douda!

Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria. E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o

Padre-Nosso

, depois a

Salve Rainha

. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem, nem se applicavam ao seu

caso

: Deus por ellas, nunca poderia saber o que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus, abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe, que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha rosada e redonda d'um menino Jesus!

Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia então; e ella, com o coração quebrado—quando o

outro

, Bazilio, lhe escrevera, rompendo—procurava dissipar a sua tristeza nas consolações da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem, ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria sido—d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia, talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de lords de

clans

convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas escutaria o som distante da

bagpipe

, que vai tristemente tocando o pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas escuras cahem de rocha em rocha!

Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores.

Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro, bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre abbadessa a historia edificante da sua santa morte...

Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste.

Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante e baixa:

—A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais afflicta...

Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava a serenata de D. Juan—e apenas ella appareceu:

—D'onde vem, tão pallida?

—Debilidade, Sebastião, venho da igreja...

Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão:

—Da igreja!—exclamou—Que horror!

XII

Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o

Diario do Governo

publicou a nomeação do conselheiro Accacio ao

grau de cavalleiro da ordem de S. Thiago

, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, ás obras publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes...

Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por um, n'uma pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e murmurou:

—Não o esperava tão cedo da real munificencia! Não o esperava tão cedo!—E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:—Direi como o philosopho: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida!

E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio, para festejarem a regia graça».

—Ás cinco e meia, meus bons amigos!

Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello occupava a parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao laço um bufalo côr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de 18 peças!

O Conselheiro recebeu-os, com o

habito

de S. Thiago sobre a lapella do

frac

preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho. Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros; quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava pouco, esfregava sempre as mãos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do reino, illustre pela sua boa letra.

D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do

Seculo

. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom official: trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera momentos antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, côr de gema d'ovo!

—Estamos todos!—disse com jubilo o Conselheiro. E curvando-se:—Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu

Sanctus Sanctorum

!

N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio, estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas do Conselheiro, pousado sobre a

Carta Constitucional

ricamente encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a

carta regia

que o nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas—que ao mesmo tempo o glorificava e o chorava.

Julião pozera-se logo a examinar a livraria.

—Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!—disse com orgulho o Conselheiro.

Mostrou-lhe a

Historia do consulado e do imperio

, as obras de Delille, o

Diccionario da conversação

, a ediçãosinha bojuda da

Encyclopedia Roret

, o

Parnaso lusitano

. Fallou dos seus trabalhos; e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava revendo do seu novo livro—

Descripção das principaes cidades do reino e seus estabelecimentos

, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e severa!

—Se não acham massada...

—Prazer, Conselheiro! prazer!

Escolheu então «como mais propria para dar idéa da importancia do trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos pausados, leu:

«—...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca em seus aposentos, está a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os pés, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa, onde outr'ora uma bem organisada

mala-posta

fazia o serviço que o progresso hoje encarregou á fumegante locomotiva, vêdel-a branquejando, coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. Lá campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade estudiosa chama

a cabra

. Para além logo uma copada arvore vos attrahe as vistas: é a celebrada

arvore dos Dorias

, que dilata seus seculares ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes recreios, os briosos moços, esperança da patria, ou requebrando galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus bem elaborados compendios...»

—Está a sôpa na mesa—veio dizer uma criada, de avental branco, muito nutrida.

—Muito bem, Conselheiro, muito bem!—disse logo o Savedra do

Seculo

, erguendo-se.—É admiravel!

Declarou para os lados com authoridade: «que o estylo era digno d'um Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em Portugal d'uma obra daquelle quilate...» E pensava baixo: «Grandissima cavalgadura!...» O que era a sua apreciação generica de todas as obras contemporaneas—exceptuando os seus artigos no

Seculo

.

—Que lhe pareceu, meu bom amigo?—perguntou baixo o Conselheiro a Julião, passando-lhe a mão sobre o hombro.—Mas uma opinião desaffrontada, meu Zuzarte!

—Snr. Conselheiro—disse Julião com uma voz profunda—tenho-lhe inveja!—E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupação crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que seria?—Tenho-lhe inveja!—repetiu—E outra cousa, Conselheiro, não se me dava de lavar as mãos.

Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julião, sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias aos lados da cama—um

Ecce Homo

! e a

Virgem das sete Dôres

. O quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e teve a consolação de verificar,—que havia sobre o travesseiro duas fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno!

Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente:

—Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio d'um humilde philosopho!

Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas de dôce; havia

creme

crestado a ferro d'engomar, um prato

d'ovos queimados

, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella.

—É um grande dia para Sebastião!—disse Jorge.

O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com um riso na face amarella:

—É cá dos meus, hein? Gosta do bello dôce! Tambem me péllo, tambem me péllo!...

Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarrão.

O Conselheiro disse:

—Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão!

—Gosta do macarrão?—acudiu o Alves.

—Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!—E acrescentou:—Paiz que sempre desejei vêr. Dizem-me que as suas ruinas são de primeira ordem. Póde ir trazendo o cozido, snr.

a

Philomena...—Mas detendo-a, com um gesto grave:—Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um pargo.

Houve uma hesitação, Jorge disse:

—O cozido talvez.

E o Conselheiro com affecto:

—O nosso Jorge opina pelo cozido.

—Tambem estou pela sua!—exclamou o Alves Coutinho, voltado para Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:—O cozidinho!

E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á conversação nobreza e interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa:

—Dizem-me que é muito liberal a constituição da Italia!

Liberal! Segundo Julião, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus!

O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para o «chefe da Igreja».

—Não—explicou—que eu seja um sectario do

Syllabus

. Não que eu queira vêr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas—e a sua voz tornou-se profunda—o respeitavel prisioneiro do Vaticano é o vigario de Christo! Meu Sebastião, sirva o arroz!

