PRIMEIRA PARTE OS AVENTUREIROS
Reading edition
I SCENARIO
De um dos cabeços da Serra dos Órgãos deslisa um fio d'agua que se dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu curso de dez leguas, torna-se rio caudal.
É o Paquequer: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba, que rola magestosamente em seu vasto leito.
Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do senhor.
Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta patria da liberdade.
Ahi, o Paquequer lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só arremesso, como o tigre sobre a presa.
Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.
A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos leques das palmeiras.
Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa.
No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o interior.
Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique.
A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita metade pela natureza e metade pela arte.
Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada, encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer, chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens.
Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza para crear meios de segurança e defeza.
De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que, alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio; entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava aquelle pequeno valle impenetravel.
A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de frente, baixas, largas, quasi quadradas.
Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha.
No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do rochedo.
Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e graça admiravel.
Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma miniatura.
O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de morada a aventureiros e acostados.
Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta habitação selvagem.
Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do edificio.
A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente, respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em um deserto, como era então aquelle sitio.
As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa.
Sobre a porta do centro desenhava-se um brasão d'armas em campo de cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.
Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues.
Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste.
Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que revelava a presença de uma mulher.
Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens.
A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual havia um escabello de madeira dourada.
Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e formas exquisitas.
Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias côres e entremeiada de pennas negras e escarlates.
Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos olhos profanos.
Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso que uma fada habitava.
II LEALDADE
A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antonio de Mariz, fidalgo portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.
Era dos cavalheiros que mais se havião distinguido nas guerras da conquista, contra a invasão dos francezes e os ataques dos selvagens.
Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da victoria alcançada pelos portuguezes, auxiliou o governador nos trabalhos da fundação da cidade e consolidação do dominio de Portugal nessa capitania.
Fez parte em 1578 da celebre expedição do Dr.Antonio de Salema contra os francezes, que havião estabelecido uma feitoria en Cabo Frio para fazerem o contrabando de páo-brasil.
Servio por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da alfandega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo pela republica e a sua dedicação ao rei.
Homem de valor, experimentado na guerra, activo, affeito a combater os indios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do interior de Minas e Espirito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma legua com fundo sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito tempo devoluta.
A derrota de Alcacerquibir, e o dominio hespanhol que se lhe seguio, vierão modificar a vida de D. Antonio de Mariz.
Portuguez de antiga tempera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a elle devia preito e menagem. Quando pois, em 1582, foi acclamado no Brasil D. Filippe II como o successor da monarchia portugueza, o velho fidalgo embainhou a espada e retirou-se do serviço.
Por algum tempo esperou a projectada expedição de D. Pedro da Cunha, que pretendeo transportar ao Brasil a coroa portugueza, collocada então sobre a cabeça do seu legitimo herdeiro, D. Antonio, prior do Crato.
Depois, vendo que esta expedição não se realisava, e que seu braço e sua coragem de nada valião ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penates, o seu brasão, as suas armas, a sua familia, e foi estabelecer-se naquella sesmaria que lhe concedera Mem de Sá. Ahi, de pé sobre a eminencia em que ia assentar o seu novo solar, D. Antonio de Mariz erguendo o vulto direito, e lançando um olhar sobranceiro pelos vastos horizontes que abrião em torno, exclamou:
—Aqui sou portuguez! Aqui pode respirar á vontade um coração leal, que nunca desmentio a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre, tu reinarás, Portugal, como viverás n'alma de teus filhos. Eu o juro!
Descobrindo-se, curvou o joelho em terra, e estendeo a mão direita sobre o abysmo, cujos échos adormecidos repetirão ao longe a ultima phrase do juramento prestado sobre o altar da natureza, em face do sol que transmontava.
Isto se passara em abril de 1593; no dia seguinte, começárão os trabalhos da edificação de uma pequena habitação que servia de residencia provisoria, até que os artesãos vindos do reino construirão e decorárão a casa que já conhecemos.
D. Antonio tinha ajuntado fortuna durante os primeiros annos de sua vida aventureira; e não só por capricho de fidalguia, mas em attenção á sua familia, procurava dar a essa habitação construida no meio de um sertão, todo o luxo e commodidade possiveis.
Além das expedições que fazia periodicamente á cidade do Rio de Janeiro, para comprar fazendas e generos de Portugal, que trocava pelos productos da terra, mandara vir do reino alguns officiaes mecanicos e hortelãos, que aproveitavão os recursos dessa natureza tão rica, para proverem os seus habitantes de todo o necessario.
Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuguez, menos as ameias e a barbacan, as quaes havião sido substituidas por essa muralha de rochedos inaccessiveis, que offerecião uma defeza natural e uma resistencia inexpugnavel.
Na posição em que se achava, isto era necessario por causa das tribus selvagens, que, embora se retirassem sempre das visinhanças dos lugares habitados pelos colonos, e se entranhassem pelas florestas, costumavão comtudo fazer correrias e atacar os brancos á traição.
Em um circulo de uma legua da casa, não havia senão algumas cabanas em que moravão aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna rapida, e que tinhão-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias de dez e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro e pedras preciosas, que ião vender na costa.
Estes, apezar das precauções que tomavão contra os ataques dos indios, fazendo palissadas e reunindo-se uns aos outros para defeza commum, em occasião de perigo vinhão sempre abrigar-se na casa de D. Antonio de Mariz, a qual fazia as vezes de um castello feudal na idade media.
O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia protecção e asylo aos seus vassallos; soccorria-os em todas as suas necessidades, e era estimado e respeitado por todos que vinhão, confiados na sua visinhança, estabelecer-se por esses lugares.
