SEGUNDA PARTE PERY
Reading edition
I O CARMELITA
Corria o mez de março de 1603.
Era portanto um anno antes do dia em que se abrio esta historia.
Havia á beira do caminho que então servia ás raras expedições entre o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um vasto pouso onde habita vão alguns colonos e indios cathequisados.
Estava quasi a anoitecer.
Uma tempestade secca, terrivel e medonha, como as ha frequentemente nas faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoutava as grossas arvores que vergavão os troncos seculares; o trovão ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céo; o relampago amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a natureza nadava n'um oceano de fogo.
No vasto copiár do pouso havia tres pessoas contemplando com um certo prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados com elles, não deixava de ter alguma belleza.
Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade.
O segundo, encostado n'um dos esteios de jacarandá que sustentavão o tecto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta annos; a sua physionomia apresentava uns longes do typo da raça judaica; tinha os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até perder-se no matto.
Defronte delle, tambem apoiado sobre a outra columna, estava um frade carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o progresso da borrasca; animava-lhe o rosto bello e de traços accentuados um raio de intelligencia e uma expressão de energia que revelava o seu caracter.
Ao ver esse homem sorrindo á tempestade e affrontando com o olhar a luz do relampago, conhecia-se que sua alma tinha a força de resolução e a vontade indomavel capaz de querer o impossivel, e de lutar contra o céo e a terra para obtê-lo.
Fr. Angelo di Luca achava-se então no pouso como missionario, incumbido da cathequese e cura das almas entre o gentio daquelle lugar; em seis mezes que apostolava conseguira aldear algumas familias que esperava breve trazer ao gremio da igreja.
Um anno havia que obtivera do prior geral da ordem do Carmo a graça de passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, afim de empregar-se no trabalho das missões.
Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente enthusiasmo apostolico, o havião recommendado expressamente a Fr. Diogo do Rosario, então prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, pedindo-lhe que empregasse no serviço do Senhor e na gloria da ordem da Beatissima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão Fr. Angelo di Luca.
Eis a razão por que o filho de um pescador, sahido das lagunas de Veneza, achava-se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor.
—Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava deitado na rede.
—Ao quarto d'alva, respondeu o outro sem voltar-se.
—E o tempo que vai fazer?
—Não é isso que me estorva, hem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita caçada!... Receiais que vossos homens não tornem della a tempo?
—Receio que não os leve á todos a bréca por esses mattos com semelhante borrasca.
O frade voltou-se:
—Aquelles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão, em andurriaes como neste pouso; os máos é que devem tremer o fogo do céo, e a estes não ha abrigo que os salve.
Fernão Aines sorrio ironicamente.
—Crêdes isso, Fr. Angelo?
—Creio em Deus, irmão.
—Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ahi mettido n'algum despenhadeiro.
—Comtudo, acudio Nunes, o que diz o nosso reverendo missionario...
—Ora deixa fallar Fr. Angelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade; lá seria a tempestade que zombaria de mim.
—Fernão Aines!... exclamou Nunes.
—Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo.
O silencio se restabeleceu.
De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que havia defronte do pouso.
A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no fundo do alpendre.
Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco.
O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque violento que soffrêra.
Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço, e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas palavras:
—Castigo do céo!
Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o remedio espiritual; com a voz fraca pedio a Fr. Angelo que o ouvisse de confissão.
Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro.
Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que ia gradualmente enfraquecendo.
—Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o meu crime.
—Fallai, irmão; eu vos escuto.
—Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor acolhimento.
«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo resultado seria grande riqueza para nós ambos.
«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que abrio-se inteiramente comigo.
«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa.
«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se achar o lugar onde estão situadas as ditas minas.
«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente.
«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...»
O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz debil:
«Já então com a chegada do governador D. Francisco de Souza se sabia que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas, e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar silencio.
«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao menos lograr o premio.
«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que, necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus riscos e esperanças.
«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi o meu primeiro erro!...»
A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras balbuciadas pelo moribundo.
—Coragem, filho!
—Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um crime! Assassinei meu parente; e sua mulher...
—E... exclamou o frade com a voz surda.
E roubei o segredo!
O frade sorrio nas trevas.
—Agora só me resta a misericordia de Deus, e a reparação do mal que fiz... Roberio é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero que este papel lhe seja entregue... Prometteis, Fr. Angelo?...
—Prometto! O papel?...
—Está... occulto...
—Aonde?
—Nes... ta...
O moribundo agonisava.
Fr. Angelo, debruçado inteiramente sobre elle, com o ouvido collado á sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o ultimo sopro da vida, afim de tirar delle uma palavra ainda.
—Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava.
O enfermo agonisava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga como a lampada que bruxoleia, agitavão apenas o corpo enregelado.