Não havia que estranhar aquellas opiniões catholicas do Conselheiro, ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes á cabeceira da cama...

A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do

Seculo

exclamou com a bocca cheia:

—Não o sabia carola, Conselheiro!

Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu:

—Eu peço ao meu Savedra que não tire d'esse facto illações erradas. Os meus principios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio...

—Para os que o precisam—interrompeu Julião.

Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu, devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio:

—Não o precisamos nós de certo, que somos as classes illustradas. Mas precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a estatistica dos crimes.

E o Savedra do

Seculo

, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia muito séria:

—Pois olhe que diz uma grandissima verdade.—Repetiu a maxima, modificando-a:—A religião é um bridão!—Fazia com o gesto o esforço de conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava.

O Conselheiro continuava, explicando:

—Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou gravuras, allusivas ao mysterio da Paixão, tem o seu lugar n'um quarto de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christãos. Não é verdade, meu Jorge?

Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma jovialidade libertina:

—Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto são uma bella nympha núa, ou uma bacchante desenfreada!

—Isso, isso!—bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe n'uma admiração sensual.—Este Savedra! Este Savedra!—E baixo para Sebastião:—Tem um talento! Tem um talento!

O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o estomago:

—Espero que não sejam esses os paineis immoraes, que se vêem no seu gabinete d'estudo.

Julião emendou:

—No meu cubiculo. Ah! não, Conselheiro! Tenho apenas duas lithographias—uma é um homem sem pelle para representar o systema arterial, o outro é o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vêr o systema nervoso.

O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e exprimiu a opinião—que na medicina, aliás uma grande sciencia! havia cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros anatomicos, os estudantes d'idéas mais avançadas levavam o seu desprezo pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros humanos, pés, coxas, narizes...

—Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!—disse Julião, enchendo o copo—é materia inerte!

—E a alma, snr. Zuzarte?...—exclamou o Conselheiro. Fez um gesto de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortez e protector:

—E que diz o nosso bondoso Sebastião?

—Estou a ouvir, snr. Conselheiro.

—Não dê ouvidos a estas doutrinas!—Com o garfo mostrava a figura biliosa de Julião.—Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o nosso Jorge (o que é de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do Estado) tambem vai um pouco para estas exagerações materialistas!

Jorge riu; affirmou que

sim

, que tinha essa honra...

—Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de mathematica, acredite que ha almas que vivem no céo, com azinhas brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos?

O Conselheiro acudiu:

—Não, instrumentos não!—E como appellando para todos:—Não creio que tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. São, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario...

Ia fulminar a doutrina ultramontana—mas a snr.

a

Philomena collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada. Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade, foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na applicação d'uma funcção grave. Então Julião, pousando os cotovêlos sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou:

—E o ministerio, cahe ou não cahe?

Sebastião ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que «a situação estava firme».

Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas semanas «estavam em terra». Nem aquelle escandalo podia continuar! Não tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais leve! Assim, por exemplo, elle...—E metteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas da cadeira—Elle tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. Porque era leal! Sempre o fôra em politica! Pois bem, não lhe tinham despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possivel fazer politica! Era uma collecção de idiotas!

Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua commissão no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu cantinho...

O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de pão.

—Eu que caiam, ou que fiquem—disse Julião—que venham estes, ou que venham aquelles... Obrigado, Conselheiro—e recebeu o seu prato de vitella—...é-me inteiramente indifferente. É tudo a mesma podridão! O paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma

choldra

: e esperava breve que, pela logica das cousas, uma revolução varresse a porcaria...

—Uma revolução!—fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo.

O Conselheiro sentára-se, e disse, então:

—Eu não quero entrar em discussões politicas, só servem para dividir as familias mais unidas, mas só lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa, os excessos da Communa...

Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquilla:

—Mas onde está o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...—E fazia o gesto d'afiar a faca.

O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella sahida sanguinaria.

O Savedra porém interpoz-se, com authoridade:

—Eu no fundo sou republicano...

—E eu—disse Jorge.

—E eu—fez o Alves Coutinho, já inquieto.—Contem-me a mim tambem!

—Mas—continuou o Savedra—sou-o em principio. Porque o principio é bello, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?—E voltava para todos os lados a sua face balofa.

—Sim, na pratica!—exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo.

—A pratica é impossivel!—declarou o Savedra. E encheu a bocca de vitella.

O Conselheiro então resumiu:

—A verdade é esta: o paiz está sinceramente abraçado á familia real... Não acha, meu bom Sebastião?—Dirigia-se a elle, como proprietario e possuidor d'inscripções.

Sebastião, interpellado, córou, declarou que não entendia nada de politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia, era triste...

—É uma infamia—disse Julião, encolhendo os hombros.

—E ha poucas escólas...—observou timidamente Sebastião.

—É uma torpeza!—insistiu Julião.

O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma côr d'enfartação, e sorria vagamente, inchado.

—E os idiotas de S. Bento?...—exclamou Julião.

Mas o Conselheiro interrompeu-o:

—Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. É mais digno de portuguezes e de subditos fieis.

E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficára a interessante D. Luiza?

Estava um pouco adoentada havia dias—disse Jorge.—Mas não era nada, mudança d'estação, um bocadito d'anemia...

O Savedra pousando o copo, e comprimentando:

—Tive o prazer de a vêr passar este verão quasi todas as manhãs por minha casa—disse.—Ia para os lados d'Arroios. Ás vezes de trem, ás vezes a pé...

Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo quanto lhe pezava não ter o prazer de a vêr partilhar d'aquelle modesto repasto; como celibatario porém... não tendo uma esposa para fazer as honras...

—E é o que eu admiro, Conselheiro—observou Julião—é que tendo uma casa tão confortavel, não se tenha casado, não se tenha dado o conchego d'uma senhora...

Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado.

—São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades d'um chefe de familia—considerou elle.

Mas emfim—disseram—é o estado mais natural. E depois, que diabo, ás vezes havia de se sentir só! E n'uma doença! Sem contar a alegria que dão os filhos!...

O Conselheiro objectou: «os annos, as neves da fronte...»

Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze annos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral.

—Porque emfim, Conselheiro, a natureza, é a natureza!—disse Julião com malicia.

—Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixões.

Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse indifferente a uns bellos olhos pretos, a umas fórmasinhas redondas!...

O Conselheiro córava. E o Savedra declarou, com um circumloquio pudico—que nenhuma idade se eximia á influencia de Venus. Toda a questão é nos gostos—disse:—aos quinze annos gosta-se d'uma matrona cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... Pois não é verdade, amigo Alves?

O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lingua.

E o Savedra continuou:

—Eu, a minha primeira paixão foi uma visinha, mulher d'um capitão de navios, mãi de seis filhos, e que não cabia por aquella porta. Pois senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um par de cousas agradaveis... Deve-se começar cedo, não é verdade?—E voltou-se para Sebastião.

Quizeram então saber as opiniões de Sebastião—que se fez escarlate.

Por fim, muito solicitado, disse com timidez:

—Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a vida...

Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra, reclinando-se, classificou uma tal opinião de «burgueza»; o casamento era um fardo; não havia nada como a variedade...

E Julião expôz dogmaticamente:

—O casamento é uma formula administrativa, que ha-de um dia acabar...—De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o homem deveria aproximar-se d'ella em certas épocas do anno (como fazem os animaes, que comprehendem estas cousas melhor que nós), fecundal-a, e afastar-se com tedio.

Aquella opinião escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a achou «d'um materialismo repugnante».

—Essas femeas para quem é tão severo, snr. Zuzarte—exclamava elle—essas femeas são nossas mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza...

—São o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas—interrompeu com fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; não havia nada como um pésinho catita! E a todas preferia a mulher hespanhola!

O Alves votava pelas francezas: citava algumas do Café Concerto, creaturas de fazer perder a cabeça!...—E injectavam-se-lhe os olhos.

O Savedra disse com um trejeito hostil:

—Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can não ha como as francezas... Mas muito chupistas!

O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas:

—Viajantes instruidos teem-me afiançado que as inglezas são notaveis mães de familia...

—Mas frias como esta madeira—disse o Savedra, batendo no mesa.—Mulheres de gêlo!—E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria

salero

! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o sentimento!

—Uma bella

gaditana

, hein, amigo Alves?

Mas em presença dos dôces que a snr.

a

Philomena dispôz sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o Cócó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S. Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os olhos:

—Porque—dizia—o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por dentro a alma.

Era: todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com solicitude, entre as confeitarias e os lupanares.

Savedra e Julião discutiam a imprensa. O redactor do

Seculo

gabava a profissão de jornalista—quando a gente, já sabe, tem alguma cousa de seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, não é verdade? Depois as entradas nos theatros, a influencia nas cantoras. Sempre se é um bocado temido...

E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da convivencia, dizia a Jorge:

—Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre amigos, todos de reconhecida illustração, discutir as questões mais importantes, e vêr travada uma conversação erudita?... Parecem excellentes os ovos.

A snr.

a

Philomena, então, com solemnidade, veio collocar-lhe ao pé uma garrafa de champagne.

O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito

chic

. E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se encheram os copos, o Savedra, que ficára de pé, disse:

—Conselheiro!

Accacio curvou-se, pallido.

—Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, á saude d'um homem, que—e arremessando o braço, deu um puxão ao punho da camisa com eloquencia—pela sua respeitabilidade, a sua posição, os seus vastos conhecimentos, é um dos vultos d'este paiz. Á sua saude, Conselheiro!

—Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro!

Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os beiços, passou a mão tremula pela calva, levantou-se commovido, e começou:

—Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circumstancia. Se o soubesse d'antemão, teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vão embargar a voz...

Fallou então de si, com modestia: reconhecia, quando via na capital tão illustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consummados estylistas, reconhecia que era um Zero!—E com a mão erguida formava no ar, pela junção do pollegar e do indicador, um 0: um

zero

! Proclamou o seu amor á patria: que ámanhã as instituições ou a familia real precisassem d'elle—e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu sangue pelo throno!—E, prolixo, citou o

Eurico

, as instituições da Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de pretencer á Sociedade Primeiro de Dezembro...—N'esse dia memoravel—exclamou—eu mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera!

E terminou dizendo:—Não esqueçamos, meus amigos, como portuguezes, de fazer votos pelo illustrado monarcha, que deu ás neves da minha fronte, antes de descerem ao tumulo, a consolação de se poderem revestir com o honroso habito de S. Thiago! Meus amigos, á familia real!—e ergueu o copo—á familia modêlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...—Procurou o fecho; havia um silencio ancioso—dirige...—Através das lunetas negras, os seus olhos cravavam-se, á busca da inspiração, na travessa d'aletria—dirige...—Coçou a calva, afflicto; mas um sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrára a phrase; e estendendo o braço:—...dirige a barca da governação publica com inveja das nações visinhas! Á familia real!

—Á familia real!—disseram com respeito.

O café foi servido na sala. As velas d'estearina punham uma luz triste n'aquella habitação fria; o Conselheiro foi dar corda á caixa de musica; e, ao som do côro nupcial da

Lucia

, offereceu em redor charutos.

—E a snr.

a

Adelaide póde trazer os licôres—disse á Philomena.

Viram então

apparecer

uma bella mulher de trinta annos, muito branca, de olhos negros, e fórmas ricas, com um vestido de merino azul, trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa de cognac e o frasco de curaçáo.

—Boa moça!—rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho.

