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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 11 (de 12)

TROVAS

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QUE SE MANDARAM DAR A EL-REI D. JOÃO III POR UM FRADE DE SANTO ANTONIO, DOUS ANNOS ANTES DA SUA MORTE, E AS TINHA NA SUA GAVETA, E AS LIA ALGUMAS VEZES, E AS MANDOU QUEIMAR POR MANOEL DE S. THIAGO NO DIA QUE VEIO DA MISERICORDIA, TRES DIAS ANTES DO SEU FALLECIMENTO QUE FOI A 22 DE JUNHO DO ANNO DE CHRISTO DE 1557.

1 Deus sabe que esconder a minha tenção não posso; e, por seu serviço e vosso, digo quanto aqui disser. 2 Se sobre isto o dessirvo, com a clemencia que sóhe, como a vassallo e captivo, que o ama, me perdoe. 3 Um poeta dos latinos a um seu amigo escrevia: «Já agora a terra cria homens maus e pequeninos.!» 4 Como que, com a idade tudo cança e nos esquece, afóra só a maldade, que esta sempre prevalece. 5 Homens bons de muito ser n'esta terra haver sohia; ainda os ha; mais haveria, se os deixassem viver. 6 Os que mettem pelos portos mercadorias defezas, com que os mortos são mortos e os vivos são suas prezas, 7 Esses no reino metteram mentiras e judiarias, baixezas e hypocrisias que toda esta terra encheram. 8 E tanto quê, mór valia tem já isto em Portugal que droga, cravo e tincal, nobreza e cavallaria. 9 Mas de um, que tudo pende[1], vos direi, senhor, um pouco, em que me tenhaes por louco; que Deus calar me defende. 10 Pois dá brado sem cessar— diz Izaias—e canta; como trombeta, levanta tua voz sem descançar. 11 E elle, que tudo é, tudo nos salva pela tenção! Vêr eu tanta perdição me faz fallar, sendo mudo. 12 E eu, com esta ousadia, o direi, porém com febre, que em sua physionomia vereis melhor que tem lebre. 13 Convenho no que se diz: Dês que o mundo se criou, aquelle a quem Deus bem quiz no rosto lh'o amostrou. 14 Após isto, no cabello, na sombra tão infernal; de estopa de ruim pello nunca se fez bom sayal. 15 As sobrancelhas hirsutas maiores que abebedouro, no meio da testa justas, signal é de mau agouro. 16 Olheiras por meio rosto, olhos tristes, embaciados, risinhos falsos, sem gosto, pensamentos esfaimados. 17 Esfaimados de cobiça, de soberba e de inveja, de quantos males atiça quem todo o mundo deseja. 18 Esfaimado de suspeitas, enganos e falsidades, e palavras contrafeitas onde nunca entrou verdade. 19 Esfaimado por lançar o reino e terra a perder, o preço, a honra, e o ser dos que são para estimar. 20 Esfaimado e esfaimado por acabar de roubar honra, fazenda e estado de quem isto lhe foi dar. 21 Ente do seu parecer, nas obras do tanta perda, parentesco deve ter co' ladrão da mão esquerda. 22 É um sem fundo, adverso da direita e do envez, em ser ruim e perverso da cabeça até aos pés. 23 Do qual ousei affirmar, a um seu (ninguem se espante) pardelhos e calcanhar são mores que por diante. 24 São de ladrão calcanhares, dizem todos a uma voz, faz com ratos nos altares mais lavoura que na foz. 25 Té quando, pois, durará, Senhor, tão cruel engano, sortido em tanto damno, trinta e tres annos ha! 26 Ponhamos em termos isto, vejamos quem tem razão, seja juiz Jesus Christo em quem não ha suspeição. 27 Vossa alteza que achou n'este homem feito empelado, que assim se apoderou de si e do seu estado? 28 Entregues á sua vontade d'onde dependem as leis, tudo podem dar os reis, salvo sua liberdade. 29 Este, tudo tem de vós, com que se fez soberano, ingrato, cruel tyranno, a Deus, a vós e a nós. 30 Este, a mais sobre todos, este credes desde a...[2] este tem comvosco os modos de D. Alvaro de Luna. 31 Senhor, que engano é este? como não fugis d'este homem de que tantos outros morrem por ser o seu mal de peste? 32 Que só dous, tres dias, dura qualquer outro em vossa graça, logo de vós a rechaça sua levação[3] sem cura. 33 Não podem ser todos maus; elle só é virtuoso, sendo, á fé, falso raposo todo cheio de desvaus(?). 34 Faz quanto se lhe antoja; e diz, quando adoece: «Quem me visita, me enoja, Quem o não faz me aborrece.» 35 Olhai lá pelo virote! Amaes-lhe os cabellinhos? Criai-lhe bem os filhinhos, governai por este norte. 36 Em qualquer outra pessoa passára isto por graça; que quem não tem cousa sua, ponha os seus bofes na praça. 37 Malditos sejam os pais que geraram tão má cousa, de que todos dão mil ais, e nenhum fallar não ousa! 38 Por terem reconhecido ser de vós apoderado, como Deus é adorado, como o diabo é temido. 39 Dai ao demo este diabo, dai este diabo ao demo! Não é bom, não vol-o gabo, de governalho e de remo. 40 Não se lhe sabe virtude, não viu leão nem pelejou, nem mortos resuscitou, dos vivos tolhe a saude. 41 Pois que milagres são estes, que siso, que discrição, pois que assim lhe concedestes o da vossa jurisdicção? 42 Se elle fôra sisudo e discreto em seus modos, não governára elle tudo, e mais com dolo de todos. 43 É da gloriosa lei, que a todos nós ensina, imigo, e de Deus e Rei ante quem todos malsina. 44 Se vos tem amor ou não, não é texto de Hipocrás; as obras vol-o dirão, não cureis dos seus salás[4] 45 que são figuras, e basta, villãs reverenciaduras com que vos caçou e arrasta por nossas desaventuras. 46 Que o criado verdadeiro que tem verdadeiro amor, mais que o seu, e primeiro, sente o mal de seu senhor. 47 Nos conselhos, vossa alteza em elle sómente crê; sendo tudo na grandeza da perdição que se vê. 48 Por seu conselho casou a princeza em Castella[5]; vêde como Deus livrou este vosso reino d'ella. 49 Por seu conselho deixastes quatro lugares aos mouros[6]; verdade é que poupastes com isso grandes thesouros. 50 Mas por seu procurador poz Deus boas contraditas, que não fizessem mesquitas nos templos do Salvador. 51 Ao duque poz suspeição; que sempre em tudo procede por ser parente d'Abrahão e tambem de Mafamede. 52 Que como homem antigo parece que lhe sabia a sua genealogia, que é esta que aqui digo: 53 Mestre João sacerdote, de Barcellos natural, houve de uma moura tal um filho de boa sorte. 54 Pero Esteves se chamou, honradamente vivia, por amores se casou com uma formosa judia. 55 D'este (pois nada se esconde) nasceu Maria Pinheira, mãi da mãi d'aquelle conde, e sua avó verdadeira[7]. 56 Vêde se era bem provada esta sua suspeição; mas não aproveita já nada onde sobeja a affeição. 57 E com juiz tão suspeito, mal inclinado, teimoso, desalmado, cubiçoso, todos perdem seu direito. 58 Farto trabalho receio lhe faz tal sentença dar: christão e sisudo meio para o meu aproveitar. 59 Antepor a Deus fazenda receio, e maior trabalho; nunca já será atalho mas rodeio sem emenda. 60 Veja isto vossa alteza nas cousas que tal causaram, pois que todas se dobraram e muito mais a pobreza 61 E como, para poupar gastos, se faz a tal obra, Ai! da nação que sossobra, e dobra-se o individar. 62 Em os taes conselhos vãos verá o mais a que veio; nascerão mil de um receio de mouros aos bons christãos. 63 O trabalho era d'além em meritoria guerra; agora, a além e áquem, em todo o mar e na terra. 64 Vós, senhor, não tenhaes pouca culpa n'este feito; peço-vos tudo gemaes sempre dentro em vosso peito.

