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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)

CARTA A RESPEITO... D'AQUELLA COUSA

Reading edition

Agradeço-lhe, meu amigo, a remessa da Moleira que o lacrimavel Silva Pinto distribuiu impressa no theatro da Trindade. Devo á solicitude de v. o conhecimento d'este papel, e a occasião que me facilita de pedir ás pessoas que leram o n.º 6 das Noites de insomnia hajam de me desculpar das expressões menos limpas com que offendi o decôro das letras. Ha muitos annos que eu, forçando os impulsos da indole, algum tanto caustica, á submisão imposta pela idade, tolerava allusões injuriosas com a mais dolorosa conformidade. Quando, porém, vi que os admiradores do snr. Theophilo Braga abusavam do silencio dos velhos como de ignorantes vencidos e cobardemente resignados, fez-se mister de algum modo avisar estes homens, dar-lhes um pequeno abalo ao seu orgulho, fazer-lhes até sentir que as suas reputações litterarias estão assentes em bases pouco solidas. Os termos desabridos que usei com o pobre Silva, na verdade, sahiram-me immoderados. O homem era mais pequeno do que eu cuidava. Enganou-me. Pensei que fosse mais mau que tolo; e, n'essa allocução á opinião publica, vi com tristeza que elle é, no rigor do vocabulo, um desgraçado que, estourando por dentro, todo o hydrogeneo sulfurado lhe subiu aos miolos. É uma doença que, se espirrasse para fóra, todo homem communicavel com Silva devia de andar ensopado em agua de Labarraque.

N'este papel, que v. me envia, diz elle que me escalpellisa com o maximo socego, e que eu estou desesperado. Podéra não estar! Tomára eu que Silva se calasse, a vêr se me despeno d'estas afflicções em que elle me traz. Escalpellisa-me! Vê? Do escalpello á faca de ponta a differença está em algumas pollegadas de aço. O instrumento das glorias de Bichat, posto em mãos de Silva, assusta-me como se lampejasse nas de Cartouche. Ó Pinto! ó carnifice! já sei que garotêas na rua de Santa Catharina, e te alapardas no antro n.º 335. O chefe da esquadra vigia-te a rogos do meu pavor!

Elle diz ao publico:

Que discute pelo desejo de formular um protesto, etc.;

Que adiante formúla observações, etc.;

Que tem testemunhos de sympathia publicamente formulados, etc.;

Que o disparate só um leitor assiduo, etc., ousaria formulal-o, etc.

Formúla tudo. Este abuso da fórma denuncía costella de sapateiro. Quem te reformulára os aleijões a tirapé, Pinto! Pinto falso!

Diz que não me ameaçára na minha vida privada. (O privada é elle e d'elle. Eu escrevi vida particular. Não lhe quero maior castigo que a vergonha ante si mesmo de substituir cavillosamente palavras para amanhar um gracejo sujo). Não ameaçou?! Annunciou na Actualidade um livro escripto por um collaborador, e prometteu dar extractos na folha. Que queria dizer isso?

Diz que não escrevêra a local da trilogia, nem a outra ácerca do Castellar, nem a da cacophonia.

Então havia outro sandeu de igual marca no jornal? Que parelha de asneirões! Pelos modos aquelle escriptorio de redacção era uma estrebaria! Se os dous coexistem, são os meninos-siamezes da estupidez; mas o outro desconfio que é elle.

Falla de uns meus contractos litterarios com o snr. Anselmo de Moraes.

Ahi vai, com nojo e brevidade, a historia d'estes contractos já babujada pelo dos Musicos, e não sei por quantos da quadrilha.

Este Anselmo de Moraes procurou-me, ha seis annos, para me propôr a redacção de um periodico semanal, que se chamou a Gazeta litteraria. Aceitei. O contracto estabelecido foi que elle me pagaria a redacção por columna; e, imprimindo em livro os artigos do periodico, me compraria, á parte, a propriedade do livro. Pagou-me oito numeros, e deixou de me pagar os restantes. Neguei-me a escrever o n.º 17, quando a divida montava a 70$000 reis, e eu já tinha pago de minha algibeira a um collaborador, o talentoso Delfim Maria de Almeida. O periodico terminou.

