PRIMEIRA PARTE OS AVENTUREIROS (continued 2)
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A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairamos seus labios um sorriso divino.
—Obrigada, meu bom Pery! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.
—Senhora, não está mais zangada com Pery?
—Não; apezar de que devia estar, porque Pery hontem fez sua senhora affligir-se cuidando que elle ia morrer.
—E Cecy ficou triste? exclamou o Indio.
—Cecy chorou! respondeo a menina com uma graciosa ingenuidade.
—Perdôa, senhora!
—Não só te perdôo, mas quero tambem fazer-te o meu presente.
Cecilia correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia encommendado a Alvaro.
—Olha! Pery não desejava ter umas?
—Muito!
—Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança de Cecilia, não é verdade?
—Oh! o sol deixará primeiro a Pery, do que Pery a ellas.
—Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecilia as deu para defenderem e salvarem a tua vida.
—Porque é tua, não é, senhora?
—Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim.
O rosto de Pery irradiava com o sentimento de um gozo immenso, de uma felicidade infinita; metteu as pistolas na cinta de pennas e ergueo a cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a uncção de Deus.
Para elle essa menina, esse anjo louro, de olhos azues, representava a divindade na terra; admira-la, faze-la sorrir, vê-la feliz, era o seu culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os thesouros de sentimento e poesia que transbordavão dessa natureza virgem.
Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e seu rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lagrimas ardentes que escaldão o seio e requeimão as faces.
A moça e o indio nem se olhárão; odiavão-se mutuamente; era uma antipathia que começára desde o momento em que se virão, e que cada dia augmentava.
Agora, Pery, Isabel e eu vamos ao banho.
—Pery te acompanha, senhora?
—Sim; mas com a condição de que Pery ha de estar muito quieto o socegado.
A razão por que Cecilia impunha esta condição, só podia hem comprehender quem tivesse assistido á uma das scenas que se passavão quando as duas moças ião banhar-se, o que succedia quasi sempre ao domingo.
Pery, com o seu arco, companheiro inseparavel, e arma terrivel na sua mão dextra, sentava-se longe á beira do rio n'uma das pontas mais altas do rochedo ou no galho de alguma arvore, e não deixava ninguem aproximar-se n'um raio de vinte passos do lugar onde as moças se banhavão.
Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse circulo que o indio traçava com o olhar em redor de si, Pery na posição sobranceira em que se collocára o percebia immediatamente.
Então se o descuidado caçador sentia o seu chapéo ornar-se de repente com uma penna vermelha que voava pelos ares sibilando; se via uma setta arrebatar-lhe o fructo que elle estendia a mão para colher; se parava assustado diante de uma longa flexa emplumada que despedida por elevação vinha cahir-lhe a dous passos da frente como para embargar-lhe o caminho e servir de balisa; não se admirava.
Comprehendia immediatamente o que isto queria dizer; e pelo respeito que todos votavão a D. Antonio de Mariz e á sua familia, arripiava caminho; e voltava lançando uma jura contra Pery que lhe crivára o chapéo, e o obrigara a encolher a mão de susto.
E fazia bem em voltar, porque o indio com o seu zelo ardente não duvidaria vasar-lhe os olhos para evitar que chegando-se á beira do rio, visse a moça a banhar-se nas aguas.
Entretanto Cecilia e sua prima tinhão o costume de banhar-se vestidas com um trajo feito de ligeira estamenha que occultava inteiramente sob a côr escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para nadarem.
Mas Pery entendia que apezar disto seria uma profanação consentir que um olhar de quem quer que fosse visse a senhora no seu trajo de banho; nem mesmo o delle que era seu escravo, e por conseguinte não podia offende-la, a ella que era o seu unico Deus.
Emquanto porém o indio mantinha assim pela certeza de sua vista rapida, e pela projecção das suas flexas esse circulo impenetravel para quem que quer que fosse, não deixava de olhar com uma attenção escrupulosa a corrente e as margens do rio.
O peixe que beijava a flor da agua, e que podia ir offender a moça; uma cobra verde innocente que se enroscava pelas folhas dos aguapés; um cameleão que se aquecia ao sol fazendo scintillar o seu prisma de côres brilhantes; um sagui branco e felpudo que se divertia a fazer caretas maliciosas suspendendo-se pela cauda ao galho de uma arvore; tudo quanto podia ir causar um susto á moça, o indio fazia fugir se estava longe e se estava perto pregava o animal immovel sobre o tronco ou sobre o chão.
Se um ramo arrastado pela corrente passava, se um pouco do limo das aguas despegava-se da margem pedregosa do rio, se o fructo de uma sapucaia pendida sobre o Paquequer estalava prestes a cahir, o indio, veloz como o tiro do seu arco lançava-se e retinha o coco no meio da sua quéda, ou precipitava-se n'agua e apanhava os objectos que boiavão.
Cecilia podia ser offendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela fructa que cahia; podia assustar-se com o contacto do limo julgando ser uma cobra; e Pery não perdoaria a si mesmo a mais leve magoa que a moça soffresse por falta de cuidado seu.
Emfim elle estendia ao redor della uma vigilancia tão constante e infatigavel, uma protecção tão intelligente e delicada, que a moça podia descançar, certa de que se soffresse alguma cousa seria porque todo o poder do homem fóra impotente para evitar.
Eis pois a razão porque Cecilia recommendava a Pery que estivesse quieto e socegado; é verdade que ella sabia que essa recommendação era sempre inutil, e que o indio faria tudo para que uma abelha sequer não viesse beijar os seus labios vermelhos confundindo-os com uma flôr de pequiá.
Quando as duas moças atravessarão a esplanada, Alvaro passeava junto da escada.
Cecilia saudou de passagem com um sorriso ao joven cavalheiro; e desceu ligeiramente seguida por sua prima.
Alvaro que tinha procurado ler-lhe nos olhos e no rosto o perdão de sua loucura da vespera, e nada havia percebido que acabasse com o seu receio, quiz seguir a moça, e fallar-lhe.
Voltou-se para ver se alguem estava alli que reparasse no que ia fazer, e deo com o italiano que a dous passos delle o olhava com um dos seus sorrisos sarcasticos.
—Bom dia, Sr. cavalheiro.
Os dous inimigos trocarão um olhar que se cruzara como laminas de aço que roçassem uma na outra.
