O PRIMO BAZILIO (continued 7)
Reading edition
Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços.
—Desculpe, Sebastião, desculpe—dizia.—Bebeu então um gole d'agua, ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas silenciosas cahiam sem cessar.
Sebastião foi fechar a porta—e vindo ao pé d'ella, com muita doçura:
—Mas então? Que foi?
Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda humilhada:
—Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!—murmurou.
—Não se afflija! Não se afflija!
Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade:
—Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem!
—Oh Sebastião!...—exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; e acrescentou:—Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho soffrido, Sebastião!
Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta.
—Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo.
E chorava, com as mãos sobre o rosto.
Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:
—Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais tempo?
—Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não pude, não pude!
—Fez mal!...
—Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...—E desviou os olhos, muito escarlate.—Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão
apaixonada
por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me...
—Santo Deus!—murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa.
—Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!...
—Mas merece a morte, essa infame!—exclamou batendo com o pé no chão.
Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo:
—É necessario tirar-lhe as cartas...
—Mas como?
Sebastião coçava a barba, a testa.
—Ha-de-se arranjar—disse, por fim.
Ella agarrou-lhe a mão:
—Oh Sebastião, se fizesse isso!
—Ha-de-se arranjar.
Esteve um momento calculando—e com o seu tom grave:
—Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em casa... Podiam ir ao theatro, esta noite.
Levantou-se lentamente, foi buscar o
Jornal do Commercio
, sobre a mesa, olhou os annuncios:
—Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o
Fausto
... Podiam ir vêr o
Fausto
...
—Podiamos ir vêr o
Fausto
—repetiu Luiza, suspirando.
E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa.
Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao
Hotel Gibraltar
... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas, então, Juliana estaria só.
—Vê como tudo se arranja?—disse elle, sorrindo.
Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?
Sebastião tornou a coçar a barba, a testa:
—Ha-de dar—disse.
Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta, uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na voz:
—E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher...
Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros:
—Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha!
E acrescentou logo:
—Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao pé do palco...
Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.
No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! era a flôr do bairro!
—Está bom, tia Joanna, está bom—disse Sebastião, afastando-a brandamente.
Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!
Luiza corava, embaraçada.
E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade?
—Está bom, basta, tia Joanna!—fez Sebastião impaciente.
—Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!...
Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel.
Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna—mais prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um
P. S.
, no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres grande
toilette
. Nada de decotes nem de côres claras.»
Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:
—Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda!
—Bufa! bufa!—gritou de cima Juliana—mas vai-te indo para o olho da rua!
Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!
—Se eu t'apanho!—rosnava a Joanna descendo.
—Rua! rua, sua porca!—gania a Juliana.
Luiza então chamou a rapariga:
—Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã—disse-lhe baixo.
Juliana em cima cantava a
Carta adorada
, com um jubilo estridente.
E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o jantar na mesa».
Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto;—e alli
jantou
, a um canto da jardineira.
Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...
—E isto...
Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.
—Oh Sebastião!—murmurou ella, com um reconhecimento commovido.
—E carruagem, tem?
—Não
—Eu cá mando. Ás oito, hein?
E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.—Que homem! pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados.
Nós de dedos bateram á porta do quarto:
—Então a senhora não quer jantar?—disse a voz impaciente de Juliana, de fóra.
—Não.
—Mais fica!
D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas.
—Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?—disse logo, muito alegre, a excellente senhora.
Um capricho!—O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo
Hotel Gibraltar
.
—Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra não vir—disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido.—Apertar-me depois de jantar! Felizmente, não tinha comido quasi nada!
Quiz então saber o que ia. O
Fausto
? Ainda bem! De que lado era a frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois estava mais longe
d'aquella
noitada de theatro!...—E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia.
Uma carruagem parou á porta.
—O trem!—disse, toda risonha.
Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço?
—Ai! o meu ramo!—exclamou Luiza.
Juliana ficou espantada quando a viu vestida
p'ra theatro
. Foi alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente:
—Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!—rosnou.
O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:
—Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! Pare, cocheiro!
—Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!—fez Luiza impaciente.
Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar!
Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do
Gibraltar
, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, á portinhola.
Perguntaram por Jorge.
E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, vestida de
soirée
, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos.
—Estão a arder por saber quem somos.
Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,—e pondo o chapéo mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.
Jorge correu á portinhola do trem, rindo:
—Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o divorcio!
Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... Ficaria atraz no camarote.—E para as não amarrotar subiu para a almofada.
XV
Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato, que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda arrastar sobre o tapete esfiado do corredor das frisas.
O pano já estava levantado. Era á luz diminuida da rampa, a decoração classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupão monastico, com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o coração a mão onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente. Entrava-se.
Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com gestosinhos de recusa, olhares supplicantes:
—Oh D. Felicidade, por quem é!
—Se estou aqui muito bem...
—Não consinto...
Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza ficára atraz calçando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos, furioso com o chapéo que já duas vezes rolára.
—Tem banquinho, D. Felicidade?
—Obrigada, cá o sinto.—E remexeu os pés.—Que pena não se vêr a familia real!
Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados medonhos, enchumaçados de postiços; peitilhos de camisas branquejavam. Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo, compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da platéa havia um rumor desinquieto entre moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna, viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bonés carregados de policias; e reluzindo á luz, punhos de sabres.
Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a perna com um ar charlatão, as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente,
un bel cavalier
; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarrão.
Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeças na platéa voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na; ella, embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:—por traz de véos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectação de visão, Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz electrica, envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de gesso muito caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda que a comparou a uma santa!
