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O Primo Bazilio

O PRIMO BAZILIO (continued 4)

Reading edition

Paraiso

de certo era como no romance de Paulo Féval.

Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de gallo; tomou logo um coupé. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo desdem os que passavam, no movimento da vida trivial—em quanto ella ia para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia á maneira que se aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contracção d'acanhamento, como um plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sêda: e quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, não achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle devia ter conhecido mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no amor! Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de centos de mil reis, e ditos tão espirituosos como um livro...

A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, com uma portinha pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma janella com um gradeadosinho d'arame, parda do pó accumulado, coberta de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um berço, o chorar doloroso d'uma criança.

Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo:

—Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi?

A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio, caminhando adiante, d'esguelha:

—Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido da rua...

Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de papel ás listras azues e brancas.

Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada, feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lençoes grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos...

Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito abertos, iam-se fixando—nos riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros, ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma tunica azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo uma larga photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar, o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calças brancas, com as pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabeça amarella, uma corôa de perpetuas!

—Foi o que se pôde arranjar—disse-lhe Bazilio.—E foi um acaso: é muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso...

—Não—fez ella, baixo.—Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta da cortininha de cassa fixada á vidraça: defronte eram casas pobres: um sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada d'uma lojita balouçava-se um ramo de carqueja ao pé d'um maço de cigarros pendente d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha côr de melão.

Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então nós de dedos bateram discretamente á porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de

ss

mellifluos, ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas...

—Bem, bem!—disse Bazilio apressado, batendo com a porta.

—Quem é?

—É a patrôa.

O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas gôtas de chuva se esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais melancolico.

—Como descobriste tu isto?—perguntou Luiza, triste.

—Inculcaram-m'o.

Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» alli? pensou ella. E a cama pareceu-lhe repugnante.

—Tira o chapéo—disse Bazilio, quasi impaciente—estás-me a fazer afflicção com esse chapéo na cabeça.

Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pôl-o no canapé de palhinha, desconsoladamente.

Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama:

—Estás tão linda!—Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito d'ella. E com a vista muito quebrada:

—O que eu sonhei comtigo esta noite!

Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E immediatamente bateram á porta, com pressa.

—Que é?—bradou Bazilio furioso.

A voz cheia de

ss

explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava a seccar. Se se encharcasse, que perdição!...

—Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!—berrou Bazilio.

—Dá-lhe o cobertor...

—Que a leve o diabo!

E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros nús, abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de Bazilio—vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.

Assim um

yacht

que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçaes do rio baixo; e o mestre aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.

Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem, vai ter com o

gajo

!

E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza que corria a abrir a porta, alvoroçada, quando Luiza voltava ás cinco horas. E que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, uma fita que se extraviava, e eram «mil perdões, minha senhora», «desculpe por esta vez», muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar...

Todavia, desde as idas ao

Paraiso

, o seu trabalho augmentára: todos os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar á noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até ás onze horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava com o «ferro ás voltas». E não se queixava, até dizia a Joanna:

—Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo! Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora tenho saude, o trabalho não me assusta!

Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava mesmo á Joanna repetidamente:

—A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... Não a ha melhor!

O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contracção amarga. Ás vezes, ao jantar ou á noite, costurando calada ao pé de Joanna, á luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe n'uma dilatação jovial.

—A snr.

a

Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas...

—A malucar cá por dentro, snr.

a

Joanna!—respondia com satisfação.

Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor. Disse apenas:

—Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!

Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa d'uma abundancia proxima. Joanna até lhe dissera:

—A snr.

a

Juliana espera alguma herança?

—Talvez!—respondeu seccamente.

E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manhã a via arrebicar-se, perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo d'estourar! Odiava-a pelas

toilettes

, pelo ar alegre, pela roupa branca, pelo

homem

que ia vêr, por todos os seus regalos de senhora. «A cabra!» Quando ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e fechando a vidraça com um risinho rancoroso:

—Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se ha-de!

Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias ás duas horas. Na rua já se dizia que «a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel».

Apenas ella dobrava a esquina o

conciliabulo

juntava-se logo a cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o «peralta». Onde seria?—era a grande curiosidade da carvoeira.

—No hótel—murmurava o Paula.—Que nos hóteis é escandalo bravio. Ou talvez—acrescentava com tedio—n'alguma d'essas possilgas da baixa!

A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada!

—Vacca solta lambe-se toda, snr.

a

Helena!—rosnava o Paula.—São todas o mesmo!

—Menos isso!—protestava a estanqueira—Que eu sempre fui uma mulher honesta!

E ella?—reclamava a carvoeira—ninguem tinha que lhe dizer!

—Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sêdas! É uma cambada. Eu é que o sei!—E acrescentava gravemente:—No povo ha mais moralidade. O povo é outra raça!—E com as mãos enterradas nos bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa, o olhar cravado no chão.—Se é!—murmurava—Se é!—Como se estivesse positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as virtudes do povo!

Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas, ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes «novidades»: que a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas, que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o dissera; não se fallava na rua n'outra cousa...

—Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás lojas, aos seus arranjos!—exclamou Sebastião.—A Gertrudes é uma desavergonhada, e nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os pés. Vir com esses mexericos!...

—Cruzes! Olha o destempero!—replicou muito escandalisada a tia Joanna.—Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na rua! Que ella até a defende, até ella é que a defende! Até se esteve a queixar que se falla! que se falla! Boa!—E a tia Joanna sahiu, resmungando:—Olha o destempero, credo!