Nesse momento Pery se aproximava lentamente delles, carregando uma das pistolas que Cecilia lhe havia dado a alguns minutos.
O indio parou, e com um ligeiro sorriso de uma expressão indefinivel tomou as pistolas pelo cano, e apresentou-as uma a Avaro e outra a Loredano.
Ambos comprehendêrão o gesto e o sorriso; ambos sentirão que tinhão commettido uma imprudencia, e que o espirito perspicaz do selvagem havia lido nos seus olhos um odio profundo, e talvez que a causa desse odio.
Voltárão-se fingindo não ter visto o movimento.
Pery levantou os hombros e mettendo as pistolas na cinta passou entre elles com a cabeça alta, o olhar sobrançeiro, e acompanhou sua senhora.
XI NO BANHO
Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima:
—Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas ao Sr. Alvaro?
Isabel estremeceu.
—Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á cortezia que elle nos faz.
—Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente.
—Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia?
A moça calou-se.
—Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou Cecilia galanteando.
Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas palavras que parecião queimar-lhe os labios:
—Bem sabes que o aborreço!...
Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a brincar com uma alegria infantil sobre a relva.
Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao verdadeiro.
A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia córar.
Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da moça acabavão de proferir.
Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi uma blasphemia.
Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel.
Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a fizesse soffrer.
O sol vinha nascendo.
O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro.
Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores.
Era a hora em que o cactus, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol crestasse a alvura diaphana de suas petalas.
Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda humida colhendo uma graciola azul que se embalançava sobre a haste, ou um malvalisco que abria os lindos botões escarlates.
Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; a viuvinha que escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer.
Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo corpo um calafrio: lembrára-se do tigre.
De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas que se espedaçavão, e o indio appareceu.
Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula:
—Que é isto, Pery?
—Nada, senhora.
—É assim que prometteste estar quieto?
—Cecy não se ha de zangar mais.
—Que queres tu dizer?
—Pery sabe! respondeu o indio sorrindo.
Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça, julgando que isso lhe causava um prazer.
Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira, em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre dedicação que se expandia no sorriso de seus labios.
As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o sorriso.
Cecilia tinha chegado a uma latada de jasmineiros que havia á borda d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em satisfazer as vontades da menina.
Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se na relva.
Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma fresta por onde o olhar do dia penetrasse.
A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas roupagens.
Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma, que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:—Bem te vi!
Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de menina.
Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por com prazer ficou sentada á beira do rio.
Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente, com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma dessas garças brancas, ou colhereiras de rosea côr que deslisão mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no crystal das aguas.
Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela correnteza.
A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração procura illudir-se.
Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o contrario mentia.
Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na margem opposta as guaximas se agitarem.
A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol, e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz de umas grandes pedras que havia á beira do rio.
Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido por um animal de grande corpulencia.
Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação dos arbustos.
Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão as pedras para despedirem o tiro.
E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.
Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria um perigo, e portanto não reflectio, não calculou.
Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos cabellos mudou de direcção.
Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.
Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:
—Pery!...
Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se ligeiramente no matto.
Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande avanço.
Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero o coração como para reter o sangue que espadanava.
Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a força da vontade e o poder da natureza.
O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.
Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer lutar ainda.
Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente retrahindo e tocou a terra com os joelhos.
Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar, e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual se abraçou convulsivamente.
Era uma cabuiba de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em lagrimas.
O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo, que entrou no seu seio como um balsamo poderoso.
Sentio-se renascer.
Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.
Estava salvo.
XII A ONÇA
Voltemos á casa.
Loredano, depois do movimento de Pery, tinha acompanhado com os olhos a Alvaro, o qual seguio pela borda da esplanada para ver Cecilia que dirigia-se ao rio.
Apenas o moço dobrou o angulo que formava o rochedo, o italiano desceu a ladeira rapidamente, e metteu-se pelo matto.
Poucos instantes se tinhão passado quando Ruy Soeiro appareceu na esplanada, ganhou abaixa, e entranhou-se por sua vez na floresta.
Bento Simões imitou-o com pequeno intervallo, e guiando-se por alguns talhos frescos que vio nas arvores, tomou na mesma direcção.
O pateo ficou deserto.
Decorreu cerca de meia hora: a casa tinha aberto todas as suas janellas para receber o ar puro da manhã, e as emanações saudaveis dos campos; um ligeiro pennacho de fumo alvadio coroava o tubo da chaminé, annunciando que os trabalhos caseiros havião começado.
De repente ouvio-se um grito no interior da habitação; todas as portas e janellas do edificio fechárão-se com um estrepito e uma rapidez, como se um inimigo cahisse de assalto.
Pela fresta de uma janella entre-aberta appareceu o rosto de D. Lauriana, pallida e com os cabellos sem estarem riçados, o que era uma cousa extraordinária.
—Ayres Gomes!... O escudeiro!... Chamem Ayres Gomes! Que venha já! gritou a dama.
A janella fechou-se de novo com o ferrolho.
A personagem que já conhecemos pouco tardou, e atravessando a esplanada dirigio-se á casa, sem comprehender a razão porque áquella hora com sol alto ainda toda a habitação parecia dormir.
—Fizestes-me chamar! disse elle chegando-se á janella.
—Sim; estais armado? perguntou D. Lauriana por detraz da porta.
—Tenho a minha espada; mas que novidade ha?
A physionomia decomposta de D. Lauriana appareceu de novo na fresta da janella.
—A onça! Ayres Gomes!... A onça!...
O escudeiro deo um salto prodigioso julgando que o animal de que se fallava ia saltar-lhe ao cangote, e sacou da espada pondo-se em guarda.
A dama vendo o movimento do escudeiro suppoz que a onça atirava-se á janella, e cahio de joelhos murmurando uma oração ao santo advogado contra as féras.
Alguns minutos se passárão assim; D. Lauriana rezando; e Ayres Gomes rodando no pateo como um corropio, com receio de que a onça não o atacasse pelas costas, o que além de ser uma vergonha para um homem de armas da sua tempera, seria um pouco desagradavel para sua saude.
Por fim, de pulo em pulo o escudeiro conseguio ganhar de novo a parede do edificio e encostar-se nella, o que o tranquillisou completa mente; pela frente não havia inimigo que o fizesse pestanejar.
Então batendo com a folha da espada na hombreira da janella disse em voz alta:
—Explicar-me-heis que onça é essa de que fallais, Sra. D. Lauriana; ou estou cego, ou não vejo aqui sombra de semelhante animal.