A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria, Fausto, que ficára immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo o frisado do cabello. As luzes da rampa subiram: uma instrumentação alegre e expansiva resoou: Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego através da decoração. E o pano desceu rapidamente.
As platéas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um pouco affrontada abanava-se. Examinaram então as familias, algumas
toilettes
; e sorrindo concordaram que estava «do mais fino».
Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes uma joia brilhava, ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos.
Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam com languidez; ou de pé, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos
dilettanti
, de lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D. Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na superior immobilisavam, n'uma affectação casta, os seus corpos de lupanar.
Um collega de Jorge magrinho e janota entrou então no camarote: parecia animado, e perguntou logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas calçadas n'umas luvas esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha fugido!...
—P'ra o estrangeiro?
—Qual!—E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.—Ahi é que estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era divino! De resto—e a sua voz tornou-se grave—estava enthusiasmado com o baixo!
E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com um
Sim, senhor!
familiar, ou um
Então que é feito?
amigavel.
Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo, n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma pipa, o barrigudo e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas côres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo, aos compassos largos da instrumentação festiva.
A walsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os pésinhos das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de vagos discos de cambraia.
—Que bonito!—murmurava ella, com uma felicidade no rosto.
—D'appetite—affirmava D. Felicidade, revirando os olhos.
Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa, Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma noite esquecida.
Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos aduncos e rapaces, cantou o
Dio del oro
. A sua voz arremessada affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro!
Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do conselheiro Accacio,—que comprimentava, promettendo generosamente, com a mão espalmada, a sua visita proxima.
Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;—ainda que não gostasse extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E, tomando da mão de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os litteratos.—Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos!
D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que não podessem vêr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel.
Sim? Como estava?
—De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e viria dizer...
Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza começando logo a explicar—que aquella (Siebel, colhendo flôres no jardim de Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por mez...
—Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi sempre na miseria—disse com reprovação.—Vicios, cêas, orgias, cavalgadas...
A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com as duas longas tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a dôce creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mãi voltasse!
Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia, com a saudosa ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensação d'um pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe, no Norte, junto a um mar gemente—ou de tristezas aristocraticas, scismadas n'um terraço, sob a sombra d'um parque...
Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo:
—Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital.
De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se, garganteando; apertava nas mãos o collar, extasiada; punha os brincos com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto trinado, d'uma crystallinidade aguda—entre o vago
susurro
da admiração burgueza.
O Conselheiro disse discretamente:
—Bravo! Bravo!
E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se via a força das cantoras...
D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam d'ella?
—É p'ra a tentar, não é verdade?
—É um drama allemão—disse-lhe baixo o Conselheiro.
Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,—e o Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco.
D. Felicidade murmurou-lhe—entre reprehensiva e extatica:
—Quantas scenas não terá tido assim, maganão!
O Conselheiro fitou-a, indignado:
—O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia!
Luiza fez-lhe
chut
, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos, o canto subia para as estrellas...
Al pallido chiarore Dei astri d'oro.
Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluços do adulterio, e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano aquella aria—
Al pallido chiarore dei astri d'oro
. D'essa noite tinha vindo toda a sua miseria!—e subitamente, como longos véos funebres que descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, de Sebastião, vieram escurecer-lhe a alma.
Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria?
—Estás incommodada?—perguntou-lhe Jorge.
—Um pouco.
Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua janellinha. Fausto corre. Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e o roncar dos rebecões—o pano desceu, pondo uma reticencia pudica...
D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos? neve? A excellente senhora hesitou; o
chic
da neve attrahia-a, mas cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé de Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento; bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fóra, fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina...
—É a minha cêa em dia de S. Carlos—disse.
Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço de sêda, ter com Jorge que fumava no pequeno patamar junto á entrada das cadeiras:
—Veja isto, Conselheiro—disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a parede—que escandalo!
Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntára por baixo as designações sexuaes com uma boa letra cursiva.
E Jorge, revoltado:
—E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! Isto só em Portugal!...
O Conselheiro disse:
—A autoridade devia intervir de certo...—Acrescentou com bonhomia:—São rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta distracção...—E sorrindo, recordando-se:—Uma occasião mesmo, o conde de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o charuto, para que eu fizesse um desenho...—E mais baixo:—Eu dei-lhe uma lição severa. Tomei o charuto...
—E fumou-o?
—Escrevi.
—Uma obscenidade?
O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade:
—Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?—E acalmando-se:—Não, tomei o charuto e escrevi com mão firme:
honra ao merito
!
Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu lugar—defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento feliz, de um gozo requintado. Estavam
ambos
, alli, como noivos! O seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de braço dado, entrarem n'um
coupé
estreito, pararem á porta da casa conjugal, pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor á raiz dos cabellos—e vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que, áquella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração de cera!...
Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade empallideceu: seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza.
Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante:
—D'azul escuro!
Abriram grandes olhos, sem comprehender.
—Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o!
E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza:
—Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na flôr dos annos! Quando tudo na vida é côr de rosa!
Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava o relogio. Sentia-se doente: os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via, sem comprehender, a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas, com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada, erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemães, celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho, e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de paninho—a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro!
Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias e dous municipaes appareceram á porta do fundo; e depois d'uma troça, de risadas, foram levando um moço livido, que cambaleava,—e o lado esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado!
Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco, acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no palco deserto, tendo á direita um portico oscillante de cathedral e á esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa pera, á beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:—mas Luiza não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora Sebastião?
Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolastico, «onde o snr. commissario estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando
grogs
quentes, e lendo o
Homem dos tres calções
. Apenas Sebastião entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou:
—Estou com um diabo d'uma constipação ha tres dias, que me não quer largar...—E rosnou algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho dava ferocidade.
Sebastião lamentou-o muito: não admirava com a estação que ia!... Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido.
—Eu, se isto não despega—disse o commissario rancorosamente—atiro-lhe ámanhã p'ra dentro com meia garrafa de genebra; e se não fôr por bem, ha-de ir á força... E que ha de novo?
Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho:
—Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar cá p'ra uma cousa, só p'ra metter medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o que tirou, tu davas ordem, hein?
—Ordem p'ra quê?—perguntou lentamente o Vicente com a cabeça baixa, os olhinhos avermelhados em Sebastião.
—Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. É só p'ra se mostrar. É um caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz... É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo...
—Roupas? Dinheiro?
E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos dedos magros, muito queimados do cigarro.
Sebastião hesitou:
—Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes...
O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:
—Um policia p'ra se mostrar...
Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:
—Não é cousa de politica?
—Não!—fez Sebastião.
O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os olhos, ferozmente:
—Nem toca com gente grauda?
—Qual!
—Um policia p'ra se mostrar...—ruminava o Vicente.—Tu és um homem de bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda.
Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz, meditou com a mão em garra sobre a testa:
—O Mendes... Serve-te o Mendes?
Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo:
—Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar...
—O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda.
Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas vezes; cortou os
tt
, seccou-a á chaminé do candieiro; e dobrando-a com solemnidade:
—Á segunda divisão!
—Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada, hein?
—Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda!
E acavallando as lunetas retomou o
Homem dos tres calções
.
Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, o policia com o seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois? Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia... Veria. O essencial era aterral-a!
Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou:
—Credo! Que temos nós?
Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia.
—Ó snr.
a
Juliana, faça favor d'accender luz na sala—disse Sebastião, tranquillamente.
Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto.
—Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito!
—Não é nada—disse Sebastião, abrindo a porta da sala—tudo em paz!
Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina—que fez sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho.
—Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se!
O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado entre os joelhos, muito soturno.
—Esta é que é a pessoa—disse Sebastião, indicando Juliana, que ficára á porta da sala, attonita.
A mulher recuou, livida:
—Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta?
—Não é nada, não é nada...
Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no braço:
—Vamos lá dentro á sala de jantar.
—Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que desconchavo!
Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os dedos, e parando bruscamente diante de Juliana:
—Dê cá umas cartas que roubou á senhora...
Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar.
Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre uma cadeira:
—Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá as cartas, ou p'ra a enxovia!
Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo do rancho, a enxerga nas lages frias...
—Mas que fiz eu?—balbuciava—que fiz eu?
—Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se.
Juliana sentada á beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos, rosnava por entre os dentes cerrados:
—A bebeda! A bebeda!
Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta.
—Espere, seu diabo!—gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi:
—Não! não! não!
—Diabos me levem se vossê não fôr dormir á enxovia!—Entre-abriu a porta.—Ó snr. Mendes!
—Ahi tem!—gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle os punhos:—Raios te partam, malvado!
Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era de Luiza; leu a primeira linha:
Meu adorado Bazilio
; e muito pallido guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta: a possante figura do Mendes estava na sombra.
—Está tudo arranjado, snr. Mendes,—a voz tremia-lhe um pouco—não lhe quero tomar mais tempo.
O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastião, no patamar, lhe resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, com uma voz pegajosa:
—E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da Guarda. Não se incommode v. s.
a
Ás ordens de v. s.
a
Minha mulher e filhos agradecem. Não se incommode v. s.
a
O sessenta e quatro, o Mendes, que foi da Guarda!
Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. Juliana ficára n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente:
—A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que arranjou a armadilha! Tambem vossê dormiu com ella!...
Sebastião, muito branco, dominava-se.
—Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. Ámanhã mandará buscar os bahus...
—Mas o homem ha-de saber tudo!—berrou ella.—Este tecto me rache se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que recebia, onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, até os pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido!
—Cale-se!—bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer toda a louça no aparador, e esvoaçar os canarios. E com a voz toda tremula, os beiços brancos:—A policia tem o seu nome, sua ladra! Á menor palavra que vossê diga vai para o Limoeiro, e pela barra fóra. Vossê não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes, vestidos...—Juliana ia fallar, gritar.—Bem sei—continuou elle violentamente—deu-lh'os ella, mas á força, porque vossê a ameaçava. Vossê arrancou-lhe tudo. É roubo. É d'Africa!—E o que é dizer ao snr. Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a acredita. Diga! São algumas bengaladas que leva por esses hombros, ladra!
Ella rangia os dentes. Estava apanhada!
Elles
tinham tudo por si, a policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella—nada!
Todo o seu odio contra a
Piorrinha
fez explosão. Chamou-lhe os nomes mais obscenos. Inventou infamias.
—É que nem as do Bairro-Alto! E eu—gritava—sou uma mulher de bem, nunca um homem se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...—Tinha arremessado o chale, alargou anciosamente o collar do vestido.—Era um desaforo por essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão! Os diabos me levem se eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao janota, como uma cabra!
Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante:
—Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua!
Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas, veio para elle, e cuspiu-lhe na cara!
Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para traz, levou com ancia as mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado, com um som molle, como um fardo de roupa.
Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rôxa apparecia-lhe aos cantos da bocca.
Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu até á Patriarchal. Um
coupé
vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a «todo o que dér», para casa de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em chinellas, sem collarinho.
