← Table of contents
Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 11 (de 12)

O NARIZ

Reading edition

Na poesia moderna tem adquirido bastante importancia o nariz.

E, posto que a época vá muito de idealismo, repara-se mais nas ventas que nas faculdades moraes dos personagens epicos.

É certo que o nariz tem servido para formar maximas e aphorismos no regimen social, na sciencia chamada ethica—sciencia de que ninguem falla desde que a educação da mocidade passou a tisica com apparencias de hydropica.

Tudo esdruxulo.

Do nariz inferiram os observadores certos signaes de qualidades do espirito, e formaram anexins e regras que ainda vigoram, e já vem dos gregos, os quaes tambem tiveram nariz—(nira), por anagramma nari.

Em portuguez, ha muito proloquio sobre nariz e ventas.

Camões, querendo indicar a alegria na rubidez de um nariz a reçumar bom sangue agitado pelo jubilo, cantou em termos altos:

Tem vermelho o sangue do nariz.

«Ter cabellos na venta».

«Dar com as ventas n'um sedeiro».

«Não ver um palmo adiante do nariz».

Conhecem tudo isto.

«Nariz de cêra»—a musa dos tribunos, a inspiração dos prégadores, a rhetorica dos romancistas.

«Senhor do seu nariz». Nem sempre. Ás vezes os poetas fazem-nol-o propriedade sua.

«Nariz de palmo e meio»—imagem que exprime a embaçadella—ou, á franceza—o desapontamento. Exemplo: o leitor, no fim d'este bonito trabalho.

«Chegar-lhe a mostarda ao nariz», etc.

O cão tambem collabora nasalmente n'estas analogias: «É sebo em nariz de cão».

* * *

Em cima, disse eu que o nariz tem adquirido bastante importancia na poesia moderna.

Justifica-me um brilhante livro, que está no coronal das modernas publicações.

É A morte de D. João, do snr. Guerra Junqueiro, uma verdadeira flôr entre os espinheiros da nossa charneca litteraria.

D. João VIII, em sonho, os phantasmas das mulheres que desgraçára. Algumas

... que foram lirios juvenis, Já carcomidas pelas larvas frias, Caminhavam sem olhos, sem nariz.

Reduzido a miseravel histrião e cornaca de ursos e dromedarios, D. João

Possuia um nariz vermelho, incendiado.

Não era de certo o nariz vermelho, acceso pelo jubilo, de que falla o Camões.

Mais abaixo, o mesmo D. João, no deplorativo dizer do snr. Guerra Junqueiro,

Cheirava muito a alho E tinha no nariz verrugas biliosas.

Elle mesmo, o escalavrado amante de Imperia, exclama:

Tornou-se-me o nariz esqualido purpureo Por causa das paixões e do ultra-romantismo.

Faz pena o diabo do homem!

E, para fecho de desgraça, quando está nas ultimas,

O seu nariz purpureo É uma esponja de carne a distillar mercurio.

Por onde se vê que a poesia moderna tira grande partido do nariz, já cortando-o, já alongando-o, umas vezes enverrugando-o, outras vezes esponjando mercurio d'elle, consoante lhe convém.

Não é completamente novo isto.

Em Portugal houve sempre esta mania de fazer litteratura nas ventas das pessoas dotadas d'esse orgão com saliencias extraordinarias.

No fim do seculo XVII, galhardeavam grandemente os poetas n'esse genero. Eu, entre os meus papeis, tenho um poema consagrado a um nariz, em que não havia verrugas nem azougue; mas sim uma grandeza magestosa e limpa. Veja o leitor se acha graça a isto:

