SEGUNDA PARTE PERY (continued 2)
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Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as faces.
Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo.
Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe gracioso.
Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de sua prima.
—Já te disse que não te quero vêr triste.
—Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se.
—Que é isto? Faço-te medo?
—Não... mas...
—Mas, o que?
—Nada...
—Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de ti. Confessa!
—Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de tua amizade.
E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos devemos amar sempre?
—Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel admirada.
—Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada.
—Não; perdoa; porém é que...
A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma idéa assaltou-lhe o espirito.
Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir amargamente.
—Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou entre nós; não é verdade?
—Tu o queres!
—Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença, accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter segredos para comigo.
—Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.
—Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e rir-me comtigo quando ficares contente. Sim?
—Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha.
—E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes amar uma outra pessoa?
Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos de Alvaro fitos nos seus.
—Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas, minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro!
—Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que soffras por minha causa; entendes?
—Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza.
—Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz!
—Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente.
—Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem.
Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos.
—Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia?
Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o mereço?
—Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia.
—Porque?
—Porque elle te ama! murmurou Isabel.
A menina corou.
—Não digas isto, é falso.
—É bem verdade.
—Elle te disse?
—Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma.
—Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me importa o que elle sente a meu respeito?
E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas voltou da porta.
—Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti.
Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao braço de Isabel.
—Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te achará bonita!
Este bracelete!...
Isabel teve de repente uma suspeita.
A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida.
—Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim, e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão agasto-me comtigo.
Isabel abaixou a cabeça.
—Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até logo.
E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo.
A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as impressões tristes da manhã.
IX TESTAMENTO
No momento em que Cecilia deixou Isabel, D. Antonio de Mariz subia a esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua physionomia expressão ainda mais grave que a habitual.
O velho fidalgo avistou de longe seu filho D. Diogo e Alvaro passeando ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que se aproximassem.
Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão D. Antonio de Mariz até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.
Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; D. Antonio como homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas arrobas de polvora.
O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.
D. Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.
—Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia, disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos interessa e a mim antes do que a todos.
D. Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho fidalgo.
—Tenho sessenta amos, continuou D. Antonio; estou velho. O contacto deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á terra aquillo que veio da terra.
Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos illurdirmos a nós proprios.
D. Antonio conteve-os com um gesto nobre.
—Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas.
Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou D. Diogo; mas é a segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda!
—De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda vida que vos deo o novo mundo.
—Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse D. Antonio sorrindo; quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua ultima vontade, e fazer o seu testamento.
—O vosso testamento, meu pai! disse D. Diogo pallido.
—Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas. Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento. Ouvi-me.
Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava D. Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo com uma emoção de tristeza e respeito.
—Não trato de vós, D. Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou meu pai.
O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de D. Diogo para o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação.
—A vós, D. Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido.
Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os n'um mesmo olhar de amor paternal.
—Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.
D. Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.
—O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o titulo de sobrinha.
—Isabel?... exclamou D. Diogo.
—Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.
A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia despertado.
—Pobre mulher!... murmurou elle.
Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua emoção, voltou aos dous moços.
—Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço um juramento; basta-me a vossa palavra.
Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: D. Antonio, que comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os.
—Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.
—Assim o tinha entendido, disse Alvaro.
—Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das partes do meu testamento. Sabeis qual?
—A da minha felicidade!... respondeu o moço córando.
D. Antonio apertou-lhe a mão.
—Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro?
—Vi-o ha pouco.
—Ide e mandai-o a mim.
O moço retirou-se.
—Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho.
D. Diogo obedeceu.
O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que fechou com um retroz e sellou com as suas armas.
D. Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por D. Diogo.
—Sentai-vos, minha mulher.
D. Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que ia praticar.
Quando Cecilia entrou, elle perguntou-lhe ao ouvido:
—Que queres tu dar-lhe?
A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um selvagem.
Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava.
—Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella.
—É necessario; eu te disse.
—Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario.
—Impossivel!
—Que mal faz elle aqui?
—Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves crêr-me.
—Não vos agasteis!...
—Assim não te oppões?