—Estais bem certo disso, Ayres Gomes? disse a dama reerguendo-se.
—Se estou certo! Assegurai-vos com os vossos proprios olhos.
—É verdade! Mas em alguma parte ha de estar!
—E porque quereis vós á fina força que aqui esteja uma onça, Sra. D. Lauriana? disse o escudeiro um tanto impacientado.
—Pois não sabeis? exclamou a dama.
—O que, senhora?
—Aquelle bugre endemoninhado não se lembrou de trazer hontem uma onça viva para a casa!
—Quem, o perro do cacique?
—E quem mais senão aquelle cão tinhoso!
—É das que elle costuma fazer!
—Viu-se já uma cousa semelhante, Ayres Gomes!
—Mas a culpa não tem elle!
—Quero ver se o Sr. Mariz ainda teima em guardar essa boa joia.
—E que é feito da féra, Sra. D. Lauriana?
—Algures deve estar. Procurai-a, Ayres; corrão tudo, matem-n'a, e tragão-me aqui.
—É dito e feito, respondeu o escudeiro correndo tanto quando lhe permittião as suas botas de couro de raposa.
Com pouca demora, cerca de vinte aventureiros armados descêrão da esplanada.
Ayres Gomes marchava na frente com um enorme chuço na mão direita, a espada na mão esquerda, e uma faca atravessada nos dentes.
Depois de percorrerem quasi todo o valle e baterem o arvoredo, voltavão, quando o escudeiro estacou de repente e gritou:
—Eil-a, rapazes! Fogo antes que faça o pulo!
Com effeito, por entre a ramagem das arvores via-se a pelle negra e marchetada do tigre, e os olhos felinos que brilha vão com o seu reflexo pallido.
Os aventureiros levarão o mosquete á face, mas no momento de puxarem o gatilho, largárão todos uma risada homerica, e abaixarão as armas.
—Que é lá isso? Tem medo?
E o destemido escudeiro sem se importar com os outros mergulhou por sob as arvores e apresentou-se arrogante em face do tigre.
Ahi porém cahio-lhe o queixo de pasmo e de sorpreza.
A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo laço que apertando-se com o seu proprio peso, a estrangulára.
Emquanto viva, um só homem bastára para trazê-la desde o Parayba até á floresta, onde tinha sido caçada; e da floresta até áquelle lugar onde havia expirado.
Era depois de morta que fazia todo aquelle espalhafato; que punha em armas vinte homens valentes e corajosos; e produzia uma revolução na casa de D. Lauriana.
Passado o primeiro momento de admiração, Ayres Gomes cortou acorda e arrastando o animal foi apresenta-lo á dama.
Depois que de fora lhe assegurarão que o tigre estava bem morto, entre-abrio-se a porta, e D. Lauriana ainda toda arripiada, olhou estremecendo o corpo da féra.
—Deixe-o ahi mesmo. O Sr. D. Antonio ha da vê-lo com seus olhos!
Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello accusatorio que ia fulminar contra Pery.
Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava para causar-lhe um faniquito.
Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará.
Desta vez porém D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della?
Terminava esta reflexão justamente no momento em que D. Antonio de Mariz assomava á porta.
—Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?
—Ahi a tendes! exclamou D. Lauriana apontando para a onça comum gesto soberbo.
—Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as presas do tigre.
—Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o trouxe!...
—Deve ter sido um habil caçador, disse D. Antonio contemplando a féra com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo: não tem o signal de uma só ferida!
—É obra daquelle excommungado caboclo, Sr. Mariz! respondeu D. Lauriana preparando-se para o ataque.
—Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Pery hontem perseguia, e de que nos fallou Alvaro!
—Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca!
—A trouxe viva! Mas não vêdes que é impossivel?
—Como impossivel, se Ayres Gomes vem de acaba-la agora mesmo!
Ayres Gomes quiz retrucar; mas a dama impoz-lhe silencio com um gesto.
O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou que tinha as patas e as mandibulas ligadas.
—É verdade! murmurou elle; devia estar viva ha cousa de uma hora; ainda conserva o calor.
D. Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal, certa de que as reflexões que esta vista produziria não podião deixar de ser favoraveis ao seu plano.
Quando julgou que tinha chegado o momento, deo dous passos, arranjou a cauda do seu vestido, e dando um certo descabido ao corpo, dirigio-se a D. Antonio:
—Bom é que vejais, Sr. Mariz, que nunca me illudo! Que de vezes vos hei dito que fazieis mal em conservar esse bugre? Não quereis acreditar: tinheis um fraco inexplicavel pelo pagão. Pois bem...
A dama tomou um tom oratorio, e accentuou a palavra com um gesto energico apontando para o animal morto:
—Ahi tendes o pago. Toda a vossa familia ameaçada! Vós mesmo que podieis sahir desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que corria foi banhar-se, e podia a está hora estar pasto de féras.
O fidalgo estremeceu á idéa do perigo que corrêra sua filha e ia precipitar-se; mas ouvio um doce murmurio de vozes que parecia um chilrear de sahis: erão as duas moças que subião a ladeira.
D. Lauriana sorria-se do seu triumpho.
—E se fosse só isto? continuou ella. Porém não pára aqui: amanhã vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma giboia; encher-nos-ha a casa de cobras e lacráos. Seremos aqui devorados vivos, porque a um bugre arrenegado deo-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias!
—Exagerais muito tambem, D. Lauriana. É certo que Pery fez uma selvajaria; mas não ha razão para que receiemos tanto. Merece uma reprimenda: lh'a darei e forte. Não continuará.
—Se o conhecesseis como eu, Sr. Mariz! É bugre e basta! Podeis ralhar-lhe quanto quizerdes; elle o fará mesmo por pirraça!
—Prevenções vossas, que não partilho.
A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.
—Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a semelhante martyrio!
D. Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher, e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la.
D. Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer.
XIII REVELAÇÃO
Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha.
Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que fascinava.
Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr do sol.
As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios recommendando silencio.
—Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D. Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte.
—Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa?
—Umas das suas, e de que já sabes parte.
—E eu vou contar-te o resto! atalhou D. Lauriana, tocando com a mão o braço de sua filha.
