BIBLIOGRAPHIA
Reading edition
Escriptos humoristicos em prosa e verso do fallecido José de Sousa Bandeira, precedidos da biographia e retrato do author. Porto, 1874.—O berço da liberdade em Portugal foi embalado com as trovas politicas do redactor do Azemel e do Artilheiro. Bandeira é o patriarcha da facecia jornalistica entre nós. A sua graça era da velha escóla de José Daniel e de José Agostinho de Macedo. Não pespontava de delicadeza: ia direita aos beiços do leitor e abria-lh'os forçosamente em casquinadas de riso. Hoje em dia, o riso é mais preguiçoso, quando folheamos estas paginas do livro escripto ha 38 annos. São cinzas, e cinzas esquecidas os estadistas que José de Sousa Bandeira motejou no tumultuoso palco politico de aquelle tempo; todavia, a historia não prescindirá de consultar os Annaes da imprensa da liberdade restaurada, quando houver de assentar de vez os vultos dos grandes obreiros do governo representativo; e, entre todos os archivistas das luctas d'esses dias, José de Sousa Bandeira foi o mais independente e afouto. Custodio José Vieira, talento insigne e apreciador inflexivel dos homens e das cousas, escreveu a biographia do jornalista com quem muitas vezes pleiteou na sua juventude de publicista. É um lavor incompleto, dado que na vida de Sousa Bandeira lhe não esquecessem os lances capitaes. É incompleto, por que as 83 paginas escriptas deviam prolongar-se até completar a historia e o proseguimento da restauração dos direitos civicos em Portugal. Custodio Vieira revela-se, n'este eloquente escripto, historiador severo. No estylo, usa as concisões de D. Francisco Manoel de Mello, e o atticismo dos historiographos que melhormente exemplificaram a arte de narrar. Se elle um dia poder furtar-se aos braços da sua amada e amantissima jurisprudencia (que amores!) póde ser que a historia se preze de brindar os portuguezes com os fastos da sua emancipação.
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No Minho, por D. Antonio da Costa. Lisboa, 1874.—Apenas publicado, divulgou-se o gracioso livro de D. Antonio da Costa, escriptor provado em ramos de variada litteratura. Os Tres mundos foi obra que affirmou os distinctos dotes revelados nos livros anteriores. Este do Minho é o repousar suave de circumspectas canceiras, que asseveram meditação, estudo, espirito reflexivo e capacidade para tentativas avessas do indolente genio portuguez. Escrever 310 paginas ácerca d'estas moutas verdejantes do Minho, sem enfastiar, é condão de quem sabe quebrar com as diversões da arte a monotonia da natureza. E, depois, jornadear por estradas reaes, pernoitar por estalagens urbanas—em que não ha vislumbre de urbanidade, nem sequer misericordia—passar uma noite em Braga, é sentir-se a mais robusta e inventiva alma encodear de uma crusta de estupidez que nos faz pensar que temos no peito uma tartaruga sôrna. Braga, a scintillante esmeralda d'esta manilha de pedras finas que D. Affonso Henriques tirou do pujante braço de Hespanha, Braga seria a querida dos forasteiros de todo o mundo, se as camas das suas hospedarias não fossem alfobres de insectos apteros com seis patas, e hemipteros com azas, segundo Cuvier. Sei que no Indostão ha hospicios em que as pulgas são pensionadas e medicadas nas suas enfermidades. Sei que os indostanicos respeitam o dogma da metempsychose, e se deixam sugar devotamente por ellas; mas nem Braga é Aurengabad, nem eu sou da raça mahratta, nem tenho razões bem assentes para desconfiar que o espirito de minha avó se compraz em me morder no hotel Real de Braga.
Não encontro memoria d'este martyrio no livro do snr. D. Antonio da Costa. Attribuo a omissão á delicadeza do martyr. Ha tormentos tão sujos que o relatal-os em gemidos é indecencia consignada no Compendio de civilidade do snr. João Felix. Se bem me lembro, Boileau cantou a pulga em magnificos alexandrinos; hoje em dia; nem á pedestre prosa se consente rolar uma lagrima sobre a cutis sevandijada por estes e outros carnivoros creados em um dos sete dias genesiacos... para satisfação e proveito do homem.
O meu amigo D. Antonio da Costa, convisinhando do snr. Manoel dos Malhos, que roncava impenetravel ás harpias do hotel, chorou copiosamente no capitulo intitulado: Uma insomnia. Quem sabe se, n'aquella noite, as luras epidermicas da casca de Manoel dos Malhos attrahiram as hordas a desenxovarem n'ellas as suas larvas e nymphas? Eu, n'aquellas estalagens, encontro sempre dous Manoeis dos Malhos, um de cada lado, e os outros bichos no meio.
