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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12)

SOBRE ANSELMO

Reading edition

Usam dizer algumas pessoas assalteadas por bandidos da imprensa: «Não respondo, porque o insultador é canalha.» Isto é um desacerto. Não ha canalha irrespondivel. Todo o infame que calumnía representa uma parcella da opinião publica. E essa parcella, malevola ou enganada, crê esmagar o calumniado quando o interprete de seus odios ou preconceitos tem no espinhaço a couraça repulsiva do escaravêlho, invulneravel aos bicos da penna e aos loros do látego.

Anselmo é um como isso. E, todavia, eu respondo a um grupo de sujeitos representados na imprensa por Anselmo. Separal-o individualmente, e atagantal-o, isso é que de modo nenhum. O sapo esguicha um pus fetido quando lhe verberam as pustulas do couro. Não se bate em homens d'esta laia, desde que o pelourinho e o açoute foram expungidos da lei.

Convém saber que Anselmo não escreve: assigna. Theophilo Joaquim Fernandes é o tubo intestinal por onde Anselmo estrava a alma excrementicia; ao mesmo tempo que Anselmo é a testa polida (não é tartaruga: finge) em que Joaquim escreve as suas protervias a carvão. Theophilo, o ignorante que eu abafei com a critica risonha, sem lhe impor alçada ás devassidões notorias, resfolga nas iras do outro. É a vingança negra do mais safado caracter que ainda sahiu desembolado ao curro das letras.

No impresso assignado por Anselmo de Moraes encontrei duas aleivosias que me doeram por estar conspurcado n'ellas o nome serio do snr. José Gomes Monteiro, invocado como authoridade no meu descredito. São as seguintes:

«Da cadêa começou Camillo a abrir brecha para a rapina na casa Moré, mandando ahi mostrar um romance de descompostura ao dignissimo procurador regio, que não lhe tolerou certas obscenidades no carcere; o amigo do procurador regio, gerente da dita casa, teve de pagar o romance para poupar um desgosto ao magistrado respeitavel. Ainda não ha muito tempo que o snr. José Gomes Monteiro se refugiou no nosso escriptorio para evitar o encontro de Camillo na loja Moré, que ia alli armar uma escroquerie, com o fim, dizia elle, de pagar uma decima...

«Ultimamente comprometteu a sorte de Vieira de Castro com a sua defeza; explorou a desgraça do amigo com o drama o Condemnado, que vendeu a dous individuos.»

Pedi ao snr. José Gomes Monteiro, antigo gerente da casa Moré, e editor do Condemnado, que se dignasse ajudar-me a interpretar estas deshonrosas referencias a um romance que s. exc.ª me pagára para não ser publicado, a uma fuga de s. exc.ª no escriptorio de Anselmo para se furtar a uma escroquerie; e finalmente á dupla venda do drama O Condemnado a s. exc.ª e a outro simultaneamente.

O snr. José Gomes Monteiro, na volta do correio, respondeu d'esta fórma:

Snr. Camillo Castello Branco.

Meu amigo.

Acabo de receber a carta de v. datada de hontem, incluindo o impresso que Anselmo de Moraes fez aqui circular. Apresso-me em responder-lhe.

O primeiro periodo marcado por v. allude ás Memorias do Carcere cuja editação v. me veio propor em seguida á do Amor de Perdição. Ajustamos a publicação d'essa obra antes de eu ter lido o original, que só no dia seguinte me foi entregue. Li então o manuscripto aonde encontrei algumas expressões que me pareceram offensivas da reconhecida probidade do conselheiro Camillo Aureliano da Silva e Sousa, então procurador regio junto á Relação do Porto. Por este motivo tive de devolver o original a v. rogando-lhe houvesse por nulla a nossa convenção, por isso que eu não podia ser editor de um livro em que de certo por erradas informações, era maltratado um amigo meu, que eu tinha na conta de magistrado integerrimo e de honradissimo cavalheiro. V. veio immediatamente procurar-me e aceitando o meu testemunho como a expressão da pura verdade, confessou ter sido mal informado ácerca da immaculada probidade do meu amigo. Voltou o manuscripto devidamente reformado e v. não se limitando a expungir as phrases que eu havia condemnado, fez generosamente justiça ao honrado magistrado. Publicou-se o livro e elle mesmo dará testemunho da inexactidão do que se affirma no citado impresso, de que eu me vira obrigado a pagar um romance escripto por v. contra o meu amigo para lhe poupar um desgosto.

Confesso não ter guardado rigorosa reserva sobre este incidente, do que sinceramente me peza, visto que a minha indiscrição deu lugar a que os factos fossem desfigurados em desabono de v.

V. não precisa de certo que eu o justifique, nem me justifique a mim de me haver um dia refugiado no escriptorio do signatario do impresso para me subtrahir a um pedido de v. Declaro com toda a ingenuidade não me recordar d'esse grave capitulo de accusação dirigido não sei se a mim se a v. O que afoutamente posso asseverar é que nas muitas transacções commerciaes que temos tido encontrei sempre em v. a maior franqueza e inexcedivel probidade. Não é por isso verdade que v. depois de me haver vendido a propriedade do drama O Condemnado o tivesse subrepticiamente vendido tambem a outra casa editora. É verdade que d'este drama se veio a fazer no Rio de Janeiro uma contrafacção, mas tenho completa certeza de que v. fôra inteiramente alheio a esta fraude, que a falta de um tratado com o Brazil infelizmente authorisa.

V. fica authorisado a fazer d'esta minha carta o uso que lhe convier.

Sou como sempre

De v. etc.

Porto, 25 de julho de 1874.

José Gomes Monteiro.

Apraz-me grandemente o publico testemunho d'esta carta, no momento em que as minhas relações sociaes e commerciaes com o snr. José Gomes Monteiro se desatam. Eu não poderia, sem impostôra inutilidade, fingir-me amigo de s. exc.ª desde que do contexto da sua carta se deprehende que o snr. Gomes Monteiro não se recorda bem se fugiu de mim para o escriptorio de Anselmo. Figura-se-me mais consentaneo ao honesto caracter do snr. Gomes Monteiro negar-se pela palavra a um favor pedido, e não pelo escondrijo no escriptorio de Anselmo a quem, pelos modos, s. exc.ª não disse que nas muitas transacções commerciaes que tivera commigo encontrára sempre a maior franqueza e inexcedivel probidade.

Tirante esta feição mais attendivel do impresso, o remanescente é indiscutivel nos prelos e nos tribunaes. Tenho vergonha das infamias alheias, e respeito os nomes das pessoas que ahi se ultrajam.

No entanto, não me esquivo a tocar dous episodios da minha biographia, que lá vem contados:

Que eu guardara cabras em Villa Real.

Quer o leitor saber onde Theophilo foi esquadrinhar este indecoroso lance da minha vida? Em um livro meu, chamado duas horas de leitura, escripto ha 20 annos. Sou eu que, em uma carta ao meu fallecido amigo José Barbosa e Silva, conto assim o caso das cabras:

«Aos meus dez annos, levantou-se uma tempestade no seio da minha familia. Uma vaga levou meu pai á sepultura; outra atirou commigo de Lisboa, minha patria, para um torrão agro e triste do norte; e a outra... Não merece chronica a outra: arrebatou-me um esperançoso patrimonio. Foi bem pregada a peça, para que eu não tivesse a impudencia de nascer, a despeito da moral juridica, filho natural de não sei que nobre. Disseram-me que uma lei da snr.ª D. Maria I me desherdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente para os filhos do peccado; Denominava-se a piedosa, pela mesma razão que um rei nosso, soprando a fogueira de vinte mil hebreus, se chamou o piedoso... Fui educado n'uma aldêa, onde tenho uma irmã casada com um medico, irmão de um padre, que foi meu mestre. O mestre podia ensinar-me muita cousa que me falta; mas eu era refractario á luz da gorda sciencia do meu padre. Fugia de casa para a serra, dava muitos tiros ás gallinholas e perdizes... O meu gosto era (hic, cabras) pascer o rebanho de casa por aquelles saudosos valles. Todavia, minha irmã oppunha-se a este humilde serviço. Dizia-me cousas que eu não percebia ácerca da minha dignidade, reprehendia os meus baixos instinctos, attrahia ao seu voto o marido e o padre, e cortava-me o rasteiro vôo, escondendo de mim a clavina, o polvorinho, os salpicões, a brôa, e a cabacinha da aguardente. Não obstante, eu pedia tudo de emprestimo, e ia com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia inteiro, sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fragosos, sempre sósinho, scismando sem saber em quê, engolfada a vista nas gargantas dos despenhadeiros.»

* * *

A respeito de cabras, não ha mais nada nos archivos impressos, que eu deva transmittir á posteridade.

Ai! meu saudoso rebanho! Provavelmente, d'este lidar com cabras é que me ficou o sestro e coragem de aparar as marradas de cabrões, como Anselmo.

N'essa mesma carta a Barbosa e Silva, conto eu que ajudava diariamente á missa a cinco sacerdotes. O sarrafaçal deixou escapar o ensejo de dizer ao publico que eu tambem fui sacristão.

E a historia da filha do taberneiro, que me deu um fato novo e uma moeda para eu lhe casar com a filha; e vai eu pego a fugir com o fato e a moeda e deixo a rapariguinha perdida!

Desbragada porcaria!

Ó meus amigos de Villa Real, ou lá d'onde se passou o caso infando! Procurai a miseranda menina; e, se a topardes n'alguma gafaria—derradeira paragem da espiral das perdidas—trazei-a a casa d'este Anselmo para lhe agradecer o pregão que a vinga, e para lá se rehabilitar, vendo-se honesta em contacto com certo exemplo femeal de podridão d'alma e corpo.

* * *

Despedi-me, ha dias, de assignante da Actualidade. Estou arrependido. Devemos todos contribuir com alguns cobres para que Anselmo de Moraes não seja forçado pela necessidade a picar-nos (giria d'elle) o paletó no cunhal da viella da Neta. Em quanto aquelle archi-pulha tiver gazeta, o seu pão, embora deshonrado, garante-nos do assalto nocturno. Não lhe leio mais o jornal; mas dou-lhe a esmola dos 240 reis mensaes. Mande-os receber em quanto a espinha em via de amollecimento me consentir subscrever com seis patacos, a fim de que elle me não liquide a cadêa do relogio.

É verdade: affirma o impudentissimo caloteiro que tem lá uns titulos do saldo de nossas contas.

A fim de que esses documentos appareçam, offereço o seguinte e perpetuo supplemento a todos os numeros da Actualidade:

ANSELMO DE MORAES É RADICALMENTE LADRÃO, COM UM CORTEJO DE TORPEZAS ESPECIAES E RARAS NOS LADRÕES MAIS DESPEJADOS.

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