E de facto apresentou com as côres mais negras, e com a emphase mais dramatica, não só o risco imminente que na sua opinião tinha corrido a casa inteira, mas os perigos que ameaçavão ainda a paz e o socego da familia.
Referio que, se por um milagre a sua caseira não tivesse ha cousa de uma hora chegado á esplanada e visto o indio fazendo partes diabolicas com o tigre ao qual naturalmente ensinava a maneira de penetrar na casa, todos áquella hora estarião defuntos.
Cecilia empallideceu, lembrando-se do descuido e alegria com que atravessára o valle e se banhára; Isabel conservou-se calma, mas seus olhos brilharão.
—Assim, concluio peremptoriamente D. Lauriana, não é concebivel que continuemos com semelhante praga em casa.
—Que dizeis, minha mãi? exclamou Cecilia assustada: pretendeis manda-lo embora?
—Sem duvida: essa casta de gente, que nem gente é, só póde viver bem nos mattos.
—Mas elle nos ama tanto! Tem feito tanto por nós não é verdade, meu pai? disse a menina voltando-se para o fidalgo:
D. Antonio respondeu a sua filha por um sorriso que a socegou:
—Vós ralhareis com elle, meu pai: eu ficarei agastada, continuou Cecilia, e elle se emendará e não fará mais outra.
—E a de ha pouco? replicou Isabel dirigindo-se a Cecilia.
D. Lauriana, que via a sua causa mal parada depois da chegada das moças, apezar da repugnancia que sentia por Isabel, conheceu que tinha nella um alliado; e dirigio-lhe a palavra, o que succedia uma vez por semana.
—Chega-te, menina; o que é que dizes ter acontecido ha pouco?
—E tambem um perigo que correu Cecilia.
—Qual! minha mãi; foi mais susto de Isabel do que outra cousa.
—Susto, sim; mas pelo que vi...
—Conta me isto; e tu Cecilia, fica ahi socegada.
A menina pelo respeito que tinha a sua mãi não se animou a dizer mais uma palavra; porém aproveitando-se do movimento que fez D. Lauriana ao voltar-se para ouvir a Isabel, abanou a cabeça a sua prima pedindo-lhe que nada dissesse.
A moça fez que não via o gesto, e respondeu a sua tia:
—Cecilia estava se banhando e eu tinha ficado á beira do rio: dahi a algum tempo vejo Pery que passava ao longe pelo galho de uma arvore. Elle sumio-se; e de repente uma setta partida daquelle lugar veio cahir a dous passos de minha prima!
—Ouça cá, Sr. Mariz! exclamou D. Lauriana; ouça as estrepolias do capeta!
—No mesmo instante, continuou Isabel, ouvimos dous tiros de pistola, que ainda mais nos assustárão, porque de certo forão apontados tambem para nosso lado.
—Senhor Deus! É peior do que uma judearia! Mas quem deo pistolas a esse bugio?
—Fui eu, minha mãi; respondeu timidamente Cecilia.
—Melhor seria que rezasses as tuas contas. Era bem feito que com ellas mesmo... Senhor Deus! perdoai-me!
D. Antonio tinha ouvido as palavras de Isabel apezar de conservar-se a alguma distancia; o rosto do fidalgo tomara uma expressão grave.
Fez um ligeiro aceno a Cecilia, e afastou-se com ella em ar de quem passeava pela esplanada:
—O que diz tua prima é verdade?
—É, meu pai; mas estou certa que Pery não o fez por maldade.
—Comtudo, replicou o fidalgo, isto pode renovar-se, por outro lado tua mãi está atemorisada; assim, o melhor é afasta-lo.
—Elle vai sentir muito!!
—E eu e tu tambem porque o estimamos; mas não seremos ingratos; eu pagarei a tua e a minha divida de gratidão; deixa isto ao meu cuidado.
—Sim, meu pai! exclamou a menina com um olhar humido de reconhecimento e de admiração: Sim! Vós que sabeis comprehender tudo que é nobre!
—Como tu, minha Cecilia! respondeu o fidalgo acariciando-a.
—Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores acções.
D. Antonio abraçou-a.
—Ah! tenho uma cousa a pedir-vos!
—Dize: ha muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disto.
—Mandareis conservar este animal? Sim!
—Desde que o desejas...
—Será uma lembrança que teremos de Pery.
—Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse elle, podia eu agora apertar-te nos meus braços?
—Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que elle se vai?
—É natural, minha filha, as lagrimas são um balsamo que Deus deo á fraqueza da mulher, e que negou á força do homem.
O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se á porta onde se achavão ainda sua mulher, Isabel e Ayres Gomes.
—Que decidistes, Sr. D. Antonio? perguntou a dama.
—Decidi fazer-vos a vontade, para socego vosso e descanço meu. Hoje mesmo ou amanhã Pery deixará esta casa; mas emquanto elle aqui estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquelle monosyllabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Pery sahe desta casa porque lh'o peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por alguem. Entendeis, minha mulher?
D. Lauriana, que comprehendia o que havia de energia e resolução naquelle imperceptivel entoação dada pelo fidalgo a uma simples phrase, inclinou a cabeça.
—Incumbo-me de fallar eu mesmo a Pery! Dir-lhe-has de minha parte, Ayres Gomes, que venha ter comigo.
O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se:
—Ah! esquecia-me. Mandaras encher este lindo animal que desejo conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete d'armas.
D. Lauriana fez á sorrelfa uma careta de nojo.
—E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha menos medo de onças.
D. Antonio afastou-se.
A dama pôde então ir riçar os seus cabellos, e preparar o seu toucado domingueiro; tinha alcançado uma importante victoria.
Pery ia finalmente ser expulso desta casa, onde na sua opinião nunca devêra ter entrado.
Emquanto isto passava, Cecilia, ao separar-se de seu pai, voltára o canto da casa para entrar no jardim, e encontrára Alvaro que passeava inquieto e pensativo.
—D. Cecilia! disse o moço.
—Oh! deixai-me, Sr. Alvaro! respondeu Cecilia sem parar.
—Em que vos offendi eu para que me trateis assim?
—Desculpai-me, estou triste; em nada me offendestes.
—É que quando se commetteu uma falta...
—Uma falta? perguntou a menina admirada.
—Sim! respondeu o moço abaixando os olhos.
—E que falta commettestes vós, Sr. Alvaro?
—Desobedeci-vos.
—Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso.