Por fim o frade viu-o levantar o braço hirto, apontando para a parede, e sentio os seus labios gelados e convulsos que tremêrão, lançando no seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito.
—Cruz!...
Fr. Angelo ergueu-se circulando o aposento com a vista allucinada; na cabeceira da cama havia um Christo de ferro sobre uma grande cruz de páo tosca e mal lavrada.
Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços da madeira appareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que estivera.
Quebrou com os dentes o sello do papel; chegando á janella leu á claridade vacillante do relampago as primeiras palavras de um rotulo de letras vermelhas, que rezava nestes termos:
«Roteiro verídico e exacto em que se trata da rota que fez Roberio Dias, o pai, em o anno da graça de 1587 ás paragens de Jacobina, onde descobrio com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que existão no mundo; com a summa de todas as indicardes de marcos, balisas e linha equinocial onde demorão aquellas ditas minas; começado em 20 de janeiro, dia do martyr S. Sebastião, e terminado na primeira dominga de Paschoa em que chegámos com a mercê da Providencia nesta cidade de S. Salvador.»
Emquanto o frade esforçava para ler, o moribundo agonisava na ultima afflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema uncção do penitente.
Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas mãos; deixou-se cahir em um banco, e com a cabeça pendida sobre o braço, entregou-se á funda meditação.
Que pensava elle?...
Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada lhe apresentava um mar argenteo, um oceano de metal fundido, alvo e resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de prata, ora achamalotavão-se, ora rolavão formando frocos de espuma, que parecião flores de diamantes, de esmeraldas e rubins scintillando á luz do sol.
Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta, virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo.
Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma sinistra; o peccador expirava impenitente.
Fr. Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro, e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta.
Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre.
O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta, deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes.
—Consumatum est, irmão! disse elle com um tom compungido.
—Deus tenha sua alma!
—Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu ultimo voto, que é uma reparação...
—De um grave peccado?
—De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a Fr. Diogo do Rosario, nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais novas de mim.
O frade escreveu á claridade de uma acha de páo candeia algumas linhas ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo-se de Nunes partio.
Quando dobrava o canto do pouso o céo abrio-se, e a terra incendiou-se com a luz de um relampago tão forte que o deslumbrou. Dous raios, descrevendo listras de fogos, tinhão cabido sobre a floresta e espalhado em torno um cheiro de sulphur que asphyxiava.
O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da scena da tarde, do tremendo castigo que elle proprio havia evocado na sua hypocrisia, e se realisára tão promptamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo ainda e pallido de terror, o reprobo levantou o braço como desafiando a colera do céo, e soltou uma blasphemia horrivel:
—Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e poderoso, contra a vontade do mundo inteiro!
Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de Satanaz precipitado no abysmo pela sentença irrevogavel do Creador.
Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionario conseguira aldear algumas familias de indios; entrou e acordou um dos selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanha-lo apenas rompesse o dia.
A chuva cahia em torrentes; o vento açoutava as paredes de sapé, esfusiando por entre a palha.
O frade passou a noite em claro, reflectindo e traçando no seu espirito um plano infernal, para cuja realisação não trepidaria diante de nem um obstaculo; de vez em quando levantava-se para ver se o horizonte já se illuminava.
Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o tempo estava sereno.
O carmelita acompanhado pelo selvagem partio: vagou pela floresta e pelo campo em todas as direcções; alguma cousa procurava. Elle avistou depois de duas horas a touca de cardos junto da qual se passou a ultima scena que narrámos; examinou-a por todos os lados e sorrio de satisfeito. Trepando á arvore escorregando pelo cipó, entrárão elle e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido ha pouco.
No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda os traços do carmelita Fr. Angelo di Luca.
Este aventureiro chamou-se Loredano.
Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo; isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver.
Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma que o irmão Fr. Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de sua fé apostolica.
II YARA!
Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a familia de D. Antonio de Mariz estava reunida na margem do Paquequer.
O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura, tornavão aquelle retiro pittoresco.
Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio, do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das aves concertava com o trepido murmurio das aguas.
Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da frescura deliciosa que alli se respirava.
D. Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova de Bernardim Ribeiro.
Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse folguedo um vivo prazer.
Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva, que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete: e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.
Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave painel que formava esse grupo de familia.
De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:
—Yara!
E um vocabulo guarany: significa a senhora.
D. Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro original.
De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha, um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela encosta.
O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.
A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da collina.
Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava.
Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á morte, foi para D. Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento, que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que era toda a sua vida.
No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão.
Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no perigo que já estava passado.
Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem, arrancando a relva e ferindo o chão. D. Antonio, ainda pallido e tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um genio bemfazejo das florestas do Brazil.
O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a si proprio da morte.
Quanto ao sentimento que dictára esse proceder, D. Antonio não se admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre.
Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava de transformar de modo tão imprevisto.
D. Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças; Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de admiração sobre a moça que tinha salvado.
Por fim D. Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.
—De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany.
—Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez.
—Como te chamas?
—Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu.
—Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça, conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a minha amizade.
—Pery aceita; tu já eras amigo.
—Como assim? perguntou D. Antonio admirado.
—Ouve.
O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves das florestas virgens, esta simples narração:
«Era o tempo das arvores de ouro.
«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de guerra.
«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse:
«—Pai morreu; aquelle que fôr o mais forte entre todos, terá o arco de Ararê. Guerra!»
«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra!
«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma guerra. Houve sangue, houve fogo.
«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia na taba dos brancos uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.
«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.
Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos os guerreiros.
Sua mãi chegou e disse:
«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és forte como teu pai; tua mãi te ama.
«Os guerreiros chegárão e disserão:
«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.
«As mulheres chegárão e disserão:
«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas.
«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.
«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto a senhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio.
«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz.
«O fogo passou; a casa da cruz cahio.
«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e fallou assim:
«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como a estrella grande acompanha o dia.
«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra; todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a terra, e Pery não podia subir ao céo.
«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos.
«Assim Pery ficou triste.
«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus olhos.
«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai.
«Veio o tempo da guerra.
«Partimos; andámos; chegámos ao grande rio. Os guerreiros armárão as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol.
«Vio passar o gavião.
«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo.
«Vio passar o vento.
«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar.
Vio passar a sombra.
«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.
«Os passarinhos dormirão tres vezes.
«Sua mãi veio e disse:
«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca tambem.
«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser amigo; e a filha da senhora para ser escravo.
«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou longe a tua casa grande.
«A virgem branca appareceu.
«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas.
«Pery disse:
«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do sol, acompanhará a senhora na terra.
«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.
«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora ficasse triste, e voltasse ao céo.
«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da nação Goytacaz, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és amigo.»
O indio terminou aqui a sua narração.
Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.
Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto reconhecia.
D. Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.
Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous dias por D. Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.
—Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.
—E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais aos filhos.
—Tu cearás comnosco.
—Pery te obedece.
A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia, acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada.
D. Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas mãos do indio.
—É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu pai.
O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento.
—Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo.
A campa do terreiro tocou annunciando a ceia.
O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito, não sabia como se ter.
Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.
Por fim D. Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.
—Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.
—E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.
A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de Cecilia.
III GENIO DO MAL
Pery voltou por differentes vezes á casa de D. Antonio de Mariz.
O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta.
Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança.
Em Isabel o indio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a presença de um homem daquella côr; lcmbrára-se de sua mãi infeliz, da raça de que provinha, e da causa do desdem com que era geralmente tratada.
Quanto a D. Lauriana, via em Pery um cão fiel que tinha um momento prestado um serviço á familia, e a quem se pagava com um naco de pão. Devemos porém dizer que não era por mão coração que ella pensava assim, mas por prejuizos de educação.
Quinze dias depois que Cecilia fôra salva por Pery, uma manhã Ayres Gomes atravessou a esplanada e foi ter com D. Antonio que estava no seu gabinete.
—Sr. D. Antonio, esse estrangeiro a quem déstes hospedagem ha duas semanas, pede-vos audiencia.
—Manda-o vir.
Ayres Gomes introduzio o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano em que se havia transformado o carmelita Fr. Angelo di Luca.
—Que desejais, amigo, faltárão-vos em alguma cousa?
—Ao contrario, Sr. cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria ficar.
—E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o nome do que chega, tambem não lhe inquire o tempo da partida.
—A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, Sr. cavalheiro; mas não é della que desejo fallar.
—Explicai-vos então.
—Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e filhos que lhe chegarão do Reino.
—Sim; já hontem me fallou disso.
—Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso inconveniente.
—Nem um absolutamente.
—Nesse caso posso considerar-me como admittido?
—Attendei; Ayres Gomes vai dizer-vos as condições a que vos sujeitais; se estiverdes por ellas é negocio decidido.
—Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo.
—Ide sempre.
O fidalgo chamou o seu escudeiro, e incumbio-o de pôr o italiano ao facto das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu serviço. Era este um dos privilegios de Ayres Gomes, que o desempenhava com toda a gravidade de que era susceptivel a sua personagem um tanto grotesca.
Chegados á esplanada, o escudeiro perfilou-se, e proferio o seguinte introito:
—Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que se sujeita todo aquelle que entrar á soldada na banda do Sr. cavalheiro D. Antonio de Mariz, fidalgo cota d'armas, do tronco dos Marizes em linha recta.
Aqui o escudeiro molhou a palavra e proseguio.
