JOÃO BAPTISTA GOMES
Reading edition
Conhecem perfeitamente o famoso author da Nova Castro.
Seria opprobrio desconhecerem o poeta portuense, honrado na Allemanha ha trinta annos, desde que Alexandre Wittich traduziu a tragedia de Ignez.
João Baptista Gomes, filho de outro de igual nome e appellido, foi guarda-livros no Porto. Casou com uma formosa menina, D. Anna Benedicta Gomes. Morreu na flôr da idade em 20 de dezembro de 1803. Nos braços da sua viuva—que contava vinte e quatro annos—deixou uma menina, D. Thereza Benedicta que veio a ser esposa do dr. José Machado de Abreu, que morreu barão de S. Thiago de Lordello.
A viuva do poeta felleceu em 1844, aos sessenta e seis annos de idade. A bisneta do author da Nova Castro, D. Maria Ismenia de Abreu, ainda vive, casada com o snr. Guilherme Francisco de Almeida e Silva, coronel de cavallaria. O dr. José Machado de Abreu, reitor da universidade e barão de S. Thiago de Lordello, contrahiu segundas nupcias. A exc.ma baroneza, que enviuvou na flôr dos annos, casou com o snr. conselheiro Adriano de Abreu Cardoso Machado, tão notavelmente respeitado nas boas letras, como na politica militante, á qual não chamo tambem boa, para me forrar a contendas com os que militam na politica diversa.
João Baptista Gomes, ainda em fevereiro do anno em que morreu, levado de generosa inspiração, escreveu um Elogio aos cidadãos do Porto, concorrentes a um beneficio destinado a suavisar a desgraça dos presos. Foi o Elogio recitado no real theatro do Principe na noite de 16 de fevereiro de 1803. Esta poesia inedita não é talvez a unica reliquia desconhecida d'aquella forte, dado que inculta intelligencia, da qual Garrett escreveu: Atalhou-o a morte em tão illustre carreira, e deixou orphão o theatro portuguez, que de tamanho talento esperava reforma e abastança. Por ventura, no espolio de sua viuva, se encontrariam as paginas soltas da historia dos seus reciprocos amores, e, talvez, as fatidicas tristezas da morte que empeceu ao desabotoar das vergonteas d'aquella poderosa phantasia. Como quer que seja, desde que João Baptista Gomes se extinguiu, raras vezes as honras posthumas lhe enverdeceram a gloria na lembrança dos vivos, nem alguem se lembrou de lhe estremar os ossos sepultados na igreja de S. Francisco.
No Elogio aos portuenses, ha versos de profundo sentimento, de elevado conceito, e dos mais condimentados com as especies arcadicas d'aquelle tempo.
Queiram-lhe bem os portuenses ao seu poeta, e inscrevam mais este nome no numero dos que, depois de cantarem duas ou tres primaveras, quebraram a lyra na pedra do sepulcro. Que mysterio haverá n'esta ceifa da morte, n'este golfão que tantos cerebros grandes e ardentes dissolve na leiva dos cemiterios?—Coelho Lousada, Evaristo Basto, Soares de Passos, Arnaldo Gama, Ernesto Pinto de Almeida, Guilherme Gomes Coelho, e ainda hontem o maximo entre os melhores, Guilherme Braga!...
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João Baptista Gomes, dez mezes antes de se arrancar não sei se ás alegrias, se ás amarguras da existencia, pedia esmola para os encarcerados, e deixava aos seus portuenses talvez os derradeiros sons da sua harpa.
Dizia assim:
Louvores á virtude aos céos aprazem: Nas aras da verdade puro incenso Respeitosa tribute a humanidade A quem da humanidade os males pungem, A quem aos males da indigencia acode; Com piedosa mão, mão generosa, Da macilenta face ao desgraçado O pranto enxuga, que a penuria arranca. Sensiveis cidadãos, porção mimosa, D'alta prole de Luso esmalte, e gloria, Meus hymnos relevai, que aos vates cumpre Honrar a quem dá honra á especie humana: Beneficas acções, que almas transportam, Por desafogo d'alma applausos pedem. Na sinuosa habitação do crime, Nas pavorosas, lobregas masmorras, Onde fome, e nudez (oh dôr!) outrora, As miserandas victimas ralavam; Onde o estridor horrisono dos ferros, D'imprecações, de pragas, de blasphemias Era, não sem razão, acompanhado; Alli onde animados esqueletos Bradavam pelo jus, que á vida tinham, Em quanto justo oraculo de Themis Castigo aos crimes seus não arbitrava; E os descarnados braços, d'entre os ferros Famintos estendendo as mãos escassas, Com lamentosa voz, parco alimento, Quasi desfallecendo em vão pediam; Alli, onde impio throno a morte alçára, Tem agora seu throno a humanidade. Amavel, divinal beneficencia, Dos céos emanação, innata ao homem, Lei filha da razão, que a natureza Indelevel gravou no peito humano! Só tu fazes heroes, só tu distingues Os entes racionaes das brutas feras. Cobraste, ó natureza, os teus direitos, Desaffrontada estás. Exulta, ó patria! Na estancia destinada ao crime, á infamia, Inconcusso padrão teus beneficios Fabricado já tem á gloria tua. Os carceres contempla, e goza o fructo Das acções, que praticas generosa, Em louvores trocadas as blasphemias; Co'a justiça abraçada a humanidade; Abundancia frugal alenta os tristes, Que inerte esquecimento abandonára Nas garras da penuria, e dos flagicios: Como se não bastasse aos desgraçados Do crime o peso, o peso dos remorsos, Da justa punição a idéa horrivel! Quem ha que delinquente ser não possa? E ha de auxilio negar-se aos delinquentes? Os culpados não deixam de ser homens: E á compaixão dos homens tem direito, Compaixão, não esteril, prestadia. A bem da humanidade taes dictames Leu em seu coração heroe prestante; De honrosa instituição motor ditoso, Com seu sopro accendeu piedoso incendio Em corações dispostos á piedade: Liberaes á porfia generosos, Sobeja caridade exercem todos. Oh dadiva do céo! alma sublime, Que recto, imparcial punindo os crimes Pranteias compassivo os criminosos, E ao culpado infeliz auxilio prestas, Aligeiras seu mal, a mão lhe estendes, Que invergavel d'Astrea a vara empunha, Illustre... Mas que faço? o teu preceito, Tua nobre modestia me prohibe Teu nome proferir porém debalde: Mesmo entre ferros o profere o afflicto, Que de lisonja vil não é suspeito; Perenne gratidão aos astros manda O nome teu, que impresso em nossos peitos, Transmittido será de paes a filhos!... Mais quizera dizer, dissera pouco Por muito, e muito, que dizer podesse: Custa ao vate conter d'alma os transportes: Mas silencio m'impões, silencio guardo.