—Não zombeis, D. Cecilia! Se soubesseis que inquietações isto me tem feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e comtudo parece-me que era capaz de pratica-lo de novo.
—Mas, Sr. Alvaro, esqueceis que fallais de uma cousa que ignoro; sei apenas que se trata de uma desobediencia!
—Lembrais-vos que hontem me mandastes guardar um objecto, que...
—Sim! atalhou a moça corando; um objecto que...
—Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui.
—Como! que dizeis!
—Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas...
—Mas emfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a moça com um movimento de impaciencia.
Alvaro vencendo emfim o seu acanhamento contou rapidamente o que linha feito na vespera á noite.
Cecilia ouvindo-o, ia se tornando séria.
—Sr. Alvaro, disse ella n'um tom de exprobração, fizestes mal em praticar semelhante acção, muito mal. Que ninguem o saiba ao menos.
—Eu juro pela minha honra!
—Não basta; vós mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquella janella emquanto houver alli um objecto que não me veio de meu pai, e em que não posso tocar.
—Senhora!... balbuciou o moço pallido e abatido.
Cecilia levantou os olhos, e viu no rosto de Alvaro tanta amargura e desespero, que sentio-se commovida.
—Não me accuseis de que succede, disse ella com a voz meiga, a culpa é vossa.
—Eu o sinto; e não me queixo.
—Bem vistes que não podendo acceitar, pedi que conservasseis como uma lembrança.
—Oh! eu a conservarei ainda; ella me ensinará a expiar a minha falta, e m'a recordará sempre.
—Será agora uma triste recordação...
—E posso-as eu ter alegres!
—Quem sabe! disse Cecilia desentrançando dos seus cabellos louros um jasmim; é tão doce esperar!
Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecilia viu perto a Isabel que devorava esta scena com um olhar ardente.
A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim. Alvaro apanhou no ar a pequena flôr que se escapára dos dedos de Cecilia e beijou-a julgando que ninguem alli estava. Quando o cavalheiro deo com os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cahir o jasmim sem sentir.
Isabel apanhou-o; e apresentando a Alvaro, disse com um accento de voz inimitavel:
—É tambem uma restituição!
Alvaro empallideceu.
A moça tremula passou diante delle, e entrou no quarto de sua prima.
Cecilia vendo chegar Isabel corou, e não se animou a levantar os olhos, lembrando-se do que ella tinha visto e ouvido: pela primeira vez a innocente menina conhecia que havia na sua pura affeição alguma cousa que se escondia aos olhos dos outros.
Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fôra arrastada por um sentimento irresistivel, arrependera-se immediatamente; a perturbação que sentia era tão grande, que temeu trahir-se; encostou-se no leito defronte de Cecilia, muda e com os olhos cravados no chão.
Assim passou-se um longo intervallo; depois as duas moças quasi ao mesmo tempo erguêrão a cabeça e lançárão um olhar para a janella; seus olhos se encontrárão, e ambas corárão ainda mais.
Cecilia revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava n'um cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germem da firmeza de caracter que distinguia seu pai, sentio-se offendida por se ver obrigada a córar de vergonha diante de outrem, como se tivesse commettido uma falta.
Revestio-se de coragem, e tomou uma resolução cuja energia se desenhava em um movimento imperceptivel das sobrancelhas.
—Isabel, abre esta janella.
A moça estremeceu como se uma faisca electrica tivesse abalado o seu corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento.
Dous olhares avidos, ardentes, cahirão sobre a janella no momento em que se abrio.
Nada havia alli.
A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua physionomia illuminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem descer do céo sobre a cabeça da mulher que ama.
Cecilia olhava sua prima sem comprehendê-la; mas a pouco e pouco a admiração e o espanto desenháráo-se no semblante da menina.
—Isabel!...
A moça cahio de joelhos aos pés de Cecilia.
Tinha-se trahido.
XIV A INDIA
Pery apenas sentio voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha atravez da floresta.
Por muito tempo seguio as pegadas da india pelo meio do matto com uma rapidez e uma certeza incrivel para quem não conhecer a facilidade com que os selvagens percebem os mais fracos vestigios que deixão as pisadas de um animal qualquer.
Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas seccas espalhadas e partidas, um galho que ainda se agita, as perolas do orvalho desfeitas, são aos seus olhos exercidos o mesmo que uma linha traçada na floresta, e que elles seguem sem hesitação.
Uma razão havia para que Pery se encarniçasse assim em perseguir aquella india inoffensiva, e a fazer esforços inauditos afim de agarra-la.
Para hem comprehender esta razão, é necessario conhecer alguns acontecimentos que se havião passado nos ultimos dias pelas vizinhanças do Paquequer.
No fim da lua das aguas, uma tribu de Aymorés descera das eminencias da Serra dos Orgãos para fazer a colheita dos fructos e preparar os vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão.
Uma familia dessa tribu trazida pela caça apparecêra ha dias nas margens do Parahyba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e uma filha.
Esta ultima era uma bella india, cuja posse se disputavão todos os guerreiros aymorés; seu pai, o chefe da tribu, sentia o orgulho de ter uma filha tão formosa, como a mais linda setta do seu arco, ou a mais vistosa penna do seu cocar.
Estamos no domingo.
Na sexta-feira, erão dez horas da manhã, Pery atravessava a matta imitando alegremente o canto do sahixé, cujas notas sibiladas elle traduzia pelo doce nome de Cecy.
Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa nesta historia, especialmente depois de morto; como não o satisfazia qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus proprios dominios um dos reis das grandes florestas que corrião ao longo do Parabyba.
Cecilia havia dito uma palavra, e elle que não discutia os desejos de sua senhora, tomára o seu arco e sua clavina e se tinha posto a caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo sahio do matto, e logo depois uma india que deo dous passos e cahio ferida por uma bala.
Pery voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu D. Diogo de Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dous aventureiros.
O moço ia atirar a um passaro, e a india que passava neste momento, recebêra a carga da espingarda e cahira morta.
O cãozinho lançou-se para sua senhora uivando, lambendo-lhe as mãos frias, e roçando a cabeça pelo corpo ensanguentado como procurando reanima-la. D. Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de piedade sobre essa moça victima de um capricho de caçador, que não desejava perder a sua pontaria.
Quanto a seus companheiros, rião-se do acontecimento, e divertião-se a fazer commentarios sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha escolhido.