Deste modo, em caso de ataques dos indios, os moradores da casa do Paquequer não podião contar senão com os seus proprios recursos; e por isso D. Antonio, como homem pratico e avisado que era, havia-se premunido para qualquer occurrencia.
Elle mantinha, como todos os capitães de descobertas daquelles tempos coloniaes, uma banda de aventureiros que lhe servião nas suas explorações e correrias pelo interior; erão homens ousados, destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem civilisado a astucia e agilidade do indio de quem havião aprendido; erão uma especie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo.
D. Antonio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre elles uma disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do chefe; o seu dever a obediencia passiva, o seu direito uma parte igual na metade dos lucros. Nos casos extremos, a decisão era proferida por um conselho de quatro, presidido pelo chefe; e cumpria-se sem appello, como sem demora e hesitação.
Pela força da necessidade, pois, o fidalgo se havia constituido senhor de baraço e cutello, de alta e baixa justiça dentro dos seus dominios; devemos porém declarar que rara vez se tornara precisa a applicação dessa lei rigorosa; a severidade tinha apenas o effeito salutar de conservara ordem, a disciplina e a harmonia.
Quando chegava a epocha da venda dos productos, que era sempre anterior á sahida da armada de Lisboa, metade da banda dos aventureiros ia á cidade do Rio de Janeiro, apurava o ganho, fazia a troca dos objectos necessarios, e na volta prestava suas contas. Uma parte dos lucros pertencia ao fidalgo, como chefe; a outra era distribuida igualmente pelos quarenta aventureiros, que a recebião em dinheiro ou em objectos de consumo.
Assim vivia, quasi nomeio do sertão, desconhecida e ignorada essa pequena communhão de homens, governando-se com as suas leis, os seus usos e costumes; unidos entre si pela ambição da riqueza, e ligados ao seu chefe pelo respeito, pelo habito da obediencia e por essa superioridade moral que a intelligencia e a coragem exercem sobre as massas.
Para D. Antonio e para seus companheiros a quem elle havia imposto a sua fidelidade, esse torrão brazileiro, esse pedaço de sertão, não era senão um fragmento de Portugal livre, de sua patria primitiva; ahi só se reconhecia como rei ao duque de Bragança, legitimo herdeiro da corôa; e quando se corrião as cortinas do docel da sala, as armas que se vião, erão as cinco quinas portuguezas, diante das quaes todas as frontes inclinavão.
D. Antonio tinha cumprido o seu juramento de vassallo leal; e, com a consciência tranquilla por ter feito o seu dever, com a satisfação que dá ao homem o mando absoluto, ainda mesmo em um deserto, rodeado de seus companheiros que elle considerava amigos, vivia feliz no seio de sua pequena familia.
Esta se compunha de quatro pessoas:
Sua mulher, D. Lauriana, dama paulista, imbuida de todos os prejuizos de fidalguia e de todas os abusões religiosas daquelle tempo; no mais, um bom coração, um pouco egoista, mas não tanto que não fosse capaz de um acto de dedicação:
Seu filho, D. Diogo de Mariz, que devia mais tarde proseguir na carreira de seu pai, e que lhe succedeo em todas as honras e foraes; ainda moço na flor da idade, gastava o tempo em correrias e caçadas:
Sua filha, D. Cecilia, que tinha dezoito annos, e que era a deusa desse pequeno mundo que ella illuminava com o seu sorriso, e alegrava com o seu genio travesso e a sua mimosa faceirice:
D. Isabel, sua sobrinha, que os companheiros de D. Antonio, embora nada dissessem, suspeitavão ser o fructo dos amores do velho fidalgo por uma india que havia captivado em uma das suas explorações.
Demorei-me em descrever a scena e fallar de algumas das principaes personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se comprehendão os acontecimentos que depois se passárão.
Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.
III A BANDEIRA
Era meio dia.
Um troço de cavalleiros, que constaria quando muito de quinze pessoas, costeava a margem direita do Parahyba.
Estavão todos armados da cabeça até aos pés; além da grande espada de guerra que batia as ancas do animal, cada um delles trazia á cinta dous pistoletes, um punhal na ilharga do calção, e o arcabuz passado a tiracollo pelo hombro esquerdo.
Pouco adiante, dous homens a pé tocavão alguns animaes carregados de caixas e outros volumes cobertos com uma sarapilheira alcatroada, que os abrigava da chuva.
Quando os cavalleiros, que seguião a trote largo, vencião a pequena distancia que os separava da tropa, os dous caminheiros, para não atrazarem a marcha, montavão na garupa dos animaes e ganhavão de novo a dianteira.
Naquelle tempo dava-se o nome de bandeiras a essas caravanas de aventureiros que se entranhavão pelos sertões do Brasil, á busca de ouro, de brilhantes e esmeraldas, ou á descoberta de rios e terras ainda desconhecidos. A que nesse momento costeava a margem do Parahyba, era da mesma natureza; voltava do Rio de Janeiro, onde fora vender os productos de sua expedição pelos terrenos auriferos.
Uma das occasiões, em que os cavalleiros se aproximarão da tropa que seguia á alguns passos, um moço de vinte e oito annos, bem parecido, e que marchava á frente do troço, governando o seu cavallo com muito garbo e gentileza, quebrou o silencio geral.
—Vamos, rapazes! disse elle alegremente aos caminheiros; um pouco de diligencia, e chegaremos com cedo. Restão-nos apenas umas quatro leguas!
Um dos bandeiristas, ao ouvir estas palavras, chegou as esporas á cavalgadura e avançando algumas braças collocou-se ao lado do moço.