—Primo: Obedecer sem repinicar. Quem o contrario fizer pereça morte natural.
O italiano fez um gesto de approvação.
—Isto quer dizer, misser Italiano, que se um dia o Sr. D. Antonio vos mandar saltar deste rochedo em baixo, fazei a vossa oração e saltai; porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Ayres Gomes, lá ireis.
Loredano sorrio.
—Segundo: Contentar-se com o que ha. Quem o contrario...
—Com o vosso respeito, Sr. Ayres Gomes, não vos deis a um trabalho inutil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de continuar.
—Que quereis dizer?
—Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me descreverão a ceremonia que ora pondes em pratica.
—Não obstante...
—Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quizerdes.
E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigio-se para o gabinete de D. Antonio, emquanto o escudeiro, zangado por não ter levado ao fim a scena de iniciação a que dava tão grande valor, resmungava:
—Não póde ser boa casta de gente?
Loredano apresentou-se a D. Antonio.
—Então? disse o fidalgo.
—Aceito.
—Bem; agora só falta uma cousa, que Ayres Gomes não vos disse naturalmente.
—Qual, Sr. cavalheiro?
—É que D. Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de toda a familia a que actualmente pertenceis.
O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a alteração da physionomia.
Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que vimos revelar-se um anno depois.
Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro caminhou direito á casa de D. Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.
Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se vira possuidor do roteiro de Roberio Dias.
Iria á Europa vender o seu segredo a Felippe III ou a qualquer outro soberano de uma nação poderosa e inimiga da Hespanha?
Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu serviço esse thesouro fabuloso que devia eleva-lo ao fastigio da grandeza?
Esta ultima idéa lhe sorria mais; entretanto não tomou nem uma resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, alliviado desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu, como dissemos, ir pedir hospitalidade a D. Antonio de Mariz.
Ahi formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com elle marcharia á riqueza, á fortuna, ao poder.
Chegado á casa do fidalgo, o ex-carmelita com o seu espirito de observação estudou o terreno e achou-o favoravel á realisação de uma idéa que começou logo a germinar no seu espirito até que tomou as proporções de um projecto.
Homens mercenarios que vendem a sua liberdade, consciencia e vida por um salario, não tem dedicação verdadeira senão a um objecto, o dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. Fr. Angelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no regimento da banda, avaliou do caracter dos aventureiros.
—Esses homens me servirião perfeitamente, disse elle comsigo.
No meio dessas reflexões um facto veio produzir completa revolução nas suas idéas.
Viu Cecilia.
A imagem dessa bella menina, casta e innocente, produzio naquella organisação ardente e por muito tempo comprimida o mesmo effeito da faisca sobre a polvora.
Toda a continencia da sua vida monastica, todos os desejos violentos que o habito tinha sellado como uma crosta de gelo, todo esse sangue vigoroso e forte da mocidade, passada em vigilias e abstinencias, refluirão ao coração e o suffocárão um momento.
Depois um extasis de voluptuosidade immensa embebeu essa alma velha pela corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração revelava-se com toda a vehemencia da vontade audaz, que era o movel de sua vida.
Sentio que essa mulher era tão necessaria á sua existencia, como o thesouro que sonhava; ser rico para ella, possui-la para gozar a riqueza, foi desde então o seu unico pensamento, a sua idéa dominante.
Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lugar e o obteve como acabamos de ver; o seu plano estava traçado.
Qual era, já o sabemos pelas scenas passadas; o italiano contava tornar-se senhor da banda, apoderar-se de Cecilia, ir ás minas encantadas, carregar tanta prata quanta podesse levar, dirigir-se á Bahia, assaltar uma náo hespanhola, toma-la de abordagem, e fazer-se de vela para a Europa.
Ahi armava navios de corso, voltava ao Brazil, explorava o seu thesouro, tirava delle riquezas immensas e... E o mundo abria-se diante de seus olhos cheio de esperança, de futuro e felicidade.
Durante um anno trabalhou nessa empreza com uma sagacidade e intelligencia superior; ganhara os dous homens influentes da banda. Ruy Soeiro e Bento Simões; por meio delles preparava o desenlace final.
Ignorado pelos outros elle dirigia essa conspiração que lavrava surdamente; só havia em toda a banda duas pessoas que o podião perder. Ora, Loredano não era homem que deixasse de prever a eventualidade de uma traição, e que entregasse aos seus dous complices uma arma com que podessem feri-lo; dahi a lembrança desse testamento que entregára a D. Antonio de Mariz.
Sómente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o italiano dissera a Ruy Soeiro, elle havia apenas indicado a traição dos dous aventureiros, declarando-se seduzido por elles; o frade mentia pois até na hora extrema em que o papel devia fallar.
A confiança que tinha, e com razão, no caracter de D. Antonio tranquillisava-o completamente; sabia que em caso algum o fidalgo abriria um testamento que lhe fôra dado em deposito.