Julião

quasi lhe tapou a bocca com a mão. E fallando-lhe

ao ouvido

, olhando o Conselheiro, recitou:

Não ouses, temerario, erguer teus olhos Para a mulher de Cesar!

E em quanto se bebia o curaçáo, Julião pé ante pé dirigiu-se ao escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,—as obras do Conselheiro, intactas!

Quando Jorge entrou, ás onze horas, Luiza já deitada lia, esperando-o.

Quiz saber do jantar do Conselheiro.

Excellente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. Tinha havido

speechs

... E de repente:

—É verdade, onde ias tu a Arroios?

Luiza passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. Disse bocejando ligeiramente:

—A Arroios?

—Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé.

—Ah!—fez Luiza, depois de tossir—ia vêr a Guedes, uma rapariga que andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes!

—Silva Guedes!...—disse Jorge reflectindo—Imaginei que estava secretario geral em Cabo-Verde!

—Não sei. Estiveram ahi um mez no verão. Moravam a Arroios. Ella estava doente, coitada: eu ia lá ás vezes. Mandava-me pedir para ir lá. Põe essa luz fóra, está-me a fazer impressão.

Queixou-se então que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca, e com uma pontinha de febre...

E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente de peso na cabeça, mal estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge não sahiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luiza insistiu que «não era nada, um bocadito de fraqueza, talvez...»

Foi tambem a opinião de Juliana, em cima na cozinha.

—Que aquella senhora é fraca; alli ha cousa do peito—disse com importancia.

Joanna que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo:

—O que ella é, é uma santa!...

Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho:

—A snr.

a

Joanna diz isso como se as outras fossem uma peste.

—Que outras?

—Eu, vossemecê, a mais gente...

Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar:

—Olhe, outra não encontra vossemessê, snr.

a

Juliana! Uma senhora que lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ella mesma o serviço! N'outra dia andava a despejar as aguas. É uma santa!

Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas conteve-se; apesar da sua

posição

na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes, os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das constituições franzinas pelos corpos possantes; pôz-se a dizer com uma voz tortuosa, ambigua:

—Ora!—são genios! Gosta d'arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes basta-lhe vêr um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É genio. Tenho visto outras assim...—E punha a cabeça de lado, franzindo os beiços.

—O que ella é, é uma santa—repetiu a Joanna.

—É genio! Está sempre n'uma labutação. Eu nunca sáio sem deixar tudo n'um brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até n'outro dia, lá em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapéo, e não consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, não ter filhos... Que ella não lhe falta nada...

Calou-se, remirou o pé, e com satisfação:

—Nem a mim—disse reclinando-se na cadeira.

A Joanna pôz-se a cantarolar. Não queria «questões». Mas ultimamente achava «tudo aquillo muito fóra dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! Não, alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultára, disse-lhe com finura, retorcendo o buço:—Ellas lá se entendem! Trata tu de gozar, e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar partido!

Mas Joanna sentia «lá por dentro» a crescer-lhe uma embirração pela snr.

a

Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; mas, quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéa de que um piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa, tambem. O Pedro tinha razão...

Juliana com effeito, agora, não se constrangia. Depois da «scena da roupa», assustára-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer perder a

posição

; durante alguns dias não sahiu, foi cuidadosa: mas quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor, ás satisfações da preguiça e ás alegriasinhas da vingança. Passeava, costurava fechada no seu quarto, e a

Piorrinha

que se arranjasse! Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando—e, mal o sentia fechar a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a «panriar». Lá estava a

Piorrinha

, para acabar!

Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razão, febres ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge.

Ella explicava tudo pelo

nervoso

.

—Que será, Sebastião?—era a pergunta incessante de Jorge. E lembrava-se com terror que a mãi de Luiza morrera d'uma doença de coração!

Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro «ia mal». A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim, uma pessoa a quem não faltava nada, com um marido que era um anjo, uma boa casa, todos os seus commodos—e a esmorecer, a esmorecer... Era a bicha! Não podia ser senão a bicha! E todos os dias lembrava a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de Famalicão, que tinha o remedio «para a bicha».

O Paula explicava d'outro modo.

—Alli anda cousa de cabeça—dizia, franzindo a testa, com o ar profundo.—Sabe o que ella tem, snr.

a

Helena? É muita dóse de novellas n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manhã até á noite de livro na mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Ahi teem o resultado: arrazada!

Um dia Luiza de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o dia seguinte, e «sentia cólicas».

Durante todo o caminho não deixou de fallar excitadamente da sua these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem injustos,—arrependido agora de não ter «mettido mais cunhas»!

Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge:

—Não tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos temos. Que passeie, que se distráia. Distracções e ferro, muito ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha!

Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge.

Luiza tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge preoccupar-se do seu estado, quiz affectar força, alegria, bom humor; e aquelle esforço abatia-a, extraordinariamente.

—Vamos para o campo, queres tu?—dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a esmorecida.

Ella, receando complicações possiveis, não aceitava; não se sentia bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois as despezas, os incommodos...

Uma manhã, que Jorge voltára a casa inesperadamente, encontrou-a em

robe-de-chambre

, com um lenço amarrado na cabeça, varrendo, lugubremente.

Ficou á porta attonito:

—Que andas tu a fazer? andas a varrer?

Ella córou muito, atirou logo a vassoura, veio abraçal-o.

—Não tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava aborrecida, além d'isso faz-me bem, é um exercicio.

Jorge, á noite, contou a Sebastião aquella «tolice, de se andar a esfalfar...»

—Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...—observou reprehensivamente Sebastião.

Mas não! dizia ella, achava-se bem melhor! Até agora andava muito melhor...

Todavia, quasi não fallou n'essa noite, curvada sobre o seu

crochet

, um pouco pallida: e os seus olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado.