—Ao que parece, tendes pressa de chegar, Sr. Alvaro de Sá? disse elle com um ligeiro accenio italiano, e um meio sorriso cuja expressão de ironia era disfarçada por uma benevolencia suspeita.
—De certo, Sr. Loredano; nada é mais natural a quem viaja, do que o desejo de chegar.
—Não digo o contrario; mas confessareis que nada tambem é mais natural a quem viaja, do que poupar os seus animaes.
—Que quereis dizer com isto, Sr. Loredano? perguntou Alvaro com um movimento de enfado.
—Quero dizer, Sr. cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes das seis horas.
Alvaro corou.
—Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite.
—Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer dia! replicou o italiano no mesmo tom.
Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e respondeo:
—Ora, Deus, Sr. Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo.
—Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que aquelle que não quer ouvir.
—Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião: foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o ensinou? disse o cavalheiro gracejando.
—Nem um nem outro, Sr. cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro á sua dama.
Alvaro enrubeceo pela terceira vez.
Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo.
Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro proseguio com extrema amabilidade:
—Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei, Sr. cavalheiro?
—Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza.
—É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das outras vezes erão nunca menos de dez e quinze.
—Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las.
—Per Bacco, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis justo que cada um pense á sua maneira.
—Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e avançando o passo da sua cavalgadura.
A conversa interrompeo-se.
Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão silenciosos uma par do outro.
Alvaro ás vezes enfiava o olhar pelo caminho como para medir a distancia que ainda tinhão de percorrer, e outras vezes parecia pensativo e preoccupado.
Nestas occasiões, o italiano lançava sobre elle um olhar á furto, cheio de malicia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma cansoneta de condottiere, de quem elle apresentava o verdadeiro typo.
Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o sorriso desdenhoso fazia brilhara alvura de seus dentes; olhos vivos, a fronte larga, descoberta pelo chapéo desabado que cahia sobre o hombro; alta estatura, e uma constituição forte, agil e musculosa; erão os principaes traços deste aventureiro.
A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não offerecia mais caminho, e tomára por uma estreita picada aberta na matta.
Apezar de ser pouco mais de duas horas, o crepusculo reinava nas profundas e sombrias abobadas de verdura: a luz, coando entre a espessa folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma restea de sol penetrava nesse templo da creação, ao qual servião de columnas os troncos seculares dos acaris e araribás.
O silencio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus échos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas interrompido um momento pelo passo dos animaes, que fazião estalar as folhas seccas.
Parecia que devião ser seis horas da tarde, e que o dia cahindo envolvia a terra nas sombras pardacentas do occaso.
Alvaro de Sá, embora habituado a esta illusão, não pôde deixar de sobresaltar-se um instante, em que, sahindo da sua meditação, vio-se de repente nomeio do claro-escuro da floresta.
Involuntariamente ergueo a cabeça para vêr se atravez da cupola de verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma scentelha de luz que lhe indicasse a hora.
Loredano não pôde reprimir a risada sardonica que lhe veio aos labios.
—Não vos dê cuidado, Sr. cavalheiro, antes de seis horas lá estaremos; sou eu que vo-lo digo.
O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho.
—Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma cousa, mas falta-vos o animo de a proferir. Uma vez por todas, fallai abertamente, e Deus vos guarde de tocar em objectos que são sagrados.
Os olhos do italiano lançárão uma faisca; mas o seu rosto conservou-se calmo e sereno.
—Bem sabeis que vos devo obediência, Sr. cavalheiro, e não faltarei della. Desejais que falle claramente; e a mim me parece que nada do que tenho dito póde ser mais claro do que é.
—Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para outros.
Ora dizei-me, Sr. cavalheiro, não vos parece claro, á vista do que me ouvistes, que adevinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa possivel?
—Quanto a isto, já vos confessei eu; não ha pois grande merito em adevinhar.
—Não vos parece claro tambem que observei haverdes feito esta expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias eis-nos ao cabo della?
—Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a oppôr.
—Não de certo; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com satisfação, quando o coração nelle se interessa.
—Sr. Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e colhendo as redeas.
O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continou:
—Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem? foi de D. Antonio de Mariz, sem duvida?
—Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me; replicou o moço com arrogancia.
—Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano cortezmente, partistes do Paquequer em uma segunda feira, quando o dia designado era um domingo.
—Ah! tambem reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de despeito.
Reparo em tudo, Sr. cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda, que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente antes do domingo.
—E não observastes mais nada? perguntou Alvaro com a voz tremula e fazendo um esforço para conter-se.
—Não me escapou tambem uma pequena circumstancia de que já vos fallei.
—E qual é ella, se vos praz?
—Oh! não vale a pena repetir: é cousa de somenos.
—Dizei sempre, Sr. Loredano: nada é perdido entre dous homens que se entendem; replicou Alvaro com um olhar de ameaça.
—Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de D. Antonio, e o italiano carregou nesta palavra, manda-vos estar no Paquequer um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece.
—Tendes um dom admiravel, Sr. Loredano; o que é de lamentar, é que o empregueis em futilidades.
—Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a olhar para seus semelhantes, e ver o que elles fazem?
—Com effeito é uma boa distracção.
—Excellente. Vede vós, tenho visto cousas que se passão diante dos outros, e que ninguem percebe, porque não se quer dar ao trabalho de olhar como eu; disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida.
—Contai-nos isto, ha de ser curioso.
—Ao contrario, é o mais natural possivel; um moço que apanha uma flor ou um homem que passeia de noite á luz das estrellas... Póde haver cousa mais simples?