A UM NARIZ GRANDE Tratava de encarecer-vos; porém logo (ó caso estranho!) vos achei, nariz, tamanho, que não pude comprehender-vos. Que sois nariz tão fatal, em ser comprido, e ser grosso, que n'um reconcavo vosso se escondeu um arraial. Alguem vos chama infinito; mas eu, que em razão me fundo, as quatro partes do mundo sei que são vosso districto. Pareceis cá baluarte dos chinas, bem que o venceis, e com Deus vos pareceis, porque estaes em toda a parte. E um velho da Saxonia diz vos viu mui grande espaço servir, nariz, de compasso da torre de Babylonia. Mas affirma quem se humana mais nas vossas maravilhas, que tendes as trinta milhas da ponte do Guadiana. Que sejaes, senhor nariz tão comprido e tão fatal, que já cá de Portugal cheiraes na Arabia Feliz. Que sois o farol do Egypto que toma de mar a mar, se se póde comparar finito com infinito. E jurou certo moderno (não diga elle algum desmancho) que podeis servir de gancho que tire as almas do inferno. E que, se nos horisontes, nariz, vós nascereis d'antes, escusaram os gigantes de pôr montes sobre montes. Bem podeis, senhor nariz, estar onde mais quizerdes; mas, se ao sol vos pozerdes, fareis logo ser sol-criz. A vós, nariz, o gran monte do Parnaso se assemelha; pareceis arco da velha que toma todo o horisonte. E dizem quatro juizes, segundo a sentença diz, que tiram de vós, nariz, a massa dos mais narizes. Inda que estar queiraes só, vos verão, em que vos pez, que tamanho Deus vos fez como a escada de Jacob. E assenta certo moderno, no que acerta, quanto a mim, que sois sem principio e fim, e que sois, nariz, eterno. Ao arraial do Maluco daes n'uma venta estalagem; e podereis dar passagem de Lisboa a Pernambuco. Para que el-rei se desvela? Se el-rei quer estar seguro, ponha-vos, nariz, por muro entre este reino, e Castella. A vós só, nariz, se deu pena eterna, e gosto eterno; que tendes posto no inferno um pedaço, outro no céo. Ha no mundo narigote, ha nariz, e narigão, houve nariz de Sansão, e nariz de D. Quixote. Sois nariz archi-potente, porque só vós assombraes do Occidente, onde estaes, os narizes do Oriente. D'onde, nariz, presumi chamar-vos gran narigão; porque sei que ha ahi gran Cão, que ha gran turco, e gran Sophi. Se não se póde alcançar nunca a medida do mundo, nem nunca ao mar se achou fundo, vós, nariz, sois mundo e mar. Parece, quando espirraes, (cousa para o mundo nova!) Eolo que sahe da cova com todos os ventos mais. Eras bom n'uma fronteira; que d'essas ventas o vento é pelouro mais violento, que de bombarda, e roqueira. Outros, encontrando a fé, dizem atrevidamente que em vós se salvou mais gente que na arca de Noé. E em fim sois, porque conclua, nariz tão mal ensinado, que vos viram cavalgado então nos cornos da lua. Do sol dizem que enfiava; da lua, que então gemia; e do céo, que estremecia co'o peso que sustentava. Sois mór que a serra da Estrella; porque eu vi por uma venta vossa, na maior tormenta, passar um navio á vela. Esse rosto deshumano onde pôr-vos o céo quiz, chama-se cento-nariz, como o outro centimano. E de quem n'elle vos pôz saber me dera gran gosto, se andaes vós, nariz, no rosto, ou se o rosto anda em vós. Bem que o rosto é cousa rara de maneira que só diz tal cara com tal nariz e tal nariz com tal cara. Da limpeza foreis centro, se vós deixareis entrar cem mil homens, a limpar as furnas, que lá vão dentro. Mas ser sujo não me espanto; pois jámais vos assoastes, nariz, porque não achastes, linho que abrangesse a tanto. Para a India uma nau ia, eis que um peixe se levanta no mar, de grandeza tanta, que a nau á vela cobria. Eram tudo paroxismos na nau, tudo estremecer, quando lhe mandam fazer por um padre os exorcismos. Mandou-lhe n'este comenos o bom padre, que a nau deixe, e o que criam que era peixe, era o demo, quando menos. Entrou-me no pensamento mandar-vos exorcismar, sómente por alcançar se sois nariz, se portento. Que nariz não pareceis; e, pelo rosto em que estaes, a nariz assemelhaes, e no rosto não cabeis. Salvo, nariz, se sois tal, e de tão má condição, que ides comer ao Japão, e purgaes em Portugal. Etc. etc.

Posto isto, em quanto o leitor boceja nos preliminares de um agradavel somno, apresso-me a dizer-lhe que não está no meu animo detrahir nem menoscabar a seita poetica, a hoste da Idéa Nova em que o snr. Guerra é o alferes da bandeira. Gosto do nariz de D. João; e, quanto ás verrugas biliosas e á distillação de licôr de Van-Swieten, prefiro estes narizes pôdres das pessoas afflictas aos narizes de cêra dos litteratos.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings