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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)

O MANOELINHO POETA

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Cumprindo a promessa do numero antecedente, dou traslado da Representação metrica, enviada a Philippe IV de Castella pelos conjurados de Evora. Onde o sentido das allusões rebuçadas me parecer menos obvio, aventurarei algumas notas explicativas que o leitor versado emendará, se as achar mal entendidas.

A EL-REI NOSSO SENHOR Senhor, vosso Portugal, de vossos paes estimado, e sempre d'elles tratado como amigo tão leal, hoje, em miseria fatal, está pobre e lastimoso; e o governo rigoroso, que tanto o tem perseguido, lhe nega, sendo offendido, o allivio de ser queixoso. N'esta dos tempos mudança, n'esta da sorte dureza, na mantuana princeza tinha librada a esperança. Em fim, chegou; mas alcança que já esperar não convém; pois tão ruins lados tem n'este imperio desigual, que só póde fazer mal, e não sabe fazer bem. Algum que este povo unido desejára apedrejado, e em fim foi d'aqui lançado a todos aborrrecido[7], de novo agora admittido exerce imperio violento; que, para commum tormento, n'este governo acontece que o que castigo merece agora é merecimento. Este, agora, por fartar-se de tyrannias, é tal que governa Portugal como quem só quer vingar-se; pois não só quer odiar-se c'os naturaes; mas tambem, sem ser justiça, dotem aos estrangeiros no mar, até mandar-lhes queimar o proprio barco em que vem[8]. De dous bachareis se informa mui diversos na nação[9], O Salazar e o Leitão[10] que só differem na fórma; só com estes se conforma: vêde o effeito qual será; porque um e outro está sinalado com deshonra[11]; e quem não guarda sua honra como a vossa guardará! Este ministro cruel em tudo se intromette. Olhai que cousas promette junto co'o hollandez Sinel! N'estas almas de pichel tudo póde e tudo manda. Ai! do reino, pois tal anda o governo portugues que se vai de um hollandez contra os rebeldes de Hollanda[12]. Este, pois, governo errado, para poder conservar-se, trata de perpetuar-se em dous polos estribado. Mas, ai! que está mal fundado em tão perversa doutrina; que onde a ambição domina é sempre o imperio violento, sendo aos filhos fundamento o que aos paes foi ruina! Porque aquelle pai que eu sei por infamia e por traição até quarta geração foi julgado pela lei; d'este um filho (ó alto rei!) sacrilego bispo é![13] Outro, digno de galé, excluso já por bargante da companhia triumphante assiste a julgar a fé[14]. Vêde como a julgará quem sempre sua fé quebrou; e o que só vicios guardou como ovelhas guardará! Grandes simonias ha, senhor, n'estes provimentos! Examinai os augmentos dos que medram com ambição, por que eu sei bem que não são taes os vossos pensamentos. E, por não parar o extremo, d'estes o mais vil ladrão bebado, torpe e bufão é secretario supremo! Com que a vosso reino temo, senhor, grandes precipicios; pois não só vendem officios a inuteis, fracos judeus; mas vendem a honra de Deus e seus santos beneficios. Que muito! se, nos sagrados dormitorios de Enzobregas, provocou a acções bem cegas ao seu rancho e aos seus prelados! E, para os vêr profanados, certas gaitas ordenaram, com que todos celebraram a bacchanal, suja prole; e foram gaitas de folle porque os odres não faltaram[15]. E quem isto faz, senhor, como é possivel que possa conservar em graça vossa do vosso reino o melhor! E não é damno menor affirmar-vos sem vergonha que é parente do Noronha por lhe roubar o que tem, e com malicia tambem, que está doudo vos proponha. Pois aquella rica prenda n'este reino sentenciada, por grande Caco lançada do tribunal da fazenda! Não me espantarei que venda por baixo preço a valia da patria e da monarchia, pois, nas mudanças que faz, falso traidor e sagaz toda a sua esperança fia[16]. Senhor, estes inimigos são dos melhores sujeitos que não permittem seus peitos conservar sabios amigos. Crêde que em grandes perigos vos hão de precipitar; e sirva-vos de exemplar tantos reinos assolados porque foram governados de homens de baixo solar. É um em tudo guiado de um forneiro mecatrefe; de um pendolista bodefe é o outro governado. Serão suas razoes de estado sempre tisnadas e feias qual corre o sangue nas veias; fazei d'estes expulsão, que um é corrêa de cão, o outro cão para corrêa.[17] Com vossos poderes regios estes traidores astutos torcem vossos estatutos, quebram nossos privilegios. Não faltam homens egregios para governar melhor. Informai-vos, vós, senhor, que não falta quem mereça, quem fiel vos obedeça, quem sirva com mais amor. Assim, para commum damno, e para proprios proveitos convém que busquem sujeitos para o governo tyranno; de sorte, que n'este engano, viveis, senhor, offendido, e d'este reino esquecido; pela divina verdade, que não ha perpetuidade no reino que é dividido. Falta um justo conselheiro que por commum liberdade ante vossa magestade vá com zelo verdadeiro, qual o grande cavalleiro Egas Moniz em que igual foi valor e zelo tal, que, vendo a patria opprimida, arriscou a propria vida pelo bem universal. N'esta universal fadiga, quem manda, fallar não deixa; pois até do pobre a queixa como culpa se castiga. Pois como ha de haver quem diga que a tyrannia insolente inda fallar não consente! E nossa fortuna quiz que se sinta o que se diz; mas ninguem diga o que sente. Em fim de tanta crueldade vos avisa o reino junto, Portugal que, por defunto, se atreve a fallar verdade. Vossa altiva magestade mostre agora seus poderes; que, entre tantos pareceres, qual póde o governo ser, se, á conta d'uma mulher, governam tantas mulheres!

Manoelinho o fez com approvação do senado todo junto.

Comparando o torneio e estylo d'esta poesia com as que tenho impressas dos poetas d'aquelle tempo, é muita a semelhança que corre entre ella e os poemetos de Duarte Ribeiro de Macedo, que foi melhor prosador.

[7] Diogo Soares, secretario dos negocios de estado, fazenda e justiça.

[8] Successos occorridos com embarcações francezas.

[9] Nascimento.

[10] João de Frias Salazar, desembargadar do paço, e o dr. Francisco Leitão, o Guedêlha de alcunha, de quem dá larga noticia a romance intitulado O Regicida.

[11] Dr. Leitão, era filho de uma notoria meretriz, e havia casado com outra, a celebrada Vicencia, filha de uma certa Barbara, alcaiota da rua dos Cabides.

[12] A historia escripta não nos esclarece a obscuridade da allusão.

[13] D. Sebastião de Mattos e Noronha, áquelle tempo, bispo de Elvas; hespanhol de nação, e um dos governadores do reino, em quanto o duque de Bragança, exaltado ao throno, não chegou de Villa Viçosa. Morreu, como conspirador, no carcere da torre de S. Gião.

[14] O inquisidor D. Francisco de Castro, um dos conspiradores contra a revolução de 1640, perdoado e reposto no seu officio por D. João IV, em premio de delatar os seus cumplices.

[15] Não posso rastrear a satyra, se ella entende com Miguel de Vasconcellos. Póde ser que n'esta copia falte a decima que prendia com o caso picaresco de Enxobregas. Presumo, pelos versos seguintes, que o satyrisado seria o bispo de Elvas, D. Sebastião de Mattos.

[16] Francisco de Lucena, apedrejado pelas regateiras do Porto, em 1628, como executor do tributo das maçarocas; secretario das mercês de Filippe IV em 1638; secretario de estado de D. João IV em 1641, e degolado, como traidor, em 1643. Da sua innocencia diz D. Luiz da Cunha na sua conhecida Carta a D. José I: «... Conhecendo elle (D. João IV) a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a corôa na cabeça, por que lhe era devida, a fim de que se não julgassem credores de grandes recompensas.» Veja o romance historico O Regicida, pag. 227, onde se imprimiram pela primeira vez os conselhos de Francisco de Lucena a D. João IV, que lh'os pagou briosamente.

[17] Não pude attingir as referencias.

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