Alvaro empallideceo desta vez.
—Sabeis uma cousa, Sr. Loredano?
—Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.
—Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de espião.
O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual.
—Quereis gracejar, senhor cavalheiro?...
—Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como a uma cobra venenosa.
A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os traços vigorosos.
Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo:
—Visto que tomais a cousa neste tom, Sr. Alvaro de Sá, cumpre que vos diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber qual é o que tem a temer!...
—Esqueceis a quem fallais? disse o moço com altivez.
—Não, senhor, lembro tudo; lembro que sois meu superior, e tambem, accrescentou com voz surda, que tenho o vosso segredo.
E parando o animal, o aventureiro deixou Alvaro seguir só na frente, e misturou-se com os seus companheiros.
A pequena cavalgata continuou a marcha atravez da picada, e aproximou-se de uma dessas clareiras das mattas virgens, que se assemelhão a grandes zimborios de verdura.
Neste momento um rugido espantoso fez estremecer a floresta, e encheo a solidão com os échos estridentes.
Os caminheiros empallidecêrão e olhárão um para o outro; os cavalleiros engatilhárão os arcabuzes e seguirão lentamente, lançando um olhar cauteloso pelos ramos das arvores.
IV A LUTA
Quando a cavalgata chegou á margem da clareira, ahi se passava uma scena curiosa.
Em pé, no meio do espaço que formava a grande abobada de arvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um indio na flor da idade.
Uma simples tunica de algodão a que os indigenas chamavão aimará, apertada á cintura por uma faxa de pennas escarlates, cahia-lhe dos hombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem.
Sobre a alvura diaphana do algodão, a sua pelle, côr do cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabellos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte: a pupilla negra, mobil, scintillante; a boca forte mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davão ao rosto pouco oval a belleza inculta da graça, da força e da intelligencia.
Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, á qual se prendião do lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinhão roçar com as pontas negras o pescoço flexivel.
Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna agil e nervosa, ornada com uma axorca de fructos amarellos, apoiava-se sobre um pé pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as flexas com a mão direita cahida, e com a esquerda mantinha verticalmente diante de si um longo forcado de páo ennegrecido pelo fogo.
Perto delle estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga, cujo uso foi depois prohibido em Portugal e no Brasil.
Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos n'uma sebe de folhas que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava imperceptivelmente.
Alli, por entre a folhagem, distinguião-se as ondulações felinas de um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; ás vezes vião-se brilhar na sombra dous raios vitreos e pallidos, que semelhavão os reflexos de alguma crystalisação de rocha, ferida pela luz do sol.
Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de arvore, e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto gigantesco.
Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como procurando uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo: uma especie de riso sardonico e feroz contrahia-lhe as negras mandibulas, e mostrava a linha de dentes amarellos; as ventas dilatadas aspiravão fortemente, e parecião deleitar-se já com o odor do sangue da victima.
O indio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco secco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e serenidade do homem que contempla uma scena agradavel: apenas a fixidade do olhar revelava um pensamento de defeza.
Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem medîrão-se mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro; depois o tigre agachou-se, e ia formar o salto, quando a cavalgata appareceo na entrada da clareira.
Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue, eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia arriscar o ataque.
O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição, nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita.
Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua marcha.
Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao peito:
—É meu!... meu só!
Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e sonora, mas em tom de energia e resolução.
O italiano rio.
—Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a tiracollo; ella vo-lo agradecerá.
Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração offensiva.
Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse um só instante com os olhos o inimigo.
Á um signal de Alvaro de Sá, os cavalleiros proseguirão a sua marcha, e entranhárão-se de novo na floresta.
O tigre, que observava os cavalleiros immovel, com o pello eriçado, não ousára investir nem retirar-se, temendo expor-se aos tiros dos arcabuzes: mas apenas viu a tropa distanciar-se e sumir-se no fundo da matta, soltou um novo rugido de alegria e contentamento.
Ouvio-se um rumor de galhos que se espedaçavão como se uma arvore houvesse tombado na floresta, e o vulto negro da fera passou no ar; d'um pulo tinha ganho outro tronco, e mettido entre ella e o seu adversario uma distancia de trinta palmos.
O selvagem comprehendeu immediatamente a razão disto: a onça, com os seus instinctos carniceiros e a sede voraz de sangue, tinha visto os cavallos e desdenhava o homem, fraca presa para sacia-la.
Com a mesma rapidez com que formulou este pensamento, tomou na cinta uma flecha pequena e delgada como um espinho de ouriço, e esticou a corda do grande arco, que excedia de um terço á sua altura.
Ouvio-se um forte sibilo, que foi acompanhado por um bramido da fera; a pequena setta despedida pelo indio se cravára na orelha, e uma segunda, açoutando o ar, ia ferir-lhe a mandibula inferior.
O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrivel, aguçando os dentes uns nos outros, rugindo de furia e vingança: de dous saltos approximou-se novamente.
Era uma luta de morte a que ia se travar; o indio o sabia, e esperou tranquillamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um momento de que a presa lhe escapasse, desapparecera: estava satisfeito.
Assim, estes dous selvagens das mattas do Brasil, cada um com as suas armas, cada um com a consciencia de sua força e de sua coragem, consideravão-se mutuamente como uma victima que ia ser immolada.
O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou á cousa de quinze passos do inimigo, retrahio-se com uma força de elasticidade extraordinaria, e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo raio.
Foi cahir sobre o indio, apoiado nas largas patas de traz, com o corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua victima, e os dentes promptos a cortarlhe a jugullar.
A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pelle azevichada, já a fera tocava o chão com as patas.