O author da satyra era o proprio Damião de Goes, que ajuntára a copia ao seu nobiliario; e o portador d'ella a D. João III fôra um familiar do conde da Portella, inimigo do conde da Castanheira. Assim m'o assevera o padre D. Manoel Caetano de Sousa, aquelle doutissimo theatino, cujas 289 obras em varias linguas catalogou o conde da Ericeira, no livro intitulado Bibliotheca Sousana[8].

Entre os manuscriptos que tenho do insigne academico está a satyra copiada com mais razoavel orthographia da que Damião de Goes interpozera na genealogia do conde da Castanheira.

Formosa, lhe chama elle. A mim me não quiz parecer cousa para mediana admiração. A escóla de Sá de Miranda não póde gabar-se de mui notavel alumno no engenho de Damião de Goes; todavia, mais como documento historico, e pouquissimo como modelo de poesia, a considero dignissima da publicidade.

O esclarecido possuidor da satyra invectiva contra Damião de Goes alcunhando-o de detrahidor de alheios creditos. Eis a textual exprobração do clerigo:

Tudo isto continha aquella formosa satyra de que se não sabem mais que as coplas 53, 54 e 55, as quaes malicia e inveja encommendaram mais á memoria por encerrarem em si falta que se transfunde na posteridade quando não é tão falsamente imposta como n'este caso. Cheias andam as Memorias dos genealogicos de argumentos que convencem de falta aquella impostura; aos quaes eu só acrescento que não quero maior prova de sua falsidade do que vêr aquellas coplas, entre tantas tão maledicas, que dizem de um só homem, e tão grande como aquelle conde foi, tantos defeitos que não cabem em tantos homens vis e facinorosos; e vêr que nas coplas 9, 10 e 11, quer o author com pouco respeito ás divinas escripturas attribuir a impulsos do Espirito Divino os que só são effeitos do espirito maligno que sem duvida levaria comsigo ao inferno o author das coplas, se elle antes de morrer se não desdissesse como se affirma que desdisse. E Deus que é summamente justo quer que aquelle mesmo conde, cuja descendencia, n'esta satyra, se emprehendeu infamar, tivesse uma mui esclarecida descendencia, cheia de varões insignes em santidade, letras, armas, dignidades ecclesiasticas e seculares as maiores que se podem conseguir em Portugal, como sabem os que tem menos que mediana noticia das familias d'este reino, na qual sempre os mais sisudos tiveram estas coplas por falsidade[9].

Damião de Goes, em favores ou desfavores genealogicos, não era extremamente consciencioso. Quando recolheu das suas illustradas viagens, procurou Antonio Carneiro, secretario de estado d'el-rei D. João III, e entregou-lhe um papel em que demonstrava que a sua familia d'elle secretario descendia do duque de Mouton, de França, que aportuguezado dizia «Carneiro». O ministro sorriu-se de zombaria á destampada lisonja, lançou o papel, sem o abrir, ao brazido de uma chaminé, e disse a Damião de Goes:—«Contento-me com que os meus descendentes contem como progenitora a honra com que procuro viver sendo util ao rei e á patria.»

Antonio Carneiro bem sabia que não procedia dos Moutons. Era natural do Porto, e de familia honrada. Foi a Lisboa por dependencia que tinha de Pedro Fernandes de Alcaçova, escrivão da fazenda d'el-rei D. João II. Pedro Fernandes tanto se lhe affeiçoou que, além do prompto despacho, o convidou a ficar na côrte, empregando-o no expediente do seu officio. Como Antonio Carneiro fosse o encarregado de levar a despacho real o sacco dos papeis, n'estas idas ao paço, deu trela ao coração, e requestou D. Brites de Alcaçova, filha do seu protector, e dama da rainha. Casou-se com ella a furto; mas, publicado o delicto, foram ambos degredados para a ilha do Principe. Decorridos annos, as reiteradas supplicas da desterrada commiseraram o coração do pai. Veio Antonio Carneiro para o reino com sua mulher, e logo se habilitou para secretario do despacho universal de D. Manoel, revelando-se politico sagacissimo. Semelhantes honras lhe concedeu D. João III, e com ellas o senhorio da ilha do Principe, onde havia gemido degredado e pobre. Morreu aos 86 annos de idade, deixando larga descendencia.

Se leram Damião de Goes, e a Inquirição de Portugal, estudo biographico de Lopes de Mendonça, ou sequer a summariada noticia que escreveu o snr. Innocencio Francisco da Silva, sabem que o adversario do conde da Castanheira, denunciado pelo padre Simão Rodrigues, foi preso como lutherano nos carceres da inquisição, d'onde o mandaram penitenciar-se em reclusão austera no mosteiro da Batalha.

Concluido o prazo da expiação, quando já orçava pelos setenta annos, transferiu-se a sua casa.

Um dia—diz o snr. Innocencio, atido ao testemunho de memorias contemporaneas—o velho chronista d'el-rei D. Manoel foi encontrado morto, quer de accidente apopletico, quer assassinado por domesticos ou estranhos.

D. Manoel Caetano de Sousa refere que a maledicencia heraldica de Damião de Goes não despontára com a velhice, antes se afiára mais na pedra do rancor aos que elle suspeitava seus inimigos. O segundo conde da Castanheira, desforrando-se dos velhos e renovados ultrajes a Maria Pinheira, mandou criados seus moêrem com saccos de arêa o ancião no pateo de sua mesma casa; e de modo se houveram, que Damião de Goes apenas teve forças que o arrastassem á cama, onde se desprendeu da vida, e mormente da lingua que tantos trabalhos lhe custára.

Esta relação do theatino Sousa encontrei eu confirmada em um Nobiliario de Pinheiros, que pertence ao meu joven e illustrado amigo Vicente Pinheiro de Mello e Almada, filho do primeiro visconde de Pindella, e tambem descendente de D. Maria Pinheira.

Concluo rogando aos barões do meu conhecimento que me não façam moêr com saccos de arêa, se eu alguma vez lhes lembrar a tripeça dos avós. Eu lhes asseguro que, em suppostos casos, levo mais em vista nobilital-os que envilecêl-os pelo honrado trabalho de seus avoengos. Ainda assim, não está no meu animo—diga-se verdade—comparar ss. exc.as aos condes da Castanheira, nem confrontar-me a mim com Damião de Goes. Todos nós somos mais ou menos sapateiros nos baronatos e nas sciencias.

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