Pediu a Sebastião que tocasse algum cousa do

Requiem

de Mozart. Achava tão lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella morresse...

Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas!

—Mas então, não é possivel que eu morra?...

—Pois bem, morre e deixa-nos em paz!—exclamou elle furioso.

—Que bom marido!—dizia ella sorrindo a Sebastião.—Deixou cahir o

crochet

no regaço, pediu-lhe então os

Dezeseis compassos da Africana

. Escutava, com a cabeça apoiada á mão: aquelles sons entravam-lhe na alma com a doçura de vozes mysticas que a chamavam; parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar triste, sob um frio luar—e alli, puro espirito, livre das miserias carnaes, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, passava sobre as urzes nos sopros salgados...

A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge:

—Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul, o Pirolito, o diabo? Senão, se querem melancolia, eu começo com o canto-chão!

E cantou, com um tom funebre:

Dies iræ, dies illa Solvunt sæcula in favilla!...

Luiza riu-se:

—Que doudo! Nem póde a gente estar triste...

—Póde!—exclamou Jorge.—Mas então venha a bella tristeza, venha a tristeza completa.—E com uma voz medonha entoou o

Bemdito

!

—Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge—acudiu ella.

—É justamente o que nós estamos!—E entrou no escriptorio, atirando com a porta.

Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo:

—Então que idéas são essas? Que melancolia é essa?

Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o seu

crochet

.

No domingo seguinte, á noite, conversava-se na sala. Julião contára o seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem, com precisão, com lucidez.

O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado um bocado mais...»

—Litteratos!—fazia Julião, encolhendo os hombros, com desprezo.—Não podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as «flôres da primavera» e «o facho da civilisação»!

—O portuguez tem a mania da rhetorica...—disse Jorge.

N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta.

—Oh! é do Conselheiro!

Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de «não poder vir, como promettera na vespera, partilhar do excellente chá de D. Luiza. Um trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia lembranças aos nossos Sebastião e Julião, e affectuosos respeitos á interessante D. Felicidade».

Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado com um dedo a

Perola d'Ophir

; e emfim, não se dominando, pediu baixo a Luiza «que fossem para o quarto, tinha um segredo...»

Apenas entraram, fechando a porta da sala:

—Que me dizes á carta d'elle?

—Os meus parabens—disse Luiza, rindo.

—É o milagre!—exclamou D. Felicidade—já é o milagre a fazer-se!—E mais baixo:—Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego!

Luiza não comprehendia.

—O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe as agulhas no coração...

—Que agulhas?—perguntou Luiza attonita.

Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz mysteriosa:

—A mulher faz um coração de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro, e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o preparo que ella tem, e faz as orações...

—E déste o dinheiro ao homem?

—Oito moedas.

—Oh D. Felicidade!

—Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias, baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada sonho! Até ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro vezes!

E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello.

—Não me achas mais magra?

—Não.

—Ai estou, filha, estou!—E mostrou o corpete lasso.

Já fazia planos. Iria passar a

lua de mel

a Cintra... Os olhos afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico.

—Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de dia e de noite...

Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha:

—Minha senhora! Minha senhora, acuda!

Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava estendida no soalho da cozinha, desmaiada!

—Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!—exclamava Joanna, muito branca, a tremer.—Tombou p'ra o lado de repente...

Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples. Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente com uma flanella quente as extremidades,—e, mesmo antes que Joanna atarantada, em cabello, corresse á botica por um antispasmodico, Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram á sala, Julião disse, enrolando o cigarro:

—Não vale nada. São muito frequentes, estas syncopes, nas doenças de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre desagradavel.—E accendendo o cigarro:—Esta mulher um dia morre-lhes em casa.

Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos.

—Sempre o tenho dito—acudiu D. Felicidade, baixando a voz, assustada.—Sempre o tenho dito. É desfazerem-se d'ella.

—Além d'isso o tratamento é incompativel com o serviço—disse Julião.—Emfim, mesmo a engommar roupa se póde tomar digitalis ou quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manhã de canceira, e póde ir-se!

—E vai adiantada a doença?—perguntou Jorge.

—Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, oppressões, uma dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades—o diabo!

—Olha que espiga!—murmurou Jorge, olhando em roda.

—É pôl-a na rua!—resumiu D. Felicidade.

Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza:

—Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos da creatura. Não quero que me morra em casa!

Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, começou a dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé n'um terreno traiçoeiro.—Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que ella fosse viver algures...

Jorge, depois d'um silencio, respondeu:

—Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se arranje!

Dez ou doze libras!—pensou Luiza com um sorriso infeliz.—E á beira do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas...

Porque, emfim, a

crise

tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir a creatura, ella não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, dizer a Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza não a defendia, não a reclamava,—vingar-se-hia! Que havia de fazer?

Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada, ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na

voltaire

, á janella da sala de jantar, lia machinalmente o

Diario de Noticias

, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da pagina, lhe deu um sobresalto: «Parte além d'ámanhã para França o nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & C.

a

S. exc.

a

retira-se dos negocios da praça, e vai estabelecer-se definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente uma valiosa propriedade.»

O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a Portugal, o Castro!... E de repente uma idéa atravessou-a, que a fez vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.—Se na vespera da partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era horrivel! Nem pensar em tal!...

Mas pensou—e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para longe!

E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria de córar diante d'elle; o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o tumulo!—E, além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem possivel que lhe emprestasse, sem condições!...

Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupão as notas, o ouro... Porque não?—Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios...

Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas palavras intencionaes!... Que horror!—Mas já subtilisava. Era por Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de

saber

! Era para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas...

Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge enternecia-a; o

outro

parecia-lhe medonho, odiava-o já!...

Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe adoravel, a rua attrahia-a.—Porque não? Porque não?

A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente.

Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.—E chegou toda esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque.

Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando immediamente o chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina a sua resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado, queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingança d'ella... Queria dinheiro, alli estava!

—Mas assim de repente, filha!—disse Leopoldina, pasmada do seu olhar decidido.

—O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, para o inferno! É necessario fazer alguma

cousa

, já!

Leopoldina lembrou escrever-lhe.

—O que quizeres... Eu aqui estou!

A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrevinhar.

Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa, que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella, dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida, que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração contente!

—Vê lá—disse Leopoldina, lendo:

«Meu caro amigo.

«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio grave. Venha logo que possa. Talvez me agradeça. Espero-o até ás tres horas, o mais tardar.

«Com toda a estima

Sua amiga

Leopoldina».

—Que te parece?

—Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o

talvez me agradeça

. É melhor.

Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem.

—E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas.

A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia nodoas do café da vespera.

—D'uma cousa pódes tu ter a certeza—dizia Leopoldina, bebendo grandes goles de chá—é que o Castro é um homem p'ra um segredo!... Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca não sahe uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira annos! e nem ao Mendonça, que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem uma allusão! É um poço.

—Que Videira?—perguntou Luiza.

—Uma alta, de nariz grande, que tem um

landau

.

—Mas passa por uma mulher tão séria...

—Já tu vês!—E com um risinho:—Ai ellas passam, passam. Lá passar, passam. A questão é conhecer-lhes os pôdres, minha fidalga!

E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôz-se a fallar complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o

sudario

: citava nomes, especialidades, as que depois de terem «feito o diabo», gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que é por onde ellas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cançadas de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu «fracasso» n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes chamar

mamã

! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito supplementar!—Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera só a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relações, convites para

soirées

, a estima da côrte,—ella perdera tudo, era apenas a Quebraes!...

Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel quasi o julgava já justificado.

Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se amollecem, se enlanguecem,—como os musculos n'uma estufa fortemente saturada de exhalações mornas.

—Este mundo é uma historia—disse Leopoldina erguendo-se e espreguiçando-se.

—E teu marido onde está?—perguntou Luiza no corredor.

Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes!

E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho

laferme

na bocca, começou tambem a queixar-se.

Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante; queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos os poros do seu corpo...

—E o Fernando, então?—disse distrahidamente Luiza, que a cada momento se aproximava da janella.

—Um idiota!—respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de saciedade e de desprezo.

Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não sabia bem de quê! Ás vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um tedio molle). Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! tão corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar—ser mulher d'um salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando, o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo. Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!

E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada:

—Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos!

Ficaram um momento caladas.

—Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?—perguntou de repente Luiza.

Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa:

—Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis... Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga.

—Como?

Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto:

—Em affecto.

—Oh! és horrivel!—exclamou Luiza, exasperada.—Vês-me aqui desgraçada, meia douda, dizes que és minha amiga, e estás a rir, a escarnecer...—A sua voz tremia, quasi chorava.

—Mas tambem que pergunta tão tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu não sabes?

Olharam-se um momento.

—Não, eu vou-me embora, Leopoldina!—exclamou Luiza.

—Não sejas criança!

Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não encontrára o snr. Castro em casa, estava no escriptorio. Fôra lá, disse que vinha immediatamente.

Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão.

—Não—disse Leopoldina, quasi escandalisada—tu agora não me deixas aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer?

—É horrivel!—murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, muito infeliz!

—É como quem toma oleo de ricino—disse a outra com um gesto cynico. E acrescentou, vendo o horror de Luiza:—Que diabo! onde é que está a deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede...

N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou.

—Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!—supplicou Luiza, erguendo as mãos para ella.

A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como procurando uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder! Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar

as palavras

na alma, uma a uma:

—Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas na algibeira, feliz, livre!

Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pós d'arroz, alisou o cabello,—e entraram na sala.

Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os cabellos muito finos alourados já rareavam.

Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi pansudo, o medalhão do relogio pousava com opulencia. Trazia na mão um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto.

Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a vista em cima,—começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a Luiza «sua intima, sua amiga de collegio»:

—Que tem feito, porque não tem apparecido?

O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida...

—Sempre é verdade? Deixa-nos?

O Castro curvou-se:

—Além d'amanhã. No

Orenoque

.

—Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora?

—

Per omnia sæcula sæculorum.

Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia divertir tanto!—Pois não é verdade?—disse voltando-se para Luiza, para a tirar do seu silencio embaraçado.

—Com certeza—murmurou ella.

Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, incommodavam-na.

Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido:

—Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias!

Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo.

Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas—o que era é que tinham muito

chic

, muita animação...

O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! conhecia-as bem! Emfim, lá como mães de familia não dizia. Mas para uma cêa, para um bocado de

can-can

não havia outras...—Affirmava-o com convicção, pois, como os burguezes «da sua roda», avaliava doze milhões de francezas por seis prostitutas de Café Concerto,—que tinha pago caro e enfastiado immenso!

Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe

estroina

!

Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode:

—Calumnias, calumnias...—murmurava.

E Leopoldina voltando-se para Luiza:

—Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!...

—Uma choupana, uma choupana...

—E naturalmente vai dar festas magnificas!...

—Modestos chás, modestos chás...—dizia, repoltreando-se.

E riam ambos d'um modo muito affectado.

O Castro curvou-se então para Luiza:

—Tive o gosto de vêr v. exc.

a

ha tempos, na rua do Ouro...

—Creio que tambem me lembro—respondeu ella.

E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais á beira do sophá, e depois de sorrir:

—Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe.

Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com atrevimento, palpava-a.

—Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.—E teve outro risinho.—Aqui a minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um conto de reis.

Luiza acudiu com a voz quasi sumida:

—Seiscentos mil reis...

—Isso não importa—disse Leopoldina com uma indifferença opulenta—estamos a fallar com um millionario! A questão é esta: quer o meu amigo fazer o favor?