De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueo a cabeça, farejou o ar, e partio como uma flexa.
Pery que tinha sido testemunha muda desta scena, aconselhou a D. Diogo que se recolhesse á casa por prudencia, e continuou a sua caminhada.
O espectaculo que acabava de presenciar o entristecêra; lembrou-se de sua tribu, de seus irmãos que elle havia abandonado ha tanto tempo, e que talvez naquella hora erão tambem victimas dos conquistadores de sua terra, onde outr'ora vivião livres e felizes.
Tendo andado cerca de meia legua, avistou ao longe um fogo na matta; ao redor estavão sentados dous selvagens e uma india.
O mais velho, de estatura gigantesca, engastava as presas longas e aguçadas da capivara nas pontas de cannas silvestres, e afiava n'uma pedra essa arma terrivel. O mais moço enchia de pequenas sementes pretas e vermelhas um fructo ouco, ornado de pennas e preso a um cabo de dous palmos de comprimento.
A mulher, que ainda era moça, cardava uma porção de algodão cujos frocos alvos e puros cahião sobre uma grande folha que tinha no regaço.
Junto do fogo havia um pequeno vaso vidrado com brazas no qual a india de vez em quando deitava umas grandes folhas seccas, que levantavão grossos novellos de fumo. Então os dous indios por meio de uma taboca aspiravão as baforadas deste fumo, até que os olhos lhes choravão; depois continuavão o seu trabalho.
No momento em que Pery examinava de longe esta scena, o cãozinho saltava no meio do grupo: o animal apenas respirou da corrida em que vinha, puxou com os dentes a trofa de pennas do indio mais moço, que o atirou a quatro passos com um empurrão.
Aproximou-se então da india, repetio o mesmo movimento; e como fosse mal acolhido ainda, saltou sobre o algodão, e mordeu-o: a mulher tomou-o pela colleira de fructos que trazia ao pescoço, sacudio-o pelas costas, e arranjou as suas pastas; mas estavão tintas de sangue.
Examinou com inquietação o animal; e não o vendo ferido, lançou os olhos ao redor de si e soltou um grito rouco e guttural; os dous indios erguêrão a cabeça interrogando com os olhos a causa dessa exclamação.
Por toda a resposta, a india mostrou o sangue que cobria o animal, e pronunciou com a voz cheia de afflicção uma palavra de uma lingua desconhecida, e que Pery não entendeu.
O indio mais moço saltou pela floresta como um campeiro atraz do cãozinho que lhe servia de guia: o velho e a mulher o seguirão de perto.
Pery comprehendeu perfeitamente o que se passava, e seguio seu caminho pensando que os colonos já devião áquella hora estar fora do alcance dos selvagens.
Era isto o que o indio tinha visto; o que elle ignorava, o acontecimento do banho lhe revelára claramente.
Os selvagens havião encontrado o corpo de sua filha, e reconhecido o signal da bala; por muito tempo procurárão debalde as pisadas dos caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava servio-lhes de guia.
Toda a noite rondárão em torno da habitação, e nessa manhã vendo sahir as duas moças resolverão vingar-se com a applicação dessa lei de talião que era o unico principio de direito e justiça que reconhecião.
Tinhão morto sua filha; era justo que matassem tambem a filha do seu inimigo; vida por vida, lagrima por lagrima, desgraça por desgraça.
Como pretendêrão realisar a sua vingança e o fim que tiverão, já sabemos; os dous selvagens dormião para sempre nas margens do Paquequer, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura.
Agora é facil conhecer a razão por que Pery perseguia a india, resto da infeliz familia; sabia que ella ia direito ter com seus irmãos, e que á primeira palavra que proferisse, toda a tribu se levantaria como um só homem para vingar a morte do seu cacique, e a perda da mais bella filha dos Aymorés.
Ora, o indio conhecia a ferocidade desse povo sem patria e sem religião, que se alimentava de carne humana e vivia como féras no chão c pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéa de que podesse vir assaltar a casa de D. Antonio de Mariz.
Era preciso pois exterminar toda a familia, e não deixar nem um vestigio de sua passagem.
Fazendo estas reflexões, Pery tinha gasto perto de uma hora a percorrera floresta inutilmente; a india ganhara um grande avanço durante o tempo em que elle lutava contra o desfallecimento pruduzido pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a D. Antonio immediatamente, afim de que tomasse todas as medidas de prevenção que exigia a imminencia de perigo.
Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se destacavão aqui e alli sobre um capim aspero e queimado pelo sol.
Apenas o indio deo alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo um gesto de sorpreza; diante delle arquejava um cãozinho, que reconheceu pela colleira de fructos escarlates que tinha ao pescoço.
Era o mesmo que ha dous dias encontrára na floresta, e que naturalmente seguia a india no momento em que ella fugia; o indio não o tinha visto por causa das guaximas.
O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torsão tão violenta, que lhe partira a columna vertebral; entretanto ainda agonisava.
Do primeiro lanço d'olhos Pery tinha visto tudo isto, e calculado o que se havia passado.
Aquella morte, pensava elle, não podia ter sido feita senão por uma creatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras, e deixaria traços de ferimento.
O cão pertencia á india; fôra ella pois quem o havia estrangulado ha bem poucos momentos, porque a fractura do pescoço era de natureza a produzira morte quasi immediatamente.
Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?—Porque, respondia o espirito do indio, ella sabia que era perseguida, e o cão que a não podia acompanhar serviria para denuncia-la.
Apenas formulou este pensamento, Pery deitou-se e auscultou o seio da terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando illudir-se, e encostou de novo o ouvido ao chão.
Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande sorpreza e admiração; tinha ouvido alguma cousa de que parecia duvidar ainda, como se os seus sentidos o illudissem.
Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se elevava n'uma baixa do terreno.
Então, collocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda a cautela, e ouvio um murmurio de vozes confusas, e o som de um instrumento que cavava a terra.
Pery applicou o ouvido, e procurou ver o que se passava além, mas era impossivel; nem uma aberta, nem uma fresta davão passagem ao som, ou ao olhar.
Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas largas palmas crivadas de espinhos se entrelação estreitamente formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer idéa da barreira impenetravel que cercava por todos os lados as pessoas cuja voz Pery ouvia sem distinguir as palavras.
Entretanto esses homens devião ter ahi entrado por alguma parte; e não podia ser senão pelo galho de uma arvore secca que se estendia sobre os cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide.
Pery estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que se passava a traz daquellas arvores, quando uma voz que julgou reconhecer exclamou.
—Per Dio! eil-a!
O indio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer o que fazião aquelles homens; presentio que havia alli um perigo a conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrivel do que os Aymorés, porque se estes erão féras, aquelle podia ser a serpente escondida entre as flôres e a relva.
Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se n'uma unica idea, ouvir o que aquelles homens dizião.
Mas por que meio?
Era o que Pery procurava; tinha rodeado a touca applicando o ouvido, e pareceu-lhe que em um lugar o ruido das vozes e do ferro que continuava a cavar, lhe chegava mais distincto.
O indio abaixou os olhos, que brilhárão de contentamento.
O que produzira essa agradavel impressão fôra um simples monticulo de barro gretado, que se elevava como um pão de assucar dous palmos acima da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem.
Era a entrada de um formigueiro, de uma dessas casas subterraneas construidas pelos pequenos architectos que á força de paciencia e trabalho minão um campo inteiro, e formão verdadeiras abodadas debaixo da terra.
Aquelle que Pery descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterraneo.
O indio tirou a sua faca, e cerceando a cupola dessa torre em miniatura, deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e de certo ia ter á baixa onde estavão reunidas as pessoas que conversavão.
Este buraco tornou-se para elle uma especie de tubo acustico, que lhe trazia as palavras claras e distinctas.
Sentou-se e ouvio.
XV OS TRES
Loredano que nessa mesma manhã sahira de casa tão cedo, apenas se entranhou na matta esperou.
Um quarto de hora depois vierão ter com elle Bento Simões e Ruy Soeiro.
Os tres seguîrão juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava adiante, e os dous aventureiros o acompanhavão trocando de vez em quando um olhar significativo.
Por fim Ruy Soeiro rompeu o silencio:
—Não foi de certo para espairecer pelos mattos ao romper da alva, que nos fizestes vir aqui, misser Loredano?
—Não, respondeu o italiano laconicamente.
—Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo.
—Esperai!
—Que espereis, vos digo eu; atalhou Bento Simões, ides n'uma batida... Onde nos pretendeis levar nesta marcha?
—Vereis.
—Já que não ha meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser Loredano.
—Sim, acudio Ruy Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos.
—Quando estiverdes de vez para fallar, nos avisareis.
E os dous aventureiros pararão dispostos a retroceder; o italiano voltou-se com um gesto de desprezo.
—Parvos que sois! disse elle. Se vos parece, revoltai-vos agora que estais em meu poder, e que não tendes outro remedio senão seguir a minha fortuna! Voltai!... tambem eu voltarei; mas para denunciar-nos a todos.
Os dous aventureiros empallidecêrão.
—Não me façais lembrar, Loredano, disse Ruy Soeiro abaixando um olhar rapido para o punhal, que ha um meio de fechar para sempre as boccas que se obstinão a fallar.
—Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me matarieis no caso de que eu vos quizesse denunciar?
—A fé que sim! respondeu Ruy Soeiro com um tom que mostrava a sua resolução.
—E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que as vossas venetas, misser italiano.
—E que ganharieis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo.
—Essa é melhor! Que ganharíamos? Achais que é cousa de pequena valia assegurar a sua existencia e o seu descanço?
—Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa laia, elle deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos incidentes!
—Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Ruy Soeiro; será morte antes que homizio.
—Direis melhor execução, Ruy Soeiro! retrucou Bento Simões.
O italiano continuou:
—Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de longe, até mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me.
—Quereis gracejar, misser italiano? A occasião não é asada.
—A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de D. Antonio de Mariz o meu testamento, que elle deve abrir quando me saiba ou me julgue morto. Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim para que trabalhamos.
Os dous aventureiros tornárão-se lividos como espectros.
—Comprehendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes, se um accidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo fugir e fazer suppor que morri, estais perdidos irremediavelmente.
Bento Simões ficou paralysado como se uma catalepsia o tivesse fulminado. Ruy Soeiro, apezar do violento abalo que sentia, conseguio com um esforço recobrar a palavra.
—É impossivel!... gritou elle. Isso que dizeis é falso. Não ha homem que o fizesse.
—Ponde á prova! respondeu o italiano calmo e impassivel.
—Elle o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida.
—Não, retrucou Ruy Soeiro; Satanaz não o faria. Vamos, Loredano; confessai que nos enganastes, que quizestes atemorisar-nos?
—Disse a verdade.
—Mentes! gritou o aventureiro desesperado.
O italiano sorrio: tirando a sua espada, estendeu a mão sobre a cruz do punho, e disse lentamente deixando cahir as palavras uma a uma:
—Por esta cruz e pelo Christo que nella soffreu; por minha honra neste mundo, e minha alma no outro, juro.
Bento Simões cahio de joelhos esmagado por este juramento, que não deixava de ter alguma solemnidade no meio da floresta sombria e silenciosa.
Ruy Soeiro pallido, com os olhos a saltarem-lhe das orbitas, os labios tremulos, os cabellos eriçados e os dedos hirtos, parecia a mumia do desespero.
Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e suffocada:
—Pois vós, Loredano, confiastes a D. Antonio de Mariz um papel onde existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia?
—Confiei-o!
—E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de vossos intentos?
—Escrevi tudo!
—Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós?
—Sim!
—E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para decidir a qual deverá tocar?
—Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas mãos de D. Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabellião do Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem.
Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle.
Passou-se algum tempo em silencio.
—Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto de exemplo. Quando uma vez se pôz o pé sobre o precipicio, amigos, é preciso caminhar por cima delle, para não rolar e ir ao fundo. Caminhemos pois. Só de uma cousa vos advirto; de hoje em diante—obediência cega e passiva!
Os dous aventureiros não dissêrão palavra; porém a sua attitude respondia melhor do que mil protestos.
—Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e D. Antonio é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Creai esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta.
A physionomia de Bento Simões reanimou-se.
—Fallai claro uma vez ao menos, retrucou Ruy Soeiro.
—Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos á vontade.
—Esperai, acudio Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é devida. Ha pouco vos ameaçámos; aqui tendes as nossas armas.
—Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai.
Os dous tirárão os punhaes e as espadas.
—Guardai as vossas armas, disse Loredano encarnecendo, servirão para me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existencia!