Eis como Fr. Angelo di Luca achava-se sob o seu novo nome de Loredano, pertencendo á casa de D. Antonio de Mariz e preparando-se para realisar a final o seu pensamento de todos os instantes.
Um anno havia que esperava, e como elle dizia estava cançado: resolvera dar emfim o golpo e para isso, depois de haver esmagado os dous complices com a sua ameaça, depois de os haver reduzido a automatos obedecendo ao seu gesto; entendeu que seria conveniente ao mesmo tempo animar esses manequins com algum sentimento que lhes désse o atrevimento, a audacia e a força necessaria para se lançarem na voragem, e não trepidarem diante de nenhum obstaculo.
Este sentimento foi a ambição.
Á vista do roteiro era impossivel que não sentissem a febre da riqueza, a auri sacra fames que se havia apoderado delle proprio, no momento em que vira abrir-se diante de seus olhos um mar de prata fundida em que os seus labios podido matar a sede ardente que o devorava.
O effeito não desmentio a sua previsão; lendo o rotulo, cada um dos aventureiros ficára electrisado; para tocar aquelle abysmo insondavel de riquezas, nem um delles hesitaria em passar sobre o corpo de seu amigo, ou mesmo sobre as cinzas de uma casa ou a ruina de uma familia.
Infelizmente aquella voz inesperada, sahida do seio da terra, viera modificar a situação.
Mas não anticipemos; por ora ainda estamos em 1603, um anno antes daquella scena, e ainda nos faltão contar certas circumstancias que servirão para o seguimento desta veridica historia.
IV CECY
Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa de D. Antonio de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente.
O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa, senão quando via de longe a D. Antonio de Mariz passeando sobre a esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do velho fidalgo sentia por elle alguma estima.
Havia quatro dias que o selvagem não apparecia; D. Antonio suppunha já que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes.
A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo de S. Thomé e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas.
Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco Fernandes Coutinho.
Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe.
O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que lhe inspirava.
Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse.
O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe:
—Vinde ver Pery, que chega, meu pai.
—Ah! inda bem, respondeu o fidalgo.
E acompanhando sua filha, D. Antonio foi ao encontro do indio que já subia a esplanada.
Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os pequenos habitantes desse ninho gracioso.
O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro; alguns conseguirão escapar-se.
Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um fructo.
A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e delicadas!
Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as flôres na terra e as estrellas no céo.
Quando Cecilia se cansou de admira-los, tomou-os um por um, beijou-os, aqueceu-os no seio, e sentio não ser uma flôr bella e perfumada para que elles a beijassem tambem, e esvoaçassem constantemente em torno della.
Pery olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvára, tinha sabido fazer uma cousa, que trouxera um sorriso de prazer aos labios da senhora. Entretanto, apezar dessa felicidade que sentia interiormente, era facil de vêr que o indio estava triste; elle chegou-se para D. Antonio de Mariz e disse-lhe:
—Pery vai partir.
—Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos?
—Sim: Pery volta á terra que cobre os ossos de Ararê.
D. Antonio encheu o indio de presentes dados em seu nome e em nome de sua filha.
—Perguntai a elle por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse Cecilia.
O fidalgo traduzio a pergunta.
—Porque a senhora não precisa de Pery, e Pery deve acompanhar sua mãi e seus irmãos.
—E se a pedra quizer fazer mal á senhora quem a defenderá? perguntou a menina sorrindo e fazendo allusão á narração do indio.
Ouvindo dos labios de D. Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e elle não estivesse junto della para salva-la.
—Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica.
Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no fundo do seu coração de moça.
Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés submissa, vencida, escrava!...
Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se diante do seu olhar.
As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem, o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los.
Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.
Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade.
—A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.
O indio comprehendeu perfeitamente o gesto.
—Pery fica.
—Vêde, Cecilia, replicou D. Antonio rindo: elle te obedece!
Cecilia sorrio.
—Minha filha te agradece o sacrificio, Pery, continuou o fidalgo; mas nem ella nem eu queremos que abandones a tua tribu.
—A senhora mandou, respondeu o indio.
—Ella queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está satisfeita; consente que partas.
—Não!
—Mas os teus irmãos, tua mãi, tua vida livre?
—Pery é escravo da senhora.
—Mas Pery é um guerreiro e um chefe.
—A nação goytacaz tem cem guerreiros fortes como Pery; mil arcos ligeiros como o vôo do gavião.
—Assim, decididamente queres ficar?
—Sim; e como tu não queres dar a Pery a tua hospitalidade, uma arvore da floresta lhe servirá de abrigo.
—Tu me offendes, Pery! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta para todos, e sobretudo para ti que és amigo, e salvaste minha filha.
—Não, Pery não te offende; mas sabe que tem a pelle côr de terra.
—E o coração de ouro.
Emquanto D. Antonio continuava a insistir com o indio para que partisse, ouvio-se um canto monotono que sahia da floresta.
Pery applicou o ouvido; descendo á esplanada correu na direcção donde partia a voz, que cantava com a cadencia triste e melancolica particular aos indios, a seguinte endeixa na lingua dos Guaranys:
«A estrella brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas azas.
«A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.
«Na guerra os guerreiros combatem; ha sangue. Na paz as mulheres trabalhão; ha vinho.
«A estrella brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de andar.»
A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma india já idosa; encostada a uma arvore da floresta ella vira por entre a folhagem a scena que passava na esplanada.
Chegando-se a ella, Pery ficou triste e vexado.
—Mãi!... exclamou elle.
—Vem! disse a india seguindo pela matta.
—Não!
—Nós partimos.
—Pery fica.
A india fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.
—Teus irmãos partem!
O selvagem não respondeu.
—Tua mãi parte!
O mesmo silencio.
—Teu campo te espera!
—Pery fica, mãi! disse elle com a voz commovida.
—Porque?
—A senhora mandou.
A pobre mãi recebeu esta palavra como uma sentença irrevogavel; sabia do imperio que exercia sobre a alma de Pery a imagem de Nossa Senhora, que elle tinha visto no meio de um combate e havia personificado em Cecilia.
Sentio que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha sido o orgulho de sua mocidade. Uma lagrima deslisou pela sua face côr de cobre.
—Mãi, toma o arco de Pery; enterra junto dos ossos de seu pai: e queima a cabana de Ararê.
—Não; se algum dia Pery voltar, achará a cabana de seu pai, e sua mãi para ama-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flôres leve o filho de Ararê ao campo onde nasceu.
Pery abanou a cabeça com tristeza;
—Pery não voltará!
Sua mãi fez um gesto de espanto e desespero.
—O fructo que cabe da arvore não torna mais a ella; a folha que se despega do ramo, murcha, secca e morre; o vento a leva. Pery é a folha; tu és a arvore, mãi. Pery não voltará ao teu seio.
—A Virgem branca salvou tua mãi; devia deixa-la morrer, para não lhe roubar seu filho. Uma mãi sem seu filho é uma terra sem agua; queima e mata tudo que se chega a ella.
Estas palavras forão acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.
—Mãi, não offende a senhora; Pery morreria, e na ultima hora não se lembraria de ti.
Os dous ficárão algum tempo em silencio.
—Tua mãi fica! disse a india com um accento de resolução.
—E quem será a mãi da tribu? Quem guardará a cabana de Pery? Quem contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes? Quem dirá: quantas vezes a nação goytacaz levou o fogo á taba dos brancos, e venceu os homens do raio? Quem ha de preparar os vinhos e as bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos?
Pery proferio estas palavras com a exaltação, que despertavão nelle as reminiscencias de sua vida selvagem; a india ficou pensativa e respondeu:
—Tua mãi volta; vai te esperar na porta da cabana, á sombra do jambeiro; se a flor do jambo vier sem Pery, tua mãi não verá os fructos da arvore.
A india pousou a mãos sobre os hombros de seu filho, e encostou a fronte na fronte delle; durante um momento as lagrimas que salta vão dos olhos de ambos se confundirão.
Depois ella afastou-se lentamente; Pery seguio-a com os olhos até que desappareceu na floresta: esteve a correr, chama-la e partir com ella. Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecilia que fallava com seu pai; ficou.
Nessa mesma noite construirá aquella pequena cabana que se via na ponta do rochedo, e que ia ser o seu mundo.
Passárão tres mezes.
Cecilia que um momento conseguira vencer a repugnancia que sentia pelo selvagem, quando lhe ordenára que ficasse, não se lembrou da ingratidão que commettia e não disfarçou mais a sua antipathia.
Quando o indio chegava-se a ella, soltava um grito de susto; ou fugia, ou ordenava-lhe que se retirasse; Pery que já fallava e entendia o portuguez, afastava-se triste e humilde.
Entretanto a sua dedicação não se desmentia; elle acompanhava a D. Antonio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiencia, guiava-o aos logares onde havião terrenos auriferos ou pedras preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para procurar um perfume, uma flôr, um passaro, que entregava ao fidalgo e pedia-lhe désse a Cecy, pois já não se animava a chegar-se para ella, com receio de desgota-la.
Cecy era o nome que o indio dava á sua senhora, depois que lhe tinhão ensinado que ella se chamava Cecilia.
Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por elle, e achando um pretexto para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto, reprehendeu-o com aspereza:
—Porque me chamas tu Cecy?
—Não sabes dizer Cecilia?