Mas tinha em frente um inimigo digno della, pela força e agilidade.
Como a principio, o indio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava na esquerda a longa forquilha, sua unica defeza; os olhos sempre fixos magnetisavão o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, cahindo com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentio o forcado cerrar-lhe o collo, e vacillou.
Então, o selvagem, distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e foi cahir sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas, com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu vencedor, procurando debalde alcança-lo com as garras.
Esta luta durou minutos; o indio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim immovel a fera que ha pouco corria a mata não encontrando obstaculos á sua passagem.
Quando o animal, quasi asphixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma fraca resistencia, o selvagem, segurando sempre a forquilha, metteu a mão debaixo da tunica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada á cintura em muitas voltas.
Nas pontas desta corda havia dous laços que elle abrio com os dentes e passou nas patas dianteira ligando-as fortemente uma a outra; depois fez o mesmo ás pernas, e acabou por amarrar as duas mandibulas, de modo que a onça não podesse abrir a bocca.
Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de agua uma folha de cajueiro bravo, que tornou côva, veio borrifara cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o prendião, e contra os quaes toda a força e agilidade do tigre serião impotentes.
Neste momento uma cotia timida e arisca appareceu na leiseira da matta, e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pello vermelho e afogueado.
O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava, arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do sangue quente e fumegante.
Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo e abafado.
O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais terrivel.
Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na matta dous galhos soccos de biribá, e roçando rapidamente um contra o outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para jantar.
Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.
Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro, e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a picada por onde tinha seguido a cavalgata.
Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com uma trofa de pennas amarellas.
Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra, e assim ficou algum tempo.
Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção que o outro tomára pouco tempo antes.
V LOURA E MORENA
Cahia a tarde.
No pequeno jardim da casado Paquequer, uma linda moça se embalançava indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas e perfumadas.
Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as palpebras rosadas.
Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor da gardenia dos nossos campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião, desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas.
O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel conceber; mistura de luxo e de simplicidade.
Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso contorno do seu braço arqueado sobre o seio.
Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças, descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e perfeição admiravel.
A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para imprimir á rede uma doce oscillação.
Esta moça era Cecilia.
O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa, deixava que a imaginação corresse livre.
Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido, algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos.
Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado, roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha cahir a seus pés timido e supplicante.
Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces; mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios.
Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz, abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem.
Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a relva a ponta de um pézinho de menina.
Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar.
Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia desvanecer.
Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro, aproximou-se da rede.
Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de languidez e malicia, de indolencia e vivacidade.
Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos, labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de seducção irresistivel.
Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo.
Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para beija-la ou ver se estava dormindo.
Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua prima.
—Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo.
—É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que projectavão as arvores; está quasi noite.
—E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra gracejando.
—Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me sinto triste.
—Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves ao nascer do sol.
—Está bem! não queres acreditar!
—Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um passarinho?
—É para vêres! Tudo cança neste mundo.
—Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.
—Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que quero-lhes como se me tivessem visto nascer.
—Então o que é que te faz triste?
—Não sei; falta-me alguma cousa.
—Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho!
—Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada.
—Ora! o que te falta.
—Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo.
—Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames, e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro animal selvagem.
—Pery! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima.
—Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.
—Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje?
—Não; nem sei o que é feito delle.
—Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma desgraça! disse a moça estremecendo.
—Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia?
—Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á casa.
—O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua vida antiga e livre.
—Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos abandonasse assim!
—Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão?
—É verdade!... disse a moça preoccupada.
Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus olhos.
A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu regaço.
—Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão sobre o seu pello assetinado.
—Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e ficará mais manso do que o teu Pery.
—Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum.
—Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal como um cavallo, ou um cão?
Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente.
—Isabel!... exclamou ella resentida.
—Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que não percebo o desdem com que me tratão?
—Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, e te respeitão como devem.
Isabel abanou tristemente a cabeça.
—Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho razão.
—Ora, um momento de zanga de minha mãi...
—É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso amargo.
—Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito severa mesmo para comigo.
—Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão.
—Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já que me tratasses como irmã?
—Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua irmã!...
—E porque não has de se-lo? Quero que o sejas!
—Para ti, que para elle...
Este elle foi murmurado dentro d'alma.
—Mas olha que exijo uma cousa.
—O que é? perguntou Isabel.
—É que eu serei a irmã mais velha.
—Apezar de seres mais moça?...
—Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer?
—De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.
—Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver triste, ouviste? Senão fico zangada.
—E tu não estavas triste ha pouco?
—Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.
Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco, scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas voltava de novo.
Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o ar livre e a vida passada no campo.
Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio, estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua penugem macia.
—Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não é?
E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração, envolta pela graça infantil de seu espirito.
Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros que entravão a cerca.
Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo.
—Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima.
—São elles que chegão.
Elles quem?
—O Sr. Alvaro e os outros.
—Ah!... exclamou a moça corando.
—Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar na perturbação de sua prima.
—Muito; quem sabe se houve alguma cousa!
—Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.
—Contaste os dias?
—É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã fazem tres semanas.
—Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem!
—Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de melancolia.
—Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti. Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu tenho inveja do teu moreninho, prima?
—E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia.
—Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos.
E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado da entrada.
VI A VOLTA
Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o edificio.
Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.
Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de ouro.
Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão, e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e nobre cabeça de velho.
De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.
Este fidalgo era D. Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na força da idade.
O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.
A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.
—Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.
—Não digo de todo que não, Sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo commetteo uma imprudencia matando essa india.
—Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, o desculpo!
—Julgais com demasiada severidade.
—E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva, commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.
—Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...
—Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra que conquistamos, mas são homens!
—Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe deo a Sra. D. Lauriana.
—Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é disto que discorriamos.
—Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia de D. Diogo.
—E que pensas tu?
—Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós, Sr. D. Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a atacar-vos.
—Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.
—Não sou capaz de tal, Sr. cavalheiro!
—Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão tudo, a vida e a liberdade.
—Não desconheço isto, respondeo o escudeiro.
—Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem offendidos por mim soffrerão tudo para vingar-se.
—Tendes mais experiencia do que eu, Sr. cavalheiro; mas queira Deus que vos enganeis.
Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, D. Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que atravessava pela frente da casa.
—Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em todo o caso que estejamos preparados para recebe-los.
—Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.
D. Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia sentado a alguns passos.
Vendo aproximar-se seu pai, D. Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se esperou-o n'uma attitude respeitosa.
—Sr. cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as ordens que vos dei.
—Senhor...
—Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar satisfeito de vossa obra.
—Meu pai!...
—Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso da espada que trazeis á cinta.
—Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis vosso filho.
—Não é vosso pai que vos rebaixa, Sr. cavalheiro, e sim a acção que praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender a vossa vida.
D. Diogo inclinou-se em signal de obediencia.
—Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre.
—Cumprirei as vossas ordens, meu pai.
—Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé desta casa sem minha ordem. Ide, Sr. cavalheiro; lembrai-vos que tenho sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para protege-las.
O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.
D. Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no soleira da porta.
D. Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e fingião uma especie de diadema.
Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os seus ornatos.
Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e devoção; o espirito de nobreza que em D. Antonio de Mariz era um realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.
No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade, e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um throno.
Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato do culto, que D. Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.
Apezar desta differença de caracteres, D. Antonio de Mariz, ou por concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel, exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia immediatamente que era escusado insistir.
Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a repugnancia que D. Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus sentimentos.
—Fallaveis a D. Diogo com um ar tão severo! disse D. Lauriana descendo os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.
—Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o fidalgo.
—Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antonio!
—E vós com extrema benevolencia, D. Lauriana. Assim como não quero que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua companhia.
—Jesus! Que dizeis, Sr. D. Antonio?
—D. Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o tempo em extravagancias.
—Vós não fareis isto, Sr. Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso filho da casa paterna!
—Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis que D. Diogo passe toda a sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca?
—Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho, cheia de inquietações pela sua sorte.
—Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi.
—Sois cruel, senhor.
—Sou justo apenas.
Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa.
—Oh! exclamou D. Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá.
O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se, subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente.
O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a D. Lauriana, a inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se abaixarão sobre o rosto dos aventureiros.
Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro, sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que servião de bancos.
D. Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de Bragança.
O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro.
Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades, outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo tempo, de modo que ninguem se entendia.
Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu para sua mãi.
Em quanto ella atravessava o espaço que a separava de D. Lauriana, Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo na mão foi inclinar-se corando diante da moça.
—Eis-vos de volta, Sr. Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes!
—Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.
Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi.
Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e mocidade.
D. Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto veneravel.
Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros, cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima.
Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.
Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do Italiano que vio o sorriso de D. Antonio de Mariz e o comprehendeo.
Em quanto isto succedia, D. Diogo que se havia retirado, voltou a saudar Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de seu pai.
VII A PRECE
A tarde ia morrendo.
O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que illuminava com os seus ultimos raios.
A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das arvores.
Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.
Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder á doce influencia da tarde.
Era Ave-Maria.
Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para murmurar a prece da noite!
Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma.
O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o toque lento e pausado do angelus.
A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da tarde que morre.
Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor.
De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava Ave-Maria.
Todos se descobrirão.
D. Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou.
Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e D. Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo, ajoelharáo-se a alguns passos de distancia.
O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo cavalheiro.
Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos, illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito.
Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.
Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava imperceptivelmente os labios.
Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o precipio, e um tiro saudou o occaso.
Era noite.
Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando a pouco e pouco.
Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro.
Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D. Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de um abbade.
Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta ceia.
Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da familia, o que havia recebido como um favor immenso.
O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão simples convite, era o regimen caseiro que D. Lauriana havia estabelecido na sua habitação.
Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria.
Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada, onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua oração da tarde.
Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo rio.
Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia o italiano, de chegar ao Paquequer em um sabbado, e antes das seis horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez occasião de arriscar uma palavra.
Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre D. Antonio de Mariz, Alvaro e D. Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças, timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia.
Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um pretexto que a chamasse á conversa.
—Esquecia-me contar-vos, Sr. D. Antonio, disse elle aproveitando-se de uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem.
—Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo.
—Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery.
—Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle.
—Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão.
—Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos parecerá tão simples.
—O que fazia então?
—Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecilia.
—Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.
—Que tens, menina? perguntou D. Lauriana.
—É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi.
—Não se perde grande cousa, respondeo a senhora.
—Mas eu serei a causa de sua morte!
—Como assim, minha filha? disse D. Antonio.
—Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!...
—E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito.
—Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o morto.
—Não vos assusteis, D. Cecilia; elle saberá defender-se.
—E vós, Sr. Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a moça sentida.
—Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o animal!
E o moço contou parte da scena passada na floresta.
—Não ha duvida, disse D. Antonio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro, é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem!
A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais parte nella.
D. Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no terreiro da casa veio annunciar a ceia.
Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com Cecilia.
—Não me perguntais pelo que me ordenastes, D. Cecilia? disse elle á meia voz.
—Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi?
—Todas e mais... disse o moço balbuciando.
—E mais o que? perguntou Cecilia.
—E mais uma cousa que não pedistes.
—Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado.
—Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente.
—Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis?
—Sim; porque é uma lembrança vossa.
