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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)

UM BAILE DADO A JUNOT, EM LISBOA

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Os monographos da invasão franceza em Portugal não descrevem nem ao menos citam o baile dado a Junot, no theatro de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808.

Esta omissão, de nenhuma importancia ao primeiro aspecto, significa o receio de ferir as pessoas que assistiram ao obsequio prestado ao general de Napoleão. O resguardo era racional, quanto aos noticiaristas coevos do baile; mas hoje em dia a deferencia é escusada, visto que os filhos e netos dos jacobinos de 1808 se prezam de procederem dos homens mais liberaes d'aquelle tempo.

Ao baile de S. Carlos concorreram familias da mais selecta sociedade da capital, e muitas lá não entraram por falta de convite ou carta de admissão, difficil de obter. Entre outras de menos porte, avultavam as familias dos condes de Almada, de Sabugal, da Ega, de Peniche, e de Castro Marim; de D. Francisco Xavier de Noronha, dos desembargadores Lucas Seabra da Silva, Manoel Nicolau Esteves Negrão, e Abreu Girão; dos marquezes de Abrantes, Marialva, Penalva e Valença; concorreram alguns bispos e principaes da patriarchal.

A fim de avaliarmos as curvaturas abjectas por que passou o escol da fina sociedade n'aquelle baile, vamos vêr que as cortezias foram de antemão promulgadas como decreto, e rubricadas pelos generaes Brenier, Thiebault, e Margaron.

O programma foi enviado na lingua do conquistador ás familias duas vezes conquistadas, quando não eram tres, como certas condessas e viscondessas respeitaveis por sua fragilidade e amor cosmopolita. Um curioso contemporaneo, bem ou mal, traduziu, e acertadamente guardou o programma, tal qual se offerece aqui aos espiritos de boa fé que nos estão apregoando sempre o patriotismo de nossos avós:

«ANNUNCIO

«A funcção, que o exercito francez de Portugal dá ao snr. duque de Abrantes, quarta feira 8 de junho, consistirá em um baile de ceremonia.

«Esta funcção se fará na sala do theatro de S. Carlos.

«As pessoas mais notaveis das differentes classes do reino serão convidadas por convites pessoaes, e que servirão de bilhetes para a entrada.

«Entrar-se-ha pelo peristillo grande, e vir-se-ha alli dar pela rua de...

«As senhoras convidadas serão recebidas pelos mestres das ceremonias, que lhes darão a mão até ao seu lugar.

«M.mes Thomières, Trousset, et Foy, farão as honras do baile.

«As pessoas convidadas para a funcção, como tambem as que tiverem alcançado camarote, virão das 7 horas até ás 10 da noite.

«Chegando s. exc.ª ao theatro, será recebido pelos snrs. officiaes presentes á funcção, os quaes irão adiante d'elle até ao peristillo de baixo.

«S. exc.ª ao entrar na sala, achará todas as senhoras convidadas sentadas nas frizas em bancos, ou cadeiras, o interior da sala estará vazio, e os homens encostados todos ao pano da bocca do theatro.

«No instante em que elle apparecer, se ouvirá uma musica guerreira, e todas as senhoras se levantarão para lhe agradecer o seu comprimento.

«Assentado que seja s. exc.ª, a orchestra executará a cantata composta em seu louvor; acabado este pedaço será s. exc.ª convidado a dar volta á sala, e depois tomar-se-hão as suas ordens para a primeira contradança, que se dançará só, e que estará composta d'antemão.

«Esta contradança será só de quatro figuras. Immediatamente depois começará uma contradança franceza com tantas quadrilhas, quantas o lugar permittir.

«Cada uma d'estas quadrilhas será de quatro pares e de seis figuras.

«Seguir-se-hão as contradanças, as valsas, e as inglezas.

«Quanto ás inglezas, para que todos os pares dancem sem as prolongar demasiado, ellas começarão ao mesmo tempo pela cabeceira e pelo centro das columnas, e durarão até ao ponto em que os ultimos pares da cabeceira e do centro tiverem dançado; o que observarão os snrs. mestres das ceremonias.

«Se houver duas columnas, as senhoras estarão sempre dentro do circulo.

«As inglezas e as valsas serão dançadas sem escolha de lugar; o que chegar ultimamente se porá depois do que lhe tiver precedido.