Cecilia calou-se.
—Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e eu, porque lhe prometti.
—Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai.
Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida.
A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do cavalheiro.
Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu irmão D. Diogo.
—Pery, acreditas que D. Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o fidalgo.
—Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr.
—Acreditas que D. Antonio de Mariz te estima?
—Sim; porque o disse e mostrou.
—Acreditas que D. Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste por elle, salvando sua filha?
—Se fosse preciso, sim.
—Pois bem, Pery; D. Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á tua tribu.
O indio estremeceu.
—Porque pedes isto?
—Porque assim é preciso, amigo.
—Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade!
—Não!
—Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento: sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery não te custa nada.
Cecilia chorava; D. Antonio e seu filho estavão commovidos; D. Lauriana mesma parecia enternecida.
—Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa, se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana. Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu.
—Porque então mandas Pery embora?
D. Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria.
—Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a quem amamos, respeitamos e obedecemos.
—Sim.
—Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda.
—O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te.
Houve um momento de silencio; D. Antonio não sabia o que replicar.
—Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas que Pery vá, senhora?
D. Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha.
—Sim! balbuciou Cecilia.
O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face.
O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira vez sente-se vencida pela dôr.
X DESPEDIDA
D. Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:
—O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e de tua senhora e no meu.
O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e voltou-se para seu filho:
—Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa ser prisioneiro, que D. Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos deixo a cumprir, meu filho.
—Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em satisfação dos meus proprios sentimentos.
—Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo onde nasceste.
Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes, como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não podião exprimir.
Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua senhora.
A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta, e deitou-a no pescoço do indio:
—Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.
—Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.
Cecilia estremeceu.
O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antonio de Mariz, que não podia dominar a sua emoção.
—Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a alegria se partisse no fim da lua.
—Por que razão? perguntou D. Antonio; desde que é necessario que nos separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.
—Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery estaria comtigo para defender-te.
—Vou ser atacado? exclamou D. Antonio pensativo.
—Sim: podes contar.
E por quem?
—Pelo Aymoré.
—E como sabes isto? perguntou D. Antonio fitando nelle um olhar desconfiado.
O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.
—Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e caminharem para sua tribu.
—E tu o que fizeste?
—Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.
O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.
—É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e meus.
O indio sorrio tristemente.
—Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.
D. Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias, e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.
Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que apparecia no saio de algodão do indio.
Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado a solução de um difficil problema.
—Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.
Pery recuou um passo; mas D. Antonio lançando-se para elle entreabrio o talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as, e viu que estavão descarregadas.
O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio com admiração profunda.
—Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas, que vistes um dia D. Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.
O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e confuso, parecia um criminoso em face do juiz.
—Vamos, Pery, disse D. Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.
—Falla.
—Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no banho?
—Foi Pery.
—Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?
Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.
—Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos selvagens?
Pery não respondeu.
—É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.
—Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.
O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.
—Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.
Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse com um tom supplicante:
—Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo embora, depois do que fez por mim?
—Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e para sempre.
Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos labios de D. Antonio.
—Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi não estivera?
D. Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos. As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.
—Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar, sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antonio de Mariz; tenho tambem a minha divida a pagar.
O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe estendêra.
Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava, e seguiria o exemplo que lhe dava.
Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou estupefacto.
O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.
Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do Paquequer. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande corpulencia.
Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa em que atravessou para a margem opposta.
Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento cerrou-lhe o coração.
D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que se tinha mostrado tão severo com seu filho.
Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões, aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte presentimento.
Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á casa.
Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não queria assustar sua mulher.
O mais já sabemos.
Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa, e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.
Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto; recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o houvesse presenciado.
A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um raio de luz para D. Antonio.
O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do que se passava.
Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D. Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao escudeiro.
Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos; mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa, Ayres Gomes não hesitava.
D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.
—Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo dedicado de toda a minha familia.
Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão que o havia injuriado?
Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.
—Vamos, Ayres!
O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão sorrindo.
—Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.
Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.
—Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre mostrar o que és.
Era hora do jantar: o toque soou.
XI TRAVESSURA
Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma da outra.
Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão.