—Nesse caso guardai-a, Sr. Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a bem.
E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas, espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de pistolas primorosamente embutidas.
Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo:
—Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes.
A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se respeitava.
Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e tanta esperança.
Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.
Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo, tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.
Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.
Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão timido, que córava diante della, como ella diante delle.
De repente a moça estremeceo.
Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor duvida.
Era Pery.
Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.
Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.
VIII TRES LINHAS
Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas.
Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão uma mesma idéa.
Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento, convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo.
Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice.
N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira que fazia honra ao appetite dos convivas.
O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os aventureiros podião beber á larga.
O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens; afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez.
A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o ranger da faca na escudella.
Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de choro confuso e discordante.
Foi no meio desta algazarra que um dos convivas, erguendo a voz, lançou estas palavras:
—E vós, Loredano, nada dizeis? Estais ahi que não ha modo de vos ouvir uma palavra!
—Certo, acudio outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que vos traz mudo, algo tendes, misser italiano.
—Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por alguma moçoila que andou requestando em S. Sebastião.
—Tirai-vos lá com os vossos penares, Ruy Soeiro; achais que Loredano seja homem de se amofinar por cousas de tal jaez?
—E porque não, Vasco Affonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em que o aperte mais a uns do que a outros.
—Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens ha que trazem seu pensamento, empregado em cousa de mór valia do que requebros e galanteios.
O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem á baila, sem dar-se por achado: era facil de ver que elle seguia com affinco uma idéa que lhe trabalhava no espirito.
—Mas, por Deus, continuou Bento Simões, fallai-nos do que vistes na vossa viagem, Loredano; apostaria que alguma vos succedeu!
—Ide com o que vos digo, retrucou Ruy Soeiro, misser italiano está penado da amores.
—E por quem, se vos parece? perguntárão alguns.
—Ora! não custa sabe-lo; por aquelle cangirão de vinho que ahi lhe está fronteiro; não vedes que olhos que lhe deita?
Os aventureiros largárão-se a rir, applaudindo a lembrança.
Ayres Gomes appareceu á porta do saguão.
—Eia, rapazes? disse elle com uma voz que se esforçava por tornar severa. Leva rumor!
—É um dia de chegada, Sr. escudeiro; e deveis leva-lo em conta: acudio Ruy Soeiro.
Ayres sentou-se, e começou a fazer as honras a um resto de veado que estava em frente delle.
—Olá! vós outros, gritou elle, com a bocca cheia, para dous aventureiros que se havião levantado, ide encher vosso quarto, que já refizestes, e os mais esperão sua vez.
Os dous aventureiros sahirão para ir revesar os outros que era costume ficarem de sentinella á noite; medida esta necessaria naquelle tempo.
—Estais hoje muito severo, Sr. Ayres Gomes, disse Martim Vaz,
—Aquelle que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer, respondeu o escudeiro.
—Ah! porque não dizieis isto logo!
—Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos que ver.
—Venha isso, acudio Bento Simões, que já me enfastio de atirar ás pacas e porcos do matto.
—E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras de polvora? perguntou Vasco Affonso.
—Tem que saber isso? Quem, senão os indios, nos dão esta folia?
Loredano ergueu a cabeça.
—Que historias contais ahi? Suppondes que os indios nos atacarão? perguntou elle.
—Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a chamusco, exclamou Martim Vaz.
A presença de Ayres Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos aventureiros, fez com que fossem uns após outros desemparando a mesa, e deixassem o escudeiro na companhia dos cangirões e escudellas.
Loredano, levantando-se, fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões; e os tres seguirão juntos até ao meio do terreiro; o italiano murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra:
—Amanhã!
Depois, como si nada se tivesse passado entre elles, os dous aventureiros seguirão cada um de seu lado, e deixarão Loredano continuar o seu caminho até a beira do precipicio.
Do lado opposto, o italiano viu reflectir-se sobre as arvores o tenue reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecilia, cujas janellas não podia distinguir por causa do angulo que formava a esplanada.
Ahi esperou.
Alvaro deixando Cecilia, voltára triste e sentido da recusa que soffrêra, embora o consolasse a sua ultima palavra, e sobretudo o sorriso que a acompanhou.
Não se podia resignar á perda desse prazer infinito com que havia contado, de vêr nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que lhe dissesse que pensava nelle. Tinha afagado tanto essa idéa, tinha vivido tanto tempo della, que arranca-la de seu espirito seria um soffrimento cruel.
Emquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou um projecto e tomou uma resolução. Metteu n'uma pequena bolsa de seda uma caixinha de joias; e, envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecilia.
Tambem elle viu a luz das janellas se reflectir de fronte; e esperou que a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse.
Ao tempo que isto se passava, Pery, o indio que já conhecemos, tinha chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um thesouro.
No vallado que se estendia á beira do rio, deixou o seu prisioneiro, depois de o ter mettido n'uma especie de tronco que arranjou, curvando um galho de arvore. Subio então á esplanada, e foi nesta occasião que a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir, foi a maneira por que sahira quasi logo.
Havia dous dias que não via sua senhora, que não recebia della uma ordem; que não adivinhava um desejo seu para satisfaze-lo immediatamente.
O primeiro pensamento do indio, foi pois ver Cecilia, ou ao menos a sua sombra; entrando na cabana, percebeu, como os outros, a restea de luz que coava entre as cortinas da janella.
Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio á choça e por um desses movimentos ageis que lhe erão tão naturaes, de um salto segurou-se ao galho de um oleo gigante que, elevando-se sobre a encosta fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa.