Ambos os aventureiros empallidecêrão, e seguirão o italiano, que depois de uma meia hora de caminho chegou á touca de cardos que já descrevêmos.
Á um signal de Loredano, os seus companheiros subirão á arvore, e descêrão pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que tinha quando muito tres braças de comprimento sobre duas de largura.
De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma especie de gruta ou abobada, restos desses grandes formigueiros que se encontrão pelos nossos campos, já meio aluidos pela chuva. Neste lugar, á sombra de um pequeno arbusto que nascêra entre os cardos, sentárão-se os tres aventureiros.
—Oh! disse o italiano immediatamente; ha algum tempo já que não venho dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja que vos dará no gôto.
Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que alli estava deitada, e que collocou no meio do grupo.
—É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem!
—Diabo! tendes uma adega exclamou Bento Simões a quem avista da botija tinha restituido todo o bom humor.
—A fallar a verdade, disse Ruy, esperaria tudo, menos ver sahir deste buraco uma botija de vinho.
—É para vêrdes! como costumo vir a este lugar, onde ás vezes passo bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse.
—E não podieis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadella á botija e estalando a lingua. Já lhe tinha saudades!
Cada um dos tres tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu lugar.
—Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometti, quando vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos.
Os dous inclinárão a cabeça.
—A promessa que vos fiz vai-se realisar: a riqueza está aqui perto de nós, podemos toca-la.
—Onde? perguntárão os aventureiros lançando um olhar avido em roda.
—Não vai assim tambem, falla-se figuradamente.
Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos della é preciso...
—O que? Dizei!
—A seu tempo: agora quero contar-vos uma historia.
—Uma historia! replicou Ruy Soeiro.
—Da carocha? perguntou Bento Simões.
—Não, uma historia veridica como uma bulla do nosso santo padre. Ouvistes fallar algum dia, em um certo Roberio Dias?
—Roberio Dias... Ah! sei! um tal de S. Salvador? disse Ruy Soeiro.
—O mesmo, sem tirar nem pôr.
—Vi-o ha cousa de oito annos em S. Sebastião, donde se passou ás Hespanhas.
—E sabeis o que ia fazer ás Hespanhas esse digno descendente do Caramurú, amigo Bento Simões? perguntou o italiano.
—Ouvi rosnar que se tratava de um thesouro fabuloso, que contava offerecer a Felippe II, o qual em volta o faria marquez, e grande fidalgo de sua casa.
—E o resto, não vos chegou á noticia?
—Não; nunca mais ouvi fallar do tal Roberio Dias.
—Pois ouvi lá; chegando a Madrid, o homem fez a sua offerta mui lampeiro, e foi recebido na palma das mãos por el-rei Felippe II que, como sabeis, tinha as unhas demasiado longas.
—E cinzou-o como uma raposa que era? acudio Ruy Soeiro.
—Enganais-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quiz ver o côco ante de paga-lo.
—E então?
—Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o côco estava ouco.
—Como ouco?
—Sim, amigo Ruy, tinhão-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para nós, que vamos lograr o miôlo.
—Sois um homem de caixas encouradas, Loredano!
—Dá-se agente a tratos, e não é possivel entender-vos.
—Tenho culpa eu, que não sejais lido na historia das cousas de vossa terra?
—Nem todos são mitrados como vós, dom italiano.
—Bom, acabemos de uma vez; o que Roberio Dias julgava offerecer em Madrid a Felippe II, amigos, está aqui!
E Loredano dizendo esta palavra assentou a mão sobre um seixo que havia ao lado.
Os dous aventureiros olhárão-se sem comprehender, e duvidando da razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que elles pensavão, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra começou a cavar. Emquanto proseguia neste trabalho, os dous observando-o passavão alternadamente a botija de vinho, e fazião conjecturas e supposições.
O italiano já cavava ha tempo, quando o ferro tocou num objecto duro, que o fez tinir.
—Per Dio, exclamou, eil-a!
Dahi a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro vidrado, a que os indios chamavão camuci; este era pequeno e fechado por todos os lados.
Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentio o imperceptivel vascolejar que fazia dentro um objecto qualquer.
—Aqui tendes, disse elle lentamente, o thesouro de Roberio Dias; pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de Bagdad, e mais poderosos que o doge de Veneza.
O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partio em pedaços.
Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficárão estupefactos. Do bojo do vaso saltára apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo.
Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e, abrindo rapidamente o pergaminho, mostrou aos aventureiros um rotulo escripto em grandes letras vermelhas.
Ruy Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer, de pasmo e admiração.
Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel collocado no meio do grupo, seus olhos tomarão uma expressão dura.
—Agora, disse elle com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá quando chegar a occasião; que obedecereis ao meu gesto, á minha palavra, como á lei do destino.
—Juramos!
—Estou cançado de esperar, e resolvido a aproveitar o primeiro ensejo. A mim como chefe, disse o italiano com um sorriso diabolico, devia pertencer D. Antonio de Mariz; eu vo-lo cedo, Ruy Soeiro. Bento Simões terá o escudeiro. Eu reclamo para mim Alvaro de Sá, o nobre cavalheiro.
Ayres Gomes vai se ver n'uma dansa! disse Bento Simões com um aspecto marcial.
—Os mais, se nos incommodarem, irão depois; se nos acompanharem serão bem vindos. Unicamente vos aviso que aquelle que tocar a soleira da porta da filha de D. Antonio de Mariz, é um homem morto; esta é a minha parte de presa! É a parte do leão.
Neste momento ouvio-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado.
Os aventureiros não fizerão reparo, e attribuirão naturalmente ao vento.
—Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres, poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquez do Paquequer; tu, Ruy Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano com um sorriso que illuminou a sua physionomia intelligente. Eu serei...
Uma palavra partio do seio da terra surda e cavernosa, como se uma voz sepulcral a houvesse pronunciado.
—Traidores!...
Os tres aventureiros erguêrão-se de um só movimento, hirtos e lividos: parecião cadaveres surgindo da campa.
Os dous persignárão-se. O italiano suspendeu-se ao ramo da arvore, e lançou um olhar rapido.
Tudo estava em socego.
O sol a pino derramava um oceano de luz: nenhuma folha se agitava ao sopro da brisa; nenhum insecto saltitava sobre a relva.
O dia no seu esplendor dominava a natureza.