—É caso de morte, é a Juliana—balbuciava muito pallido.
E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos, contava confusamente que entrára em casa de Luiza, que achára Juliana muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar, de repente, tombára p'ra o lado!
—Foi o coração. Estava p'ra dias—disse Julião, chupando a ponta do cigarro.
Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, fechára a porta! E dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu.
—Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?—disse o homem, mettendo a gorgeta na algibeira.
Mas vendo-os atirar com a porta:
—Tambem não é gente d'isso—rosnou com desprezo, batendo a parelha.
Entraram.
No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastião pavoroso. Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com fortes pancadas do coração, esperava ainda que ella estivesse apenas adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando!
Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, com os braços abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de petroleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra; e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina, tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do
cuco
palpitava sem descontinuar.
—Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse:
—Está morta com todas as regras. É necessario tiral-a d'aqui. Onde é o quarto?
Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima.
—Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.—E como Sebastião não se movia:—Tens medo?—perguntou rindo.
Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma boneca! Sebastião, com um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver por debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. Julião adiante erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da marcha do
Fausto
. Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que tremia:
—Largo tudo, e vou-me...
—Respeitarei os nervos da menina!—disse Julião curvando-se.
Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastião d'um peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho.
Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as tradições,—pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos.
Esteve um momento a olhal-a:
—Feia besta!—murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha enxovalhada.
Ao sahir examinou, admirado, o quarto:
—Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!
Fechou a porta, deu volta á chave:
—
Requiescat in pace
—disse.
E desceram, calados.
Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz a mão no hombro de Julião:
—Então achas que foi o aneurisma?
—Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros...
—Se não se tivesse zangado hoje...
—Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Está começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos.
Declarou então, esfregando as mãos com frio, que «comia alguma cousa». Achou no armario um pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto:
—Então sabes a novidade, Sebastião?
—Não.
—O meu concorrente foi despachado!
Sebastião murmurou:
—Que ferro!
—Era previsto—disse Julião com um grande gesto.—Eu ia fazer um escandalo, mas...—e teve um risinho—amansaram-me! Estou n'um posto medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso!
—Sim?—fez Sebastião.—Homem, ainda bem, parabens. E agora?
—Agora, roel-o!
De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico não era mau... Em definitiva, a situação melhorára...
—Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro...
Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bêco sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha nascido p'ra isso!
Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz cortante, expoz um plano de ambição:—O paiz está a preceito para um intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças, de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto está pôdre por dentro e por fóra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos pedaços... Necessitam-se homens!
E plantando-se diante de Sebastião:
—Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com
expedientes
. Quando vier a revolução contra os
expedientes
, o paiz ha-de procurar quem tenha os
principios
. Mas quem tem ahi principios? Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos, dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver tres patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia duzia de principios sérios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos e mais previdentes, hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol,
al hermoso sol português
, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum desembargador caduco.
Sebastião calado pensava na outra, morta em cima.
—Estupido paiz, estupida vida!—rosnou Julião.
Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta.
—Chegam os principes!—disse Julião. Desceram logo.
Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta, bruscamente:
—Houve cá grande novidade!
—Fogo?—gritou Jorge voltando-se aterrado.
—A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma—disse a voz de Julião da sombra da porta.
—Oh c'os diabos!—E Jorge atarantado procurava á pressa na algibeira troco para o cocheiro.
—Ai, eu já não entro!—exclamou logo D. Felicidade, mostrando á portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.—Eu já não entro!
—Nem eu!—fez Luiza, toda tremula.
—Mas para onde queres que vamos, filha?—exclamou Jorge.
Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da mamã, era só pôr lençoes na cama.
—Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!—supplicou Luiza.
Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vêr aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado, muito contrariado, consentiu.
—Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, D. Felicidade...
—E a mim, que estou em chinellas!—acudiu Julião.
D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem, para velar a morta...
—Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!—exclamou Julião, entrando logo para a carruagem, batendo com a portinhola.
Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! ao menos pôr duas velas, mandar chamar um padre!...
—Largue, cocheiro!—berrou Julião, impaciente.
A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, apesar de Julião que a puxava pelos vestidos, gritava:
—É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas!
O trem partiu a trote.
Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem...
Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?...
—Então, Jorge, então!...—murmurava Sebastião.
—Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo!
Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo braço de Sebastião.
—Estourou de raiva—disse-lhe elle baixinho.
Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir agora fóra de casa! Realmente era levar muito longe as mariquices...!
Até que Luiza lhe disse, quasi chorando:
—Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge!
Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar, propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana.
—Era talvez melhor—murmurou Luiza.
Chegaram á porta de Sebastião. O
frou-frou
do vestido de sêda de Luiza, áquella hora, na sua casa, dava uma commoção a Sebastião: a mão tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes dos bahús, apressado, feliz d'aquella hospitalidade. Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito pallida, ao canto do sophá.
—Jorge?—perguntou elle.
—Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para o enterro...—E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e assustada:—Então?
Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a sofregamente—e com um movimento brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a.
Mas Jorge entrava, sorrindo.
—Então agora está mais descançada, a menina?
—Inteiramente—disse ella, com um suspiro de allivio.
Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a maneira como entrára em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fôra despedida, e fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o lado morta...
E acrescentou:
—Coitada!
Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração.
—E a Joanna?—perguntou Jorge, de repente.
Luiza, sem se perturbar, respondeu:
—Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença p'ra ir vêr uma tia que está muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta ámanhã... Mais uma gota de chá, Sebastião...
Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia—e ninguem velou a morta.
XVI
Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle.
Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir.
O quarto, onde se não accendera luz havia muito, tinha uma frialdade deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho tremó do seculo passado com o seu espelho embaciado davam, á luz bruxuleante da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma alteração brusca—e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a sua existencia, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava encanado na rua.
Pela manhã, Luiza não se pôde levantar.
Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os:
—É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho d'hontem, hein?
—Sonhei toda a noite com ella—disse Luiza.—Que tinha resuscitado... Que horror!
—Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher?
—O Sebastião lá anda com a massada—disse Jorge.—E eu vou dar uma vista d'olhos.
Na rua já se sabia a morte da
tripa-velha
.
A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida da snr.
a
Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do estanque:
—Muito que fazer agora, snr.
a
Margarida, hein?
—Bastante, bastante, snr.
a
Helena—disse a amortalhadeira com a voz um pouco rouca.—No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir...
A snr.
a
Margarida tinha predilecções artisticas. Gostava d'um bonito corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava á má cara a gente velha. Mas com as raparigas novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o
chic
d'uma flôr, d'um laço; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma modista do sepulchro.
A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, os favores dos patrões, as tafularias d'ella, os luxos do quarto tapetado... A snr.
a
Margarida dizia-se «banzada». E para quem iria agora tudo aquillo?—perguntavam.—A
tripa-velha
não tinha parentes...
—Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!—disse a amortalhadeira, traçando o chale com tristeza.
—Como vai ella, a pequena?...
—Aquillo vai mal, snr.
a
Helena. Aquella cabeça douda!—E exhalando a sua dôr com loquacidade:—Deixar o brazileiro que a trazia nas palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo, que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa com pau... Mas então, as raparigas são assim... Vão atraz do palmo de cara... Que elle é bonito rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.
a
Helena.—E entrou na casa compungidamente.
O padre já chegára tambem. Estava na sala com Sebastião, que conhecia d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz grossa—passando, com um gesto lento da sua mão cabelluda, o lenço enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam abertas ao sol muito dôce. Os canarios chilreavam.
—E estava ha muito tempo na casa, a defunta?—perguntou o padre, a Jorge que passeava pela sala, fumando.
—Ha quasi um anno.
O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar:
—A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo universal!...
E assoou-se, com estrondo.
A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu, em bicos de pés. Soubera pelos visinhos que a Juliana «arrebentára», que os senhores estavam em casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a entrar no quarto. Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza disse-lhe—«que agora estava tudo como d'antes, podia voltar...»
—E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em Bellas, com a tia...
A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se—um pouco assustada da morte em casa.
D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á porta.
Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz catarrhosa:
—Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortaes...
—Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada—disse Jorge.—Obrigado!
E fechou bruscamente a cancella.
Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella estopada»: e mesmo como o enfastiavam as martelladas espaçadas dos homens pregando o caixão, em cima, chamou a Joanna:
—Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida!
A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se feito já intima da snr.
a
Margarida. A amortalhadeira fôra mesmo com ella á cozinha para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume estava apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho.
—Sopinha de burro—dizia, fazendo estalar a lingua.
Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas fórmas de Joanna:—A menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom corpo...—E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas linhas robustas.
Joanna disse escandalisada:
—Longe vá o agouro, cruzes!
A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz:
—Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma gotinha de vinho, faz favor? É do Cartaxo, não? é muito avelludado! rica gota!
Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro horas os homens desceram o caixão. A visinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando:
—Boa viagem!
Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna:
—E vossê não tem medo de ficar aqui só?
—Eu não, meu senhor. Quem vai não volta!
Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, e batia-lhe o coração de alegria de «terem a casa por sua» até de manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do divan da sala.
Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde Luiza estava deitada:
—Tudo prompto—disse, esfregando as mãos.—Lá vai para o Alto de S. João, devidamente acondicionada.
Per omnia sæcula sæculorum!
A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza, acudiu:
—Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ella!
—Era um bom estafermo—disse Jorge.—Esperemos que a esta hora esteja a ferver na caldeira de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna?
—Jorge!—fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo dous padre-nossos por alma.
Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella que ia rolando a essa hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que fôra na vida Juliana Couceiro Tavira!
No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande desconsolação da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastião não dizia nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescença a retivesse alli semanas indefinidas. Ella parecia tão agradecida! Tinha olhares tão reconhecidos, que só elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em bicos de pés, como se a presença d'ella santificasse a casa; enchia os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr Jorge, á sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e já pensava que quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza de ruina!
Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa.
Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fôra Sebastião que a arranjára. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo correndo dizer a Joanna «que morria pela senhora! tinha uma carinha d'anjo! que linda que era!»
Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus de Juliana á tia Victoria.
Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, accendeu uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se, dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fôra Sebastião, aquelle querido Sebastião!
Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua vida cheia de doçura: abriu todas as janellas; experimentou o piano; rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a musica da
Médjé
, que lhe dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade:
—Que bem que vou passar agora!—pensava.
Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no hombro d'elle:
—Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a Marianna!
Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor.
—Crescimentos...—disse descontente.
Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou toda surprehendida de vêr Luiza doente; e debruçando-se sobre ella, disse-lhe logo ao ouvido:
—Tenho que te contar!
Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada aos pés da cama,—com uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto da indignação:
Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandára a Tuy, o grande ladrão, tinha escripto á Gertrudes, á criada, que não estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudára de povoação; que elle não queria saber mais d'esse negocio e que até o achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,—tudo isto n'uma boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,—e do dinheiro nem palavra!
—Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se não fosse pela vergonha, ia direita á policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a sorte!...—Porque se já não acreditava na honestidade dos gallegos, não perdera a fé no poder das bruxas.
Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece, hein?
Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates, cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe vagamente um «suadouro», suspirando; e como Luiza não lhe podia dar consolações, sahiu para ir á Encarnação desabafar com a Silveira.
N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto, vestiu-se á pressa, ás nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, tossindo o seu catarrho.
—Cartas?—perguntou Jorge.
—Uma p'ra a senhora—disse o homem.—Ha-de ser p'ra a senhora...
Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de França.
—De quem diabo é isto?—pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu.
D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem.
Luiza dormitava, amodorrada.
—É preciso cautela... Vamos a vêr...—murmurou Julião, coçando devagar a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente.
Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma.
A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado. Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor...
—Estas febres veem por tudo—replicou Julião, partindo tranquillamente uma torrada.—Ás vezes por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto. Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,—a velhaca ás vezes tem d'estes caprichos,—arranjou todos os seus negocios, viu-se livre. Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Póde muito bem dar á casca. Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em que o crédor é implacavel, saca á vista, e...
per omnia sæcula!
Ergueu-se, e accendendo o cigarro:
—Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario ter-lhe o espirito em algodão em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde, limonada. Até logo!
E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia ao Posto Medico.
Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao pé n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados.
—Tem estado muito inquieta—murmurou.
Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da alcova.—E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de Luiza que o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel! Ora, tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião estivera tão animada! Nem a morte da outra lhe fizera abalo!—De resto acreditava pouco nas
febres de desgosto
! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha...
Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma carta; era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luiza. Tornou a examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a letra; era d'homem, vinha de França... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro.
Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua pennugem loura; a face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella côr, a expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe escreviam de França, quem?
Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo muito nervoso o forro das algibeiras.
Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel delgado do enveloppe; os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo do sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com uma tentação persuasiva:—Ella estava doente, e podia ter alguma cousa urgente; se fosse uma herança? depois ella não tinha segredos, e então em França! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do
desgosto
das theorias de Julião!... Devia abril-a então para a curar melhor!
Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. N'um relanço avido devorou-a. Mas não comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se; chegou-se á janella, releu devagar:
«Minha querida Luiza.
«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem em Nice—d'onde cheguei esta madrugada a Paris—recebi a tua carta, que pelos carimbos vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como já lá vão dous mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes,
todas as
illusões
sobre o amor
, porque foi realmente quando sahi de Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha dia, acredita, em que me não lembre do
Paraiso
. Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso alguma outra vez? Lembras-te do nosso
lunch
? Não tenho tempo para mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti Lisboa é para mim um desterro.
«Um longo beijo do
«Teu do C. «Bazilio».
Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o para cima da mesa, disse alto:
—Sim, senhor! bonito!
Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:—de repente arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, bateu com as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa, rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, batendo com os pés, louco!
Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella á alcova de Luiza. Mas a lembrança das palavras de Julião immobilisou-o: que esteja socegada, nada de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os olhos raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente o cerebro, como relampagos n'uma tormenta—matal-a, sahir de casa, abandonal-a, fazer saltar os miolos...
A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o chamava.
Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido, batendo as palpebras:
—Já vou—disse com a voz rouca.
Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou o cabello: e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar á barra do leito, porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento.
Mas sorriu-lhe:
—Como estás?
—Mal—murmurou ella debilmente.
Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado.
Elle veio, sentou-se sem a olhar.
—Que tens?—disse ella chegando o rosto para elle.—Não te afflijas.—E tomou a mão que elle pousára á beira do leito.
Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, arrastando-se, n'uma lamentação:
—Porque, Jorge? Que tens?...
Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente.
Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços.
—Que é isto?—exclamou a voz de Julião á porta da alcova.
Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar.
Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços diante d'elle:
—Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está n'um estado d'aquelles, e vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas?
—Não me pude conter...
—Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a por outro? Estás doudo!
Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente. Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfação em exercer o dominio de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, não se esquecia de offerecer negligentemente um charuto a Jorge.
Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não podia estar muito tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento contradictorio; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem cessar: Como tinha sido? Onde era o
Paraiso
? Havia uma cama? Que vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?
Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo, procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data da traição! Tinha-lhe odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas homicidas—esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano! E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que déra com ella, palavras que ella dissera...
Ás vezes pensava—seria a carta uma
mistificação
? Algum inimigo d'elle podia tel-a escripto, remettido para França. Ou talvez Bazilio tivesse
outra
Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais cruel. Mas como fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha a certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem saberia?...
Juliana!
Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita!
Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e, apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma vela, tirou a carta da gaveta.
—Lê isto.
Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre a mesa, sem uma palavra.
Jorge disse então:
—Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa. Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade!
Sebastião abriu devagar os braços e respondeu:
—Que te hei-de eu dizer? Não sei nada!
Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar anciosamente:
—Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãi, por tantos annos que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!...
—Não sei nada. Que hei-de eu saber?
—Mentes!
Sebastião disse apenas:
—Podem-te ouvir, homem!
Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas pelo escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante de Sebastião, quasi supplicante:
—Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem?
Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz:
—Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve doente, ella ia vêl-a... O primo depois partiu... Não sei mais nada.
Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta.
—Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz eu p'ra isto? Eu, que a adorava, áquella mulher!
Rompeu a chorar.
Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado.
—Foi talvez uma brincadeira, apenas...—murmurou.
—E o que diz a carta?—gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, sacudindo o papel.—Este
Paraiso
!