O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, ambigua:

—Certamente, certamente...

Leopoldina ergueu-se logo:

—Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar do negocio.

E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo, a voz muito alegre:

—Que o juro seja pequeno, hein?

E sahiu, rindo.

O Castro disse logo a Luiza, curvando-se:

—Pois minha senhora, eu...

—A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflicção de dinheiro. E dirijo-me a si... São seiscentos mil reis... Procurarei pagar, o mais depressa...

—Oh minha senhora!—fez o Castro com um gesto generoso. Começou então a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo... Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!...

Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na jardineira, veio sentar-se no sophá junto d'ella. Vendo o seu ar embaraçado, pediu-lhe que não se affligisse. Valia lá a pena por questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, eram indiscretos...—E fallando tinha-lhe tomado a mão; o contacto d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára a mão; e Castro abrazado—com uma verbosidade um pouco rouca, promettia

tudo

,

tudo o que ella

quizesse

!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o pescoço muito branco.

—Seiscentos mil reis..., o que quizer!...

—E quando?—disse Luiza muito perturbada.

Elle via-lhe o seio arfar—e sob a irrupção d'um desejo brutal:

—Já!

Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a face.

Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço.

Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe sofregamente os vestidos:

—Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixão por si. Escute!—Os seus braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que sentia das suas fórmas inflammava-o.

Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se.

—O que quizer! Mas ouça!—balbuciava elle puxando-a violentamente para si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respiração de touro.

Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando afflicta:

—Deixe-me! Deixe-me!

O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços abertos, rompeu para ella.

Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte chicotada na mão.

A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no.

—Seu diabo!—rosnou, rangendo os dentes.

Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o braço, revolvida por uma cólera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos braços, pelos hombros—muito pallida, muito séria, com uma crueldade a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar aquella carne gorda.

O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com estilhaços de louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira.

—Ahi está! Vê?—disse Luiza toda a tremer, apertando ainda convulsivamente o chicote.

Leopoldina ao barulho correu, do quarto.

—Que foi? Que foi?

—Nada, estavamos a brincar—disse Luiza.

Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala.

O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando terrivelmente Leopoldina:

—Agradecido! Conte commigo quando quizer!

—Mas que foi? Que foi?

—Até á vista!—rugiu o Castro.—E indo apanhar o chicote, sacudindo-o ameaçadoramente para o quarto, onde Luiza entrára:

—Grande bebeda!—murmurou com rancor.

E sahiu, atirando com as portas.

Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pôr o chapéo, com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita.

—Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas—disse ella.

Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada.

—Bateste-lhe?...—E de repente desatou a rir, convulsivamente.—O Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar uma coça!—Atirou-se para cima da

chaise-longue

, rolou-se; suffocava.—Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!...

—O peor foi o candieiro—disse Luiza.

Leopoldina ergueu-se, de salto.

—E o azeite! Ai que agouro!—Correu á sala. Luiza veio encontral-a diante da nodoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda pallida, catastrophes avisinharem-se.—Que agouro, Santo Deus!

—Deita-lhe sal depressa.

—Faz bem?

—Quebra o agouro.

Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa:

—Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este, que caso este! E agora, filha?

Luiza encolheu os hombros.

—Eu sei cá! Soffrer!...

XIII

N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, surprehendeu Juliana commodamente deitada na

chaise-longue

, lendo tranquillamente o jornal.

Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou:

—Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte...

—Que se pôz a lêr o jornal, hein?...—disse Jorge, apertando instinctivamente o castão da bengala.—Onde está a senhora?

—Deve estar p'ra a sala de jantar—disse Juliana, que se pôz logo a varrer, muito apressada.

Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito applicada e muito desconsolada.

—Tu estás a engommar?—exclamou.

Luiza córou um pouco, pousou o ferro.—A Juliana estava adoentada, juntára-se uma carga de roupa...

—Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?

A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou:

—Que queres tu dizer?

—Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal.

Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula...

—Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer—ia dizendo.—É a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem estado doente...

—Pois se está doente que vá p'ra o hospital!

—Não, tambem não tens razão!

Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na sua

chaise-longue

, exasperou-o:

—Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella!

—Ah! se estás com esse genio!—fez Luiza com os beiços tremulos, uma lagrima já nas palpebras.

Mas Jorge continuava, muito zangado:

—Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que vá p'ra o inferno!

Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando.

—Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras?

Ella não respondia, n'um grande pranto.

—Porque choras, filha?—perguntou elle, com uma impaciencia commovida, chegando-se a ella.

—Para que me fallas tu assim?—dizia, toda soluçante, limpando os olhos.—Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O que me sabes dizer são cousas desagradaveis.

—Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada desagradavel!—E abraçou-a, ternamente.

Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços:

—Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!...

—Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é que te cances!

—P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?—E as lagrimas recomeçavam.—Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que desproposito!

—Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não chores... Vá, acabou-se!—Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a dôcemente:—Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és!

Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava.

Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe

a illustre D. Juliana, a minha ama e senhora

! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» Tinha gracejos que gelavam Luiza.

—A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom?

Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:—«Anda, atira-lhe um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!» E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se

independente

, começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um rancor postiço.

Juliana, muito fina, tinha percebido

tudo

, e supportava, calada.

Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror—se fosse expulsa d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital!

Tinha por isso medo de Jorge.

—Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de mim—dizia ella á tia Victoria—mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao boi manso!

E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia, vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo vendo Luiza a passar um espanejador pelos

consoles

da sala, zangou-se:

—A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso! Ainda não estou na cova!

Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite.

—Com o meu corpo o pago—dizia ella a Joanna—que trabalho como uma negra! Arrazo-me!

Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente:

—Não estou para aturar estes desleixos! Irra!—gritou.

Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana.

Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco tremula:

—Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou buscar agua!

Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella ironia constante...

Jorge não respondeu.

E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco!