Não lhe pedi o estipendio do meu trabalho, porque seria baldado pedir-lh'o, como havia acontecido ao estimado escriptor lisbonense Andrade Ferreira. Esperava eu, todavia, resarcir-me com a propriedade dos meus escriptos, publicando-os em livro; mas o snr. Anselmo de Moraes, esbulhando-me d'este recurso, editorou os artigos em volume, e os pôz á venda com o titulo de Mosaico e silva de curiosidades historicas, litterarias e biographicas, precedidos de um prefacio, attribuido ao snr. Theophilo Braga, onde se diz, pouco mais ou menos, que o author dos taes escriptos, sentindo a imaginação fatigada para o romance, se soccorre d'aquelle genero. Era, ao mesmo tempo, espoliação e descredito.

Assim que tive noticia d'esta... irregularidade (pacato synonymo de maroteira), constitui procurador que impedisse a venda dos livros, cuja propriedade me pertencia, e se apossasse da edição que se achava na casa Moré, se bem me recordo. O snr. Moraes levou d'este acto judiciario aggravo para a Relação, a qual decidiu que se entregassem os livros ao editor, fundamentando o accordão em que eu permittira a publicação do livro. Quem duvidára que eu permittira a publicação do livro? O que eu não queria consentir era que o snr. Anselmo de Moraes m'o não pagasse.

A acção judicial foi erradamente posta. Eu devia, em vez de fazer arresto por fraude, requerer arresto por calote.

Paguei as custas, e desisti de nova acção para não pagar outras; porque o snr. Anselmo era insoluvel. Ahi está a historia.

Falta dizer o conceito em que tenho o proprietario da Actualidade. Salvo melhor juizo, é um traficante na pessima accepção da palavra; mas tão parvo que me açula os seus mastins, devendo açamal-os em tal assumpto, se tivesse juizo, vergonha e consciencia.

Mas, tornando ao outro:

Pinto diz que eu o ameacei. Eu! Que me chamasse entidade escura, leproso e ignorante, perdôo-lhe porque é verdadeiro, menos no diagnostico da lepra; mas escrever que eu lhe dirigi ameaças, é peta que talvez me obrigue a matal-o uma d'estas bellas noites na rua de Santa Catharina, n.º 335, 1.º Ando á cata da arma, da unica arma idonea para tal burricidio: é um gato morto e putrido. Em quanto não topar o gato, Pinto póde sacudir a juba aos quatro ventos do céo.

A proposito de juba, dizem-me que elle exhibe uma guedelha king-charles ou á Ferré, o petroleiro. Perguntaram-lhe ahi no Porto porque não se tosquiava.--Já viu leão sem juba?--respondeu elle.--Nem urso sem pello--redarguiu o outro.

Figados e bofes de petroleo tem elle. Foi a Hespanha offerecer aos communaes o seu... estomago. As manhas que lá o sustentaram hei de pedir authorisação a um cavalheiro de Madrid, muito querido dos portuguezes, para as contar á Europa. Pinto percebe-me. Não são factos da privada, são da vida publica, vida de vergonhas que nos a vexam lá fóra. Na volta de Hespanha, repulso de Lisboa, despejou-se no Porto, e cavalgou Anselmo, ou Anselmo a elle--é ponto controverso.

Era aprendiz de caixeiro, em casa do snr. Anjos, se me não engano, em Lisboa. Um dia foi atacado da pestilencia das piadas. Entrou a arder em febre de asneiras. Em seus rábidos delirios, espumava injurias. Houve um innocente que o desafiou.--«Eu não me bato, insulto!»--respondeu o alentado cobarde. Moeram-no. Podéra!...

Este homem, na sua miseria, é um exemplo salutar á mocidade. É como o bebado nos festins da Laconia.

* * *

Meu amigo, faz-me o favor de pedir novamente perdão á opinião publica? Vá-se habituando a pedir perdão todos os mezes.

Sou, etc.

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