Pery pronunciou claramente o nome da moça com todas as syllabas; isto era tanto mais admiravel quando a sua lingua não conhecia quatro letras, das quaes uma era o L.
—Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu nome, porque não o dizes sempre?
—Porque Cecy é o nome que Pery tem dentro da alma.
—Ah! é um nome de tua lingua?
—Sim.
—O que quer dizer?
—O que Pery sente.
—Mas em portuguez?
—Senhora não deve saber.
A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de impaciencia.
D. Antonio passava: Cecilia correu ao seu encontro:
—Meu pãi, dizei-me o que significa Cecy nessa lingua selvagem que fallais.
—Cecy!... disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que significa doer, magoar.
A menina sentio um remorso; reconheceu a sua ingratidão, e lembrando-se do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má, egoista e cruel.
—Que doce palavra! disse ella a seu pai; parece um canto de passaro.
Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo fiel e dedicado.
—Chama-me Cecy, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.
V VILANIA
É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de contar alguns factos anteriores.
Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.
Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e cava devia ser de um homem.
Quem elle era? Seria D. Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e incertezas.
Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.
O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia comprehender.
Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem, trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima. Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das duas moças.
Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus companheiros:
—Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!...
E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo.
—Esperai-me aqui.
—O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro.
O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a pergunta do seu companheiro não merecesse reposta.
Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo.
—Quereis que falle?... disse Loredano.
—É mais um crime inutil! acudio Bento Simões.
O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido:
—Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo.
E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho.
O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.
Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.
A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das arvores.
Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.
Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o receberia.
Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra traidores, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia com que o moço evitava uma sorpreza.
O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma destreza admiravel.
A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida, volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.
A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe servirem de alvo.
Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e fosse por todos admirado.
Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante que é a sua vida.
Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a sua vida e a sua fortuna.
Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes desprezava-o.
—Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, Sr. cavalheiro? disse o aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.
—Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.
—Pretendo, Sr. cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.
—Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do que o vosso aspecto.
—Não disputemos sobre palavras, Sr. cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.
—Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da espada.
O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.
Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos injectárão-se de sangue:
—Sr. cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de fazer.
—É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.
Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma, segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu punhal, excellente folha de Damasco.
Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o talho de seu gibão de belbute.
De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu a mão esquerda em signal de tregoa.
—Estais satisfeito? perguntou Alvaro.
—Não, Sr. cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.
—Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.
—Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o outro não leve um vestigio que o possa denunciar.
—Que quereis fazer neste caso?
—O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não incommodará o outro.
—Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se D. Antonio de Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.
—Sigamos, Sr. cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos tempo em palavras.
Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se distinctamente.
Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.
Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e prende-la de novo.
O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?
—Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.
Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de suas pisadas não excitassem a attenção do moça.
Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo louro de seus amores.
Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja, como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que esse segredo era elle.
Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo, elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria um resto de resentimento que talvez conservasse.
Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.
Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.
Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com altivez e seguio.
Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do italiano.
VI NOBREZA
Alvaro ouvio um sibillo agudo.
A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.
O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o labio superior, sombreado pelo bigode negro.
O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez passos delle.
Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano, curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.
O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.
O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para crava-la no alto da cabeça do italiano.
Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão ao indio.
—Solta este miseravel, Pery!
—Não!
—A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de atirar sobre elle.
Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e apoiava a bocca na fronte do italiano.
—Ides morrer. Fazei a vossa oração.
Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.
O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra gozar.
Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.
Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:
—Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á justiça de Deus.
Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de esperança.
—Vais jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antonio de Mariz, e nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.
—Juro! exclamou o italiano.
O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.
—Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.
E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery para que o acompanhasse.
O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia profundamente.
Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros, quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal á sua senhora e a D. Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido lançar-se aos tres inimigos e mata-los.
Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação; mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para sacrifica-las todas á sua salvação.
Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que soubessem que estava ferido.
Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.
Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a D. Antonio de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o italiano.
Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.
A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem possuia em grão tão elevado.
Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de avisar a D. Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o cavalheiro.
Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.
A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse consumado iria ter com D. Antonio de Mariz e lhe diria:
—Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.
A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano, transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade, satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.
Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o conseguiria.
Alvaro tinha recebido de D. Antonio de Mariz todos os principios daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.
Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.
E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao seu descanço, ao seu socego e felicidade.
O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.
Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do rio.
—Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela estima que me tens.
E o moço apertou a mão do selvagem:
—Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.
Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia em suas palavras.
—Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora contente.
—Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a ver.
—Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno que abre a flôr da noite.
—Pery!... exclamou Alvaro.
—Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio; Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.
Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração gasto pelo attrito da sociedade?
A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.
Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado; quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro sentio.
Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par da vida brilhante?
Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do veneno, não é um poeta?
Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a alma.
Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes cousas que a natureza fez sorrindo.