«As contradanças francezas não se poderão dançar senão com bilhetes, o que torna impossivel ter-se feito antecedentemente algum ajuste.

«Os mestres de ceremonias, que não dançam, serão encarregados d'esta distribuição, e terão o maior cuidado em fazer que successivamente dancem todos os cavalheiros e todas as senhoras; as quadrilhas terão além disto dous mestres do baile, para dirigir as figuras.

«Depois da quadrilha, da valsa, da inglesa, que acabará ao rodar da meia noite e meia hora, os snrs. commissarios convidarão as senhoras a sentar-se, os cavalheiros as conduzirão para a porta da entrada, e o interior da sala ficará inteiramente vazio.

«Feitas estas disposições, se levantará o pano, o mordomo passará por entre as abas da tenda, e dará parte, que a cêa de s. exc.ª está prompta; logo as abas da tenda se levantarão, s. exc.ª abrirá a marcha, precedido por um dos generaes commissarios que lhe mostrará o seu lugar.

«Todas as senhoras serão conduzidas pelos cavalheiros; as que não poderem sentar-se á mesa serão servidas na sala. Á mesa não haverá homens, senão os que tiverem sido designados pelos commissarios, e a quem isto tiver sido participado pelos mestres das ceremonias.

«Acabada a cêa, entrar-se-ha na sala do baile em uma ordem inversa da em que tiverem d'ella sahido, e a tenda se fechará.

«Levantada a mesa da cêa, se porão no seu lugar mesas de jogo; a tenda se tornará a abrir, ficando assim maior a sala do baile.

«Quando s. exc.ª se retirar será tornado a conduzir á sua carruagem pelos snrs. officiaes, que o receberam.

«Os generaes commissarios

«Brenier, Thiebault, Margaron.»

Este Junot foi tão desmedido ladrão em Portugal que nem propriamente os francezes lhe disfarçam as manhas. A historia de França parece envergonhada quando roça pelo nome infamado do duque de Abrantes. Principiára valorosamente a sua carreira militar, como simples granadeiro de voluntarios. De Lisboa sahiu locupletado e cobarde. Na campanha da Russia, em 1812, contribuiu com o seu indolente sybaritismo para a completa queda de Napoleão. Em 1813 ensandeceu, precipitou-se de uma janella, e morreu da queda.

Malè parta malè dilabuntur. Esbanjou a opulencia roubada, e legou aos filhos e á viuva o nome deshonrado, e uma quasi indigencia. A duqueza, fallecida em 1838, vivia de escrever, e não escrevia sem graça. No lardo das anecdotas nuamente contadas, consistia o merito das suas variadas Memorias, Scenas da vida hespanhola, e Salões de Paris.

Do duque de Abrantes ficaram quatro filhos legitimos. O primogenito, Napoleon-Audoche, duque de Abrantes, confirmado no titulo por Luiz XVIII, seguiu a carreira diplomatica, que descontinuou em resultado de vergonhosos processos. Fez-se litterato, abastardou-se na vida dos camarins theatraes de baixa estôfa, e morreu pobremente em 1815.

Succedeu-lhe no titulo seu irmão Alfred-Michel, que havia nascido em Hespanha, por 1810. Foi capitão de estado-maior, ás ordens do general Mac-Mahon, em 1848. Militou na Africa, e ahi mereceu as divisas de «chefe de esquadrão.» Em 1854, era ajudante de campo do principe Jeronymo-Napoleão, e a 24 de junho de 1859 morreu de ferimentos na batalha de Solferino.

Josephina Junot d'Abrantes entrou em 1825 na congregação das irmãs de caridade, voltou aos salões em 1827, casou em 1841 com um tal Amet, empreiteiro de carroças, fez-se escriptora de obras moraes, e vivia ainda em 1861.

A ultima filha d'este mal sorteado casal chamou-se Constance, casou com Louis-Aubert, redactor do National e prefeito da Corsega em 1848. Tambem foi escriptora de artigos de modas em diversos periodicos. Fundou as Abeilles parisiennes ha vinte e cinco annos; e, sem ter grangeado colmêas de louises com as suas abelhas, morreu pobre como seu pai, como sua mãi, como seus irmãos.

O roubado não luz. Outros dizem que luz. Os ladrões é que sabem.

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