O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a contemplavão.
Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e lembrava-se dos anginhos de Deus.
Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso, lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.
No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que costumava praticar.
Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos; parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua alma.
Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola brilhante que bem se podia chamar a alma do amor.
O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe sensações voluptuosas.
Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno semblante.
—Como estás bonita! disse a menina de repente.
E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.
—Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de Cecilia.
É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado.
Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir.
—Vamos busca-lo?
—Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio.
—Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs.
—Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs.
Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente.
Tinhão chegado á frente da casa. D. Lauriana conversava com seu filho D. Diogo, emquanto D. Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela esplanada conversando.
Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida.
—Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está tão linda! Se eu vos pedisse e ao Sr. Alvaro para que nos acompanhassem?
—Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo galanteando; cumpririamos a tua ordem.
—Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas!
—E o que são os desejos de um lindo anginho como tu?
—Assim, nos acompanhais?
—De certo.
—E vós, Sr. Alvaro?
—Eu... obedeço.
Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle.
Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa de que elle se accusava.
A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando D. Antonio o chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho encantador que ia esvaecer-se.
As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo.
Uma occasião porém Cecilia deixou que D. Antonio e Alvaro se aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão brejeiro, que Isabel ficou inquieta.
—Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai.
—Sim! E o que é?
—Um segredo.
—Pois vem contar-m'o.
Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o braço.
—Tende paciencia por um instante, Sr. Alvaro, disse ella voltando-se; conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo bracelete... Ainda não o vistes?
E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir o seu effeito.
A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é impossivel de descrever.
Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado.
Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que devia ser um segredo entre ambos.
Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos; avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o seu braço mimoso.
Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma explicação, animou-se a romper o silencio:
—Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou elle supplicante.
—Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.
—Como?
—Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me fazer aceita-lo; pois se eu soubesse...
—Que vinha de minha mão! Não aceitarieis?
—Nunca!... exclamou a moça com fogo.
Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra; parecia dar um juramento.
—Qual o motivo? perguntou depois de um momento.
A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um mysterio, e desejava esclarecê-lo.
Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste:
—Perdoai-me, D. Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro?
Isabel estremeceu.
—Fallai: eu vos escuto, Sr.Alvaro.
—Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste bracelete, não é verdade?
—Sim! balbuciou a moça.
—Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço. Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até que ponto zombão de mim.
—Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me.
—E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais?
—Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do coração.
—Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico!
Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle havia dado.
Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado.
A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida; seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar ardente cahia sobre o moço e o fascinava.
—Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego.
—E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.
—Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo receber-se a má nova de voz amiga!
Isabel ia fallar, mas parou estremecendo:
—Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!
—E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim um amigo.
—Se fosseis!...
E os olhos de Isabel scintillárão.
—Acabai!
—Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar.
—Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe? disse Alvaro admirado.
A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos.
Todo este dialogo, vivo, animado, cheio de reticencias e hesitações da parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas.
Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um enigma.
—D. Isabel!
A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas.
—Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo.
—Não m'o pergunteis!...
—Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós? Dizei!
—Quereis saher? perguntou a moça com exaltação.
—Tanto tempo ha que supplico-vos!
Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della esperava emfim uma resposta.
Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as faces.
—Me perdoareis?
—Sim! Mas porque?
—Porque...
Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução subita se tinha operado em toda a sua organisação.
O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel.
O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.
As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço, ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos labios.
Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se pelas fórmas palpitantes.
Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a primeira palavra.
Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor desfallecida sobre a haste, murmurou:
Porque... vos amo!
XII AS MENSAGENS DE PERY
Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo.
Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma profanação.
A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava ajoelhada aos pés do cavalheiro.
Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se, embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração.
—Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante.
—Não tenho que perdoar-vos, D. Isabel, respondeu o moço erguendo-a; peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa.
—Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos!
E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação.
—Que desejais de mim? perguntou o moço.
—Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós será para mim um consolo. M'o negareis?
Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um desespero surdo e concentrado.
—Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.
—Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição.
—E uma affeição calma e serena que vai bem outras, D. Isabel.
A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a suffocava.
Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de D. Antonio de Mariz; o que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava como pai.
—Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me por vosso irmão.
—Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?
—Sim, D. Isabel.
—Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente? perguntou ella com timidez.
Alvaro hesitou.
—Sim, Isabel.
A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o acariciavão.
—Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.
—Contai-me as vossas magoas.
—Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.
—Culpada! Em que!
—Em querer-vos, disse Isabel corando.
Alvaro tornou-se frio e reservado.
—Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me, depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.
A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro não pode resistir.
—Fallai, minha irmã.
—Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo, e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que me tratão fez-me desprezar a outra.
—Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de D. Antonio de Mariz.
—Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!...
—Tendes razão, Isabel.
—Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma.
A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro.
—Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.
O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.
—Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões, sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me fallavão...
Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.
—Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo. Podeis-me ouvir sem temor.
—Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.
—Resta a explicação que ha pouco me pedieis.
—Ah! emfim!
Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.
—Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração, donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes que lembrar-vos de mim para odiar-me!
—Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.
O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e, apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para reflectir sobre o que lhe acontecia.
Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado; e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antonio de Mariz lhe dava a mão de sua filha!
Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa; caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.
Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.
A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a aproximação da noite.
Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o movimento que lhe tinha imprimido o arco.
O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.
Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do rosto de Cecilia.
Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade, tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.
—Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio.
—Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar; queres?
—Pery te pede.
—Quaes achas mais bonitas?
—A de teu rosto, e a de teus olhos.
Cecilia sorrio.
—Toma-as; eu te as dou.
Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres.
Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta, tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares.
Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou mensageira muda, uma simples interjeição: Alto!
O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação com esse mysterio que apenas deixara entrever.
Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do indio.
Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava no fundo azul do horizonte, esperou.
Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se; Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á ordem.
Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a trinta passos do lugar onde parára a principio.
Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem.
Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho.
Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao ouvido uma palavra.
—São elles.
—Elles quem?
—Os inimigos brancos.
—Não te entendo.
—Espera: Pery volta.
E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava rapidamente.
XIII TRAMA
Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.
O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se; passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por lhe escaparem os seus inimigos.
Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas nunca homens de energia e resolução.
Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos meios de sahir da posição difficil em que se achava.
Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que complicasse a situação.
Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.
—Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.
—Como sabeis?
—Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?
—É verdade; mas quem foi então?
—Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.
Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara silencioso.
—Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?
—Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.
O italiano sorrio de escarneo.
—Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido que devemos tomar.
—Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em tudo isto uma cousa sobrenatural.
—Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com impaciencia.
—Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.
Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos, onde tivera lugar a sua entrevista.
—Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma palavra sequer.
Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação da scena anterior.
—Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.
—Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio; desconfia apenas.
—Ainda insistis em que fosse um homem?
—Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do que de uma cobra; é de um homem visionario.
—Visionario! dizei crente!
—Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde servireis de carniça aos urubús.
O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.
—Pensastes?
—Sim.
—Admittis que fosse um homem?
—Admitto tudo.
—Jurais?
—Juro.
—Sobre...
—Sobre minha salvação.
O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.
Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.
Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.
Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol ardente que fazia borbulhar o sangue.
Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões violentas.
Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e fugia-lhe.
A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever inspirar senão affeições castas.
A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões. Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?
Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia conquistar.
Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.
—Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?
—Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto antes, e andar dia e noite sem parar.
—E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?
—Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão, obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda a parte.
—Que propondes então?
—Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem; ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.
—Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que devemos ganhar tudo ou perder tudo.
Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.
—Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.
—Com oito.
—E vós, Bento?
—Sete.
—Decididos?
—Promptos ao menor signal.
—Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso que á noite tudo esteja concluido.
—E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.
—Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda esperança de salvar-se.
Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.
Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.
Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros carregar as suas, e disse-lhes:
—Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.
Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.
Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia produzida pela correnteza do vento.
Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros como a sua sombra; o indio deixando D. Antonio dera pela sua ausencia, e conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua procura.
O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando Bento Simões parou:
—Quem entrará primeiro?
—A sorte decidirá, respondeu Ruy.
—Como?
—Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.
—Está dito!
Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.
Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se; como Loredano, elle tambem disse, comsigo:
—O ultimo será o primeiro.
E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros sem que um percebesse a morte dos outros.
Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no chão ao fio comprido do lombo.
Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.
O plano de Pery tinha gorado.
—Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.
O aventureiro não replicou.
Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que ião os aventureiros; despedindo uma setta por elevação dera ao cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.
Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros, espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um e um, mata-los.
Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.
Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca, Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio com seu pai e sua prima.
A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte; escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse assustar a menina, quanto mais offendê-la.
Bento Simões passou incolume.
XIV A CHACARA
Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.
Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe escapavão por uma especie de fatalidade.
O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva; modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle sabia.
Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano executara sua trama.
O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já acudido ao pensamento do indio.
Foi ter com Alvaro que o esperava.
O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para sempre.
Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.
Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.
Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.
O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola esplendida.
Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle; passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de suas esperanças.
Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e desapego da vida, que succedem ás dores profundas.
—Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?
—Sim; respondeu o indio.
—Quero conhecê-los.
—Para que?
—Para ataca-los.
—Mas são tres.
—Melhor.
O indio hesitou:
—Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.
—Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?
—Pery póde; mas não quer dizer.
—Porque?
—Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás os máos.
—Oh! que não. Falla!
—Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.
—Como?
—Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti, a todos da casa. Tem outros que os seguem.
—Uma revolta!... exclamou Alvaro.
—O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não deixará.
—É impossivel! disse o moço surprendido.
Pery te diz verdade.
—Não creio!...
Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de D. Antonio, não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.
O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas não passava disto.
O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.
—Tu duvidas de Pery?
—Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery; mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.
—Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o indio com firmeza.
—Que queres dizer com isto?
—Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se elle perder a vida dirás ainda que se engana?
Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.
—Melhor é que falles a D. Antonio de Mariz.
—Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente; Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar o bote.
—Mas então o que queres de mim?
—Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle fez; que salves a senhora!
—Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro senão contra o ferro!
O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.
—Tu não amas Cecy!
Alvaro estremeceu.
—Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.
—Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria de meu pai.
Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.
Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do dever.
Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida; sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.
Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa, comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os grandes sentimentos.
Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.
O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:
—Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte; tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.
—Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua senhora.
—Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das florestas; Pery te chamaria irmão.
Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.
O indio tinha a sua idéa.
Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.
Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco do jardim.
Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava no vão esclarecido.
A menina avistando o indio correu para elle:
—Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade? E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir! Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.
—Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para elle ficar.
—Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.
—O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio simplesmente.
—Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita; todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.
O indio sorrio:
—Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?
—Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Alvaro.
Pery abanou a cabeça.
—Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma cruz no peito. Sim?
—A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para abrir; Pery precisa de liberdade para viver.
—Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!
—Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida em que nasceu.
Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.
—Não te zanga, senhora.
—Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.
E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.
O indio voltou pezaroso á sua cabana.
De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da musica.
A chacara dizia assim:
Foi um dia.—Infanção mouro Deixou Alcaçar de prata e ouro. Montado no seu corcel, Partio Sem pagem, sem anadel. Do castello á barbacã Chegou Viu formosa castellã. Aos pés daquella a quem ama Jurou Ser fiel á sua dama. A gentil dona e senhora Sorrio; Ai! que isenta ella não fora «Tu és mouro; eu sou christã:» Fallou A formosa castellã. «Mouro, tens o meu amor: Christão, Serás meu nobre senhor.» Sua voz era um encanto, O olhar Quebrado, pedia tanto! «Antes de ver-te, senhora, Fui rei; Serei teu escravo agora. «Por ti deixo meu alcaçar Fiel; Meus paços d'ouro e de nacar. «Por ti deixo o paraiso; Meu céo É teu mimoso sorriso.» A dona em um doce enleio Tirou Seu lindo collar do seio. E duas almas christãs, Na cruz Um beijo tornou irmãs.
A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um momento as suas doces modulações.