A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.
Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á beira do Paquequer, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.
O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.
Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia me quer? disse o moço.
—Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.
—Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?
—Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.
—E se eu não amasse a Cecilia?
—Impossivel!
—Quem sabe? disse o moço sorrindo.
—Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla negra irradiou.
—Sim? o que farias?
—Pery te mataria.
A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com effusão.
Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe com um tom commovido:
—Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.
—Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.
—Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.
O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do italiano; desta vez não lhe perdoára.
—Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.
Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle, quando Pery segurou o braço de Alvaro:
—O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer, manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.
—Mas quem é o inimigo da casa?
—Queres saber?
—De certo; como hei de combate-los?
—Tu saberás.
Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.
Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.
O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre a relva.
Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a força dos pulmões:
—Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve cá!
Pery não se voltou.
VII NO PRECIPICIO
Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.
Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao braço.
—Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?... disse o escudeiro resfolgando.
—Deixa! respondeu o indio sem se mover.
—Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua procura! Tinha que ver!
Com effeito D. Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á presença de D. Antonio de Mariz.
Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis, tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.
Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas; ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.
Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas, que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!
Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio, causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não estava de accordo.
—Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.
—Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes, não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te, boca! não me pies mais!
Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.
Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto mato.
—Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.
—E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.
—Pery vai longe!
—Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.
O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.
—Pery não quer que tu o sigas.
—Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de faca e calhão.
—Pery não manda duas vezes!
—Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.
Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.
—Quem te deo a ordem?
—D. Lauriana.
—Para que?
—Para te levar á casa.
—Pery vai só.
—Veremos!
O indio tirou a sua faca.
—Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr. D. Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria! Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.
—Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.
—Como?... Como é lá isso?
O indio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao selvagem.
Mas a ordem de D. Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se valentemente.
Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde a mais tenra idade.
Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo, combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um vime delgado.
—Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na durindana!
Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era assaltar o adversario pelas costas.
Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em que estava encostado.
Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu caminho placidamente.
—Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me pagarás com lingua de palmo!...
Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.
Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso profundo que passava em baixo de sua janella.
A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava magoa-la.
Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse só.
—Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!
Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a chamarão ao seu proprio soffrimento.
Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos; sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.
O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar, e um prazer que a fazia sorrir.
Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era, e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.
Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.
Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha a Pery.
Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz: nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a existencia para ella seria de flôres.
Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.
Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão melancolica.
Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.
Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella; era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou a desatar-se com o primeiro raio do sol.
Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera modificar a sua existencia.
—Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel como eu a amo e quanto a desejo feliz.
Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a moça sentia por isso um pezar.
Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro endireitar isto, como elle dizia na sua linguagem simples.
Chegou-se ao fosso.
Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.
Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.
Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um arbusto.
Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o objecto que ia procurar.
Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores chamárão candêa; tirou fogo, e começou a descer com o facho acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.
A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.
Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser vibradas.
—Pery!...
O indio levantou os olhos para ella.
—Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.
A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.
—Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que desejas.
—O que eu desejo?...
—Sim; Pery sabe.
A moça abanou a cabeça.
—Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.
—Quem te disse? perguntou a menina admirada.
—Os olhos de Pery.
—Tu viste?
—Sim.
O indio continuou a descer.
—Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.
—Buscar o que é teu.
—Meu!... murmurou melancolicamente.
—Elle te deo.
—Elle quem?
—Alvaro.
A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.
—Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!
—Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.
—Mas tu vais morrer!...
—Não tem medo.
—Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não desças.
O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para elle: cumpria-se irremissivelmente.
Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro da janella córando.
O indio sorrio.
—Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.
E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.
Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.
VIII O BRACELETE
O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e horror.
De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis, lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos fios da têa.
No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da cauan no fundo do abysmo.
O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.
Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para salva-lo.
Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e descobrir o indio.
Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular chama lavandeira de Deus.
A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.
Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra ainda com a voz tremula e fraca:
—Pery!
No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou:
—Espera, senhora!
Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz chegou-lhe ao ouvido surda e rouca.
—Estás ferido? perguntou inquieta.
Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando bravia passou seguida por uma ninhada de filhos.
Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de encontro á almofada da janella.
Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo escarlate.
Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com sofreguidão:
—Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize!
O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante.
—Tiveste medo, senhora?
—Muito! exclamou a menina.
O indio sorrio.
—Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão.
O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.
Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.
Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr: assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e surda.
Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles, attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.
A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de Cecilia.
A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:
—Pery sente uma cousa.
—O que?
—Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.
—E porque sentes isto?
—Porque te acompanharião sempre.
Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura.
Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este bracelete, trouxesse um presente dado por ti?
—Muito.
—E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina gracejando.
O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um adorno digno de sua senhora!
Cecilia teve pena do seu embaraço.
—Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço.
Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa.
Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo.
Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu amor.
As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o coração, o queimão como o rescaldo da paixão.