ENIGMAS
Reading edition
Principio do mundo sou O meu ser é um, e é trino Não sou deus, nem o imagino E em todas as partes estou.
No mundo faço a principal figura Entre os homens me vês, e não me sentes Se dizes sou ar, agua ou fogo mentes; Mas em todas as partes me procura.
Sou o primeiro, a morrer sem ser gerado, Estou com o demonio no inferno E no meio do tempo sem ser passado. (E. A letra—M.)
Sou femea e sou triste Mui secreta e repousada, De corpo e alma privada, E só trage negro me assiste Sendo de muitos estimada. (A noite.)
Em as mãos das damas Quasi sempre estou mettido Umas vezes estirado E outras vezes encolhido. (O Leque.)
Quem será um velho ligeiro Que tem quatro movimentos, E doze repartimentos, Que a qualquer passageiro, Dá mais penas que contentos? (O Anno.)
Ha um filho de um velho Que tem mais onze irmãos Sem cabeças, pés, nem mãos, Que nos causa a differença De estarmos doentes ou sãos. (O Mez.)
Dou o sangue ás veias E tambem por meus amores Me transformo em mil flores, Misturadas com as assucenas E rozas de todas as côres. (A Primavera.)
Todos dizem que sou navio, Chamando-me tardo, e ligeiro, Que ao pobre, e cavalleiro Roubo como grande corsario, Sendo um velho passageiro. (O tempo.)
Quem é um grande senhor, Que foi nascido da terra, E tem armas de paz, e guerra, E que a uns dá grande valor E a outros sua ausencia interra? (O dinheiro.)
O meu principio foi de ervas Depois me pintaram de côres E costumo a dar dissabores, E mortes tenho causado acerbas. E a pobreza a muitos senhores. (As cartas de jogar.)
Qual é a cousa que Deus nunca viu Nem terá de vêr?—Resposta—Outro igual a elle.
Qual é a cousa que em tudo poisa? Resposta—É o nome.