—Que tens tu?—perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta.

—Espertina.

—Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!—E voltou-se, enrolando-se commodamente na roupa.

Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de vestido foi á sala de jantar—eram dez horas—e

voltou a dizer

a Luiza, com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:—que não estava a mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar! e que a snr.

a

D. Juliana, a illustre snr.

a

D. Juliana, tinha sahido, a seu passeio!

—Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...—começou Luiza, que vestia o seu roupão.

—Ah, perdão!—interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.—Esquecia-me outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão!

Luiza acudiu logo:

—Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro...

Subiu logo á cozinha, desesperada:

—Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu?

Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.

a

Juliana! Imaginára que estava p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!...

Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a.

—Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje...

—Vou—disse seccamente. E acrescentou:—Graças a Deus!

—Estás de bom humor!...—murmurou ella.

—Como vês!

Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, de certo!

Jorge, que se ia erguer, disse logo:

—Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...

E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito.

Luiza, a tremer, levantou-se tambem:

—Eu vou-lhe fallar...

Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente:

—Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...

Luiza recahiu na cadeira, muito pallida.

Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente o seu palito.

Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta:

—Não lhe digas nada!...

Elle fixou-a, assombrado:

—Porque?

Juliana n'este momento abriu o reposteiro.

—Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por arrumar?—disse-lhe Luiza logo, erguendo-se.

Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições.

—Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação é estar em casa pela manhã...—Mas o olhar de Juliana, que se cravava n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos tremulas.—Deite agua n'este bule, vá.

Juliana não se mexeu.

—Vossê não ouviu?—berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á mesa, que fez saltar a louça.

—Jorge!—gritou Luiza, agarrando-lhe no braço.

Mas Juliana fugira da sala, correndo.

—E logo, na rua!—exclamou Jorge.—Faze-lhe as contas, e que se vá. Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que emfim! Chegou-me a minha vez!

Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala:

—E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias que a trago aqui atravessada. P'ra a rua!

Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas, redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo:

Meu adorado Bazilio!

Então uma cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente—convencel-o-hia!

Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada, com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:

—Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai aqui tudo raso n'esta casa!

—Cale-se, sua infame!—gritou Luiza.

—Vossê manda-me calar, sua p...!—E Juliana disse a palavra.

Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cahir, com um gemido, sobre os joelhos.

—Mulher!—bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a pelos braços.

Juliana, assombrada, fugiu.

—Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!—exclamava Luiza com as mãos apertadas na cabeça.

—Racho-a!—dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brazas—racho-a!

Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como a cal, repetindo, toda a tremer:

—O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer!

A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de vermelho, remexia furiosamente as panellas.

—E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a!

Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á banda, as dedadas escarlates na face, medonha.

—Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua—gritou ella—ou eu vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...

—Pois mostre, faça o que quizer!—disse Luiza, passando, sem a olhar.

Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!...

Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a morte uma purificação maior...—E onde estava elle, o homem que a desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, n'aquelle

coupé

:—Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra um lindo collo—então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, soffreu—ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande prazer—perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil reis—então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a vida! Ainda bem que a deixava!

Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque. Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina,—e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que trazia o seu sacco ao hombro.

Ia-se embora!—pensou Luiza.—Mandava pôr fóra os bahus! E depois? Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! Santo Deus!—E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com as cartas na mão!...

Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um convento! Não, c'os diabos!

Foi direita ao quarto de Juliana.

—Vem vêr se lhe levo alguma cousa?—gritou logo a outra furiosa.

Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas embrulhadas em jornaes velhos.

—E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as minhas contas!...

—Escute, Juliana, não se vá.—Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas saltaram-lhe dos olhos.

Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de duraque em cada mão.

—É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!—E com uma voz aguda, batendo as solas das botinas:—Fica tudo como d'antes, na paz do Senhor!

Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a chorar! expulsava a

outra

! e não perdia os seus commodos!

—É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua!

Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e limpando os olhos:

—Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa...

A rapariga ficou a olhar para ella, espantada.

—O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...

—Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora?

Luiza insistiu, baixo, envergonhada:

—Foi um repente, tem estado a pedir perdão...

—Eu foi para defender a senhora!—exclamou a rapariga, abrindo os braços, afflicta.

Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar:

—Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... Vou-lhe fazer as contas.

—Olha que pago este!—gritou Joanna, então, desesperada. E com uma resolução, batendo o pé:—Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não tem razão!...

Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as fontes nas mãos abertas:

—Que expiação! Que expiação, Santo Deus!

De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e fallando-lhe junto do rosto:

—Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se vossê!—E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de joelhos, diante da cozinheira, soluçando:—Pelas cinco chagas de Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo amor de Deus!

A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente.

—Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora!

—Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não chore... Espere...

Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão, dizendo-lhe baixo:

—Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu.

—Sim, minha senhora—soluçava a rapariga, babada de dôr—sim, minha rica senhora!

Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua

chaise-longue

, n'um choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, piedade a Deus!

Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta:

—Então em que ficamos?

—A Joanna vai-se. Que quer mais?

—Que sáia já!—disse a outra imperiosamente.—Que o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê!

As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva.

—E a senhora agora ouça!

O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida.

E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido:

—E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!...

E voltou as costas, batendo os tacões.

Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretenciosamente.

Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quasi a correr.

O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de Sebastião, e veio dizer á estanqueira:

—Em casa do Engenheiro ha novidade!

E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas immoveis.

—O snr. Sebastião?—perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta.

E ia entrando pelo corredor.

—Na sala—disse a pequena.

Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz angustiosa e sumida:

—Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou perdida!

Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar:

—Que é? Que é?

—Escrevi a meu primo—repetiu, com os olhos cravados n'elle, anciosamente—a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!

Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe.

Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido.

De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico.

O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos pés debruçar-se junto d'ella:

—Então! então!—murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço, tremiam como folhas.

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