Sebastião chamou-a, aplacou-a:

—Mas quem falla, tia Joanna?

—Quem?—E muito emphaticamente:—Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua!

Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge não sahia do buraco! A visinhança que murmurára das visitas do outro, naturalmente começava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a desacreditar! E elle não podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra «scena»? Não podia.

Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em nada, ia só vêl-a. Não estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella, com o seu sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um instantinho. Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vêr:—Porque se tinha demorado tanto em Almada? Que deserção!

Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella?

—Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho estado muito só. Nem Julião, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade é que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora sempre mettida na Encarnação... Isto gente devota!—E riu.

Então aonde ia?

A umas comprasitas, á modista depois...—E appareça agora, Sebastião, hein?

—Hei-d'apparecer.

—Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é o que me vale é o piano!

N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge. «Tens visto a Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem carta d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. Vê se lhe vaes fazer companhia, coitada, etc.»

No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado muito cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar, adormecera sobre a

causeuse

... Que havia de novo? E bocejava.

Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram calados. Havia um constrangimento.

Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica que estudava, a

Medjé

de Gounod; mas havia uma passagem em que se embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano, batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois, mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se no sophá, dizendo:

—Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!...

Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza não lhe pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo n'aquella reserva uma diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado.

Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação differente. Ás vezes era a tia Joanna que lhe dizia á tarde: «A

Luizinha

lá sahiu hoje outra vez! Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo «estavam a cortar na pelle da pobre senhora»!

Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a

aria da Calumnia

no

Barbeiro de Sevilha

: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um passaro, subindo n'um crescendo aterrador até estalar como um trovão!

Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrára o Teixeira Azevedo, que lhe perguntára:

—Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por lá!

E aquella observação trivial aterrou-o.

Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro; ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia livros abertos;—e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas. A janella de peitoril dava para o saguão, d'onde vinha o cantar estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos.

Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era bonito! Para que soubesse o snr. Sebastião!

—De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia receber ahi um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra.

E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia!

Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito satisfeito, na abundancia de confiança que dá a excitação do trabalho, com grandes passadas pelo quarto:

—Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastião! Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu verás!

Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastião, então, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupações domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo:

—Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente...

Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escóla, amigo de Julião; e quasi immediatamente os dous recomeçaram uma discussão que tinham travado de manhã, e que fôra interrompida ás onze horas, quando o rapaz d'olhar doudo descêra a almoçar á Aurea.

—Não, menino!—exclamava o estudante exaltado.—Estou na minha! A medicina é uma meia sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio da vida!

E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:

—Que sabemos nós do principio da vida?

Sebastião, humilhado, baixou os olhos.

Mas Julião indignava-se:

—Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou contra o Vitalismo, que declarou «contrario ao espirito scientifico». Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos não são as mesmas que governam os corpos vivos—é uma heresia grotesca!—exclamava.—E Bichat que a proclama é uma besta!

O estudante, fóra de si, bradou—que chamar a Bichat uma besta era simplesmente d'um alarve.

Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idéas:

—Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os fins, mysterios! São causas primarias com que não temos nada a fazer, nada! Podemos batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. O physiologista, o chimico, não tem nada com os principios das cousas; o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos—n'uma pedra, como n'um desembargador! E a physiologia e a medicina são sciencias tão exactas como a chimica! Isto já vem de Descartes!

Travaram então um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que Sebastião attonito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéa de Deus.

O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe «uma hypothese safada», «uma velha caturrice do partido miguelista»! E começaram a assaltar-se sobre a questão social, como dous gallos inimigos.

O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o principio da authoridade! Julião berrava pela «anarchia individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da voz, censurou violentamente ao estudante—as suas inscripções a seis por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de proprietario que vinha de comer na Aurea!

Olharam-se, então, com rancor.

Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.

Sebastião tomou o chapéo.

—Adeus—disse baixo.

—Adeus, Sebastião, adeus—disse promptamente Julião.

Acompanhou-o ao patamar.

—E quando quizeres que eu falle a meu primo...—murmurou Sebastião.

—Pois sim, veremos, eu pensarei—disse Julião com indifferença, como se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça.

Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não se lhe póde fallar em nada, agora!

De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais habilidade mesmo...

Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento.

A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa:

—Pois não sabe?

—Não.

—Ai! até admira!

—Mas o que?

—A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma quéda. Tem estado muito mal, muito mal.

—Aqui?

—Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a snr.

a

D. Anna Silveira. Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi!

—Mas quando foi?

—Antes d'hontem á noite.

Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza.

A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luiza podia bem sahir todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!...

A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!...

Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a, que descia a escada, vestida de preto, de luva

gris perle

, com um véo negro.

—Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir?

Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, um pouco embaraçada.

—Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade...

—O quê?

—Torceu um pé. Está mal.

—Que me diz?

Sebastião deu os pormenores.

—Vou já lá.

—Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que está mal.—Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo a tipoia:—E muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... Pobre senhora! E diz que está n'um phrenesi!

Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graça da sua figura, esfregava as mãos satisfeito.

Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã, subir a rua, dissessem:—Lá vai fazer companhia á doente! Santa senhora!

O Paula estava á porta da loja—e Sebastião com uma idéa subita, entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes, tão habil!

Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o painel que representava D. João VI:

—Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula?

O Paula ficou surprehendido:

—O snr. Sebastião está a brincar?

Sebastião exclamou:

—A brincar?—Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre um papel escuro.—Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!

—Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns paineis a calhar.

—Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto?

O Paula disse, sem hesitar:

—Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre.

Era uma téla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de uma casaca de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E a parte mais conservada da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa real—que o artista trabalhára com uma minuciosidade enthusiasta, ou por preoccupação d'idiota, ou por adulação de cortezão.

Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escripto por traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a téla com amor; indicou as bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; jurou que o retrato pertencera ao paço de Queluz, e ia atacar as questões publicas—quando Sebastião disse resumindo:

—Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta.

—Leva uma rica obra!

Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar do «pé torcido de D. Felicidade», e procurava uma transição. Examinou umas jarras da India, um tremó; e avistando uma poltrona de doente:

—Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!—exclamou logo—aquella cadeira! Boa cadeira!

O Paula arregalou os olhos.

—Para a D. Felicidade Noronha—repetiu Sebastião.—Para estar deitada... Pois não sabia, homem? Partiu um pé, tem estado muito mal.

—A D. Felicidade, a amiga

de cá

?—e indicou com o pollegar a casa do Engenheiro.

—Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luiza vai para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para lá...

—Ah!—fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:—Mas eu ainda a vi entrar

para cá

ha-de haver oito dias.

—Foi antes d'hontem.—Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando muito umas gravuras:—De resto a D. Luiza já ia todos os dias á Encarnação, mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira. Não sahe da Encarnação! E agora é a D. Felicidade. Não é má massada!

—Pois não sabia, não sabia—murmurava o Paula, com as mãos enterradas nos bolsos.

—Mande-me o D. João VI, hein?

—Ás ordens, snr. Sebastião.

Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando o chapéo para o sophá: Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as apparencias!—Passeou algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste; porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios para com a visinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéa de que os não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam findar por algum tempo, mas

os seus

?... Queria achal-os falsos, pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua rectidão estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala:

—O resto é com a sua consciencia!

N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade de Noronha torcera um pé na Encarnação, (outros diziam quebrára uma perna), e que a D. Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com authoridade:

—É de boa rapariga, é de muito boa rapariga!

A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar á tia Joanna, «se era verdade da perna quebrada». A tia Joanna corrigiu: era o pé, torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D. Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.—Foi na Encarnação, acrescentou. Diz que anda tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá tem dormido...

—Pieguices de beatas!—rosnou com tedio o doutor.

Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo (que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S. Roque, parou, e com uma cortezia profunda:

—Desculpe vossencia. Como vai a sua doente?

—Melhor, agradecida.

—Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por este calor á Encarnação...

Luiza corou.

—Coitada! Não lhe falta companhia, mas...

—É de muita caridade, minha senhora—exclamou com emphase—Tenho-o dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de vossencia!

E afastou-se commovido.

Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. Tinha uma luxação simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o pé em compressas d'arnica, cheia de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e debicando petiscos.

Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava d'exclamações e de queixas; vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu que ia a cahir; ainda se sustentou, e pôde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!

Todas as senhoras concordavam «que era realmente um milagre». Olhavam-na compungidas, e iam ao côro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha!

A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolação, «deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber noticias d'

elle

, sem poder fallar d'

elle

!

E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luiza, chamava-a logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto? Sabia d'

elle

? —A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles pensamentos compassivos—a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto para o seu coração! Mas Luiza não

o

vira—e D. Felicidade, remexendo a chásada, exhalava suspiros agudos.

Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação—e ia tomar um trem ao Rocio: para não parar á porta do

Paraiso

com espalhafato de tipoia, apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso de prazer.

Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para não se enfastiar, só, tinha trazido para o

Paraiso

uma garrafa de cognac, assucar, limões—e com a porta entreaberta fumava, fazendo

grogs

frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criança, uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles, impacientava-se. Mas um

frou-frou

de vestido roçava a escada—e os tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar em casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava um pouco suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha tepida que havia nos seus hombros nús.

—E teu marido?—perguntava elle.—Quando vem?

—Não falla em nada.—Ou então:—Não recebi carta, não sei nada.

Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na alegria egoista da posse recente. Tinha então caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos pés d'ella; fazia voz de criança:

—Lili não ama Bibi...

Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.

—Lili adora Bibi!... É douda por Bibi!

E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fôra ao Gremio, jogára uns

robbers

, viera para casa cedo, sonhára com ella...

—Vivo para ti, meu amor, acredita!

E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade excessiva.

Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gôsto, de

toilette

: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabello, que não usasse botinhas de elastico.

Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe, amoldava-se ás suas idéas:—até affectar, sem o sentir, um desdem pela gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas.

E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio não se dava ao incommodo de se constranger; usava d'ella,

como se a pagasse

! Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia ir ao

Paraiso

», sem outras explicações! Uma occasião mesmo não foi, sem a avisar—e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou pela fechadura, esperou palpitante—e voltou muito desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.

Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento. Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava ás suas relações um ar mais parente, mais legitimo.

Mas Bazilio pulou:

—O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! não!...

—Mas conversa-se, faz-se musica...

—

Merci!

Conheço-a, a musica das

soirées

de Lisboa! A valsa do

Beijo

e o

Trovador

. Safa!

Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo offendera-a.