Durante um momento o indio pairou sobre o abysmo, balançando-se no galho fraco que o sustinha: depois equilibrou-se e continuou essa viagem aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho marinheiro caminha sobre as gavias e sobre as enxarcias.
Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da arvore, e, escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro das janellas de Cecilia cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que Loredano chegava de um lado e Alvaro de outro, e se collocavão igualmente á alguns passos.
A principio, Pery, só teve olhos para ver o que se passava dentro do aposento: Cecilia examinava ainda por uma ultima vez as encommendas que lhe havião chegado do Rio de Janeiro.
Nessa muda contemplação, o indio esqueceu tudo; que lhe importava o precipicio que se abria a seus pés para traga-lo ao menor movimento, e sobre o qual plainava n'um ramo fraco que vergava e se podia partir a todo o instante!
Era feliz; tinha visto sua senhora; ella estava alegre, contente, satisfeita; podia ir dormir e repousar.
Uma lembrança triste porém o assaltou; vendo os lindos objectos que a moça recebêra, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha primores como aquelles para offertar-lhe.
O pobre selvagem ergueu os olhos ao céo n'um assomo de desespero, como para ver se, collocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas da arvore, poderia estender a mão e colher estrellas que deitasse aos pés de Cecilia.
Assim, era esse o ponto onde se irradiavão aquellas tres linhas partidas de pontos tão differentes. De maneira porque estavão collocados, formavão um verdadeiro triangulo, cujo centro era a janella frouxamente illuminada.
Todos elles arriscavão ou ião arriscar sua vida, unicamente para tocarem com a mão o umbral da gelosia: e entretanto nem um pesava o perigo que ia correr; nem um julgava que sua vida valesse a pena de mercadejar por ella um prazer.
É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande e magestosa, são verdadeiras epopéas do coração.
IX AMOR
As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado.
Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações bem differentes.
Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue; o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se elevava entre elle, pobre colono, e a filha de D. Antonio de Mariz, rico fidalgo de solar e brazão.
Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem á condição de homens.
O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio.
Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos amores daquelle tempo de crença e lealdade.
Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.
Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.
Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma realidade.
Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa mesma noite, nesse mesmo instante.
Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações, que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o outro uma paixão, o ultimo uma religião.
Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar: o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.
Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o quarto de Cecilia.
Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da ribanceira, D. Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma adhesão ao pé mais firme e mais seguro.
Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na sombra e na humidade.
Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha, seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que enchião essas grotas e alcantis.
Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o quadro da janella.
O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho, onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente. Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da janella.
Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o precipicio seguia as menores evoluções da sombra.
Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta mão havia deitado na janella.
E não se enganava.
Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu intento.
Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a esperança de que Cecilia lhe perdoaria.
Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio. Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da hirára.
Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.
Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento, bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras.
Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo, e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena.
Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar.
Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor suspeita.
O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli naquella hora silenciosa da noite?
O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia fazer-lhe comprehender o resto.
Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa.
Pery não se moveu.
Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração fanatica um pensamento, que para elle era muito simples.
Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza, e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora.
Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.
E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava a fachada do edificio.
Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.
Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima que desfiava-lhe pela face.
Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle passava.
De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas palavras imperceptiveis:
—Si eu quizesse!
Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.
O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a pupilla negra de Isabel?
Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?
Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a natureza humana não devia resistir?
Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza possivel senão em um milagre da Providencia.
Era o pó subtil do curari, o veneno terrivel dos selvagens.
Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio.
—Minha mãi?... minha mãi!...
Um soluço rompeu-lhe o seio.
X AO ALVORECER
No dia seguinte, ao raiar da manhã, Cecilia abrio a portinha do jardim e aproximou-se da cerca.
—Pery! disse ella.
O indio appareceu á entrada da cabana; correu alegre, mas timido e submisso.
Cecilia sentou-se n'um banco de relva; e a muito custo conseguio tomar um arzinho de severidade, que de vez em quando quasi trahia-se por um sorriso teimoso que lhe queria fugir dos labios.
Fitou um momento no indio os seus grandes olhos azues com uma expressão de doce reprehensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que de rigor:
—Estou muito zangada com Pery!
O semblante do selvagem annuviou-se.
—Tu, senhora, zangada com Pery! Porque?
—Porque Pery é máo e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, vai caçar em risco de morrer! disse a moça resentida.
—Cecy desejou ver uma onça viva!
—Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma cousa para que tu corras atraz della como um louco?
—Quando Cecy acha bonita uma flôr, Pery não vai buscar? perguntou o indio.
—Vai, sim.
—Quando Cecy ouve cantar o soffrer, Pery não o vai procurar?
—Que tem isso?
—Pois Cecy desejou ver uma onça, Pery a foi buscar.
Cecilia não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse sillogismo rude, a que a linguagem singela e concisa do indio dava uma certa poesia e originalidade.
Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Pery por causa do susto que lhe havia feito na vespera.
—Isto não é razão, continuou ella; por ventura um animal feroz é a mesma cousa que um passaro, e apanha-se como uma flôr?
—Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.
—Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciencia, se eu te pedisse aquella nuvem?...
E apontou para os brancos vapores que passavão ainda envolvidos nas sombras pallidas da noite.
—Pery ia buscar.
—A nuvem? perguntou a moça admirada.
—Sim a nuvem.
Cecilia pensou que o indio tinha perdido a cabeça; elle continuou:
Sómente como a nuvem não é da terra e homem não pode toca-la, Pery morria e ia pedir ao Senhor do céo a nuvem para dar a Cecy.
Estas palavras forão ditas com a simplicidade com que falla o coração.
A menina que um momento duvidara da razão de Pery, comprehendeu toda a sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta.