O DESASTROSO FIM DE DAMIÃO DE GOES
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Não era boa pessoa. Tinha talento, fazia chronicas de reis, escrevia em variados assumptos; mas era mordacissimo, deslinguado, e desluzia as gerações dos seus inimigos com a injustiça propria da sua malquerença.
D. Antonio de Athayde, conde da Castanheira, e valido de D. João III, foi um dos fidalgos mais aggravados.
Uma satyra appareceu na côrte por aquelle tempo, precisamente no anno 1554. Um homem vestido de frade a entregou pessoalmente ao rei.
Diogo de Paiva de Andrade (Memorias ineditas) refere assim o caso:
Um frade capucho, ou, como tambem se disse, pessoa que vestiu aquelle habito, procurou com grande empenho fallar a D. João III, que estava no paço da Ribeira, em occasião que se recolhia a dormir a sesta; e, pelo esforço que fazia em se lhe dar recado, se deu parte a el-rei; o qual mandou entrar o frade. Este se queixou extraordinariamente de um regulo que havia na sua terra, pedindo a sua alteza desaggravasse o opprimido povo; e, acabando de fallar, se retirou, entregando-lhe um papel. Abriu el-rei o papel; e, vendo que era uma satyra contra o conde da Castanheira, D. Antonio de Athayde, ordenou logo fossem em busca do frade; e, por maiores diligencias que se fizeram, não foi possivel encontral-o. Este papel guardou el-rei na sua guarda-roupa, d'onde o pôde haver Damião de Goes que, copiando-o, o deixou junto a um nobiliario, que tinha escripto das familias d'este reino, e d'aqui teve origem, sem fundamento, a seita puritana; porque, depois de descompôr o conde na figura e nos costumes, o infamou na familia, nas seguintes quadras:
Mestre João sacerdote, de Barcellos natural, houve de uma moura tal um filho de boa sorte. Pero Esteves se chamou; honradamente vivia; por amores se casou com uma formosa judia. D'este (pois nada se esconde) nasceu Maria Pinheira, mãi da mãi d'aquelle conde que é conde da Castanheira.
Em outro lanço das Memorias, Diogo de Paiva, reportando-se novamente a este caso que estrondeou n'aquella época, acrescenta:
Damião de Goes, bem conhecido n'este reino por seus escriptos, foi grande inimigo de D. Antonio de Athayde, 1.º conde da Castanheira, e valido de D. João III; porque apparecendo em palacio a celebre satyra contra o mesmo conde, que deu causa á murmuração de Maria Pinheira, Damião de Goes a ajuntou a um nobiliario que tinha escripto;—sabendo-o o conde, o esperou na rua Nova de Lisboa uma noite, e lhe deu com um pau. Augmentou-se de parte a parte a inimizade; e, achando-se D. Antonio de Athayde na casa da India uma manhã, como vedor da fazenda, e Damião de Goes como feitor de Flandres, que havia occupado, ahi se travaram de razões, e o conde lhe deu com umas luvas na cara.
A satyra, que D. João III releu muitissimas vezes, e outras tantas fechou no contador dos seus papeis particularissimos, devia de ser acerba para o vingativo conde, e mortalmente funesta para Damião de Goes.
O leitor, sem duvida, deseja vêl-a, porque, se a não viu manuscripta, com certeza a não encontrou ainda impressa. As tres quadras trasladadas por Diogo de Paiva são as unicas apenas conhecidas dos leitores de genealogias; mas o mordaz poema comprehende sessenta e quatro quadras.
Por não empecer á curiosidade, dou primeiro o traslado da satyra; hão de vêr depois outras cousas importantissimas no caso.