Formal e substancialmente são admiraveis os capitulos d'este livro, intitulados O Bom Jesus do Monte, Um castello feudal em 1873, A mulher do Minho, e a Ultima impressão. N'estas paginas que fecham o livro reluzem os entranhados desvelos com que o snr. D. Antonio da Costa, ha tantos annos, afaga as criancinhas carecidas da segunda alma da educação. Este capitulo é um obelisco de gratidão publica e amoravel a perpetuar a memoria de D. Maria Francisca dos Santos Araujo, abastada senhora de Leça que fez do seu ouro um quinto evangelho de propaganda caritativa. «Ah, senhora!—escreve o eloquente enthusiasmo do obreiro da instrucção—devem de ser formosos os vossos momentos, quando na escóla que edificastes vos achardes rodeada das meninas que se estão educando no vosso bafo, e não menos quando sahindo d'alli festejada por ellas, ao passardes pelas ruas de Leça, chegarem ás portas todas aquellas mães com as filhinhas mais pequenas ao collo, e fordes vendo todas essas mães apontarem para vós, dizendo alvoroçadas para as crianças: É aquella!»
O livro No Minho está julgado por 1:500 leitores que o já possuem; e, todavia, annunciou-se a excellente obra nos primeiros dias de julho. Não são triviaes estes triumphos em Portugal, repetidos com as mais notaveis producções do benemerito escriptor. Aquelle grave e philosophico livro dos Tres mundos, relido com intelligente ardor e creio que já reimpresso, attesta que renasce n'este paiz o afan do estudo, e o gosto da instrucção solida. Deviamos vir a isto, depois do cataclysmo de palavrorio e marmanjarias com que uns sycambros andaram por ahi a querer derrancar a mocidade. Não póde o illustre escriptor frizar de todo a sua indole peculiar ao genero escoteiro—digamol-o assim—d'estas cousas levissimas e quasi futeis que se escrevem em jornadas de fronteiras a dentro. O modêlo, que Almeida Garrett imitou dos francezes, é um estorvo que desanima. O romance, interposto na viagem, era em 1840 um dôce engodo, e foi grande parte na prosperidade do livro. Estavamos ainda no periodo romantico. A menina dos rouxinoes devia ser contemporanea dos bardos que se inspiravam das proprias cabelleiras á Saint-Simon. Os rapazes d'aquelle cyclo acreditavam em Garrett, e andavam saturados do amor dos Espronceda e Musset.
Hoje, não. O livro do snr. D. Antonio da Costa é, a intervallos, condimentado das grandes questões do dia, da vitalidade regeneratriz que estúa no pulso de todas as forças. Se parte dos leitores o desejam mais futil, ha de haver muito quem assim o estime em dobro. Eu, de mim, achei n'estas trezentas paginas o sorriso alegre, a meditação melancolica, o rebate saudoso de perdidos contentamentos, o estimulo a considerações de porvindouros beneficios a filhos e netos—consolação unica, mas santa, que a Providencia dá aos que não esperam nada da vida presente.
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Phantasias e escriptores contemporaneos, pelo visconde de Benalcanfôr. Porto, 1874.—Ricardo Guimarães, com o camartello do folhetim, derruiu o carroção, no Porto, ha vinte annos. O carroção tinha, por aquelle tempo, dous seculos de moda. Fôra inventado na rua das Cangostas para uso de uma familia obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta familia derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou.
No lapso de duzentos annos, o carroção, parado no largo da Batalha, com a lança vermelha atravessada nas sôgas dos ramalhudos bois, viu passar e desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O carroção escancarou as goelas, e riu da americana, da victoria, do phaetont, do landeau, da caleche, do dog-cart, da tipoia, do coupé, do tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-chaise, do groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna, carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante, arrastado pelos bois que mugiam saudosos da palha-milha que comiam á porta do theatro lyrico, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e regiões visinhas. O milagre não fôra obra de um homem nem de uma geração de espiritos finos. Fôra o estylo de Ricardo Guimarães—o estylo que é a dynamisação de todas as forças, desde a polvora até á dynamite, desde a alçaprema de Archimedes até á machina de Papin. Era uma delicia o escrever d'este rapaz, e outra delicia o modo como entornava no papel os brilhantes paradoxos, as hyperboles ridentes, as metaphoras originalissimas. Era meu companheiro de hotel (que hotel, ó Ricardo!) em 1855. Escrevia artigos politicos de madrugada, na calma, entre meio dia e uma hora, do seguinte feitio: tinteiro e papel no sobrado; elle adaptava-se horisontalmente ao colchão, na postura de quem espreita a profundidade de uma cisterna, descia o braço direito até ao pavimento, e escrevia lá em baixo. Assim tratava Ricardo Guimarães, de bôrco, a politica do Nacional, no soalho, como quem deita migalhas a uma pêga.
Depois, um dia, enfardelou os fraques e os vernizes, os retratos de algumas mulheres formosas e os economistas mais avançados, desdobrou as azas da sua arrojada phantasia, deu um sorriso aos seus amigos, e... adeus! D'ahi a pouco, deputado, esposo, pai. Fez-se um silencio de annos na sua voga de escriptor. Os seus camaradas, que haviam afivelado com elle a espora de cana em algaras litterarias, trajaram luto quando se convenceram que o visconde de Benalcanfôr era o epitaphio de Ricardo Guimarães.
Eil-o que resurge com as feições mais accentuadas, o sorriso menos expansivo e mais hervado de ironia, a graça mais palaciana, a satyra com oculos verdes para que a não acoimem de estouvada, e as antigas imagens de sua invenção com decote que não deixe vêr a curva da espadua.
D'esta reforma, salvou o visconde de Benalcanfôr as facetas resplandecentes do estylo, deveras portuguez na palavra, francez no boleio da phrase—ligação que é uma formosura, quando o escriptor tem a consciencia d'essa difficultosa amalgama.
Tem o visconde publicado os melhores livros que possuimos ácerca de viagens. Este das Phantasias seria aquelle que eu mais encarecesse em quilates de graça e critica, se me não visse ahi tão amigavelmente indulgenciado em onze paginas. Ponderei, gravemente, meu caro Ricardo, n'este livro o teu capitulo, intitulado elogio mutuo. Tu, com certeza, antes queres de mim uma reminiscencia da juventude, que os tardios e quasi inuteis gabos feitos ao teu assignalado talento.
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Bernardino Pinheiro. Amores d'um visionario, romance historico original do seculo XVI. 2 tom. Lisboa, 1874.—Se a linguagem das civilisações adiantadas e os pensamentos de perfectibilidade humana podessem pensar-se e exprimir-se no seculo XVI, este romance do snr. Bernardino Pinheiro corresponderia, cabalmente, á qualificação de historico. A illusão desfaz-se a cada pagina, sempre que os personagens entendem na questão do progredir social. Que Antonio de Gouvêa, o heroe do livro, depois de ouvir, na Europa litteraria e convulsa de reformas, as theorias dos adversarios do papa e do dogma, propagasse idéas e palavras novas em Portugal, é possivel; mas que a freira do Salvador, e D. Margarida de Lencastre, e a escrava liberta discreteassem tão eloquentes e progressistas ácerca dos direitos do homem, da emancipação do escravo, da liberdade do pensamento, repugna aceital-o a razão, posto que de bom animo nos affeiçoemos á vehemencia e esplendor d'essas phrases intempestivas.
Mulheres illustradas, se as houve em Portugal no seculo XVI, são umas que o snr. Pinheiro nos mostra em um dos admiraveis capitulos do seu livro. As paginas descriptivas de Uma academia feminina do seculo XVI quadrariam em livro da mais selecta historia do reinado de D. João III. Alli estão as Sigéas, que não gozam fama de pudentissimas escriptoras, se um poema erotico as não calumnía. Pois, n'esses completos moldes que o snr. Pinheiro nos deu da sciencia feminil, está o maximo, o ultimo estadio do alcance intellectual da mulher. Soror Maria, a monja que, de escrupulosa, não ousava erguer o véo a sós com o amante, revelou incapacidade para discorrer tão liberrima, na carta a Gouvêa, ácerca das regalias do coração. Escrevendo ácerca de uma visionaria, diz a freira ao seu amado: «Os espiritos convictos são logicos. O fanatismo tem as suas leis fataes—e, por vezes, posto que raras, felizes...» E acrescenta com intelligente ironia: «Que enormissimos criminosos que nós somos:—amamo-nos, e acreditamos no evangelho puro!... Quando serão no mundo livres o pensamento e o amor?!»
A freira em 1548, podia delinquir porque era mulher; mas não saberia desculpar o seu delicto com argumentos d'aquella natureza. E soror Maria, se tivesse no corpo o demonio incubo da philosophia, quando abriu a porta da cerca monastica ao amante, sahiria por ella, em vez de, colhida em flagrantes amorios, pedir misericordia á mestra de noviças. Teria feito o que fez depois, independente de luzes que lhe mostrassem a nullidade e tyrannia dos votos de reclusão, castidade e pobreza.
Esta macula é resgatada por nitidissimas paginas que manifestam o historiador avantajando-se ao romancista. O capitulo XVIII (Illustrações em Coimbra) é labor bastante a graduar um espirito culto na convivencia dos varões insignes do seculo XVI. A disposição do grupo é magnifica. Alli se admiram os luzeiros que chammejaram á volta da alma negra de João III e não vingaram esclarecel-a.
O quadro do auto de fé em que Antonio de Gouvêa é salvo da fogueira pela cohorte dos escravos, é tão vigorosamente desenhado quanto inverosimil. Os frades de S. Domingos não se deixavam embair por tretas nem sancadilhas á sua credulidade, quando queimavam herejes da laia de Gouvêa. Não obstante, esse trance, pelas commoções que produz, dispensa-se dos realces da naturalidade.
Em summa, Os amores d'um visionario é um livro que merece graduar-se entre os bons romances portugueses, tanto pelos predicamentos da imaginação, como pelo subsidio de historia que presta ás pessoas desaffectas a demorados estudos.