Ultimamente mesmo, quando ella entrava no

Paraiso

, já não tinha a delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na cama, e tirando preguiçosamente o charuto da bocca:

—Ora viva a minha flôr!—dizia.

E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os hombros, de exclamar:—Tu não percebes nada d'isso! Chegava a ter palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar que Bazilio não a estimava,—apenas a desejava!

Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que o adorava: o que lhe dava tanta exaltação no

desejo

, se não era a grandeza do

sentimento

?... Gozava tanto, é porque o amava muito!... E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este raciocinio subtil.

Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a tambem, não havia duvida. Aquella certeza era a sua justificação. E como era o Amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços voluptuosos com que ia todas as manhãs ao

Paraiso

!

Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia tambem apressada o Moinho de Vento.

—D'onde vinha vossê?—perguntára-lhe em casa.

—Do medico, minha senhora, fui ao medico.

Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar.

—Flatos! flatos!

Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito espartilhada no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha dizer a Joanna:

—Até logo, vou ao medico.

—Até logo, snr.

a

Juliana—dizia a cozinheira radiante.

E ia logo fazer signal ao carpinteiro.

Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro andar a sua intima amiga, a tia Victoria.

Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella, n'uma placa de metal, com letras negras: «

Victoria Soares, inculcadeira.

» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais complicada, muito tortuosa.

Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um vasto sophá occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de reps verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fôra salvo d'um incendio. Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D. Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima, entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore. Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira á porta, a uma mesa coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario!

O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido—em que se sentia a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho: pesados gallegos côr de greda, de passadas retumbantes e fórmas lôrpas: criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos.

Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão,—por cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.

Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas: velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercação mal abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos, arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva.

A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido rôxo,—ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho.

A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o seu

despacho

. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouvêa as correspondencias amorosas ou domesticas dos que não tinham ido á escóla; vendia vestidos em segunda mão; alugava casacas; aconselhava collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria. Tinha além d'isso muitas relações, infinitas condescendencias: celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes ás mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a tia Victoria tem mais manhas que cabellos!

Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana entrava—levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e «havia para meia hora»!

E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava depressa para casa; e mal entrava:

—A senhora ainda não voltou, snr.

a

Joanna?

—Ainda não.

—Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha! E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem! Espairecer!

Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso a paixão animal pelo rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.

a

Juliana andava «muito derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia:

—Vossemecê agora, snr.

a

Juliana, parece mais na bola da senhora!

—Na bola?

—Sim, quero dizer, mais aquella, mais...

—Mais apegada á senhora?

—Mais apegada.

—Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente tem os seus repentes... Que olhe, snr.

a

Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é dar louvores ao céo de estarmos n'este descanço.

—E é!

A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla: Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito só em casa, regalava-se com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação, inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O Conselheiro partira para Cintra, «dar umas ferias ao espirito, tinha elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». O snr. Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana, um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito de toda a casa, exclamou para Joanna:

—Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas!

E acrescentou, com uma risadinha:

—E eu ao leme!

VII

Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para o

Paraiso

, viu de repente sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura azafamada d'Ernestinho.

—Por aqui, prima Luiza!—exclamou elle logo muito surprehendido.—Por estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre!

Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para traz, e agitava com excitação um rolo grosso de papeis.

Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma amiga.—Oh! elle não conhecia, tinha chegado do Porto...

—Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o Jorge?—Desculpou-se logo de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma migalha livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios...

—Então sempre vai?—perguntou Luiza.

—Vai.

E enthusiasmado:

—E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão!—Agora vinha elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro acto:

Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei braço a braço com a sorte. Á lucta!

Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar parte que alterára o monologo do segundo acto. O empresario achava-o longo...

—Então continúa a implicar, o empresario?

Ernestinho fez uma visagem d'hesitação.

—Implica um bocado...—E com um rosto radioso:—Mas está delirante! Estão todos delirantes! Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade? Dizia-me elle: «Lesminha, na primeira representação cahe ahi Lisboa em peso! Vossê enterra-os a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o folhetinista da

Verdade

. Não conhece?

Luiza não se lembrava bem.

—O Bastos, o da

Verdade

!—insistia elle.

E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo:

—Ora não conhece outra cousa!—Ia descrever-lhe as feições, citar-lhes as obras...

Mas Luiza, impaciente, para findar:

—Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei!

—Pois é verdade, vou a casa d'elle.—Tomou um tom compenetrado:—Somos muito amigos, é muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...—E apertando-lhe muito a mão:—Adeusinho, prima Luiza, que não posso perder um momento. Quer que a vá acompanhar?

—Não, é aqui perto.

—Adeus, recados ao Jorge!

Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz d'ella.

—Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?

Luiza abriu muito os olhos.

—Á condessa, á heroina!—exclamou Ernestinho.

—Ah!

—Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada, e vão viver no estrangeiro. É mais natural...

—De certo!—disse vagamente Luiza.

—E a peça acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo:

E eu irei para a solidão morrer d'esta paixão funesta!

É de muito effeito!—Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:—Adeus, prima Luiza, recadinhos ao Jorge!

E abalou.

Luiza entrou no

Paraiso

muito contrariada. Contou o encontro a Bazilio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo, citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto...

E tirando o véo, o chapéo:

—Não, realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não vir tanto. Póde-se saber...

Bazilio encolheu os hombros, contrariado:

—Se queres não venhas.

Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:

—Obrigada!

Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as mãos, abraçou-a, murmurando:

—Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por tua causa...

—Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens certos modos...

Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos.

—Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás tão linda...

Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella «scena». Não—pensava—já não era a primeira vez que elle mostrava um desprendimento muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as más linguas fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... Já não tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensação que o fazia cahir de joelhos com as mãos tremulas como as d'um velho!... Já se não arremessava para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre uma presa estremecida!... Já não havia aquellas conversas pueris, cheias de risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dôce, com o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nús!—Agora! trocado o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella odiava o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!... E em quanto ella se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a, pôr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,—ou sentado, com um ar macambuzio, bamboleava a perna!

E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita, que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a cabeça alta, fallando no «espirito de madame de tal», nas

toilettes

da «condessa de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perdôe, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais intelligente, a mais captivante!... E já pensava um pouco que sacrificára a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem incerto!

Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se abertamente com elle. Direita, sentada no canapé de palhinha, fallou com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia bem que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por tanto humilhante para ella verem-se n'essas condições, e que julgava mais digno acabarem...»

Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo, uma affectação n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente, sorrindo:

—Trazias isso decorado!

Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso dos labios.

—Tu estás douda, Luiza?

—Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os dias, comprometto-me, e para que? Para te vêr muito indifferente, muito seccado...

—Mas, meu amor...

Ella teve um sorriso d'escarneo.

—

Meu amor!

Oh! são ridiculos esses fingimentos!

Bazilio impacientou-se.

—Já isso cá me faltava, essa scena!—exclamou impetuosamente. E cruzando os braços diante d'ella:—Mas que queres tu? Queres que te ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas não tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece, é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?...

—São tolices que tu fazias...

—Ao principio!—respondeu elle brutalmente.—Já nos conhecemos muito para isso, minha rica.

E havia apenas cinco semanas!

—Adeus!—disse Luiza.

—Bem. Vaes zangada?

Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas:

—Não.

Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os braços:

—Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o duetto do

Fausto

. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo queres tu mais? Porque te queixas?

Ella respondeu com um sorriso ironico e triste:

—Não me queixo. Tens razão.

—Mas não vás zangada, então.

—Não...

—Palavrinha?

—Sim...

Bazilio tomou-lhe as mãos.

—Dê então um beijinho em Bibi...

Luiza beijou-o de leve na face.

—Na boquinha, na boquinha!—E ameaçando-a com o dedo, fitando-a muito:—Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito, nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!—E sacudindo-lhe o queixo:—E vens ámanhã?

Luiza hesitou um momento:

—Venho.

Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido ás quatro horas, não tinha voltado, o jantar estava por acabar...

—Onde foi?

Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho.

Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto de piedade desdenhosa.

—Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!—disse.

Juliana olhou-a espantada.

—Está bebeda!—pensou.

—Bem, que se lhe ha-de fazer?—exclamou Luiza.—Esperarei...

E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:

—Que egoista, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que uma mulher se perde! É estupido!

Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que são os amores dos homens! Como teem a fadiga facil!

E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge!

Esse

não! Vivia com ella havia tres annos—e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, dedicado. Mas o

outro

! Que indigno!

Já a conhecia muito!

Ah! estava bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a por vaidade, por capricho, por distracção, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era! Mas amor? Qual!

E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se... Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe, para França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse, antevia alguma felicidade casando com elle? Não!

Mas então!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o seu coração vazio. O que a levára então para elle?... Nem ella sabia; não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E sentira-a por ventura, essa felicidade, que dão os amores illegitimos, de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor—vinha da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã prohibida, das condições do mysterio do

Paraiso

, d'outras circumstancias talvez, que nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro!

Mas que sentia d'extraordinario

agora

? Bom Deus, começava a estar menos commovida ao pé do seu amante, do que ao pé de seu marido! Um beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos! Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao pé de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornára para ella? era como um marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas então, valia a pena?...

Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e Bazilio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam? É que o amor é essencialmente perecivel, e na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a

começar

, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E apparecia-lhe então nitidamente a explicação d'aquella existencia de Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente a flôr da sensação!—E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo!

Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que era bem longe o

Paraiso

! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco, preguiçosa, saboreando a sua preguiça.

N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que ainda se demorava, mas que a sua viuvez começava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua casinha, na sua alcovinha?...»

Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma compaixão terna por Jorge, tão bom, coitado! um indefinido desejo de o vêr e de o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na até ás profundidades do seu sêr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe «que tambem já estava farta de estar só, que viesse, que era estupida semelhante separação...» E era sincera n'aquelle momento.

Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer «uma carta do hotel». Bazilio mostrava-se desesperado: «...Como não vieste, vejo que estás zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o teu amor que te domina: não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei até ás cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã. Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me aqui em Lisboa, etc.»

Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella. Mas se reconhecia agora,—que o não amava, ou tão pouco! E depois era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para ella. Mas se Bazilio realmente estivesse tão apaixonado!... As suas idéas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos contradictorios. Desejava estar tranquilla, «que a não perseguissem». Para que voltára aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada.

E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa! Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade, seccada,—tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que dão as expansões da reconciliação...

Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o com a testa franzida e muito aspero.

—Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem?

Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a attrahir, decidiu ser severo para a castigar.—E acrescentou:

—É uma criancice ridicula. Porque não vieste?

Aquelle modo enraiveceu-a:

—Porque não quiz.

Mas emendou logo:

—Não pude.

—Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza?

—E tu, é esse o modo com que me recebes?

Olharam-se um momento, detestando-se.

—Bem, queres uma questão? És como as outras.

—Que outras?

E toda escandalisada:

—Ah! é de mais! Adeus!

Ia sahir.

—Vaes-te, Luiza?

—Vou. É melhor acabarmos por uma vez...

Elle segurou o fecho da porta rapidamente.

—Fallas serio, Luiza?

—De certo. Estou farta!

—Bem. Adeus.

Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.

Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula:

—Então, é para sempre? Nunca mais?

Luiza parou, branca. Aquella triste palavra

nunca mais

deu-lhe uma saudade, uma commoção. Rompeu a chorar.

As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão fragil, tão desamparada!...

Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos.

—Se tu me deixares, morro!

Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.

Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava:

—Não me deixas nunca, não?

—Juro-t'o! Nunca, meu amor!

Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo acudiu-lhes—porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou:

—Se podesses aqui passar a noite!

Ella disse aterrada, quasi supplicante:

—Oh! não me tentes, não me tentes...

Bazilio suspirou, disse:

—Não, é uma tolice. Vai.

Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um sorriso:

—Sabes tu uma cousa?

—O que, meu amor?

—Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir!

Elle ficou desolado:

—Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...

—Que horas são, filho?

Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:

—Sete!

—Ai, Santo Deus!

Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente:

—Que tarde! Jesus! Que tarde!

—E ámanhã, quando?

—Á uma.

—Com certeza?

—Com certeza.

Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:

—Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo!

Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.

—Que é aquillo?

Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o cesto, com uma cortezia grave:

—Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome!

Era um

lunch

. Havia sandwichs, um

pâté de foie gras

, fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo.

—É brilhante!—disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer.

—Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!

Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos:

—E tu pensaste em mim, meu amor?

Os olhos d'ella responderam—e a pressão apaixonada dos seus braços.

Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a Luiza muito estroina, adoravel—e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de

champagne

. Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos.

Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor permanente, e

lunchs

ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,—e elle quiz-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber

champagne

. Talvez ella não soubesse!

—Como é?—perguntou Luiza erguendo o copo.

—Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe

champagne

por um copo. O copo é bom para o Collares...

Tomou um gole de

champagne

, e n'um beijo passou-o para a bocca d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.

Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma pomba fatigada.

Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter tanto

chic

, tanta

queda

? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!—E quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, murmurou reprehensivamente:

—Oh Bazilio!

Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova: tinha-a na mão!

Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar que havia de pensar n'ella toda a noite:—não queria que elle sahisse; tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:

—E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia.

—Não vaes vêr a D. Felicidade?

—Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a ti! só a ti!

—Ao meio dia?

—Ao meio dia!

Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,—estava tepida e serena. Chamou Juliana:

—Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.

a

D. Leopoldina.

Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:

—A senhora foi p'ra o Porto!

—P'ra o Porto!

Sim. Demorava-se quinze dias.

Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto solitario aterrava-a.

—Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita!

—Rica, minha senhora!

Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram logo para o

Hotel Central

.

Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes.

Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão intencionalmente que Luiza teve medo.—Era melhor voltarem—disse.

Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella.

Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao pescoço:

—Aonde mora, ó menina?

Agarrou aterrada o braço de Juliana.

A voz repetiu:

—Não se agaste, menina, aonde mora?

—Seu malcriado!—rugiu Juliana.

O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores.

Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se cahir na

causeuse

, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o

lunch

, o

champagne

bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se.

Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao

Paraiso

. O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e dôce.

E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, a cabeça alta.

Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:

—Que encontro verdadeiramente feliz!...

—Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem!

—E v. exc.

a

, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto!

Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao lado d'ella.

—Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão?

—De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar...

—Estive em Cintra, minha querida senhora.—E parando:—Não sabia? O

Diario de Noticias

especificou-o!

—Mas depois de vir de Cintra?

Elle acudiu:

—Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o meu livro...—E depois d'uma pausa:—Cujo nome não ignora, creio.

Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era a

Descripção pitoresca das principaes cidades de portugal e seus mais famosos estabelecimentos

.

—É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. exc.

a

quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer.

Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco.

—Está hoje muito agradavel!—disse ella.

—Agradabilissimo! Um dia creador!

—Que bom fresco aqui!

Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto.

O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!—E com bonhomia, querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:—Mas é que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador.

Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio inglez.—Muito preferiveis aos suissos!—acrescentou com ar profundo.

Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto—pensava—tinha tempo, tomaria um trem...

Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.

—Grande panorama!—disse o Conselheiro com emphase.—E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão má, e a edilidade tão negligente!

—Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!—exclamou.

Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós, minha senhora!—E acrescentou com uma voz respeitosa:—E Deus!

—Que bonito está o rio!—disse Luiza.

Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo:

—O Tejo!

Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as moitas de dhalias, passaros pousavam.

Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão altas...

—Por causa dos suicidios!—acudiu logo o Conselheiro.—E todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel como a imprensa os condemnava...

—Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!

—Se fossemos andando...?—lembrou Luiza.

O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe vivamente o braço:

—Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!—E acrescentou:—O exemplo deve vir de cima.

Foram subindo, e Luiza pensava:—Vai para casa, larga-me ao Loreto.

Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora depois do meio dia! Já Bazilio esperava!

Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.

—Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!

—Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.

a

m'o permitte. De certo não sou indiscreto?

—Ora essa! De modo nenhum.

Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote.

O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo.

—É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de dentro.—Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!—E ia de certo fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á porta da igreja, e sorrindo:

—Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, appareça.—Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.

—Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho pressa.—E com respeito:—Muito louvavel esse zelo!

Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro, calculando:—Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.

Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na cupula, e olhando Luiza de lado:

—Vai indo p'ra as duas.

Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no

Paraiso

nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas d'espadas, os Christos chagados,—cheia de impaciencias voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.—Viu-o logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos jurados.

Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a immoralidade que grassava...

—E além d'isso é de boa educação. V. exc.

a

ha-de reparar que toda a nobreza cumpre...

Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:

—Está um dia apreciavel!

E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou.

—Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.

A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar.

Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois d'hesitar pediu gravatas de

foulard

a um caixeiro louro e jovial.

—Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas?

—Sim, verei, sortidas.

Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa...

Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou exemplos.

Mas vendo-a calada:

—Ainda soffre?

—Não, estou bem.

—Temos dado um delicioso passeio!

Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa, uma occasião, um acontecimento—e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não enthusiasmasse com as bellezas d'um

Frei Luiz de Sousa

! mas a sua saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo...

Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente:

—Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.

O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão, com a voz rapida:

—Adeus, appareça, hein?—E precipitou-se para o portal do Vitry.

Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias.

Chamou um trem.

—A quanto puder!—exclamou.

A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do

Paraiso

. Figuras pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava fechada—e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa segredou:

—Já sahiu. Ha-de haver meia hora.

Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os

stores

para se esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu nos vidros

desesperadamente

, gritou:

—Ao Hotel Central!

Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de sensualidade!

A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim».

—Bem, para casa, para onde eu disse!

O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe viesse á cabeça!...

Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!—disse, subindo furiosa—Eu lhe mandarei pagar!

—Que bicha!—pensou o cocheiro.

Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão excitada.

Luiza foi direita ao quarto: o

cuco

cantava tres horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na cabeça, varria tranquillamente, cantarolando.

—Então vossê ainda não arrumou o quarto!—gritou Luiza.

Juliana estremeceu áquella colera inesperada.

—Estava agora, minha senhora!

—Que estava agora vejo eu!—rompeu Luiza.

—São tres horas da tarde e ainda o quarto n'este estado!

Tinha atirado o chapéo, a sombrinha.

—Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...—disse Juliana.

E seus beiços faziam-se brancos.

—Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, fazem-se-lhe as contas!

Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados:

—Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar!

E arremessou violentamente a vassoura.

—Sáia!—berrou Luiza—Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa!

Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a voz rouca:

—Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer!

—Joanna!—bradou Luiza.

Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:

—A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a cabeça!—E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:—Olhe que nem todos os papeis foram p'ra o lixo!

Luiza recuou, gritou:

—Que diz vossê?

—Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui!—E bateu na algibeira, ferozmente.

Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão, junto á

causeuse

, desmaiada.

VIII

A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte, afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente:

—Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.

a

Juliana?

—De repente.

—Eu vi-a entrar tão afogueada...

Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do rosto:

—Está melhor, minha senhora?

Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava estendida na

causeuse

, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar, com um olhar errante, vago:

—E a outra?...

—A snr.

a

Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não achava bem. Foi de vêr a senhora, coitada... Está melhorzinha?

Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscillar brandamente:

—Póde ir, Joanna, póde ir—disse.

—A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...

Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, as janellas cerradas. Uma luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; achava-se mudada, com

outra

expressão como se fosse

outra

; e o silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario.

—Minha senhora—disse a voz timida de Joanna.

—Que é?

—É o cocheiro.

Luiza voltou-se, sem comprehender:

—Que cocheiro?

—Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou esperar...

—Ah!

E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decoração, viu, n'um relance, toda a «sua desgraça»!

Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda:

—Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...—balbuciava.

Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a

causeuse

:

—Estou perdida!—murmurou, apertando as mãos na cabeça.

Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros; e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.

Que lhe restava?—Fugir com Bazilio!

Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, trespassou-a—como a agua d'uma inundação que subitamente alaga um campo.

Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu

appartamento

da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul—ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, n'outras cidades...

—Se a senhora quer vir jantar...—disse Joanna á porta do quarto.

Tinha posto um avental branco, e acrescentou:

—A snr.

a

Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde servir á mesa.

—Já vou.

Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e erguendo-se:

—Que tem ella?

—Diz que é uma dôr muito forte no coração.

Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma esperança perversa:

—Vá vêr, Joanna, vá vêr como está!

Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver...

—Está mais descançada, minha senhora—veio dizer a Joanna—diz que logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo!

—Não.

E entrou para o quarto, pensando:—de que serve estar a imaginar cousas? Só me resta fugir.

Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula:

Meu amigo!

Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem á tarde, nem á noite—as criadas, a

outra

, a infame! iriam logo a Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de a vêr chegar, decepções aterradas,—até que telegrapharia a Jorge! E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao ruido offegante da machina, para um destino novo!...

Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer

crochet

, e partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle «desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria sempre uma timidez maior para a reter!

E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem; não teria de amar em casa e amar fóra de casa!

Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e os bebedos...

Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha

sete

:

cinco

bilhetes curtos, e

duas

cartas—a primeira que elle lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... Faltava, com effeito, a

primeira

, e

dous

bilhetes! Tinha-lh'as roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... Que lhe importava, por fim!—E deixou-se cahir na

causeuse

, aniquilada—Que ella tivesse uma, duas, todas—era a mesma desgraça!

E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o chapéo, um chale-manta...

O

cuco

cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára aquella coberta de

crochet

no primeiro anno de casada: não havia uma malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante semanas elle não se deitára—a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: «Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que voltava, lhe refrescava o sangue!

Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na

causeuse

, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar por ella—senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho,—tinha-as coberto de beijos!

E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar alli na alcova—visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! Dormiria alli

só

! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe:

é tarde, Jorge!

Tudo acabára para ambos. Nunca mais!—Rompeu a chorar, de bruços sobre a cama...

Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina.

—A snr.

a

Juliana—disse—levantou-se um momento, mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada?

—Não—disse da alcova.

Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.

Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe—e agitava-se sobre o enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no

sarcophago

vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a

esperança

tão larga que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no

sarcophago

! Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da «cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho:

—Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus!

E que havia de fazer

áquillo

?—foi então a sua inquietação. Ora pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças de a publicar, extorquir-lhe

um rôr

de libras por meio d'outra pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as

toilettes

, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa que a lama, vingar-se da «cabra»!

Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Victoria—que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta.

A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:

—Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo!

A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana:

—Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto. É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo!

E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito comsigo—aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a patroa, a

piorrinha

! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem—e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente

senhora da casa

. Tinha alli fechada na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra!

E o futuro estava certo!

Aquillo

era dinheiro, o pão da velhice. Ah! tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma

Salvè-rainha

de graças a Nossa Senhora, mãi dos homens!

Mas agora, depois d'aquella

scena

com Luiza—não podia ficar de braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, pôr-se em campo, fazer

alguma cousa

. O que? A tia Victoria é que havia de dizer...

Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a Joanna, desceu devagar, sahiu.

A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os

bons dias

em redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos.

Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos:

—Pois não imagina, snr.

a

Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo!

—Quem?—perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca enxovalhada.

—O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!

—Piteireiro, hein?—disse o rapazola, enrolando o cigarro.

—Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente!

—Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande—disse, baixando a voz, a do chale de quadrados.

Os dous homens aproximaram-se.

—O senhor—continuou ella com gestos aterrados—é um desafôro com a cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal!

—E então se a gente tem lá o seu descuido—disse o da gravata branca com indignação—é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli!

—Lá a sua gente é socegada, snr. João—observou a picada das bexigas.

—É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!

E voltando-se para o trintanario,

batendo-lhe

no hombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:

—Mas isto sim! Isto é que é leval-a!

O rapazola sorriu com satisfação:

—Ora! são mais as vozes do que as nozes!

—Vá lá, mostra lá—disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovêlo—mostra lá!

O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro.

—Muito bonito! Rica prenda!—disseram as duas mulheres.

—Suor do meu rosto—fez elle, acariciando o queixo.

O da gravata branca indignou-se:

—Ora seu marôto!—E baixo para as raparigas:—Suor do seu rosto, hein!—É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas—e ainda falla!

O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:

—E se quizer agora, ha-de largar a corrente!

—Ha-de-lhe custar muito!—exclamou o da gravata branca.—Uma gente que tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros é d'ella!

—Mas muito agarrada!—disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da bocca:—Estou com ella ha dous mezes, e ainda se não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe o pé!—E cofiando o cabello para a testa:—Não faltam mulheres! e das que tem

Dom

!

Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e vendo Juliana:

—Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. Bons dias, snr.

a

Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é um instante!

Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:

—E então, que ha de novo?

Juliana pôz-se a contar longamente a

scena

da vespera, o desmaio...

—Pois minha rica—disse a tia Victoria—o que está feito, está feito; não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e entendes-te com elle.

Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo...

A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto:

—Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?

Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com desconfiança.

—Tens medo de largar os papeis, creatura?—exclamou offendida a velha.—Arranja-te tu, então arranja-te tu...

Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...

—A pessoa—disse a tia Victoria—vai ámanhã á noite fallar com o Brito, e pede-lhe um conto de reis!

Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava a brincar!

—Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem—ainda hontem a vi com uma pequerrucha que tem—pagou trezentos mil reis. E em bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo...

Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula:

—Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda.

—Azul! até já te digo a côr!

—Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma!

A tia Victoria fitou-a, com desdem:

—Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir!

E depois de reflectir um momento:

—Tu vai-te para casa...

—Não, lá isso não volto...

—Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada...

—Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia...

A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada:

—Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia! Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus—e ás quatro para jantar, hein!

Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis!

Era o conto de reis

que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um

frou-frou

de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das boas, das

chics

. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da arca—para estar mais seguro, mais á mão!

Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietario pacifico e rubicundo—que se afastou escandalisado!

Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:—É hoje!—foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, quando a voz de Joanna disse á porta do quarto:

—A senhora faz favor?

Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.

a

Juliana tinha sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar...

—Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...—Que allivio para ella!

Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar Bazilio no

Paraiso

.

Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá,

de pé

, á pressa.

—A snr.

a

Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?—veio dizer Joanna assombrada.

Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente:

—Depois se saberá...

Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir; sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou emfim.—Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete felpudo...—Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.

Á Patriarchal passava um

coupé de praça

. Tomou-o, mandou-o ir ao

Hotel Central

.

O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um desejo de viagens, do ruido nocturno das

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