As boas manhãs
lá passadas! É uma infame!...
—Está doente, Jorge—disse apenas Sebastião.
Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião, immovel, fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge então fechou a carta na gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado:
—Queres vir tomar chá, Sebastião?
E não tornaram mais a fallar na carta.
N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto estava impassivel, d'uma serenidade livida.
Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza.
A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranquillo.
Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade vinha ordinariamente pelas manhãs: sentava-se aos pés da cama, e ficava calada, com uma face envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e só se animava quando o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da «nossa formosa enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom profundo, conservando o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por pudor:
—A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge!
Ou:
—A doença serve para aquilatarmos os amigos.
E terminava sempre:
—Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua virtuosa esposa!...
De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão sobre o chão; mas apenas cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lêr: começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas; esquecia o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar: era sempre a mesma idéa—
como
tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se arremessava sofregamente. Então começava a recordar os ultimos mezes desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que ardor punha nas suas caricias... Para que o enganára então?
Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella, esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa branca, as caixas de collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divan tão largo, tão commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava sobretudo eram aquellas palavras—o
Paraiso
,
as boas manhãs
...
Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario vestil-a, trazel-a amparada para a
chaise-longue
: e não dispensava Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias de criança! Parecia receber a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dôr como caricias consoladoras. É porque o amava de certo!
Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! E, estendida na
chaise-longue
, Luiza, contente, percorria antigos volumes da
Illustração franceza
, que lhe mandára o Conselheiro,—«onde», segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noções uteis sobre importantes acontecimentos historicos»; ou, com a cabeça reclinada, saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da
outra
, das amarguras do
passado
.
Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava muito o calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; quando Jorge não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo, consolada, e lambendo colherinhas de gelatina.
Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; á volta começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle não voltaria ao Alemtejo, não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua vida seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil.
Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé de si, passava-lhe a mão pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado!
Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a vêr Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doença com uma vaga sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadêlos de que lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio de chammas escarlates: fórmas negras giravam com espetos em braza, um rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dôce e d'ineffavel de repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabeça contra o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação deixára-lhe como uma recordação saudosa do céo. E aspirava a ella, nas debilidades da convalescença, esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela repetição de corôas á Virgem.
Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, á janella, olhava para a rua—quando ella o chamou, e sorrindo:
—Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan—disse.—Podia-se tirar, não te parece?
Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse, emfim, com esforço:
—Sim, parece...
—Estou com vontade de o tirar—disse ella sahindo da sala, arrastando tranquillamente a longa cauda do seu roupão.
Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle; passava a mão sobre o estofo ás listras; e sentia um prazer doloroso em verificar
que fôra alli
!
Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus movimentos languidos estender-se na
chaise-longue
, ou ao despir-se mostrar a brancura do seu collo—e pensava que aquelles braços tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama alheia—vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sahir para a não esganar!
Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, começou a queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, então, as interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz—por se sentir amado, agora que se sabia trahido!
Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza para se deitar mais tarde, e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na sala, ainda um pouco pallida e fraca,—mas, como disse o Conselheiro, restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade!
Julião que veio ás nove horas achou-a
como nova
. E abrindo os braços, no meio da sala:
—E que me dizem á novidade?—exclamou—A peça do Ernesto teve um triumpho!...
Assim tinham lido nos jornaes. O
Diario de Noticias
dizia mesmo que o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, recebera uma formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que queria ir vêr!
—Mais tarde, D. Luiza, mais tarde—acudiu com prudencia o Conselheiro.—Por ora é conveniente evitar toda a commoção forte. As lagrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, podiam produzir uma recahida. Não é verdade, amigo Julião?
—De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero convencer-me por meus olhos...
Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote largo, que parou á porta, interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.
—Aposto que é o author!—exclamou elle.
E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraçaram-no: mil parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras:
—Bem vindo o festejado author! Bem vindo!
Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como n'um agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras.
—Aqui estou! aqui estou!—disse.
Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou que os ultimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para vir vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu, mas devia voltar ás dez horas para o theatro: até nem mandára a tipoia embora...
Contou então largamente o triumpho. Ao principio tivera «grandes colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto—e como o disse! haviam de vêr, uma cousa sublime!—os applausos romperam. Tinha agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de palmas... Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O Savedra do
Seculo
tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O Bastos da
Verdade
tinha affirmado: és o nosso Scribe! Houve uma cêa. E tinham-lhe dado uma corôa.
—E serve-lhe?—acudiu Julião.
—Perfeitamente; um bocadinho larga...
O Conselheiro disse com authoridade:
—Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre representados com as suas respectivas corôas.
—É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma—acudiu Julião, erguendo-se e batendo-lhe no hombro—é que se faça retratar de corôa!...
Riram.
E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado:
—O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho...
—É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito!
—Eu não sei!—disse Luiza muito risonha—É uma honra p'ra a familia!...
Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a corôa, como se tivesse direito a usal-a...
E Ernestinho voltando-se logo para elle:
—Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei á esposa...
—Como Christo...
—Como Christo—confirmou Ernestinho, com satisfação.
D. Felicidade approvou logo:
—Fez muito bem! Até é mais moral!
—O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella—disse Ernestinho, rindo tolamente.—Não se lembra, n'aquella noite...
—Sim, sim—fez Jorge, rindo tambem, nervosamente.
—O nosso Jorge—disse com solemnidade o Conselheiro—não podia conservar idéas tão extremas. E de certo a reflexão, a experiencia da vida...
—Mudei, Conselheiro, mudei—interrompeu Jorge.
E entrou bruscamente no escriptorio.
Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava ás escuras.
—Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?—disse elle abafadamente, agarrando o braço de Sebastião.
—Socega!
—Oh Sebastião! Sebastião!—E sua voz tremia, com lagrimas.
Mas Luiza, da sala, gritou:
—Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras?
Sebastião appareceu logo, dizendo:
—Nada, nada. Estavamos lá dentro...—E acrescentou baixo:—O Jorge está fatigado. Está adoentado, coitado!
Notaram, quando elle voltou—que tinha com effeito o ar exquisito.
—Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado!
—E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito—disse o Conselheiro erguendo-se.
Ernestinho que não se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a Julião—«a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...»
—Que honra—exclamou Julião olhando Accacio—irmos na tipoia do Grande Homem!
E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram.
No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços:
—Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos de Portugal desde 1820. A Litteratura—e comprimentou Ernestinho—e o Constitucionalismo!—e curvou-se para o Conselheiro.
Os dous riram, lisongeados.
—E o amigo Zuzarte?
—Eu?—E baixando a voz:—Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas agora...
—O quê?
—Um amigo da ordem—gritou com jubilo.
E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia do Grande Homem!
XVII
Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que
todo o mundo sabia
; nos olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao
rendez-vous
, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do
Paraiso
. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a
Mandolinata
!
Estava-se a vestir.
—Como estás tu?—perguntou, pondo a um canto a sua bengala.
—Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...
Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.
—E tu?—perguntou-lhe ella.
—P'ra aqui ando—disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito carinhosa:
—Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize.
E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados.
Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha».
—Dize. Que tens?
Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:
—Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!
E estendeu-lhe a carta de Bazilio.
—O que é?—fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão.
Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os joelhos, ficou estirada no tapete.
Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os espartilhos da senhora.
Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella:
—Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens?
Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.
Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas faces.
Um trem parou. Julião appareceu esbaforido.
—Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!—disse Jorge.
Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.
—Não, não, ninguem!—murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com impaciencia:—Não, vão-se, não quero...—As suas lagrimas redobravam. E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:—Jorge!
Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto:
—Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, não.
E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca:
—Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma cousa que passou...
Ella disse apenas com a voz sumida:
—Oh! Jorge! Jorge!
—Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes?
—Aqui—disse ella, e levava as mãos á cabeça.—Dóe-me!
Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdão.
—Oh! minha pobre cabeça!—gritou ella.
As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o rosto.
Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,—até que elle voltasse.
Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de sustos, suspirando ás vezes.
Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova tinha uma luz lugubre.
—Não ha-de ser nada...—dizia Sebastião.
Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela dôr crescente, cheia de sêde.
Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o craneo.
Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a cabeça.
Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma expressão d'afflicção serena e muda.
Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o
tic-tac
monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.
Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o delirio exacerbava-se.
Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento—onde os nomes de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia.
Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de pedras, que tivessem piedade d'ella!—e fios de lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta, maldizia Juliana—ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião, ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos—e quando ella, um momento, julgando-se no
Paraiso
e nas exaltações do adulterio, chamou Bazilio, pediu
champagne
, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a soluçar, arrepellou-se, blasphemou.
—Está em perigo?—perguntou Sebastião.
—Está—disse Julião.—Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas malditas febres cerebraes...
Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, esguedelhado.
E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra:
—Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça.
Jorge olhou-o com um ar estupido:
—O cabello?—E agarrando-lhe os braços:—Não, Julião, não, hein? Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê?
Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua!
—Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado, Julião, obrigado!
Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama, toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas um ponto negro.
Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim, quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda, com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço sacudia-o, e recahia na sua immobilidade.
Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, extinguiam-se.
Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao vento frio, silenciosamente.
Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava. Começou a agitar-se—e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então, determinou que se lhe rapasse o cabello.
Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla—que veio logo, com um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras, devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas.
Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças, destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz... Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou Sebastião baixo:
—Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que ande depressa!
Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio.
Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos de pés, murmurando n'um tom funerario:
—Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada...
O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:—e Luiza cahiu n'uma somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios como a lamentação interior da vida vencida.
Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela apparição d'um santo.
Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, para ir a casa do dr. Caminha.
Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A sua voz extincta chamou Jorge:
—Cortaram-me o cabello...—murmurou tristemente.
—É para te fazer bem—disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como ella.—Cresce logo. Até te vem melhor...
Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos dos olhos.
Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste; a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão.
Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama—«porque não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito corajosamente animava Jorge.
Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se muito do frio;—e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito colladas ao craneo pela escova.
Julião e elle ficaram sós na alcova.
No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como cêra, com os olhos vermelhos como carvões.
—Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca—veio dizer Julião.
Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo:
—Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu volto, meu amigo, eu volto.
O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como vibrações fugitivas.
—Está perdida—disse Julião baixo a Sebastião.
D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos.
—P'ra quê?—resmungou Julião impaciente.
Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula:
—Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...
Elle murmurava como assombrado:
—Os sacramentos!
Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado:
—Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos!
Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar. Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!—dizia, assoando-se com estrondo.
—Pelo que Deus faz por mim...—exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr. E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:—Porque realmente, que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!...
Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o doutor Barral.
E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás faces tons cavados e rigidos.
Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão. Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha.
Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto. Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos, tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte:
—Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem! Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu Deus!
E olhava-a anciosamente. Ella não se movia.
Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada.
—Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!—E arremessava a sua alma para as alturas:—Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom!
Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando pausadamente as luvas.
—Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria...